Traduções miscelâneas

A História do Bom Brâmane

Tradução que fiz de um “conto exemplar” de Voltaire

Conheci em minhas viagens um bom brâmane, assaz sábio, cheio de espírito e muito culto; ademais, era ele rico, e, portanto, era assim ainda mais sábio: porque, não lhe faltando nada, ele não tinha necessidade de enganar a ninguém. Sua família era muito bem governada por três belas mulheres que se dedicavam a lhe agradar; e, quando não se entretinha com suas mulheres, ocupava-se de filosofar.

Perto de sua casa, que era bela, ornada e cercada de jardins encantadores, habitava uma velha Indiana, devota, imbecil e bastante pobre.

O brâmane me disse um dia: “Eu desjaria jamais ter nascido.” Perguntei-lhe por quê. Ele me respondeu: “Eu estudo há quarenta anos, são quarenta anos perdidos; eu ensino aos outros, e tudo ignoro; este estado enche minha alma de tanta humilhação e desgosto que a vida me é insuportável. Eu nasci, vivo no tempo, e não sei o que o tempo é; eu me acho em um ponto entre duas eternidades, como dizem nossos sábios, e não tenho a mínima idéia da eternidade. Eu sou composto de matéria; eu penso, não pude nunca me instruir sobre o que produz o pensamento; eu ignoro se meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como aquela de andar, de digerir, e se penso com minha cabeça como pego com minhas mãos. Não somente o princípio de meu pensamento me é desconhecido, mas o princípio de meus movimentos me é igualmente secreto: eu não sei por que existo. Enquanto isto, fazem-me a cada dia perguntas sobre todos esses pontos; é preciso responder; eu não tenho nada de bom a dizer; eu falo muito, e me torno confuso e envergonhado de mim mesmo depois de ter falado.

“É bem pior quando me perguntam se Brahma foi produzido por Vishnu [N.doT.:Na verdade foi pela Ambev] ou se são ambos eternos. Deus me serve de testemunha de que não sei disso uma palavra, e ele lá está ele em minhas respostas. ‘Ah! Meu reverendo pai, dizem-me, ensine-nos como o mal invade toda a Terra’. Eu estou tão preocupado quanto os que me fazem essa questão. Eu lhes digo por vezes que tudo é o melhor do mundo; mas aqueles que têm pedras nos rins, aqueles que foram arruinados e mutilados na guerra não crêem em nada nisso, nem eu tampouco; eu me retiro para casa arrasado por minha curiosdade e por minha ignorância. Eu leio nossos livros antigos, e eles redobram minhas trevas. Eu converso com meus companheiros, uns me respondem que se deve fruir a vida, e troçar dos homens; outros crêem saber algma coisa, e se perdem em idéias extravagantes; tudo aumenta o sentimento doloroso que experimento. Às vezes fico prestes a cair em desespero, quando vislumbro que após todas minhas pesquisas não sei nem de onde venho, nem quem sou, nem aonde irei, nem o que me tornarei.” O estado deste bom homem me dava verdadeiro dó: ninguém era nem mais razoável, nem de mais boa-fé que ele. Concebi que quanto mais havia luzes em seu entendimento e sensibilidade em seu coração, mais ele era infeliz.

Vi no mesmo dia a velha que vivia em sua vizinhança: eu lhe perguntei se ela jamais havia se afligido de não saber como sua alma fora feita. Ela simplesmente não entendeu minha pergunta: ela não havia jamais refletido um momento sequer de sua vida sobre um só dos pontos que tormentavam o brâmane; ela acreditava nas metamorfoses de Vishnu de todo seu coração, e conquanto pudesse ter amiúde água do Ganges para se lavar, ela se cria a mais feliz das mulheres.

Tocado pela felicidade dessa pobre criatura, voltei ao meu filósofo, e lhe disse: “Tu não te envergonhas de ser infeliz, ao tempo em que à tua porta há uma velha autômata que não pensa em nada, e que vive contente? – Tu tens razão, ele me respondeu; já me disse cem vezes que seria feliz se fosse tão estúpido quanto minha vizinha, e mesmo assim não desejaria tal felicidade.”

Essa resposta do brâmane me fez uma impressão maior do que todo o resto; eu examinei a mim mesmo, e vi que de fato eu não quereria ser feliz à condição de ser imbecil.

Propus a coisa a filósofos, e eles foram do mesmo entendimento. “Existe, entretanto, uma furiosa contradição neste modo de pensar: porque enfim de que se trata? De ser feliz. Que importa ser brilhante ou idiota? Há bem mais: os que estão contentes de o ser são bem certos de serem contentes; os que raciocinam não estão tão certos de bem raciocinar. Está claro então, dizia eu, que se deveria escolher não ter senso comum, por pouco que esse senso comum contribua ao nosso mal estar.” Todo mundo concordou, e no entanto não achei pessoa que quisesse aceitar o negócio de se tornar estúpido para se tornar contente. Daí concluí eu que, se fazemos questão da felicidade, fazemos mais ainda questão da razão.

Mas depois de ter refletido, pareceu que preferir a razão à felicidade é uma insensatez. Como então essa contradição se pode explicar? Como todas as outras. Há aí muito a ser dito.

Noam Chomsky: Moral Distorcida – Uma Guerra ao Terrorismo?

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Ainda nunca houve uma guerra que, se os fatos fossem calmamente apresentados ao indivíduo comum, não pudesse ser prevenida. O homem comum é, penso eu, a maior proteção contra a guerra.
…a ideia é que a razão pela qual o mundo está tão desordenado é que, sem a guerra fria, há todos esses grupos étnicos matando-se uns aos outros. Bem, é sempre uma boa ideia
começar perguntando pelos fatos. Sempre que se ouve algo dito com muita segurança, a primeira coisa que deve vir à mente é: “espera, será que isto é verdade?”

Uma palestra na Universidade de Harvard Escola Governamental John F. Kennedy Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002

MORAL DISTORCIDA
Uma Guerra Ao Terrorismo?

Obrigado. Eu acabo de voltar do Brasil, onde não há leis anti-incêndio, e se vocês acham isto desconfortável, deveriam ver uma palestra lá. Tão lotado que era de se perguntar se o oxigênio bastaria. Felizmente não houve incêndio, senão teria sido uma enorme catástrofe. Bem, vocês notaram que o título tem um ponto de interrogação. O motivo dele é que o que quer que venha acontecendo nos últimos vários meses, e está acontecendo agora, e não importa como se avalie, quer se goste ou odeie, é bastante claro que não pode ser uma guerra ao Terror. Isso é quase uma necessidade lógica, ao menos se aceitarmos certos pressupostos e princípios elementares. Tentarei esclarecê-los de saída.
O primeiro princípio, diretriz se preferirem, é que deveríamos…tentarei, e penso que devemos, forçar a barra e dar o benefício da dúvida ao governo dos EUA sempre que possível. De modo que se houver controvérsia sobre como interpretar algo, assumiremos que estão certos. A segunda diretriz é que devemos levar muito a sério os pronunciamentos da liderança, especialmente quando feitos com grande sinceridade e emoção. Por exemplo, quando George Bush diz que é o cristão mais devoto desde
os apóstolos, devemos acreditar, aceitar sua palavra, e concluiremos por conseguinte que ele certamente memorizou, várias vezes, em seu estudo bíblico e na igreja, a famosa definição de hipócrita presente no evangelho.
A saber, hipócrita é aquele que aplica a outrem padrões que se recusa a aplicar a si mesmo. Então, se você não é hipócrita, deve assumir que algo certo para nós é certo para eles, e se é errado quando eles fazem, é errado quando nós fazemos. Isso é bem elementar, e assumo que o presidente concordaria e todos seus admiradores também. Pois esses são os princípios com que gostaria de começar.
Bem, apenas um adendo: a menos que possamos atingir esse nível mínimo de integridade moral, devemos pelo menos parar de falar de coisas como direitos humanos, certo e errado, bem e mal, e todas essas coisas pernósticas, pois toda nossa fala deveria ser descartada, de fato com total repugnância, a menos que atinjamos tal nível mínimo. Acho que isso é óbvio e espero que haja consenso.
Bem, isso posto, estabelecido o contexto, deixe-me formular uma tese. A tese é que somos todos completos hipócritas em qualquer assunto ligado a terrorismo. Deixe-me explicar a noção de ‘nós’: Por ‘nós’, quero dizer pessoas como nós. Gente com um grau elevado o bastante de privilégio, treinamento, recursos, acesso a informação, para quem é bem fácil descobrir a verdade das coisas se quisermos. Se decidirmos que é nossa vocação. E no caso em questão, não é necessário cavar muito fundo: está tudo na superfície.
Então, quando digo nós, refiro-me a essa categoria. E desejo definitivamente incluir a mim mesmo, já que nunca propus que nossos líderes fossem submetidos aos tipos de punição que já recomendei aos inimigos. Então isso é hipocrisia. E se há pessoas que dela escapam, eu realmente não conheço e nunca encontrei nenhuma. É uma cultura muito poderosa, é difícil escapar de suas garras.
Então essa é a tese nº 1: Somos todos completos hipócritas, no sentido das escrituras, no que tange a terrorismo. A 2ª tese é mais forte, a saber: que a 1ª é tão óbvia que é preciso mesmo um esforço para não percebê-la. Na verdade, eu deveria ir para casa agora mesmo, já que ela é óbvia. Não obstante, irei adiante e direi por que penso que ambas teses são corretas.
Bem, para começar, o que é terrorismo? Preciso dizer algo a esse respeito. Supostamente, trata-se de uma pergunta bem difícil. Seminários acadêmicos e programas de pós-graduação filosóficos e por aí vai: uma questão problemática e complexa. Entretanto, de acordo com as diretrizes que mencionei, penso haver uma resposta simples, que é exatamente aceitar a definição oficial dos EUA. Já que estamos levando ao pé da letra os pronunciamentos de nossos líderes, levemos em conta sua definição. Com efeito, é o que sempre fiz. Tenho escrito sobre terrorismo nos últimos vinte anos, aproximadamente. Apenas aceite a definição oficial. Então, por exemplo, um caso simples e importante é o manual do Exército dos EUA de 1984, que define terrorismo como o “uso calculado de violência, ou ameaça de violência, para atingir metas que sejam de natureza política, religiosa ou ideológica”.
Bem, isso parece simples, apropriado. Uma escolha particularmente boa pela época. 1984, vocês se lembram, foi a época em que o governo Reagan lutava uma guerra contra o terrorismo. Em especial aquilo que chamavam terrorismo internacional com apoio estatal, “uma praga espalhada por inimigos depravados da própria civilização, num retorno ao barbarismo na era moderna”. Estou citando George Shultz, que era o moderado do governo. Outra diretriz é que nos ateremos aos moderados, não aos extremistas. Então estamos em 1984. Reagan assumira dois anos antes. Sua administração havia imediatamente declarado que a guerra contra o terrorismo seria o foco da política internacional dos EUA, e eles identificaram duas regiões como a fonte desta praga de oponentes depravados da civilização em si: América Central e Oriente Médio.
E houve um consenso amplo sobre isso. Então em 1985, por exemplo… Todo ano a Associated Press tem uma enquete entre editores sobre a matéria mais importante,
e em 85 a eleita foi Terrorismo no Oriente Médio. Então eles concordam. No fim daquele ano, 1985, Shimon Peres, premiê de Israel, veio a Wahington; Reagan e ele denunciaram o flagelo malévolo do terrorismo, referindo-se ao Oriente Médio. O meio acadêmico e experts também concordam. Há uma enorme literatura nos últimos 20 anos sobre terrorismo, em particular terrorismo internacional com apoio estatal. Não temos tempo para revê-la, mas tomo como bom exemplo a edição de dezembro de 2001 do jornal Current History, jornal bom e sério, o artigo chamado “América em Guerra”, que inclui historiadores relevantes, especialistas e experts em terrorismo; e eles apontam on anos 80 como a era do terrorismo com apoio… patrocínio estatal, concordando com o governo Reagan.
Eu também concordo com isso. Eu penso que foi a era do terrorismo internacional com patrocínio estatal. Uma das principais autoras, Martha Crenshaw, diz que naquela era os EUA adotaram uma uma postura pró-ativa para conter a praga. Em maior parte trata-se do Oriente Médio, mas a América Central é ocasionalmente mencionada. Por exemplo, o apoio americano a… Um ou dois autores, ou co-autores, do Instituto dos Trabalhadores descrevem a guerra Contra dos EUA contra a Nicarágua como modelo de combate ao terrorismo. Eles dizem que aquele foi um modelo para o apoio dos EUA à Aliança do Norte na atual fase da guerra ao terrorismo.
As sementes do terrorismo contemporâneo, contanto, são muito mais profundas. O principal historiador do grupo, David Rapoport, grande acadêmico especialista em terrorismo, editor do Jornal do Terrorismo, e por aí vai, aponta que ele remonta a… A origem do terrorismo moderno, como Osama bin Laden, remonta ao início dos anos 60; estou citando-o agora, “quando o terror Viet-Cong contra o Golias americano suscitou esperanças de que o coração do Oeste fosse vulnerável.” Não vou comentar, mas, à guisa de exercício, vocês podem tentar achar uma analogia histórica a essa declaração. Vou deixá-la como tal, sem comentá-la.
Se percorrermos a literatura acadêmica, acharemos a mesma história o tempo todo, virtualmente sem exceções. O mundo também concorda com os “Reaguianos”. Em 1985, logo após Reagan e Peres denunciarem o flagelo malévolo do terrorismo, a Assembleia Geral passou uma resolução condenando o terrorismo, e em 1987, outra ainda mais forte e explícita denunciando o terrorismo em todas suas formas e apelando a todos Estados que fizessem tudo que pudessem para combater a praga e tudo mais. É verdade que não foi unânime. Houve uma abstenção, Honduras, e dois votos contra: os de sempre. Eles deram seus motivos para votar contra a maior resolução da ONU sobre terrorismo internacional; dando nome aos bois: ambos EUA e Israel apontaram o mesmo parágrafo como o motivo para o voto negativo. Era um parágrafo que dizia que “nada na presente resolução poderia de modo algum prejudicar o direito à auto-determinação, liberdade e independência, como advindo da Carta das Nações Unidas, de povos forçosamente
privados daquele direito, em especial povos sob regimes coloniais e racistas, e ocupação estrangeira; ou privá-los do direito de obter apoio para outros, com esses fins, em consonância com a Carta da ONU.”
Esse era o parágrafo ofensivo, e é fácil entender por que ele trouxe um problema sério para os EUA e Israel. O Congresso Nacional Africano era identificado oficialmente como uma organização terrorista nos EUA, e a África do Sul era oficialmente um aliado. Mas a frase “luta contra regimes coloniais e racistas” se referia abertamente à luta do CNA contra o apartheid. Então isso é inaceitável. A expressão “ocupação externa”, todos entendiam se referir à ocupação israelense na Cisjordânia e em Gaza, que então completava 20 anos. Extremamente cruel e brutal desde o início, e continuando apenas em função do decisivo apoio militar, econômico e diplomático americano, que persiste até hoje. Então aquilo era obviamente inaceitável. Portanto foi 135 a 2 com uma abstenção. Então não foi uma unanimidade total. Não foi divulgado e desapareceu da História. Pode-se pesquisar para descobrir. Incidentalmente, isso é procedimento padrão. Quando o “senhor” diz que algo é errado, vai para o buraco da memória, não é noticiado e é esquecido. Mas está lá. Se quiserem olhar, podem descobrir. Eu darei as fontes se quiserem.
Bem, Reagan naquele tempo, lembremos, ele e Peres estavam falando do flagelo malévolo do terrorismo no Oriente Médio. G.Shultz não concordava inteiramente. Ele achava que o que chamava de “a manifestação mais alarmante de terrorismo internacional de Estado estava assustadoramente perto de casa. Ou seja, era um “câncer em nosso continente, bem ali ao lado, que estava ameaçando conquistar o hemisfério com uma revolução sem fronteiras.” Uma invenção bem interessante de propaganda, que revelou ser uma fraude instantaneamente, mas usada repetidamente depois, até pelos mesmos jornais que explicaram por que era uma total invenção. Era útil demais para ser abandoada. E há algo interessante – se pensarmos a respeito, a invenção tinha um certo elemento de verdade, um importante elemento de verdade. Podemos voltar a ele se quiserem. De qualquer modo, esse câncer em nosso continente ameaçava conquistar tudo, seguindo abertamente o Mein Kampf de Hitler, e simplesmente tínhamos que fazer algo a respeito.
Há uma séria… Há uma data nos EUA chamada Dia da Lei. No resto do mundo é chamado Dia de Maio [sic]. 1º de maio, uma data que celebra as lutas dos trabalhadores americanos pela jornada de 8 horas. Mas nos EUA, é um feriado “patriotada” chamado Dia da Lei. No Dia da Lei de 85, o pres. Reagan declarou Emergência Nacional, porque o
governo da Nicarágua “constitui uma ameaça extraordinária e inusitada à segurança nacional e à política externa dos EUA.” Isso foi renovado anualmente. George Schultz informou ao Congresso que “devemos extirpar o câncer nicaraguense, e não por meios gentis”. As coisas estão sérias demais para tal; então, citando Schultz, lembre-se, o moderado do governo, o “tira bom”, disse ele: “Negociação é um eufemismo para capitulação se a sombra do poder não se projetar sobre a mesa da barganha.” Ele condenou aqueles que “defendem meios legalistas utópicos, como mediação externa, a ONU, a Corte Internacional, enquanto ignoram o elemento de poder da equação”. Evitarei citar os linhas-duras.
Naquele tempo, os EUA exerciam o elemento de poder da equação com forças mercenárias com base em Honduras, atacando a Nicarágua. Elas estavam sob supervisão de John Negroponte, que acaba de ser indicado para tocar o lado diplomático, o componente diplomático, da atual guerra ao terror, como Embaixador na ONU. O componente militar da atual guerra ao terror é Donald Rumsfeld, que era naquela época enviado especial de Ronald Reagan no Oriente Médio, o outro lugar onde a praga atacava, por todo ano de 1985. Os EUA, ao mesmo tempo, também bloqueavam meios legalistas utópicos, defendidos pela Corte Internacional, por países latino-americanos e outros, e seguiu bloqueando, até o fim, até a vitória final de suas guerras terroristas pela América Central. Bem, como se lutou a guerra contra o terrorismo de Estado nas duas regiões? Pelas pessoas que de fato estão liderando a nova fase. Continuação histórica bem próxima, não só esses dois, é claro.
Bem, apenas para ilustrar, tomemos o ano-pico, 1985, o pior ano no Oriente Médio. A maior matéria do ano. Então, quem ganha o prêmio de piores atos de terrorismo no Oriente Médio em 85? Bem, eu sei de três candidatos, talvez vocês possam sugerir outro. Um candidato é um carro-bomba em Beirute. O carro estava parado em frente a uma mesquita.
A bomba foi programada para explodir quando as pessoas saíam, para garantir o máximo de vítimas. Foram mortas, de acordo com o Washington Post, 80 pessoas. Mais de 250 foram feridas, na maioria mulheres e garotas saindo da mesquita. Houve uma explosão enorme, que atingiu toda a rua, matando bebês em camas e por aí vai. A bomba tinha por alvo um Xeique muçulmano que escapou. Ela foi armada pela CIA em colaboração com a Inteligência Britânica e a Saudita, e autorizada especificamente por William Casey, de acordo com Bob Woodward, em ‘A História de Casey e a CIA’. Então esse é um exemplo nítido de terrorismo internacional. Livre de ambiguidade, e penso que um dos candidatos ao prêmio no ano-pico, 1985. Outro candidato certamente seriam as assim-chamadas Operações Mão de Ferro que o governo de Shimon Peres levou a cabo no sul do Líbano ocupado, em março de 85. Isso é no sul do país, então sob ocupação militar, violando a ordem do Conselho de Segurança de se retirar, mas com autorização dos EUA, então é irrelevante. As Operações Mão de Ferro tinham por alvo o que o alto comando chamava de “aldeões terroristas do Líbano Meridional” E incluíram muitos massacres e atrocidades e sequestro de pessoas para interrogatório, levando-os a Israel, e tal. “Chegaram a novos níveis de brutalidade calculada e morticínio arbitrário”, de acordo com um diplomata ocidental conhecedor da região, que observava. Não houve a farsa da auto-defesa; foi antes abertamente com fins políticos. Isso foi admitido, nem sequer argumentado. Isso então é um caso nítido de terrorismo internacional, embora possamos dizer que foi agressão. Chamarei de terrorismo internacional, de acordo com o princípio de forçar a barra e dar aos EUA o benefício da dúvida. Claro, essa é uma operação americana. Israel a pratica, porque recebem armas e ajuda, apoio diplomático, dos Estados Unidos. Então decidiremos chamá-lo apenas terrorismo internacional, e não o crime de guerra bem mais sério de agressão. Incidentalmente, o mesmo se aplica a operações bem piores em 1982, quando Israel invadiu o Líbano e matou em torno de 20 mil pessoas. De novo, com crucial apoio militar, econômico e diplomático dos EUA, que tiveram que vetar algumas resoluções do CS para dar seguimento à chacina, proveram armas e tal. Então, é uma invasão de Israel/EUA, se formos honestos. “O objetivo era [citarei o NYT] instalar um regime amigável no Líbano e minar a OLP, o que ajudaria a persuadir os palestinos a aceitar o jugo israelense na Cisjordânia e Gaza.” Isso é deveras correto, e devo cumprimentar o New York Times por dizê-lo em 24 de janeiro último. Até onde eu saiba, esta é a primeira vez na literatura estabelecida dos EUA que alguém ousou dizer o que era absolutamente de conhecimento público em Israel e na literatura dissidente há 20 anos. Eu já escrevia isso em 1983, usando fontes israelenses; mas não conseguia penetrar o comentário nos EUA. Podem verificar. Até onde eu saiba, esse foi o primeiro avanço. Não estou certo se o repórter entendia o que estava dizendo. Mas de qualquer modo, ele disse. James Bennet, 24 de janeiro. Prêmio para James Bennet por dizer a verdade depois de 20 anos. E é verdade, e obviamente um exemplo de livro-texto de terrorismo internacional. Desta vez temos que forçar bastante a barra para chamá-lo assim, pois é difícil ver por que não se trata de agressão aberta, o tipo de ação pela qual líderes de Israel e EUA deveriam ser submetidos a julgamentos de Nuremberg. Crimes de guerra bem sérios. Mas atenhamo-nos às diretrizes, e chamemos apenas de terrorismo internacional. Bem, esse foi o segundo exemplo. As Operações Mão de Ferro.
Terceiro: O único outro exemplo de 85 de que eu sei aconteceu dois dias depois de Shimon Peres chegar a Washington para se juntar a Reagan na denúncia do flagelo malévolo do terrorismo. Um pouco antes, Peres enviou a Força Aérea de Israel para bombardear Túnis, matando 75 civis, feitos em pedaços por bombas inteligentes. Tudo foi bem acuradamente e graficamente apresentado por um repórter israelense muito respeitado na imprensa hebraica em Israel, e corroborado por outras fontes. Os Estados Unidos cooperaram retirando a 6a. Frota, de modo que não tivessem que informar a seu aliado, a Tunísia, de que os bombardeiros estavam a caminho. Presumivelmente, reabastecendo no caminho. Este foi o terceiro candidato. Eu não sei de nenhum outro que sequer chegue perto de ser um candidato…
Incidentalmente, George Schultz, o moderado, imediatamente após o bombardeio, telefonou para o Ministro de Relações Exteriores israelense, dizendo que os EUA tinha uma considerável simpatia pela operação, mas ele recuou do apoio aberto ao terrorismo internacional massivo, ou talvez agressão, quando o CS condenou unanimemente o ataque como uma agressão armada; os Estados Unidos se abstendo, não quiseram votar contra. Pois são esses os três maiores casos que ganham o prêmio de 1985, no meu conhecimento, e de novo assumirei que foram apenas terrorismo internacional, para que não peçamos um Tribunal de Nuremberg. Apenas mais terrorismo internacional por
oponentes depravados da própria civilização, e exemplos difíceis de ignorar, lembre-se, por serem as maiores matérias do ano. Terrorismo internacional no Oriente Médio: são três exemplos perfeitos. Na verdade, os únicos grandes exemplos de que eu saiba.
Entretanto, eles não são candidatos. Na verdade, nem entram na disputa. Não são competitivos. Os exemplos que estão na disputa são, por exemplo, citados no exemplar da Current History a que me referi, que discute 1985 e dá dois exemplos do flagelo malévolo do terrorismo. Especificamente o sequestro do vôo TWA-897, em que morreu um mergulhador da Marinha Americana; e o sequestro do Achille Lauro, que levou à morte de Leon Klinghoffer, um americano aleijado. Ambos certamente atrocidades terroristas.
Esses são os dois exemplos na competição, que são memoráveis, que contam como terrorismo internacional. Bem, os sequestradores do avião TWA alegam, e com razão, que Israel sequestrava regularmente navios em águas internacionais, no caminho entre o Líbano e Chipre, matando pessoas e sequestrando outras, levando-os a Israel, seja para interrogatório ou simplesmente como reféns, mantendo-os presos por anos. Alguns ainda estão na cadeia, sem acusação. Tudo isso está correto. As alegações estão corretas. Mas isso não justifica o sequestro, na suposição, que eu aceito, no mínimo, de que violência não é legítima em retaliação contra atrocidades piores, ou como prevenção de atrocidades futuras. Violência não é legítima nesses casos, então podemos rejeitar tais alegações, embora estejam de fato corretas. Incidentalmente, os sequestros israelo-americanos – lembrem-se: se eles fazem, nós fazemos – tais sequestros também estão fora dos registros históricos. Ocasionalmente se acha uma referência a eles no fundo de uma coluna sobre isso ou aquilo, mas eles não são parte da História do terrorismo. Os sequestradores do Achille Lauro alegaram se tratar de retaliação pelo bombardeio de Túnis, alguns dias antes. Bem, rejeitamos isso com desprezo, pelo mesmo princípio, que é: violência não é justificada por retaliação ou prevenção. Assumindo que possamos atingir o nível moral mínimo que mencionei mais cedo – se não somos hipócritas, em outras palavras – algumas consequências se seguem sobre outros atos de retaliação e prevenção; mas isso é óbvio demais para abordar, deixarei para vocês pensarem.
Bem, esse foi 1985, o auge do terrorismo internacional no Oriente Médio. Como um projeto de pesquisa vocês podem ver se deixei de fora alguma coisa que compita ao prêmio, da qual eu não saiba. Nenhum é mencionado na literatura sobre terrorismo. Como disse no começo, não é preciso um grande esforço para ver essas coisas. É preciso muito esforço para não vê-las; é preciso uma educação muito boa para ignorá-las. Pensem a respeito e verão. 1985 não foi, é claro, nem o primeiro nem o último ato de terrorismo internacional no Oriente Médio. Há vários outros muito importantes. Por exemplo, em 1975, Israel, ou antes pilotos israelenses com aviões e apoio dos EUA, em dezembro de 75, bombardearam uma vila no Líbano, matando mais de 50 pessoas. Não foi dado um pretexto, mas todos sabiam qual foi a razão. Naquela época, o Conselho de Segurança da ONU se reunia para discutir uma resolução que foi apoiada pelo mundo inteiro – com exceções marginais, apenas uma crucial, os EUA, que vetaram a resolução – que pedia um acordo diplomático para o conflito israelo-palestino, incorporando a ONU 242 e os termos da resolução principal, segurança e integridade territorial e todas essas coisas bacanas, com a fronteira reconhecida internacionalmente. A parte ofensiva desta foi que ela também se referia aos diretos nacionais palestinos, o que não é aceitável para os EUA. Eles a rejeitaram então, e o fazem agora, ao contrário de muita bobagem que se lê. Os EUA vetaram a resolução que terminou… não, na verdade continua: ano após ano de esforços de solução diplomática, que os EUA bloquearam unilateralmente. Israel não tem veto no Conselho de Segurança, então eles reagiram ao debate bombardeando o Líbano e matando cerca de 50 pessoas sem pretexto. Isso também não está nos anais do terrorismo internacional. Há muitos casos mais recentes, incluindo as duas invasões de Itzhak Rabin e Shimon Peres em 1983 e 1996, no Líbano. Os EUA apoiaram ambas: muitas mortes, centenas de milhares refugiados e por aí vai. Clinton teve de recuar de seu apoio à invasão de 1996 após o massacre de Qana, mais de cem pessoas em um campo de refugiados da ONU. Naquele ponto ele disse: não posso mais lidar com isso, melhor sair. Não houve pretexto de auto-defesa nesse caso. Isso é claramente terrorismo internacional ou talvez agressão. E prossegue. Avancemos então até a atual Intifada, que se iniciou em 30 de setembro de 2000. Nos primeiros dias, não houve fogo dos palestinos, algumas pedras arremessadas, mas Israel estava usando helicópteros de ataque dos EUA para atacar complexos habitacionais civis, matando e ferindo dezenas de pessoas nos primeiros dias. O governo Clinton respondeu a isso, tomando de empréstimo a expressão do nosso presidente, “incrementando o terror”. Vocês se lembram que o presidente Bush condenou os palestinos por incrementar o terror mês passado, então usarei sua expressão, de acordo com as diretrizes. O governo Clinton se comprometeu com o incremento do terror em 03/10, fechando um contrato para a maior remessa numa década de helicópteros militares para Israel, juntamente com peças de reposição para os helicópteros Apaches que haviam sido enviados semanas antes. Isso é incrementar o terror. Dias depois, esses helicópteros estavam sendo usados para matar e ferir civis, atacando complexos de apartamentos e por aí vai. A imprensa colaborou recusando-se a noticiá-lo. Note: não deixando de noticiá-lo, recusando-se. O fato foi especificamente trazido à atenção de editores, e eles simplesmente deixaram claro que não iriam noticiá-lo. Não há dúvida quanto aos fatos, aliás, mas até hoje não foi noticiado, exceto nas margens. Tal política persiste.
Pulemos até dez/2001, 2 meses atrás. George Bush condenava os Palestinos por incrementar o terror, e contribuiu nos modos convencionais para incrementá-lo, de fato de forma crucial. Em 15/12, o CS da ONU debateu uma resolução iniciada pela Europa, conclamando ambos lados a reduzir a violência e sugerindo a introdução de monitores internacionais para ajudar no monitoramento e redução da violência. Trata-se de um grande passo. Que foi vetado pelos EUA, foi pro… Que querem incrementar a violência. É difícil pensar em qualquer outra interpretação. A imprensa não precisou se importar em dar qualquer interpretação, porque o fato mal foi noticiado. A resolução foi então pra Assembleia Geral, onde não foi sequer noticiada, e houve uma maciça votação em apoio à mesma resolução. Dessa vez, os EUA e Israel não estavam inteiramente isolados na oposição, várias ilhas do Pacífico se juntaram: Nauru e uma ou outra mais. Assim, não o usual esplêndido isolamento. Não me lembro de isso ser noticiado. Uns 10 dias antes,
houve uma grande contribuição ao incremento do terror. A 4ª Convenção de Genebra, de acordo com o mundo inteiro, literalmente fora Israel, aplica-se aos territórios ocupados.
Os EUA se recusam. Não votam contra na ONU, abstêm-se. Eu presumo que a razão é que não querem tomar uma posição aberta em tão evidente violação de princípios
fundamentais de lei internacional, particularmente dadas as circunstâncias sob as quais eles foram firmados. Se vocês se lembram, as Convenções de Genebra foram estabelecidas logo após a II Guerra Mundial, de modo a criminalizar os atos dos Nazis; então dizer que elas não se aplicam é uma afirmação bem forte. Entretanto, exceto os EUA e Israel, o mundo inteiro concorda. A Cruz Vermelha Internacional, que é a agência responsável por aplicá-las e interpretá-las, concorda. De fato, até onde eu saiba, não há discussão a respeito. A Suíça, que é o Estado responsável, convocou uma reunião das altas partes contratantes das Convenções de Genebra, isto é, aquelas que, como os EUA,
estão legalmente obrigadas por tratado a garantir seu cumprimento. Um alto e solene compromisso. Uma reunião foi feita em 05/12 em Genebra, que passou uma forte resolução determinando que as convenções se aplicam a territórios ocupados, o que torna ilegal basicamente tudo que EUA e Israel fazem lá; eles seguiam a lista: assentamentos, deslocamentos e tudo que acontece. Os EUA boicotaram as sessões. Conseguiram outro país para boicotar: Austrália. De acordo com a imprensa australiana, sob pesada pressão dos EUA, eles se juntaram ao boicote. Se os EUA boicotam, é como um voto negativo no CS ou na Assembleia Geral. Não é noticiado e está fora da história. Mas é outro passo importante para incrementar o terror. Tudo isso se passou, incidentalmente, no meio de uma trégua de 21 dias. Uma trégua unilateral. Os palestinos não estavam realizando nenhum ato, mas duas dúzias de palestinos foram mortos, incluindo uma dúzia de crianças. Em meio a isso, esses esforços em incrementar o terror se deram. Talvez seja uma interpretação injusta, e haja um outro motivo de que eu não esteja pensando, mas é assim que me parece. Vocês podem pensar a respeito.
De qualquer forma, o terrorismo internacional no Oriente Médio certamente continua e tem uma longa História; e se vocês olharem os registros, claro, são heterogêneos e
complicados. Mas penso que acharão que o balanço é bem nas linhas do que eu descrevi. De fato, o balanço reflete os meios de violência disponíveis, como de costume,
se você examinar o terror; na verdade, é por isso que, no espectro total do terror, terror de Estado é bem pior que o individual, pela razão óbvia de que Estados têm meios de violência que indivíduos ou grupos não têm. E é isso que acharão se olharem, penso que esmagadoramente. É dito comumente que terrorismo é a arma dos fracos, isso é completamente falso – ao menos se se aceita a definição oficial dos EUA de terror. Se você fizer isso, então o terror é preponderantemente a arma do forte, como a maioria das armas. Bem, isso é História, mas todas essas coisas estão fora dela. História é o que é criado por intelectuais bem educados, e não guarda semelhança alguma com uma coisa
chamada “História” por pessoas ingênuas; e se você checar isso, penso que irão achar isso verdade.
Bem, esse é o Oriente Médio; vamos agora pra a América Central, o outro foco principal da praga de oponentes depravados da própria civilização. Aqui serei breve, pois as
partes centrais são incontroversas. Pelo menos entre pessoas que tenham mínima atenção a leis e instituições internacionais. Na verdade o tamanho dessa categoria é facilmente estimável. Perguntem-se quão frequentemente o que direi agora apareceu nas discussões sobre a praga malévola do terrorismo nos últimos 5 meses. Grande profusão, mas quanto se disse sobre alguns casos incontroversos; de novo, incontroversos se pensarmos que a Corte Internacional, o Conselho de Segurança e Lei Internacional têm alguma significância. Bem, em 86, a Corte Internacional de Justiça condenou os EUA por terrorismo internacional: uso ilegal de força na guerra contra a Nicarágua. De novo me aterei às diretrizes: forçar a barra, e permitir que se interprete isso apenas como terrorismo internacional, não o crime de guerra de agressão. Chamemos de terrorismo internacional. A Corte ordenou os EUA a interromper os crimes e a pagar substanciais reparações – milhões de dólares. O Congresso reagiu instantaneamente recrudescendo a guerra, através de mais verba para recrudescer a guerra. A Nicarágua levou a matéria ao CS, que debateu a resolução, conclamando todos Estados a observar a lei internacional, sem mencionar nenhum; todos sabiam a quem se referia. Os EUA vetaram. A Nicarágua foi então à Assembleia Geral, que passou resoluções similares em anos sucessivos. EUA e Israel se opuseram e em um ano eles tiveram El Salvador. Tudo isso está fora da História. Tem de estar. É simplesmente inconsistente com a imagem preferida deles de como a História deve ser; e, como digo, podem checar o quanto esses casos incontroversos têm sido citados recentemente, e lembrem-se quem eram as pessoas responsáveis. Pessoas como Negroponte, procônsul de Honduras, Rumsfeld, enviado especial ao Oriente Médio, e por aí vai, bastante continuidade. Os EUA, como eu disse, reagiram recrudescendo a guerra e, pela primeira vez, dando ordens oficiais a suas forças mercenárias para atacar o que se chama “alvos macios”. É assim que o Comando do Sul os chamava: alvos macios, significando alvos civis indefesos como cooperativas agrícolas e por aí vai. Isso era sabido e foi discutido nos Estados Unidos. Era considerado legítimo pela esquerda, então Michael Kinsley, que representava a esquerda no debate de grande porte, num artigo interessante – ele era então editor da New Republic – em que disse que não deveríamos ser afoitos em condenar a autorização do Departamento de Estado para atacar alvos civis indefesos, porque temos de aplicar critérios pragmáticos. Temos de analisar o custo-benefício e ver se, como ele disse, a quantidade de sangue derramado é compensada por um bom resultado, ou seja, democracia. O que determinaremos ser democracia e o que isso significa, você pode ver olhando para os Estados vizinhos, como El Salvador e Guatemala, que eram democracias OK. E se passar no nosso teste, OK.
Então, em outras palavras, terrorismo internacional, tudo bem, desde que se cumpram critérios pragmáticos, e agora ao longo do espectro: esquerda e direita dentre “nós”,
isto é, intelectuais educados e privilegiados, não a população, é claro. Na Nicarágua a população tinha um exército para defendê-la. Foi ruim o bastante, dezenas de milhares mortos, o país praticamente devastado, talvez nunca se recupere, mas tinha um exército para defendê-la. Em El Salvador e na Guatemala, isso não era verdade, o exército
eram os terroristas de Estado. Os EUA os apoiavam. Eles eram o exército. Não havia ninguém para defender a população, e de fato as atrocidades foram bem piores. Além disso, eles não são um Estado, então não podiam ir à Corte Mundial ou ao CS para seguir os meios legais – é claro que sem efeito algum – porque “nós”, pessoas como nós, determinamos que o mundo será regido pela força, não pela lei; e já que temos o poder, caso o determinemos, um Estado que tente seguir meios legítimos de responder a terrorismo internacional não tem nada a fazer. Mas isso é nossa escolha e de ninguém mais. Não se pode culpar mais ninguém por isso. Houve, contudo, resistência popular – não da elite, mas popular – às atrocidades lá, e os EUA tiveram de recorrer a uma rede terrorista internacional, uma extraordinária rede terrorista internacional Lembre-se: os EUA são um Estado poderoso, não são como a Líbia. Se a Líbia quer realizar atos terroristas, eles contratam Carlos, o Chacal, ou algo assim. Os Estados Unidos contratam Estados terroristas – somos gente grande. Então a rede terrorista consistia de Taiwan, Grã-Bretanha, Israel, Argentina – pelo menos enquanto esteve sob o domínio dos generais neo-nazi, quando eles foram infelizmente removidos, eles saíram do sistema – financiamento saudita. Uma bela rede terrorista internacional, nunca houve igual. Em termos contemporâneos podemos chamar de um “Eixo do Mal”, eu suponho. O resultado… de novo se atendo às diretrizes: acreditamos em nossos líderes… foram centenas de milhares de pessoas chacinadas, e milhões de órfãos e refugiados. Toda atrocidade concebível. A região devastada. O único caso incontroverso, Nicarágua, que foi o menor deles, por si só ultrapassa os crimes de 11/09 e os outros são ainda piores. De novo estamos forçando a barra e dando aos EUA o benefício da dúvida, chamando apenas de terrorismo internacional, organizado por oponentes depravados da própria civilização.
Bem, essa foi a segunda área principal: a América Central. Tudo isso, entretanto, está fora dos registros, também; O jornal Current History, e ele é típico nesse respeito – nada a que me referi é mencionado. Nem em toda literatura acadêmica, de fato, exceto bem à margem. Vocês podem checar e ver. Simplesmente não conta. Os 80 são descritos como a
era do terrorismo internacional de Estado, mas eles não estão se referindo a nenhuma dessas coisas. Os EUA estavam tentando prevenir terrorismo internacional de Estado tomando medidas pró-ativas, como a mais massiva rede terrorista internacional de que se tem notícia. Isso é bem típico da literatura acadêmica, jornalismo, e novamente
vocês podem checar. Mal se falou palavra a respeito quando a segunda fase da guerra ao terrorismo foi declarada, mais uma vez com basicamente as mesmas pessoas e todos motivos para esperar os mesmos resultados. Bem, de tudo isso uma conclusão óbvia se segue: Há uma definição operacional de terrorismo, a que de fato é usada. Significa terror que eles perpetram contra nós – isso é terrorismo, nada mais passa pelo filtro. Até onde eu saiba, isso é um universal histórico. Eu não acho uma exceção a isso, vocês podem tentar. Por exemplo, os japoneses na China e na Manchúria estavam defendendo a população contra terroristas chineses e iriam criar um paraíso terrestre para eles, se pudessem controlar os terroristas. Os nazis na Europa ocupada estavam defendendo os governos legítimos, como Vichy, e a população, de guerrilheiros terroristas que eram apoiados do exterior, como de fato eram. Eles eram comandados desde Londres, Polônia, França e por aí vai. O fato é que eu não consigo achar uma exceção, vocês podem tentar; também, até onde eu saiba, isso é virtualmente universal dentre intelectuais, gente educada como nós. Afora erro estatístico, essa é a linha que eles adotam. Bem, não parece assim na História, mas lembrem-se de quem escreve a História. Isso deveria deixá-los um tanto céticos. Se olharem a História real, não a que está escrita, penso que acharão que esse é o caso; e eu poderia até talvez sugeri-lo como tópico de pesquisa para algum estudante de pós empreendedor que aspire a uma carreira como motorista de taxi.
Apenas para continuar no presente, tomemos apenas os dois últimos meses. 11/09 foi um exemplo perfeitamente claro de terrorismo internacional, nenhuma controvérsia
a respeito, então não temos que perder tempo. E quanto à reação? Bem, ela acaba sendo também um caso incontroverso de terrorismo internacional. De novo, atenhamo-nos às diretrizes – vamos apenas ouvir o que dizem nossos líderes. Então, em 11/10, o presidente Bush anunciou ao povo afegão que “seguiremos bombardeando até que entreguem
pessoas suspeitas de atos terroristas, embora nos recusemos a fornecer qualquer prova, e nos recusemos a entrar em qualquer negociação para extradição e transferência”
– um caso claro de terrorismo internacional. Em 28/10, a contraparte britânica, Almirante Sir Michael Boyce, que é o chefe da Equipe de Defesa Britânica, foi um passo além. Lembre-se, livrar-se do regime Taleban não era uma meta de guerra; foi uma preocupação posterior. Três semanas após começarem os bombardeios, isso foi acrescentado, presumivelmente para os intelectuais terem algo para se sentir bem ou algo assim, não sei; de qualquer modo, 3 semanas após o bombardeio, isso foi acrescentado como uma nova meta de guerra. E o Almirante Boyce anunciou ao povo afegão nesse sentido, acho que foi a 1ª menção a essa meta, que “continuaremos bombardeando até que vocês mudem sua liderança”. Primeiro, isso foi tudo bem proeminente, 1ª página do New York Times em ambos casos. Dois, ambos casos são exemplos de livro-texto de terrorismo internacional, se não agressão; mas ainda estamos forçando a barra, e está tudo fora do registro, pela convenção usual. Nós estamos fazendo, então não conta. É apenas quando eles praticam o que definimos oficialmente como terrorismo que conta.
Bem, é fácil continuar, mas deixe-me voltar à tese fraca: não pode haver uma guerra ao terrorismo, ao menos como ele é definido nos documentos oficiais dos EUA. É uma
impossibilidade lógica. Esta é uma pequena mostra de ilustrações, pode-se seguir facilmente, mas é o bastante para mostrar que ela não pode ser real. Bem, essa é a tese fraca.
E quanto à tese forte, de que tudo é tão inteiramente óbvio que seria embaraçador falar a respeito, porque está tudo na superfície, nada escondido a respeito disso? Tudo que eu menciono é perfeitamente bem conhecido – não se tem que penetrar nada para descobrir. Nenhuma fonte obscura, nada. Apenas a óbvia evidência. E pode-se facilmente acrescentar a isso. Há uma tonelada de literatura a respeito nos 20 últimos anos, mas ela não pode ser discutida, porque se chegaria à conclusão errada. Então é tratada do mesmo modo que o terrorismo na nossa cultura intelectual. De novo, escolha, não uma necessidade. Então acabamos com um tipo de dilema. Se não somos honestos, esqueça. Mas se somos honestos há um dilema. Uma possibilidade é apenas reconhecer que somos completos hipócritas e então pelo menos ter a decência de parar de falar em direitos humanos, certo e errado, bem e mal e tal, e dizer que somos hipócritas e temos força e vamos governar o mundo pela força, ponto final. Esqueçamos todo o resto.
A outra opção é mais difícil de trilhar, mas é imperativa, a menos que queiramos contribuir para os desastres ainda piores que possivelmente que estejam por vir. Acredito haver algo inerente à fibra da América que vale a pena salvar, e que os destinos do mundo inteiro podem muito bem depender da habilidade de jovens americanos em encarar as responsabilidades de uma velha América enlouquecida.

 

 

Tous les Colombiens ne s’appellent pas Ingrid 

(Nem todos os colombianos se chamam Ingrid)

Paola Ramírez Orozco, Le Monde Diplomatique, fevereiro de 2009



Desde a libertação de Ingrid Betancourt, em 2 de julho de 2008, a Colômbia desapareceu das prioridades midiáticas e das preocupações das “people” e dos homens e mulheres políticos até então apaixonadas por esse país. Bem como o destino dos outros reféns detidos pela guerrilha e o tema do intercâmbio humanitário. Acabamos de ser informados de que, em 13 de janeiro, o presidente Álvaro Uribe recebeu, em Washington, das mãos de seu homólogo americano George W. Bush – ao fim de um mandato de balanço calamitoso -, a medalha presidencial da Liberdade. Assaz simbólico…


Centro de Bogotá. À entrada de um arranha-céu vigiado por câmeras, um guarda pergunta mecanicamente: andar, razão da visita, documento de identidade e número de telefone. Em troca, um passe autoriza a travessia do hall, dá direito a uma revista minuciosa e permite o acesso aos elevadores. No vigésimo quinto andar, um outro guarda faz as mesmas perguntas. Enfim, a transposição de duas portas blindadas e de uma barreira de segurança marca a entrada dos escritórios, seja de organizações de defesa dos direitos da pessoa humana, de sindicatos, de partidos políticos ou de organismos independentes. Às vezes, além de guarda-costas, uma ambulância segue os trajetos de um opositor político que se desloca em carro blindado.


A “segurança democrática”, política musculosa do presidente Álvaro Uribe Vélez, chegado ao poder em 2002, seria ela um mito? Numerosos magistrados, membros de organizações não-governamentais (ONG), sindicalistas, homens ou mulheres da política, e mesmo certos jornalistas, parecem assim pensar. Segundo o Sr. Alirio Uribe, defensor dos direitos da pessoa humana, apenas alguns privilegiados – a “elite”, as empresas, as multinacionais – dela se beneficiariam. Ao passo que “todos aqueles que criticam a política do presidente ou se opõem a seu regime são demonizados”. Quando não são assassinados. Em silêncio, pois os meios de comunicação estão muito ocupados.


Muito ocupados enquanto exprimem uma emoção legítima: “Ingrid Betancourt, refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia [FARC]” (desde 23 de fevereiro de 2002); um alívio compartilhado: “Ingrid liberta!” (em 2 de julho de 2008); quando se embalam definitivamente: “Betancout encontra Sarkozy”, “IB Women World Awards 2008/2009”, “Santa Ingrid visita o Papa”, “A ex-refém volta à Colômbia”, com a única preocupação (não contestável ademais): “Sem mais sequestros!” As FARC detêm ainda vinte e sete “prisioneiros políticos”, civis, militares ou policiais, que elas pretendem trocar por guerrilheiros aprisionados.


Em 28 de novembro de 2008, centenas de milhares de manifestantes exibindo camisetas brancas cruzadas por um “Colombia soy yo” desfilaram nas principais cidades do país e capitais estrangeiras (Paris, Madrid, etc.). Como em outras circunstâncias, a manifestação, que se beneficiou de um apoio (implícito) do poder colombiano e (explícito) dos meios de comunicação nacionais e estrangeiros, não apontou o dedo senão a um único dos protagonistas do conflito colombiano: a guerrilha.


Curiosamente, em 6 de março do mesmo ano, uma manifestação contra a violência do Estado não havia provocado nem a presença dos projetores nem a das câmeras. “Nós marchamos para protestar contra as valas comuns, os massacres, os assassinatos, os desaparecimentos e as expulsões de populações, pois a ideia de que se deveria mostrar mais solidário com os reféns, dos quais uma em particular, do que com as vítimas do Estado e dos paramilitares havia se propagado”, explica Jorge Rojas, diretor do Centro de estudos dos direitos humanos e da expulsão (Codhes), uma ONG. Enquanto José Obdulio Gaviria, primo primeiro de Pablo Escobar (o finado barão da droga) e conselheiro do presidente Uribe, qualificava tal operação de “marcha promovida pelas FARC”, os Aguillas Negras, nova denominação dos grupos paramilitares, proferiam ameaças de morte contra os organizadores e participantes. Convencidos de que as associações não devem esmorecer “cada vez que os paramilitares ou o presidente a ameaçam”, como exclamou um manifestante, mais de trezentas mil pessoas se mobilizaram ainda assim na Colômbia.


Uma semana depois, seis organizadores dessa manifestação haviam sido assassinados. Dez sindicalistas tiveram a mesma sorte ao correr de um mês. Único consolo: “Sem os apoios institucionais, econômicos e midiáticos dos quais a marcha contra as FARC se beneficiou e à qual nós participamos, testemunha um organizador, aquela de 6 de março rompeu com a unanimidade que querem nos impor e com a ideia de que a violência vem unicamente das guerrilhas.”


Hostil a todo diálogo com a oposição armada, o chefe de Estado tem, desde sua chegada ao poder, privilegiado a via militar. Entre 2002 e 2007, treze mil, seiscentos e trinta e quatro civis morreram, vítimas da violência política. De acordo o Codhes, Dos quatro milhões de pessoas expulsas à força desde 1985, três milhões o foram sob o governo do Sr. Uribe.


Para o advogado Sergio Roldán, essas transferências de população não devem nada ao acaso: “Os camponeses que se recusam a cultivar a folha de coca são expulsos em benefício dos narcotraficantes. Corredor estratégico de encaminhamento de armas e de droga, a terra é limpada de sua população em benefício de grupos armados. Enfim, ela é uma fonte de exploração comercial. Sua acumulaçao é, para os industriais nacionais e internacionais, um prêmio – que implica igualmente o Estado.


Presidente do Codhes, Marco Romero estima em seis milhões e oitocentos mil o número de hectares expropriados ou “vendidos ilegalmente por funcionários corruptos”.  O caso do Chocó, região da costa do Pacífico onde vivem as comunidades afro-colombianas, é, desse ponto de vista, emblemático. Milhares de camponeses, obrigados a fugir da violência, abandonaram suas terras “aos megaprojetos previstos para a cultura da palma africana utilizada na fabricação de agrocombustíveis”.


“O período ‘uribista’, constata Daniel Maestre, expulso da comunidade Kankuamo, é o mais repressivo que nossas comunidades [indígenas] jamais conhecemos. Fazer valer nossos direitos e territórios reconhecidos  na Constituição de 1991 e em acordos internacionais é muito difícil.” Vítimas dos paramilitares, da guerrilha e do exército – envolvido, segundo a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), em 60% dos casos -, mais de mil e duzentos indígenas foram assassinados ao longo dos seis últimos anos. “A ‘segurança democrática’ matou mais gente do que ajudou”, afirma Jairo Chicama, um indígena embera katio.


Exigindo do governo o respeito a suas vidas e a abertura de um diálogo, perto de quarenta mil indígenas se mobilizaram a partir de 12 de outubro de 2008. Violentamente reprimidos pelas forças da ordem – quatro mortos e uma centena de feridos na comunidade La Maria Piendamó -, os indígenas desmentem as acusações do presidente Uribe justificando a ação militar. “Nosso movimento é pacífico e não é aliado das FARC, afirma Ayda Quilcue. Ou então, se todos aqueles que sofrem a grand crise social são delinquentes, guerrilheiros, como diz o presidente, todos colombianos são membros das FARC!” 


Jovem militante da associação Filhos e Filhas pela Memória e contra a Impunidade, Jessika Hoyos na diz outra coisa: “Nós devemos lembrar quem eram nossos pais, porque eles morreram na mais completa indiferença. Eles não eram terroristas, mas gente que, por seu trabalho ou suas convicções, queriam melhorar este país. Somente, se alguém se pronuncia contra o Sr. Uribe, torna-se um antipatriota, um guerrilheiro; é por isso que há tantos mortos e tantas pessoas forçadas ao exílio.” 


A terra é limpa de sua população em proveito dos grupos ilegais


O chefe de Estado se recusa a admitir a existência de um conflito político em um país que conhece uma guerra interna desde os anos 1950. A “ameaça terrorista” lhe basta como explicação. Para “pacificar” o país, o exército, ele mesmo, há tempo pactua com os paramilitares que combatem maciçamente… camponeses, estudantes, professores, sindicalistas, defensores dos direitos humanos, jornalistas e militantes políticos.


As famílias das vítimas que haviam depositado todas suas esperanças na audiências judiciais previstas pela lei dita “justiça e paz”, adotada em 2005 para “desmobilizar” os paramilitares e lançar luz sobre seus crimes, muito rapidamente se desencantaram. Reunidas no seio do Movimento Nacional de Vítimas dos Crimes de Estado (Movice), elas lutam hoje contra o esquecimento e a impunidade “premeditada” do presidente. Este faz extraditar aos Estados Unidos, onde serão julgados por narcotráfico, quatorze dos chefes paramilitares mais poderosos. Na Colômbia, acusados de crimes contra a humanidade, havia o risco que eles fizessem comprometedoras revelações sobre suas alianças passadas com membros da classe política.


Mais de cento e setenta funcionários do Estado já foram implicados no escândalo chamado “da parapolítica” – termo que designa a colusão entre paramilitares, políticos e eleitos locais próximos do presidente Uribe ou pertencentes a sua esfera. Entre eles, Jorge Noguera, ex-braço direito do chefe de Estado e diretor do departamento administrativo de segurança (DAS), preso (depois solto) por ter posto tal instituição ao serviço dos paramilitares e ter-lhes remetido uma lista de dirigentes sindicais, professores universitários e opositores a assassinar; Guilherme Cossio, procurador do departamento de Antioquia e irmão do ministro do interior e da justiça, sacado de suas funções por seus laços “narcoparas”; Carlos Garcia, presidente do bastante uribista Partido U…


Trinta e seis eleitos da maioria e dois ex-presidentes do Senado estão encarcerados, enquanto que mais de sessenta e cinco da maioria estão sob exame. Antigo comandante da 17ª brigada do exército, baseada em Carepa (comunidade de Urabá, dependente do governo de Antioquia, departamento governado por Uribe de 1995 a 1997), o general Alejo del Rio, responsável, segundo o chefe paramilitar Ever Veloza – codinome “HH” -, pela expansão do “paramilitarismo” no país, foi preso.


Paradoxalmente, afirma Ivan Cepeda, presidente do Movice, “esses acontecimentos deixam nosso trabalho ainda mais difícil; o presidente defende as pessoas ligadas aos paramilitares e à máfia; nós, nós nos tornamos alvo deles: vinte de nossos dirigentes foram assassinados desde 2005”. Principalmente nos departamentos de Sucre, Antioquia e Córdoba, onde, “impondo um regime de terror, os ‘paras’ decidem quem serão os representantes políticos, os reitores de universidades, os funcionários públicos, etc. Em uma dessas zonas se encontra o domínio do presidente, situado na proximidade daquele [do chefe paramilitar] Salvatore Mancuso. Podemos afirmar com certeza que aquele que vive na região, que conhece a região, sabe o que se passa.”


Não obstante a “desmobilização”, em vinte e dois departamentos – de trinta e dois -, estruturas paramilitares agiriam em toda liberdade com a bênção das elites. Mesmo no estrangeiro, informa o sr. Cepeda, as vítimas do Estado exiladas ou refugiadas não estão mais seguras. “Acusadas de pertencer às FARC, elas são perseguidas pelas instâncias diplomáticas da Colômbia.” 


“É difícil acompanhar as pessoas que vão votar com uma arma”


A exemplo do diário El Tiempo, fonte de informação da imprensa estrangeira e propriedade da família do vice-presidente (Francisco Santos),e do ministro da defesa (Juan Manuel Santos), as redes de televisão tais como RCN (Radio Cadena Nacional) e Caracol (Cadena Radial de Colombia) servem de caixas de ressonância para a propaganda do poder. Para aqueles que, em nome de uma imprensa independente, “lutam contra a visão falseada da realidade, contra a unanimidade e o uribismo”, como Antonio Morales, de volta ao país depois de seis anos de exílio e diretor do novo jornal Polo, as dificuldades começam com as campanhas “impedindo a distribuição do jornal e o acesso à publicidade”.


Acusados pelo executivo de “favorecer os atos terroristas” por seguirem as “violações dos direitos da pessoa humana”, outros, como Holman Morris, jornalista da emissão televisiva “Contravia”, são ameaçados de morte. Em suma, constata este último, “nós não temos escolha senão entre viver com estas ameaças de morte ou praticar a autocensura”. Nenhuma necessidade de precisar que, nas zonas paramilitares, a liberdade de expressão e o pluralismo político desapareceram.


Ainda assim, observa o senador do Pólo Democrático Alternativo (PDA) Gustavo Petro, “ainda que sejamos todos ameaçados de morte e que soframos a vontade de destruição do presidente, os partidos de esquerda ou de oposição existem nas cidades. É difícil matar todo mundo na rua ou acompanhar as pessoas que vão votar com uma arma”, Isso explicaria em parte a eleição de prefeitos de oposição nas três grandes metrópoles do país – Bogotá, Medellin e Cali. “Nas regiões de César e Magdalena, lembra orgulhosamente o senador, evocando esses feudos paramilitares onde não havia senão um único cadidato (o deles!), o voto branco venceu.” 


Se as manifestações de resistência pacífica da sociedade se multiplicam, os temores de represálias sangrentas persistem. “Com um governo tão autoritário e intolerante como este de uribe, a oposição política não armada corre grandes riscos, afirama Carlos Gaviria, presidente do PDA; ele não nos vê como uma necessidade, mas como um estorvo à democracia”. Confrontado com os ataques do presidente e com os múltiplos assassinatos de seus dirigentes, este novo partido reagrupando a esquerda do país tem na memória o extermínio – quatro mil mortos – dos militantes da União Patriótica nos anos 1980. Como, em face a esse evento marcante da História política da Colômbia, não considerar que existe “uma lógica de Estado pressionando a sociedade civil à luta armada”?


Desejoso de postular um terceiro mandato [N.doT.: a Suprema Corte o impediu, mas ele elegeu o sucessor, Juan Manuel Santos], o presidente sonha visivelmente em desmantelar a Constituição de 1991. Ele já logrou tê-la revisada, não sem ter comprado os votos de certos parlamentares, para se fazer reeleger em 2006. Para Fernando Cifuentes, procurador da república, “os métodos do presidente, as violações do texto constitucional e a ‘parapolítica’ não respeitam os princípios fundamentais da democracia. Se isso continuar, vamos em direção a uma ditadura totalitária.


A crer nos testemunhos, a chegada de Uribe à chefia do Estado de fato em nada serviu à justiça. “O executivo exerce uma verdadeira pressão sobre nós pelo viés econômico e político, afirma Esperanza Delgado. presidente do Asonal Judicial du Valle del Cauca, um sindicato de magistrados. Nós trabalhamos ‘com as unhas’ e a independência da justiça não é respeitada. Certos procuradores nomeados pelo procurador-geral da nação, ele por sua vez escolhido pelo presidente, devem agir como lhe pedem, senão são destituídos ou assassinados. No domínio da ‘parapolítica’, a Corte de justiça tem as provas e as testemunhas  para julgar e condenar os deputados. Mas, em vez de a deixar fazer seu trabalho, o presidente a ataca sempre que tem a ocasião.”


“Neste país, é mais fácil montar uma guerrilha que um sindicato”


Uma intervenção patente no caso de Mario Uribe, senador e primo do presidente. Acusado e condenado em abril de 2008, ele seria posto em liberdade quatro meses mais tarde pelo vice-procurador geral, “falta de provas”. O procurador Ramiro Marin, que havia ordenado sua prisão, se demite “não porque Mario Uribe foi posto em liberdade, mas porque, durante o processo, a independência da justiça foi pisoteada e, com ela, minha honra pessoal, familiar e profissional. Para mim, era claro que havia provas reais suficientes para proceder à prisão”.




Enquanto a justiça utiliza a lei para tentar lutar contra o absolutismo presidencial, as estratégias do governo para deslegitimar os membros da Corte Suprema emanam da Casa de Nariño, o palácio presidencial. Já faz alguns meses, altos funcionários públicos e emissários paramilitares se reunem. Sua missão? Buscar provas contra os “prevaricadores putchistas, fazendo o jogo da guerrilha e do terrorismo”. É assim que Uribe qualifica esses magistrados e juízes de instrução que diligenciam sobre a “parapolítica”. “Tais procedimentos, afirma Madame Delgado, põem em perigo nossas vidas e toda credibilidade de nossa instituição e de nossa ação. Se o chefe de Estado faz troça da justiça, imagine os delinquentes!”


Greves gerais de servidores da justiça já ocorreram em todo o país, e as paralizações se intensificam tão forte é a indignação. Em setembro de 2008, durante quarenta e quatro dias, um movimento nacional pela independência da justiça e pela revalorização dos salários mobilizou mais de 80% dos efetivos da instituição judiciária. Fechado a qualquer diálogo, o chefe de Estado replicou decretando estado de urgência. Quando não é o exército, é o terror anônimo que neutraliza o descontentamento. Na madrugada de 31 de agosto, uma bomba destruiu o palácio de justiça da cidade de Cali. Além da morte de quatro pessoas, processos instruídos para a condenação de criminosos desapareceram na fumaça. “Nós não nos sentimos seguros, testemunha uma procuradora. O presidente se apressou em dizer que se tratava de um atentado das FARC. Nós nada sabemos. Eu tinha processos sobre narcotraficantes, paramilitares e políticos. As audiências estavam previstas para esta semana. Agora eu não tenho mais nada, meu gabinete foi completamente destruído.” 


Para os sindicatos, esta guerra encarniçada contra o “terrorismo” tem por objeto camuflar os revezes do poder: um desemprego em alta, uma economia debilitada, 70% de pobres e 27% de aumento das plantações de folha de coca. Em tal contexto, por que Uribe encetaria discussões ou negociações com a oposição armada? “Sem as FARC, afirma o sindicalista Luciano Sanin, sua política não faria nenhum sentido. Ele deve manter a ameaça terrorista para justificar suas medidas de ‘segurança democrática’, os gastos militares [6% do Produto Interno Bruto] e a ausência de investimento social.”


Acusados pelo presidente de “desestabilizar o Estado”, os sindicalistas se sentem mais do que nunca ameaçados. “A cultura política da Colômbia sempre recusou o sindicalismo, prossegue Sanin, mas é a primeira vez que temos um regime tão neoliberal e repressivo.” Segundo a Escola Nacional dos Sindicalistas (ENS), dois mil, seiscentos e oitenta e quatro sindicalistas foram assassinados em vinte e dois anos, dos quais quatrocentos e setenta e três durante os dois mandatos de Uribe (quarenta e um em 2008).


A ação dos sindicatos junto ao Congresso americano conduziu os democratas a suspender a assinatura do tratado de livre comércio (TLC) Colômbia-Estados Unidos, principal objetivo de Uribe. Esse revés explicaria em parte a repressão. Mas, para o presidente da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT), Tarcisio More, “o presidente quer [igualmente] realizar o sonho neoliberal: dispor de uma mão de obra barata, taxável à vontade, sem direitos nem sindicatos”, a exemplo das Cooperativas de Trabalho Associado (CTA) onde os empregadores são exonerados de toda obrigação coletiva e de cotizações patronais para a saúde e as aposentadorias.

Limitando os direitos dos empregados e enfraquecendo a força dos sindicatos, esse sistema rege o exército de trabalhadores das empresas açucareiras do Vale do Cauca. Sem nenhuma proteção social, eles cortam a cana de açúcar, à machadinha, quatorze horas por dia, sete dias por semana, por pouco mais de 200 dólares (147 euros) por mês. Quando de uma greve deflagrada em 15 de setembro, quase dezoito mil cortadores exigiram condições de trabalho decentes e o fim do sistema das CTA. Foi preciso uma paralisação de cinquenta e cinco dias para que um acordo melhorando as condições de trabalho fosse obtido com o Ministério da Proteção Social. Entretempos, o governo tendo apresentado esse movimento como um “protesto de delinquentes infiltrados pelas FARC”, o exército interveio violentamente, deixando mais de cem feridos.
 
Os outros setores econômicos não escapam a essa realidade. “De dezenove milhões de trabalhadores, sublinha o Sr. Mora, menos de cinco milhões se beneficiam duma proteção social. Oitocentos e cinquenta mil apenas são organizados, e um de cada cem dispõem de convenção coletiva.” Em cinco anos, o Ministério da Proteção Social, de acordo com a ENS, recusou-se a registrar quinhentas e quinze novas organizações sindicais, confirmando a fala de Sened Niño, presidente da Federação Colombiana dos Educadores (Fecode): “Neste país, é mais fácil montar uma guerrilha que um sindicato.”
 
“Se o chefe de Estado faz troça da Justiça, imaginem os delinquentes!”
 
Expondo sua vida e a de suas famílias, os sindicalistas colombianos exercem de fato uma atividade suicida. “Eu devo me esconder, proteger minha vida e a de meus filhos, mudar cada vez que minha casa é saqueada, e receber ameaças de morte, conta um dirigente. Para minha família, ser sindicalista é a pior coisa que possa acontecer a qualquer um neste país.
 
Quanto às mulheres, a selvageria de que elas são vítimas “se exprime fora dos esquemas que caracterizam a violência política, analisa Pilar Rueda, professora na Universidade de La Salla (Bogotá). Elas são esfaqueadas para dar a impressão de crime passional, elas são vítimas de sevícias sexuais, de trabalhos forçados, e representam 70% da população expulsa”. Em síntese, conclui Rueda, sob pretexto de combater a guerrilha, “os paramilitares combateram uma sociedade civil não armada”.
 
Sem garantias para defender seus direitos, a luta não violenta da sociedade colombiana que quer construir uma real democracia em um país em guerra sobe a aposta. Entretanto, o país transborda de iniciativas individuais e coletivas nutridas pela esperança de obter um dia o apoio da “comunidade internacional”. “Nós não podemos concorrer com a mídia, as armas, o dinheiro, nem com o dinheiro, afirma Lilia Solano, militante dos direitos da pessoa humana, mas nós podemos perseverar em nossa luta. Não sei se somos vítimas de uma loucura coletiva, mas não cessaremos jamais de resistir.”

 

Slavoj Zizek no Democracy Now

AMY GOODMAN: Nos voltamos para a Europa, ondo muitos estão preocupados com a crescente aceitabilidade de retórica e políticas anti-imigrante. Longe de apenas ser expressa pela extrema-direita, a tendência anti-imigrante adentrou o mainstream. A chanceler alemã Angela Merkel disse a uma reunião de jovens membros do partido conservador União Democrática Cristã neste fim de semana que o multiculturalismo fracassou completamente.

CHANCELER ANGELA MERKEL: Em Frankfurt, principalmente, duas de cada três crianças abaixo de cinco anos tem um origem imigrante. Somos um país que, no começo dos anos 60, de fato trouxe trabalhadores convidados à Alemanha. Agora eles vivem conosco, e nós mentimos para nós mesmos por um tempo, dizendo que eles não ficarão e que desaparecerão um dia. Essa não é a realidade. Essa abordagem multicultural, dizer que simplesmente vivemos lado a lado e estamos felizes um com o outro, essa abordagem fracassou, fracassou totalmente.
AMY GOODMAN: A chanceler alemã acrescentou depois que imigrantes são bem vindos na Alemanha e que o Islã é uma parte da cultura da nação nos dias atuais. Seus comentários são vistos como parte de uma guinada à direita e vêm apenas dias após um estudo pela Fundação Friedrich Ebert, de centro-esquerda, descobrir que mais de 30 por cento das pessoas acreditam que a Alemanha é “dominada por estrangeiros.” Um número similar acreditava que os imigrantes tinham vindo para a Alemanha por seus benefícios sociais e “deveriam ser mandados para casa quando o emprego é escasso.” No começo do ano, um livro de um banqueiro influente causou furor, por atribuir o declínio da nacionalidade alemã ao suposto fracasso de muitos imigrantes em se integrarem.
Enquanto os debates prosseguem na Europa, recebo aqui em Nova Iorque um controverso intellectual público que foi chamado de “Elvis da tória cultural.” Sim, estou falando do filósofo e crítico esloveno Slavoj Žižek. Ele é o autor de mais de trinta livros. Seu mais recente, da Verso, acaba de sair, e se chama “Vivendo no Fim dos Tempos”. Em recente artigo para o jornal londrino The Guardian, ele argumenta que “através da Europa, a política da extrema direita está infectando a todos com a necessidade de uma política anti-imigrante ‘razoável.’”
Bem, Slavoj Žižek, bem vindo ao Democracy Now!
SLAVOJ ŽIŽEK: Feliz de estar aqui. Obrigado.
AMY GOODMAN: Junte tudo para nós, desde a Angela Merkel falando sobre o fim do multiculturalismo – e mesmo o que isso significa, “multiculturalismo” – aos protestos em massa que estão ocorrendo na França e mais além.
SLAVOJ ŽIŽEK: Eu realmente penso que geralmente nós europeus somos um pouco arrogantes, como se fôssemos o modelo de tolerância e por aí vai. Agora algo horrível aconteceu, e o que é realmente preocupante é que não apenas os países, as partes da Europa, que geralmente associamos à intolerância, como o sudeste da Europa, Romênia, Hungria e tal, são inclusive os próprios modelos de tolerância: Holanda, Noruega e tal.
O que realmente me preocupa é… vou dizer algo muito simples, quase lugar-comum, que, você sabe, para mim, eu sou nisso sempre pela censura. Através da democracia, tolerância, num sentido autêntico, significa que você simplesmente não pode dizer certas coisas publicamente. Você é considerado… você sabe, como se você disser publicamente uma piada anti-semita, sexista, é inaceitável. Coisas que eram inaceitáveis dez, quinze anos atrás são agora aceitáveis. E o que realmente me preocupa é como a extrema-direita, o que era vinte anos atrás o domínio da extrema-direita, está ditando… mesmo se são uma minoria, estão ditando a agenda geral.
O truque retórico típico aqui é em dois movimentos. Primeiro, você obviamente condena a extrema-direita: “sem lugar na nossa democracia desenvolvida”. Mas então você acrescenta: “Mas eles estão abordando as reais preocupações das pessoas,” e tal e tal. Então, precisamente – este é o truque sofisticado sujo – de modo a prevenir demonstrações de ódio, temos de controlar a situação. Você sabe que ele era politicamente próximo à social-democracia.
AMY GOODMAN: Que significa?
SLAVOJ ŽIŽEK: Que significa que eles… realmente, a extrema direita impôs seu tema sobre todos. Mas deixe-me dizer agora algo que pode lhe surpreender. Eu, é claro, não aceito essa lógica horrível – temos que fazer mais modestamente para prevenir demonstrações reais – mas eu penso que há uma falha nessa visão padrão, liberal, multicultural, que quer dizer que todo grupo étnico, qualquer coisa, em si mesma, tudo que precisamos é de um arcabouço legal neutro garantindo a coexistência de grupos. Desculpe se eu choco alguém, mas eu penso que de fato precisamos do que os alemães chamam Leitkultur, cultura prevalente. Apenas ela não deveria ser definida nacionalmente. Deveríamos lutar por isso. Sim, eu concordo com os direitistas. Nós precisamos de um conjunto de valores aceitos por todos. Mas quais serão esses valores, meu Deus? Nós negligenciamos isso um pouco. Você sabe que não é apenas esse modelo liberal abstrato: você tem seu mundo, eu tenho meu mundo, nós apenas precisamos de uma rede legal neutra – como vamos educadamente ignorar um ao outro.
Meu segundo argumento seria que é absolutamente crucial como essa explosão anti-imigrante está ligada ao recuo da política esquerdista, especialmente em matéria de economia e tal. E como se a esquerda, estando obcecada pela ideia de que não devemos parecer reacionários no sentido econômico, o que é dizer “Não, não, não somos os velhos sindicalistas da classe trabalhadora, somos pelo capitalismo digital pós-moderno” e tal. Eles não querem tocar a classe trabalhadora ou as assim-denominadas pessoas comuns de baixo. E aqui os direitistas entram. Você sabe, o horrível paradoxo é que, fora alguns pequenos partidos esquerdistas marginais, a única força política séria na Europa hoje que ainda está apta a apelar às pessoas trabalhadoras comuns são os anti-imigrantes de direita? Então você vê, nós, os esquerdistas não temos direito algum, absolutamente direito algum, de assumir essa postura arrogante de pessoas tolerantes ofendidas que estão horrorizadas… não, deveríamos fazer a pergunta, como permitimos o que está acontecendo.
AMY GOODMAN: Eu quero perguntar a você sobre essa pequisa do Christian Science Monitorque mostrou que 13 por cento dos alemães apreciariam a chegada de um novo Führer. Mais de um terço dos alemães sentem que o país é “dominado por estrangeiros.” Aproximadamente 60 por cento limitariam a prática do Islã, e 17 por cento acreditam que judeus têm influência demais. Treze por cento apreciariam a chegada de um novo Führer.
SLAVOJ ŽIŽEK: Penso… agora de novo, talvez isso a choque, mas, você sabe, não exagere o significado disso. Não, não, eu não penso que… OK, minha primeira tese, que a Alemanha – e isso o faz ainda mais trágico – a partir de minha própria experiência, a Alemanha é, por exemplo, muito mais eficientemente, na vida quotidiana, tolerante do que a França, por exemplo, eu alego isso com toda minha responsabilidade. Não é tão geral quanto possa parecer. Vá à parte mista da ex-Berlim Ocidental e tal, você ainda vê colaboração maravilhosa. Não se preocupe com isso. O que estou precisamente dizendo é que não deveríamos ficar fascinados demais com esses detalhes.
Nós deveríamos fazer perguntas mais fundamentais, como isso é, para mim, apenas parte de uma guinada geral, o que menciono no texto a que você gentilmente se refere, como todo o mapa político da Europa está mudando de uma forma horrível. Para abreviar uma história longa, bem concisamente, até agora, tínhamos a situação padrão que vocês têm até agora aqui: um grande partido de centro-esquerda, um grande partido de centro-direita – eles são os únicos partidos que se dirigem a toda a população – e então pequenos partidos marginais. Agora, mais e mais na Europa, outra polaridade está emergindo: um grande partido capitalista liberal, que pode mesmo ser em temas sociais como aborto, direitos femininos, relativamente progressistas – puro, chamemos, partido capitalista – e a única oposição séria são os nacionalistas imigrantes… anti-imigrantes. É algo horrível que aconteceu. Os anti-imigrantes estão se estabelecendo como a única autêntica – claro, eles não são autênticos politicamente, mas no sentido de realmente percebidos como autêntica – voz de protesto. Se você quer protestar, o único modo de fazê-lo efetivamente na Europa é esse. Então eu penso ser uma questão de vida ou morte uma esquerda ligeiramente mais radical emergir.
Sabe o quê? Walter Benjamin, o grande acadêmico da Escola de Frankfurt, ele disse algo que deveríamos sempre ter em mente hoje. Ele disse: “Atrás de todo fascismo, há uma revolução fracassada.” Serve, mais do que nunca, para nós. Como, tome… tomemos seu próprio país, Kansas, que é agora a matriz do fundamentalismo cristão. Como Thomas Frank demonstrou em seu livro, Deus meu, até vinte, trinta anos atrás, Kansas era o celeiro de todos movimentos de massa radical-socialistas e tal. O mesmo na Europa. Isso deveria nos preocupar, não essa arrogante… que sempre tem uma conotação de classe negativa. Quando as pessoas atacam o racismo das pessoas comuns, é sempre como nós liberais de classe média alta desprezando pessoas comuns. Deveríamos começar a perguntar a nós mesmos o que fizemos de errado.
AMY GOODMAN: E já que vem aqui pros Estados Unidos, sua avaliação do movimento Tea Party?
SLAVOJ ŽIŽEK: É um exemplo perfeito do que eu estava falando. Eu tive quase – eu uso os termos um pouco ironicamente, mas ainda assim – uma espécie de epifania quando, um ano atrás ou algo assim, quando eles organizaram, republicanos das bases, todos eles… as primeiras tea parties contra gastar tanto dinheiro com bancos. Você sabe o que eu estava fazendo? Eu estava sentado em um quarto de hotel, trocando de canal na TV. Na Fox News, era uma transmissão ao vivo de uma tea party no Texas onde um cantor, tipo um falso cantor folk, cantava uma canção anti-Washington, anti-gasto governamental. Na PBS, havia um documentário sobre o grande ícone esquerdista Pete Seeger. Eu fiquei chocado com como as palavras, não obstante os significados político delas, eram quase o mesmo. Ambos cantavam sobre pessoas comuns, pequenas, sendo exploradas; caras maus e grandes, banqueiros em Washington, e tal, Wall Street, e tal. Essa é a tragédia. Essa é a tragédia no mais essencial.
Você deve saber melhor do que eu. Eu não sei se… até onde eu posso julgar a situação, foi depois do Carter, com Reagan, que esse movimento de base e tal foi mais tomado pela direita, tipo, o tempo da esquerda, mobilização de massa radical esquerdista tinha passado. Quando alguém te diz: “Oh, tea party, oh, de um protesto local de base,” seu primeiro “avaliamento” é: estão os direitista fazendo isso de novo, ou o quê? Este é um momento muito triste. Mas sem motivos – espero deixá-lo claro – para o tradicional ataque à América Europeu. E isso é, eu acho, parte de um processo global do que chamo desaparecimento do… o que filósofos como Kant chamaram uso público da razão.
Eu ouvi com surpresa e grande prazer o relato de como aqui nos States as universidades, que são financiadas com dinheiro dos contribuintes, são mais e mais usadas pelas empresas. Na Europa, somos ainda piores. Te direi por quê. Porque eles expuseram claramente o programa na Europa. Não é apenas este problema concreto – grandes empresas controlando, através de doações em dinheiro, as universidades. É algo mais fundamental ocorrendo. É uma bem organizada campanha pan-europeia para converter a nós cientistas, humanos ou naturais, em experts. A idéia é: temos um problema – digamos o vazamento de óleo na Louisiana – oh, precisamos de experts para nos dizer como contê-lo. Temos uma desordem pública, manifestações; precisamos de psicólogos e tal. Isso não é pensamento. Nós deveríamos redefinir e questionar os próprios problemas. É essa a percepção correta do problema? É esse realmente o problema? Nós deveríamos formular questões muito mais fundamentais.
Aqui, pode lhe surpreender, mas eu ainda tenho simpatia pelo Obama. Mas no meu modo de ver, uma se seus maiores fracassos não é no Afeganistão. Lá, a situação é muito complexa. Eu não sei o que eu teria feito. É como ele reagiu ao vazamento. Sabe por quê? Porque ele jogou esse jogo legal, moralista, como se… você sabe, tipo, eu vou chutar a BP – sabemos onde – eles farão… desculpa, mas em uma tragédia dessas proporções, você não pode jogar esse jogo legalista, quem é culpado e tal. Você deve começar a fazer perguntas mais gerais. A BP é má, mas estamos cientes de que também poderia ter acontecido com outra empresa? Então o problema não é a BP. Os problemas são muitos mais gerais – a estrutura de nossa economia, por que estamos vivendo assim, nosso modo de vida e tal e tal. Eu penso ser esse o problema hoje. Estou dizendo isso ironicamente como um esquerdista. Temos talvez até anti-capitalismo demais, mas nessa sobrecarga de anti-capitalismo, mas sempre nesse sentido legal, moralista: ooh, aquela empresa está usando mão-de-obra escrava infantil; ooh, aquela empresa está poluindo; ooh, aquela empresa está… aquela empresa, qualquer coisa, explorando nossas universidades. Não, não, o problema é mais fundamental. É sobre como todo o sistema funciona para fazer as empresas fazerem isso. Não moralize o problema, porque se você o moralizar, você pode dizer nos States o que quiser. Já em filmes como Dossiê Pelicano, você se lembra, sem problema, grande empresa, até o presidente dos EUA pode ser corrupto. Não, este excesso de anti-capitalismo é um falso excesso. Deveríamos começar a formular questões mais fundamentais.
AMY GOODMAN: Slavoj Žižek, seu mais recente livro, por que você o batizou Vivendo no Fim dos Tempos?
 SLAVOJ ŽIŽEK: Obviamente, a ideia é ironicamente se referir ou evocar essa metáfora apocalíptica, não importa, em 2012, nos aproximamos do fim dos tempos. E, é claro, meu argumento não é – não sou esse tipo de crente – oh, temos dois anos para viver, e então qualquer coisa vai acontecer. Mas não obstante, eu penso que todo o… em diferentes níveis, nos aproximamos lentamente – sem pânico por ora – uma espécie de ponto zero. No sentido de… olhemos a ecologia. Está claro que quando me dizem: “Oh, mas você é um utópico,” eu lhes digo: “Não, a única utopia de verdade é que as coisas possam seguir como estão indefinidamente.” E é muito estranho como nos comportamos. De um lado, não acreditamos realmente que haverá uma catástrofe. Estamos divididos. Sabemos disso. Ao mesmo tempo – isso é ideologia da vida quotidiana – para deixar nossa consciência limpa, já notou como somos chantageados nisso no nível quotidiano? “Oh, você jogou fora aquele jornal. Não, você deveria levar…”
AMY GOODMAN: Dez segundos.
 SLAVOJ ŽIŽEK: Sim. Então, o que estou alegando é que estamos nos aproximando de um certo ponto zero. Temos de agir. Se não, não quero viver numa sociedade que estará aqui em vinte anos, digamos.
AMY GOODMAN: Slavoj Žižek, quero agradecê-lo pore star conosco, filósofo esloveno, autor de muitos livros. Seu mais recente está sendo lansado pela Verso Books. Se chama Vivendo no Fim dos Tempos.

Yes – Close to the Edge (fragmento)

Uma bruxa experimentada poderia chamar-te do fundo de sua desgraça.
E rearranjar teu fígado para a mente de sólida graça.
Alcançar a tudo com música vinda célere e diastante.
Então provar do fruto do homem, lembrar a perdição de todos contra o instante.E estipulando pontos para lugar algum, conduzindo todo e cada um.
Uma gota de orvalho pode nos exaltar como a música do sol.
E remover a planície sobre a qual estamos a nos mover.
E escolher a rota que estás a percorrer.No fundo e no Fim, Por volta da Esquina
Não tão cedo, não tão cedo…
Perto do Limite, no Fundo de um Rio
Não tão cedo, não tão cedo…