Tá na mente!

Agridoce

Essa tela do computador está se mexendo? Era o fundo da área de trabalho: uma colina verdejante contra um céu azul claro, e um redemoinho se formava embaralhando as cores. É claro que eu sabia a resposta, mas queria deixar claro a todos que o ácido estava fazendo pleno efeito. A reação foi de gargalhada geral, obviamente; aquele riso nervoso mas ao mesmo tempo espontâneo de quem está tentando lidar com um certo desconforto e quase que tentando se convencer de que está se divertindo. No sofá ao lado do meu estava o Zito, o entusiata lisérgico que conseguira os micropontos, enquanto o Johny percorria os discos tentando escolher alguma coisa menos fritação, o que foi fonte de alguma disputa pois o Zito também era entusiasta das coisas mais absurdas, e se sentia muito à vontade escutando improvisação livre enquanto nós outros tínhamos receio de cair numa bad com aquela maluquice. O único consenso naquele momento era que era a hora de pitar mais um, para potencializar a onda que estava chegando com tudo; como o outro morador da casa, a minha, não fumava, precisávamos ir até os fundos.

Havia umas cadeiras metálicas e nos instalamos em um patamar mais elevado, mas o Johny pôs sua cadeira muito perto da borda; eu avisei: você está quase caindo, o Zito mandou uma de suas tiradas: não estamos todos? Ele mesmo estava terminando os trabalhos: tinha mais hábito em operar em tais condições adversas; aquilo me lembrou uma história. Um dia estava na praia, tinha tomado um doce, e eu estava fumando tabaco de enrolar, aí eu com muita dificuldade consegui colocar o tabaco na seda, mas bateu uma onda forte, e eu fiquei minutos segurando aquilo, sem conseguir apertar, rindo… Foi o mesmo dia dos mosquitos? Exatamente, louco aquilo, cara, a gente desesperado pra ir embora, e os caras jogando capoeira, eu dizia que não ia adiantar nada, mas eles estavam lá, sossegados… Rimos gostosamente. O banza começou a circular e o Zito começou a contar de uma outra trip que teve, quando outro colega viajou e deixou a casa como laboratório lisérgico por uns dias. Sei que eu entrei no banheiro e abri a torneira, então eu ouvia a água cair de uma altura enorme, e, quando eu vi, a pia estava mesmo derretendo, chegando até o chão. Nós ríamos enquanto ele fazia uma contorção pra imitar a pia.

Então o beque acabou e eu saquei minha carteira de cigarros e constatei que só havia dois deles. Caras, precisamos falar sobre alguma coisa. Eu preciso ir comprar cigarro. Putz! A reação inicial foi de desânimo, mas todos acabaram concordando que uma caminhada faria bem. Foi difícil conter o riso para passar pelo porteiro, mas ganhamos a rua. Eu estava viajando, percebendo detalhes inéditos das casas pelas quais passava sempre, e quando me dei conta os outros estavam em uma discussão sobre pós-modernismo; não tinha o que dizer então fiquei ouvindo por um tempo. O Zito contava de um livro que tinha lido, em que o autor havia publicado o artigo mais absurdo possível e recebido críticas entusiásticas. E ninguém pode admitir que o rei está nu, arrisquei. Isso mesmo. Fiquei me sentindo inteligente. Meu corpo parecia uma máquina que eu nunca havia manejado, e mesmo eu que sempre fui rígido andava me requebrando, queria senti-lo; de repente tive vontade de abraçar os dois, que entenderam prontamente.

O caminho para o posto que estava aberto passava por dentro da universidade, e de repente demos de cara com o Supimpa, que era colega do Johny na Sociais. Ele não demorou pra sacar a movimentação, e riu, cúmplice; avisou que estava acontecendo uma festa lá no instituto. Mais uma vez houve dissensão: o Zito e o Johny não queriam se sociabilizar, eu era todo pilha. Decidimos que o melhor era fumar um, e passamos a discutir o melhor lugar ali por perto; eu sentenciei que não precisava ser nenhum lugar especial, e fizemos um círculo em um estacionamento por ali. O Supimpa disparou a falar – sabíamos bem o porquê – e usou várias vezes a palavra que virou seu apelido; foi ótimo para nós que não queríamos mesmo falar àquela altura, numa onda de introspecção. Eu fechava os olhos e via cores dançando; estava absorto com elas quando me cutucaram com o beque aceso. Eu começava a fazer umas vocalizações que não significavam nada, achava aquilo divertido, uma brincadeira com fonemas. Fumamos e nos despedimos do Supimpa, que precisava passar em casa – sabíamos bem o porquê – mas ia voltar pra festa.

Passamos perto da festa no caminho, estava abarrotada. Os dois reafirmaram a preguiça de enfrentar aquela multidão, mas eu tinha um motivo para ir, alguém que eu queria encontrar e certamente estava lá. Chegamos ao posto; era uma loja de postinho como qualquer outra, mas todas aquelas luzes e aquelas cores foram a disneilândia para nós: cada neon, cada rótulo de produto, até mesmo um boneco de fibra de vidro na entrada, era motivo para espanto ou riso. Eu tratei de ficar sério o bastante para pedir e pagar os cigarros, mas ficou claro que os poucos clientes que estavam na loja observavam nosso comportamento; e isso era parte da graça. Eu que fumara o último antes de encontrar o Supimpa, acendi com gusto o primeiro cigarro do maço, mas logo em seguida senti repulsa àquilo; essas coisas de ácido, pensei que não havia motivo algum para eu me envenenar daquele jeito. Joguei o cigarro fora e o maço; pensava se devia jogar o isqueiro: e o beque, não vai parar? Você fez a gente vir até aqui comprar o cigarro, pra jogar fora? Acordei. Guardei o isqueiro instintivamente e dei qualquer reposta.

Mas a partir dali comecei a entrar numa bad de que precisava para de fumar, e tomar um doce parecia errado. Foi pensando nessas coisas e sem falar nada que caminhei até o ponto mais próximo de festa, quando a conversa inevitável aconteceria. Eu estava prestes a desistir e voltar pra casa quando o Zito disse que topava ficar meia hora; o Johny relutou, dizia que estava muito chapado, mas aquiesceu. Aquilo me animou, deixei as neuras um pouco de lado pra pensar nessa garota; a gente sempre se encontrava e ela era muito simpática, estava determinado a fazer meu lance, eu sabia que ela também tomava doce então não importava. Chegamos à festa e encontramos algumas pessoas antes de conseguir uma cerveja; a comunicação era monossilábica, apenas com um deles abrimos o jogo, e houve muita risada. Com as latas nas mãos, circulamos, e eu eventualmente avistei a garota em questão; ela usava um vestidinho colorido, que gracinha. Ela estava falando com um cara e eu despistei; já estávamos na segunda cerveja quando eu topei com ela de novo, sozinha.

A primeira coisa que eu disse foi sobre o doce. E vem para um lugar desses? Você é louco. Foi desanimador, fiquei nervoso, ela fumava, eu pedi um. A bad começou a voltar; eu pensei em me despedir e correr pra casa, mas uma conversa se estabeleceu e fui ficando, até quando dei qualquer indireta meio atrapalhada e fiquei constrangido. Meu, cê tá muito louco, vai pra casa. A gente continua outro dia, foi minha última tentativa. Melhor fingir que nunca aconteceu, ela ficou séria. Depois é que fui saber que ela estava namorando outro amigo meu, meio em segredo, por algum motivo. Só quis pegar mais uma cerveja antes de ir, e os dois já estavam impacientes. Fiquei com aquela derrota e com um vago sentimento de culpa ocupando minha cabeça na caminhada de volta. Concordamos em ouvir música bem tranquila para fumar mais um e descansar, foi um ponto alto da trip, na verdade, as paredes balançavam. Obviamente não ligamos e fumamos na sala mesmo. Na manhã seguinte parei com o cigarro, mas sabe como é, tem a última vez e a as últimas vezes, e eu voltaria a fumar tanto um quanto o outro. Mantive uma boa amizade com ela, e isso é bom.

Fronteira I

Encontraram um hotel vagabundo perto da rodoviária. A viagem havia durado um dia inteiro e estavam exaustos; haviam percorrido a estrada considerada a mais perigosa do país, haviam errado o caminho e perdido meia hora, haviam cruzado uma tempestade e caído em inúmeros buracos. A bagagem era coisa pouca, deixaram-na no quarto simples e desceram para procurar um boteco. A mocinha, bonita até, da recepção, aconselhou a evitar as redondezas. Não estavam dispostos a ir até o centro, não antes de tomar banho e tudo, ao menos, então escolheram uma birosca onde parecia que não seriam incomodados.

Enquanto o garçom servia os copos, Mauro (esse era o Fino) expunha seus planos. São quase dois anos procurando emprego, fazendo bico, Bisnaga (esse era o Carlos), isso vai ser minha salvação: eu copio os DVDs em casa, tranquilo, tem um bando de gente mais desesperada que eu pronta pra percorrer os bares vendendo, e eu ainda posso trabalhar aqui e ali, de encanador, sei lá. Brindaram batendo os dois copos entre si e cada um na boca da garrafa. Que nunca falte! – um – Nem mulher nem cerveja! – outro – Nem a brizola! – o primeiro, perto do ouvido do outro. Trocaram um sorriso cúmplice e seguiram em voz baixa, Bisnaga instigando: Cara, aqui rola uma da boa, se a gente descobrisse… Meu, eu não tenho grana, há muito tempo só cheiro se-me-dão. Você nunca cheirou muito, né? já eu não fico sem essa merda; eu podia ser menos fodido não fosse isso. Para então, porra! Vou parar, pode deixar.

Olharam em volta, o bar ia se enchendo aos poucos de moças mestiças com as pernas de fora, rapazes com roupas exuberantemente estampadas e correntes, um senhor com roupas desgrenhadas bebia pinga sozinho, e parecia haver começado cedo. Tocava algum forró com batida eletrônica e um locutor anunciava o nome da banda a cada pausa da letra, seguido de um efeito especial datado. Quando é que vamos nas cataratas, quis saber Mauro. Meu, amanhã a gente resolve nossas fitas e aí a gente vai no sábado, domingo pega o trecho. Eu sempre quis conhecer as cataratas, o amigo acrescentou com ar pensativo, e prosseguiu, como é essa treta aí do seu chefe, você só falou que ia buscar alguma coisa, é um contrabando doido, não? Mais ou menos, Carlos tentou se defender, é um equipamento de som que nem vende no Brasil, tá ligado? Coisa de fanático, cara, ele gastou dez mil dólares nessa porra, ele encomendou da última vez que veio aqui. E você veio buscar agora. Exatamente. E já está pago ou a grana está contigo? Carlos fez um gesto desconversando. Ele confia em ti, hein. O outro só franziu o cenho em reprovação. E a alfândega? Vai passar de barco, sussurrou o outro. Ma-lu-co!

À medida que a cerveja ia fazendo efeito – era a segunda -, os dois foram se soltando, prestando mais atenção às moças – o que era provavelmente uma péssima ideia -, e o Fino, que era mesmo um negro bem magro, aproximou-se da jukebox e começou a analisar as opções. Carlos esticava-se para trás e fechava os olhos, então não percebeu a comoção que se formou quando o amigo pôs a moeda no aparelho. Ele voltou a se sentar e ainda tocou mais uma música, uma balada americana antiga, antes que entrasse o rap que Mauro escolhera. A reação foi imediata: três jovens que estavam em pé junto ao balcão vieram para cima da mesa dos forasteiros, ameaçando-os com uma fala quase ininteligível. Mauro entendeu a pergunta sobre ser “rei do terreiro”. Lembrou-se da moça da recepção; estava entre tentar dialogar e pôr as pernas para funcionar, e fez a escolha potencialmente arriscada. Calma, gente, deixa pra lá, manda tirar… Quando percebeu que os locais iam só tagarelar no patuá deles, Carlos ficou menos tenso; arriscou: Olha, mano, nóis também é da quebrada, tá ligado, então nóis é que nem vocês, tá ligado? Ante o silêncio, prosseguiu. Deixa eu pagar uma cerva pra vocês. Sentaram-se, e várias cervejas depois foi inevitável que o assunto viesse à tona, e foi obviamente Carlos a fazer a pergunta: sabem onde conseguir um pó?

Fronteira II

Era uma capinha de CD de um grupo de pagode. O mala limpou com um pano talvez ainda mais sujo e jogou a brizola em cima. O Fino repartiu duas carreiras com uma gilete quebrada que tirou da carteira e fungou uma com cada narina. É boa, foi a sentença, é ótima, veio como reforço. Sacou a nota de cinquenta que o Bisnaga tinha conseguido; dele mesmo só restavam trinta e algumas migalhas, mas não pensou duas vezes, pediu os oitenta em pó. Não lhe veio à mente que precisava pegar um táxi para voltar, ou mesmo descolar um troco para o outro mala, o do bar, que o levara ali. Perguntou se podia voltar e pegar mais, que fosse discreto foi a única exigência. Desceram da laje e, uma vez na rua, onde um carro com o som ligado em alto volume irradiava qualquer sucesso radiofônico, Mauro se deu conta de que estava na mão, sem um puto. Ligou para o amigo.

Carlos chegou ao hotel e foi correndo verificar a bagagem, estava tudo em ordem, inclusive, e principalmente, o pacote vultoso de cédulas. Nunca lhe passou pela cabeça sacanear o chefe. Até porque seria uma péssima ideia: tratava-se de um dos chefes do esquema de bancas populares do centro, diziam que até trabalho escravo ele usava em suas confecções. A ele só cabia cobrar dos comerciantes, e nunca foi de fazer perguntas. Ligou a TV e assistia a qualquer bobagem, ansioso pela volta do parceiro com a farinha, quando o telefone tocou. Deu um esporro no Fino, mas calçou o tênis e desceu para esperar um táxi. Chegou à padaria onde haviam combinado, não sem errar o caminho duas vezes e apesar dos protestos do taxista, que temia aquela área. O mala do bar ainda voltou com eles, levou seu troco e os dois subiram.

O hotel era tão vagabundo que o espelho era daqueles de feira, pendurado por um prego. Foi devidamente retirado para uma função mais nobre do que lembrar aos rapazes de sua feiura. Deram cada um dois tiros e desceram para voltar ao mesmo bar e tentar comprar um uísque. A garrafa parecia original, então gastaram uma grana, ou o Bisnaga gastou, com um uísque escocês. Se era autêntico ou não, nem perceberam, animados que estavam, conversando sobre os planos da viagem e para o futuro. Carlos elogiava a droga, e aos poucos a mesma ideia que o amigo tivera e não ousara verbalizar ia tomando conta dele. Ele tinha contatos em Sampa, não teria dificuldade de passar aquilo adiante. Mas um pequeno problema persistia: e seu chefe? seu equipamento de áudio?

De repente quedaram olhando um para o outro longamente. Fino olhou para a mala. Não, nem pensar! Cara, pensa bem… a gente consegue quatro, cinco vezes mais em Sampa, isso sem batizar, imagina. Eu não posso, o que faço com meu chefe? Silêncio prolongado, após o qual Mauro teve uma epifania. Não vamos para Sampa, vamos para o Rio. Ele já tinha morado lá e tinha ainda contatos. Depois a gente vai pra fora, pra Europa. Exatamente. Era cedo, Fino procurou na agenda do telefone e achou um número, discou. Foi uma conversa em código, mas dava para perceber que o projeto se encaminhava. Pronto, agora quem decide é você; o chefe é seu, é o seu na reta. Ele te espera quando? Falei que voltava até terça. Então! dá tranquilo! Carlos bebeu uma boa golada do uísque, e ficou fitando o infinito.

Fronteira III

O Fino saiu do banho falando rápido, pondo pilha para procurarem uma balada. Seu amigo pediu silêncio: estava passando o noticiário e ele havia escutado a chamada de uma notícia que interessaria muito aos dois. Bisnaga não quis adiantar o que era, mas tinha um sorriso estampado no rosto. O outro insistia, mas só recebia uma mão espalmada que pedia calma. E então a âncora, com seu cabelo loiro curto e sua postura robótica, começou a dar detalhes da greve da polícia federal. Dentre as atividades prejudicadas, a voz feminina narrava por sobre imagens de um cão policial, estava a revista nas fronteiras. Fino ofereceu a palma da mão direita com o braço erguido e o outro correspondeu, segurando firme a mão do amigo. Não havia mais volta.

Pediram à recepcionista que providenciasse um táxi, e ficaram um tempo sem jeito de falar a respeito, excitados; deram mais dois tiros, cada, e desceram. No carro, falaram de futebol com o taxista, que recebeu a ordem de achar um bar tranquilo. Sentaram-se e olharam muitas vezes em volta. Era bem diferente do último em que haviam estado, tinha decoração caprichada, plantas, iluminação aconchegante, tocava uma bossa nova. Pediram uma cerveja e, tão logo o garçom serviu e se afastou, Mauro esfregou as mãos e explicou. Eu conversei com ele, sobre pegar mais, entende? Não estava nem pensando em roubar a grana do seu chefe… Ele estava entusiasmado e falava alto o bastante para ser escutado, Bisnaga o advertiu com uma mão e com o cenho. Mas aí, prosseguiu sussurrando, ele começou a falar que 50g era tanto, 100g era tanto… Quanto é que você tem? Bisnaga fez com as duas mãos e o parceiro fez com dois dedos.

É loucura… meu chefe, minha mãe, minha mina, como é que explico? Cara, isso tudo se resolve; essa é uma chance que não dá pra desperdiçar. Mano, eu nunca fui bandido! Como não, você trabalha pra máfia! Fala baixo, caralho! Fino se desculpou, tomou um gole do chopp. Tem mais! A revista está parada aqui; e lá? O outro parou, pensativo. É pouca coisa, cara, vai na roupa… É um risco grande, ainda. Não é, meu, eles estão atrás dos peixes grandes, fica tranquilo, porra! Tentaram falar de outros assuntos pelo resto da noite, mas a tensão estava latente. Bisnaga pagou a conta e seguiram o plano do Fino: ele se lembrava do nome do bairro e do da padaria, foi para lá que o táxi foi. Enquanto o amigo mais receoso andava de um lado pro outro, o mais pilhado voltou ao sobrado, pegou mais cinquenta – às custas do outro – só como pretexto para combinar o grande corre para o dia seguinte: duzentos, dez mil, três da tarde. Palavra de homem? Palavra de homem, porra!

Os dois precisaram caminhar até uma rua movimentada pois não tinham o telefone do serviço de táxi, e foi com o coração na mão, especialmente o Bisnaga, que chegaram ao hotel. A recepcionista estava dormindo e foi preciso bater com força até que abrisse, com uma cara entre o espanto e o reproche. Ainda sobrava um pouco do uísque, e é fácil deduzir que foram dormir quando o sol já nascia, após uma fase de rememoração de quase todas experiências divertidas que já haviam vivido juntos. Perderam obviamente o café da manhã do hotel, e até almoço foi um pouco difícil achar quase às duas, de modo que se dirigiram diretamente para o tal sobrado após a refeição. Desta vez, Bisnaga fez questão de ir junto, afinal o dinheiro era “dele” de certa forma. O traficante não gostou nem um pouco, ficou intranquilo, revistou os dois, conversou com seus comparsas, mas eventualmente a negociação foi concretizada. Andaram novamente até conseguir um táxi, pois não queriam chamar qualquer atenção, depositaram o tijolo envolto em fita na mala e seguiram primeiramente a um bar para um chopinho e depois para uma lan house de onde compraram as passagens. Rio-Lisboa, dali a dois dias.

Fronteira IV

Carlos dirigia seu próprio carro; nem tão próprio assim, havia sido sido emprestado pelo chefe, mas há tanto tempo que era como seu. E ele estava prestes a trair…, como assim, ele já havia traído sua confiança. Mauro era amigo de longo tempo, mas dar ouvidos a ele era sempre se meter em encrenca; esta era apenas a maior delas. Mauro, o Fino, não estava arriscando exatamente nada, largava um programa de aprendiz que podia ser a ponte para o emprego que há tanto buscava, e nisso pensava na estrada. Foi uma viagem tensa: pouco conversaram. Passaram por três postos de polícia, em que apenas rezaram, maus católicos que eram, para não serem parados; e tiveram sorte. Chegaram ao Rio e buscaram logo um albergue que o Fino já conhecia. Era bem na Lapa e o Bisnaga concordou na hora em tomar um chope. Domingo à noite, acabaram se sociabilizando, e calhou de ser com duas garotas mais jovens que estavam no albergue, uma alemã e outra austríaca, embora apenas Carlos soubesse um inglês rudimentar. Ainda assim foi seu amigo que tenha, mais por gestos que por palavras, conseguido informações sobre Lisboa, que a austríaca conhecia: bairro alto é onde deveriam se informar. O Fino ainda se entusiasmou e acreditou que conseguiria passar a noite com a vienense, mas sentiu logo o choque de cultura. Dormiram bem.

De manhã, conseguiram os saquinhos e a fita para acomodar todo o flagrante nos casacos que haviam trazidos prontos para o frio do sul; resolvido isso, foram à praia, ali em Copacabana. os dois fizeram telefonemas explicando que iam demorar a voltar, cada um com uma desculpa bem ou mal elaborada; a cada momento ainda trocavam olhares para confirmar o própósito, mas a resposta era sempre, por parte do Fino, principalmete, vamos em frente. O voo era naquela noite. Chamaram atenção no aeroporto, de casaco, mas não foram incomodados e embarcaram, ambos suando frio, o Bisnaga sendo mais inábil em disfarçar. Os assentos eram separados; Carlos sentou-se ao lado de uma professora de inglês bastante comunicativa que o ajudou a relaxar e Mauro ao lado de dois senhores que não quiseram muita conversa, o que palavras cruzadas compradas no aeroporto ajudaram a compensar. Ambos dormiram no voo, e o teste da alfândega, de manhã bem cedo, os reuniu. A conversa na fila foi truncada, falsa, nervosa, Mauro talvez mais inseguro, e com isso falante, que Carlos; mas tudo não passou de apresentar os passaportes – que haviam levado para ir apenas ao Paraguai. Suspiraram e trocaram um sorriso cúmplice; apenas no banheiro trocaram o cumprimento tradicional e um abraço forte.

Descobriram rápido que o idioma local não era exatamente o mesmo, mas foram informados de que não havia hotéis no bairro alto, mas a moça da lanchonete indicou um no chiado; dirigiram-se até lá e se instalaram. Era perto de meio dia, conseguiram almoçar – bacalhau, Carlos fez questão – ali perto, e voltaram para dormir até a hora em que o sol invernal se punha. Pediram direções e não foi difícil chegar ao bairro alto. Encostaram no primeiro bar que pareceu convidativo, o movimento ainda era pequeno. Aos poucos, uns tipos estranhos começaram a circular de cerveja na mão, desde mulheres de cabelo colorido a homens engravatados. Eu falei que ia dar tudo certo, Fino arriscou. Quase tudo, Bisnaga respondeu, tem uma fase importante pra resolver. Tinham dado uns tiros antes de ir ao hotel, e a cerveja estava dando vontade de reforçar. Vamos voltar pro hotel, disse o mais prudente; vamos aqui no banheiro, o mais pilhado. Vai você, então. Pois Fino foi flagrado por um funcionário do bar e os dois foram expulsos. Andaram até o hotel, cheiraram e voltaram a passos apressados, desta vez com foco no seu objetivo.

Circularam um pouco e detectaram um grupo que parecia mais propenso a conhecer os meandros do movimento local. A gente é brasileiro, tudo bem? É, chegamos hoje… A conversa caiu inevitavelmente em futebol inicialmente, passou por outros assuntos até que o Fino mandou: e uma brizola, como é que se consegue? Ninguém entendeu, obviamente, mas um gesto do indicador martelando a lateral do nariz completou a comunicação. Um deles os mediu, olhou para os parceiros e aconselhou que falassem com um gajo de cabelo comprido que ficava no adamastor e usava um gorro verde. Erraram algumas vezes o caminho até encontrar o mirante do adamastor, que estava repleto de gente, mas apenas uma como gorro verde. Tudo bem? – era sempre o fino a tomar iniciativa. Boa noite, o que tu queres? Aí foi a vez do Bisnaga tomar a palavra. Meu nome é carlos, sou brasileiro; nós viemos com uma proposta. O gajo tirou um palito da boca e demorou um pouco para contestar: e qual é? Não quer ir a um lugar mais tranquilo? Pediu um instante e andou até um banco onde estava sentado outro gajo, que levantou a um sinal do primeiro; cumprimentou-os. Boa noite senhores, brasileiros então? O gorro verde sussurrou em seu ouvido e ele passou a fazer uma série de perguntas banais; o Fino cortou a conversa e reafirmou: temos uma proposta, bom negócio pros dois, tá ligado? O segundo rapaz, que usava um casaco de couro marrom, fez uma careta com a gíria, trocou um olhar com um outro e disse que o acompanhassem. Saindo do mirante, em uma tranquila, os dois foram revistados; andaram um bocado trocando amenidades, Carlos praticamente mudo, nervoso. Chegando a uma viela de paralelepípedos – era a Alfama – entraram em um restaurante, cumprimentaram o senhor no balcão e saíram por uma porta lateral, atingindo um quarto minúsculo.

Mais uma vez Carlos tomou a dianteira: tinha medo da impetuosidade do amigo. Nós temos 200 “g” de cocaína (não queria mal entendidos). Eles tinham pesquisado o valor de mercado na Europa no mesmo dia em que compraram as passagens, mas Bisnaga esperou a reação dos gajos. Está convosco? Está no hotel. Preciso provar, não posso dar um preço, o casaco marrom havia assumido o comando. É coisa boa, da fronteira, o Fino atravessou. Os locais se olharam, e o de gorro sentenciou: procura-me amanhã no mesmo lugar com a mercadoria. E assim foi feito, os brasileiros fizeram um pouco de turismo na tarde seguinte, excitados com o sucesso iminente do plano ousado. Repetido o ritual da noite anterior, o gajo com o mesmo casaco provou o produto, pesou, e estabeleceu um preço. Os manos da periferia paulista haviam-se equivocado: o pó valia muito mais, aceitaram sem regatear. Celebraram como loucos após guardar o dinheiro no hotel, foram se deitar quase meio dia, alucinados. Ao acordar, mais uma vez ao pôr do sol, Bisnaga tinha uma incrível sensação de culpa, enquanto o Fino já se preparava para retomar os trabalhos com a porção que haviam reservado para si. Aquele julgou que era bom alvitre ligar mais uma vez para o chefe, dizendo que a entrega da aparelhagem de áudio havia falhado e aconteceria no dia seguinte: ganhariam tempo. Ah, como a consciência nos trai! Todos os passos deles eram previsíveis, os tentáculos da máfia chinesa eram longos, e os dois brutamontes que os aguardavam não tiveram dificuldade em reconhecê-los no aeroporto de Amsterdam. Bisnaga procurava não se envolver com os detalhes das atividades de seu chefe; não sabia por exemplo que ele tinha um gosto mórbido por tortura. Só a morte aliviou o sofrimento dos dois.

 

Encrenca

Riu o riso amargo que era sua especialidade. Curto e abafado, encerrando com um suspiro. Sentia-se um idiota de se ver naquela situação mais uma vez. Se qualquer um de seus pacientes pudesse imaginar que ele estava fazendo aquilo, sua carreira estaria ameaçada. Voltou a questionar o moleque: vai conseguir? Claro, tranquilo, calma, é o que já havia escutado várias vezes. O telefone tocou, estou resolvendo, vai dar certo. Estava nos fundos de um bloco de lojas, numa rua onde ficava um bar frequentado por um acervo inusitado de desajustados sociais, o que propiciava o ambiente ideal para vicejar a selva do varejo de drogas a céu aberto.

Era o último recurso de qualquer usuário: caro, arriscado e a qualidade era muito variável, embora nunca realmente superior. Por isso Jonas estava ali de madrugada, quando a coca que um amigo conseguiu de dia já havia acabado. Sabia que o comportamento era doentio, sabia que a substância dominava sua vida, que mesmo assim seguia adiante com seu consultório e todas aquelas bocas abertas. Todos os demais espaços eram tomados pelo vício, e sua vida afetiva há muito era nula. Ironicamente, estava pensando naquele mesmo momento numa paciente que atendera à tarde. Era uma balzaquiana solteira, mais charmosa que bonita, e simpática, despojada. Ela fizera questão de perguntar seu estado civil, o que já é um sinal. Estava decidido a convidá-la quando acabasse o tratamento, mas aquilo realmente não importava muito. Talvez fosse o único benefício do pó, esboçou mais um sorriso auto-irônico.

O mesmo moleque apareceu pela décima vez com a mesma resposta. Eram sempre crianças de dez anos ou menos que operavam a banca, uma cena dantesca, e todos já o conheciam muito bem. Naquela noite, por algum motivo, ninguém tinha nada para vender: problemas de logística são naturais nesse ramo de atividade. Nenhuma novidade para Jonas, que apesar do hábito nunca conseguiu ter uma fonte estável de abastecimento. O pivete que sumia e aparecia, numa camisa de time muito maior que ele, tinha prometido que alguém ia conseguir, e ele já estava ali havia vinte minutos.

Foi quando surgiu um, um pouco maior, devia ter quatorze ou algo assim. Chamou-o no canto, alcançou por trás de um cano, e mostrou um embrulho de plástico branco, enquanto dizia rapidamente, como alguém que tinha consumido, talvez, que tomasse cuidado, estava muito perigoso. De fato, espiando por uma abertura por onde se podia ver a rua, um carro de polícia pôde ser visto passando. Ele deu o preço, Jonas regateou e conseguiu um pequeno abatimento. Deu o dinheiro e pegou a parada. Esboçou um movimento para abrir o saquinho, e foi quando o menor o repreendeu com veemência: tá louco, não abre isso aqui não. Ainda bateu boca com ele.

Há uma glândula no cérebro que atua sempre que você está na iminência de ser enganado, e garante que você seja enganado. Um drogado com a quilometragem de Jonas aceitar comprar qualquer coisa sem se certificar de que minimamente corresponde à expectativa, ou seja, de que é uma lebre e não mais um gato, é uma infantilidade tremenda. Dá vontade de cheirar tudo e fingir que não caiu como um pato. Tudo isso ele repetia para si mesmo dentro do carro, depois de ter atestado sua idiotice. Esmurrou o volante e gritou irado para aliviar a tensão. Era inútil voltar lá, os delinquentes já haveriam sumido.

Mas eles sempre voltam, e ele não estava disposto a simplesmente aceitar aquilo. Foi para casa onde o amigo compadeceu-se do logro sofrido por Jonas, mas lamentou muito mais a expectativa frustrada de mais algumas carreiras. Ocorre que esse amigo tinha uma arma, e Jonas insistia que ele a buscasse para voltar ao local do golpe. Ele tentou demover o dentista, não valia a pena mexer com essa gente: vamos dormir, tem aquela história que deve rolar amanhã e a gente fica de boa.

O amigo foi embora, ele se deitou sabendo que não conseguiria dormir, pelo que já havia cheirado e pela raiva que o consumia. Entre sucessivas iterações do plano de vingança, chegou a passar por sua cabeça que essa experiência deveria servir para que ele se convencesse de que aquilo tudo estava errado, de que deveria buscar ajuda para superar a dependência. Restava saber qual ideia prevaleceria pela manhã.

Acordou sem a dose que o “ajudaria” a trabalhar por horas, e durante o desjejum, café preto e cigarro, estava extremamente irritado. Lembrou-se da ideia de tentar parar, mas mais uma vez a resposta foi amanhã ou semana que vem. Ele tinha pelo menos que se livrar daquela ideia fixa. Se eu der um fim em um traste daqueles, quem vai se importar? Muita gente me agradeceria. Eu nunca pensei assim, eu dependo deles, afinal, mas agora é pessoal. A primeira coisa que disse à secretária (bom dia estava fora de questão) foi para cancelar todos horários da tarde.

Tinha dificuldades para se concentrar, tremia, e não atendeu o terceiro paciente, incumbindo a funcionária de inventar qualquer desculpa. Ligou para alguns amigos, e nem tão amigos, até descobrir alguém que tinha pó. Ele ia almoçar em casa então deu tudo certo: conseguiu dar pelo menos dois tirinhos até que a grande transação se efetivasse. Dirigiu quase uma hora até uma cidade próxima; havia lá uma feira especializada em produtos roubados e todo tipo de pequenas e grandes ilegalidades. O que ele procurava obviamente era a arma que o amigo lhe negara. Não foi difícil, nem foi muito caro, um clássico trinta e oito. Aquilo já estava mais caro que assumir o prejuízo, mas sua mente não conseguia raciocinar em linha reta.

No fim da tarde, veio a boa notícia: os amigos haviam concretizado a compra que os deixaria tranquilos, ou intranquilos, por algum tempo. Reuniram-se na casa de um deles e cheiraram ouvindo rock no último volume; não conversavam além do imprescindível, não se importavam mesmo uns com os outros, só com a farinha. Na cabeça de Jonas, sua resolução ganhava embalo com a sensação de plenipotência que lhe entrava pelo nariz. O assunto da véspera surgiu, entre risadas; ele dissimulou.

Era perto de meia noite quando ele passou bem devagar pelo mesmo bloco, com a janela fechada. Não viu o rapaz. Parou em um posto e tomou uma cerveja. Tentou mais uma vez, nada. Repetiu a operação, desta vez viu o moleque da camisa de time. Eu não mataria uma criança, embora ele mereça. Foi só na quinta tentativa que desistiu e foi para casa. Voltou no dia seguinte e no outro. Estava quase desistindo, mas sempre que manuseava a arma (afeiçoou-se a ela) seu intento se renovava.

Esperou dois dias e enfim conseguiu o que queria. Lá estava o rapaz, e estava na rua: esperava os carros encostarem para vender ali mesmo. Engatilhou a arma e parou bem devagar, longe dele, que veio andando até o carro; tempo em que ele ainda conseguiu fungar no seu tubinho, para dar firmeza. A mão esquerda acionou o vidro elétrico e a direita puxou o gatilho, quase ao mesmo tempo.

A polícia o alcançou em cinco minutos: estavam sempre por ali e os clientes do bar forneceram a placa. Sentado no chão da cela, esperando para ser apresentado ao delegado, Jonas finalmente concluiu o que sua consciência tentara insinuar: veja aonde essa porcaria me levou, eu me fiz de idiota muito mais do que ele; eu podia ter aproveitado a oportunidade, buscado ajuda, eu poderia conhecer aquela paciente, quem sabe, casar, ter filhos, comer e dormir como gente normal, passear no parque. A grade se abriu e ele foi posto ante a autoridade. Depois das formalidades, o delegado adotou um tom afável, disse que Jonas estava de parabéns por livrar a sociedade daquela escória, mas infelizmente não adianta matar um, vem sempre outro no lugar, e que, embora ele não pudesse sair com fiança, com um bom advogado daria tudo certo. A prisão foi a melhor, ou a pior, clínica de reabilitação que Jonas poderia ter. Não voltou a usar, e se aquela paciente precisou achar outro dentista, tenho certeza que ele se arranja qualquer hora.

Vai Fungo!

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Cara, mas isso aqui é o que a gente comprava por cinquenta, não faz tanto tempo assim. Pois é, são tempos difíceis. Ainda assim, estou me sentindo lesado. Lesado você é o tempo todo, zé roela, paga logo sua parte. Era um grupo de quatro, repartindo com uma serra de pão um tijolo; estudavam na mesma universidade, um era da engenharia mecânica, um da filosofia, e dois eram da história: o Caxambu e o Waltinho, inseparáveis. Caxambu era meio alto, um pouco gordo, cabelos cacheados; Waltinho era baixo e magricela, cabelo longo escorrido. Eram eles que debatiam o preço da maconha agora há pouco. O primeiro vinha obviamente da estância mineira de mesmo nome, o segundo da capital; haviam se conhecido na calourada em que Caxambu era bixo, Waltinho era do terceiro semestre, agora estavam ambos perto da formatura. A viagem da casa do Morcego até a do Waltinho foi um tanto tensa, apesar da curta distância. Velho, põe essa porra no saco, tá entendendo?, disse o dono do carro. No saco? Não faz sentido, eles vão perceber o volume de longe. Põe no porta-luvas e fica tranquilo. Caxambu olhou furioso. É pertinho. O outro acabou cedendo. Saíram da garagem e pegaram uma avenida principal, viraram à esquerda, eram quase duas da manhã e eles obviamente haviam bebido e fumado um. Waltinho prestou atenção a uma placa, virada para o lado oposto: não estamos na contramão, não? Porra, é mesmo, mas eu viro na próxima. Não deu tempo, eles avistaram as luzes eletrônicas que vieram aposentar as tradicionais giratórias: eram eles, os porcos.

Obedeceram ao sinal de encostar, ambos extremamente nervosos. Eu falei pra você esconder isso, porra. Fica tranquilo, eles não vão revistar. Você pingou colírio? A placa é de fora, você vai dizer que não conhece a cidade, eles vão passar uma multa e tudo bem. Ah, tá, então vão falar: tudo bem, podem ir! Como é que me entra na contramão, retardado, há quanto tempo mora aqui? Boa noite senhor, habilitação e documento do carro. Pois não, só um instante. O senhor está transitando na contramão. Sério? Nossa, eu sou de Caxambu, vim visitar um primo, não conheço bem a cidade… Isso não justifica nada, saia do carro, por favor. Os dois. Eles se olharam, preocupados. Senhor, seu documento está atrasado. Mesmo? Mas o final é sete, eu tenho até julho para pagar, é assim em Minas. Essa não cola, moleque. Os dois estavam lado a lado, e o policial jogou a luz da lanterna em seus rostos. Eu deveria recolher o carro, você sabe. Não é necessário, seu guarda, veja… Eu vou fazer o seguinte: vou aplicar a multa, que é meu dever, vocês me dão a maconha que têm no carro e podem ir. Waltinho deu a volta no carro, abriu o porta-luvas e pegou apenas uma das pedras. O policial a tomou com a mão enluvada, examinou-a, tá bom, vai, estou com preguiça de escrever hoje. Deu um safanão em cada um deles, devolveu os documentos. Tudo bem, podem ir; e voltou para a viatura, onde seu parceiro ria às gargalhadas. Entraram no carro; e agora, está se sentindo lesado, seu lesado? Porra, até estou, mas estamos saindo no lucro.

Chegaram à república do Waltinho, uma casa avarandada caiada de amarelo, fizeram festa com o Torque, o vira-lata que um cara da física tinha adotado. A primeira providência foi bolar um baseado; ainda tinha cerveja na geladeira, abriram duas. Cara, que fita, mano, a gente podia ter se fodido grandão nessa. Sorte que o coxinha queria dar umas bolas. Ele vende, idiota, faz uma grana nisso. Como você acha que ele percebeu? Meu, se olha no espelho, você tá japonês. Na verdade eu já ouvi falar nesse cana que confisca o beque da galera. Meu, tem alguma coisa pra comer aí? Ah, deve ter pão, mas tá meio velho… tem um pão de queijo pra assar. Nossa, põe no forno! Fumaram jogando videogame, antes da metade estava cada um jogado para um canto. Caxambu a dado momento acordou com vontade de ir ao banheiro, sentiu cheiro de queimado e se lembrou do pão de queijo. Estava obviamente torrado, e a cozinha repleta de fumaça. Abriram todas as portas e janelas para que ela se dissipasse, mas contribuíram com sua própria fumaça. Cabeça! A ideia foi sua, você devia ter ficado acordado. A culpa é sua, seu cabeça de Cheech n’ Chong, tinha que bolar mais um? Agora já era, mano, cadê o pão? Tá em cima da geladeira, tem manteiga também, faz na frigideira, e faz um pra mim. Caxambu morava em um apartamento no Centro, tinha que pegar uma estrada; foi até a porta e sentenciou: cara, vou capotar por aqui, estou com sono pra dirigir. Sono é o menor de seus impedimentos a dirigir; é melhor mesmo, tá chovendo pra caralho, também.

2

Waltinho acordou com a boca seca, estirado em um dos sofás imundos: nem teve força para procurar sua cama. Acendeu um cigarro e esquentou um pouco de café, estava intragável, tomou um copo d’água e foi acordar o amigo. Caxambu demorou a levantar, espreguiçou-se; acabou aquele pão? Acabou, vamo lá na padaria encarar um misto. Os dois se calçaram e andaram cinco quadras até a padaria, comeram e voltaram. Digestivo? Agora. Começaram uma partida de xadrez, daquelas que podiam durar horas; de repente alguém bloqueou a luz que entrava pela porta aberta: era o Focinho. Entra Focinho, ainda tem uma ponta aqui. Opa! Cara, você não imagina o que aconteceu com a gente ontem, disse um. Um policial ficou com metade do nosso banza, completou o outro. Putz, de novo? Peraí, metade? Por que só metade? Ele não sabia que tinha mais. Porra, então não está tão mal. Um amigo meu, o Marco, você conhece, perdeu duzentos de uma vez pra esse mesmo filho da puta. Focinho fazia um triângulo com os dedos para conseguir tirar alguma coisa da ponta. Eu vim com uma proposta pra vocês. Fala. Viram o sol lá fora? Hum… E ontem à noite, o que aconteceu? Choveu. Então, vamo lá? Ah não, protestou Caxambu, eu tenho uma prova de oriente médio, não posso bombar de novo. Quando é a prova? Quinta. Ah, você estuda na quarta, tá tranquilo. Ele nem se fez de difícil, entraram todos no carro.

Pularam a cerca, que era dupla, e começaram a percorrer o pasto cantando o tema dos smurfs e passando um petardo um para o outro. O Caxambu achou, dois de uma vez. O chapéu amarelado e o anel no centro, que quase sempre estava quebrado, fica azulado quando quebra, é esse mesmo. Cada um já tinha achado um monte quando ouviram um latido furioso vindo na direção deles. O dono da propriedade podia ser visto de fora de uma caminhonete, no topo da colina. O cachorro estava longe, e por sorte estavam já perto da cerca. O problema foi que o Focinho conseguiu cair entre uma cerca e outra, e ficou todo preso; os dois voltaram e tiveram trabalho para o desvencilhar do arame farpado. Focinho escapou do arame quase ao mesmo tempo em que o cachorro alcançou a cerca. Caralho! Cê tá bem, mano? Bem? Olha pra mim, porra! Seus braços e pernas estavam todos cortados. Calma, vamo lá em casa, a gente lava isso, passa alguma coisa, Waltinho disse, entrando no banco de trás. Quando juntaram as colheitas de cada um, viram que a safra havia sido ótima; aquele era o melhor pasto, alguém observou. Chegaram; ele tomou um banho, aplicaram qualquer antisséptico, que por sorte alguém tinha, e dirigiram-se à cozinha para a confecção do chá. Mas Waltinho viu o relógio e ponderou que ainda pegavam o bandejão aberto se saíssem naquele momento; ninguém discordou. Entraram no campus, passaram em frente à radio, estacionaram: chegaram a tempo; cada um com sua bandeja, serviram-se e se sentaram. O Caxambu encontrou o Pastel, fez o comentário, e automaticamente o Pastel estava na fita. Voltou para a República da Esbórnia com eles. Caxambu fazia um café, Waltinho fazia um beque, Pastel olhava os discos e Focinho reclamava da sorte. Acenderam o digestivo, conversaram e combinaram de tomar o chá às quatro, para fazer a digestão e aproveitar o pôr-do-sol. Parece que tem uma festa hoje na arquitetura, Pastel comentou. Nossa, eu não soube de nada. Parece que é meio de última hora, mas vai rolar mesmo. Bem quando a onda estiver acabando, perfeito. Voltaram à cozinha, colocaram os cogumelos numa panela com água e acenderam o fogo. Waltinho acendeu um cigarro e provocou Caxambu: a Diana vai estar lá. Que esteja. Vai estar lá com o namorado. É um direito dela. Cala boca, Caxa, todo mundo sabe que você não superou a Diana. Ah, vai à merda, olha isso aí que deve estar bom. Estava; encheram dois quintos de uma jarra pequena, que puseram na geladeira. Caxambu pegou a estrada, ia em casa tomar ao menos um banho; os outros três ficaram na casa, ouvindo música, jogando videogame e fumando, ocasionalmente.

O Caxambu chegou às quatro e meia, todo arrumado, os outros tiraram um sarro, Waltinho sorriu. Foram à cozinha e serviram quatro copos até quase a metade. Todos tomaram de um só gole. Ah, que troço ruim, Caxambu reclamou; poxa, eu gosto do sabor, você acostuma, Pastel discordou; uma vez eu fiz um que ficou um liquor, Focinho acrescentou. A universidade não era muito longe, foram andando, tomados de expectativa. Cara, a gente é louco de fazer isso na semana de prova. Relaxa, cara, vai dar tudo certo. Sei lá, meu, a pressão tá foda. Vocês tão sabendo da última da Mariana? Qual? Bem, que ela largou o César e tá dando pro Trindade vocês já sabem, ontem ela deu um jeito de fazer os dois se encontrarem, ficou provocando o César, que acabou saindo na porrada com o outro, e ela ficou de lado se achando o máximo, foi na cantina da física, todo mundo viu. Cara, disseram que o César tá mal, tá perdendo prova por isso. É, mas onde é que ele foi se meter, também! Waltinho lançou um olhar maroto para o amigo. Estavam chegando ao campus, e o efeito começava a se fazer sentir. Um certo mal-estar febril, uma consciência exacerbada do corpo, trocaram risinhos: você também? Foram direto para o teatro de arena, esparramaram-se nos bancos de concreto; uma galera andava de skate no palco. Waltinho, você não fez uns banza antes de sair? Eu não, nem pensei nisso. Então vamos fazer correndo, porque vai ficar mais difícil. Todos trabalharam para confeccionar cinco baseados. O Pastel veio teorizar sobre a arte de dichavar: tem duas técnicas, ou você pega cada pedacinho e reduz a pó ou vai quebrando em pedaços cada vez menores. E você já calculou com rigor científico qual é o mais eficiente? É mais uma questão pessoal, mas o primeiro evita aquele berlozão perdido no beque, que fura nossa roupa. E de que adianta tanta ciência pra dichavar se o beque que você faz é um pastel? Ah, não é não, eu melhorei bastante. Vamos ver. Na hora de apertar, a coordenação já não ajudava, Focinho ficou segurando a seda aberta um tempão, viajando com um sorriso bobo nos lábios; Caxambu estalou os dedos, acordando-o e todos riram. Terminaram o trabalho, o do Pastel ficou mesmo um pastel, e foi o que acenderam. Passa uma goma aí, senão abre. O celular do Caxambu tocou, não atende, aconselhou Waltinho; calma, é o Du. Fala, Du! Beleza, não imagina o que estamos fazendo. Já fizemos, na verdade. Exatamente! Pode deixar, vamos ficar bem. Sério? Que massa, meu, nós vamos estar lá. Então tá, até mais tarde. Desligou: a banda do Du vai tocar na festa da arquitetura! Porra, que louco! Massa! Será que vai dar certo? Por quê? Sei lá, eles andam meio… deixa pra lá. Naquele momento Waltinho e Focinho se levantaram e passaram a examinar os graffiti nas paredes do teatro. Olha essas cores, caralho! Caxambu ficou onde estava, deitado, olhando as nuvens esparsas executarem um balé fractal para seu deleite, sorrindo de orelha a orelha. O Pastel foi trocar ideia com os skatistas, ainda subiu no skate e tomou uns tombos, voltou gargalhando. Waltinho chamou a todos para tomar água na biblioteca, Caxambu não queria levantar, nem conseguia explicar por quê. Wrauwreuwrouaeiau… Acabaram todos se deitando também, ficaram lá vários minutos. Vamos tomar água, um acordou do transe, todos foram se levantando. Cara, agora tá pegando nervoso. Seguinte, ninguém se separa do grupo agora. Focinho observava o movimento normal da universidade e aquelas pessoas pareciam estar em uma dimensão paralela; via uma garota bonita e ria: como se esforçam para serem tão normais, aliás, como tudo precisa fazer tanta força para funcionar… ele se sentia sendo levado por uma correnteza, seguro. Apesar disso, o chá estava cobrando deles a pior fase da intoxicação. Tomaram água, houve um impasse: Caxambu achou que seria ótima ideia conferir a exposição fotográfica na galeria, Focinho gostou da ideia, mas os outros dois não queriam ficar em ambiente fechado, com mais gente. Olha, o pôr-do-sol não demora muito, vamos indo pro Platô, Waltinho sugeriu. Não, cara, é horário de verão, ainda demora; vamos no bosque da economia. Fechou, todos apoiaram.

Era apenas uma área com pinhos, bastante aprazível. Waltinho começou a se sentir inseguro, e puxava assunto sobre o futuro, os outros o demoveram, queriam curtir um silêncio; quase silêncio, ficavam emitindo uns grunhidos bizarros de vez em quando, esparramados no chão. Waltinho disse que tinha que ir ao banco. Cara, fica tranquilo, não é hora disso, você vai à noite. Ele respirou fundo e tentou vencer a ansiedade. Meu, cê tá tendo uma bad?, o amigo se preocupou. De leve, de leve. Então melhor ficar de fora desse aqui, e acendeu mais um. A conversa dos outros, sobre carros, o irritava, então se distanciou um pouco; o amigo foi lá e conversou um bom tempo, tranquilizando-o. Eu quero ir pra casa. Relaxa, seu corpo é sua casa. Decidiram caminhar até onde veriam o sol se pôr. Cara, é como caminhar na lua! Como você sabe, nunca esteve na lua! Ah, não enche. Era uma subida, até uma parte plana no meio de um morrote; Waltinho, o único que fumava careta, sentiu cansaço no meio do caminho. Mas a cabeça, tá melhor? Tá sim, foi um grilo à toa. Chegaram lá, onde um casal se beijava, ao lado de uma moto. Cumprimentaram-se, a trupe se instalou em outro canto e acenderam mais um dos beques. Conversaram sobre viagens que cada um tinha feito, e algumas peripécias envolvidas. E quando a gente tomou um ácido no MASP? Porra, a gente era moleque. Bem, vocês ainda são, pelo visto. Uma vez eu passei um aperto na Pedra do Baú, cara, tinha que descer uma pedra, mas não dava pra ver nada; a galera estava acostumada, mas eu sofri de medo. E você tinha tomado doce também? Não. Então o que tem a ver? Sei lá, só lembrei; não esperava a inquisição espanhola. Só os dois amigos, fãs de Monty Python, riram. Aí o Pastel e o Focinho entraram numas de zoar o outro com piadas meio infantis, os outros se apartaram e conversavam sobre música: Caxambu estava descobrindo o jazz e o amigo falava um pouco sobre os principais nomes e movimentos. Porra, o problema de sair é que não dá pra ouvir música. A gente pega o fim da onda em casa. O céu começava a ficar avermelhado, eles trocavam comentários sobre os matizes que só eles viam, ou sobre o formato das nuvens. Acende mais um? Ah, esse é sagrado, não? Seus retardados, a gente acabou de fumar. Fumaram quietos, era a fase contemplativa da viagem. Um grupo de maritacas sobrevoava o morro, em círculos. Parece que elas estão só se exibindo pra gente! Waltinho ainda não esquecera suas preocupações com o futuro de todo, e Caxambu pensava demais no passado. Que adiantou se arrumar todo, Caxa, você tá todo sujo. Caralho, é mesmo, e agora?

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Desceram com uma sensação boa de dever cumprido. A rádio ficava no caminho, e encontraram um camarada fazendo programa. Contaram as aventuras do dia e a desventura da véspera, e o Caxambu achou por bem fazer uma preza pro Murilo com o beque que não tinham fumado. Ele agradeceu e observou que estavam todos imundos, riram. Caxambu estava preocupado, disse que ainda ia em casa trocar de roupa. Melhor não dirigir assim, pega umas roupas emprestadas. Ah é? Você tem metade do meu tamanho. O Focinho mora perto, ei Focinho, você emprestas uma roupa pro Caxa? Claro. Viu? Chegaram, o Waltinho foi correndo colocar um disco do Miles e o Focinho fez um caprichado. Cabeeeeça! Ficaram curtindo o final da onda, cansados. Caralho, minha bike ficou lá no bandejão!, Pastel se deu conta. Caxambu se ofereceu para levá-lo em casa, de lá foi levar o Focinho e buscar a roupa e voltou para tomar banho na Esbórnia. A camisa era um pouco pequena, pegava na barriga, e ele se sentia ridículo. Já caminhei muito hoje, vamos de carro.

A festa estava meio vazia ainda, o pessoal do Du estava preparando tudo, foram lá conversar. Eles tinham conhecido aquela tarde um aluno da música que ia tocar violino com eles. Se prepara, o Du alertou. Providenciaram cada um uma cerveja, que ainda estava quente, era sempre assim. Circularam, o Caxambu encontrou um grupo de garotas da engenharia de alimentos que ele conhecia, apresentou o amigo, cada um contou suas histórias de fim de semestre, provas feitas de ressaca ou bêbado, madrugadas estudando à base de café. Elas começaram a falar dos planos para as férias, Caxambu as convidou para conhecer a cidade dele. Elas se foram, ele confidenciou ao amigo que já tinha ficado com a mais baixinha, mas que foi uma história esquisita. Como assim? Ah, nada, esquece. Conta porra, foi falar, agora conta. Tá, eu nunca falo isso pra ninguém, mas vá lá: o que aconteceu foi que eu estava com muita vontade de ir ao banheiro, mas, sei lá por quê, não queria interromper, a gente estava na sala da casa dela, fazendo só uma sacangemzinha, sabe como é. Bem, na hora de gozar… imagina o que saiu…. Golden shower? É, meio involuntário. Mandou bem.

Buscaram um canto afastado para pitar um sem serem incomodados demais pelos abas de sempre. Cara, eu não fui ao banco, lembrou Waltinho. Ainda dá tempo, quer ir lá? A gente vai de carro. Beleza, vou só terminar de apertar. Como diz a música. Como? Do Bezerra. Pois é. Entraram no carro, Waltinho voltou a falar em suas preocupações. Pois é, cara, vou formar e fazer o que? Dar aulas? Por uma merreca? Mestrado? Com meu pai me sustentando? E a Nádia? A gente já namora há cinco anos, ela quer que eu volte, quer casar, porra, eu não estou pronto. Porra, meu, espera terminar e aí se preocupa, tenta o mestrado lá, não sei, vai dar certo. Espera aí. Entrou na agência e ficou um tempo olhando o terminal: a noção de que uma máquina lhe dava dinheiro o incomodou, essas ideias de cogumelo. Sacou algum dinheiro e voltou para o carro. Caxa, ouvi falar que vai ter concurso pro Banco. Taí uma boa, você passa tranquilo.

Chegaram de volta à festa, e a Vó Dilza estava tocando. Mas em vez do repertório de rock nacional que já haviam tocado em outras festas, o que se ouvia era um improviso dos mais ousados, cada um tocando uma coisa, mas com resultado muito bom, ao menos na opinião do Waltinho, que estava entusiasmado. Eu falei que eles estavam numa onda experimental. Caxambu talvez ainda não estivesse pronto para assimilar, assim como a imensa maioria ali presente, apenas uns músicos olhavam impressionados, segurando o queixo. O Du depois contaria que foram quarenta minutos de liberdade musical e de sinais da produção da festa para que parassem. Ainda tentaram tocar algo mais estruturado, mas o estrago já estava feito; o Du foi ao microfone. Obrigado, vocês não entendem nada, vocês nunca entenderam nada mesmo! Dali em diante a produção teve o mau gosto habitual na seleção das músicas.

Andavam por aí com suas cervejas, ficavam de olho numa ou noutra mina, encontravam este ou aquele camarada, incluindo os dois de mais cedo; o Pastel estava com uma mina, pegou o beque e esqueceu dele, Waltinho provocou: ô bígamo! ué, casou com o banza e tem duas mulheres, riram. Voltaram à bagunça, e deram de cara com ela, a Diana. E ela estava mesmo com o namorado. Meu, olha lá, não é a cara do polícia que bateu na gente? Viagem sua, Waltinho, esquece essa piranha. Deram mais umas voltas e de repente Caxambu sente uma mão em seu ombro; era ela. Oi, Diana, e esticava a camisa para tentar esconder a barriga. Cê tá bem? Bem, sim, quer dizer, fim de semestre, né? E você? Ah, letras é tranquilo, né, pra mim é. Que bom, eu preciso… Você está magoado comigo ainda, né? Não, magoado não. Você sabe da sua vida, eu só não consigo entender. E seu cara, onde foi parar? Foi ao banheiro. Pois é, eu também preciso… Calma, dá pra esperar um pouco? Pode falar. Tá vendo, eu não quero conversar assim. Então tá bom, eu… Rogério, eu fiz uma besteira, eu sei. Caxambu olhou sério para ela. Você está com outro cara. É, mas… não quer dizer nada. Me dá uma chance de explicar… Seu cara está voltando, me liga se quiser, tchau. Waltinho observava tudo, e cobrou um relatório. Caxambu desfez a pose de durão e abriu um sorriso: ela quer voltar.

A festa estava cheia de gente agora, mas a música não estava boa, e quando o Marcelão disse que o Marco estava fazendo o programa na rádio, não tiveram dúvida. Voltaram a olhar o graffiti do teatro de arena, que não parecia tão incrível quanto à tarde. Fala Marco! Ô, chega aí. Estava tocando Primus. Cara, a gente tomou cogu hoje. Massa! Nós dois mais o Pastel e o Focinho. O Focinho disse que você perdeu duzentos gramas pra um coxinha? Foi, mano, mas é melhor que ser preso, não? Pois é, aconteceu com a gente ontem. Não brinca! É, mas a gente ainda salvou uma pedra. Massa, bota um então, eu tô sem nenhum. Bateram um papo, falaram umas besteiras no ar, e não demorou a surgir a ideia de subir: a rádio ficava em baixo de uma imensa caixa d’água. Leva dois prontos, puseram-se a trabalhar. O Marco mandou um som do Yes de mais de vinte minutos. Era preciso subir em uns canos, atravessar para o outro lado e subir por fora da grade até a primeira cestinha, onde era possível acessar a escada; Waltinho subiu primeiro, Marcelão, que subia pela primeira vez, observou atentamente, e não teve dificuldade, Caxambu apesar da barriga não teve problema (era preciso se esgueirar num espaço estreito), Marco subiu por último. No topo, Marcelão se admirou com a vista, acenderam o beque e ficaram proseando. Ela disse que quer explicar, explicar o que! Cara, você gosta dela, não importa, mulher é complicado mesmo. Eu não queria mais essa pra cabeça, amanhã eu preciso estudar o dia todo. Oriente médio é fácil, é só decorar todas as guerras e acordos fracassados. Como se fosse pouco. Marco tirou o segundo baseado do bolso e sentenciou: esse pessoal só precisa descobrir o cachimbo da paz! Acende logo isso que tá um frio danado aqui.

 

Corre

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Você conhece a regra de ouro: os incomodados que se retirem. Essa não é a regra de ouro, a regra de ouro é não faça aos outros aquilo que não quer que façam a você mesmo. Exatamente, não fique reclamando da minha fumaça se não gostaria que eu reclamasse da sua… caretice; sei lá, vai estudar lá no quarto, na varanda, não importa, este aqui é meu ritual.

Os dois moravam juntos havia três meses, e a tensão latente indicava que provavelmente igual período não se passaria antes que se rompesse a parceria. Ambos haviam respondido a um anúncio de um terceiro estudante que alugara o apartamento e acabou se mudando e deixando os dois estranhos no ninho. Sílvio era metódico e estudioso, fazia alguma engenharia que já não me lembro; não se mudava porque estava atarefado demais com o curso e o estágio em um laboratório para se preocupar com isso. Já Cássio era um bon vivant maconheiro e relapso que fazia mestrado em literatura e não trocaria aquele lugar perto do campus por nada.

Seja qual for a interpretação correta da regra de ouro, Sílvio aquiesceu e foi para o quarto estudar, mesmo sem uma mesa, e o companheiro, se podemos chamar assim, terminou tranquilamente seu primeiro baseado da noite enquanto esperava a visita de dois outros estudantes de Letras, um do mestrado e um da graduação. Viu um pouco do noticiário sem muito entusiasmo até que o interfone tocou. Acionou o botão que abria a porta do hall e desligou a televisão. Havia um velho três-em-um com defeito que recolhia o braço na metade do disco; ele colocou um do Louis Armstrong e abriu a porta.

Cumprimentaram-se com ruidosos apertos de mão e meios-abraços e acomodaram-se nos dois sofás surrados enquanto trocavam minudências da vida acadêmica. Vou ter que reescrever todo o segundo capítulo, Fábio disse, irritado, meu orientador pensa que eu não devo falar em Maupassant se não vou analisar todo o realismo francês, que idiota! O que falta a essa gente é flexibilidade, concordou Cássio, se querem receita de bolo, fazer o quê, receita de bolo neles! Eu tô fudido em latim, reclamou Pedro, tenho que decorar umas vinte declinações diferentes. Não há vinte declinações diferentes, protestaram os mais velhos. Ah, não sei, deixa isso pra lá, vamos fumar um ou não? Fábio tirou do bolso da jaqueta (começava a fazer frio) uma caixinha de lata: cara, a gente pegou um três-pra-um que vai estourar sua cabeça! Na mesa de centro havia um dichavador com um smiley no topo, o anfitrião o passou ao amigo e começou a recortar um guardanapo de papel, alguém tem uma seda decente aí? Pedro tirou um livrinho do bolso e destacou uma folha, rasgou um pedaço do papel cartão e dobrou eu um pequeno tubo que seria a piteira. Em instantes, estava acesa uma bomba, e o mecanismo automático interrompeu Black and Blue bem no meio. Cássio virou o lado e a conversa prosseguiu sobre canais de fumo.

2

Vocês precisam pegar com esse cara, vale a pena! Já estou percebendo. Com certeza, brodi! Na metade do baseado, estavam todos muito loucos. Cássio já tinha fumado, mas dava pra perceber a qualidade superior da brenfa. Eu nunca consegui ter um canal fixo, confessou o mais novo, sempre alguma coisa dá errado. Esse cara é firmeza, eu passo o número; ele traz na sua casa. Eu não gosto disso, observou o anfitrião: traficande subindo aqui, não pode dar boa coisa. O cara é gente boa. Não importa se o cara gente boa, eu não quero começar uma amizade, eu quero resolver meu problema. Pena que o Luizão foi pro xadrez, lamentou Fábio. Eu tô nessa de pegar paranguinha com aquele cara do bandejão, isso não dá futuro, confessou Cássio. Pedro concordou, já peguei muito com ele. Mas não tô podendo pegar a três-pra-um, tive que encomendar um livro caríssimo para a pesquisa. E como vai sua dissertação?, interessou-se o colega mestrando. Sei lá, eu inventei de falar das quatro grandes, mas às vezes parece que só Hamlet dá muito pano pra manga. Mas vai bem sim.

Após um longo silêncio em que cada um ia afundando no sofá e curtindo o jazz, o braço do aparelho interrompeu Hello Dolly e todos meio que acordaram do torpor. Cássio esmurrou a mesa de centro: eu preciso comprar uma picape nova. Colocou um do Tom pra girar e voltou a seu lugar. Foi quando Pedro deu a ideia: cara, o melhor é comprar logo um quilo! Tá louco, os outros dois reagiram. Não, cara, se juntar cinco já rola; sai muito mais barato! Todos se entreolharam e um sorrisinho surgiu-lhes no rosto. E você sabe onde conseguir?, perguntou Fábio. Bem, eu conheço alguém que pegou esses dias, vou conversar com ele. E aquele telefone do lanche, hein? Pediram sanduíches e quando terminaram já era hora do futebol. Mandaram obviamente mais um e conversaram sobre diversos assuntos, o som da tevê desligado e uma bolacha do Coltrane no pino.

Três dias depois, Cássio e Pedro se encontraram por acaso no campus. O mais jovem contou que já tinha o canal certo. O Sérgio e o Sujo estão dentro. É tanto pra cada um. É no Parque Tuiuti. Só você tem carro. Nem fodendo que eu vou lá de carro. Vamos de busão. Combinaram que iriam os dois fazer o corre. Faltava ligar pro Fábio; ele topou na hora. Combinaram para o sábado, era quarta-feira. Na sexta ainda houve uma puta duma festa nas Ciências Humanas, então Pedro estava numa tremenda ressaca quando acordou às sete da matina para encontrar Cássio no ponto de ônibus. Achavam que de manhã era mais seguro. Chegou bem depois do combinado e encontrou o colega lá. O importante é agir naturalmente. Você está carregando uma mochila e é só isso, ninguém vai incomodar a gente, Pedro orientou o outro. Fica tranquilo, eu tenho mais bagagem que você, já fiz muito isso.

Tinham que pegar um até o terminal central e de lá outro. O primeiro demorou vinte minutos para chegar e em mais vinte estava no terminal; esperaram um quarto de hora e aí iniciaram uma longa jornada de quase uma hora até o Parque Tuiuti, uma quebrada perigosa que evoluiu em volta de uma fábrica de cimento quando aquilo era afastado da cidade. No caminho foram vendo formas modernas e urbanismo aceitável dando lugar pouco a pouco ao mais absoluto caos de moradias improvisadas, indústrias poluentes e vias mal-cuidadas. Chegaram e andaram meia hora, perderam-se, até que viram um sujeito com cara de malaco e abriram o jogo; ele os ajudou em troca de uma preza, que estavam comprometidos a dar na volta. O local apontou a porta. Era na verdade um portão de aço esmaltado, no qual bateram e aguardaram uns instantes até que um cara de camisa regata e o peito repleto de tatuagens olhasse pelas barras. Eu combinei com o Robert, Pedro arriscou. O bandido os olhou um pouco e os deixou entrar. Percorreram um corredor estreito, entre um casebre azul e o muro coberto de musgo. Havia mil tranqueiras pelo caminho, mas conseguiram chegar a um pequeno galpão.

 

3

O rapaz que os acompanhara apontou um outro, com jaqueta de time de basquete americano, que estava com mais três em uma rodinha, perto de um armário metálico, daqueles de arquivo, antigos, nos fundos do galpão. Cássio olhou para Pedro e fez um sinal que dizia “deixa comigo”; o outro protestou: “fui eu quem ligou”. Nisso chegaram ao grupo; cumprimentos nada sinceros e gírias meio forçadas à parte, Cássio foi direto ao assunto: “a gente veio pegar um metro”. O cara da jaqueta mandou sossegar e pitar com eles, e prosseguiu acompanhando a letra do rap que tocava. Pedro estava de boa, mas Cássio não conseguia relaxar; depois de umas quatro bolas, uma bad trip começou a se instaurar e ele não via a hora de estar longe dali. Fez um sinal ao amigo que dizia “assuma daqui pra frente”, o que era o melhor para os dois. Terminado o baseado, Pedro chegou no líder dos malacos e jogou a ideia: tinha ligado, tinha combinado, e estava ali para fechar negócio. O outro reiterou as condições, Pedro só olhou para Cássio, que sacou do bolso da calça um maço de notas que já havia sido contado e recontado. Na verdade, Cássio queria que todos tivessem dado sua parte de antemão, mas não foi possível, então ele teve que usar o limite de sua conta para levantar a quantia, o que o deixava exposto, até porque não conhecia todo mundo que estava na fita.

O traficante deu o dinheiro a um dos subalternos para contar, abriu a gaveta inferior do armário e tirou um tijolo enorme de maconha. Entregou a Pedro, que ficou embasbacado: é sempre uma visão impactante. Da segunda gaveta, ele tirou uma balança digital, que pôs sobre uma tábua estendida entre dois cavaletes, que fazia as vezes de mesa, e sustentava o som portátil que insistia com a música de gueto à qual os marginais balançavam apenas as mãos apontadas para baixo. Pedro depositou a brenfa sobre o prato: novecentos e cinquenta. Cássio tirou a mochila das costas, pegou o tijolo nas mãos, examinou e teve uma ideia: “alguém tem uma tesoura?” Ela surgiu da mesma segunda gaveta, ele rasgou toda a fita adesiva que empacotava a droga e ficou mais tranquilo: não estava sendo enganado. O traficante ainda insistiu para que fumassem mais um, nisso Pedro se lembrou do mala que os ajudara a encontrar a bocada, e separou um naco, que pôs no bolso. Não vai dar, sabe, temos compromisso à tarde. Mais cumprimentos conforme o código local – mãos espalmadas e depois cerradas – para a despedida, e percorreram o mesmo corredor com o mesmo sentinela para sair. Você nunca esteve aqui, foi a recomendação final.

No caminho do ponto de ônibus estava o campo de futebol de terra batida em que haviam deixado o guia. Ele agora estava jogando, com um monte de trabalhadores que chegavam da jornada matutina de sábado. Cássio quis seguir adiante e estar longe da quebrada o quanto antes. Pedro sabia do valor da palavra naquele tipo de contexto, e puxou o colega pela mão para esperar, sentados em uma caixa de eletricidade na base de um poste, o vapor que os ajudara. Intranquilo, Cássio olhava em volta, e de repente sua espinha gelou ante a vista de um carro de polícia. Sem reação, cutucou o amigo com o cotovelo. Fica tranquilo, ouviu, nenhum movimento brusco. Os policiais desceram do carro e empunharam as armas; os jogadores se dividiram entre correr e erguer os braços, mas logo ficou claro que era justamente aquele que eles esperavam que os homens da lei buscavam. Ele parecia se render por um momento, mas de repente alcançou na bermuda uma arma e atingiu um dos policiais na perna. A correria então foi geral, e uma confusão de disparos teve qualquer desfecho que eles não acompanharam, em sua debandada rumo à saída do bairro. Estavam ainda ofegantes ao chegar ao ponto. Dentro do ônibus, depois de meia hora de angústia, trocaram um abraço apertado como nunca antes, e nem ligaram para olhares dos outros passageiros.

4

E esses dois outros caras, Pedro? Consegue a grana com eles ainda hoje. Relaxa, cara, eles estão desesperados para pôr a mão na marofa; e mesmo se não forem eles, você passa fácil a parte deles. Passar? Eu não sou traficante, porra, eu só quero cobrir o buraco na minha conta! O interfone tocou, era o Fábio, para quem eles haviam ligado do terminal central. Quando ele entrou pela porta, deu de cara com o metro bem em cima da mesa, sobre uma assadeira metálica. Havia ainda um enorme baseado pela metade, que foi prontamente aceso; Cássio escolheu um LP do Tim Maia e todos se esparramaram pelo sofá, celebrando o sucesso da arriscada empresa. Pedro iniciou a narrativa com uma minúcia talvez desnecessária.

Num restaurante do centro, Sílvio, o colega de apê careta, almoçava com um amigo que estava chegando da terra natal deles. Faziam planos de procurar um lugar para dividir e dar fim àquela situação insustentável. Não dá mais, sabe? Eu não gosto de interferir na vida de ninguém, mas todo dia quando eu chego tem quatro, cinco vagabundos fumando e falando bobagem, a sala fica fedendo, eu preciso estudar no quarto… Eu não tenho tempo para procurar imóvel, mas você pode fazer isso.

De volta no apartamento, perceberam que não tinham uma serra de pão, e foram bater no vizinho. A cara de terror da empregada ao ver Fábio com os olhos banhados em sangue fez rir aos três, a situação ficou assaz desconfortável, mas após consultar a patroa a senhora trouxe o utensílio. Estavam no processo de partir o tijolo em cinco, com muito cuidado para que ficassem iguais as partes, quando a porta se abriu e Sílvio entrou com o conterrâneo. Estabeleceu-se mais um embaraço; a expressão dele era de fato furibunda, e ele não se preocupou em cumprimentar a todos antes de se trancar no quarto.

Toda a tarde de sábado foi dedicada a fumar um depois do outro e ouvir metades de lados de discos. Fábio disse que tinha um conhecido que manjava de eletrônica, ia trazer ele para dar uma olhada na vitrola. O problema é mecânico, estúpido, Cássio irritou-se. De certa forma, já achava aquele defeito um charme. E estava tocando um da Alberta Hunter quando os dois elementos faltantes da negociação finalmente chegaram; ambos eram da matemática. Jogaram as notas sobre a mesa, mas ninguém guardou sua pedra, restando a mesma cena de antes, apenas com o volume dividido em cinco. Na verdade, ficavam brincando de empilhar os paralelepípedos ou construir diferentes formas.

A dado momento, os dois caretas saem do quarto e transpõem a porta da sala sem dizer nada. Atrás deles, deixaram um rastro de maledicência. Porra, se livra logo desse cara, incitava Pedro. Não é tão simples, Cássio desconversou. Não se passaram dez minutos até que a porta voltasse a se abrir. Todos estavam cozidos demais para se importar, apenas Cássio olhou, e teve um choque. Três policiais entraram com arma em punho; quando todos perceberam, ficaram petrificados em seus lugares. Ainda tiveram que ouvir insultos do síndico, que cruzou com eles quando desciam as escadas algemados. Cássio e Pedro, que não esconderam terem sido os responsáveis pelo corre, tiveram que cumprir seis meses; os demais prestaram serviços comunitários. Sílvio divide até hoje o mesmo apartamento com seu amigo.

 

Nos Canos

1

 Teve sorte e foi o primeiro a retirar a bagagem da esteira no aeroporto de Amsterdã. De calça jeans e camisa preta sobre uma camiseta branca, ele pôs os óculos escuros quando saiu para fumar. Não era a primeira vez que Flávio ia à Meca dos pirados, mas desta vez era diferente: João Marcelo estava morando na Holanda. Os dois haviam estudado juntos na USP e mantinham contato dez anos já depois da formatura. Flávio arrastou a maleta para dentro e comprou a passagem do trem, que não demorou a passar; sentou-se e começou a ler, mas, exausto, cochilava, e acordou apenas na estação. João, que morava no interior, tinha um compromisso em Amsterdã e resolveu passar uns dias lá e encontrar o amigo, embora não visse mais muita graça naquela agitação. Trocaram mensagens e se encontraram em frente a uma banca. “Fala mermão, e essa barba?”,”Pois é, tudo tranquilo?”. “Tudo, e por aqui, muita loucura?”, “Sei lá, ultimamente estou mais tranquilo, você deve querer ir correndo pra um coffee-shop, não?”. “Estou cansado, quero um banho; como é esse esquema onde você tá ficando?”, “É um amigo, ele é de boa, disse que você pode pousar lá”. “É holandês ele?”, “Não, é sérvio; mas não se preocupe, ele fala inglês bem”. Flávio sabia bem de que tipo de amigo se tratava, mas evitava o assunto. “Dá pra ir à pé?”, “Claro, é aqui mesmo no Distrito da Luz Vermelha, olha ali a Igreja Velha; é um endereço que os holandeses evitam, o aluguel não é tão alto”.

Chegaram, o sérvio não estava. “Ele faz mestrado e trabalha, o louco, só volta tarde”, “Entendo. Cara, estou exausto, mas até que eu fumaria um antes do banho”. Era o que João já tinha em mente, e buscou no quarto uma lata redonda de onde extraiu um pacotinho daqueles com fecho onde se via uma pequena quantidade de camarões gordos, uma mescla de verde profundo e marrom claro coberta de cristais esbranquiçados, além da seda e de um dichavador metálico. Flávio ficou um tempo admirando as flores, cheirando-as, enquanto o outro preparava o petardo, com tabaco pois a maconha era muito forte, e os dois conversavam sobre os antigos colegas: quem encaretou, quem se perdeu no pó, quem casou ou teve filho. “Acende aí, sente o gosto com ele apagado antes”, ele o fez, elogiou o sabor, tomou uma longa bola e ao expeli-la, sentenciou: “Já estou louco”. Ambos riram, Flávio quis saber: “Qual é esse?”, “AK-47, é dos mais fortes”. Fumaram só até a metade, um foi para o chuveiro e o outro para o computador. Flávio sentia a água morna escorrer como se fosse uma sensação inédita, havia muito não se sentia tão chapado e com uma onda tão limpa e suave. “Isso sim é maconha, disse saindo do banheiro, no Brasil eles misturam merla, cara, você fuma e não fica tranquilo”, “Sério mesmo? Já escutei isso mas não pude acreditar”. “É verdade, cara, já acusou no meu exame”, “Por que você fez exame?”. “Foi no trabalho, cara, aquela história que eu contei”, “Ah, sim, mas ficou tudo bem?”. Flávio fez um gesto de enfado como quem diz “não quero falar sobre isso”.

João Marcelo preparou um jantar vegetariano, ambos comeram e em seguida fizeram a ponta de digestivo. Todo o tempo, as caixinhas do computador emitiam as dissonâncias e o radicalismo do jazz de vanguarda que João conseguira que o amigo apreciasse também. “Eu queria fazer alguma coisa diferente, sabe?”, “O que, drugs?”. “É, eu nunca fiz sálvia, nem amanita, nem… lembra quando você contou que pesquisou um processo para purificar herô?”, “Cara, eu prometi não fazer mais isso, mas se você quiser… o Miro faz de vez em quando. Sálvia e amanita é fácil, vende nas head-shops”. Flávio se levantou e foi até a janela, estava claro ainda, o relógio do micro dizia pouco mais de oito horas, ele aproveitou e arrumou o seu. “Quer fazer uma sálvia hoje à noite?”; João pensou, e fez um esgar que queria dizer menos “você é louco” do que “lá vou eu de novo”. Suspirou e passou a mão pelo cabelo pelo amigo sentado ao seu lado no sofá velho: “Quer ir lá então?”. Caminharam pelas ruas já repletas de tipos calculadamente estranhos, um passou correndo, gritando besteiras em português; “Brasileiro é foda”, concordaram os dois. Entraram em uma lojinha à beira do canal, uma porta de vitrais psicodélicos sob uma placa colorida dizendo “Use Sua Imaginação”. João observou: “O mais irônico é que se todos seguissem o conselho da placa talvez ele ficasse sem clientes”. “Você está ficando moralista, porra?”, “Sei lá, já não estou bem certo de que drogas estimulem a imaginação, a criatividade”. Enquanto falavam, aguardando a vez de serem atendidos, Flávio percorria as prateleiras fascinado: cogumelos embalados a vácuo, ervas das quais nunca ouvira falar, uma infinidade de acessórios para fumo… rodopiou sobre o calcanhar com um sorriso embasbacado. O vendedor, livre, os atendeu em bom espanhol, João fez a negociação. “Vamos levar amanita também?”, Flávio sussurrou, sem motivo aparente. “Amanita é meio sombrio cara, vai com calma”. O outro ficou meio decepcionado, escolheu uma seda e jogou no balcão. “Você gosta de plástico?”, “Não é plástico, é celulose, e eu gosto, queima devagar”. “Eu não me adaptei”, e ao funcionário, “um pacote de cat-nip também”. “O que é isso?”, “Erva de gato, eu costumava misturar no beque quando não estava fumando cigarro, deu saudade.

Chegaram de volta com a escuridão quase completa, e Miroslav estava em casa. A conversa passou para o inglês daí em diante. Após a apresentação protocolar, Miroslav virou a cadeira do computador, onde estava, enquanto os dois se estabeleceram no sofá. Os dois estranhos passaram um tempo falando sobre o que faziam, um contou de quando foi ao Brasil e o outro garantiu que queria muito conhecer Zagreb; o sérvio o corrigiu: Belgrado, e todos riram. Flávio comentou que gostava muito do Kusturica, o outro sorriu satisfeito, disse que gostava de música brasileira e começou a citar nomes. “Vamos fazer um no plástico, então?”, “Achei que você não gostasse”. “Não é que eu não fume, o Miro também gosta”. Flávio fez questão de comandar o processo, usando para a piteira o livrinho de papel-cartão que ganharam de brinde. “Miro, nós compramos sálvia”, “Mesmo? Cara, eu ainda tenho um relatório para preparar… não sei.”. “Dá ressaca no outro dia?”, “Pode dar dor de cabeça, mas é só”. “Me disseram que a onda é curta e intensa”, “Sim, são alguns minutos longe do planeta, depois passa”. “Mesmo assim, eu não teria concentração para trabalhar depois… foda-se então, vamos lá”. Flávio se levantou, bateu palma com palma com o novo e com o velho amigos. “Tem mais alguma coisa, Miro, diz pra ele, Flávio”, “Sim eu… pensei…”. “Fala, cara!”, “Em tomar nos canos”. O sérvio não entendeu a tradução literal e fez uma careta. “Herô, heroína endovenosa”, e passou a elencar algumas gírias em inglês que conhecia. Miroslav olhou para um e para o outro, coçou a cabeça. “Eu posso te ajudar, mas eu tenho medo de… de desenvolver um hábito disso. Você tem certeza de que quer entrar nessa?”, “É tranquilo, não se acha para vender no Brasil, é muito raro”. “Certo, eu vou tentar meus contatos”. “Bem, cabeção, quer chapar de sálvia, vamos lá, mais tarde a gente desce para umas cervejas”. Flávio esfregou as mãos entusiasmado e o amigo foi buscar o cachimbo.

2

Sentado no Sofá, Flávio segurava ansioso o cachimbo de vidro, João logo ao seu lado. Criou coragem e acendeu o isqueiro, dando uma boa tragada. João estava pronto para segurar o cachimbo, que ele abandonou ao colapsar e apagar por alguns segundos. A primeira coisa que sentiu foi um gosto ruim, depois sua cabeça turbilhonou e ele pareceu atravessar algum portal, sentiu uma nítida descontinuidade no tempo e no espaço. Ele se achava agora no que parecia ser outro planeta, em que tudo parecia ter cores vivas e formas psicodélicas; as pessoas eram como os humanos, exceto pelas cores da pele e do cabelo. Aos poucos foi ficando claro que ele estava no meio de uma movimentada metrópole, e ele decidiu pedir informações, embora não soubesse exatamente quais, a uma senhora que passava. Não soube em que língua falava, na verdade nem sentia ser ele mesmo. A senhora respondeu algo que ele entendia de alguma forma, mas não fazia nenhum sentido, e ele percebeu que se tratava na verdade uma das bruxas de Macbeth. As cores ficaram mais intensas, começaram a dançar e a se mesclar até evoluir para um branco completo. Flávio dormiu cerca de trinta segundos, tempo em que coube toda sua viagem, e acordou sobressaltado, levantando como se feito de molas. “Quem são vocês? Onde estou? Quem sou eu?” Os outros caíram na gargalhada, Flávio pareceu confuso por mais um minuto, até que foi recobrando sua experiência fora do mundo.

“E aí, foi bom?”, “Estou meio tentando entender, mas foi lindo”. Flávio tentou explicar o que viu, inventando detalhes. A essa altura, uma dose já estava pronta para João, ficando o amigo encarregado de aparar o cachimbo. Ele apagou por uns quinze segundos, acordou com um olhar perdido. “Você tá bem?”, “Cara, sim, é só que… a sálvia sempre faz isso comigo”. “Isso o que?”, “Não sei explicar”. Miroslav se aproximou, perguntou se estava tudo bem, foi com João até a cozinha para tomar um suco. Flávio estava assustado, a ideia toda tinha sido dele. Em pouco tempo João estava ótimo e fazendo um beque enquanto tranquilizava o amigo. “Não foi exatamente uma bad, foi mais uma trip estranha, e é muito frustrante não conseguir entender nada”. Fumaram ao som de Zappa e desceram os três pela escada, terminando a ponta. Os bares por perto eram muito caros, então eles caminharam até um supermercado; a cerveja não vinha muito gelada, mas saía mais em conta. Voltavam com os dois pacotes quando foram abordados por um sujeito magro de jeans e jaqueta preta. Era uma rua escura, ao longo de um canal. “Coca, ácido, herô?” Os amigos se entreolharam, depois olharam para Miroslav, que acabou inspecionando o produto e dando de ombros. “O risco é seu, eu tenho um canal de coisa boa, mas nada garante que eu consiga amanhã”. Flávio desembolsou trinta euros e sorriu ao guardar o saquinho com bolinhas amarronzadas, o traficante não sorriu de volta.

Tomaram uma cerveja assistindo televisão, um programa holandês que não podiam entender mas seguia sendo engraçado de tão absurdo, algo entre uma homenagem e uma paródia de todos os clichês do programa de auditório, Flávio contava sobre um programa brasileiro em que o apresentador jogava bacalhau para a plateia. A cerveja já estava bem gelada, puseram algumas em um saquinho e saíram caminhando até o Rembrandtpark, que não era tão perto, mas era bastante agradável e reservado. “João, como é esse processo de purificação? A gente precisa comprar alguma coisa?”, quem respondeu foi o Sérvio: “Fica tranquilo, eu tenho toda a vidraria e a maior parte dos reagentes. Acho que precisa comprar ácido clorídrico, apenas.” João então interveio: “Isso vende em farmácia, amanhã a gente compra. Se fizer o processo à tarde, à noite a gente, ou vocês, tomam nos canos”. “Você prometeu a quem nunca mais fazer?”, “A uma amiga, e a mim mesmo… essa é uma onda sombria, cara; ópio é muito mais doce”. “Nossa, é mesmo, foi uma experiência muito boa, onírica, leve. Eu só quero tomar uma dose mesmo, como você”. “Eu usei três vezes”. “E como foram?”, “É como… mesmo que eu estivesse em um barril de merda, ainda estaria me sentindo bem. É um atalho para os circuitos do prazer, é como se cada célula do seu corpo sentisse prazer”. Chegaram ao parque, abordaram certa árvore que já conheciam e a subiram. Lá em cima João apertou outro beque. “Amanhã eu vou comprar um tanto e ponho também”, “Relaxa, e cuidado pra sair daqui com alguma coisa”. “O controle está cada vez mais estrito”, interveio o sérvio. Terminaram de fumar falando sobre planos para o futuro próximo, concluíram que ninguém estava bem certo de nada. Flávio insistiu que João passasse no Rio quando fosse ao Brasil, o outro prometeu tentar. Abriram cada um mais uma cerveja e voltaram caminhando, indo direto deitar ao chegar ao apartamento, Flávio no sofá e os dois no quarto.

Acordaram com o sol mais ou menos quente, comeram o pouco pão e queijo que acharam, Miroslav, já há muito no trabalho, havia feito café. Fumaram cada um um cigarro, discutindo o dia: João tinha o tal compromisso na entidade que lhe conferia a bolsa, Flávio ia ao Museu Van Gogh, mas apenas depois de visitar um coffee-shop. “Por falar nisso…”, Flávio pediu autorização para fazer um fino. “Você compra o ácido clorídrico?”, “Poxa, fica bem fora do meu caminho. É perto dos museus, não quer passar lá?” Pesquisaram o endereço, que Flávio anotou. “E não se preocupe, todo mundo fala inglês”, “Eu já estive aqui”. Saíram cada um para um lado, Flávio com o mapa dos coffee-shops. Queria conhecer um novo, e não seria difícil, havia muitos na região; um nome lhe agradou: Stoner’s Extravaganza, entrou. A decoração era um misto de EUA dos 50 e OVNIs-futurismo. A trilha sonora estava muito boa, um jazz-rock com turntables, um barítono solava tonitruante. Ficou em frente ao balcão admirando os spacecakes e spacebrownies, logo em seguida foi cumprimentado pela atendente, que ofereceu o cardápio. Ele pediu uma água e se sentou, analisando as opções. O cardápio tinha várias alternativas; mais uma vez foram os nomes que o atraíram, especialmente dois: Ambrosia e Aurora Borealis, ambas 50-50 indica e sativa; acabou no entanto optando pela tradicional White Widow, que ele conhecia quase que de nome. Preparou um fino, com tabaco, e acendeu; era o primeiro do dia, então a sensação era bem mais intensa, e aquela onda era muito boa. Ficou alisando a fórmica da mesa, enfeitiçado. Não precisou fumar nem metade, guardou a baga no saquinho de tabaco, aproveitou para fazer um careta e sair fumando. Optou por ir caminhando até o museu, para viver mais a cidade. Antes de entrar, contornou o museu até um pequeno parque e deu mais umas bolas. Achou fantástico o museu, que deixara de visitar da outra vez. Faltava pouco para as quatro quando chegou embaixo do bloco de Miroslav. Esquecera-se do ácido.

 

3

Flávio subiu e encontrou os dois se beijando no sofá. Fingiu que aquilo não lhe importava e confessou logo seu lapso. “Putz,  que horas são?”, João – que não usava relógio – disse, em português mesmo. Seu parceiro pareceu entender e consultou o relógio: “quinze para as seis”. João foi até a minúscula área de serviço, ocupada plenamente por uma bicicleta do tipo speed, a qual ele trouxe para a sala. “Não tenho certeza se a farmácia fecha às seis ou às sete, mas eu vou correr. Já saindo pela porta, escutou de Miroslav: “você é um speedfreak agora”. Todos riram, era uma alusão à droga que combina pó e herô. Flávio voltou a se desculpar e os outros dois mandaram ele ficar tranquilo.

Sentaram-se no sofá novamente, o brasileiro levemente constrangido, mas a conversa começou a rolar sobre a música que rolava, do Velvet Underground. “É a trilha perfeita para ‘tomar nos canos'”, expressão que o sérvio também já entendia. Uma ponta no cinzeiro foi devidamente acesa, era o AK-47 da casa. “Então você faz mestrado e trabalha?”, “É, um tanto duro, mas eu perdi minha bolsa”. “O que houve?”, “Eu soquei meu antigo orientador”. Flávio escancarou a boca e o outro prosseguiu: “Um cuzão completo, vaidoso, intransigente, machista…”. “Mas aconteceu alguma coisa?”, “Claro, ele disse que ‘alguém como eu’ – aspas que ele fez com os dedos no ar – jamais teria um futuro em computação”. “Pois é, eu nem sabia sua área”, “Enfim, você entende o que ele quis dizer”, “Perfeitamente”. “Eu quase fui expulso, mas só perdi a bolsa e mudei para uma orientadora, e ela é adorável; além de ser, obviamente, alguém ‘sem futuro em computação’ na visão dele”. “O João então também é um intruso na matemática”, “Um intruso respeitado, ao que me parece, o último artigo dele já foi citado sem nem ser publicado”. “Ele é um crânio. E seu trabalho?”, “É num supermercado. Bem tranquilo, as pessoas são ótimas”. “Aqui dá pra viver com uma profissão dessas, no Brasil, é emprego de pobre”, “Imagino”. A trilha mudou para Led Zeppelin, o que animou Flávio. “Tem cerveja aí?”, “‘Opa’, pega uma aí, deve ter” – essa interjeição era uma muleta para João, o outro aprendeu rápido. “E você, o que faz no Brasil?”, “Cara, eu devo confessar que ainda estou na graduação, eu desisti de química, tentei geografia e vim me encontrar nas Letras, eu quero me dedicar a estudar Dostoiévski”, “Fascinante!”. “E eu trabalho também, pro governo, é uma chatice  mas a grana é boa, tem certas vantagens”. Flávio sacou seu saquinho de White Widow e confeccionou um fino, mas com bem pouco tabaco, o que permitia saborear melhor a planta proibida que era tolerada naquela terra. Passaram por diversos assuntos, como a visita ao museu, e criavam uma empatia cada vez maior enquanto aguardavam João Marcelo.

Amsterdã é célebre por ser amigável às bicicletas. Mas no horário em que João saiu, o tráfego era tão intenso que nem ele pôde desenvolver alguma velocidade nem pilotar tranquilamente: qualquer ciclista que saísse do rumo constante derrubaria uma dezena deles. Mesmo assim, às seis em ponto ele chegava à farmácia. Era a única que não exigia até certidão de batismo para vender certos produtos químicos, e só funcionava – como ele ficou aliviado em descobrir – até as sete da noite, ou do dia, no verão. A compra foi rápida, o frasco plástico foi para o bolso da bermuda e a bicicleta de volta para a ciclovia ainda movimentada. Quase chegando, quando João precisava sair da ciclovia e atravessar a rua para chegar ao conjunto de blocos de Miroslav, um engraçadinho achou por bem ultrapassá-lo pela direita, os dois foram ao chão e uma colisão em cadeia, verdadeiro engavetamento, fez até o fluxo de carros se interromper e olhos curiosos concentrarem-se no acidente. João se desvencilhou do emaranhado de rodas e guidons que o cobriam, levantou-se e descobriu que tivera escoriações leves apenas, mas que o frasco de ácido clorídrico havia se aberto, metade do conteúdo perdido. “É o bastante”, pensou, enquanto terminava o trajeto empurrando a bike imprestável. Subiu as escadas, deixou a speed no hall e entrou. Miroslav acariciava a orelha de Flávio, que levou um susto ao ver o amigo, enquanto o outro parecia não se importar. “O que houve?”, disseram os dois quase em uníssono. João Marcelo contou sobre o acidente, espumando de raiva, e pôs o frasco meio vazio ou meio cheio sobre a mesa de centro. “Fica tranquilo, John, toma um banho que eu vou montar a vidraria e começar o processo”, Miroslav apaziguava o amante.

Flávio olhava fascinado enquanto o sérvio misturava as bolinhas marrons do tamanho de cabeças de alfinete no ácido diluído, esmagando-as e mexendo até se dissolverem. Quando João saiu do banho, preparou um cone gigante: “eu preciso”. Quando terminaram de fumar, conversando sobre a batalha burocrática que João não pudera vencer  no compromisso da tarde, já era hora da segunda etapa: com uma pipeta, Miroslav transferiu a solução para outro vidro. “Tá vendo esse resíduo sólido? É sujeira que nego manda pra dentro”, João disse. O amigo eslavo adicionou então hidróxido de amônio à solução, deixando-a branca, acrescentando então etil-éter e chacoalhando vigorosamente. Era preciso esperar, então desceram para comprar mais cerveja e ver o movimento, estava terminando de anoitecer. “Cara, estou tão ansioso”, Flávio afirmava o óbvio: uma constante excitação e um sorriso bobo o denunciavam. Encontraram brasileiros no mercado, e ele não se conteve: “a gente vai tomar nos canos!”; a reação dos amigos foi de clara mas silenciosa desaprovação, os compatriotas só aconselharam cuidado. Voltaram, era hora de retirar a água e adicionar nova solução de ácido clorídrico, de mexer com vontade e, mais uma vez, esperar a decantação. João tirou o rock’n’roll da playlist (tocava The Who) e voltou ao jazz extremo. Isso deve ter distraído Miroslav, que esbarrou no béquer e quase põe tudo a perder. Refeitos do susto, Flávio pediu para participar da feitiçaria: teria que transferir com a pipeta o líquido do fundo do recipiente para uma placa de Petri, e não decepcionou. Descobriram então que além do ácido que João sofrera tanto para adquirir, faltava o fermento em pó, mas isso se resolveu em nova ida ao mercado, ao qual foram tranquilamente pitando mais um. Bem, não tão tranquilamente no caso de Flávio, cada vez mais nervoso. Chegaram de volta e só faltava realmente essa última etapa: o fermento fez a solução borbulhar, e um secador de cabelo eliminou a umidade, após o que restou apenas heroína e sal de cozinha. “A quantidade é um quarto do original, imagina injetar esse lixo todo”, observou Miroslav. Flávio esfregava as mãos.

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Tudo estava pronto, então. Miroslav tinha apenas uma seringa e uma agulha, então combinaram que um tomaria o baque e o próximo teria que ferver tudo. Não era o ideal, mas era razoavelmente seguro. “É melhor que eu ajude o Flávio, injete a minha e aí o João…”, “Não sei, Miro. Eu prometi a uma amiga que não ia mais fazer isso. E eu acho que eu perco o controle muito fácil, melhor não”. Flávio então se sentou no sofá, trocou um olhar cúmplice e um sorriso com o amigo, que se aproximou e lhe acariciou os cabelos. Miroslav apareceu com a seringa e a agulha, mais uma colher e um isqueiro zippo, voltando para buscar algodão e um pouco de água. Abriu espaço na mesa de centro e se sentou, “John, pode buscar o garrote, na primeira gaveta do banheiro?”. Com cuidado, depositou uma pequena quantidade da heroína, que se parecia agora com um pó amarelado, sobre a colher, alcançou a pipeta e adicionou algumas gotas d´água. Acendeu o isqueiro com a mão esquerda e o deixou sobre a mesinha, ao seu lado, levando o fundo da colher ao fogo. A droga se dissolveu rapidamente, então ele pôs uma bola de algodão sobre a mistura e em seguida introduziu a agulha nela e puxou o êmbolo. “Esse algodão nem é necessário, porque nós já purificamos, mas é o costume”, “É uma cena clássica”, concordou Flávio, “também, eu devo ter visto Trainspotting umas dez vezes”. Os três riram e quebraram um pouco da tensão. João brincava com o tubo de borracha, e o entregou a Miroslav, que garroteou o braço do estreante. “Eu quero injetar eu mesmo!”, “Hum, sério? isso pode ser perigoso”, advertiu o amigo. João e Miroslav trocaram um olhar, e aquele tentou tranquilizar este com um meneio de cabeça. Então a seringa estava pronta, o braço, garroteado; Miroslav deu as instruções básicas, mas como a veia estava bem saliente, o trabalho foi fácil. Flávio penetrou apele lentamente com a agulha, parou, e puxou o êmbolo para trás com o dedão; o sangue fluiu para dentro da seringa, misturando-se com a solução de heroína. Ele ainda olhou para os outros dois, sorriu nervoso, e pressionou o êmbolo.

 

Bem devagar, enquanto sentia a substância rapidamente ser levada até seu cérebro, fazendo efeito em frações de segundo. A primeira coisa que sentiu, enquanto mal conseguia tirar a agulha de dentro da veia e descartar a seringa de lado, escorregando do sofá e espalhando-se pelo tapete da sala, foi um formigamento tomar conta de todo seu corpo: se uma lança o trespassasse, seria como se o fizesse a um corpo inerte, e separado do dele. Na verdade, o prazer era tão intenso, um prazer corporal, primitivo, que estivesse ele em qualquer circunstância, se estivesse em um barril de merda, ainda estaria se sentindo muito bem. Ele pensava coisas diversas de sua vida, mas a maior parte era rechaçada como desnecessária, se não nociva, naquele momento. Por um instante, um sentimento de culpa tentou dominá-lo, ele repetia: é só desta vez, não vende no Brasil, e toda a racionalização há muito aprendida. Mas foi um instante breve, e a maior parte do tempo ele teve uma onda límpida, intensamente corporal e, ao mesmo tempo, de algum modo transcendente. João se ria do espetáculo enquanto Miroslav fervia a seringa para tomar o baque por seu turno, quando Flávio começou a descer de órbita e perceber o ambiente a sua volta.

“Fez boa viagem?”. “Ah… eu… não, ótima. Grande viagem”. Flávio olhava para o furo no braço esquerdo: tinha feito, tinha tomado nos canos, e não ia se tornar um viciado, apenas uma boa experiência. Pensou então em fazer um cigarro, mas sua coordenação era ainda errática, e o amigo teve que fazê-lo. Por longos minutos ele permaneceu deitado no chão, mas João trouxe umas latinhas da geladeira e ele se sentou. Miro, um pouco mais experiente, com facilidade fez todos os procedimentos sozinho e injetou sua dose, um pouco maior, e ficou muitos minutos no sofá enquanto os brasileiros conversavam sobre cinema e, por algum motivo, sobre a crise política de algum país do Oriente Médio. Flávio não deixava de sorrir um instante. Quando João percebeu que Miro voltava do país das maravilhas, buscou seu estojo e confeccionou um do AK-47. Todos fumaram sentindo imensa paz, João talvez ainda mais do que os que usaram herô, não obstante seus contratempos com a burocracia e com o tráfego ciclístico.

O dia seguinte era aquele em que Flávio iria embora. Ele arrumou tudo ao acordar, seu trem era às três. João propôs almoçar em um restaurante perto da estação. Entraram, rumaram para um setor aberto, onde era possível fumar, pediram duas cervejas, e enrolaram seus cigarros. “Paris, então?”, “Poucos dias. Aí Lyon”. “Foi bom estar com você estes dias”, “Ora, eu que o digo. Não suma!”. “Eu só passo às vezes um tempo sem ler e-mail, mas…”, “Você sabe que eu eu te considero muito”. “Igualmente, Flávio, esteja certo”, “E avisa quando for ao Brasil”. A resposta do outro foi um aperto de mãos afetuoso. A comida chegou e foi regada a qualquer conversa amena, e a um bom vinho tinto; o café estava excelente. Pagaram a conta e rumaram para a estação de trem, faltavam vinte minutos para o horário. Ainda tomaram outro café antes de ir até a plataforma, onde esperaram pouco tempo, conversando sobre a crise europeia, até que o chamassem para embarcar. Os dois trocaram um forte abraço, beijos nas faces, e tapas nas costas. “Mantém contato!”, “Pode deixar!”. Flávio entrou no trem e procurou seu assento. João voltou para casa para ele mesmo arrumar as coisas, iria mais tarde para sua cidade prosseguir seus estudos. Flávio achou a poltrona e ligou os fones de ouvido tocando Bitches Brew do Miles. Ele até tentava evitar, mas pensava na possibilidade de simplesmente ter tentado dar um beijo no amigo. Mas isso era assunto controverso e ele logo achava outra coisa para pensar.