Utopia sem Escalas

O Grande Motor

A análise da realidade pelo grande projeto racional ocidental padece de um vício fundamental. Quando o conhecimento sobre cada domínio era escasso e evoluía lentamente, os pensadores podiam se permitir uma visão, ou a busca de uma visão de totalidade; no entanto, o conhecimento era escasso. Ao construir e erguer cada vez mais o edifício da ciência, este passou a ter uma infinidade de departamentos, chegando ao ponto em que o conhecimento é abundante, mas fragmentado; perde-se de vista de que há níveis de análise da realidade e não níveis de realidade distintos. Quando este projeto juntar todas as pontas soltas – e é incrível o que cada campo individual tem alcançado – a estrada estará pavimentada para que o Homo sapiens atinja de fato uma nova consciência, não por iluminação mística, mas por jogar por terra as mistificações que a têm impedido.

Marx é mais odiado do que lido, e este autor confessa que conhece suas ideias de maneira indireta; mas basta um nível superficial para esta argumentação (extrair e integrar o essencial de cada disciplina é exatamente o procedimento proposto). Sua teoria prevê o materialismo histórico, que é basicamente o conceito de que, por oposições de forças dialéticas, a História seguiria um grande mecanismo determinístico que, na visão dele, conduziria a um estágio final na forma de uma sociedade comunista.

Se pensarmos que as sociedades humanas são compostas de organismos humanos, é um erro grave pensar as esferas social e histórica dissociadas da biologia. Façamos um experimento mental de sermos alçados à estratosfera, donde observamos os humanos construindo torres e atacando outro povo: é o mesmo que um jogo computacional de simulação de civilizações. Pois é o que somos, personagens no jogo real, e a programação não é um software, mas nosso código genético. Some a isso o fato de que as linhagens genômicas de qualquer mamífero são matrilíneas, e surge um bom candidato a “motor da História” na organela chamada mitocôndria, que carrega essa herança genômica.

A partir daí, é preciso muita desonestidade para não perceber que o capitalismo, desde suas formas incipientes, sempre dependeu do patriarcado, do controle da mulher. Se você controla os úteros, garante a riqueza futura de sua linhagem. O capitalismo é um esquema de pirâmide espalhado no espaço e no tempo; as melhores oportunidades vão sempre depender da sua genética, por herança, compadrio e exclusão racista. A riqueza nunca esteve tão concentrada, e na mão de… homens brancos. Ocorre, no entanto, que uma linhagem em que ocorre muita endogamia tende a degringolar, e o quadragésimo quinto presidente do país sede do imperialismo capitalista parece se esforçar em provar exatamente isso. A medicina já aponta que as pessoas de genética europeia/caucasiana são as que mais têm doenças sistêmicas.

Parece perfeitamente crível, então, que prosseguindo esse processo, não só a genética dos super ricos se enfraquece, mas o jogo de mistificações do qual depende tal esquema de pirâmide, uma série de noções que, não sendo naturais, são tornadas dogma, como a fé monoteísta e o credo capitalista, tendem a se enfraquecer também, pela maior possibilidade de disseminação de informação e pelos avanços científicos. As mistificações podem ser reduzidas a um mecanismo: obrigar as pessoas a viver com medo; de um Deus punitivo e do prospecto de cair na penúria numa sociedade em que cada um cuida de si, daí a necessidade de “ganhar a vida”, ou seja, entregar sua energia vital para a pirâmide a troco da sobrevivência, ou quem sabe até um extra para consumo desnecessário. De qualquer sorte, à medida em que a fé na pirâmide se erodir, será apenas natural uma reacomodação das relações de troca, e a construção de uma nova sociedade não competitiva, não imperialista, usando as ferramentas tecnológicas desenvolvidas pelo e para o capitalismo. Não me surpreenderia se alguém provasse que isso está previsto nas leis da termodinâmica.

 

Epistemologia Telescópica

Não os vejo há muito tempo, mas há um utensílio, projetado para acampamentos certamente, que é um copo telescópico: partindo de um cilindro achatado, você puxa para cima a parte externa e descobre que o objeto é composto de cilindros concêntricos que vão se empilhando até travar no formato de um copo. Acionada uma alavanca, o copo colapsa em um cilindro novamente. Esta é a imagem que pretendo usar.

O arcabouço epistemológico da “civilização ocidental” é como esse copo: um conjunto de camadas que quase nunca se entendem. A ideia é que com o progresso de cada área específica, progrida também uma noção de totalidade que faça todos os estudos funcionarem em uníssono, “colapsando” assim em um objeto que ponhamos na bagagem e sigamos adiante, usando esse utensílio quem sabe em expedições para conhecer a Mãe Gaia tentando experimentar em vez de analisar. Com tudo suficientemente explicado, basta viver, e viver melhor: o progresso e a integração do conhecimento não darão margem a qualquer das mistificações de que depende o poder. Espera até que uma geração inteira não cresça exposta às mentiras de sempre!

E por que não o telescópio ele mesmo como imagem? Porque o telescópio é útil quando estendido em vários segmentos. Não que a visão fragmentária não tenha ajudado, mas agora é hora de, tendo visto longe, guardar o telescópio e brincar com as crianças.

 

Retroalimentação Semântica e Máquina do Tempo Holográfica

Em um texto prévio, propus a ideia de um mecanismo biológico da História. Há um elemento faltante na equação, no entanto; uma importante engrenagem nesse mecanismo: a semântica. Não somos apenas nossa informação genética, nós deixamos registros, ao contrário de qualquer outro organismo vivo (a menos que novas pesquisas descubram que tal característica não nos é exclusiva). Isso significa que os humanos que vivem hoje têm disponíveis a eles informação semântica do passado, começando com pinturas rupestres até livros, páginas de internet, filmes e música escrita. O que leva ao corolário de que combinamos informação genética e semântica. Mas a informação semântica vem de indivíduos que tinham sua própria informação genética e foram expostos a sua informação semântica em seu tempo. Deve ficar claro que enquanto a informação genética se recombina e progride no tempo, a informação semântica é realimentada no sistema. Segue naturalmente que essa informação semântica pode apresentar crescimento exponencial. Esse processo permite o acúmulo de conhecimento através das gerações, e em um ritmo que se acelera, o que é demonstrável. O mesmo vale para informação que vai contra o fio do conhecimento, ou seja, obscurantismo, um processo que dificilmente necessita de argumentação quando o fundamentalismo religioso grassa em tal estágio de nosso desenvolvimento como espécie. Deve-se acrescentar que antes do advento da escrita a transmissão era oral, portanto linear e sem possibilidade de realimentação.

 

Vamos um passo além. Para isso, exporei brevemente um conceito que, mesmo que não seja estritamente necessário aqui, e consista em Física teórica especulativa, provê ao menos uma imagem apta para minha argumentação. Ele vem do artigo de Steven Rosen, “A Neo-Intuitive Proposal for Kaluza-Klein Unification”: o universo está constantemente fabricando a si mesmo, as próprias dimensões, ou dimensionalidade, do universo estão sendo construídas à medida em que ele progride; a cosmogonia não aconteceu “no início de tudo”, ela é um desdobramento constante. No raciocínio dele, o universo começa com um ponto com dimensão provisória (em construção) zero, e uma dimensão de tempo provisória; quando o ponto atinge densidade infinita, uma linha de dimensão provisória um começa a se formar, e atingida a densidade infinita começa a se formar o plano (dimensão 2) e em seguida o espaço (dimensão 3), e é isso que experimentamos: um espaço-tempo em formação. A teoria da gravitação quântica prevê que não há dimensão de tempo e que o espaço não é contínuo, não tem densidade infinita, sendo na verdade quantizado; talvez essas duas ideias possam ser reconciliadas eventualmente, mas o que nos importa agora é que o espaço-tempo é emergente, o que é previsto em ambas. A conclusão é a que segue: se o espaço tridimensional está sendo construído, um determinado estado do universo, num ponto do tempo, só pode ser capturado em uma imagem bidimensional, pois só um universo bidimensional está “pronto”: é uma perspectiva. Isso fica claro para uma fotografia, ou um filme (uma semiose), mas vale também para a semântica, e cabe lembrar a estrutura bidimensional da linguagem proposta por Jakobson (metáfora e metonímia).

 

Toda essa complicação nos traz de volta aonde começamos. Se a História é um mecanismo biológico-semântico em evolução (sempre em construção como o próprio universo), como conhecer o passado? Podemos prever o futuro? Bem, deixemos o futuro de lado por ora, mas reconstruir o passado obviamente depende de quanta informação temos à mão (discutir a Teoria da Informação de Shannon nesse contexto fica como instigação para explorações futuras). Introduzo aqui o conceito de holograma: uma imagem bidimensional que contém informação tridimensional; para construir um holograma, precisa-se de diversas imagens bidimensionais, ou perspectivas. Para construir um holograma do passado, precisamos de textos, e imagens quando for possível, de diversas perspectivas. É por isso que a História é contada pelos vencedores: controlar a narrativa mestra é fundamental para manter o poder. Não podemos contar a história da colonização se não ouvirmos os nativos, por exemplo. Mas a informação semântica não é a única disponível: a informação genética pode dizer muito do passado, desde que não seja a genética europeia a analisar a evolução dos povos “primitivos” em tempos remotos. É fácil mostrar que as elites governantes da América Latina são quase sempre de extração europeia, e isso sem microscópio algum. Um pesquisador que retraçou a origem dos judeus ashkenazi mostrando que nada têm que ver com a região da Palestina foi anatematizado na academia, o que é um exemplo bem peculiar. Enfim, talvez História, Biologia e Linguagem poderiam conviver melhor.

 

Mas e o futuro? Bem, vale o mesmo. Assim como acontece em meteorologia, dispondo de uma quantidade robusta de informação e ferramentas de análise cada vez mais sofisticadas, previsões poderão ser feitas com uma boa margem de acerto, muito embora eu preferiria que apenas vivêssemos e deixássemos de tanta análise. Em outro texto, defendo que profecias e oráculos nada mais são que narrativas simbólicas produzidas com o uso de substâncias de alteração da consciência – as plantas dos deuses ou portas da percepção – e com o recurso à observação do cosmos. Cada um que escolha se tal tese merece crédito. Por ora, vivamos um dia de cada vez.

 

Realidade Humana em Duas Camadas

O que é a realidade? Esta pergunta pode soar tanto profunda quanto absurda. Estando constantemente imersos no que tomamos como realidade, para a maior parte das pessoas a resposta parece tautológica: o que aí está, pare de sonhar desperto e encare a “realidade”, isto é, encontre uma posição na sociedade. Mas quâo real é essa realidade?

Primeiro há o universo. Se pensarmos que o ser humano pudesse desaparecer amanhã (como às vezes parecemos empenhados em que aconteça), poucos exceto filósofos pós-modernos discordariam que o Sol lá seguiria, a Terra, a Lua e por aí vai; a primeira natureza teria alguma chance e a segunda natureza, o espaço criado pelo humano, seria uma pilha sem sentido de concreto, aço, plástico e circuito impresso.

Então há o mundo, um ente ideacional e não físico, consistindo de uma rede de relações entre seres humanos mediada por linguagem. Ou posto de outra maneira, o mundo é feito de linguagem. Vivemos nesta rede de interações historicamente estabelecida e mantida ao longo de séculos pelos poderosos de plantão, os mesmos que dela se beneficiam. A rede veio a se tornar global, ou globalitária: poucos indivíduos escapam hoje ao sistema capitalista unificado. Quanto à linguagem, há um sistema de circulação de informação, que costumava ser apenas oral, passando pelo advento da escrita, que permite a realimentação semântica: registrar e disseminar narrativas e registros. Infelizmente, se o acúmulo de conhecimento obedece a um loop “espontâneo” – indivíduos devem buscar construí-lo – há sempre um “pulso espúrio” no sistema, um loop “forçado” de falsas noções que recebe o nome de doutrinação ou propaganda. Esse loop é o que mantém de pé a rede de relações mencionada.

Como a disseminação dessa rede se deu pela colonização de virtualmente toda a superfície emersa por potências europeias, uma instituição é obviamente séria suspeita por esse processo de doutrinação: a igreja, ou igrejas. A fé monoteísta ocidental apresenta todos os preceitos para uma sociedade hierárquica e exploratória: a inevitabilidade e inquestionabilidade da vontade divina, trabalho como punição para a busca de conhecimento, rebeldia como característica do temível diabo, medo da vida em vez de alegria de viver.

Por certo, após estabelecido o sistema, quando admonições sobrenaturais já não surtiriam o mesmo efeito, um sistema de comunicações foi implantado, garantindo que a maioria assimile a mesma versão dos fatos e tornando qualquer outra interpretação extravagante e no fim das contas passível de perseguição estatal legítima. O mesmo sistema espalha necessidades consumistas e torrentes de informação irrelevante como cortina de fumaça. A conformidade passa a substituir a fé e ideais de conforto deslocam o medo; medo no entanto está na raiz de todo sistema autoritário, e o medo da miséria e da fome é chicote suficiente. Assim, consegue-se o impensável: fazem as pessoas amar e defender aquilo que as oprime… assim como amavam e defendiam o Deus opressor.

Afinal, quanto de realidade há nessa realidade?

Não se chamaria melhor de mentiridade?

 

O Fim do Capitalismo

Nos últimos anos, o processo de aceleração observado na sociedade capitalista nos dá a impressão de que o domínio desse modo de organização social é inescapável e tende a recrudescer, com a maior parte das pessoas subjugando-se a quaisquer termos para trabalhar e viver e o meio ambiente cada vez mais comprometido. Ouso discordar, e enxergar justo o contrário: um capitalismo se debatendo para se manter em pé.

 

A percepção que deve nortear este exercício imaginativo é a de que o capitalismo nada mais é, em toda sua complexidade aparente, que um gigantesco esquema de pirâmide: riqueza criada na base flui para o topo, sempre. Isso pode ser atestado pela concentração de riqueza inédita e indecente que atingimos, com cifras impensáveis circulando pelo setor financeiro e poucos indivíduos donos de quase tudo. Dois desdobramentos seguem dessa percepção. O primeiro é que a pirâmide só se sustenta enquanto as pessoas seguirem acreditando nela, e entrando em sua base. Se não é tarefa fácil convencer a todos os jovens do mundo a agirem em concerto para boicotar o sistema numa verdadeira greve geracional, também é verdade que à medida em que se tornar óbvio que engolindo a doutrinação capitalista as pessoas estão defendendo a própria escravidão, o sistema vai se erodindo, uma vez que depende exatamente do consentimento coletivo. O outro desdobramento é que a pirâmide só se mantém enquanto expandir. É bom lembrar aqui como o Império Romano só conseguiu se sustentar enquanto expandia, e o império capitalista pode ser visto como uma retomada do mesmo projeto de dominação global: após o hiato medieval, potências europeias estabeleceram colônias, com os ingleses se destacando e, logo após as grandes guerras na Europa, os EUA assumindo o posto, num sistema já baseado mais em empresas do que em dominação territorial. Depois que esse sistema se “globaliza”, precisa seguir expandindo criando miríades de necessidades e determinando cada vez mais aspectos de nossas vidas; a partir daí, só pode expandir explorando cada vez mais cada indivíduo, e isso se observa hoje em algumas sociedades ricas, nas quais a insegurança que sempre ditou a vida na base da pirâmide já se alastrou para a camada média. Seria fantasioso ver aí sinais de esgotamento do sistema capitalista?

 

Por fim, quero discutir a internet, o meio em que escrevo, em que quase o mundo todo hoje escreve ou ao menos se informa. A internet foi criada como ferramenta imperialista, desenvolvida pelo exército americano. Não só ela ajuda grandes empresas a manter seus negócios em escala global, como reduz a necessidade de mão de obra. A internet ainda serve aos propósitos de imbecilização e doutrinação, funcionando como caixa de ressonância das posições que já vinham sendo fomentadas pelos meios de comunicação tradicionais, tendo assim vantagem estatística desde o início, além de contar com aquele empurrãozinho tradicional para manter a máquina girando. Não há outra forma de explicar uma geração nascida na transição do milênio com uma tendência tão conservadora, ideais de supremacia racial desavergonhados e um anticomunismo mais feroz do que quando havia uma “ameaça soviética”. Entretanto, a mesma rede fornece um potencial de disponibilidade de informação e conectividade que eventualmente pode minar todas as mentiras de que o poder necessita para se manter. Mais uma vez, não ha passe de mágica, mas a possibilidade está aberta, e já é possível ver que as “versões oficiais” passam por uma instância de escrutínio, muito embora o espírito de rivalidade acabe tornando a maioria imune a fatos que não caibam em seu esquema de pensamento (ou passionalismo) pré-concebido.

 

De todos motivos para ser considerado louco, otimismo ante o presente quadro do mundo deve ser o melhor deles. Então eu prefiro ter alguma fé no Homo sapiens e apostar minhas fichas contra a estupidez, por mais que ela esteja aparentemente vencendo a sensatez por uma larga margem.

 

Mitando

Muito embora esta página seja um esforço em explorar temas concretos da sociedade e da história, numa perspectiva o mais terra a terra que se possa, esta entrada não só manda tal preceito às favas como inicia com um introito subjetivo e quase psicológico. Ao longo da minha trajetória pelo planeta até aqui, sinto-me feliz por não apenas ser dessas pessoas agraciadas com boas doses de curiosidade e espanto (“awe”) ante o universo, mas também por transitar por diferentes formas de raciocínio. Sendo uma pessoa racionalista e tendo comido alguma grama nas ciências exatas, estudei ainda linguagem, busco ler boa literatura, e não excluo o pensamento religioso ou o místico. Na verdade, sobre isso escrevo: fica a impressão hoje que o pensamento racional se impôs e com isso mesmo levou a más interpretações de conteúdos religiosos-místicos-míticos; mitos são narrativas simbólicas, e hoje são vistos ora como uma verdade factual dogmática, ora como afetações literárias, ora como bobagens sem valor e mesmo detrimentais à busca da verdade. Ora, o ser humano constrói o mundo com narrativas, e a contação de histórias é mais antiga que a escrita por ordens de grandeza, então alto lá antes de jogar esses conteúdos fora. No tempo que me sobra, que me sobre tempo para ampliar meu conhecimento dessas narrativas vindas das mais diversas tradições, por ora quero tentar fazer um paralelo entre as tradições que fundaram o assim-chamado Ocidente: greco-romana e judaico-cristã.

A percepção que se fez prevalecer dentre as sociedades monoteístas é que as crenças politeístas eram idólatras, condenáveis ou no mínimo inferiores àquela do deus único, quando no entanto as narrativas gregas são de fato mais ricas que aquelas presentes no “único livro” que saíram espalhando tão violentamente pelo globo. Tomemos a origem de nossa espécie: enquanto no monoteísmo o deus único nos faz “à sua imagem e semelhança” para ter tudo à sua volta à disposição, no mito grego nós figuramos dentre as espécies de animais, uma criação, ou ao menos os protegidos, do titã Prometeu. Assim nossa espécie não está no centro de tudo, como também Zeus não ocupa seu trono desde sempre e, como veremos, não ocupará para sempre. Prometeu (o previdente) é uma figura rebelde, tal como seria Lúcifer (o portador da luz), e assim como Lúcifer tenta os humanos com um fruto proibido (o conhecimento do bem e do mal), Prometeu rouba para nós o fogo olímpico. Não só Zeus envia a seu irmão Epimeteu Pandora, de cuja caixa saem todos os males, como ata Prometeu a um rochedo no Cáucaso, onde teria seu fígado devorado por abutres e regenerado, indefinidamente. Mas Prometeu, previdente que era, sabia que o reino de Zeus se encerraria, pelas mãos de um descendente de Io. No mito judaico-cristão, também há um redentor prometido, na figura do messias, que faria acontecer o plano do mesmo Deus que nos expulsara. Os fundadores do monoteísmo aparentemente se viam como descendentes da mítica Io, o povo em que nasceria o redentor, e isso fica sugerido por nomes como Yovah, Jó, José, João e mesmo Jesu. Então se a vinda de Jesus corresponde à queda de Zeus, ele viria redimir a Lúcifer, aquele que nos deu o intelecto, assim como Prometeu é redimido de sua punição pelo mesmo crime.

O que se pode tirar daí? Que o intelecto foi uma espécie de maldição para o ser humano, mas que chegaria um dia em que a divindade da tirania (e do patriarcado), Zeus, deixaria de presidir, ou que o paraíso seria reencontrado, ou seja, chegaria um ponto no desenvolvimento desse sistema chamado espécie humana em que o próprio intelecto nos salvaria de nossa punição pela ousadia de pensar. Também conhecido como Utopia.