Políticas e Geopolíticas

Gaza 2009

 

Um Ídolo Intelectual

Noam Chomsky é um dos poucos seres humanos respeitados em duas áreas diferentes do conhecimento. É um linguista fundamental, criador de toda uma corrente de pensamento (o gerativismo), e é talvez mais conhecido como analista político crítico do capitalismo (e do socialismo) e das práticas imperialistas de seu próprio país.

A consistência do pensamento de Chomsky é irritante, a ponto de sua clareza ser confundida com simplismo. Foi o que disse o New York Times na frase em que o reputava “o intelectual vivo mais importante”… mas cujas visões políticas são “maddening simple-minded” (exasperantemente simplistas).

Chomsky é uma referência da esquerda atual (seja lá o que isso signifique) na contestação da “visão oficial da História”, segundo a qual, por exemplo, os EUA lutavam pela democracia na América Central dos anos 80, ou que a Guerra Fria foi uma disputa de igual pra igual (entre o bem e o mal, é claro); ou ainda na questão palestina – uma em que a máquina de propaganda é assaz poderosa.

Chomsky professa o anarquismo (e acabo de encomendar dele On Anarchism e Government in the Future), daí sua liberdade para criticar tanto o capitalismo de Estado à ocidental (intervencionista) quanto o capitalismo de Estado alcunhado “socialismo real” (totalitário). Este vídeo é excelente neste quesito. E quanto àquele, sugiro meu próprio Chomskytube.

Daí por que disse que Chomsky é irritante: para ele não há opção entre capitalismo e socialismo porque nunca existiu nem um nem outro. Assim como na Palestina, entre uma solução de um Estado ou uma de dois Estados, ele é por uma solução de Estado nenhum. Na verdade, como foi bem observado pela Lambisgóia, ele tem um jeito muito peculiar de fazer ironias intelectuais muito finas a ponto de serem imperceptíveis a qualquer observador menos arguto.

Não tenho problemas em afirmar que Chomsky é um ídolo. Sinto uma ponta de orgulho por me corresponder com ele (ele é super acessível – aqui e aqui). Triste pensar que estive perto de entrevistá-lo pessoalmente quando fui a Boston, mas vicissitudes inescapáveis o impediram.

Chomsky: o Potencial do Brasil (traduzido)

Leosfera:
Caro Professor Chomsky,
Fiquei feliz em ler seus artigos sobre a América do Sul, e de fato creio que se realmente nos ajudarmos e inte grarmos nossas realidades podem ser transformadas, e isso pode ser feito sem confrontar frontalmente o poder dos EUA, já que mesmo eles percebem que um mundo diferente, multipolar, sobreveio. Muito se diz sobre um novo papel do Brasil nas questões internacionais, mas eu às vezes acho difícil separar o exagero dos fatos. O que em sua opinião pode ser esse “novo Brasil”? Uma potência econômica com certeza, e as reservas de petróleo do pré-sal (exploradas responsavelmente) serão um impulso, mas quão longe pode nossa influência política ir? O senhor acha que Cuba poderia nos ver como um parceiro em uma eventual détente, repelindo o imperialismo americano? Poderia o Brasil ser uma referência para países africanos, e do Oriente Médio? Uma espécie de Gigante Gentil?
O senhor talvez goste de saber que, à medida que nos aproximamos do fim do segundo mandato de Lula (com histórica aprovação de 80%), Dilma, a candidata indicada por ele (uma experiente gerente em suas primeiras eleições) finalmente suplantou o candidato conservador José Serra (ministro de [Fernando Henrique] Cardoso) nas pesquisas, à medida em que as pessoas a associam mais e mais ao presidente. Curiosamente, dois institutos estatísticos (com ligações com a mídia de direita) saíram com novas pesquisas – semanas depois de um deles detectar uma liderança de 5pp para Dilma (PT) – mostrando empate técnico. O desespero parece atingir a oposição de direita, à medida em que prefeitos de partidos conservadores declaram apoio a Dilma, e diz-se mesmo que a poderosa empresa de mídia Rede Globo (30% Time-Life) considera abandonar o barco de José Serra (PSDB).
Noam Chomsky:
O Brasil certamente tem um excitante potencial. Por boas razões, um século atrás previa-se que seria o “colosso do sul”, uma contraparte (e contraforça) ao colosso do norte. Nos últimos poucos anos tem tomado passos importantes no sentido de se tornar o tipo de “Gigante Gentil” que você projeta. Há um longo caminho a percorrer, é escusado dizer. O Brasil tem problemas internos enormes, e a economia depende demais em produtos primários de exportação. Muitas razões para esperança. E sem dúvida muito dependerá na vindoura eleição.

Chomsky: Brasil e América Latina (traduzido)

Leosfera:
O Brasil é agora reconhecido como uma espécie de líder do mundo em desenvolvimento, e o presidente Lula – que acaba de receber um prêmio de Estadista do Ano – como uma espécie de porta-voz dos BRICs, muito embora a imprensa local adira às elites históricas (das quais é parte inseparável) e abertamente tenta desestabilizar seu governo. À luz desta nova posição, é justificado, a seu ver, o anúncio da compra de caças e submarinos atômicos para “defender a Amazônia e as reservas de petróleo em mar profundo” como alega Lula, quando os mesmos fundos poderiam melhorar o padrão de vida se investido em infraestrutura básica tal como saneamento e transporte (as ferrovias brasileiras são virtualmente inexistentes)? Parece-me um tanto absurdo pensar que a Marinha dos EUA, por exemplo, viria e roubaria nosso petróleo, ou que a Amazônia possa ser defendida de cima quando ela é ameaçada por biopiratas e extração ilegal de madeira (problemas mais chão-a-chão, sem trocadilho). E quanto a outros no continente se juntando, em menor grau, à corrida armamentista – iniciada há muito por Chávez? Seria uma reação ao fato de ser a Colômbia um títere dos EUA e ao anúncio das sete novas bases? Mas afinal, poderia qualquer país resistir a uma invasão americana se as coisas chegarem um dia a esse ponto?E quanto ao papel de protagonista na missão de paz do Haiti, o sr. o vê como um importante e efetivo esforço em ajudar o país mais pobre das Américas, ou uma legitimação de um golpe levado a cabo pelos EUA? Os grupos que nossas forças devem desarmar, não são eles movimentos de resistência popular e não apenas criminosos? Finalmente, sobre Honduras. A imprensa local apoiou a ditadura quando Lula abrigou Zelaya na embaixada brasileira: nosso maior jornal [Folha] publicou a visão de [John] Negroponte (que, segundo relatos, encontrou-se com Micheletti dias antes do golpe). E me parece que sua proposta de esperar as eleições “para que um terceiro nome assuma e tudo se resolva” é em boa medida a política americana, apesar da posição oficial de não ratificar eleições sob o regime. Recentemente os acordos se mostraram muito instáveis e fracassaram – nenhum ditador simplesmente pede desculpas e se retira. O que o sr. vê como o desfecho mais provável?Noam Chomsky:

Uma má escolha em minha opinião, embora os temores não cheguem a ser paranoia. Há, afinal, uma história, que não pode ser simplesmente apagada, e os EUA estão incrementando sua militarização na região, continuando sob Obama.

O Haiti foi sujeito a um golpe de parte de seus torturadores habituais, França e EUA. Deixou-se uma situação tão horrenda que alguma intervenção internacional era provavelmente legítima. O registro brasileiro tem sido horrível, a julgar pelos relatórios de monitores de direitos humanos.

Não me surpreende a posição da imprensa brasileira, a julgar por minha exposição limitada. Os EUA se põem agora em isolamento com o resto do hemisfério, e a Europa, ao efetivamente endossar as eleições mesmo com o presidente eleito removido por um golpe e forças populares sob intenso ataque. Citar Negroponte é digno de nota. Ele é um proeminente terrorista internacional e apoiador da espécie de crimes viciosos dos quais os brasileiros podem facilmente se lembrar de sua ditadura apoiada pelos EUA.

Penso que o desfecho mais provável é que a posição de EUA-Micheletti sairá vencedora, a menos que haja forte oposição dentro da America Latina. Improvável nos EUA, infelizmente, onde o assunto é pouco conhecido.

NC

Mensagem à Lhofa de Pão Saulo

Muito interessante o editorial Dimensão Paralela. Realmente, as contradições do Governo Lula e do Partido dos Trabalhadres são incompreensíveis na “boa e velha” lógica aristotélica. Obviamente, é a primeira vez que esse tipo de anomalia é detectado no sistema.

Acontece que essa “boa e velha” lógica, encampada pela escolástica cristã, já está obsoleta há muito tempo. O ser humano não é um circuito lógico binário, booleano, nem há uma máquina suprema, estática e inamovível, governando tudo e todos. Panta Rhei, tudo flui, dizia Heráclito.

Há gente séria expondo as limitações do cartesianismo, mas o que me parece é que nem nos livramos do “bom e velho” Aristóteles, aquele que disse que todos são cidadãos, exceto mulheres, crianças e estrangeiros; o mesmo que justificava a escravidão, aquele que foi preceptor de Alexandre Magno, grande líder militar do massacre dos “bárbaros” persas…

Que tal revisitarem Hannah Arendt de vez em quando? Não para mais auto-comiseração, mas para ver que há um totalitarismo vigente, que é vazio de significado, mas como sempre dotado de ferramentas de controle de pensamento. Ou quem sabe Milton Santos? Ou Noam Chomsky, ou Jean Baudrillard. Ah, esqueci que a Lhofa chama o pós-modernismo de “meia-oitismo barato”.

É, deixa pra lá.

Especialíssimo

Será que eu sou um caso especialíssimo, seu Lacerda?

Seria uma honra enorme, sabia?

Olhe bem, o fascismo não morreu, assumiu outra máscara. É claro que o Poder nunca fora assim tão sutil. Ele que, acompanhado de sua companheira muda, a Violência, incitava Hefesto a atar o pobre Prometeu. Bem, e quem devora o fígado do rapaz? A Águia, sempre ela… Roma, Reich, YouAss…

O fascismo hoje é exercido através da criminalização do prazer. Toda essa cruzada anti-tabaco, foi o próprio Hitler quem começou, o uso e abuso de álcool é milenar. O cânhamo foi a principal fonte de fibras até anteontem, além de ser a planta de Shiva na Índia, recreação de lavradores mexicanos… Anslinger, o paladino da proibição, tinha relação com a Du Pont, cujas fibras sintéticas vieram a substituir o cânhamo. A Coca é sagrada para os povos andinos, e eles sabem usar a planta em seu benefício, enquanto os neo-yuppies cheiram a droga refinada e “batizada”.

E que dizer da perseguição a crenças xamânicas, baseadas em expansão de consciência, enteógenas, etc. É claro que eles insistem na palavra “alucinógena” que eles consguiram demonizar o suficiente. Pelo menos aqui no Hy Brazil conseguimos garantir a liberdade para o Ayahuasca. Bem, seu bando de Torquemadas Redivivos, desistam. Não dá pra reverter a espiral descendente da sua estrutura carcomida. Caiu a Casa de (B)Usher. Esta falocracia estúpida, suas falácias tão requentadas, sua ganância sem limites éticos e morais. No fim é simples: este código de conduta é bom para ‘eles’, mas ‘nós’ estamos por sobre e para além do domínio da ética.

‘Nós’ quem? Boa pergunta. Não falo de um país, nem de um certo povo ou empresa ou agremiação. Trata-se da própria lógica interna de um sistema de produção industrial e lavagem cerebral meticulosamente aprimorado por décadas, até atingir o ponto de se tornar tão óbvio que os hipnotizados vão “desplugando” um a um…

Lá na Unicamp, houve uma vez um evento, desses em que as corporações aliciam nossos melhores “célebros”, que falava em Sociedade Pós-Industrial… Faça o favor, minha gente. O mundo hoje é Ultra-Industrial. Educação, Família, Direito, Saúde, Religião et coetera: tudo entrou no domínio da Indústria.

Bem, aí é o ponto em que a coisa (ou o Coiso) fica insustentável. Só para ilustrar: O Banco Central do Brasil se orgulha de ter 161 bilhões de dólares em reservas, mas o sistema de saúde pública está falido. Por que é que a gente não pode fazer isso ou aquilo com medo da reação do Mercado, e Cuba sobrevive a um embargo de várias décadas, mesmo depois que o “ouro de Moscou” parou de jorrar? Não, eu não penso que Cuba seja uma maravilha, nunca estive lá. Mas eu sei que ninguém morre na porta do hospital por falta de atendmento… E ainda tem gente que usa como argumento para provar o atraso da ilha caribenha o fato de eles usarem carros dos anos 50.

Fora Papa Nazi

 Rat Singer

Eu ouvi, há muito tempo, que o Vaticano é acionista da SINGER, quefabrica não só máquinas de costura, mas metralhadoras também.Repito: isso é um boato, alguém mais bem informado pode RATificar ou desmentir esse dado. Mas Luís Mir, um historiador muito sério até onde eu pude julgar (não li o livro todo) defende que o PT tem um vínculo direto com o Vaticano (Estadocriado com a bênção de Benito Mussolini). Bem, Rat Singer foi quem perseguiu o Leonardo Boff, disse que o Rock faz mal pra alma, ainda antes do Habemos Papam…

Nosso Partido dos Trabalhadores (Mattarazzo Suplicy, trabalhadores? Luiz Duce, Mantega, Palocci… dá pra ver um padrão) utiliza suas táticas stalinistas – mais uma coincidência: Joseph Stalin, Rat Singer, Blatter… – perseguindo aqueles que mantiveram uma postura reformista, que se viram constrangidos a fundar mais uma sigla, ou a se desiludir de vez. Antes mesmo de assumir o trono, Sir Louis Ignatius (lembra dos jesuítas?) Squid duBois reafirmou seu compromisso com o Deus Mercado em sua “Carta ao Polvo Brazileiro”…A América do Sul é o paraíso na Terra para todas as máfias, sejam elas abertamente criminosas ou apenas travestidas na forma de Corporações… E o sangue inocente que corre nos morros do Rio, na perifa paulistana, nos rincões da Amazônia, ou que ferve no fogo de vários acidentes aéreos, é um preço baixo para garantir o lucro de poucos eleitos. O imposto que o pobre paga num saco de arroz, enquanto os preferidos escapam do Fisco, é desviado e quase nunca volta na forma dos serviços que assim chamada Constituição Cidadã (que expressa abertamente o compromisso com o CAPITALISMO) prevê como mínimos para a dignidade humana. Bem, deve ser minha paranóia persecutória, mania de conspiração… ou será que não?

Discussão na comunidade “Israel é um Estado Terrorista” do Orkut

Renato:
O golpe a caminhoMercenários israelenses estariam assassinando camponeses na Colômbia e jogando a culpa sobre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. A advertência é do porta-voz das FARC, Raul Reyes. De acordo com Reyes, a intenção desses mercenários seria a de cometer crimes contra o povo com o intuito de culpar as FARC.Além dos israelenses, haveria também comandos especializados de mercenários estadunidenses e ingleses que estariam vasculhando a selva “cujos alvos seriam alguns comandantes das FARC”.Creio que a questão é mais ampla. Não se trata somente da Colômbia, porque não se deve dissociar a palavra mercenário de CIA – a agência de espionagem dos Estados Unidos. Esses assassinos já se encontram às portas de nosso país.E em se tratando da CIA, dita o bom senso que não se deve excluir a inter-relação entre a campanha midiática por um golpe de Estado no Brasil e o repentino surgimento desses mercenários diante de nossas fronteiras. No mundo globalizado, todos os fatos confluem. Ou alguém acha que o delinqüente Bush e sua gang estão interessados somente na Colômbia?…__________________Anna Granma:Eu acho é que o Brasil continua um Estado-Cliente dos EUA. Da “onda rosa” de governos latino-americanos, o nosso é o que mais defende a ortodoxia econômica do Consenso de Washington. Nossa PF, que pelo lado bom tem desmantelado quadrilhas de corrupção e fraudes, é também um títere da DEA.E pensar que a mídia trabalha por um golpe de estado é delírio. Há sempre um maluco aqui e ali gritando “acorda, milico!”, mas a verdade é que a máquina das corporações convive sem problema com esta farsa a que chamamos democracia.Nosso presidente é que adora se fazer de vítima, apoiado num colossal culto à personalidade. Eu tento ver as coisas boas de seu governo, mas as ruins me enojam cada vez mais. Claro que o PT não inventou a corrupção. Na verdade, foi preciso que um partido de esquerda chegasse ao poder para que todo o espaguete começasse a ser jogado no ventilador.Sim, a CIA se mete em tudo na América Latina e no mundo todo, mas é preciso cuidado com o jogo de inteligência e contra-inteligência, informação e contra-informação. Gostaria de saber quais as fontes da sua alegação.E esta vai para o Alberto Gonzales: Andale, andale andale !!!
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Renato:
Para Anna
Anna, a fonte da qual eu retirei essa informação que coloquei acima foi da revista Caros Amigos, ou, mais precisamente, do site dela. Você pode conferir se acessar o site: http://www.carosamigos.com.br .
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Leonardo:
Me ajudou muito ler o artigo de Jean Baudrillard…{Simulacros e Simulações}Ou seja, qualquer pessoa que tente explicar este começo de século XXI, e pelo menos as últimas décadas do XX em termos de claro e escuro, esquerda e direita, e por aí vai, ou é estúpido ou mal-intencionado ou os dois… A coisa tá tão maluca que só dá pra ver os signos se recombinando, escondendo não uma verdade, mas que não há verdade.Mas há fatos, só que é muito difícil termos acesso a eles. Noam Chomsky é uma boa fonte. O Le Monde Diplomatique, que agora tem uma edição brasileira (viva!) também. Tenho algumas reservas quanto à Caros Amigos, mas é boa. E a Piauí também.Até mesmo a guerra espanhola, no denominado entre-guerras, já apontava conflitos internos na esquerda. Leiam “Homage to Catalunia” de G.Orwell, ou vejam o filme “Terra e Liberdade” de Ken Loach. Talvez isso seja inerente a esse rótulo, uma vez que tudo que ele diz é “não concordo com o status quo”. Em “A Vida de Brian” do Monty Python, havia a rivalidade visceral entre o People’s Front of Judea e o Judea’s People Front…Mas vejamos, talvez o fracasso das ideologias seja uma coisa boa. Porque elas sempre foram pacotes de idéias a serem aceitos acriticamente. E cada indivíduo é uma verdade. Hoje, com a internete (interrede é muito feio? eu realmente quero aportuguesar) enfim, temos esta ferramenta que nos permite interagir de modo difuso e etéreo. Não dá pra invadir uma reunião e bater em todo mundo. Não dá pra cortar a linha, porque são várias… Bem, isso me traz Hannah Arendt à memória, mas fica pra próxima. Bem, é possível cada um contribuir com sua visão, mas chegamos ao busílis:Como agir?

Bye bye Gonzales

so long, farewell…
O Attorney General, neto de cucarachas, pediu o penico.

Responsabilizado por abusos contra a privacidade do cidadão comum e tortura de “inimigos”, Alberto Gonzales seguiu os passos do guru de Sir Bullshit II, Karl Rove, e abandonou o barco.

Sem pessoas alfabetizadas por perto, é de se perguntar o que Bushinho será capaz de fazer. Espero que mais e mais cagadas para prejudicar ainda mais seu partido.

Claro que os democratas querem perder de novo, lançando Madame Clinton ou um “african-american” cujo nome é quase igual ao Inimigo no.1 da civilização judaico-cristã ocidental… Eu de minha parte gostaria muito de ver uma mulher na Casa Branca, mas não essa aí. E quanto ao Obama, já ouvi dizer que ele é um “flip-flop”, um vira-casaca. Mas estou com ele dadas as opções. A questão é que uma grande parcela do eleitorado da “Deep America” não vai querer nem ouvir falar de um negro na cadeira.

Bem, voltando ao Speedy Gonzales, queria agradecer por ter sido agraciado com sua concepção de hospitalidade. Senta que lá vem a história.

Estive em Boston em julho último. Depois de ser flagrado fumando um cachimbo na janela de meu alojamento na Fisher College (Beacon St. 133), recebi a visita dos funcionários do escritório de “Housing”. Bem, perguntei se eles achavam que havia maconha no quarto, eles disseram que sim, eu disse que não havia. Eles fizeram uma inspeção rápida, eu prometi que não fumaria mais lá. No outro dia entrei no quarto e havia um bilhete dizendo que a inspeção de saúde estivera lá.

Aí eu percebi que havia sumido uma pasta com dinheiro, traveller checks e meu passaporte. Detalhe: havia um iPod novinho dando sopa, além de instrumentos musicais… É óbvio que não havia sido um ladrão. Eu, que não sou otário, apenas observando o comportamento dos seguranças vi o que estava acontecendo.

Um dia eu voltei lá e havia um caminhão da Verizon, empresa de telefonia, em frente ao prédio. Então eu abordei o funcionário e disse: sabe de uma coisa? papel não esquece, você põe todos seus números numa máquina… e ele emendou: e vê ela cair n’água e mergulha atrás dela, eu: exatamente. Aí ele se afastou e ouvi ele falando no celular: nós continuamos tentando, mas ele é mais alto que nossos ombros…

Você vai dizer que foi um delírio, tudo bem, eu só posso insistir que não foi. Mas que moral eu tenho se eu fui mandado para um hospital psiquiátrico? O que sei é que quando meu irmão foi lá, a pasta estava de volta dentro da mala. Com o dinheiro inclusive…

 

Direito para o STF… redundância?

A iminente indicação do ministro Carlos Alberto Direito, conservador e vinculado à Igreja Católica, é apenas mais um claro indício do vínculo entre o Partido dos Trabalhadores (ou pelo menos o Campo Majoritário – a cúpula da legenda) e o vetusto Vaticano, ora capitaneado pelo ultra-conservador Joseph Ratzinger.

Isso não é paranóia ou teoria da conspiração, é uma tese séria, defendida pelo historiador Luís Mir no livro Partido de Deus. Na verdade, o Estado brasileiro em si nunca se desvencilhou de todo da missão evangelizadora dos jesuítas. Basta assistir às transmissões da TV Justiça para observar o Cristo Crucificado ornamentando o Pleno do Superior Tribunal Federal.

Será que um dia teremos um Estado laico e democrático? Pombal, dá pra reencarnar e ajudar aqui? Darcy, por que tinhas que deixar-nos? Será possível que a Contra Reforma sobrevive até hoje? Pois veja os candidatos a chefe-de-estado que foram ao segundo turno nas últimas eleições: um retirante que virou metalúrgico, sindicalista, celebridade, ícone, culto à personaldade enfim, que não perde uma chance de afirmar sua devoção… até em messianismo se falou; do outro lado, membro de uma casta mais nobre, um médico que era um total desconhecido até entrar no vácuo deixado pelo governador vitimado por um câncer (li algures que ele chegou a fumar 7 maços por dia), voltando ao sucessor, trata-se de um membro da obscura Opus Dei… visite:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Opus_Dei

Melhor eu calar meu bico por aqui antes que venham me buscar para um auto-de-fé…

Post Scriptum:

Segundo ele [Luís Mir, em entrevista no Jó, digo, Jô], a vinda do Papa Nazi teve o intuito de apaziguar as lutas internas da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e tentar salvar o projeto de recuperar, a partir do Brasil, a influência que eles se acostumaram a ter sobre todo o mundo.

O protestantismo se afirmou como a ética dominante, com a primazia anglo-saxã que foi estabelecida depois das duas grandes guerras. Bem, o que eles preconizam, Max Weber observou bem, é o trabalho e a prosperidade financeira como valor máximo.

Aí surge dentro da Santa Sé a Opus Dei, cuja espinha dorsal é a mesmíssima ética protestante. Seria paranóia minha concluir que ambas crenças, em vez de seguir a palavra de Jesus, que era crítico da injustiça social, trabalham para garantir a desigualdade que é ao mesmo tempo efeito e condição sine qua non do Capitalismo?

Apenas dirija…

Brás entra no táxi e responde como nos filmes:
Para lugar nenhum, apenas dirija.Pois é, e agora? Daqui pra onde? Onde guardar sua esperança? Por onde extravasar seu idealismo? Como administrar seu inconformismo? Nah… melhor sucumbir à preguiça, render-se à passividade, tomar uma cachaça, quem sabe cantar um tango argentino, NÃO! Montar um grupo de pagode!O Sapo Barbudo tanto pulou que alcançou o trono. Claro que coaxando mais baixo, em estranha simbiose com seus antigos predadores. Prometeu Fome Zero e entregou Caixa Dois. Anunciou o Espetáculo do Crescimento e apresentou um Show de Horrores político. Sob a heráldica do ‘País de Todos’, instalou uma ‘Nomenklatura dos Seus’. A esperança venceu o medo, que por sua vez foi derrotada pela mediocridade, que seria massacrada pela desonestidade.Mas por que não experimentar um metalúrgico sem-dedo, se um intelectual sem-braço não funcionou? Um dândi que se apaixonou pelo próprio reflexo, a ponto de dar vida a seu duplo virtual. Foi o homem que matou a cobra, e só não mostrou o pau porque não haviam inventado o Viagra. Se pelo menos seu primeiro nome fosse Tarcísio ou Thiago…Ou que tal um mineiro cuja sexualidade, ou falta dela, até hoje é discutida (isso é que é comer quieto). Uma espécie de dublê de Dr. Hyde (com sua inevitável contraparte) e necromante, que trouxe do reino dos mortos um Besouro motorizado.Ou você pode recorrer a um playboy cheirador empenhado em caçar marajás (não marijuana, como se chegou a publicar) e levar o Brasil ao Primeiro Mundo (especificamente à sua conta na Suíça). Seu fim foi não dividir o butim, além de avançar na mulher do irmão, PC, que o cagüetou. O outro PC sumiu, apareceu e sumiram com ele (ah, essas paixões).Que me diz então dum (auto-declarado) poeta com um rabo de andorinha pendurado no nariz? Figura opaca e meditabunda (se preferir, um panaca de meia bunda), caiu-lhe no colo um mandato tampão em que também recorreu à paranormalidade, provocando sucessivas glaciações que não bastaram para extinguir o fogo do dragão.Sorte de quem morreu eleito, como uma grande promessa, sem ter tido tempo de provar sua pequenez diante do gigantesco monturo de corpos, fezes e zeros vermelhos que herdaria.TARJA PRETADjango Larr, um aristocrata que coxeava da perna esquerda, acabou substituindo o arqueiro titular. Foi vítima de um golpe de vista e engoliu um frango, ou melhor, vários abutres de alta patente. Antes mesmo que seu time fosse ao ataque. Teve que atuar no futebol estrangeiro.Houve um populista demagogo, prolixo e beberrão, que entrou dando vassouradas a estro e a sestro, quis até esquentar a Guerra Fria por aqui, mas pediu o penico logo, acossado por ‘forças terríveis’ (pa bo enten me pal ba).Tivemos um JK morto num carro em circunstâncias mal esclarecidas, talvez para imitar o Tio Sam. Assim como o deles, não foi mais que um semi-deus inventado. Num passe de mágica levou o Olimpo embora e entregou o Fogo aos mortais para que queimassem o Cerrado e a Amazônia, além de ensiná-los a brincar de carrinho.Antes dessa tragédia grega, na Era Mitológica, o grande Pai dos Pobres era um déspota astuto e até algo esclarecido. Goza do distanciamento histórico que filtrou todas impurezas de uma longa ditadura. Tirou umas férias, voltou pelo voto para depois meter um balaço no peito. Espera aí, os mártires costumam ser mortos, não cometer suicídio!Bem, e agora seu Brás? Na garrafa tem mais? Mais uma ‘guinada’ de 360º; uma ‘revolução’ em torno do mesmo eixo? A caravana passa, quem ladrava agora é ladrão. Cinco séculos de pilhagem e pilhéria. Desde que uns brancos sujos e fedidos aqui aportaram e se impressionaram com as vergonhas desnudas das silvícolas e com a exuberância da paisagem onde se plantando tudo dá, sem vergonha alguma levaram o pau-brasil, desceram o pau nos negros, meteram o pau nas negras e índias, plantando a Cana-da-Índia e a semente de um povo que seguindo Darwin ou segundo Darcy Ribeiro seria superior, mas… Dizem que um anjo perguntou a Deus por que colocar tanta riqueza, beleza, fartura e nenhum vulcão, terremoto ou furacão no Brasil. Com um sorriso, Ele respondeu: “Espera pra ver o povinho que eu vou colocar lá!”.Talvez a solução fosse evacuar o país de civilização e entregá-lo de volta ao Neolítico. Ou abrir mão de qualquer escrúpulo e virar um Narco-Estado. Ou ainda estender uma gigantesca lona, cobrar entrada e vender pipoca e amendoim. Talvez a idéia do Raul Seixas não seja tão absurda. Quem sabe se entregássemos nossos melhores jogadores de bola ao FMI, ou se mandássemos as crianças de rua estudar na Suíça?Apenas dirija…

Postagem numa discussão sobre o conflito no Cáucaso.

Tension in the Caucasus has been building up for a while, and one must have been blind to say the war is a surprise. At least since 2006 there have been skirmishes in South Ossetia and diplomatic strain, to put it euphemistically, between Russia and Georgia.
You ask why US didn’t alert the poor helpess georgians of the russian threat, but wait! Georgia started the conflict by assaulting South Ossetia. Analysts have suggested that they did so expecting the US to back them up. As anyone knows, current georgian president Mikheil Saakashvili is closely aligned with the U.S.
On the surface, it may look like a simple question of secession, which does exist and is quite old: South Ossetia is a province of Georgia, with many ethnic russians, that has declared its indepenence in 1992, though it was not internationally recognized. Another dissident region is Abkhazia, in a similar political status, but effectively under abkhaz rule since georgian defeat in 1992-94. It has also been said that the recognition of independence of Kosovo by western countries, which certainly upset Russia, historical ally of Serbia, may be used as justification for russians to support the ossetian and abkhaz separatism.
But the underlying theme here is obviously Russia’s struggle not only to maintain its area of geopolitical influence, threatened by moves toward west in Ukraine and Georgia, but to gain absolute control over the transportation of oil and gas. That’s what explains russian immediate and asymmetric response, which went way beyond “protecting ossetians from Georgia”. That’s also why Sarkozy, representing the european countries which depend heavily on the supply of oil and gas from that region, hurried in to establish a cease-fire.
But let us not forget that it is us, western countries, that wish to reinforce georgian territorial integrity, denying the dissidents their independence for the sake of of a strong ally in a strategical region. There are no good guys or bad guys. I am not defending russian imperialism as I wouldn’t defend british or american or corporate imperialism (the three REAL ones in rough chronological order).
Maybe the US doesn’t care enough about their georgian friends (they certainly don’t care about the ossetians…) to get involved. That’s ungrateful if you think Georgia sent troops to support the invasion of Iraq. Maybe they’re too busy with two pointless wars (three with the war on drugs), or bringing back to life the Fourth Fleet to oversee potential deep-sea oil reservoirs being discovered in the Atlantic. Or maybe they ARE indeed preparing for a conflict against Iran, both directly and/or through the mediation of Israel.

Comentário à matéria da BusinessWeek: Go Ahead, Blame Biofuels

http://www.businessweek.com/technology/content/may2008/tc20080519_024493.htm
First: ethanol in Brazil is produced out of sugar cane, which is not a food source. Brazilian biofuel thus has no direct impact on food supply. There are problems, though, with this production process, namely the burning of the cane crops to facilitate harvesting, harsh working conditions of cane laborers and soil depletion. Cattle growing in Brazil, as pointed out in the article, utilizes grazing land, not grains. No impact on food supply once again. The downside is deforestation, since that activity is very extensive and occupies large areas. Another aspect of brazilian agriculture is that family-run crops are responsible for most of food supply, while big agribusiness resort to more profitable commodities, such as soy, oriented for export.
It just seems to me that most people fail to realize that the food crisis is yet another manifestation of capitalism crisis. Once you leave all decisions to the “invisible hand” of the market, it’s no wonder that while agribusiness corporations and an elite of big farmers celebrate their huge profits, billions of impoverished people face starvation. Let us remember that enough food is produced to feed the world population, distribution is the problem. Another thing to be considered is what late brazilian economist Celso Furtado called the Myth of Economic Development, which states that if every human being were to reach the consumption standards of developed countries, four planets worth of natural resources would be necessary. So, as more people are consuming, the whole paradigm of development is cracking

Chiste

Joseph Stálin está em uma reunião do politburo quando lhe anunciam um telefonema. Ele se afasta até o aparelho, e ouve-se-lhe responder: “Sim, sim sou eu mesmo. Quem está falando?”. Depois de alguns instantes, começa a gritar: “Vai pro inferno, pequeno verme! Se eu pego você eu acabo com sua raça!” E desliga batendo o fone no gancho. Volta esbaforido para o meio dos circunstantes, e um toma coragem para perguntar: “O que houve?” Ao que o tirano rsponde: “Nada, era só um Trotsky!”

Ainda o Aquecimento Global

Tudo bem, assumamamos que, se o mundo não acabar em 2012 com a profecia maia, acabará no máximo até a metade do século, como parecem querer nos fazer crer os milenaristas climáticos.Nenhuma destas medidas anunciadas, mesmo as mais ambiciosas – portanto impossíveis de atingir – deteria o tal aquecimento. A menos que se invente a usina de fusão nuclear, que o petróleo acabe (para que mudemos na marra), ou ainda que tomemos o bom exemplo dos indígenas sulamericanos, passando a viver em pequenas sociedades autóctones, sustentáveis e comunistas, é absolutamente impossível reduzir as emissões de gás carbônico pela metade até 2050, em relação a 1990, o último objetivo declarado. A população cresce, seus setores marginais ganham crescente acesso ao modo de vida “civilizado”, e vamos precisar de energia que as fazendas de vento não conseguirão suprir.

Aí é que está: já vi um cientista maluco destes falando em “conter o crescimento populacional na Somália” para lidar com o Aquecimento Global. É o velho malthusianismo reeditado. Eu aposto meus dois testículos como o estilo de vida dos ricos – em especial o norteamericano – não vai mudar nada. Mas vão impedir que os países pobres se “desenvolvam” – como apontou Celso Furtado, esse desenvolvimento é um mito; mas enquanto não se mudam as regras do jogo, é o ideal de todos. O Blogue Festival de Besteiras da Imprensa colocou bem: o que está em questão é a velha Divisão Internacional do Trabalho.

Você dirá: como? eles prometeram centenas de bilhões para os pobres. É aonde queria chegar. Esses países pobres o são por um bom motivo: foram vítimas do colonialismo europeu, e mesmo após a independência, foram mantidos em condição subalterna, como fonte de alimento, matéria prima e mão de obra barata. O mundo rico nunca se preocupou – para além das tradicionais boas intenções – em resolver os problemas mais prementes desses países: desnutrição, mortalidade infantil, analfabetismo são apenas alguns deles. Pois agora prometem despejar bilhões para que se adaptem à mudança climática. Não esclarecem bem: é para ajudar a “aguentar o tranco” quando o céu desabar sobre eles (ou o mar os submergir), é para desenvolver uma “economia de baixo carbono”, proibir que desmatem e ampliem a agricultura, instalar as caras fontes limpas para que consumam eletrodomésticos importados? Porque esses países não têm indústria, o consumo energético é baixo e também as emissões. Se é urgente “salvar o planeta”, não são os industrializados que precisam se adaptar?

Sim, algo está mesmo podre na conferência da Dinamarca. Em uma próxima postagem, tentarei desenvolver o que eu acho que de fato deveria ser feito. É um desafio e tanto, mas não posso também ficar apenas desconfiando e criticando.

O Método Estatístico do Ibope

A Globo detesta cotas de políticas afirmativas.

Mas seu método estatístico para “pesquisas de opinião” é o de cotas.

Veja o que dizem dois estatísticos da Unicamp (José Ferreira de Carvalho e Cristiano Ferraz):

Apenas um trecho, que diz tudo, sobre um teste desse método realizado na Inglaterra:

“Em que pese a natureza descritiva deste procedimento, os dados relativos aos homens mostraram que, das doze estimativas geradas pelo método de quotas, sete diferiam significativamente dos dados do censo, enquanto que nenhuma das três estimativas geradas pelo método probabilístico apresentou discrepância notável dos valores censitários. Os dados referentes às mulheres não deixam por menos: das doze estimativas geradas pelo método de quotas, onze produziram números diferindo significativamente do censo, ao passo que em apenas uma das estimativas produzidas pelo método probabilístico observou-se discrepância significativa.

Em relação à variável educação, os autores se sentiram à vontade em indicar que os resultados obtidos via amostragem por quotas tendem a captar indivíduos com melhor nível de educação. Observaram ainda que, dos quatro tipos de amostragem por quotas estudados, três produziam valores discrepantes das observações censitárias por mais de dois desvios-padrões, enquanto os valores produzidos pelo método probabilístico estavam bastante próximos dos observados pelo censo.”

Ah, esses “indivíduos com melhor nível de educação”!

Fala Kish:

● o método não é científico, o que torna sua avaliação impossível
● o método é artístico (sic)
● tipicamente, não se faz uma tentativa de calcular a variância adequadamente, e a expressão pq/n é audaciosamente (sic) assumida e apresentada…
● O assunto importante continua: ninguém sabe quão bom é o desempenho de amostragem por quotas. Afinal de contas, os métodos mais pobres podem produzir bons resultados para variáveis que são aleatorizadas sobre a população. As pesquisas do Literary Digest foram sucessos por anos. Em muitos outros casos não há como verificar-se o desempenho. Devemos deixar de lado as tentativas ingênuas de usar os controles de quotas, como idade, sexo e região, como provas de desempenho da amostragem. Verificações em variáveis que não são usadas nas quotas freqüentemente revelam grandes discrepâncias. Além disso, predições eleitorais freqüentemente falham, algumas vezes por larga margem. Muitas dessas são convenientemente esquecidas. Algumas transformam-se em escândalos gritantes; então trata-se de explicar os fracassos com explanações e desculpas, as quais são ignoradas enquanto não são necessárias.

Ah, quer dizer que a amostragem é falha… e que pesquisas eleitorais costumam falhar, inclusive por larga margem? Então dá pra “errar” como se queira manipulando a amostragem? E não ser pego porque o método não é científico?

Como diriam nos filmes de tribunal americanos: I rest my case.

Carta Capital Persegue Battisti: A Troco de Quê?


Na imagem, o amigo do Lula e do Berlusconi.A Carta, que parecia se salvar no terreno das revistas semanais de (des)informação, não apenas por ser “esquerda”, parece fazer por merecer a vala comum de Veja e IstoÉ.Mino, italiano, deve ter alguma razão pessoal para não reconhecer que a perseguição a Battisti é política, pouco importando as circunstâncias reais dos crimes atribuídos a ele por companheiros de uma ORGANIZAÇÃO POLÍTICA em delação premiada, e julgados à revelia (só um idiota voltaria à Itália para ser “julgado”).Mas mesmo sem entrar no mérito, o artigo perde qualquer credibilidade ao chamar Battisti de ex-terrorista. Antes de mais nada, ou essa palavra é abandonada, ou deve ser estendida a pessoas como Ehud Barak, que liderou a IDF na chacina de 1400 gazeus em claro “uso [ou ameaça de uso] de violência com fins políticos, ideológicos ou religiosos”; ou quem sabe Garrastazu Médici? Henry Kissinger? Vladimir Putin? Ou o Stroessner, que asilamos? Por que não são terroristas esses? O Mandela não era assim considerado, até outro dia, quando – vendido aos racistas – virou heroi?Eu, de minha parte, prefiro a resistência pacífica, mas isso é um tanto ingênuo. A ação de Battisti, como a da luta armada brasileira, foi um erro mais pela limitada chance de êxito do que pelo aspecto moral. O direito à insurreição é assegurado nos países democráticos. Era um governo legítimo que se combatia? Discutível: um país que viveu (e criou) o fascismo deveria ser cioso da volta da extrema-direita. E o atual premiê é prova de que não aprenderam nada!Por fim, pouco me importa se Battisti for extraditado, o que se afigura como o mais provável. Gostaria de acreditar que seria tratado com dignidade, em caso afirmativo, mas tenho sérias dúvidas.O que me incomoda é o comportamento da “comunidade internacional” e da “opinião pública” de adotar dois pesos e duas medidas, dependendo da posição ideológica, étnica ou social de um criminoso.

Al Gore Podre no Reino da Dinamarca


“Something is rotten in the State of Denmark”Post no Luís Nassif:A batalha mundial do aquecimentoNassif:Independentemente dos argumentos de lado a lado, chamo a atenção para a tentativa dos defensores do IPCC (os estudos que levaram à tese do aquecimento) de interditar o debate.Com a tese do aquecimento, o Brasil tem mais a ganhar do que a perder. Os países desenvolvidos terão que bancar projetos em emergentes. O Brasil tem mais condições do que qualquer outro país de consolidar espaço no mercado da agricultura sustentável.Leosfera:Não consigo assimilar como “preservar a natureza” pode deixar muita gente, em seus escritórios na Madison Ave, milionários ou bilionários – como o sinistro Al Gory.Nossa agricultura latifundiária, monocultora e extremamente poluente tem que comer (ou plantar) muito arroz-com-feijão antes de ser sustentável. Mais argumento para a reforma agrária. Mas se o Brasil cumprir suas promessas quanto a conter o desmatamento, já é bom sim. Mas e o parque industrial, que tem espaço para crescer, ao contrário do euamericano, não vai encontrar uma barreira?E não são os céticos que têm o ônus da prova. O AG é uma tese (com mais de um século!) que tem que ser comprovada e não aceita como dogma. Os céticos apontam os furos dessa má ciência que confessadamente manipula os dados. Não só o declínio da temperatura desde 98, mas o fato de que antes de 57, quando iniciam os dados de concentração de carbono do IPCC, esse nível já fora bem maior que hoje (+ de 400 ppm, contra 380 atuais, em 1942!).*—-*A verdadeira história dos níveis de gás carbônico (em inglês)Curva dos alarmistas: começando em 1957Curva sensata: de 1826 a 1960Como é que a concentração subiu tanto de 1920 a 1940, quando a indústria ainda chupava chupeta, e caiu vertiginosamente durante o boom pós-guerra? Dica: temperatura dos oceanos. Se eles se aquecem, absorvem menos CO2.Excertos do artigo de Ernst-Georg Beck:Desde 1812, a concentração de CO2 no ar do Hemisfério Norte tem flutuado. exibindo três níveis de pico máximos por volta de 1825, 1857, e 1942 – o último exibindo mais de 400 ppm.Uma grande questão quanto à abordagem do IPCC de relacionar clima e CO2 é premissa de que antes da revolução industrial o nível de CO2 atmosférico esteve em um estado de equilíbrio por volta de 280 ppm, em torno do qual pouca ou nenhuma variação ocorria. Esta presunção de constância e equilíbrio é baseada em uma revisão crítica da literatura mais antiga sobre o conteúdo atmosférico de CO2 por Callendar e Keeling. Entre 1800 e 1961, mais de 380 artigos técnicos que foram publicados sobre a análise de gases do ar continham dados sobre concentração atmosférica de CO2. Callender, Keeling e o IPCC não forneceram uma avaliação minuciosa desses artigos e os métodos químicos padrão que eles aplicavam. Ao contrário, eles desacreditaram essas técnicas e dados geralmente como falhos ou altamente inacurados. Embora eles reconheçam o conceito de “nível histórico impoluto” para o CO2, esses autores examinaram apenas 10% da literatura disponível, asseverando daí que apenas 1% dos dados anteriores poderiam ser vistos como acurados.*—-*Para o correspondente do Estadão, o clã dos “climatocéticos” é virulento. Desqualificar o oponente é tática cara a quem foge de um debate argumentativo. Eu não sou, Monsieur Lapouge, virulento: há meses não pego nem gripe. Nem vou cobrar bom jornalismo do Estadão, que deve estar considerando descer a ladeira no rastro de Folha e Veja.

*—-*

“[Sarkozy] com seu ministro da Ecologia, Jean-Louis Borloo, apresentará um relatório explosivo. Esse relatório não esconde que o salvamento do planeta custará muito caro porque será preciso investir muito dinheiro nos países pobres para ajudá-los a lutar contra o CO2: 500 bilhões de euros logo de cara.”

Como assim, camarada? Onde é que se emite mais CO2? Na Namíbia ou na sua França? No Butão ou nos EEUU? Olha o golpe… depois que ouvi falar em “conter o crescimento demográfico na Somália”, o AG ficou desmoralizado definitivamente; não duvido de mais nada. Esse dinheiro a ser investido, palpite meu que parece se confirmar, vai preparar o terreno para a expansão das corporações no mundo mais pobre – pois os emergentes incomodam.

*—-*

No fim, não sai porra nenhuma para conter o suposto Aquecimento. Mesmo um sucesso estrondoso, com redução de 20% das emissões, não conteria, a julgar verdadeira a tese. Mas as oportunidades de negócio no Mercado do Carbono certamente serão criadas. Agora, se alguns vão ganhar muita grana, quem exatamente vai perder?

Jornalismo: Crise é Mundial

Lula e comitiva estiveram por esses dias na Alemanha, onde encontraram a chanceler mais azeda da Alemanha – de qualquer sexo – de que tenho notícia. Além de fazer o coro da “comunidade internacional” contra o Irã, o que define mesmo Merkel é o ativismo no Milenarismo Climático, do qual sou cético de carteirinha. Enfim, na conferência conjunta, a tônica foi a divergência a respeito do Irã.

Merkel, já disse, alinha-se com a Águia Imperialista ao pressionar o regime dos Aiatolás em função de seu programa nuclear supostamente pacífico. Acredito que Ahmadinejad construiria sim a bomba, tão logo tenha tecnologia para tanto, mas que está a muitos anos de fazê-lo – um relatório da CIA de 2006 concluiu que o Irã desistira da bomba.

Lula, de sua parte, recebeu recentemente o controverso governante persa, e defendeu seu direito a um programa pacífico, como é o nosso. A cobertura nacional e estrangeira destacou o apoio, ignorando nuances do discurso de Lula que sutilmente criticou a falta de liberdade e tolerância no Irã, seu apoio ao Hamas, e sua condenação à própria existência de Israel; ignoraram ainda a afirmativa de que “não-proliferação e desarmamento nuclear devem andar juntos”.

Na Alemanha, Luiz Inácio foi mais enfático. Enérgico mesmo:

“Não sei se sou ingênuo, se sou muito otimista, mas acredito muito na capacidade de convencimento e de diálogo nas pessoas. Estamos tentando dar a nossa contribuição. Espero que aconteça o melhor, que não tenha arma nuclear no Irã e que não tenha arma nuclear em nenhum país do mundo, que os Estados Unidos desativem as suas, que a Rússia desative as suas. Autoridade moral para pedir que os outros não tenham, é não ter. É importante. Sou um país que assinou na Constituição a não proliferação das armas nucleares, portanto estou tranquilo para dizer. É importante que os que têm comecem a desmontar os arsenais, que a gente tenha mais argumentos para convencer os outros”.

Não é ingenuidade, e também não é bravata: ainda que a declaração não vá convencer EUA e Rússia, ou o posto avançado do Ocidente no Oriente-Médio, que Lula prudentemente evitou citar, a desativarem suas ogivas, é uma tomada de posição muito corajosa. E que qualquer pacifista ou pessoa de bom senso endossaria: Lula injeta esse discurso na esfera da diplomacia. Bravo. Ao mesmo tempo, insiste em paciência e negociações, contra as ameaças e sanções que só podem indicar uma invasão iminente. Bravo de novo.

Que faz a imprensa, local e estrangeira? Mais uma vez pinta Lula como aliado de Ahmadinejad, optando por ignorar sua audácia. A Globo o culpa de “causar constrangimento”. A Bloomberg parece querer jogar nosso país no Eixo-do-Mal, truncando a mensagem como já foi explicado. CNN, BBC e afins simplesmente ignoraram o encontro – mesmo que não houvesse outra notícia internacional relevante. Independent e Guardian, supostamente dissidentes, também silenciam. Le Monde nada, Monde Diplomatique, esse sim dissidente, nada até agora. Achei matérias na China e no Irã (óbvio) e nada mais.

Não se trata de exagerar a importância das declarações, puxando o saco de Lula. O brasileiro tem hoje grande inserção no mundo, como nunca antes na História deste país, por que não dizer? E cobrar o desarmamento nuclear, denunciando a hipocrisia americana, não é pouco.

Pois então: alguém ainda faz jornalismo sério no mundo? Ou isso nunca existiu?

Baguete de Acúcar compra as Casas Polônia

Portal Exame, 04/05/2005

Grupo francês vai compartilhar controle do grupo Pão de Açúcar
A partir de 2013, o grupo Casino terá o direito de nomear o presidente do conselho de administração da holding que vai controlar a Companhia Brasileira de Distribuição

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O Casino vai investir 407 milhões de euros para ampliar sua fatia na estrutura acionária da CBD, através da criação de uma holding em sociedade com os Diniz. Um novo acordo de acionistas, válido por 40 anos, define as regras para o exercício do controle conjunto e da governança corporativa da companhia.

Abilio Diniz continuará presidente do conselho de administração da CBD e será o presidente do conselho da holding de controle. Diniz terá a palavra final na supervisão geral do negócio, com “voto de qualidade (desempate) em caso de impasse no tocante à deliberação de matérias relativas ao curso normal dos negócios da CBD”, segundo o fato relevante publicado pela empresa brasileira. Augusto Marques continua diretor-presidente do Pão de Açúcar.

Através de uma troca de ações ordinárias e preferenciais, entre outras operações feitas entre os Diniz e o Casino, a nova holding terá 65,6% das ações ordinárias (ONs) da CBD. Os franceses ficarão diretamente com 28,7% das ONs, Abilio Diniz, com 2,8%, e Valentim e Lucília Diniz, também com 2,8% das ONs.

Wikipedia:

Samuel Klein (Zaklików, Polônia, 15 de novembro de 1923) é um empresário judeu polonês dono da conhecida rede de lojas de departamento brasileira Casas Bahia.

“Eu não tehno loja, tenho banco” (atribuída a Samuel Klein)

“Fazemos qualquer negócio” (outro Samuel, o Blaustein, na Escolinha do Professor Raimundo)

O que ando lendo por aí

Chomsky fala sobre o Irã .

Destaque para a pérola de Kissinger:

Noam Chomsky: O ponto fundamental foi explicado com franqueza por Henry Kissinger. O Washington Post perguntou-lhe por que razão ele agora afirma que o Irã não necessita da energia nuclear e que, por conseguinte, deve estar a trabalhar para construir uma bomba, enquanto em 1970 insistiu que o Irã necessitava de ter energia nuclear e que os Estados Unidos deviam prover o xá com os meios necessários para o conseguir. Foi uma resposta típica à Kissinger. Era um país aliado e, por isso, precisava de energia nuclear. Agora, que já não era um país aliado, não necessitava de energia nuclear. Israel, pelo seu lado, é um país aliado, mais precisamente um estado-cliente. Por isso, herda do amo o direito a fazer o que quer.

 

Ainda à caça do Kiffa

Há uns quatro anos, propus algumas siglas que poderiam figurar no cenário eleitoral em 2010 após um “realinhamento” das nossas forças políticas. Infelizmente nenhuma delas vingou: não disputarão a presidência o Partido Careta ou a Esquerda Hidrófoba, tampouco o Partido do Subsolo – que pena – e sim as mesmas caras mais ou menos previsíveis, à exceção do barbudo que esteve em todas desde 89 e agora se faz notar pela ausência. Ainda que seu espectro possa vir a ser o fator decisivo.

Nesse intervalo, não saiu reforma política alguma, eu me juntei à Esquerda Hidrófoba (carteirinha nº001) e a luta política passou a se dar na esfera dos meios de comunicação: os mesmos de sempre, mas também – e cada vez mais – espaços como este, apenas muito mais acessados. Cada um adere a um lado, com raras e imparciais exceções (visite o primeiro elo na coluna à direita), no clima generalizado de briga de torcida: muito insulto e pouca substância. O mercadejar político deve estar perplexo: vão-se limitar a tentar colar qualquer imagem no candidato, produzir os programas de tevê, e mandar imprimir aqueles excomungados que são os santinhos, que tanto emporcalham as vias. Mas a informação vai circular de fato, e toda ela, inclusive o que se queria esconder, na blogosfera. Geralmente repercutindo as sandices da moribunda grande mídia. E o pau vai comer.

Mesmo assim, na tola esperança de uma reforma política e partidária que garanta uma representatividade mais coerente e franca das forças constitutivas de Hy Brazyl, eis uma nova proposta a ser considerada, já que o TSE nem me respondeu quanto à última.

UPN – União dos Partidos Nanicos. Chegando à óbvia conclusão de que nunca iriam a lugar algum, nossos partidos nanicos – que nunca tiveram aliás ideologia alguma – resolveram se unir em um consórcio, na esperança de obter mais tempo na TV e reajustar o aluguel da legenda. Ideal para funcionários públicos que apenas querem a licença remunerada a que fazem jus sendo candidatos.

PE – Partido das Empreiteiras. Sem mais homens-do-meio ao custo de uns porcentos! Se sabemos que eles têm mais poder do que qualquer governante, pois atuam em todos os entes federados, e com quaisquer partidos, os empreiteiros devem logo garantir assentos confortáveis no parlamento e demais assembleias. Prefeririam ficar na penumbra representativa a alçar voos mais altos no executivo, uma vez que seus passados são algo comprometedores. Mas com os cala-bocas adequados, pode-se pensar.

PFCR – Partido Feudalista da Contra Reforma. Até quando a bancada ruralista vai se satisfazer em ser apenas um grupo republicano e progressista com moderada influência no Congresso? Não trarão nunca a transformação social sem precedentes no país (quiça no mundo!) que propõem. Precisam constituir um partido independente, forte, para construir alianças, e mesmo reconstruir, já que a Igreja resolveu ficar do lado dos comunistas (que horror!). Seu projeto de implantar o feudalismo através de uma reforma agrária às avessas, além da plataforma moralizante para acabar com a pouca-vergonha que grassa na Cabrália, geram um bocado de votos!

RTSDB – Repartido dos Trabalhadores Social-Democratas e Bundões. Este não é novo. Não é invenção minha, ao menos; mas é um peculiar produto da realpolitik tupiniquim. Com 700 facções internas, e no fim apenas uma, um determinado partido trabalhista de determinado país da América Latina – que prefiro não nomear – chegou ao poder fazendo umas coisas estranhas. As facções hidrófobas desertaram, ou antes foram expelidas em corte marcial sumária. Com o tempo, o governo apresentou um aceitável Estado do Bem-Estar, e ficou claro que roubava a sigla da Social Democracia (do Belize, acredito). Uns ficaram encabulados, outros parece que nasceram para aquilo; de qualquer sorte, não são muito mais que bundões.

Pandora Contemporânea


A operação da Polícia Federal contra a boa e velha corrupção nossa de cada dia no Distrito Federal foi batizada Caixa de Pandora. Já disse, e repito, que eu gostaria muito de ter este emprego de batizar as operações da PF. Pelo menos poderia mandar a mensagem para a Rádio Muda antes do bote, mas isso é tema para outra postagem. Enfim.Sem chover no molhado, já que a Globo ocupa ao menos um terço da programação em causar escândalo – que dura uma semana e é esquecido -, vou-me permitir, puxando o gancho da erudita força policial, uma abordagem mitológica.Pandora e sua caixa foram enviadas por Zeus a Epimeteu (irmão de prometeu e primo de Quentimeteu), como parte do pacote de maldades destinado a Prometeu por ter ele roubado o fogo olímpico e entregue aos mortais. A caixa foi aberta desavisadamente pela moça, escapando todos os males, e quando ela a conseguiu fechar, restou lá a esperança.Pois que os males liberados pela atuação do cagueta-premiado Durval Barbosa se multipliquem mais e mais, resvalando em outros partidos, em outros estados, em verdadeiro efeito dominó. Não são inéditos ou surpreendentes afinal. E que fique dentro da caixa a esperança. Esperança de que o povo brasileiro não mais tolere estas práticas, que assuma a cidadania plena transformando o país em uma veraz democracia. Esperança de que sempre haja um Durval para trair seus colegas mafiosos, e que haja sempre uma Polícia Federal implacável, um Ministério Público atuante, e uma Justiça imparcial e célere. Podemos acrescer a esperança de que não haja vazamentos suspeitos a prejudicar as investigações: imagens circulando servem para a mídia se refestelar e para fomentar uma indignação difusa nas massas, mas prejudicam a coleta de provas decisivas.Agora, se nos preocuparmos demais com Pandora, esqueceremos Prometeu acorrentado no Cáucaso. E eu penso que Háracles está demorando demais, uma vez que o titã não foi salvo ainda. E as Águias estão mais vorazes que nunca. Mas eu digrido…

Promíscuos


Hoje é o Dia Mundial de Combate à AIDS. Para celebrar, traduzo a letra de “Promiscuous”, do (ótimo) álbum Broadway the Hardway, de Frank Zappa (baixe aqui).Promiscuous[Royal Oak Music Theatre, Detroit, Michigan February 26, 1988]The Surgeon General, Doctor Koop
S’posed to give you all the poop
But when he’s with P.M.R.C.
The poop he’s scoopin’
Amazes meC-Span showed him, all dressed up
In his phoney Doctor God get-up
He looked in the camera and fixed his specs
‘N gave a fascinating lecture
‘Bout anal sex
ANAL SEX
ANAL SEX
ANAL SEX
ANAL SEXHe says it is not good for us
We just can’t be promiscuous
He’s just a doctor – he should know
It’s the work of the Devil, so
Girls, don’t blow!
DON’T BLOW
DON’T BLOWDon’t blow Jimmy, don’t blow Bobby
Get yourself another hobby
(If Jesus practiced medicine
I’m sure he’d do it
Just like him)Is Doctor Koop a man to trust?
It seems at least that Reagan must
(And Ron’s a trusting sort of guy –
He trusts Ed Meese
I wonder why?)
I WONDER WHY
WONDER WHYThe A.M.A. has just got caught
For doin’ stuff they shouldn’t ought
All they do is lie and lie
Where’s Doctor Koop?
He’s standin’ bySurgeon General? What’s the deal?
Is your epidemic real?
Are we leaving something out?
Something we can’t talk about?
A little green monkey over there
Kills a million people?
That’s not fair!
Did it really go that way?
Did you ask the C.I.A.?
Would they take you serious,
Or have THEY been
Promiscuous
Have THEY been Promiscuous
Have THEY been Promiscuous
Have THEY been Promiscuous

Promíscuos

O Cirurgião Geral, Doutor Koop
[Everett Koop, Cirurgião Geral 1982-1989]
Supostamente nos dá todo o serviço
Mas quando ele está com a PMRC
[Parents Music Resource Center, organização moralista protocensora]
O serviço que ele entrega
Me assombra

O C-Span mostrou ele, todo bem vestido
[Rede de TV de assuntos públicos, uma TV Senado americana]
Em sua beca fajuta de Doutor Deus
Ele olhou na câmera e ajeitou os óculos
E deu uma palestra fascinante
Sobre sexo anal
SEXO ANAL
SEXO ANAL
SEXO ANAL
SEXO ANAL

Ele diz que não é bom para nós
Nós simplesmente não podemos ser promíscuos
Ele é justamente um médico – ele deve saber
É obra do capeta, então
Garotas, não chupem!
NÃO CHUPEM
NÃO CHUPEM

Não chupe o Jimmy, não chupe o Bobby
Arranje para si um outro hobby
(Se Jesus praticasse a Medicina
Estou certo de que faria
Assim como ele)

É o Doutor Koop um homem em quem confiar?
Parece ao menos que o Reagan deve
(E Ron é um cara que confia –
Ele confia em Ed Meese
[Procurador-Geral neocon de Reagan]
Eu especulo por quê.
EU ESPECULO POR QUÊ
ESPECULO POR QUÊ

A A.M.A. acaba de ser pega
[Associação Médica Americana]
Por fazer coisas que não deveriam poder
Tudo que fazem é mentir e mentir
Cadê o Doutor Koop?
Ele está ratificando

Cirurgião Geral, qual é o lance?
É SUA EPIDEMIA REAL? [grifo meu]
Estamos deixando algo de fora?
Algo de que não podemos falar?
Um pequeno macaco verde lá longe
Mata um milhão de pessoas?
Isso não é justo!
Isso aconteceu mesmo assim?
Você perguntou à C.I.A.?
Eles o levariam a sério,
Ou foram ELES
Promíscuos?
Foram ELES Promíscuos?
Foram ELES Promíscuos?
Foram ELES Promíscuos?

O Correio Arrudense


José Roberto Gargamel (na imagem), governador do DF pelos Demos, é pego, em investigação da PF que vazou para a imprensa, dividindo dinheiro de propina. Fala-se abertamente em pagamento à base aliada no legislativo. É o maior assunto do Distrito Federal, confere?O Correio Braziliense é o maior jornal de Brasília, em termos quantitativos pela pujança do grupo herdeiro de Chatô, e em termos qualitativos apenas pela total indigência de seus concorrentes. É uma publicação cheia de erros e impropriedades, tendenciosa como de costume, mas que aspira ao posto de “jornalão”.Bem, a manchete de sábado era bem peculiar. Sem nomear Gargamel, ou o crime, dizia que “GDF e distritais são alvo de investigação.” Mas a foto – e a maior parte – da capa eram dedicadas a uma série de demonização do usuário de drogas, metiê favorito do diário. Por que não uma foto de Gargamel com maços de dinheiro na mão? Bem, vem o domingo e temos na capa… drogas de novo. Uns 5cm da página vão para o caso, mais uma vez sem citar Gargamel. A manchete interna era um singelo “Pedido de Explicações”. Engraçado é que, dependendo do partido dos envolvidos, o veículo pularia – mesmo sem provas cabais como estas – de cabeça no sensacionalismo o mais irresponsável, para sangrá-lo politicamente a todo custo.O Jornal Nacional entrou com tudo no caso, espetacular que é, não amaciou pela coloração política do acusado (que é verde mas não tem nada com o PV). E com algum constrangimento elogio a atitude da emissora, que nada mais é do que a obrigação jornalística ante provas tão contundentes, audiovisuais, contra um governador de uma unidade federada. Mas pairam suspeitas sobre a cruzada midiática: seria preciso incinerar o Gargamel antes que ele contagie o Conde Drácula, de quem seria certamente o vice. Estratégia arriscada. Talvez seja o gosto do sensacionalismo. Mas… e o Detran-SP, o Roubanel e o Saresp, que nunca respingam no Vampiro? Enfim, o Correio é pior que a Globo (em todos sentidos). Na gestão de Roriz, teve o mesmo comportamento. É mais realista que o rei, na mão de quem come. Sérgio Motta que o diga…A Confecom é repleta de boas intenções, mas nossa realidade é que a mídia local é só mais um capataz dos coroneis de sempre. E isso não muda por decreto. Em tempo de declínio do jornal impresso, é de se perguntar se vale a pena lutar nessa seara. Talvez seja o caso de criar portais jornalísticos locais independentes, é bem mais barato que qualquer outro medium.

Folha: Não dá mais para ler


Eu confesso que, como muita gente, andei iludido. Achei que podia confiar, cheguei a acreditar mesmo, mas estou cada vez mais decepcionado. Revoltado até. Não, não falo de nosso governador Arruda – em quem não votei -, aquele que no mesmo dia em que é pego com a boca na botija deflagra uma campanha de marketing em bares, com um exército de Papais-Noéis verdes e os malditos panfletos. Não me refiro tampouco ao presidente, em quem votei em 1998 e 2002 e que me decepcionou no mensalão, mas principalmente por fazer um governo cor-de-rosa bem pálido, quase transparente; mas cujos resultados, livrando-me do coro à minha volta e das garras da mídia, passei a admirar.Estou decepcionado, revoltado e muito puto mesmo com um veículo o qual eu sabia ter um viés, mas com algum espaço para pluralidade, e acima de tudo seriedade, integridade jornalística. Um jornal que eu comprava, cheguei a assinar um bom tempo. E que agora desmorona: a Folha de São Paulo; ou, como eu gosto de chamar spooneristicamente, Lhofa de Pão Saulo. A Folha resolveu seguir a trilha da Veja: ofensa, baixaria, apelação: mentira enfim. Ocorre que só quem embarca nessa é quem já está espumando, contra o Lula no caso; os críticos moderados, sensatos, do governo (eu seria um) e seus apoiadores, que porventura reputassem ainda o jornal, vão deixar de assiná-lo ou comprá-lo. E as vendas da Lhofa já estão ridículas, tomara que os Frias fechem a bodega.Um tempo atrás houve um caso menor, mas sintomático. Colunista econômico, Alexandre Schwartzman – devidamente identificado, em letras minúsculas, como funcionário do Santander, portanto parte interessada – escreveu um artigo grosseiro em que não explicou fundamentos de economia ao público, ou sequer defendeu uma tese ou proposta, envolto em jargão que fosse: partia para a desmoralização debochada de qualquer posicionamento econômico diferente do seu (a ortodoxia que atende aos bancos, é claro). Insinuou que economistas heterodoxos teriam fumado maconha para formular suas teses. Não deveria ser um insulto, mas em nossa sociedade é.Depois foi a questão blecaute, em que a “grande” mídia em uníssono quis sangrar o governo, e nada obteve. Mas acompanhar as manchetes da Folha em linha foi até engraçado. Manchetes como “Caos Urbano: pessoas não conseguem atravessar a rua”, “Polícia nega onda de saques” – manchete negativa, mas é sempre a manchete que cola, e a parte do impacto -, “Ligações para 190 duplicam” e lá dentro você descobre que a maior parte das ligações eram pedidos de informação, e que as ocorrências de fato caíram. Na Band, o Bóris falava (a quem tinha energia): “Não saiam de casa!” Foi um circo.Outros absurdos certamente foram publicados sem que eu (que não compro esta porcaria mais) tenha ficado sabendo. Mas o exemplar (nada exemplar) de ontem foi ao zênite do disparate. Em dois momentos. Primeiro ao comentar uma peça publicitária que usaria as vozes de Lula e Dilma para anunciar um papel higiênico (que supostamente deixara de ser para os ricos para ser para todos). O mau gosto da campanha à parte, só mesmo alguém muito mal intencionado – já que estúpidos eu sei que não são – poderia por a culpa no presidente, que teria jogado “a liturgia do cargo pela privada”. Não foi o pior.O pior foi reservar duas ou três páginas (que, ao contrário do papel higiênico, para nada servem) para atacar o filme sobre o Lula, e colocar uma nefasta cereja no topo do sândei: uma entrevista com Cesar Benjamin, esquerdista que participara da campanha lulista em 1994, e que solta, displicentemente, uma acusação seriíssima contra Lula. Conta de uma conversa em que Lula teria puxado assunto sobre a prisão e, após dizer que “não aguentaria ficar sem boceta”, teria narrado uma tentativa de estuprar um rapaz, quando preso no DOPS. O DOPS da “ditabranda” de Otavinho. Bem, hoje parece que veio o desmentido, o contraditório, ao menos, bem escondido, depois da blogosfera pescar vários depoimentos negando tal absurdo: Paulo de Tarso desmente o teor da conversa e nega que Benjamin lá estivesse, o que confirma Sílvio Tendler (o publicitário de quem “não se lembrava” Benjamin), acrescentando a versão (para mim) definitiva: foi só uma piada, e todos sabiam que rea uma piada. De certo mau gosto, no melhor estilo “machão” brasileiro (onde o ativo não é homossexual), mas uma piada.Pois não deveria nem me indignar, isso é ótimo para derrubar de uma vez a credibilidade do diário da Barão de Limeira. Pena é que o Estado, que é sério, seja conservador demais, que o Globo, já sendo dos Marinho, esteja escorregando a mesma ladeira da Folha. E o que sobra? Os tabloides de esquerda, que nem são vendidos aqui em Brasília? A porcaria do Correio Braziliense? Não sobra nada. Mas temos os blogues, onde é preciso também filtrar com cuidado, pois há muito de espírito de “briga de torcida”. Mas aquilo de sentar na praça e abrir um jornal está em extinção. Aliás, em Brasília nem tem praça direito, mas isso é outra conversa.O blogue do Nassif tem trazido discussões mais aprofundadas, que recomendo: Um jornal sem rumo.

Caetano Redux, ou Stalin vs. Roosevelt

Caetano tem uma ou outra canção digna de nota, mas nunca fui com sua fuça. Muito antes de ele assumir um protagonismo Anti-Lula que lhe vai custar qualquer credibilidade que lhe pudesse restar. Não faz muito, disse do presidente-operário que ele seria analfabeto e grosseiro. Na última entrevista de Lula, com Kennedy Alencar (Folha/Rede TV), o presidente usou palavras como “abdicar”, “liturgia” ou “introjetar”, e deu um espetáculo; não é um erudito, e não precisa sê-lo, mas não há nada que o desabone linguisticamente. Aliás, Caetano já recebeu umas bordoadas do linguista Marcos Bagno por seu elitismo estúpido.Pois agora Caetano embarca na falácia do “culto à personalidade”. E o compara aos malvados ditadores da esquerda, esquecendo o pluripartidarismo e a liberdade de imprensa (que serve exatamente para que setores abonados, como os Marinho que lhe deram voz desta feita, vilipendiem atabalhoadamente o supremo mandatário); esquece ainda que se há publicidade oficial, ela é sempre dos projetos, e nunca vinculada à efígie do ex-metalúrgico. Eis a pérola:

“Eu acho ruim, no Brasil hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula. Por que não pode? É muito ruim, isso. Isso é um projeto que aconteceu na União Soviética, com Stálin, na China, com Mao Tsé-Tung, acontece ainda em Cuba, com Fidel. Não se pode dizer, só se pode adular o líder. Isso para mim é o que há de pior.”

Ele parece que não lê os jornais onde dá seus pitacos, nem assiste à TV. Ou sabe o que acontece e é cínico bastante para ir adiante, que é o mais provável. Mas pouco me importa. O que quero aqui levantar é a comparação – esdrúxula, sabemos – de Lula com Stalin. Talvez seja uma boa comparação, se escolhermos o quesito “mortes e campos de trabalho” vs. “vidas salvas da miséria absoluta e geração de emprego”. E – cá entre nós – os que acusam Stálin, com bons motivos, de ser um assassino, não deveriam esquecer que seu Exército Vermelho derrotou Hitler… mas eu digrido.

Eu gostaria mesmo de propor outra comparação: de Lula com Franklin D. Roosevelt, ficando assim na mesma época. Como Roosevelt, Lula se viu obrigado a enfrentar uma crise cíclica do capitalismo, um estouro de bolha especulativa. Ambos socorreram o setor financeiro e adotaram medidas para aquecer a economia e gerar empregos. E tiveram êxito reconhecido globalmente. A diplomacia do americano foi acertada, entrando para a II Guerra apenas quando era impossível manter-se neutro ante o fortalecimento de Hitler e do Japão no Pacífico. A política externa do brasileiro foi extremamente benéfica, foratalecendo laços com países no mesmo patamar, e mantendo uma neutralidade salutar ante anos de submissão à Potência (ver postagem anterior). FDR, por fim, era extremamente popular nos EUA, como Lula o é aqui; a diferença é o tratamento dispensado pela imprensa. Isso é porque Roosevelt não representava forças desde sempre alijadas do poder, a incomodar os tradicionais mandarins que se refugiaram na imprensa, impotentes no campo político.

Por fim, Roosevelt quebrou uma regra não-escrita da democracia americana e governou por três mandatos, morrendo no início do quarto. Falou-se um bocado, por aqui, em quebrar uma regra (há pouco) escrita para permitir um terceiro mandato. Um referendo popular, se se permitisse que fosse realizado, facilmente garantiria a extensão da Era Lula. Mas ele optou por não seguir o exemplo do antecessor (mesmo consideradas as diferenças de lisura no processo) que mudou a Constituição para alterar a regra eleitoral. Agora, Lula querendo, dificilmente algo impede seu retorno em 2014.

A Diplomacia Brasileira e o Nobel


O Brasil sob Lula criou uma nova inserção para si na seara diplomática. Firmar parcerias comerciais Sul-Sul e extrapolar nosso papel de potência média regional para potência média global (fazendo por merecer a inclusão no BRIC) é apenas um exemplo, fomentar a integração regional da américa Latina é outro, e tudo sem romper relações com a Águia Norteamericana, relações estas que só estremeceram com a visita de Ahmadinejad.Setores da mídia não fazem questão de ressaltar que esta fez parte de uma série de três recepções estratégicas, sendo as outras duas a do israelense Perez (que, aliás, merecia muito mais protestos) e do desmoralizado presidente da ANP, Abbas. Não é que Lula se ofereça para mediar o conflito mais espinhoso do planeta (mas sua declaração de que a ONU deveria substituir a Águia, parte interessada, foi brilhante); os líderes em questão é buscam o porta-voz dos emergentes para que ele se envolva. A imprensa estrangeira discorda da local, e vê em Lula um estadista respeitado e admirado no mundo todo. Voltando ao chefe-de-estado iraniano e a cobertura jornalística, tentaram dar a impressão de que Lula apoiaria o “pária” em tudo, quando na verdade o discurso do nosso presidente questionou a falta de respeito à liberdade e à diversidade, reafirmou a legitimidade de Israel (posição histórica do país, ainda que eu pense mais como Ahmadinejad, em princípio apenas), e falou corajosamente em desarmamento nuclear, em especial na região, questionando a hipocrisia das potências nucleares que querem encrencar com seu programa – por ora, ao menos – pacífico. Tudo com muita sutileza, e elegância. Amorim é um craque. Mas também pisa na bola e ratificar a controversa reeleição de Ahmadinejad açodadamente foi no mínimo desnecessário.Agora, outro dia, elogiei a chancelaria de Lula e ouvi que “a diplomacia brasileira sempre foi a melhor do mundo” ou algo nesse tom. Respondi que alinhamento automátcio com os EUA não é boa diplomacia, mas aí me lembrei de um caso particularmente emblemático, que li no Blog do Argemiro: O Itamarty entrou em campo para IMPEDIR que o religioso Dom Helder Câmara, célebre pela preocupação social e pela luta contra a ditadura militar, recebesse o Prêmio Nobel da Paz em 1970, quando a repressão era máxima e a propaganda estupidamente nacionalista. Mas essa não era uma honraria que agradasse ao regime, não seria um orgulho nacional como a conquista futebolística: seria combustível para seus opositores.Para digredir só um pouco mais, o laureado de fato foi Norman Borlaug, um dos responsáveis pela chamada Revolução Verde, processo que trouxe ao campo novas técnicas: mecanização, defensivos venenosos, e a inevitável concentração fundiária, responsável pelo sofrimento e pelo êxodo de milhões de camponeses; tal processo apenas se intensificou nos anos 60, iniciara-se nos EUA lá pelos anos 30, como descreve com lírica maestria John Steinbeck em romances como As Vinhas da Ira, que estou a ler.Bem, eu de minha parte não precisava de mais este motivo para não levar o Nobel da Paz a sério. Basta dizer que Henry Kissinger recebeu um, com extensa ficha corrida de maldades como o 11 de setembro – o do Chile, o do WTC ele apenas ficou encarregado de engavetar; Obama, sem ter feito nada e preparando-se para fazer – caca, é claro – acaba de receber um. Mas Mahatma Ghandi, que levaria o prêmio definitivo por escolha democrática, nunca recebeu um. Adivinha por quê? Porque se opunha à criação de Israel. Mas se Lula insistir em brincar de fazer a paz no Oriente Médio – e sem necessariamente mostrar mais resultados que uma partida de futebol – arrisca-se a ganhar essa dúbia homenagem.

A Confecom e Eu

Caros três leitores, este é dificilmente um blogue no sentido mais restrito, de diário virtual. Mas hoje é exatamente o que faço: narro minha experiência na etapa candanga da Conferência Nacional de Comunicação. Então voilà: querido diário…

Na sexta feira fui até a ENAP, órgão de educação do GDF, onde ocorreria a abertura da etapa da Confecom no DF. Bagunça no cadastramento, normal; pouca gente no auditório, previsível; discursos protocolares, enfadonhos. Saí de lá para conferir o Festival de Cultura Popular na Funarte: maracatu e as gatinhas “alternativas” de Brasília.

No sábado, não consegui chegar cedo como gostaria, mas o evento estava atrasado. Eram eixos temáticos, os três principais: Produção de Conteúdo, Meios de Distribuição e (salvo engano) Direitos e Deveres. Aí onde havia algo a ser dito de fato, as falas foram tolhidas pelo tempo; e não não houve embate entre pontos de vistas conflitantes. Intervenções que não iam além do óbvio por parte do público, com honroso destaque para meu colega de P-Sol, Índio, que cutucou o representante da Band quanto à criminalização do MST (um editorial do telejornal ameaçava até o “gabinete do presidente” de uma “reação dos produtores”). Mas foi uma liberação de cólera que não se traduziu em pergunta, argumento usado pelo pusilânime para não responder nada – e a claque da Band o aplaudiu!. Eu mesmo tentei ter a palavra para falar sobre temas que não vi contemplados: o jabá (pagamento à emissora pela gravadora para fabricar sucessos), a propriedade cruzada de vários meios por um mesmo grupo, e ainda para cutucar o representantes das teles, que vinha com o jargão técnico “tucanizado” para discretamente atacar o projeto governamental de ampliação da rede Banda Larga em nome da “livre concorrência”, da “convergência”, em prol das gigantes do setor, basicamente estrangeiras. Não me passaram o microfone, OK.

À tarde, ocorreriam os grupos de trabalho. Eu estava inscrito no Tema II: Meios de Distribuição, interessado que sou na radiodifusão livre (pertenci por anos à Rádio Muda, de Campinas). Mas fui me decepcionando aos poucos ao perceber que estavam ali apenas passando a limpo as propostas das entidades: CUT e Intervozes principalmente. Surgiu uma polêmica sobre uma proposta apresentada pelo Movimento GLBT de “garantir a laicidade no processo de outorga”. A discussão primeira é óbvia: a redação é clara? Que significa isso? Que igreja não pode ter meio de comunicação? Ou que o processo não pode preterir ou beneficiar uma determinada confissão? Pedi a palavra para dizer que: não, o texto não é claro; que o provável sentido desejado (proibição total) é irreal, vai encontrar uma barreira, mas que poderia-se propor um limite percentual em relação ao total de canais para conteúdo/propriedade religiosos, assim como para qualquer setor da sociedade. E afinal, por que banir igrejas? As outras emissoras também não teriam um viés? “Vamos tomar o lado da Globo?”, eu poderia ter dito. Enfim, seguiu a proposta original, com um acréscimo boboca de “garantir a pluralidade bla-bla-bla”. E assim foi, mudando uma vírgula aqui, outra ali. Outra discussão: reserva do espectro, com 40% para setor público, 40% para setor privado e 20% estatal. Propôs-se 33% para cada um. Agora eu penso: primeiro, o que exatamente vai diferenciar o público do privado? Uma emissora pública de televisão não vai precisar de um bocado de dinheiro? Esse dinheiro, se não viria do Estado, não seria então dinheiro particular? Estamos falando de quê? TV MST ou TV FIESP? É tudo tão abstrato! E mais: passar um decreto não cria condições materiais para que surjam essas emissoras, e argumentou-se mesmo isto: pretende-se aumentar a reserva para o Estado, que não tem bala na agulha nem para manter sua atual estrutura de comunicação (10%) com qualidade. Por fim, a poderosa ABERT (Emissoras de Rádio e TV) vai simplesmente falar “vem, pode ir entrando, tem espaço para todos…” se hoje abocanha 90% do mercado?

Por isso digo: que lutem então com suas propostas pré-fabricadas, mas não me deem a ilusão de que eu posso participar. E tomara que consigam pelo menos os Conselhos de Comunicação, que seriam (ou poderiam ser) instâncias participativas (para as entidades, não para o cidadão) com poder de se posicionar ante os temas relacionados à comunicação. Mas podem também virar peças acessórias, decorativas. O projeto da Banda Larga também pode ganhar contornos mais democráticos, mas as teles são poderosas e têm o presidente em sua mão (vide a fusão BrT-Oi), além do temível Ministro da Globo, é claro. Quanto a uma real transformação no panorama eletromagnético, sou bem cético.

O que me deixa puto é que se eles elaborassem propostas mais chão-a-chão, como criminalizar o jabá e descriminalizar a radiodifusão sem concessão, poderia haver alguma chance. Espero que algum estado leve essas ideias à rodada nacional. Eu desisto.

Alô, Marina!

Sobre a postagem Os céticos em relação ao aquecimento, no Nassif.

Eu só acho uns palhaços aqueles que associam o Milenarismo Climático ao socialismo. Ora! São os capitalistas de sempre que querem frear a expansão dos emergentes, é óbvio! A atividade industrial nos países ricos está saturada, as corporações (por vários motivos, legislação ambiental permissiva, por exemplo) produzem na periferia. Aí a China começa a incomodar… e vêm com essa patranha. que vai acontecer? Expandirá a industrialização em países sem meta! Vão-se “lembrar” da África. Quer apostar?

O socialismo é condizente com um ambientalismo sério, porque o modo de produção e os hábitos de consumo do capitalismo (e sua disseminação, a globalização) são insustentáveis. Se todos no planeta consumissem como um americano, seria preciso uns 5 planetas. Por isso querem frear o processo que eles mesmos iniciaram, para manterem seu privilégio. Com uma sociedade socialista (ideal, não as reais), não haveria por que comprar um utilitário esporte para competir, mostrar “sucesso”, não se consumiriam tantas bobagens supérfluas, e a produção seria ditada pela racionalidade das legítimas necessidades humanas. O socialismo sustentável, ou ecossocialismo, talvez, é o caminho mais sensato. Creio eu.

É dos Carecas que Elas Gostam Mais?

Sempre que se arma um circo político, os palhaços como eu adoram vê-lo pegar fogo. Serra está desesperado com medo de que o Arrudagate respingue nele. Dever de quem teme o Vampiro no Planalto é espalhar estas coisas o máximo possível. Há que se colar o escândalo no Roriz também: o esquema vem do governo dele. Só a TV Brasil (o melhor noticiário) se deu o trabalho até agora. Porque esse coroné voltar é talvez pior que a (já defunta) reeleição do Gargamel do DEM.

Em tempo: acabo de ver um punguista ser preso por duas viaturas e meia dúzia de canas. Ele deveria negar as acusações e se dizer vítima de persegução política (ou social, no que teria um quê de razão). O flagrante de Arruda et caterva é gritante, revoltante (ainda que nada surpreendente) e poderia servir ao menos para revermos a imunidade de que gozam tais “honoráveis bandidos”. Comprei o livro com esse título sobre o aliado maranhense do Lula, vai aguardar sua vez ao lado de “memória das trevas”, sobre o colega de Arruda na violação do painel do Senado.

É tanta meleca!

Nietzsche Explica

Mal Dilma foi eleita, o primeiro assunto que circula – além da tradicional dança das cadeiras – é a recriação da CPMF, uma contribuição que é compulsória e carrega o epíteto de provisória mas parece ter mais vidas um gato vampiro. As letras restantes não são para Mother Fucker, mas movimentação financeira. Sabe, essas chateações da vida contemporânea que significam basicamente receber e usar dinheiro, ou seja, o objetivo de vida de todo bom cidadão submetido ao capitalismo.

Não que eu seja doutrinariamente contra qualquer imposto, essa é geralmente uma bandeira daqueles que não precisam da assistência do Estado, que o querem apenas garantindo o terreno para o capital jogar bola (sem ao menos fazer a encenação básica de defender os desassistidos). Como o Goerge W. Bush, que não fez muito mais do que iniciar guerras e cortar impostos (para os mais ricos).

O que eu penso é que um remendo aqui outro ali não vão resolver nada: a reforma tributária, tão alardeada e nunca concretizada, é que deveria instituir um novo regime arrecadatório que desonerasse o consumo de bens e serviços essenciais e taxasse pesadamente aqueles supérfluos e de luxo, além de incidir sobre patrimônio e heranças. Ou seja, implantar finalmente a progressividade no lugar desta perversa regressividade que faz uma família de baixa renda empenhar uma parcela bem maior de seu orçamento com impostos do que uma de alta renda. Acontece que quem tem influência política é justamente essa camada de alta renda; some-se a isso que nenhuma parte interessada está interessada em perder receita, e segue que o mais provável é que saia qualquer reforma cosmética. Acabando com a gurra fiscal entre estados, talvez.

Voltando à CPMF, eu acredito que ela pudesse existir, com uma alíquota baixa, só pelo efeito fiscal: muito sonegador de IR caía no cruzamento dos dados de CPMF. Obviamente, não é a preocupação dos governadores e da presidente-eleita: querem receita. Parece bem provável que a ideia vá adiante, e voltará aquele inconveniente de receber um dinheiro e não depositar com medo da tunga, ou de não passar o dinheiro por uma conta intermediária, e por aí vai. E pensar que eu trabalhava em banco, já sabia de cor: R$3,80 a cada mil reais. É um imposto nietzschiano: eternamente retorna.

Parabéns

Dilma Rousseff confirmou o favoritismo nas pesquisas e faturou a presidência do Brasil. É muito positivo o fato de uma mulher ter chegado lá pela primeira vez. Era sempre preferível que fosse uma com luz própria e não uma “favorita”. Meus parabéns de qualquer forma. Eu apoiei sua candidatura discretamente e sem entusiasmo no segundo turno, agora me volto à tarefa de ser-lhe oposição pela esquerda. Fico feliz mesmo é de ver a cara de tacho da direita, que vai ficar sem o pirulito por mais pelo menos quatro anos. Eu de minha parte sou da parcela privilegiada dos brasileiros, e se a menos privilegiada está satisfeita e quer continuidade, tudo que eu falar sobre reformas estruturais soa como conversa furada. Segue o barco.

 

Então tá, né?

Dilma não me entusiasma nem um pouco. Principalmente essa Dilma da campanha, produto dos marqueteiros. Gostava mais dela mulher-macho e enérgica; quando ela ficou nervosa em alguns momentos da campanha essa Dilma verdadeira reapaeceu. Mas, como ia dizendo, não consigo me empolgar para fazer campanha para Dilma, por mais que deteste a perspectiva de ver o PSDB de volta ao poder, com o PFL no cangote (não duvide que ele voltaria à turgescência de outrora). Dilma é mais realpolitik na veia, é estender a lua-de-mel com as oligarquias, é Eike Batista subindo na lista da Forbes. Até gente muito boa como o Milton Temer se ilude pensando que sendo ela menor que Lula o partido falará mais alto e a puxará para esquerda; nem o terrorismo da direita fala isso a sério… bobagem: “a culpa é da Articulação” quantas vezes eu já ouvi isso de petistas de verdade; e lá estará a Articulação com seu Lula e seu Zé Dirceu (o Godzilla). Já disse que gostaria muito que o PT tivesse lançado o chanceler Celso Amorim. Não sei se foi ele quem não quis ou se nunca se pensou nisso. Vejo nele uma pessoa capaz, articulada, mas o metalúrgico tinha uma afeição especial pela mineira. Vamos nós. Meu candidato não chegou a um por cento dos votos, que posso eu dizer? Chego a ter saudades da Marina que dava um sal à contenda e evitava o que depois se mostrou inevitável: a gincana despolitizada entre chapa-brancas e regressistas. Neste fim de semana a coisa se resolve, e quem melhor definiu a situação foi o Luiz Fernando Veríssimo, que não vê grande diferença entre os dois (como Lula foi muito pouco diferente de FHC), mas ainda assim prefere a Dilma. Mas quando eu a vejo falando e penso que ela será presidente (é presidente, você já viu gerenta, pacienta ou atendenta?) dá um desânimo… Então é isso, acho que meu voto é, mais que um “voto crítico”, como inventou meu partido (sendo que críticos mesmo serão os da Marina), um voto desanimado. Se eu votar, porque tem feriadão aí, né?

Tiro ao Calvo

Me sinto um pateta só por me misturar à “polêmica”, por assim dizer. Imagine que um amigo seu, francês, digamos, venha te visitar e descubra que às vésperas da votação de 2º turno para presidente a discussão política mais profunda é sobre… uma bolinha de papel? Sim, amigos, nosso campeão de votos Tiririca havia se enganado. Pior do que tá fica, sim.

Não só o episódio todo no Rio foi marcado pela agressividade de lado a lado dos militantes, como algum imbecil – que não pode ser senão das hostes petistas – achou bacana tacar uma bolinha de papel no candidato adversário. Um sujeito desses merece ficar uma semana sem recreio. Dizem que um rolo de fita também atingiu o sinistro careca, ou a Globo disse. Não sei. Já é um objeto mais duro, e um pecado “menos venial”, digamos. De qualquer forma, por mais condenável que seja, não tomemos a coisa fora de proporção.

Pois foi exatamente isso que Serra fez, e pior: só depois de receber um telefonema o “avisando” de que estava ferido. Levou a mão à calva e foi ao hospital alegando… tonteira? Foi o que o médico disse, o que lhe submeteu a uma… tomografia computadorizada? Sério? Cara, eu ainda me mudo pra Bolívia!

Pois é, gente, quando eu falei em gincana eleitoral, virando batalha campal, era uma figura de retórica, não precisava levar tão a sério. E não é que tacaram uma bexiga d’água na Dilma? Puta que os pariu… A pergunta que fica é se o(a) presidente que sair desse pleito sairá contaminada por toda essa tolice ou se poderemos esquecer tudo isso. Do jeito que está, a eleição presidencial se parece cada vez mais com um esquete do Monty Python. O difícil é só escolher qual é o Silly Party, pois nenhum dos dois é Sensible.

A Gincana Eleitoral (virando Batalha Campal)

Pouco importa o resultado final destas eleições (até porque pouco importa mesmo), teremos motivo para nos envergonhar. Do processo eleitoral e das campanhas. O Brasil gosta de alardear ser uma democracia estável, sólida, o que nos poria à frente dos colegas do BRIC, ou de China e Rússia ao menos. Mas dá pra levar a sério mesmo nossa “festa da democracia”?

Vou evitar entrar em discussões ontológicas, nem vou dissecar etimologicamente o termo, uma vez que sou reconhecidamente ignorante em qualquer assunto que seja. Vou tão somente traçar algumas considerações que me vêm à mente. Antes de mais nada, o fato de que as campanhas são financiadas basicamente por empresários, sendo o retorno eleitoral quase diretamente proporcional ao investimento, garante que apenas interesses dessa classe estejam de fato representados. Já fui contra o financiamento público de campanha, pensava que a corrupção prosseguiria com qualquer outro pretexto. É fato. Mas candidatos com posições menos vendáveis, digamos assim, não ficam alijados do processo. Corrupção há que se tentar combater sempre. Bem, mas o financiamento público não corrige outra distorção: a despolitização. Vou citar de novo Thomas Fergusson e a Teoria do Investimento Político (via Chomsky): os investidores se unem para eleger representantes e, como sabem que a opinião do público diverge da sua, convém que os temas sejam deixados de lado em favor da comparação de “qualidades” dos candidatos (no nosso caso, os defeitos do outro); some a isso que no máximo metade do eleitorado sequer sabe o que é esquerda ou direita, e temos eventos mercadológicos, anúncios de sabão em pó, em vez de política.

Tomando o caso em questão, a temporada 2010 do “reality show” mais bizarro da Terra, tivemos as presepadas do Judiciário, que não sabe dizer que lei vale, quando e para quem, e segue que o resultado exarado no último dia 3 ainda pode sofrer várias alterações. Vamos lá: a lei de iniciativa popular alcunhada Ficha Limpa é uma boa inciativa; longe de uma panaceia, mas capaz de estabelecer um filtro mínimo para a eligibilidade (ainda que distorções tenha havido, como o Aldo Santos, vice do Búfalo em SP que foi – ao que me parece – injustamente condenado ao ceder um ônibus a sem-teto). Ocorre que a lei foi aprovada ainda este ano, e com uma alteração marota que devia remetê-la de volta à câmara; a Justiça Eleitoral forçou a barra para interpretar que ela não alterava o processo eleitoral e podia valer já este ano. É claro que são muitos os furos pelos quais ela pode ser questionada. Chamada a decidir, a Corte Suprema chegou a um empate e… lá ficou. Não sabiam que regra valia nem para o desempate. Risível. E segue o barco. Outro caso que foi emblemático do pleito foi o fenômeno Tiririca. Não é a primeira vez que alguém é eleito por sua celebridade, mas o “comediante” em questão sempre foi célebre por sua ignorância; não foi senão a dias do pleito que alguém levantou a “denúncia” de que ele era iletrado. Já li até que ele poderia ser preso, já que afirmou saber ler e escrever para se candidatar. Mas mais não soube.

Por fim, quero aqui registrar minha repulsa ao rumo que vêm tomando as campanhas presidenciais. Não só são vazias e despolitizadas, calcadas na descontrução do adversário, muita vez por ofensas, mas desviaram-se para o obscurantismo passional, privilegiando um tema que quanto mais longe de política melhor: religião. Começou pouco antes do primeiro turno, com boatos de que Dilma seria pela legalização do aborto. Há algo de verdade nisso, e eu vi uma entrevista dela em que ela defendia esse ponto de vista. Mas obviamente o cálculo político vale para o PT mais do que qualquer convicção ou coerência: a campanha a presidente 2010 nunca cogitou mudar a lei. O PSOL sim, mesmo tendo um candidato extremamente católico, propunha abolir a hipócrita proibição que só garante que moças pobres morram ou se mutilem em abortos ilegais enquanto, da classe média pra cima, há sempre uma clínica muito profissional à disposição. Bem, voltando à vaca fria, o que passamos a ver foi uma disputa para saber quem era o candidato mais cristão. Signo de atraso. As militâncias por seu turno se comportam como torcidas de futebol, com suas palavras de ordem e tudo mais. Por isso eu tenho dito que se trata de uma Gincana Eleitoral: um grita Erenice de lá, outro responde Paulo Preto. De ontem pra cá os dilmistas estão apostando em uma “arrancada” no twitter, que inclui encher o saco do Plínio que – coerentemente – prega voto nulo, enquanto o PSOL espertamente prega o Serra Não. Sei que essa arrancada está me torrando a paciência, e seria ainda pior se eu também seguisse serristas.

Que acabe logo essa agonia, e que o Serra não vença. Mas andei pensando: e se desmarcassem a votação e marcassem uma batalha campal?

Caso eu tenha perdido…

Assisti apenas ao final do primeiro debate para o segundo turno. E os do primeiro já não me despertavam a atenção. Digo isso sem medo de ser visto como um imbecil alienado. Afinal, digam aí para mim, se souberem, quantas vezes no último debate, e nos anteriores, os dois contendores falaram em:

*Pauta exportadora.
*Ciência e Tecnologia
*Produção Acadêmica
*Patentes
*Índice de Gini
*Desigualdade Regional
*Concentração Fundiária
*Analfabetismo e Analfabetismo Funcional
*Multinacionais (e a Balança de Pagamentos)
*Agrotóxicos, Transgênicos
*Oligarquias

E tanta outra coisa… que citassem ao menos, se não tinham os números à disposição. Arrisco dizer que dos 11 itens, os dois juntos devem ter no máximo três menções. Ficam insistindo em aeroportos, operações de hemorroida e por aí vai. Ah, como não esquecer: aborto. Há que se garantir a manutenção da legislação hipócrita. Tô bem sem paciência, viu! Não é com grande entusiasmo que eu apoio a Dilma.

Naomi Klein: Perfeito Equilíbrio

Descansando um pouco das agruras da política e da politicagem tupiniquins, trago àqueles que ainda não a conhecem a escritora e ativista canadense Naomi Klein. Crítica ferrenha do capitalismo e da assim-chamada globalização, Naomi nasceu em Montreal, em uma família com tradição de ativismo esquerdista. Por ocasião dos protestos de Seattle em 1999, na reunião da OMC, ganhou destaque como uma espécie de “musa anti-globalização” – termo ao mesmo tempo apropriado e inapropriado, pois ela participava com suas ideias, ainda que seja também bem bonita; além disso, esses manifestantes recusam a pecha de anti-globalização, pois apenas questionam a mundialização dos negócios a despeito das pessoas.

Naomi, no meu modo de ver, representa o equilíbrio perfeito entre um esquerdismo acadêmico, científico mas sisudo, e uma contestação ao capitalismo espetacularizada, por isso acessível. Ou seja, um cruzamento entre Noam Chomsky e Michael Moore, com a seriedade daquele e o apelo deste (para evitar o chiste de Bernard Shaw). Seus livros são muito bem escritos, com fartura de citações e referências a suas fontes, e os documentários a partir deles realizados, com sua participação, estão perfeitamente ao alcance dos mais “preguiçosos”.

Ela se notabilizou por No Logo, uma contestação do poder das grandes corporações, corporificadas (perdão do trocadilho) em logomarcas que vemos por toda parte. O da Nike é certamente o caso mais emblemático: uma empresa que só investe em desenho e marquetingue, enquanto encomenda seus produtos de empresas chinesas que subcontratam a confecção a fabriquetas pouco comprometidas com direitos trabalhistas ou salários dignos, ou mesmo com uma idade mínima de seus escravos. Eu mesmo, não li o livro, só vi o filme, que é bom sim, mas nada espetacular: não traz nada essencialmente novo – o livro deve ser melhor. Também dela é The Take, sobre fábricas na Argentina que foram expropriadas pelos empregados quando falidas. Acho. Nem li nem assisti ao filme, embora já tenha baixado (mea culpa).

Mas o que posso mesmo encher a boca para falar é A Doutrina do Choque – A Ascenção do Capitalismo do Disastre, em que ela começa por descrever os experimentos de um psiquiatra maluco (ou nem tanto), que submetia os pacientes a diferentes tipos de tortura, choque inclusive, para regredi-las a uma “távola rasa” sobre a qual imprimir uma nova personalidade. A CIA apoiou abertamente, financeiramente até, a perversa ciência praticada, e aplica os métodos bárbaros até hoje. O paralelo que ela traça é entre essa prática na suposta cura de loucos e a “curra” ideológica de países inteiros, nos quais os partidários de Milton Friedman, o guru do neoliberalismo, e às vezes o próprio, implementavam políticas de livre mercado aproveitando-se de momentos de fraqueza após desastres naturais ou provocados, como o tsunami ou o golpe pinochetista. Nem o estado americano da Lousiana escapou, perdendo moradia e educação públicas com o Katrina. Fala sobre o Iraque e a guerra privatizada, sobre a Bolívia e seus sucessivos golpes, a Polônia e a queda do socialismo real; é um panorama amplo. É claro que ela evita contra-exemplos, teria que admitir um quadro bem mais complexo; e a teia de exemplos é tão extensa que esgarça: às vezes parece um pouco forçação de barra. Mas o livro é ótimo, e como dizem na babação-de-ovo introdutória, ajuda mesmo a entender o mundo de hoje. Descobri que existe um curta-metragem que resume o filme, experimente. Há ainda um trailer com legendas em português.

Ninguém Segura Este País?

O Brasil é caracterizado, dentre outras coisas, pela memória curta. Nos anos 70, o crédito externo fácil e o empenho dos militares em criar um ambiente propício para corporações estrangeiras nos brindou com um pujante “milagre econômico”. Bastou os EUA elevarem os juros no que ficou conhecido como Choque Volcker, além de uma segunda crise do petróleo, para que entendêssemos o significado de “ninguém segura este país”: despencamos das alturas do “milagre” para as profundezas da “década perdida”, sem rede.

Eis que agora se reedita o mesmo roteiro de ufanismo, ainda que a trama seja ligeiramente diferente. Não sendo economista, mesmo assim estudei o assunto (e todos os demais) no meu doutorado em Palpitologia Avançada. Concordo de certa forma com a mídia internacional (The Economist, Newsweek etc.) quando dizem que o bom momento (dependendo do ponto de vista) brasileiro começou com FHC. Como teórico da dependência, soube pô-la em prática: preteriu seu povo em favor de grandes empresas estrangeiras (loucas para lucrar no Brasil, mas reticentes ante a instabilidade) e novos grupos nacionais que ativamente ajudava a criar. Acreditava sinceramente que o grande capital prosperando levaria o país a reboque. Praticou um irresponsável populismo cambial – que quebrou o país reiteradas vezes -, apenas o suficiente para garantir sua adventícia reeleição, depois da qual sentou-se em uma colina para ver Roma queimar. Ainda assim, criou exitosamente condições favoráveis às corporações, e a seus “banqueiros sem capital”, como diz o Nassif (mesmo precisando ir ao “limite da irresponsabilidade”) e com isso modernizou o capitalismo brasileiro.

Lula enfrentou o terrorismo do Deus Mercado mesmo antes de vencer as eleições; aceitou a intimidação e manteve o mesmo comportamento dos monetaristas, obcecados com metas de inflação e pagamento da dívida, em prejuízo dos investimentos necessários. Ainda assim, uma nova farra de crédito mundial, e o preço das comódites, garantiram boas taxas de crescimento. O ingrediente realmente novo da fórmula foi o impacto indireto que a política de renda mínima (essencialmente social) teve sobre a economia, fortalecendo o mercado interno. A crise política do assim-chamado mensalão (e adjacências) foi um mal que veio para bem, permitindo defenestrar Palocci et caterva, para dar vez aos desenvolvimentistas como Mantega e Coutinho. Bastou garantir um segundo termo para, ao contrário do antecessor, passar a investir. Graças ao impacto do PAC, à inércia do Bolsa Família e aos ganhos do mínimo, aos apelos ao consumo e aos cortes de impostos, o Brasil lidou bem com uma crise mundial de grandes proporções, não superada até hoje.

Pois se a economia vai bem, e os indicadores sociais dão sinais de reação (o que diferencia este do outro milagre), é motivo de celebrar, mas certamente não é conveniente deixar-se levar pela euforia, que a própria publicidade oficial anda estimulando (“o país do futuro virou o país do presente”). Um momento de prosperidade como este tem a propriedade de ofuscar as mazelas estruturais. Corro sem constrangimento o risco de ser tachado de pessimista, e já consigo ouvir a expressão “síndrome de vira-lata”, mas acho saudável lembrar aos partidários do “Brasil-Potência” que:

* Um novo tombo da economia mundial pode atrapalhar nosso avanço.
* O Brasil depende de produtos primários, cujos preços podem e vão oscilar.
* Nunca produzimos um único transistor, e ser dependente em alta tecnologia é ser subalterno.
* Há o gargalo da infra-estrutura, o chamado “custo-Brasil”, a emperrar uma real pujança capitalista.
* A falta de ferrovias e hidrovias, com dependência do modal rodoviário é belo exemplo.
* A burocracia é talvez a herança lusa que mais se faz sentir, e desestimula o investimento
* Grandes empresas conseguem “facilidades”, enquanto os micro, pequenos e médios penam para sobreviver.
* A corrupção é de fato endêmica (adjetivo que já gerou mal-estar com os gringos) e não dá mostras de cansaço. É bem verdade que a investigação tem avançado, mas a punição ainda é virtualmente nula.
* Os setores conservadores da sociedade, que lucram com sua injustiça e não querem nem pensar em democratizar de fato o país, são ainda muito poderosos e eficientes “formadores de opinião”.
* O Brasil deixou de ser o segundo país mais desigual: é o sétimo.
* No que diz respeito a Terra, ainda somos o segundo lugar em concentração, primeiro em uso de agrotóxicos, e ainda exultam o agronegócio como motor de nossa economia.
* Estamos na posição 75 da lista de Índice de Desenvolvimento Humano: mesmo sendo considerado alto, o IDH 0,813 é menor do que o de Trinidad e Tobago, ou o de Cuba sob embargo, ou o dos vecinos do cone-sul Argentina, Uruguai e Chile e mesmo o da atrasada Venezuela. E não consta que sejam potências.
* Temos, quase sem exceção, uma polícia ineficiente, corrupta e violenta, em especial contra os mais pobres.
* A violência urbana não é mais exclusividade das grandes metrópoles, onde se transformou em deflagração aberta.
* O pior de tudo, a educação brasileira vai de mal a pior. Uma lista recente põe o Brasil em 88º, e estão no ensino médio menos da metade dos que deveriam.

Um estudo, nada desinteressado, do Ipea, apontou que por volta de 2016, poderemos ter indicadores sociais a ombrear com os países desenvolvidos, a se manter o ritmo atual de redução da desigualdade. É bom saber, e resta esperar que se cumpra. Eu acredito que podemos, mas a renda mínima uma hora se esgota: dependemos de geração de empregos e escolaridade para aproveitá-los. Os recursos do pré-sal, quando começarem a pingar, podem ajudar muito ou atarpalhar um bocado: podem anestesiar o ímpeto produtivo (como na Venezuela ou na Nigéria, mal comparando), e podem ser desviados para o enriquecimento ilícito; além disso, não se pode saber em que ritmo se dará a extração. Quanto aos dois eventos internaconais que gostam de usar para ilustrar a “década do Brasil” – Copa e Olimpíada -, serão puro circo, com elevado risco de vexame internacional  – ao se revelar nossa crônica desorganização-, e garantia de dinheiro público indo pelo ralo; mas ainda é bacana tê-los por aqui, mesmo não deixando impactos duradouros significativos – um trenzinho aqui, um estádio acolá.

Enfim, será uma década interessante de acompanhar, e pode ser que ao fim dela estejamos no primeiro time das nações mundiais, ainda que me pareça um tiro longo. Mais uma vez, tudo que peço é cautela, e atenção com a defesa pois o jogo não está ganho. Aliás, o famoso “já-ganhou” foi o que derrotou a seleção tantas vezes, a última Copa é só um exemplo; e vai representar um papel importante, ao que tudo indica, na sucessão presidencial. Afinal, como o governo em fim de mandato lança uma segunda versão do PAC?

Que Será do Haiti?

Eu sei que é o momento de se condoer com a tragédia do Haiti, vitimado por um terremoto de 7 graus Richter, cujas consequências, amplificadas pela debilidade da infra-estrutura local, fazem-no o pior evento sísmico em dois séculos. É hora de o mundo desenvolvido, principalmente, assumir o protagonismo no esforço humanitário de salvar os soterrados, enterrar os mortos e garantir um mínimo de dignidade aos sobreviventes. Mas podemos nos permitir analisar a resposta à catástrofe, e especular sobre o futuro próximo do país mais pobre do hemisfério ocidental – embora uma coisa seja certa: o que era ruim vai ficar pior e por muito tempo.

Antes de mais nada, há que se recapitular brevemente a triste História do Haiti, repleta de golpes e intervenções externas. Possessão colonial francesa, e bastante produtiva, o país viu a primeira revolta escrava bem sucedida, em 1803, estabelecer o primeiro país independente da América Latina e do Caribe. Após um período de grande instabilidade (mais regra que exceção), foi a vez dos EUA ocuparem o país, em 1915, lá restando até 1934, mas nunca afrouxando muito o torniquete imperialista. Em 57, François Duvalier foi eleito, com suspeitas de fraude e interferência do exército. Os EUA, reticentes por sua brutalidade, findaram por apoiá-lo como uma barreira ao comunismo que tomou a ilha vizinha em 59. Foi o reino de terror de Papa Doc e seu filho Baby Doc, e seus temíveis Tonton Macoutes. Em 86, até os EUA temiam a revolta total de defenestraram Jean-Claude (Baby Doc). Jean-Bertrand Aristide, padre, foi o primeiro presidente eleito, em 90, derrubado em 91; voltaria em 94 (com interferência americana), terminando o mandato em 96; vencendo eleições controversas, voltou ao posto em 2001, e em 2004, após denúncias de corrupção e rebeliões populares (a insatisfação com o governo é obviamente crônica), foi sacado de lá por EUA/França e enviado ao exílio na África do Sul. Lá está até hoje, e seu partido foi banido das eleições programadas para este ano, que não devem ocorrer. Sem julgar sua figura (eu não teria elementos para tanto), cumpre dizer que há manifestações por sua volta, duramente reprimidas, inclusive por nós, tapuias.

O Brasil, que chefia a Minustah – força de “pacificação” pós-golpe – fez bem em anunciar esforços consistentes de ajuda – ainda que seja em parte para reforçar seu papel subimperialista. Ocorre que quando os patrões desembarcam dez mil marines, sem qualquer preocupação de coordenação, ou seja, passando por cima da ONU com a arrogância costumeira, ao Brasil – e a seu ridículo ministro fardado – só resta fazer beicinho. Podemos pensar, colonizados que somos, que eles são muito mais eficientes, e é apenas natural que controlem o aeroporto, dando preferência a voos norteamericanos. Não é o que diz este artigo, do MediaChannel, espécie de Observatório da Impreensa gringo: as 72 horas cruciais após o desastre estariam sendo desperdiçadas em “avaliar a situação”, e enquanto a “América” manda armamento, países como Islândia e China foram muito mais eficientes em enviar suprimentos necessários.

A preocupação maior dos americanos é “garantir a segurança”, ou seja: impedir saques, ou eventualmente revoltas populares. As tropas mobilizadas vão ajudar no esforço humanitário sim, mas já sairam com o carimbo de “tropa de ocupação”. Lembra quando eu disse que as eleições serão canceladas? Pois será alçado ao poder, pelos imperialistas acostumados a tanto, um “grande líder”, “livre de ideologias perigosas” (como aumentar os salários), para coordenar os esforços de reconstrução (a ser tocada pelas corporações ianques). Um títere, pois para efeitos práticos, o Haiti será – e já é – um protetorado americano. Já está nítido o tom “paternalista” da “ajuda”, que impede qualquer autonomia aos haitianos.

Mas o que podem querer os EUA de um país tão pobre? Simples: que sigam pobres e trabalhem quase de graça. Faça a experiência: pegue aquele bichinho de pelúcia da Disney da sua irmã – ou seu – estará lá “Made in Haiti”. São as famosas sweatshops – como as hondurenhas, vejam só -, fábricas de trabalho degradante e pagamento quase fictício, que garantem que produtos intensivos em mão de obra cheguem baratinhos e rendam bons lucros aos empresários americanos. Resulta que para além do jogo de cena humanitário – um país veramente preocupado com sofrimento, mortes e destruição não os provocaria tanto – há interesses imperialistas e econômicos inevitáveis. Inevitáveis mesmo, pois nada os conterá. Monroe deve estar satisfeito, onde estiver. Pobre Haiti pobre. Passado o pior, volta o muito ruim.

P.S.: Para mais sobre o “capitalismo de desastre”, sugiro a moça aí embaixo, Naomi Klein e sua Doutrina do Choque. Ela já deu declarações de temor pelo Haiti, revelando um comunicado da Heritage Foundation ressaltando as “oportunidades” após a calamidade – que ficou poucas horas no ar, sendo substituído por um de tom menos entusiasta.

Considerações sobre o Resgate Histórico


A chamada Realpolitik é a arte de obter o melhor resultado possível, mandando às favas se necessário suas convicções ideológicas. Lula vai entrar para a História como um de seus mestres. O que pergunto é: deve-se insistir na punição dos torturadores, ou se conseguirmos arrancar a liberação de arquivos e a mera exposição dos criminosos já seria suficiente? Penso que o ideal seria encontrá-los e puni-los, com prisão domiciliar que seja; lavaria a alma do país. Mas vimos a reação das Forças Armadas – que não só não se envergonham em sua atual geração, mas glorificam o regime de exceção – rechaçando qualquer menção ao assunto e insubordinando-se abertamente; ou a reação da direitona histórica, que caçou encrenca com pontos do Plano (nada inéditos) em grande medida para desmoralizá-lo por completo e evitar que se exponha a participação de capitalistas, ruralistas e imprensa na engrenagem perversa da tortura. São forças hegemônicas no país, e apenas uma mobilização popular muito grande – que não deve ocorrer – daria combustível para o córner de Vannuchi. Pois voto na realpolitik: que ao menos os arquivos (que restam inteiros), venham à luz.Imagine um irmão de dez anos que espancou covardemente o irmão de cinco; quando o pai resolve punir o agressor (tirando o picolé, ou o vidiogueime), o pestinha argumenta: “mas ele me cuspiu!”. Pois é isso que os defensores dos torturadores “argumentam”: há que se punir o que tiveram a audácia de chamar de “torturadores de esquerda”. A luta armada cometeu crimes, sim; alguns espetaculares como o sequestro do embaixador norteamericano (te cuida, Gabeira!). Mas a mesma tradição iluminista-liberal-burguesa, que os direitoides enchem a boca para dizer que defendem da ameaça comunista – como ocorreu no golpe, por exemplo -, reconhece o direito à insurreição contra um governo tirânico. Além do quê, é um desrespeito a quem já tanto sofreu sob os arrogantes representantes de um aparato estatal criminoso (e crime estatal é muito mais grave), e à memória dos que foram mortos e desaparecidos. Vão interrogar as ossadas de Perus? Se a Comissão for só investigativa, não há por que se opor ao esclarecimento das ações armadas, mas o risco de inverter a intenção original, dependendo de quem coordená-la, ou influenciá-la, não é desprezível.A Lei de Anistia de 1979 foi escrita para encerrar a repressão política, isso é claro e indiscutível. Mas eles marotamente enfiaram a expressão “e crimes conexos” que de tão vaga pode se referir a uma lesão corporal suscitada por uma discussão política acalorada ou às multas de trânsito do carro do MR-8 durante um assalto a banco; mas foi enxertada para conceder uma auto-anistia, o que simplesmente não existe, e assim se pensou nos vecinos do cone sul. Então pode o Direito aceitar que um criminoso brutal perdoe a si mesmo com uma canetada? Fica para o pessoal que voltou de Coimbra: Brossard (que não quis o golpe, mas o julgava inevitável) diz que sim, Comparato (comprometido com a democracia e com os direitos humanos) garante que não. Mas ninguém se iluda: a disputa não é doutrinária, é política. E vale a correlação de forças que apontei acima.Apenas um aparte: é louvável a iniciativa da Comissão, fico feliz que isso seja ao menos posto na mesa depois de tanto tempo de “esquecimento”. Mas o Estado deve dedicar energia ainda maior a detectar e punir os torturadores de hoje: em milhares de delegacia de polícia Brasil a dentro a prática é corriqueira, e – não bastasse a crueldade indizível do ato em si – manda inclusive inocentes para a cadeia, “por engano”. Ou talvez patrões metidos a escravocratas, no campo e na cidade; o atual diretor da PF, L.Fernando Corrêa, por exemplo, é acusado de torturar até a cegueira uma doméstica. As vítimas da tortura hodierna (e odiosa) não são jornalistas ou idealistas de classe média, pertencem à população “invisível” que não saberia começar a cobrar seus direitos. O problema é conhecido, e certamente está contemplado no Plano, mas a disposição em combatê-lo ainda parece tímida; num país que tem comissões parlamentares para apurar desde o desaparecimento do último croquete até a anomalia na precessão de saturno, este assunto nunca foi por elas abordado.

Caçando Encrenca


Geralmente o período que vai da metade de dezembro à metade de fevereiro é morno e sem graça, sem notícias. Esta virada foi atípica e cheia de escândalos, crises ou pseudocrises, além dos tradicionais desastres naturais. Bem, abordei boa parte desses assuntos, acho que só falta falar sobre a encrenca dos caças.Fica difícil escrever sabendo tão pouco sobre cada projeto (ou sobre qualquer outro assunto) e desconhecendo as razões e os critérios da Aeronáutica; resta lançar mão do que li por aí e de meus dotes reconhecidos de palpitologia.Primeiro: o projeto de modernizar a frota da FAB (e do submarino nuclear, que deixo por ora de lado) é antigo, tem ao menos dez anos, e apenas tomou corpo agora – sejam quais forem as motivações políticas ou geopolíticas de Lula. A necessidade das compras é, obviamente, uma unanimidade no meio militar. Portanto, não se trata de megalomania presidencial ou síndrome de potência.O projeto americano, F-18 Super Hornet, deve ser tecnicamente muito bom, mas certamente de escalão inferior no impressionante aparato militar dos godemes. Ele é uma reformulação já meio antiga de um projeto ainda mais antigo, o F-14 Tomcat, e já foi suplantado pelo F-35C. É óbvio que representa o interesse imperialista ianque, e não sei como parece não haver lobby mais forte por sua adoção: é visto como carta fora do baralho desde o início. Talvez por uma das múltiplas faces de Lula ser anti-EUA.O francês Rafale é o queridinho do Planalto, e foi imprudentemente anunciado vencedor antes da hora. Seu trunfo é a promessa de transferência de tecnologia, o que tem aspectos muito bons: é interessante reduzir o fosso tecnológico em todas as áreas, e geraria emprego. A parceria com a França é considerada uma boa opção geopolítica: é potência mas não a superpotência. Pessoalmente, não me agrada a ideia de ver o Brasil exportando armas de guerra para os vecinos. Pesa contra ele o preço, e o curioso fato de não ter vendido uma única unidade: só os Emirados Árabes Unidos e a terra dos Brusundangas se interessaram.Já o sueco Gripen NG foi o selecionado pela Aeronáutica, o suficiente para que a mídia instaurasse uma “crise” no governo: o Planalto se indispôs com as Forças Armadas mais uma vez, ou Lula prefere o Rafale por “capricho”. O que já se disse: a aeronave é um frankenstein com fornecedores em diversos países, inclusive com turbinas GE (segue a dependência dos EUA); aliás, uma só, e eu aqui não ando de monomotor; o avião é um projeto e nunca saiu do papel, o que é grave; e também o preço considerado – e deu-se grande peso a esse quesito – não incluiria os armamentos. Talvez o lobby gringo desistiu do F-18 e viu no Gripen um bom plano B, pois aparentemente não dá para entender a opção da caserna.Posso dizer que minha opinião aqui é a mesma dos pontos de vista principista e pragmatista. Por princípio, um pacifista só pode ser contra a compra de armamento; e pragmaticamente parece óbvio que, além de haver coisas muito mais importantes, e mesmo estratégicas, que poderiam ser feitas com essa grana – como ferrovias, por exemplo – e não se vislumbrar nenhuma ameaça iminente a nosso território, o quadro que se oferece é que não há nenhum bom concorrente: um representa submissão à Águia, outro é caro e duvidoso e outro é muito duvidoso. Não é boa hora de comprar; já que é necessário, que se aguarde a grana do pré-sal e uma opção viável e segura. Sugiro a Lula que opte por ora pelos caça-palavras: dá uma turbinada no vocabulário (que não é nada mau) e ainda serve, depois de completo, para confeccionar simpáticos aviõezinhos de papel para defender os jardins do Palácio da Alvorada.

O Problema Ambiental


Tenho escrito sobre meu ceticismo em relação ao Aquecimento Global e temor quanto aos “mecanismos” que pretendem adotar para mitigá-lo. Fique claro que penso que pode mesmo haver um Aquecimento Global Antropogênico em curso (ainda que haja uma década que o planeta esfria); mas me parece que há alguns sinais de alerta de desonestidade científica. Não inventaram uma conspiração, apenas truncaram os dados, simplificaram o fenômeno e chegaram a uma conclusão perfeitamente “científica”.Mas mesmo a aceitar como verdadeira e inquestionável a tese, o que acho absurdo é que toda a energia humana para proteger o meio ambiente – coisa muito recente e incipiente até agora – volte-se de repente para medir (ou estimar, antes) quanto de carbono está sendo emitido, para daí estabelecer um mercado.E cometi, na última postagem a respeito, a imprudência de prometer escrever sobre o que eu achava que deveria de fato ser feito. Ainda bem que ninguém leu, mas resolvi arriscar mesmo assim algumas elucubrações. Para opiniões confiáveis sobre o assunto, procure (pelo menos) um especialista.A primeira assertiva que proponho é que o capitalismo é nocivo, ou induz a um modo nocivo de relação com a Terra, mas essa constatação sozinha é insuficiente, e superficial. Obviamente, a lógica do lucro máximo a qualquer custo e a necessidade de acumulação incessante submeterão sempre a integridade dos recursos hídricos, da cobertura vegetal e por aí a fora.Mas se voltarmos até o século XVII, muito antes da Revolução Industrial, e mesmo do capitalismo, René Descartes já afirmava ser preciso conhecer a Terra para pô-la a nosso dispor; portanto é também uma questão de uma mentalidade cartesiana-liberal-burguesa, e podemos dizer até judaico-cristã, que vê a Terra como um presente de Deus, para ser usada a seu dispor. Outra questão a ser considerada é a demográfica, associada à dos aos modos de vida. A população mundial, que em 1800 não chegava a um bilhão, há meio século era pouco menos que três, já é quase sete e deve ser de nove bilhões na metade deste século, impõe uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais. Mas se fôssemos sete bilhões de bolivianos não haveria tal pressão: volta a questão do capitalismo, cujo modo de vida – que se dissemina rapidamente – exige quantidades absurdas de recursos naturais, pressupõe processos fabris poluentes e gera montanhas de lixo. Ou seja, o problema é menos o crescimento da população que a disseminação de um modo de vida insustentável, enqunto aquele que durou 8 mil anos, da revolução agrícola até a II Guerra (Hobsbawn) é tachado de atrasado. Também não se trata de manter-nos no privilégio e proibir os demais de “progredir”. Penso que o modelo deveria ser tirar o foco de grandes cidades, e do latifúndio monocultor industrial, estabelecendo pequenas cidades prósperas com grau de autonomia maior, e produção local – por gente local – dos alimentos, pequenas indústrias e serviços, tudo descentralizado. Se utilizarmos permacultura e energia renovável e limpa, melhor ainda. E se os meios de produção fossem socializados, seria perfeito.Agora, bastaria trocar o capitalismo pelo socialismo? Certamente não, ainda mais se considerarmos o “socialismo real”, que não era mais que um capitalismo estatal sob um regime totalitário. E como então superar o capitalismo? Isso deveria ser a preocupação primeira dos chamados intelectuais de esquerda, que em sua maioria vivem ou da capitulação frente ao capitalismo liberal – sob alguma forma de reformismo – ou da nostalgia das tentativas frustradas – e da visão de um capitalismo que já não existe. O que é preciso é resgatar o que há de bom em Marx, principalmente o sonho de uma sociedade igualitária, e ter em mente o novo determinante que está em pauta, o ambiental, no forjamento não de uma utopia – a ser imposta a ferro e fogo, transformando-se em distopia -, mas de uma mentalidade que questione as tolas necessidades do capitalismo e mire em uma relação harmônica dos humanos entre si e com as naturezas – primeira e segunda. Ainda que uma sociedade igualitária e sustentável soe mais utópico do que qualquer outra coisa.Enquanto seu lobo não vem, só resta esperar que os governos ajam com veemência, aprovando e fazendo cumprir legislações duras, e sobretudo evitando o dano antes que ele aconteça. Aquecimento Global? Bem, se as emissões de gás carbônico são um problema de fato, a tônica deveria ser agir sobre os maiores emissores, e limitar a emissão per capita em um valor razoável, obrigando os industrializados a reduzir emissões; instituindo também um fundo (custeado pelo imposto financeiro global) que pagasse bônus sobre a “cota não utilizada” aos países pobres; e sem possibilidade de comprar “cotas de carbono”. Quanto ao desmatamento, seu combate não deve depender de outra casa que não ele mesmo; e mais uma vez, incomoda muito a ideia de floresta como um negócio (o que já é, em grande medida).Eu ainda acho que, se a tese do AGA for correta, nem a mais exitosa campanha de redução de emissões (20% digamos) mudará nada: estaríamos fritos. Ceteris Paribus, obviamente. Ainda creio que a humanidade ainda pode, e deve, tomar as rédeas de seu destino e evitar uma condição limite de deterioração da vida nos próximos séculos. Mas parece não saber como. O Aquecimento Global é um risco hipotético, uma ação antrópica indireta; os riscos palpáveis de ação antrópica direta – contaminação do ar e da água, desequilíbrio de ecossistemas – já se fazem sentir, e com rapidez crescente.

Apenas dirija…

Brás entra no táxi e responde como nos filmes:
Para lugar nenhum, apenas dirija.Pois é, e agora? Daqui pra onde? Onde guardar sua esperança? Por onde extravasar seu idealismo? Como administrar seu inconformismo? Nah… melhor sucumbir à preguiça, render-se à passividade, tomar uma cachaça, quem sabe cantar um tango argentino, NÃO! Montar um grupo de pagode!O Sapo Barbudo tanto pulou que alcançou o trono. Claro que coaxando mais baixo, em estranha simbiose com seus antigos predadores. Prometeu Fome Zero e entregou Caixa Dois. Anunciou o Espetáculo do Crescimento e apresentou um Show de Horrores político. Sob a heráldica do ‘País de Todos’, instalou uma ‘Nomenklatura dos Seus’. A esperança venceu o medo, que por sua vez foi derrotada pela mediocridade, que seria massacrada pela desonestidade.Mas por que não experimentar um metalúrgico sem-dedo, se um intelectual sem-braço não funcionou? Um dândi que se apaixonou pelo próprio reflexo, a ponto de dar vida a seu duplo virtual. Foi o homem que matou a cobra, e só não mostrou o pau porque não haviam inventado o Viagra. Se pelo menos seu primeiro nome fosse Tarcísio ou Thiago…Ou que tal um mineiro cuja sexualidade, ou falta dela, até hoje é discutida (isso é que é comer quieto). Uma espécie de dublê de Dr. Hyde (com sua inevitável contraparte) e necromante, que trouxe do reino dos mortos um Besouro motorizado.Ou você pode recorrer a um playboy cheirador empenhado em caçar marajás (não marijuana, como se chegou a publicar) e levar o Brasil ao Primeiro Mundo (especificamente à sua conta na Suíça). Seu fim foi não dividir o butim, além de avançar na mulher do irmão, PC, que o cagüetou. O outro PC sumiu, apareceu e sumiram com ele (ah, essas paixões).Que me diz então dum (auto-declarado) poeta com um rabo de andorinha pendurado no nariz? Figura opaca e meditabunda (se preferir, um panaca de meia bunda), caiu-lhe no colo um mandato tampão em que também recorreu à paranormalidade, provocando sucessivas glaciações que não bastaram para extinguir o fogo do dragão.Sorte de quem morreu eleito, como uma grande promessa, sem ter tido tempo de provar sua pequenez diante do gigantesco monturo de corpos, fezes e zeros vermelhos que herdaria.TARJA PRETADjango Larr, um aristocrata que coxeava da perna esquerda, acabou substituindo o arqueiro titular. Foi vítima de um golpe de vista e engoliu um frango, ou melhor, vários abutres de alta patente. Antes mesmo que seu time fosse ao ataque. Teve que atuar no futebol estrangeiro.Houve um populista demagogo, prolixo e beberrão, que entrou dando vassouradas a estro e a sestro, quis até esquentar a Guerra Fria por aqui, mas pediu o penico logo, acossado por ‘forças terríveis’ (pa bo enten me pal ba).Tivemos um JK morto num carro em circunstâncias mal esclarecidas, talvez para imitar o Tio Sam. Assim como o deles, não foi mais que um semi-deus inventado. Num passe de mágica levou o Olimpo embora e entregou o Fogo aos mortais para que queimassem o Cerrado e a Amazônia, além de ensiná-los a brincar de carrinho.Antes dessa tragédia grega, na Era Mitológica, o grande Pai dos Pobres era um déspota astuto e até algo esclarecido. Goza do distanciamento histórico que filtrou todas impurezas de uma longa ditadura. Tirou umas férias, voltou pelo voto para depois meter um balaço no peito. Espera aí, os mártires costumam ser mortos, não cometer suicídio!Bem, e agora seu Brás? Na garrafa tem mais? Mais uma ‘guinada’ de 360º; uma ‘revolução’ em torno do mesmo eixo? A caravana passa, quem ladrava agora é ladrão. Cinco séculos de pilhagem e pilhéria. Desde que uns brancos sujos e fedidos aqui aportaram e se impressionaram com as vergonhas desnudas das silvícolas e com a exuberância da paisagem onde se plantando tudo dá, sem vergonha alguma levaram o pau-brasil, desceram o pau nos negros, meteram o pau nas negras e índias, plantando a Cana-da-Índia e a semente de um povo que seguindo Darwin ou segundo Darcy Ribeiro seria superior, mas… Dizem que um anjo perguntou a Deus por que colocar tanta riqueza, beleza, fartura e nenhum vulcão, terremoto ou furacão no Brasil. Com um sorriso, Ele respondeu: “Espera pra ver o povinho que eu vou colocar lá!”.Talvez a solução fosse evacuar o país de civilização e entregá-lo de volta ao Neolítico. Ou abrir mão de qualquer escrúpulo e virar um Narco-Estado. Ou ainda estender uma gigantesca lona, cobrar entrada e vender pipoca e amendoim. Talvez a idéia do Raul Seixas não seja tão absurda. Quem sabe se entregássemos nossos melhores jogadores de bola ao FMI, ou se mandássemos as crianças de rua estudar na Suíça?

 

Os Androides do Status Quo

Todos nós já vimos um. Eles estão em toda parte. Muitos de nós somos um deles, sem saber. E aqueles de nós que veem a realidade sem as lentes coloridas da mídia certamente já se enfureceu com um deles, enquanto eles mantinham uma calma suspeita.

São os androides do status quo. Essa é uma categoria de autômatos, programados para agir e pensar como seus programadores determinam. Um androide está pronto a repetir os mesmos proto-argumentos por toda a superfície do país e do mundo. Está pronto a repetir uma mesma frase sempre que ouvir determinada palavra. Androides são incapazes de diálogo, nunca consideram o interlocutor. Pior, foram programados para desmoralizar o interlocutor, bagunçando o debate – que é terreno hostil. O hardware dos androides trabalha com lógica positiva: eu estou, e sempre estarei, certo. Um sinal zero da variável dispara mecanismos de auto-defesa pró-ativos. Ou seja, mecanismos de ataque. Pessoal.

Os androides do status quo não necessariamente se beneficiam com ele, são muita vez suas vítimas, mas como não se cuidou para que fossem plenamente humanos, aderem à programação neuro-linguística do sistema operacional. Como apontou o sociólogo Sebastião Rodrigues Maia [Maia, 1983, pg.75].

Os androides são fabricados pelo método convencional (por enquanto), e crescem em sociedade, livres, normalmente, como um ser humano. Mas as técnicas do sistema operacional Capitalismo 2k9 fariam inveja ao Aldous Huxley: cada androide tem dois pares de receptores que captam ondas eletromagnéticas e/ou acústicas; essas ondas seriam processadas por um fantástico aparato que, se não é o último grito da tecnologia, tem tido seu uso controlado por lei específica pelo perigo que representa. Há hoje brechas na Matriz, e as forças leais ao status quo se viram obrigadas a combater no mesmo terreno o sinal pirata.

As últimas notícias dão conta do refluxo dos androides ante a resistência humana, e analistas acreditam que a reação do sistema operacional ainda é tímida. Teme-se a derramada de sangue, e dizem que o software da guerra civil está nos estágios finais de desenvolvimento, prestes a ir ao mercado. Alguns sinais de emissoras e repetidoras já trazem um marketing agressivo para o produto.

Caridade vs. Conservadorismo

Eu entendo que a caridade é uma virtude cristã muito prezada, e que quem a pratica geralmente o faz com ótimas intenções. E que há uma diversidade de circunstâncias em que a caridade é feita.

Mas falemos especificamente da caridade das pessoas ricas; as que têm dinheiro de sobra. Essa gente que dá roupas, calçados e brinquedos usados para “amenizar a penúria dos pobres”, ou que doa a uma entidade assistencial, e repete o “não dê esmola” por aí. São pessoas geralmente (ou sempre) conservadoras. Pois bem, conservador é alguém que prefere que as coisas sigam como estão, com meia dúzia de mudanças lampedusianas; ocorre que se incluem nas coisas a conservar: a desigualdade de renda, a fome, o analfabetismo, o trabalho degradante… a pobreza enfim.

Então os ricos caridosos são rematados hipócritas? Não por isso, a definição de hipócrita do evangelho não se aplica aqui: não se recusam a adotar para si critérios com que julgam os outros. São apenas contraditórios. Mas, ainda assim, seria melhor se passassem a reconhecer que apenas precisam se livrar da roupa velha, ou só doam porque podem abater do imposto. Sem esquecer o índice de picaretagem das entidades, nada desprezível.

Ou então, e fica a sugestão muito séria, reúnam-se todas as doações em fundos que invistam em escolas profissionalizantes, infra-estrutura para a população humilde (a partir de sua própria demanda), cooperativas que gerem emprego, e outros benefícios mais duradouros que uma camiseta furada.

Não basta dar o peixe, é certo; e não se trata de ensinar a pescar: eles não passam fome por incompetência. Há que se dar vara e anzol (qualquer um aprende a pescar) e é preciso que não haja alguém pescando com dinamite no rio.

Ter Grana é Antiético?

Em artigo recente, apontava como uma contradição em termos a caridade das pessoas ricas e conservadoras. Pois, se querem ajudar os pobres, não podem ser pela manutenção do quadro social.Mas eu mesmo sou frequentemente “acusado” de contradição parecida. Que sejam meus 3 leitores, se muito, os juízes. Usem a caixa de comentários: inocente ou culpado. O crime que me atribuem: pensar à esquerda e ter grana.

A acusação não pode ser descartada com desprezo. Quem pensa que é injusto alguns privilegiados abocanharem a maior parte da renda, entra em contradição se é exatamente um deles. E isso é o bastante para gerar um conflito interno na mente do esquerdista rico.

Mas a argumentação é falaciosa. Se nossa sociedade prega o sucesso pessoal como meta, e funciona na base do cada um por si, quem é que pode ser cobrado por conquistar um bom nível de vida, tendo sido a conquista honesta? Só mesmo um asceta vai escolher a pobreza deliberadamente. Mas, diferente de ganhar bem, e ter um automóvel, um imóvel, é viver no desperdício e na ostentação, no mundo frívolo que é disseminado como o ideal, pela televisão. Isso complicaria a situação do réu. Como o faria, por exemplo, detestar guardador de carro e pedinte, coonestar o extermínio policial e parapolicial em nome da faxina etnossocial. Finalmente, ninguém deve ser obrigado a adotar o ideário adequado à camada social (ou estamento) em que nasceu e vive. Talvez isso fosse até bom no Brasil – onde, já dizia Tim Maia, pobre é direita; teríamos rapidamente uma revolução, coisa que nunca ocorreu nos tristes trópicos, apesar do abuso da palavra.

Uma esquerda deve ser composta de inúmeras tendências necessariamente: enquanto a direita diz “concordo”, quem diz “discordo” deve propor alternativas, que são virtualmente ilimitadas. Por isso a pluralidade é marca da esquerda e a representatividade de diversos setores da sociedade – e o grau de concerto entre eles – são o segredo da mudança. Obviamente, uma esquerda só de operários seria melhor que uma só de intelectuais, mas nenhuma delas vicejaria.

Resenha Sobre Tratado da Terra do Brasil

Os portugueses que chegaram na frota de Pedro Álvares Cabral – dentre os quais o primeiro “escritor brasileiro”, Pero Vaz de Caminha –, e nas primeiras expedições até 1530, cumpriam a tarefa de um um verdadeiro reconhecimento do terreno. Não à toa, o trabalho de Pero de Magalhães Gândavo e do pioneiro seu xará são classificadas como Literatura de Informação. Informavam a Coroa sobre a paisagem, os habitantes originais, a fauna e a flora, mas principalmente sobre as riquezas e potencialidades da “Terra de Santa Cruz – a que vulgarmente chamamos Brasil”. E assim preparavam a empresa colonial: exploração mercantilista associada à justificativa oficial de catequização dos gentios. Gândavo produziu uma peça de propaganda. Assim, essa Literatura de Informação brasileira é controversa, tanto quanto a seu caráter literário quanto a seu caráter brasileiro.
Gândavo dedica o Tratado da Terra… [do] Brasil ao “mui Alto e Sereníssimo Príncipe Dom Henrique, Cardeal, Infante de Portugal”, o que era normal a qualquer obra nos padrões da época, mas especialmente verdadeiro para a Literatura de Informação. E seu objetivo declarado, já no Prólogo ao Leitor é “denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil”, conclamando os pobres de Portugal a adotá-la como sua terra (muitos “aceitariam” o convite forçosamente: para cá foram degredados). Mas o Tratado Primeiro parece muito um panfleto turístico: descreve as Capitanias de Tamaracá, Pernambuco, a da Bahia de Todos os Santos – a mais populosa então, e que receberia a primeira capital, Salvador -, e a dos Ilhéus; sempre cuidando de descrever os rios (como bom estrategista militar). Passa (com a mesma intenção) a descrever os hostis Aymorés, diferentes dos demais índios (os tupinambás a que estavam acostumados), e que se estendiam daquela capitania (Ilhéus) até o Espírito Santo. Segue descrevendo Porto Seguro, Espírito Santo, Rio de Janeiro e por fim, São Vicente. Sua propaganda é persuasiva: “E por tempo hão se de fazer nelas grandes fazendas: e os que lá forem viver com esta esperança não se acharão enganados”, diz sobre o Rio.No Tratado Segundo, versa sobre “as coisas que são gerais por toda Costa do Brasil”: sobre as fazendas da terra, assevera que “os moradores… todos têm terras de Sesmarias”, e lamenta que as fugas de escravos, e os índios “fugitivos e mudáveis” impeçam maior prosperidade. Fala da abundância de bois e vacas, e da falta de cavalos. É mais um homem de negócios que um literato. Sobre “os Costumes da Terra”, garante que com dois pares de escravos faz-se seu sustento; informa que se dorme em redes, costume dos índios; que aqui se gosta de ajudar aos pobres e fazer obras pias (a semente do homem cordial do Sérgio Buarque). Debruça-se sobre a geografia local, a qualidade da terra (que a cana esgotaria), e os frondosos arvoredos sempre verdes. Avisa que não se planta trigo, e come-se farinha de mandioca; mas que há muito veados e porcos a se caçar, além dos tatus, a melhor das caças; descreve as “fruitas”, em especial os ananases (abacaxi), os “cajuis”, as bananas com que se sustêm os escravos, e a infinidade de laranjas e limões. Passa a descrever os “bárbaros gentios” e seus costumes: são contrários uns aos outros, graças a Deus, pois sem isso não poderiam os portugueses conquistar a terra; mataram-se muitos, muitos fugiram e ficaram na costa apenas os “de paz”; não têm as letras L, R, ou F, portanto não teriam Lei, Rei ou Fé, vivendo desordenadamente (escusado comentar o etnocentrismo e a falácia do pseudo-argumento); andam nus, vivem em aldeias, obedecem ao líder por vontade e não por força, nada adoram, nem creem em outra vida; são belicosos e vivem em guerra, usam arco-e-flecha, e tomam prisioneiros; Gândavo descreve em detalhes o ritual antropofágico (dos tupinambás); menciona seus adornos; descreve o (que parece ser) homossexualismo feminino, que é aceito (e o “civilizado” Ocidente luta por aceitá-lo até hoje). Gândavo guarda o melhor para o fim, informando a el-Rei da existência de esmeraldas e ouro na Capitania de Porto Seguro.Como vemos, o Tratado é uma peça de propaganda aos colonos em potencial, e também uma de estratégia militar: descreve o terreno e o inimigo. É uma ferramenta do imperialismo português, e essa visão não apenas invade e permeia uma obra literária: ela engendra e justifica uma obra utilitária.

Natureza, Política, Mídia e Blogosfera


Há uns 100 ou 200 mil anos surgiu (a menos que você seja criacionista) na face deste formidável planeta uma espécie que tinha algo diferente: através de suas inéditas faculdades como linguagem e polegar opositor, o ser humano foi-se espalhando, dominou a agricultura e domesticou animais e enfim veio a acreditar que tudo em volta foi feito para ele morar, servir-lhe de alimento e fonte de energia.Mas por muito tempo houve enorme respeito, veneração mesmo, pelas forças da natureza – identificadas como divindades. Foi o triunfo da civilização racional cartesiana que trouxe a visão da humanidade como centro de tudo, e da natureza como algo externo. Por isso temos que ouvir hoje a tremenda bobagem que é a expressão “a fúria da natureza”. É a manchete preferencial quando ocorre qualquer desastre natural: furacão, enchente, vulcão, maremoto… tudo é creditado ao voluntarismo da Natureza, numa espécie de reminiscência panteísta inconsciente.Mas todo esse preâmbulo é na verdade para discutir o modo como nós – em especial os brasileiros “bem informados” – lidamos com esse tipo de fenômeno. Estando quase todo na faixa tropical, nosso país – ao contrário do que se alardeia – está sempre sujeito a eventos naturais de monta, especialmente chuvas de grande intensidade com as inevitáveis enchentes.E eis que mais uma vez, em mais um verão, há fortes chuvas com alagamentos e desabrigados, quedas de encostas, e mortes. E dá-se início a disputas políticas, ou melhor dizendo, comportamentos espúrios na mídia tradicional e na blogosfera. Justamente o que me incomodou e me impeliu a escrever este mal-ajambrado artigo: ver gente celebrando as mortes por acontecerem em estados ou cidades administradas por políticos do campo ideológico (se é que podemos usar essa palavra) contrário. Reitero aqui uma crítica aos ambientes opinativos da rede: viram uma briga de torcida estúpida; este é só um sintoma.Creio que se trate de um assunto complexo, em que cada caso deve ser analisado dsapaixonadamente. Mas, em linhas gerais, penso assim: as causas primárias – o fenômeno metereológico – estão além do controle humano, mas nem por isso podem ser ditas imprevisíveis; o impacto do fenômeno na população humana, esse sim, pode ser previsto, e pelo menos minorado por ações preventivas; por fim, acontecido o pior, a ação do governante para amenizar o sofrimento é indicadora de seu respeito aos governados.Tomemos três casos desta temporada de chuvas. Os alagamentos em Sampa: a “grande mídia” de fato fez tudo para poupar Serra, mas a dada altura alguém comemorou por SP ter ultrapassado o RS em mortes; ora! Circula também na esquerdosfera a denúncia de que o Governo do Estado optou, fechando ou deixando de fechar uma comporta, por alagar a Zona Leste, poupando as marginais. Isso é gravíssimo, e ou é leviana a “grande mídia” ao ignorar o assunto ou é leviana a denúncia mesma. Entre o fogo cruzado da disputa político-midiática, sofrem os moradores com uma inundação que já dura mais de um mês. Uma hipótese, bem crível, que se aventa, é que a intenção da administração seja expulsar os moradores pobres, como na área destinada ao Parque Várzeas do Tietê. É um comportamento comum na Terra de Vera Cruz, e a Revolta da Vacina no Rio foi em grande parte pela “reengenharia” urbanística que impunham à cidade. Mais uma vez, a mídia é cúmplice, repetindo a cantilena que criminaliza as pessoas que foram morar em determinada área – quando deviam salientar que nunca houve política habitacional -, silenciando sobre o mau uso do terreno para obras viárias, isto é, as marginais, e endossando a política de expulsão cuja contrapartida são discutíveis benefícios pecuniários.Já quanto à tragédia em Angra dos Reis, tivemos – até pelo período de “recesso” de notícias – o maior sensacionalismo de todos: repetição das imagens ad nauseum, sentimentalismo barato… Eu disse Angra? Troque por Ilha Grande, o caso da pousada para gente com grana – as quedas de encosta no continente foram quase esquecidas. Que dizer aqui, é um caso emblemático: é preciso que aconteça um desastre para repetirem que “é área de risco”, “a estrutura geológica é frágil”… ora, não se sabia isso antes? O que foi feito? Uma lei para abrir as pernas no licenciamento ambiental, sem falar nas maracutaias que foram alvo de recente operação da Polícia Federal; ou seja: interesses capitalistas de um lado, e uma premente necessidade de outro, levam a edificar em áreas sabidamente de risco, e isso é tudo culpa (por omissão) dos governantes – e não só os atuais, obviamente. É uma cultura, uma lógica instaurada; pode-se tentar colar o problema no Sérgio Cabral – e parece que a mídia está disposta a fazê-lo – mas daqui a dez ou vinte anos aposto que teremos o mesmo problema.Tenho especial carinho por São Luís do Paraitinga, onde passei a virada do ano passada: cidade simpática, caipira e moderna a um tempo, lugar de tradição, cultura, natureza e história. Terra do Saci (embora isso seja um enxerto recente), do carnaval de marchinhas, do rafting e do exuberante Parque da Serra do Mar (Núcleo Santa Virgínia). Pois, se parece que não houve vítimas fatais, a tragédia de São Luís é enorme, e mesmo quando o rio baixar e as pessoas retomarem suas rotinas, a igreja matriz e outros prédios históricos foram perdidos. Não tenho conhecimento tácnico para dizer se a tragédia podia ser evitada. Há que se considerar (o mesmo valendo para Angra) que a Serra do Mar é a zona de maior pluviosidade do país. Mas se sabemos disso – e em 2008 já houvera enchente – duvido que a engenharia não seja capaz de dar uma resposta ao problema, até porque o Paraitinga também é represado (há uma usina em Paraibuna, se não me engano). O governador apareceu para fazer marquetingue político, e cometeu a indelicadeza de prometer o Carnaval, além de não assinar o decreto de calamidade pública. A mídia ficou sobrevoando de helicóptero para a revolta dos locais. O destaque ficou para o pessoal do rafting, que com sua prestatividade fez o contraste a este festival de insensibilidade.Enfim: muitos sofrem, alguns morrem, entra ano, sai ano, e segue a mesma caravana, até os cães já são previsíveis. Vai continuar chovendo muito nos lugares e nas épocas onde soi chover muito. O que resta saber é se um dia teremos dirigentes que se ocupem de fato dos problemas da população, e não apenas dos interesses próprios e de suas camarilhas; e também se teremos direito a meios de comunicação sérios, dispostos a passar informação aprofundada e isenta, objetiva e sem sensacionalismos ou sentimentalismos contraproducentes; por fim, espero que a blogosfera – ou seja, nós – se comporte de maneira mais madura (obviamente me refiro apenas a alguns).

Esquerda, vou ver? (em Escatologia da Libertação 2014)

Os entusiastas petistas têm se mostrado esquerdistas intransigentes nesta eleição. Coisa que os governos petistas absolutamente não foram. Calma, gente. Isso não é uma ofensa. Se vai seguir lendo, vamos moderar os ânimos. Há vários temas a serem debatidos para avaliar a conduta do PT, quero me ater a um, a política de drogas.

Mas Marx não falou sobre drogas! Claro que não, escreveu no século XIX! Meu humilde objetivo é mostrar, em poucas linhas, que todo esquerdista deveria ser pelo fim da guerra às drogas. Não tanto pelo absurdo que é privar um indivíduo de dispor do próprio corpo, mas pelo simples fato – que está tão na nossa cara que é difícil perceber – de que essa guerra faz muito mais mal que o mal que se pretende combater.

Dilma prometeu endurecer o combate. Isso é grave. É o resultado da busca incessante pelo voto do “eleitor médio”. Ah, mas se ela defendesse a legalização, o Aécio venceria. Provavelmente. Mas não é mera estratégia. Acredito que ela vai ganhar, e acredito – com pesar – que não haverá avanços nesse setor que não venham da sociedade civil ou do STF (que legisla, já que o executivo domina a pauta do Congresso).

O exército está ocupando áreas desta cidade onde escrevo (os Complexos da Maré e do Alemão são perto o bastante para que eu escute os tiroteios). Em nome de… costumes. Quando é que tanques vão coibir o jogo e a fornicação? Isso não é uma sugestão, é uma amarga ironia. Essa guerra afeta mais diretamente os pobres, é classista; afeta mais aos negros, é racista. Não há um esquerdista coerente que não queira combater esses dois males.

Sobre os efeitos e os riscos das substâncias, há toda uma discussão a ser construída, até para que a população seja esclarecida, vítima que é de décadas de campanhas de desinformação e medo. Você aí lendo pode ajudar, não tendo receio de abordar o tema em público, para começar. Informando-se, disseminando essas informações. Não espere que a presidenta o faça, não o fará.

 

E quem estar cuidando do lojinha?

Difícil comentar qualquer coisa né?

Melhor partir pra ação, que tal?

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É impossível calar diante das atrocidades israelenses em Gaza. Trata-se de um massacre de civis com objetivos assumidamente colonialistas, uma limpeza étnica enfim.

Está se articulando um ato em frente à Embaixada de Israel na segunda-feira 12/01, às 14h. Sugerimos levar câmeras e sapatos.

Embaixada de Israel – Brasília – DF SES – Av. das Nações, Quadra 809, lote 38

Ajude a divulgar!

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Postagem no Centro de Mídia Independente:

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/

É sempre os banqueiros
Anti-Banco 10/01/2009 09:34

Para saber o motivo real dessas guerras e não ficar perdendo tempo com discussões religiosas esdrúxulas e sem conclusão possível, basta fazer uma pergunta: QUEM SE BENEFICIA?
Hamas joga bomba em Israel: QUEM SE BENEFICIA?
Israel bombardeia Gaza para todo o mundo ver: QUEM SE BENEFICIA?
Israel não obedece nenhuma resolução da ONU protegida pelos EUA: QUEM SE BENEFICIA?
Israel mostra sua força militar: QUEM SE BENEFICIA?
Hamas Líbano joga bomba em Israel e quase mata um monte de idosos: QUEM SE BENEFICIA?
Estados unidos e países da Europa vendem centenas de milhões de armas para Israel: QUEM SE BENEFICIA?

Guerra beneficia quem tem lucro com ela, é OBVIO, esqueçam tudo o resto e vão atrais dos mandantes do crime, porque não adianta acabar com o assassino se os mandantes ainda estão soltos.

Quem são os mandantes? Quem lucra com tudo isso.
De quem o governo pede dinheiro para financiar as guerras?

(Dica para comear sua pesquisa caso se interesse: The Jewish Rothschild Dynasty)

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Boa fonte alternativa à mídia sionista:

http://littlealexinwonderland.wordpress.com/

E aqui um bom documentário sobre a parcialidade (pra dizer o mínimo) da imprensa ocidental; em torrent:

http://www.btmon.com/Video/Movies/Peace_Propaganda_The_Promised_Land_Isreali_control_of_the_Wor.torrent.html

e no YouTube:

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Não se trata de ódio contra Israel. Atenhamo-nos aos fatos:

desde 2005 morreram menos de 20 israelenses por foguetes do Hamas. a atual ofensiva já se aproxima de 1000 mortes.

Israel bloqueia o acesso da imprensa e da ajuda humanitária. a fogo de tanque se necessário.

o Hamas não tem um exército, o IDF é uma extensão do exército mais poderoso do mundo, o estadunidense.

as declarações de Ehud Barak são no sentido de reocupar Gaza, portanto é uma ofensiva deliberadamente colonial.

A definição oficial de terrorismo segundo o Exército Americano é

VIOLÊNCIA OU AMEAÇA DE VIOLÊNCIA PERPETRADA COM FINS POLÍTICOS, RELIGIOSOS OU IDEOLÓGICOS

portanto, uma ofensiva com o intuito de desmantelar uma organização ELEITA pela população, não importa sob qual pretexto, é uma ação militar com fins políticos, portanto,

ISRAEL É UM ESTADO TERRORISTA

Quem quiser pode continuar aceitando a definição ‘de facto’ de terrorismo:

violência que ‘eles’ praticam contra ‘nós’.

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Eu nunca concordei com atentados suicidas, ou foguetes caseiros. Realmente acho que os organismos internacionais e mediação são o caminho. Mas quem bloqueia todos esforços da ONU nesse sentido senão Israel e EUA, que exerceram seu poder de veto várias vezes? Informe-se melhor.

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a ofensiva é política: Olmert envolvido em escândalo de corrupção, um Barak ministro da guerra e aspirante a premiê precisando de uma demonstração de força para fazer frente ao Netanyahu, que ganhava ímpeto… Bush precisava fazer mais uma antes de sair, sem que o desgaste sobrasse pro outro Barak, que com suas declarações pusilânimes foi desmascarado como suposto arauto da concórdia mundial (aliás uma fabricação bem inusitada já que o nome do projeto de governo dele foi “por uma nova hegemonia americana”

alguma pergunta?

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Problema algum ser israelense. O povo israelense não é criminoso. É bem verdade que disputam o controle do Estado israelense a direita e a extrema-direita, mas até aí não há razão alguma para odiar a população. Há dissidência em Israel, é bom lembrar.

Mas a realidade histórica inegável é que Israel foi uma consequencia da supremacia norte-americana pós II Guerra, que precisava se implantar numa estratégica região, domínio tradicional da Grã-Bretanha. O holocausto judeu na Alemanha foi uma argumentação perfeita para uma política colonial sionista.

Até onde eu saiba nunca se falou em Estado dos americanos-nativos (na minha época chamavam-se índios), ou devolver a península ibérica aos mouros, ou nada parecido.

Perdão, amigo, o Estado de Israel é ilegítimo. Como qualquer outro, aliás: são mecanismos de dominação e garantia de interesses muito particulares, fingindo agir pelo bem de todos… Mas enfim, Israel é uma COLÔNIA estadunidense no Oriente Médio.

Difícil negar os fatos.

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Comentário no Blog do Reinaldão:

Anônimo disse…

“No mesmo dia em que Israel decretou sua independência, cinco exércitos árabes invadiram o nascente estado judeu. Em um comunicado inflamado e confidente de vitória, seus líderes urgiram os árabes a fugir da zona de guerra, para não atrapalhar os exércitos invasores.”

Pára com isso… até os historiadores israelenses contemporâneos já concedem que houve uma pequena faxina (que prossegue até hoje)…

Bem, se o Ben Gurion foi considerado um dos homens mais importantes do século pela Time… na lista da Veja seria um top five.

Olha, até um deputado americano já entregou o serviço todo, pra que tanta hipocrisia? Basta assistir:
http://www.sendspace.comfile/umazq3
Ou então este:
Noam Chomsky: Distorted Morality
legendas:
http://www.opensubtitles.org/en/subtitles/3406970/noam-chomsky-distorted-morality-pb
Este também:
Peace, Propaganda and the Promise Land

Que vergonha Civitas…

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Conforme estudo conjunto feito pela Universidade de Tel Aviv e pela European University, esse é o padrão segundo o qual a violência do exército israelense já foi responsável pela interrupção ou violação de 79% de todos as tréguas firmadas na região desde a II Intifada; o mesmo estudo constatou que o Hamas e outros partidos palestinos só podem ser declarados responsáveis por 8% das violações e interrupções.

Questão de Valores

O adjetivo que mais gostam de impingir a meu candidato a presidente, Plínio de Arruda Sampaio, é (talvez depois de “engraçado”, dado seu tom mordaz, às vezes jocoso, nos debates) radical. Nós não rechaçamos essa “crítica”; na verdade, não enxergamos crítica (ainda que seja de fato quase um insulto para o emissor), pois enxergamos a sociedade brasileira como intrinsecamente injusta (o que programas de renda mínima estão longe de mudar, ainda que essa discussão vá longe), e postulamos que apenas mudanças radicais trarão uma sociedade mais igualitária.

Há a questão da reforma agrária, por exemplo, que é de fato crucial. É um tema que andava, desde a redemocratização (ou détente) até a Constituinte, pela boca de peessedebistas quando eles aprendiam ainda a voar e pudessem talvez ainda merecer a sigla de social-democratas; do doutor Ulisses Guimarães, quando seu partido pudesse ter alguma honra; e obviamente do PT, quando a estrela era uma divisa e não apenas um logotipo. À medida que chegavam ao poder, todos esqueciam rapidinho do que haviam dito. Por que será? Devo lembrar que a pauta exportadora brasileira é (e tem sido ainda mais ultimamente) baseada em produtos primários? Que o coronelismo ainda grassa pelo interior da maior parte do país? O presidente da república parece ser pequeno ante esse poder dos 1% dos proprietários que abocanham 46% da área cultivada. Pelo menos quando se opta pela “virtude da moderação”.

Mas minha intenção ao escrever era desde o início abordar a questão da educação. A proposta do PSol é a educação 100% pública. Isso é visto como um absurdo completo pela mentalidade neoliberal (ainda que não o seria pelos liberais originais, como demonstrarei), pois vê-se o direito sagrado, não aquele de todos cidadãos terem uma educação equivalente, mas aquele de um empresário lucrar com ensino. Mais que isso: talvez não se admita, mas o que o Brasil de cima vê mais ameaçado é o privilégio; a clivagem entre o Brasil que vai ter os melhores empregos e os que terão subempregos, se forem muito perseverantes. Por fim, nunca interessará à reduzida “elite dirigente” que pessoas sejam realmente educadas e conscientizadas, mas apenas treinadas – e  de acordo com a clivagem mencionada, algo como a distopia de Huxley.

Mas, na prática, dá pra fazer? Sim. É um desafio, por certo, que só se completará com a aderência de todos atores envolvidos. Pelo que eu entendo, haveria uma confluência pela qual a estrutura atual particular seguiria funcionando, mas assimilada pelo Estado. E obviamente, todo o investimento necessário para melhorar a rede pública seria feito – para isso a reserva de 10% do PIB para a Educação – até que as duas redes se integrassem. Não é impossível e certamente já foi feito.

A questão é saber que valores o brasileiro quer ostentar, se os de uma sociedade estamental – que vive, sim, até hoje – tais como são bombardeados pelos meios de comunicação que fazem mesmo o oprimido pensar o que o patrão quer, ou se nos atualizaremos (de fato, não apenas no discurso) até aqueles da Revolução Francesa, pelo menos. Igualdade não combina com duas categorias de escola. Fraternidade não existe quando uma criança teme a outra, que de sua parte ou inveja ou odeia e eventualmente talvez roube a outra. E Liberdade não existe quando o futuro é decidido cedo, fazendo da pobreza hereditária.

Joguete da Direita é o Escambau

Lula resolveu fazer o possível sem “balançar o barco” demais. E acabou apostando as fichas na transferência direta de renda, que é um band-aid que evita fazer a sutura da chaga social (mas mais do que jamais havia sido feito); a eleveção paulatina do mínimo teve um impacto ainda maior. Com isso houve crescimênto econômico, o que é positivo para os mais ricos, com ressonâncias inegáveis para os de baixo (temos o menor desemprego da história). Enfim, há uma transformação em curso, mas é no fim um “gostinho de social-democracia” para um povo acostumado ao amargor da penúria e da indiferença.
Mas nossa sociedade ainda é sumamente desigual (4a do mundo), a terra é concentrada (2a do mundo). Os serviços públicos – educação, saúde, segurança, transporte – são uma vergonha, nada melhoraram. Ainda há analfabetismo absoluto, e o funcional é dos maiores do planeta. Nossos alunos (mesmo os ricos) fazem feio em comparações internacionais. Não há pesquisa e desenvolvimento relevantes; nossa indústria limita-se a montar componentes asiáticos. Não foram feitas as reformas que Lula propôs: agrária, nem pensar, política, empurra-se com a barriga; tribuária, naufragou duas vezes (e nem era uma de verdade, que efetivasse enfim a progressividade, desonerasse consumo e onerasse patrimônio e renda); urbana, que é isso?; a previdenciária – imposta desde washington, ou wall street – essa sim passou (pela preocupação fiscal, e não demográfica).
Não gosto de ver o ufanismo de muita gente aqui, como se o país tivesse alcançado o primeiro mundo, o céu do consumo… Nassif ao menos critica a política econômica, a mesmo do governo anterior, aliás. O que nos faz questionar: será que é o “coiso” quem manda? O capitalismo internacional? É esse mesmo o único jogo que é possível jogar? Não sei.
Sei que é prudente elogiar o governo do PT onde couber, mas sempre com o distanciamento necessário para criticar também. Como a Caros Amigos tem feito. Por fim, lembro a categoria de Faoro, dos “donos do poder”. Lula percebeu que “se não se pode vencê-los, junte-se a eles”. Para o bem e para o mal.
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Esqueci ao menos uma: a pauta de exportação brasileira depende cada vez mais de produtos primários: soja, carne, minério. Às vezes me parece estarmos vivendo uma nova versão não do milagre dos milicos (que ao menos foi um salto em infraestrutura), mas uma da prosperidade do café. Também na época as relações sociais tinham um ganho com o fim da escravidão, guardadas as proporções, e o andar de cima fazia a festa. Que mal compare; o que insisto em dizer é que não tivemos um salto qualitativo como nação, como um maciço investimento nos serviços públicos e a reforma agrária poderiam garantir nesse duplo mandato da suposta esquerda no poder. Foi um ganho quantitativo, com as migalhas ficando mais gordas.

Então, Truco!

Quando soube que a oposição direitista estava disposta a trazer ao Brasil, na reta final das eleições, a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à lapidação por adultério no Irã, pensei logo: coitada da moça. Não bastassem todas suas vicissitudes na terra natal, seria ainda joguete político em outro hemisfério.

Falar em moralidade em relações internacionais é sempre complicado.  É difícil fugir da moralidade distorcida que Chomsky denuncia no documentário para o qual eu humildemente fiz legendas. E no livro Contendo a Democracia, que estou terminando de ler. Violações de direitos humanos praticadas pelo inimigo são crimes indizíveis, ao passo que as nossas e de nossos aliados são relativizidas, ignoradas se possível.

Essa mesma turma que queria se aproveitar Ashtiani para faturar politicamente, denunciando a crueldade da sociedade iraniana, dá apoio tácito à tortura policial e aos grupos de extermínio, que “pelo menos combatem a bandidagem” ou algo assim. Alguns, representados no Congresso por gente como Bolsonaro, nem sequer se dão o trabalho de esconder ou tergiversar. No plano internacional, apenas desafetos dos EUA são condenáveis, enquanto eles mesmos e seus aliados jamais são questionados pela mídia hegemônica. Os modos “atrasados” da Arábia Saudita, ou do mesmo Irã sob o Xá, nunca foram problema.

Eu de minha parte condeno com veemência práticas como a lapidação de mulheres adúlteras no Irã, assim como a pena de morte por injeção letal texana. Mas acho insuportável essa postura, “self-righteous” como eles diriam, do “Ocidente” de se achar o modelo de como uma sociedade deveria funcionar, e ignorar sua crueldade intrínseca, seu materialismo ganancioso, a exploração que a move, e a violência que segue, para sair apontando dedo por aí. Só a sociedade iraniana pode obter a conquista de abolir essa e outras práticas. O que não impede, entretanto, nossa diplomacia de firmar sua posição em favor dos direitos humanos.

Sendo assim, Lula falou besteira da grossa ao defender respeito às leis iranianas e ao dizer que sua interferência no caso seria uma “avacalhação”. Ele não avacalhou a Itália no caso Battisti (acertadamente a meu ver)? Pois depois dessa declaração, de repente algum assessor palaciano – o Marco Aurélio, talvez? – assoprou em seu ouvido que ele só tinha a ganhar oferecendo asilo a Ashtiani, e além do mais o Irã precisa mais do Brasil do que o contrário, e que o gesto contaria pontos junto à “comunidade internacional” – que o conciliador Lula não quer desagradar totalmente – e pavimentaria o caminho para um possível Nobel da Paz..

E Lula chamou truco em cima da oposição: se vocês querem se aproveitar da moça, vejamos quem vai se dar bem no fim.

O PT, as FARC e os Rumos da Esquerda

O mais recente episódio da briga de foice eleitoral – que só tende a piorar – é a questão em torno da relação entre PT e FARC, levantada pelo inacreditável vice de Serra, Índio da Costa, que vai dar uma força a Serra quando ele se sentir tímido demais para propalar o discurso vejístico, aquele calcado na guerra-fria.
O PT tem de fato pontos de contato com as FARC, sem que isso signifique apoio a seus métodos. A começar pelo Foro de São Paulo, reunião de partidos esquerdistas da América Latina, que inclusive rechaçou os colombianos em encontros mais recentes. Houve também visitas de emissários dos guerilheiros a líderes petistas como Olívio Dutra. Portanto, infunada de todo a “acusação” não é.
Era uma oportunidade excelente para o PT esclarecer à população a situação do país vizinho, em que ambos lados do conflito político se financiam com narcotráfico e atuam através de terrorismo, sendo a diferença que a situação faz isso com respaldo estadunidense, com representação política, e com impacto muito maior sobre a população. Sugiro a esse respeito a matéria do Monde Diplomatique “Tous les colombiens ne s’appelent pas Ingrid”. Ressalte-se que não estou defendendo as FARC, mas apenas uma informação mais completa. A guerrilha não é um bando de facínoras desalmados que praticam o mal pelo mal, combatendo as forças do bem, do angelical Uribe.
Ocorre que o PT é representante da esquerda envergonhada, que morre de medo da opinião pública fabricada por uma mídia dedicada à narrativa gringa da história latinoamericana, já que seu enfoque político é mais mercadológico que ideológico, e seu objetivo é obviamente muito mais permanecer no poder do que encampar bandeiras esquerdistas – ainda mais numa questão tão espinhosa.
Dilma diz-se “acima” da polêmica. É uma pena. Para ela, que chama o adversário para cima, e para a opinião pública, que fica privada de um debate mais esclarecedor (que, aliás, nunca foi objetivo de qualquer dos lados).
Isso nos traz à questão dos rumos da esquerda, justamente em seu aparentemente melhor momento no subcontinente. Na Colômbia, ela parte para o crime, e ressalte-se que quando depôs as armas para perseguir a via eleitoral foi atraiçoada e milhares de seus quadros foram chacinados. Na Bolívia parece viver um momento formidável, de transformação pela via democrática – mas parece por demais calcada na figura de Evo, que pode ser tentado a imitar seu ídolo Chávez, um outro líder vermelho popular, mas tirado ao caricato, e que parece pôr seu projeto de permanência no poder acima de tudo mais. Nada sei sobre Equador ou Nicarágua. Tenho simpatia pelo casal Kirchner, apesar de pouco saber sobre os vecinos do Rio da Prata, e torço por Mujica no Uruguai, embora me pareça que o antecessor Vásquez se pareça muito com… Lula, um ícone sem dúvida, mas sem nenhuma consistência esquerdista – o que se reflete na política econômica, na covardia ante a concentração fundiária e por aí vai. Não sei por que deixaram de usar uma expressão muito adequada para a América Latina, segundo a qual a região viveria uma “Onda Rosa”. Enquanto isso, partidos que não se venderam (chame-os de dinossauros, se preferir) parecem condenados à irrelevância política.

A Alternativa Socialista

A maior parte de vocês dirá que o socialismo é anacrônico, está morto e enterrado, sob os escombros do Muro de Berlim (se eles não tivessem virado, emblematicamente, souvenirs caríssimos). Boa parte vai concordar em dizer que o socialismo foi brutal, um período que não deveria nunca voltar. O problema é que a História é contada pelos vencedores. E quem tem lhe contado essa história é – em grande medida – uma mídia alinhada com o conservadorismo, e com o imperialismo dos campeões capitalistas da América do Norte.

Sem dúvida que Stálin foi um carniceiro, que pôs um projeto pessoal de poder acima de um ideal que já não ia muito bem das pernas. Na verdade, os socialistas tomaram o poder na Rússia em 17 e ficaram sem saber o que fazer: a teoria marxista previa uma transição de uma sociedade industrial para uma “ditadura do proletariado” (entendida como governo provisório, sentido original de ditadura) que daria lugar ao socialismo e enfim ao comunismo, em que mesmo o Estado sumiria. Ocorre que a Rússia estava longe de ser uma sociedade industrial, e ainda carregava vestígios de feudalismo. O Partido esperava que a Alemanha, terra do mais forte partido comunista, fizesse a revolução e viesse em seu socorro, o que não aconteceu. Daí em diante, partiram para rumos opostos à ideologia que supostamente os motivava: um regime de chumbo sem liberdades individuais e um capitalismo totalmente controlado pelo Estado. A ideologia se converteu em religião, e o jogo passou a ser brincar de superpotência contra os EUA (desperdiçando recursos com armamento).

Mas quantas vezes falam sobre Salvador Allende? Eleito democraticamente no Chile, começou a mudar a sociedade, efetivamente socializando os meios de produção. Que aconteceu? O capitalismo, tão bonzinho, tão íntegro e moralista, mandou bombardear La Moneda, onde Salvador tirou a própria vida, savando a própria honra. Não me aterei aqui em mencionar outros crimes em nome do capitalismo, sugiro Chomsky como fonte.

Como disse Plínio, o sonho socialista vive seu pior momento, mas é imorredouro. Por que ser socialista hoje, se não há a menor chance de implementar alguma transição em pelo menos 20 anos? Para fomentar o debate, quebrar o domínio do discurso único. Fiquei estarrecido ao ouvir de Lula o embuste oficial da ditadura: fazer crescer o bolo para reparti-lo. Assim, os mandarins do capitalismo manejam qualquer um que entre lá (pois se não se curvar, não entra), de modo a garantir a expansão das atividades econômicas, pouco importando as mazelas históricas da sociedade.

Até acho que Lula fez bem, dentro dos liames a que o Estado está submetido. Foi um sucesso de realpolitik, e diminuiu a pobreza de fato, com a ação emergencial da transferência direta de renda. Ocorre que estão tomando isso por solução dos problemas. Posso me descobrir enganado lá na frente, mas eu nunca vi ninguém fazer omelete sem quebrar os ovos, ou seja, transformar a sociedade sem mexer em suas estruturas.

A questão agrária foi um ponto em que o PT capitulou covardemente, e a estrutura fundiária continua absurda a ponto de 1% dos terratenentes possuírem 46% das terras. E falar nisso ainda é tabu. Reforma agrária é vista como tão anacrônica quanto o comunismo, quando por volta da Constituinte estava na boca de todos principais políticos do campo que combatera a ditadura: Ulisses, Fernando Henrique, Serra, Lula… e Plínio, que segue firme sem mudar de posição.

Os serviços públicos como saúde, transporte e educação continuam sendo oferecidos para “cidadãos de segunda classe”, enquanto nós que temos alguma grana pagamos por eles e não nos importamos muito. Não é o caso em Cuba, sabiam? Aquela pequena ilha vítima de estrangulação econômica há cinco décadas. Segurança? Aí sim os ricos reclamam: por que a polícia não protege meu patrimônio dessa horda de miseráveis? (obviamente a criminalidade é um assunto complexo, mas a disparidade de renda é certamente determinante) Por que não somem com esses pedintes e guardadores de carro? Por que não passam bala nesses craqueiros que enfeiam minha cidade (pro meu filhão passear tranquilo de carro importado, bêbado)?

Enfim, preciso ainda explicar por que declaro aqui que, havendo segundo turno, voto na candidata indicada pelo governo. Por abominar o outro campo dessa duvidosa polarização. Talvez nem tanto pelos auto-declarados social-democratas, que um dia talvez tenham tido pendores de centro-esquerda, antes de se refestelarem no poder, mas em grande parte pelos aliados, assim-chamados democratas, esses sim asquerosos reacionários empedernidos. Ambos partidos representam apenas uma elite retrógrada do país, uma mais urbana, outra mais rural. Também se pode dizer que o período do PT foi melhor pro país do que o do PSDB, então, como essa é própria ideia de segundo turno (se o seu não vai, escolha entre os dois primeiros), declaro meu voto para Plínio, e – talvez – depois para Dilma. Talvez, porque pode ser que nem precise.

 

Fronteira Agrícola?

“Exigem que renunciemos à expansão da fronteira agrícola, sem a garantia de que o aumento de produtividade será capaz de atender à demanda explosiva por comida numa sociedade em que, finalmente, os pobres começaram a comer direito.”

Espera aí, avançar com a fronteira agrícola para o latifúndio produzir commodities de exportação? Alimento é a pequena propriedade quem produz, e já foi devastada terra suficiente para garantir o abastecimento, basta zonear, e democratizar o acesso à terra.

Questionar as intenções e a própria integridade científica da cruzada milenarista do Aquecimento Global não pode servir para desmatar mais, em nome do “progresso” mais arcaico de todos, a monocultura exportadora, o plantation moderno.

Quanto de nossa terra é cultivada “para fora?” 40, 50, 60%? alguém conhece um dado assim? gerar divisas é importante, mas é por esse quadro de atraso, de país agroexportador, que se “justificam” os desmatadores na Amazônia, que precisa de um padrão de desenvolvimento voltado para o futuro, e não para nosso passado – e presente – semifeudal. Não à toa, é no Pará que a escravidão ainda campeia.

Comentando a Polêmica Ambiental

Bem, aqui é importante tentar não ver o bem contra o mal, mas interesses individuais e clasistas, além de um interesse difuso pela preservação.

Ruralista aqui: tradicional “dono do poder” que contava com proteção total do Estado. Quer toda terra que existir e mais um pouco, acha o preservacionismo uma besteira e um “complô” estrangeiro”.

Ruralista lá: conta com apoio total do governo, mesmo tendo menos representatividade política. Lá, não há o que desmatar, então podem se fantasiar de “verdes”. Devido ao “dollar gap”, sua agricultura só sobrevive com subsídios injustos e “sutil” intervenção nos concorrentes.

Ambientalista: é uma classe grande, e junto com a sincera preocupação ambiental (que ainda não sedimentou bem no ser humano, ou não ultrapassou a preocupação financeira) acredito que haja grupos eminentemente políticos, adeptos da famosa moralidade seletiva que acomete os países poderosos.

O meio-ambiente (natural): esse não pode se defender só, e tem há muito cedido espaço a atividades lucrativas; na maior parte do mundo desenvolvido, de forma total e talvez irreversível. Países como o Brasil, não muitos, orgulham-se da “fronteira agrícola”, ou seja: persistem no erro em nome do “progresso”.

Há pouca razão para otimismo. O dinheiro vale mais que qualquer coisa, ou pelo menos essa é a ilusão necessária que adotamos. Se alguma forma de socialismo efetivo puder vir à tona no futuro, contemplando essa preocupação do “bem-viver” e “bem-coviver”, pode ser que haja esperança. Do contrário, em alguns séculos viveremos em um planeta transfigurado por inteiro, em que a agressão do homem refletirá sobre sua própria condição de vida. Se vai dar pra consertar não compete a mim sequer especular.

Para Além da Indignação

Escrevi aqui algumas vezes espinafrando a política do Estado de Israel. Não do povo israelense, muito menos dos judeus, mas do país. Israel é caso complexo, desde sua origem controversa, servindo oficialmente como lar dos judeus espalhados pelo mundo, mas na prática prefigurando um posto-avançado dos Estados Unidos no Oriente Médio (embora o lobby sionista influa mais no Capitólio do que os americanos no Knesset), passando por cada guerra por território, até o mais recente episódio, em que a marinha israelense atacou uma frota de ativistas dispostos a quebrar o bloqueio a Gaza com ajuda humanitária, matando ao menos nove e ferindo uns quantos outros, Israel é polêmica pura.

Sendo aliado americano e contando assim com meios de comunicação favoráveis mundo afora (e, ao que parece, pastores evangélicos também), ainda é possível ver gente defendendo as posições e as ações daquele país. Mas com esse último crime – o Financial Times o descreve como ato de pirataria – Israel conseguiu a reprovação internacional virtualmente unânime; apenas os amigos de sempre, os EUA (que fingiam “estremecimento” com a questão dos assentamentos), soltaram uma frrouxa declaração segundo a qual estariam “tentando entender” a “tragédia”. Periódicos prestigiados, opinião pública, todos condenam Israel e estão indignados.

E eu pergunto: e daí? No cerco a Gaza, um monte de gente ficou indignado – o pateta aqui foi protestar na Embaixada – e eles fizeram o que quiseram, fósforo branco, destruição deliberada de minaretes, etc. E até o relatório que aponta seus crimes de guerra (além das faltas do Hamas) é esnobado por filial e matriz, e dificilmente terá algum efeito mais que documental. O que me garante que daqui a dois anos o ataque à flotilha não será lembrado como apenas um episódio de agressão israelense, em uma matéria jornalística sobre uma nova ofensiva ou algo assim?

Resta-nos fazer barulho, continuar pressionando e lutando a batalha de relações públicas que é vital para eles, convencendo o porteiro do seu prédio e o dono do bar que não é bem como a Globo pinta. Essa batalha deve ser travada no mundo todo, é claro, para criar consciência e daí pressionar os governantes, que – esses sim – precisam adotar uma postura clara. O crime contra os pacifistas, que denunciavam o absurdo estrangulamento de Gaza, do qual o Egito é cúmplice, logrou suscitar uma comoção mundial e manifestações de repúdio, deixando Israel isolado e mesmo sem seu principal aliado árabe, a Turquia (a maior parte da frota e dos ativistas era turca). Talvez o episódio marque um ponto de inflexão no meio diplomático de modo a não mais aceitar os abusos israelenses (para isso, supostamente, existe diplomacia). Esperemos. Mas o pessimismo, dado todo o retrospecto, é justificável.