Políticas e Geopolíticas

Gaza 2009

 

Um Ídolo Intelectual

Noam Chomsky é um dos poucos seres humanos respeitados em duas áreas diferentes do conhecimento. É um linguista fundamental, criador de toda uma corrente de pensamento (o gerativismo), e é talvez mais conhecido como analista político crítico do capitalismo (e do socialismo) e das práticas imperialistas de seu próprio país.

A consistência do pensamento de Chomsky é irritante, a ponto de sua clareza ser confundida com simplismo. Foi o que disse o New York Times na frase em que o reputava “o intelectual vivo mais importante”… mas cujas visões políticas são “maddening simple-minded” (exasperantemente simplistas).

Chomsky é uma referência da esquerda atual (seja lá o que isso signifique) na contestação da “visão oficial da História”, segundo a qual, por exemplo, os EUA lutavam pela democracia na América Central dos anos 80, ou que a Guerra Fria foi uma disputa de igual pra igual (entre o bem e o mal, é claro); ou ainda na questão palestina – uma em que a máquina de propaganda é assaz poderosa.

Chomsky professa o anarquismo (e acabo de encomendar dele On Anarchism e Government in the Future), daí sua liberdade para criticar tanto o capitalismo de Estado à ocidental (intervencionista) quanto o capitalismo de Estado alcunhado “socialismo real” (totalitário). Este vídeo é excelente neste quesito. E quanto àquele, sugiro meu próprio Chomskytube.

Daí por que disse que Chomsky é irritante: para ele não há opção entre capitalismo e socialismo porque nunca existiu nem um nem outro. Assim como na Palestina, entre uma solução de um Estado ou uma de dois Estados, ele é por uma solução de Estado nenhum. Na verdade, como foi bem observado pela Lambisgóia, ele tem um jeito muito peculiar de fazer ironias intelectuais muito finas a ponto de serem imperceptíveis a qualquer observador menos arguto.

Não tenho problemas em afirmar que Chomsky é um ídolo. Sinto uma ponta de orgulho por me corresponder com ele (ele é super acessível – aqui e aqui). Triste pensar que estive perto de entrevistá-lo pessoalmente quando fui a Boston, mas vicissitudes inescapáveis o impediram.

Chomsky: o Potencial do Brasil (traduzido)

Leosfera:
Caro Professor Chomsky,
Fiquei feliz em ler seus artigos sobre a América do Sul, e de fato creio que se realmente nos ajudarmos e inte grarmos nossas realidades podem ser transformadas, e isso pode ser feito sem confrontar frontalmente o poder dos EUA, já que mesmo eles percebem que um mundo diferente, multipolar, sobreveio. Muito se diz sobre um novo papel do Brasil nas questões internacionais, mas eu às vezes acho difícil separar o exagero dos fatos. O que em sua opinião pode ser esse “novo Brasil”? Uma potência econômica com certeza, e as reservas de petróleo do pré-sal (exploradas responsavelmente) serão um impulso, mas quão longe pode nossa influência política ir? O senhor acha que Cuba poderia nos ver como um parceiro em uma eventual détente, repelindo o imperialismo americano? Poderia o Brasil ser uma referência para países africanos, e do Oriente Médio? Uma espécie de Gigante Gentil?
O senhor talvez goste de saber que, à medida que nos aproximamos do fim do segundo mandato de Lula (com histórica aprovação de 80%), Dilma, a candidata indicada por ele (uma experiente gerente em suas primeiras eleições) finalmente suplantou o candidato conservador José Serra (ministro de [Fernando Henrique] Cardoso) nas pesquisas, à medida em que as pessoas a associam mais e mais ao presidente. Curiosamente, dois institutos estatísticos (com ligações com a mídia de direita) saíram com novas pesquisas – semanas depois de um deles detectar uma liderança de 5pp para Dilma (PT) – mostrando empate técnico. O desespero parece atingir a oposição de direita, à medida em que prefeitos de partidos conservadores declaram apoio a Dilma, e diz-se mesmo que a poderosa empresa de mídia Rede Globo (30% Time-Life) considera abandonar o barco de José Serra (PSDB).
Noam Chomsky:
O Brasil certamente tem um excitante potencial. Por boas razões, um século atrás previa-se que seria o “colosso do sul”, uma contraparte (e contraforça) ao colosso do norte. Nos últimos poucos anos tem tomado passos importantes no sentido de se tornar o tipo de “Gigante Gentil” que você projeta. Há um longo caminho a percorrer, é escusado dizer. O Brasil tem problemas internos enormes, e a economia depende demais em produtos primários de exportação. Muitas razões para esperança. E sem dúvida muito dependerá na vindoura eleição.

Chomsky: Brasil e América Latina (traduzido)

Leosfera:
O Brasil é agora reconhecido como uma espécie de líder do mundo em desenvolvimento, e o presidente Lula – que acaba de receber um prêmio de Estadista do Ano – como uma espécie de porta-voz dos BRICs, muito embora a imprensa local adira às elites históricas (das quais é parte inseparável) e abertamente tenta desestabilizar seu governo. À luz desta nova posição, é justificado, a seu ver, o anúncio da compra de caças e submarinos atômicos para “defender a Amazônia e as reservas de petróleo em mar profundo” como alega Lula, quando os mesmos fundos poderiam melhorar o padrão de vida se investido em infraestrutura básica tal como saneamento e transporte (as ferrovias brasileiras são virtualmente inexistentes)? Parece-me um tanto absurdo pensar que a Marinha dos EUA, por exemplo, viria e roubaria nosso petróleo, ou que a Amazônia possa ser defendida de cima quando ela é ameaçada por biopiratas e extração ilegal de madeira (problemas mais chão-a-chão, sem trocadilho). E quanto a outros no continente se juntando, em menor grau, à corrida armamentista – iniciada há muito por Chávez? Seria uma reação ao fato de ser a Colômbia um títere dos EUA e ao anúncio das sete novas bases? Mas afinal, poderia qualquer país resistir a uma invasão americana se as coisas chegarem um dia a esse ponto?E quanto ao papel de protagonista na missão de paz do Haiti, o sr. o vê como um importante e efetivo esforço em ajudar o país mais pobre das Américas, ou uma legitimação de um golpe levado a cabo pelos EUA? Os grupos que nossas forças devem desarmar, não são eles movimentos de resistência popular e não apenas criminosos? Finalmente, sobre Honduras. A imprensa local apoiou a ditadura quando Lula abrigou Zelaya na embaixada brasileira: nosso maior jornal [Folha] publicou a visão de [John] Negroponte (que, segundo relatos, encontrou-se com Micheletti dias antes do golpe). E me parece que sua proposta de esperar as eleições “para que um terceiro nome assuma e tudo se resolva” é em boa medida a política americana, apesar da posição oficial de não ratificar eleições sob o regime. Recentemente os acordos se mostraram muito instáveis e fracassaram – nenhum ditador simplesmente pede desculpas e se retira. O que o sr. vê como o desfecho mais provável?Noam Chomsky:Uma má escolha em minha opinião, embora os temores não cheguem a ser paranoia. Há, afinal, uma história, que não pode ser simplesmente apagada, e os EUA estão incrementando sua militarização na região, continuando sob Obama.O Haiti foi sujeito a um golpe de parte de seus torturadores habituais, França e EUA. Deixou-se uma situação tão horrenda que alguma intervenção internacional era provavelmente legítima. O registro brasileiro tem sido horrível, a julgar pelos relatórios de monitores de direitos humanos.Não me surpreende a posição da imprensa brasileira, a julgar por minha exposição limitada. Os EUA se põem agora em isolamento com o resto do hemisfério, e a Europa, ao efetivamente endossar as eleições mesmo com o presidente eleito removido por um golpe e forças populares sob intenso ataque. Citar Negroponte é digno de nota. Ele é um proeminente terrorista internacional e apoiador da espécie de crimes viciosos dos quais os brasileiros podem facilmente se lembrar de sua ditadura apoiada pelos EUA.Penso que o desfecho mais provável é que a posição de EUA-Micheletti sairá vencedora, a menos que haja forte oposição dentro da America Latina. Improvável nos EUA, infelizmente, onde o assunto é pouco conhecido.NC

Chomsky: Dedo Americano na Reação ao PNDH-3? Traduzido

Leosfera:

Caro Professor Chomsky,

Entendo que a mídia americana não se importa muito com assuntos internos brasileiros, então pensei que podia partilhar com o senhor alguns acontecimentos que talvez sejam de seu interesse e eventualmente ter sua opinião a respeito.

Em dezembro último, o governo lançou um Plano Nacional de Direitos Humanos, um documento propositivo que reflete preocupações liberais globais, assuntos internos, e propunha uma Comissão da Verdade, para investigar e eventualmente punir torturadores do regime de 64-85.

Houve enorme reação da Direita, não apenas dos militares – o que era óbvio – mas também de diversos setores conservadores, que se opuseram veementemente a outros tópicos que ironicamente já estavam presentes em edições anteriores do planos, lançadas sob o ex-presidente Cardoso. Então o agronegócio se opôs a audiências judiciais prévias à expulsão de trabalhadores sem terra, a Igreja se opôs a casamentos e adoções homossexuais, abortos e banimento de símbolos religiosos em espaços governamentais, e a mídia é um capítulo à parte.

Não apenas ela atacou a ideia de monitorar o respeito dos veículos pelos Direitos Humanos, com eventuais sanções, mas faz fez um esforço para, nem sempre discretamente, acusar o governo de estabelecer o comunismo por decreto. Um “jornalista” chegou a perguntar “onde estão os militares?” O público, excetuados apoiadores informados e engajados de Lula, engoliram as conspícuas mentiras, então tivemos que ouvir declarações mais apropriadas à guerra fria.

É surpreendentemente baixa a consciência do regime de terror entre nós. É um tabu de nossa sociedade, que prefere fingir que ele nunca existiu (ao contrário do Chile ou da Argentina). Muitos estão agora difamando os militantes de esquerda (a candidata de Lula, Dilma Rousseff, foi uma deles), e a reação de Lula, mudando o documento, aparentemente deixa espaço para investigá-los também.

Entendo que haja uma tendência mundial de extrema-direita, mas aqui eu vejo muito mais uma estratégia para recobrar o poder. Agora que as mais recentes pesquisas mostram os dois candidatos, Serra (PSDB, direita) e Dilma (PT, centro-esquerda), virtualmente empatados, a tendência é que a virulência cresça (e as questões desapareçam). É o último recurso do PSDB, já que o PT vai se concentrar em comparar o tactherismo de Cardoso com a social-democracia de Lula.

Minha pergunta é: seu argumento é que a mídia “fabrica o consenso” nos EUA, um país de partido único, aqui eles de fato fabricaram consenso durante a ditadura, como o fizeram nos anos neoliberais, agora ela tenta fabricar um golpe (na Venezuela muito mais do que aqui). Qualquer expectador atento perceberá que a grande mídia representa o interesse americano aqui, não apenas defendendo posições de direita (o que se explica por interesses comuns), mas na cobertura de guerras dos EUA ou a questão Israel-Palestina. O senhor pensa que poderia haver intervenção direta americana ou trata-se de comportamento corporativista? Afinal, a Rede Globo, o maior conglomerado de mídia tem uma participação de 30% da Time-Life.
Muito obrigado pela paciência.
Cordialmente,
Leonardo Afonso.

Noam Chomsky:

Obrigado pela atualização, estou parcialmente a par mas não inteiramente. É uma pena, para dizer o menos. Pode muito bem haver interferência dos EUA. Dificilmente seria inusitado. Mas suspeito que a razão primária é o que você sugere. É um fenômeno mundial, em variados graus, e a América Latina tem há muito sido notória pela voracidade e pela violência de elites tradicionais com elevada consciência de classe, que em grade medida possuem a imprensa – ainda que não em toda parte. O único diário realmente independente e muito bem sucedido de que eu saiba no hemisfério é o La Jornada, no México.

O que ando lendo por aí

Chomsky fala sobre o Irã .

Destaque para a pérola de Kissinger:

Noam Chomsky: O ponto fundamental foi explicado com franqueza por Henry Kissinger. O Washington Post perguntou-lhe por que razão ele agora afirma que o Irã não necessita da energia nuclear e que, por conseguinte, deve estar a trabalhar para construir uma bomba, enquanto em 1970 insistiu que o Irã necessitava de ter energia nuclear e que os Estados Unidos deviam prover o xá com os meios necessários para o conseguir. Foi uma resposta típica à Kissinger. Era um país aliado e, por isso, precisava de energia nuclear. Agora, que já não era um país aliado, não necessitava de energia nuclear. Israel, pelo seu lado, é um país aliado, mais precisamente um estado-cliente. Por isso, herda do amo o direito a fazer o que quer.

Naomi Klein: Perfeito Equilíbrio

Descansando um pouco das agruras da política e da politicagem tupiniquins, trago àqueles que ainda não a conhecem a escritora e ativista canadense Naomi Klein. Crítica ferrenha do capitalismo e da assim-chamada globalização, Naomi nasceu em Montreal, em uma família com tradição de ativismo esquerdista. Por ocasião dos protestos de Seattle em 1999, na reunião da OMC, ganhou destaque como uma espécie de “musa anti-globalização” – termo ao mesmo tempo apropriado e inapropriado, pois ela participava com suas ideias, ainda que seja também bem bonita; além disso, esses manifestantes recusam a pecha de anti-globalização, pois apenas questionam a mundialização dos negócios a despeito das pessoas.

Naomi, no meu modo de ver, representa o equilíbrio perfeito entre um esquerdismo acadêmico, científico mas sisudo, e uma contestação ao capitalismo espetacularizada, por isso acessível. Ou seja, um cruzamento entre Noam Chomsky e Michael Moore, com a seriedade daquele e o apelo deste (para evitar o chiste de Bernard Shaw). Seus livros são muito bem escritos, com fartura de citações e referências a suas fontes, e os documentários a partir deles realizados, com sua participação, estão perfeitamente ao alcance dos mais “preguiçosos”.

Ela se notabilizou por No Logo, uma contestação do poder das grandes corporações, corporificadas (perdão do trocadilho) em logomarcas que vemos por toda parte. O da Nike é certamente o caso mais emblemático: uma empresa que só investe em desenho e marquetingue, enquanto encomenda seus produtos de empresas chinesas que subcontratam a confecção a fabriquetas pouco comprometidas com direitos trabalhistas ou salários dignos, ou mesmo com uma idade mínima de seus escravos. Eu mesmo, não li o livro, só vi o filme, que é bom sim, mas nada espetacular: não traz nada essencialmente novo – o livro deve ser melhor. Também dela é The Take, sobre fábricas na Argentina que foram expropriadas pelos empregados quando falidas. Acho. Nem li nem assisti ao filme, embora já tenha baixado (mea culpa).

Mas o que posso mesmo encher a boca para falar é A Doutrina do Choque – A Ascenção do Capitalismo do Disastre, em que ela começa por descrever os experimentos de um psiquiatra maluco (ou nem tanto), que submetia os pacientes a diferentes tipos de tortura, choque inclusive, para regredi-las a uma “távola rasa” sobre a qual imprimir uma nova personalidade. A CIA apoiou abertamente, financeiramente até, a perversa ciência praticada, e aplica os métodos bárbaros até hoje. O paralelo que ela traça é entre essa prática na suposta cura de loucos e a “curra” ideológica de países inteiros, nos quais os partidários de Milton Friedman, o guru do neoliberalismo, e às vezes o próprio, implementavam políticas de livre mercado aproveitando-se de momentos de fraqueza após desastres naturais ou provocados, como o tsunami ou o golpe pinochetista. Nem o estado americano da Lousiana escapou, perdendo moradia e educação públicas com o Katrina. Fala sobre o Iraque e a guerra privatizada, sobre a Bolívia e seus sucessivos golpes, a Polônia e a queda do socialismo real; é um panorama amplo. É claro que ela evita contra-exemplos, teria que admitir um quadro bem mais complexo; e a teia de exemplos é tão extensa que esgarça: às vezes parece um pouco forçação de barra. Mas o livro é ótimo, e como dizem na babação-de-ovo introdutória, ajuda mesmo a entender o mundo de hoje. Descobri que existe um curta-metragem que resume o filme, experimente. Há ainda um trailer com legendas em português.

Minha Colher em Cuba

Lula visitou Cuba já faz um tempo, mas a oposição brasileira faz tudo para tirar o máximo do episódio. Lula por sua parte não contribuiu nada com suas declarações, e esta postagem poderia muito bem se chamar Cala a boca Magda Redux. Sei que resolvi meter minha colher nesse grude, e já estou vendo eu sair lambuzado, mas vejamos.

Os críticos do regime castristas adotam o discurso e o ponto de vista dos Estados Unidos, o senhorio que foi despossuído em 1959, e preferem ignorar que a Revolução representou, no mínimo, a transferência da posse da ilha dos americanos (e elite local) para os cubanos como um todo. Houve resultados impressionantes pelo menos em educação e saúde, universalizadaos, analfabetismo erradicado e por aí vai. Houve problemas de desabastecimento, que em grande medida podem ser creditados ao embargo imperialista. E sempre houve os que discordassem, com os quais o regime sempre lidou no modo tradicional das ditaduras. Até que ponto isso seria “inevitável” no ambiente de conflito que açulado desde os EUA, é matéria de debate. Não há liberdade de imprensa e paira uma sensação de vigilância. Qualquer esquerdista, por mais que defenda os Castro, tem que reconhecer isso.

Há uma discussão que cabe aqui: a democracia-institucional-liberal-burguesa-iluminista é o bem supremo a ser perseguido, mesmo quando sirva de máscara para uma plutocracia que mantém uma parcela da população na indigência (como é o caso da nossa)? É a pergunta que Serra lança em seu artigo, já respondendo: não queremos justiça social a custo da democracia. Bem, essa pergunta deveria ser feita aos cubanos; eu mesmo nunca ouvi falar de enquetes, se são sequer permitidas ou não. Mas tomemos um caso bem afim: a Venezuela, sede – a crer na mídia – das maiores ameaças à democracia, apresentava índices de aprovação da democracia pátria bem maiores que os brasileiros.

A questão é: vemos o regime comunista cubano tornar-se algo anacrônico, apresentar sinais de desgaste com a saúde frágil de Fidel, mas a abertura que parecia natural ficou em suspenso. Temos o fator do ego de Fidel, de ditador latino, influindo: seu projeto era sinceramente de libertação e melhoria social, mas um projeto de poder pessoal todo o tempo. O que nos faz crer que só sua morte trará a détente. A pergunta que vem à mente é: o fim da ditadura e a adoção de “frescuras” burguesas como eleições pluripartidárias, destruiriam as conquistas sociais? Não é possível construir um país a partir daqui? Com o povo escolhendo no voto seus caminhos? O que os comunistas fazem estendendo o regime é garantir uma reação conservadora quando se romper a represa autoritária.

E nosso presidente, por mais que se entenda sua amizade pessoal com os irmãos Castro, suas posições a que tem todo direito (afinal, foi eleito por um partido nominalmente de esquerda), deveria ter sido mais diplomático ao reagir à morte do preso político Zapata, por greve de fome, quando o comparou a bandidos comuns, e mesmo menosprezando uma morte. Há sempre aquela baboseira de não-intervenção em assuntos internos – que vale quando interessa, em Honduras não valia – mas o que há de fato é uma política de alianças. E Cuba é um aliado, e um aliado de peso quando se trata de mineiramente minar a hegemonia americana no hemisfério, surgindo como um contrapeso. Nesse caso, o dicurso oficial é de apoio ao governo instaurado – o que não incomoda a mídia quando se trata da ditadura chinesa ou dos maiores violadores dos direitos humanos do planeta – mas nada obriga Lula a fazer pouco dos dissidentes. Poderia muito bem afirmar que Cuba tem seus problemas internos sérios, que esperamos que sejam resolvidos da melhor forma, etc. um bla-bla-bla bem manjado e insípido, ou seja, diplomático.

O Brasil deve ficar esperto, e certamente Lula e Amorim o sabem, para ser protagonista na inevitável abertura cubana, ocupando espaços de modo a evitar a reincorporação do antigo bordel dos gringos. E é aí que Lula poderia ter dado a cartada de mestre: poderia ter ido além dos panos quentes e domado a situação em seu proveito (harness): afirmando abertamente a disposição de mediar o diálogo na ilha rumo a uma transição pacífica – que mesmo Raul e Fidel certamente já veem com bons olhos – conservando as conquistas socialistas, mas com mais liberdade política. E por esse caminho Lula poderia chegar mais fácil a seu tão sonhado Nobel da Paz: a paz no Oriente Médio não está a seu alcance.

Que Será do Haiti?

Eu sei que é o momento de se condoer com a tragédia do Haiti, vitimado por um terremoto de 7 graus Richter, cujas consequências, amplificadas pela debilidade da infra-estrutura local, fazem-no o pior evento sísmico em dois séculos. É hora de o mundo desenvolvido, principalmente, assumir o protagonismo no esforço humanitário de salvar os soterrados, enterrar os mortos e garantir um mínimo de dignidade aos sobreviventes. Mas podemos nos permitir analisar a resposta à catástrofe, e especular sobre o futuro próximo do país mais pobre do hemisfério ocidental – embora uma coisa seja certa: o que era ruim vai ficar pior e por muito tempo.

Antes de mais nada, há que se recapitular brevemente a triste História do Haiti, repleta de golpes e intervenções externas. Possessão colonial francesa, e bastante produtiva, o país viu a primeira revolta escrava bem sucedida, em 1803, estabelecer o primeiro país independente da América Latina e do Caribe. Após um período de grande instabilidade (mais regra que exceção), foi a vez dos EUA ocuparem o país, em 1915, lá restando até 1934, mas nunca afrouxando muito o torniquete imperialista. Em 57, François Duvalier foi eleito, com suspeitas de fraude e interferência do exército. Os EUA, reticentes por sua brutalidade, findaram por apoiá-lo como uma barreira ao comunismo que tomou a ilha vizinha em 59. Foi o reino de terror de Papa Doc e seu filho Baby Doc, e seus temíveis Tonton Macoutes. Em 86, até os EUA temiam a revolta total de defenestraram Jean-Claude (Baby Doc). Jean-Bertrand Aristide, padre, foi o primeiro presidente eleito, em 90, derrubado em 91; voltaria em 94 (com interferência americana), terminando o mandato em 96; vencendo eleições controversas, voltou ao posto em 2001, e em 2004, após denúncias de corrupção e rebeliões populares (a insatisfação com o governo é obviamente crônica), foi sacado de lá por EUA/França e enviado ao exílio na África do Sul. Lá está até hoje, e seu partido foi banido das eleições programadas para este ano, que não devem ocorrer. Sem julgar sua figura (eu não teria elementos para tanto), cumpre dizer que há manifestações por sua volta, duramente reprimidas, inclusive por nós, tapuias.

O Brasil, que chefia a Minustah – força de “pacificação” pós-golpe – fez bem em anunciar esforços consistentes de ajuda – ainda que seja em parte para reforçar seu papel subimperialista. Ocorre que quando os patrões desembarcam dez mil marines, sem qualquer preocupação de coordenação, ou seja, passando por cima da ONU com a arrogância costumeira, ao Brasil – e a seu ridículo ministro fardado – só resta fazer beicinho. Podemos pensar, colonizados que somos, que eles são muito mais eficientes, e é apenas natural que controlem o aeroporto, dando preferência a voos norteamericanos. Não é o que diz este artigo, do MediaChannel, espécie de Observatório da Impreensa gringo: as 72 horas cruciais após o desastre estariam sendo desperdiçadas em “avaliar a situação”, e enquanto a “América” manda armamento, países como Islândia e China foram muito mais eficientes em enviar suprimentos necessários.

A preocupação maior dos americanos é “garantir a segurança”, ou seja: impedir saques, ou eventualmente revoltas populares. As tropas mobilizadas vão ajudar no esforço humanitário sim, mas já sairam com o carimbo de “tropa de ocupação”. Lembra quando eu disse que as eleições serão canceladas? Pois será alçado ao poder, pelos imperialistas acostumados a tanto, um “grande líder”, “livre de ideologias perigosas” (como aumentar os salários), para coordenar os esforços de reconstrução (a ser tocada pelas corporações ianques). Um títere, pois para efeitos práticos, o Haiti será – e já é – um protetorado americano. Já está nítido o tom “paternalista” da “ajuda”, que impede qualquer autonomia aos haitianos.

Mas o que podem querer os EUA de um país tão pobre? Simples: que sigam pobres e trabalhem quase de graça. Faça a experiência: pegue aquele bichinho de pelúcia da Disney da sua irmã – ou seu – estará lá “Made in Haiti”. São as famosas sweatshops – como as hondurenhas, vejam só -, fábricas de trabalho degradante e pagamento quase fictício, que garantem que produtos intensivos em mão de obra cheguem baratinhos e rendam bons lucros aos empresários americanos. Resulta que para além do jogo de cena humanitário – um país veramente preocupado com sofrimento, mortes e destruição não os provocaria tanto – há interesses imperialistas e econômicos inevitáveis. Inevitáveis mesmo, pois nada os conterá. Monroe deve estar satisfeito, onde estiver. Pobre Haiti pobre. Passado o pior, volta o muito ruim.

P.S.: Para mais sobre o “capitalismo de desastre”, sugiro a moça aí embaixo, Naomi Klein e sua Doutrina do Choque. Ela já deu declarações de temor pelo Haiti, revelando um comunicado da Heritage Foundation ressaltando as “oportunidades” após a calamidade – que ficou poucas horas no ar, sendo substituído por um de tom menos entusiasta.

 

China, Brasil e o Novo Paradigma

É importante lembrar que o sucesso econômico da China não se deve apenas ao câmbio depreciado. Sua maior “vantagem comparativa” é a mão de obra virtualmente escrava, algo como os primórdios da Revolução Industrial na Inglaterra. Portanto, tal sucesso é antiético do ponto de vista dos direitos humanos.

Também o é do ponto de vista ecológico, porque a China é paradigmática do momento atual do capitalismo: uma sociedade de laboradores e consumidores (Arendt, 1958) – com a ressalva de que quem mais trabalha, fabricando produtos para exportação, menos consome. E esse capitalismo acelerado pressupõe o que se tornou sinônimo da China: produtos baratos sem qualquer pretensão de durabilidade; ora, o impacto ambiental do processo fabril e do lixo que fica garantem a insustentabilidade desse modelo em que se fabricam items a serem consumidos e não usados.

O Brasil tem condições, ao menos as físicas, de capitanear uma transição do modo de vida, produção e consumo atual para uma nova concepção que priorize as bases materiais de nossa própria sobrevivência, em vez de uma alucinada acumulação – com a inevitável concentração – de riqueza à custa do que quer que seja. Um modelo de organização social pautado na pluralidade, tolerância e solidariedade e não do individualismo como única ideologia possível. Um protagonismo como foi o inglês ao nos brindar com a Revolução Industrial – para o bem e para o mal. A preocupação ecológica precisa ir muito além de preocupações tópicas e medidas mitigadoras como reciclagem e cotas de emissão: a mudança precisa ser mais radical.

E se as condições físicas estão aí – natureza em boa medida preservada, matriz energética consideravelmente renovável, recursos hídricos incomparáveis – as bases humanas estão muito aquém. Uma intelectualidade atabalhoada, uma imprensa no mínimo questionável, a pesquisa, descoordenada, avançando, não por obra, mas quase a despeito do governo, uma mentalidade reacionária bem disseminada… enfim, um quadro desalentador que torna piada nosso mote favorito, “o país do futuro”. No entanto, tal expressão seria real, bem real, se apenas tirássemos as lentes do ufanismo irrefletido e superficial suscitado pelo recente aquecimento da economia advindo da inclusão social – tímida que seja – proporcionada pelo Bolsa Família, além de… isso mesmo, o petróleo do pré-sal.

Quem quer perceber que estamos avançando sim, mas num caminho sem saída? Quem se lembra de Milton Santos? Imagino que apenas sua obra, desprestigiada injustamente como toda Geografia, bastaria para repensar o modelo de organização do espaço. E ainda temos Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes e alguns outros na algibeira… Pois quem estará às mãos e aos pés, no coração e no cérebro do Gigante Gentil quando ele acordar para sair do berço explêndido para ensejar seus primeiros passos?

O Brasil e o Imbróglio Persa

A política de buscar parceiros no mundo em desenvolvimento foi um dos acertos da política externa de Lula, o que conferiu ao Brasil uma inserção diferente no cenário mundial. O Irã acabou sendo um polêmico caso à parte, dadas as desconfianças de que Teerã esteja buscando o desenvolvimento de armas atômicas, sem falar na própria situação interna da república islâmica, com protestos de insatisfeitos e eleições suspeitas. No dia 17 de maio, um evento significativo se deu: em visita a Teerã, Lula e Amorim costuraram um acordo pelo qual Ahmadinejad enviaria pouco mais de uma tonelada de urânio para a Turquia, recebendo o combustível nuclear sem potencial bélico um ano depois. No dia seguinte veio o balde de água fria: Hillary Clinton caminhou e defecou solenemente para o acordo firmado, e pressionou novamente por sanções, talvez um pouco com brios feridos pela audácia desses países desclassificados querendo decidir alguma coisa tão importante.

O comportamento da mídia nacional é aquele típico sob Lula: insistem em pintá-lo como um narcisísta megalomaníaco e ridículo, defendendo aquele criminoso que quer fazer armas nucleares, com o objetivo único de se exibir. Fazem mais do que pediriam os americanos, levados pelo ódio que cresce na proporção da aprovação do metalúrgico. Onde buscar então uma fonte séria e confiável para saber se o acordo irano-turco-brasuca foi um marco histórico ou uma patuscada inócua? Bem, selecionei duas que trarei para vocês aqui: Noam Chomsky e Le Monde Diplomatique.

Na edição de 17 de maio do DemocracyNow!, em matéria sobre o acesso negado a Chomsky à Cisjordânia, Amy Goodman pergunta:

“Eu queria fazer-lhe uma pergunta sobre o Irã, este último acordo que acaba de ser anunciado. Não sei se o senhor tem acompanhado as notícias já que está aí, mas um acordo na questão toda de energia nuclear e armas nucleares. O Irã concordou em enviar a maior parte de seu urânio enriquecido para a Turquia em um acordo de permuta por combustível nuclear que poderia aliviar o impasse internacional sobre o contestado programa nuclear iraniano. Em contrapartida, o Irã receberá combustível nuclear de baixo nível para alimentar um reator médico – o acordo alcançado com os ministros de relações exteriores de Irã, Turqua e Brasil. E o Irã disse que a permuta se dará sob supervisão da agência nuclear da ONU, a AIEA, a Agência Internacional de Energia Atômica. Qual é a sua avaliação disso?”

NOAM CHOMSKY: Se os relatos são corretos, é difícil entender por que… sob que justificativas os Estados Unidos se objetariam. São basicamente objeções dos Estados Unidos. Mas o que é significativo a respeito são várias coisas, primeiro que é o Irã, é o Brasil e a Turquia. A Turquia é representativa das potências regionais. A Turquia, como a Liga Árabe, deixou claro que não quer sanções. Quer uma negociação, uma resolução diplomática. O Brasil é provavelmente o país mais respeitado no… dentre os países não-alinhados, representa um papel muito importante. Na verdade, que os dois tenham superado… e calha de eles estarem no Conselho de Segurança, mas que estejam abertamente clamando por uma resolução diplomática pacífica e se opondo ao apelo… à ameaça de quaisquer ações ulteriores, isso é significativo. […]

Entrevista completa (inglês)

Já o Monde Diplomatique vai mais além, vê no acordo o sinal de um novo tempo na geopolítica:

“As grandes potências se descreditam” junto à opinião pública ao ignorar a iniciativa irano-turco-brasileira, declarou Ali Akbar Salehi, chefe da organização iraniana de energia atômica (AFP, 19 de maio). É “uma provocação para as potências emergentes”, insistiu de sua parte o ex-embaixador da França em Teerã François Nicoullaud, na RFI, em 19 de maio. Para o editorialista do New York Times Roger Cohen (« America Moves the Goalposts », 20 de maio), “o Brasil e a Turquia representam o mundo emergente pós-ocidentalE ele seguirá emergindo. Hillary Clinton deveria ser menos irresponsável torpedeando os esforços de Brasíla e de Ankara e rendendo hipocritamente homenagem a seus esforços sinceros.” A capacidade dos Estados Unidos de impor sua solução, prossegue ele, está seriamente erodida.

Todos três reagiam à proposição pelos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU de uma resolução endurecendo as sanções contra o IrãO acordo tripartite assinado em Teerã não terminou de levantar ondas. Sua importância não pode ser subestimada, pois sinaliza sem dúvida o fim da “comunidade internacional” atrás da qual os Estados Unidos e a União Europeia confabulavam para tocar sua política.

Artigo completo (francês).

Bem, é reconfortante. Quanto ao impasse em si, que dizer? O que devemos ter em mente é que o Irã é uma nação muito tradicional e que legitimamente aspira ao posto de potência média regional, e portanto um contraponto a Israel, um posto avançado do Ocidente, no Oriente Médio. Daí o incômodo de Washington, que – não esqueçamos – bancava a transferência de tecnologia nuclear ao Irã no tempo do Xá, como o fez com Índia e Paquistão. Não que eu veja no Irã um paraíso democrático, pelo contrário, sou contrário a qualquer teocracia com um líder meio maluco se eternizando em eleições discutíveis; mas não vejo em Ahmadinejad um demônio, nem motivo por que o Irã não possa se um parceio estratégico e um mercado para nossos produtos. Quanto à bomba, bem: quando ele conseguir, ele faz; mas está longe disso. Se ele tem ou não esse direito, depende se você aceita a autoridade (em erosão) dos Estados Unidos e seu parceiro Israel. Até lá acerta Lula em buscar uma saída pacífica bancando o mediador entre Teerã e o Ocidente, sem assumir um dos lados. Eu de minha parte concordo com ele: o certo é não só que se impeça a proliferação, mas que se comecem a destruir as ogivas existentes.

Postagem numa discussão sobre o conflito no Cáucaso.

Tension in the Caucasus has been building up for a while, and one must have been blind to say the war is a surprise. At least since 2006 there have been skirmishes in South Ossetia and diplomatic strain, to put it euphemistically, between Russia and Georgia.
You ask why US didn’t alert the poor helpess georgians of the russian threat, but wait! Georgia started the conflict by assaulting South Ossetia. Analysts have suggested that they did so expecting the US to back them up. As anyone knows, current georgian president Mikheil Saakashvili is closely aligned with the U.S.
On the surface, it may look like a simple question of secession, which does exist and is quite old: South Ossetia is a province of Georgia, with many ethnic russians, that has declared its indepenence in 1992, though it was not internationally recognized. Another dissident region is Abkhazia, in a similar political status, but effectively under abkhaz rule since georgian defeat in 1992-94. It has also been said that the recognition of independence of Kosovo by western countries, which certainly upset Russia, historical ally of Serbia, may be used as justification for russians to support the ossetian and abkhaz separatism.
But the underlying theme here is obviously Russia’s struggle not only to maintain its area of geopolitical influence, threatened by moves toward west in Ukraine and Georgia, but to gain absolute control over the transportation of oil and gas. That’s what explains russian immediate and asymmetric response, which went way beyond “protecting ossetians from Georgia”. That’s also why Sarkozy, representing the european countries which depend heavily on the supply of oil and gas from that region, hurried in to establish a cease-fire.
But let us not forget that it is us, western countries, that wish to reinforce georgian territorial integrity, denying the dissidents their independence for the sake of of a strong ally in a strategical region. There are no good guys or bad guys. I am not defending russian imperialism as I wouldn’t defend british or american or corporate imperialism (the three REAL ones in rough chronological order).
Maybe the US doesn’t care enough about their georgian friends (they certainly don’t care about the ossetians…) to get involved. That’s ungrateful if you think Georgia sent troops to support the invasion of Iraq. Maybe they’re too busy with two pointless wars (three with the war on drugs), or bringing back to life the Fourth Fleet to oversee potential deep-sea oil reservoirs being discovered in the Atlantic. Or maybe they ARE indeed preparing for a conflict against Iran, both directly and/or through the mediation of Israel.

Comentário à matéria da BusinessWeek: Go Ahead, Blame Biofuels

First: ethanol in Brazil is produced out of sugar cane, which is not a food source. Brazilian biofuel thus has no direct impact on food supply. There are problems, though, with this production process, namely the burning of the cane crops to facilitate harvesting, harsh working conditions of cane laborers and soil depletion. Cattle growing in Brazil, as pointed out in the article, utilizes grazing land, not grains. No impact on food supply once again. The downside is deforestation, since that activity is very extensive and occupies large areas. Another aspect of brazilian agriculture is that family-run crops are responsible for most of food supply, while big agribusiness resort to more profitable commodities, such as soy, oriented for export.
It just seems to me that most people fail to realize that the food crisis is yet another manifestation of capitalism crisis. Once you leave all decisions to the “invisible hand” of the market, it’s no wonder that while agribusiness corporations and an elite of big farmers celebrate their huge profits, billions of impoverished people face starvation. Let us remember that enough food is produced to feed the world population, distribution is the problem. Another thing to be considered is what late brazilian economist Celso Furtado called the Myth of Economic Development, which states that if every human being were to reach the consumption standards of developed countries, four planets worth of natural resources would be necessary. So, as more people are consuming, the whole paradigm of development is cracking

Depois da Bobalização, Aquecimento Bobal

Há cientistas céticos com respeito ao aquecimento global. Com bons argumentos. Essa tendência de aceitarmos a posição “oficial” da “inteligentzia” científica porque não entendemos aquele assunto – sendo que as explicações oferecidas são sempre simplistas, toscas – pode ser muito perigosa. E no caso em questão, se questionamos o aquecimento global somos taxados de inimigos da natureza.

Quantas vezes a destruição da natureza é ligada ao modo de produção capitalista e à nossa sociedade de consumo e desperdício? Quanto se tem falado sobre os milhares de produtos tóxicos expelidos pela indústria, que impactam a vida humana muito mais que um aumento de um grau na tempetartura média da terra, desde que o grande vilão da natureza é… o gás carbônico? Mais um pouco vão chegar à brilhante conclusão de que NÓS emitimos gás carbônico e, se infelizmente o “marketing ecológico” não vai lançar a campanha PARE DE RESPIRAR!, não duvido que proponham CONTROLE DE NATALIDADE; dos pobres sem dúvida.

Um mercado do carbono? Vai existir especulação? Já existe? Reduções percentuais lineares só vão garantir que os industrializados ou defequem e caminhem solenemente ou mantenham sua atividade intacta recorrendo a novas tecnologia (vide as esferas de cerâmica da UFMG) e nós outros “em desenvolvimento” vamos sofrer um sério entrave econômico. Nunca os alcançaremos no terreno deles.

O perigo da ação antrópica é seu impacto na vida aqui mesmo, vida dos animaizinhos e plantinhas e do bicho mais besta, nós, que nos vemos separados da natureza. É duvidoso se nossa ação afeta o clima, porque o clima é um sistema caótico (ligeiras mudanças de entrada podem levar a grandes alterações na saída) que não se presta a esse determinismo, essa causalidade direta, sem condicionantes, de que nossa emissão de CO2, tá aqui provado, vai ter este efeito sobre o clima. Para além dessa falha científica conceitual óbvia, há a escassez de dados: as séries estatística sobre clima são recentes, e os múltiplos processos determinantes do clima funcionam em ciclos longos demais para permitir qualquer afirmação tão categórica quanto esta que virou um truísmo: aquecimento global.

 Al Gore Podre no Reino da Dinamarca

“Something is rotten in the State of Denmark”

Post no Luís Nassif:A batalha mundial do aquecimento

Nassif:Independentemente dos argumentos de lado a lado, chamo a atenção para a tentativa dos defensores do IPCC (os estudos que levaram à tese do aquecimento) de interditar o debate.Com a tese do aquecimento, o Brasil tem mais a ganhar do que a perder. Os países desenvolvidos terão que bancar projetos em emergentes. O Brasil tem mais condições do que qualquer outro país de consolidar espaço no mercado da agricultura sustentável.Leosfera:Não consigo assimilar como “preservar a natureza” pode deixar muita gente, em seus escritórios na Madison Ave, milionários ou bilionários – como o sinistro Al Gory.Nossa agricultura latifundiária, monocultora e extremamente poluente tem que comer (ou plantar) muito arroz-com-feijão antes de ser sustentável. Mais argumento para a reforma agrária. Mas se o Brasil cumprir suas promessas quanto a conter o desmatamento, já é bom sim. Mas e o parque industrial, que tem espaço para crescer, ao contrário do euamericano, não vai encontrar uma barreira?E não são os céticos que têm o ônus da prova. O AG é uma tese (com mais de um século!) que tem que ser comprovada e não aceita como dogma. Os céticos apontam os furos dessa má ciência que confessadamente manipula os dados. Não só o declínio da temperatura desde 98, mas o fato de que antes de 57, quando iniciam os dados de concentração de carbono do IPCC, esse nível já fora bem maior que hoje (+ de 400 ppm, contra 380 atuais, em 1942!).*—-*A verdadeira história dos níveis de gás carbônico (em inglês)Curva dos alarmistas: começando em 1957Curva sensata: de 1826 a 1960Como é que a concentração subiu tanto de 1920 a 1940, quando a indústria ainda chupava chupeta, e caiu vertiginosamente durante o boom pós-guerra? Dica: temperatura dos oceanos. Se eles se aquecem, absorvem menos CO2.Excertos do artigo de Ernst-Georg Beck:Desde 1812, a concentração de CO2 no ar do Hemisfério Norte tem flutuado. exibindo três níveis de pico máximos por volta de 1825, 1857, e 1942 – o último exibindo mais de 400 ppm.Uma grande questão quanto à abordagem do IPCC de relacionar clima e CO2 é premissa de que antes da revolução industrial o nível de CO2 atmosférico esteve em um estado de equilíbrio por volta de 280 ppm, em torno do qual pouca ou nenhuma variação ocorria. Esta presunção de constância e equilíbrio é baseada em uma revisão crítica da literatura mais antiga sobre o conteúdo atmosférico de CO2 por Callendar e Keeling. Entre 1800 e 1961, mais de 380 artigos técnicos que foram publicados sobre a análise de gases do ar continham dados sobre concentração atmosférica de CO2. Callender, Keeling e o IPCC não forneceram uma avaliação minuciosa desses artigos e os métodos químicos padrão que eles aplicavam. Ao contrário, eles desacreditaram essas técnicas e dados geralmente como falhos ou altamente inacurados. Embora eles reconheçam o conceito de “nível histórico impoluto” para o CO2, esses autores examinaram apenas 10% da literatura disponível, asseverando daí que apenas 1% dos dados anteriores poderiam ser vistos como acurados.*—-*Para o correspondente do Estadão, o clã dos “climatocéticos” é virulento. Desqualificar o oponente é tática cara a quem foge de um debate argumentativo. Eu não sou, Monsieur Lapouge, virulento: há meses não pego nem gripe. Nem vou cobrar bom jornalismo do Estadão, que deve estar considerando descer a ladeira no rastro de Folha e Veja.*—-*”[Sarkozy] com seu ministro da Ecologia, Jean-Louis Borloo, apresentará um relatório explosivo. Esse relatório não esconde que o salvamento do planeta custará muito caro porque será preciso investir muito dinheiro nos países pobres para ajudá-los a lutar contra o CO2: 500 bilhões de euros logo de cara.”Como assim, camarada? Onde é que se emite mais CO2? Na Namíbia ou na sua França? No Butão ou nos EEUU? Olha o golpe… depois que ouvi falar em “conter o crescimento demográfico na Somália”, o AG ficou desmoralizado definitivamente; não duvido de mais nada. Esse dinheiro a ser investido, palpite meu que parece se confirmar, vai preparar o terreno para a expansão das corporações no mundo mais pobre – pois os emergentes incomodam.*—-*

No fim, não sai porra nenhuma para conter o suposto Aquecimento. Mesmo um sucesso estrondoso, com redução de 20% das emissões, não conteria, a julgar verdadeira a tese. Mas as oportunidades de negócio no Mercado do Carbono certamente serão criadas. Agora, se alguns vão ganhar muita grana, quem exatamente vai perder?

Ainda o Aquecimento Global

Tudo bem, assumamamos que, se o mundo não acabar em 2012 com a profecia maia, acabará no máximo até a metade do século, como parecem querer nos fazer crer os milenaristas climáticos.Nenhuma destas medidas anunciadas, mesmo as mais ambiciosas – portanto impossíveis de atingir – deteria o tal aquecimento. A menos que se invente a usina de fusão nuclear, que o petróleo acabe (para que mudemos na marra), ou ainda que tomemos o bom exemplo dos indígenas sulamericanos, passando a viver em pequenas sociedades autóctones, sustentáveis e comunistas, é absolutamente impossível reduzir as emissões de gás carbônico pela metade até 2050, em relação a 1990, o último objetivo declarado. A população cresce, seus setores marginais ganham crescente acesso ao modo de vida “civilizado”, e vamos precisar de energia que as fazendas de vento não conseguirão suprir.

Aí é que está: já vi um cientista maluco destes falando em “conter o crescimento populacional na Somália” para lidar com o Aquecimento Global. É o velho malthusianismo reeditado. Eu aposto meus dois testículos como o estilo de vida dos ricos – em especial o norteamericano – não vai mudar nada. Mas vão impedir que os países pobres se “desenvolvam” – como apontou Celso Furtado, esse desenvolvimento é um mito; mas enquanto não se mudam as regras do jogo, é o ideal de todos. O Blogue Festival de Besteiras da Imprensa colocou bem: o que está em questão é a velha Divisão Internacional do Trabalho.

Você dirá: como? eles prometeram centenas de bilhões para os pobres. É aonde queria chegar. Esses países pobres o são por um bom motivo: foram vítimas do colonialismo europeu, e mesmo após a independência, foram mantidos em condição subalterna, como fonte de alimento, matéria prima e mão de obra barata. O mundo rico nunca se preocupou – para além das tradicionais boas intenções – em resolver os problemas mais prementes desses países: desnutrição, mortalidade infantil, analfabetismo são apenas alguns deles. Pois agora prometem despejar bilhões para que se adaptem à mudança climática. Não esclarecem bem: é para ajudar a “aguentar o tranco” quando o céu desabar sobre eles (ou o mar os submergir), é para desenvolver uma “economia de baixo carbono”, proibir que desmatem e ampliem a agricultura, instalar as caras fontes limpas para que consumam eletrodomésticos importados? Porque esses países não têm indústria, o consumo energético é baixo e também as emissões. Se é urgente “salvar o planeta”, não são os industrializados que precisam se adaptar?

Sim, algo está mesmo podre na conferência da Dinamarca. Em uma próxima postagem, tentarei desenvolver o que eu acho que de fato deveria ser feito. É um desafio e tanto, mas não posso também ficar apenas desconfiando e criticando.

Alô, Marina!

Sobre a postagem Os céticos em relação ao aquecimento, no Nassif.

Eu só acho uns palhaços aqueles que associam o Milenarismo Climático ao socialismo. Ora! São os capitalistas de sempre que querem frear a expansão dos emergentes, é óbvio! A atividade industrial nos países ricos está saturada, as corporações (por vários motivos, legislação ambiental permissiva, por exemplo) produzem na periferia. Aí a China começa a incomodar… e vêm com essa patranha. que vai acontecer? Expandirá a industrialização em países sem meta! Vão-se “lembrar” da África. Quer apostar?

O socialismo é condizente com um ambientalismo sério, porque o modo de produção e os hábitos de consumo do capitalismo (e sua disseminação, a globalização) são insustentáveis. Se todos no planeta consumissem como um americano, seria preciso uns 5 planetas. Por isso querem frear o processo que eles mesmos iniciaram, para manterem seu privilégio. Com uma sociedade socialista (ideal, não as reais), não haveria por que comprar um utilitário esporte para competir, mostrar “sucesso”, não se consumiriam tantas bobagens supérfluas, e a produção seria ditada pela racionalidade das legítimas necessidades humanas. O socialismo sustentável, ou ecossocialismo, talvez, é o caminho mais sensato. Creio eu.

O Problema Ambiental

Tenho escrito sobre meu ceticismo em relação ao Aquecimento Global e temor quanto aos “mecanismos” que pretendem adotar para mitigá-lo. Fique claro que penso que pode mesmo haver um Aquecimento Global Antropogênico em curso (ainda que haja uma década que o planeta esfria); mas me parece que há alguns sinais de alerta de desonestidade científica. Não inventaram uma conspiração, apenas truncaram os dados, simplificaram o fenômeno e chegaram a uma conclusão perfeitamente “científica”.Mas mesmo a aceitar como verdadeira e inquestionável a tese, o que acho absurdo é que toda a energia humana para proteger o meio ambiente – coisa muito recente e incipiente até agora – volte-se de repente para medir (ou estimar, antes) quanto de carbono está sendo emitido, para daí estabelecer um mercado.E cometi, na última postagem a respeito, a imprudência de prometer escrever sobre o que eu achava que deveria de fato ser feito. Ainda bem que ninguém leu, mas resolvi arriscar mesmo assim algumas elucubrações. Para opiniões confiáveis sobre o assunto, procure (pelo menos) um especialista.A primeira assertiva que proponho é que o capitalismo é nocivo, ou induz a um modo nocivo de relação com a Terra, mas essa constatação sozinha é insuficiente, e superficial. Obviamente, a lógica do lucro máximo a qualquer custo e a necessidade de acumulação incessante submeterão sempre a integridade dos recursos hídricos, da cobertura vegetal e por aí a fora.Mas se voltarmos até o século XVII, muito antes da Revolução Industrial, e mesmo do capitalismo, René Descartes já afirmava ser preciso conhecer a Terra para pô-la a nosso dispor; portanto é também uma questão de uma mentalidade cartesiana-liberal-burguesa, e podemos dizer até judaico-cristã, que vê a Terra como um presente de Deus, para ser usada a seu dispor. Outra questão a ser considerada é a demográfica, associada à dos aos modos de vida. A população mundial, que em 1800 não chegava a um bilhão, há meio século era pouco menos que três, já é quase sete e deve ser de nove bilhões na metade deste século, impõe uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais. Mas se fôssemos sete bilhões de bolivianos não haveria tal pressão: volta a questão do capitalismo, cujo modo de vida – que se dissemina rapidamente – exige quantidades absurdas de recursos naturais, pressupõe processos fabris poluentes e gera montanhas de lixo. Ou seja, o problema é menos o crescimento da população que a disseminação de um modo de vida insustentável, enqunto aquele que durou 8 mil anos, da revolução agrícola até a II Guerra (Hobsbawn) é tachado de atrasado. Também não se trata de manter-nos no privilégio e proibir os demais de “progredir”. Penso que o modelo deveria ser tirar o foco de grandes cidades, e do latifúndio monocultor industrial, estabelecendo pequenas cidades prósperas com grau de autonomia maior, e produção local – por gente local – dos alimentos, pequenas indústrias e serviços, tudo descentralizado. Se utilizarmos permacultura e energia renovável e limpa, melhor ainda. E se os meios de produção fossem socializados, seria perfeito.Agora, bastaria trocar o capitalismo pelo socialismo? Certamente não, ainda mais se considerarmos o “socialismo real”, que não era mais que um capitalismo estatal sob um regime totalitário. E como então superar o capitalismo? Isso deveria ser a preocupação primeira dos chamados intelectuais de esquerda, que em sua maioria vivem ou da capitulação frente ao capitalismo liberal – sob alguma forma de reformismo – ou da nostalgia das tentativas frustradas – e da visão de um capitalismo que já não existe. O que é preciso é resgatar o que há de bom em Marx, principalmente o sonho de uma sociedade igualitária, e ter em mente o novo determinante que está em pauta, o ambiental, no forjamento não de uma utopia – a ser imposta a ferro e fogo, transformando-se em distopia -, mas de uma mentalidade que questione as tolas necessidades do capitalismo e mire em uma relação harmônica dos humanos entre si e com as naturezas – primeira e segunda. Ainda que uma sociedade igualitária e sustentável soe mais utópico do que qualquer outra coisa.Enquanto seu lobo não vem, só resta esperar que os governos ajam com veemência, aprovando e fazendo cumprir legislações duras, e sobretudo evitando o dano antes que ele aconteça. Aquecimento Global? Bem, se as emissões de gás carbônico são um problema de fato, a tônica deveria ser agir sobre os maiores emissores, e limitar a emissão per capita em um valor razoável, obrigando os industrializados a reduzir emissões; instituindo também um fundo (custeado pelo imposto financeiro global) que pagasse bônus sobre a “cota não utilizada” aos países pobres; e sem possibilidade de comprar “cotas de carbono”. Quanto ao desmatamento, seu combate não deve depender de outra casa que não ele mesmo; e mais uma vez, incomoda muito a ideia de floresta como um negócio (o que já é, em grande medida).Eu ainda acho que, se a tese do AGA for correta, nem a mais exitosa campanha de redução de emissões (20% digamos) mudará nada: estaríamos fritos. Ceteris Paribus, obviamente. Ainda creio que a humanidade ainda pode, e deve, tomar as rédeas de seu destino e evitar uma condição limite de deterioração da vida nos próximos séculos. Mas parece não saber como. O Aquecimento Global é um risco hipotético, uma ação antrópica indireta; os riscos palpáveis de ação antrópica direta – contaminação do ar e da água, desequilíbrio de ecossistemas – já se fazem sentir, e com rapidez crescente.

Comentando a Polêmica Ambiental

Bem, aqui é importante tentar não ver o bem contra o mal, mas interesses individuais e clasistas, além de um interesse difuso pela preservação.

Ruralista aqui: tradicional “dono do poder” que contava com proteção total do Estado. Quer toda terra que existir e mais um pouco, acha o preservacionismo uma besteira e um “complô” estrangeiro”.

Ruralista lá: conta com apoio total do governo, mesmo tendo menos representatividade política. Lá, não há o que desmatar, então podem se fantasiar de “verdes”. Devido ao “dollar gap”, sua agricultura só sobrevive com subsídios injustos e “sutil” intervenção nos concorrentes.

Ambientalista: é uma classe grande, e junto com a sincera preocupação ambiental (que ainda não sedimentou bem no ser humano, ou não ultrapassou a preocupação financeira) acredito que haja grupos eminentemente políticos, adeptos da famosa moralidade seletiva que acomete os países poderosos.

O meio-ambiente (natural): esse não pode se defender só, e tem há muito cedido espaço a atividades lucrativas; na maior parte do mundo desenvolvido, de forma total e talvez irreversível. Países como o Brasil, não muitos, orgulham-se da “fronteira agrícola”, ou seja: persistem no erro em nome do “progresso”.

Há pouca razão para otimismo. O dinheiro vale mais que qualquer coisa, ou pelo menos essa é a ilusão necessária que adotamos. Se alguma forma de socialismo efetivo puder vir à tona no futuro, contemplando essa preocupação do “bem-viver” e “bem-coviver”, pode ser que haja esperança. Do contrário, em alguns séculos viveremos em um planeta transfigurado por inteiro, em que a agressão do homem refletirá sobre sua própria condição de vida. Se vai dar pra consertar não compete a mim sequer especular.

Apenas dirija…

Brás entra no táxi e responde como nos filmes:
Para lugar nenhum, apenas dirija.Pois é, e agora? Daqui pra onde? Onde guardar sua esperança? Por onde extravasar seu idealismo? Como administrar seu inconformismo? Nah… melhor sucumbir à preguiça, render-se à passividade, tomar uma cachaça, quem sabe cantar um tango argentino, NÃO! Montar um grupo de pagode!O Sapo Barbudo tanto pulou que alcançou o trono. Claro que coaxando mais baixo, em estranha simbiose com seus antigos predadores. Prometeu Fome Zero e entregou Caixa Dois. Anunciou o Espetáculo do Crescimento e apresentou um Show de Horrores político. Sob a heráldica do ‘País de Todos’, instalou uma ‘Nomenklatura dos Seus’. A esperança venceu o medo, que por sua vez foi derrotada pela mediocridade, que seria massacrada pela desonestidade.Mas por que não experimentar um metalúrgico sem-dedo, se um intelectual sem-braço não funcionou? Um dândi que se apaixonou pelo próprio reflexo, a ponto de dar vida a seu duplo virtual. Foi o homem que matou a cobra, e só não mostrou o pau porque não haviam inventado o Viagra. Se pelo menos seu primeiro nome fosse Tarcísio ou Thiago…Ou que tal um mineiro cuja sexualidade, ou falta dela, até hoje é discutida (isso é que é comer quieto). Uma espécie de dublê de Dr. Hyde (com sua inevitável contraparte) e necromante, que trouxe do reino dos mortos um Besouro motorizado.Ou você pode recorrer a um playboy cheirador empenhado em caçar marajás (não marijuana, como se chegou a publicar) e levar o Brasil ao Primeiro Mundo (especificamente à sua conta na Suíça). Seu fim foi não dividir o butim, além de avançar na mulher do irmão, PC, que o cagüetou. O outro PC sumiu, apareceu e sumiram com ele (ah, essas paixões).Que me diz então dum (auto-declarado) poeta com um rabo de andorinha pendurado no nariz? Figura opaca e meditabunda (se preferir, um panaca de meia bunda), caiu-lhe no colo um mandato tampão em que também recorreu à paranormalidade, provocando sucessivas glaciações que não bastaram para extinguir o fogo do dragão.Sorte de quem morreu eleito, como uma grande promessa, sem ter tido tempo de provar sua pequenez diante do gigantesco monturo de corpos, fezes e zeros vermelhos que herdaria.TARJA PRETADjango Larr, um aristocrata que coxeava da perna esquerda, acabou substituindo o arqueiro titular. Foi vítima de um golpe de vista e engoliu um frango, ou melhor, vários abutres de alta patente. Antes mesmo que seu time fosse ao ataque. Teve que atuar no futebol estrangeiro.Houve um populista demagogo, prolixo e beberrão, que entrou dando vassouradas a estro e a sestro, quis até esquentar a Guerra Fria por aqui, mas pediu o penico logo, acossado por ‘forças terríveis’ (pa bo enten me pal ba).Tivemos um JK morto num carro em circunstâncias mal esclarecidas, talvez para imitar o Tio Sam. Assim como o deles, não foi mais que um semi-deus inventado. Num passe de mágica levou o Olimpo embora e entregou o Fogo aos mortais para que queimassem o Cerrado e a Amazônia, além de ensiná-los a brincar de carrinho.Antes dessa tragédia grega, na Era Mitológica, o grande Pai dos Pobres era um déspota astuto e até algo esclarecido. Goza do distanciamento histórico que filtrou todas impurezas de uma longa ditadura. Tirou umas férias, voltou pelo voto para depois meter um balaço no peito. Espera aí, os mártires costumam ser mortos, não cometer suicídio!Bem, e agora seu Brás? Na garrafa tem mais? Mais uma ‘guinada’ de 360º; uma ‘revolução’ em torno do mesmo eixo? A caravana passa, quem ladrava agora é ladrão. Cinco séculos de pilhagem e pilhéria. Desde que uns brancos sujos e fedidos aqui aportaram e se impressionaram com as vergonhas desnudas das silvícolas e com a exuberância da paisagem onde se plantando tudo dá, sem vergonha alguma levaram o pau-brasil, desceram o pau nos negros, meteram o pau nas negras e índias, plantando a Cana-da-Índia e a semente de um povo que seguindo Darwin ou segundo Darcy Ribeiro seria superior, mas… Dizem que um anjo perguntou a Deus por que colocar tanta riqueza, beleza, fartura e nenhum vulcão, terremoto ou furacão no Brasil. Com um sorriso, Ele respondeu: “Espera pra ver o povinho que eu vou colocar lá!”.Talvez a solução fosse evacuar o país de civilização e entregá-lo de volta ao Neolítico. Ou abrir mão de qualquer escrúpulo e virar um Narco-Estado. Ou ainda estender uma gigantesca lona, cobrar entrada e vender pipoca e amendoim. Talvez a idéia do Raul Seixas não seja tão absurda. Quem sabe se entregássemos nossos melhores jogadores de bola ao FMI, ou se mandássemos as crianças de rua estudar na Suíça?Apenas dirija…

O Método Estatístico do Ibope

A Globo detesta cotas de políticas afirmativas.

Mas seu método estatístico para “pesquisas de opinião” é o de cotas.

Veja o que dizem dois estatísticos da Unicamp (José Ferreira de Carvalho e Cristiano Ferraz):

Apenas um trecho, que diz tudo, sobre um teste desse método realizado na Inglaterra:

“Em que pese a natureza descritiva deste procedimento, os dados relativos aos homens mostraram que, das doze estimativas geradas pelo método de quotas, sete diferiam significativamente dos dados do censo, enquanto que nenhuma das três estimativas geradas pelo método probabilístico apresentou discrepância notável dos valores censitários. Os dados referentes às mulheres não deixam por menos: das doze estimativas geradas pelo método de quotas, onze produziram números diferindo significativamente do censo, ao passo que em apenas uma das estimativas produzidas pelo método probabilístico observou-se discrepância significativa.

Em relação à variável educação, os autores se sentiram à vontade em indicar que os resultados obtidos via amostragem por quotas tendem a captar indivíduos com melhor nível de educação. Observaram ainda que, dos quatro tipos de amostragem por quotas estudados, três produziam valores discrepantes das observações censitárias por mais de dois desvios-padrões, enquanto os valores produzidos pelo método probabilístico estavam bastante próximos dos observados pelo censo.”

Ah, esses “indivíduos com melhor nível de educação”!

Fala Kish:

● o método não é científico, o que torna sua avaliação impossível
● o método é artístico (sic)
● tipicamente, não se faz uma tentativa de calcular a variância adequadamente, e a expressão pq/n é audaciosamente (sic) assumida e apresentada…
● O assunto importante continua: ninguém sabe quão bom é o desempenho de amostragem por quotas. Afinal de contas, os métodos mais pobres podem produzir bons resultados para variáveis que são aleatorizadas sobre a população. As pesquisas do Literary Digest foram sucessos por anos. Em muitos outros casos não há como verificar-se o desempenho. Devemos deixar de lado as tentativas ingênuas de usar os controles de quotas, como idade, sexo e região, como provas de desempenho da amostragem. Verificações em variáveis que não são usadas nas quotas freqüentemente revelam grandes discrepâncias. Além disso, predições eleitorais freqüentemente falham, algumas vezes por larga margem. Muitas dessas são convenientemente esquecidas. Algumas transformam-se em escândalos gritantes; então trata-se de explicar os fracassos com explanações e desculpas, as quais são ignoradas enquanto não são necessárias.

Ah, quer dizer que a amostragem é falha… e que pesquisas eleitorais costumam falhar, inclusive por larga margem? Então dá pra “errar” como se queira manipulando a amostragem? E não ser pego porque o método não é científico?

Como diriam nos filmes de tribunal americanos: I rest my case.

Carta Capital Persegue Battisti: A Troco de Quê?


Na imagem, o amigo do Lula e do Berlusconi.A Carta, que parecia se salvar no terreno das revistas semanais de (des)informação, não apenas por ser “esquerda”, parece fazer por merecer a vala comum de Veja e IstoÉ.Mino, italiano, deve ter alguma razão pessoal para não reconhecer que a perseguição a Battisti é política, pouco importando as circunstâncias reais dos crimes atribuídos a ele por companheiros de uma ORGANIZAÇÃO POLÍTICA em delação premiada, e julgados à revelia (só um idiota voltaria à Itália para ser “julgado”).Mas mesmo sem entrar no mérito, o artigo perde qualquer credibilidade ao chamar Battisti de ex-terrorista. Antes de mais nada, ou essa palavra é abandonada, ou deve ser estendida a pessoas como Ehud Barak, que liderou a IDF na chacina de 1400 gazeus em claro “uso [ou ameaça de uso] de violência com fins políticos, ideológicos ou religiosos”; ou quem sabe Garrastazu Médici? Henry Kissinger? Vladimir Putin? Ou o Stroessner, que asilamos? Por que não são terroristas esses? O Mandela não era assim considerado, até outro dia, quando – vendido aos racistas – virou heroi?Eu, de minha parte, prefiro a resistência pacífica, mas isso é um tanto ingênuo. A ação de Battisti, como a da luta armada brasileira, foi um erro mais pela limitada chance de êxito do que pelo aspecto moral. O direito à insurreição é assegurado nos países democráticos. Era um governo legítimo que se combatia? Discutível: um país que viveu (e criou) o fascismo deveria ser cioso da volta da extrema-direita. E o atual premiê é prova de que não aprenderam nada!Por fim, pouco me importa se Battisti for extraditado, o que se afigura como o mais provável. Gostaria de acreditar que seria tratado com dignidade, em caso afirmativo, mas tenho sérias dúvidas.O que me incomoda é o comportamento da “comunidade internacional” e da “opinião pública” de adotar dois pesos e duas medidas, dependendo da posição ideológica, étnica ou social de um criminoso.

Jornalismo: Crise é Mundial

Lula e comitiva estiveram por esses dias na Alemanha, onde encontraram a chanceler mais azeda da Alemanha – de qualquer sexo – de que tenho notícia. Além de fazer o coro da “comunidade internacional” contra o Irã, o que define mesmo Merkel é o ativismo no Milenarismo Climático, do qual sou cético de carteirinha. Enfim, na conferência conjunta, a tônica foi a divergência a respeito do Irã.

Merkel, já disse, alinha-se com a Águia Imperialista ao pressionar o regime dos Aiatolás em função de seu programa nuclear supostamente pacífico. Acredito que Ahmadinejad construiria sim a bomba, tão logo tenha tecnologia para tanto, mas que está a muitos anos de fazê-lo – um relatório da CIA de 2006 concluiu que o Irã desistira da bomba.

Lula, de sua parte, recebeu recentemente o controverso governante persa, e defendeu seu direito a um programa pacífico, como é o nosso. A cobertura nacional e estrangeira destacou o apoio, ignorando nuances do discurso de Lula que sutilmente criticou a falta de liberdade e tolerância no Irã, seu apoio ao Hamas, e sua condenação à própria existência de Israel; ignoraram ainda a afirmativa de que “não-proliferação e desarmamento nuclear devem andar juntos”.

Na Alemanha, Luiz Inácio foi mais enfático. Enérgico mesmo:

“Não sei se sou ingênuo, se sou muito otimista, mas acredito muito na capacidade de convencimento e de diálogo nas pessoas. Estamos tentando dar a nossa contribuição. Espero que aconteça o melhor, que não tenha arma nuclear no Irã e que não tenha arma nuclear em nenhum país do mundo, que os Estados Unidos desativem as suas, que a Rússia desative as suas. Autoridade moral para pedir que os outros não tenham, é não ter. É importante. Sou um país que assinou na Constituição a não proliferação das armas nucleares, portanto estou tranquilo para dizer. É importante que os que têm comecem a desmontar os arsenais, que a gente tenha mais argumentos para convencer os outros”.

Não é ingenuidade, e também não é bravata: ainda que a declaração não vá convencer EUA e Rússia, ou o posto avançado do Ocidente no Oriente-Médio, que Lula prudentemente evitou citar, a desativarem suas ogivas, é uma tomada de posição muito corajosa. E que qualquer pacifista ou pessoa de bom senso endossaria: Lula injeta esse discurso na esfera da diplomacia. Bravo. Ao mesmo tempo, insiste em paciência e negociações, contra as ameaças e sanções que só podem indicar uma invasão iminente. Bravo de novo.

Que faz a imprensa, local e estrangeira? Mais uma vez pinta Lula como aliado de Ahmadinejad, optando por ignorar sua audácia. A Globo o culpa de “causar constrangimento”. A Bloomberg parece querer jogar nosso país no Eixo-do-Mal, truncando a mensagem como já foi explicado. CNN, BBC e afins simplesmente ignoraram o encontro – mesmo que não houvesse outra notícia internacional relevante. Independent e Guardian, supostamente dissidentes, também silenciam. Le Monde nada, Monde Diplomatique, esse sim dissidente, nada até agora. Achei matérias na China e no Irã (óbvio) e nada mais.

Não se trata de exagerar a importância das declarações, puxando o saco de Lula. O brasileiro tem hoje grande inserção no mundo, como nunca antes na História deste país, por que não dizer? E cobrar o desarmamento nuclear, denunciando a hipocrisia americana, não é pouco.

Pois então: alguém ainda faz jornalismo sério no mundo? Ou isso nunca existiu?

Ainda à caça do Kiffa

Há uns quatro anos, propus algumas siglas que poderiam figurar no cenário eleitoral em 2010 após um “realinhamento” das nossas forças políticas. Infelizmente nenhuma delas vingou: não disputarão a presidência o Partido Careta ou a Esquerda Hidrófoba, tampouco o Partido do Subsolo – que pena – e sim as mesmas caras mais ou menos previsíveis, à exceção do barbudo que esteve em todas desde 89 e agora se faz notar pela ausência. Ainda que seu espectro possa vir a ser o fator decisivo.

Nesse intervalo, não saiu reforma política alguma, eu me juntei à Esquerda Hidrófoba (carteirinha nº001) e a luta política passou a se dar na esfera dos meios de comunicação: os mesmos de sempre, mas também – e cada vez mais – espaços como este, apenas muito mais acessados. Cada um adere a um lado, com raras e imparciais exceções (visite o primeiro elo na coluna à direita), no clima generalizado de briga de torcida: muito insulto e pouca substância. O mercadejar político deve estar perplexo: vão-se limitar a tentar colar qualquer imagem no candidato, produzir os programas de tevê, e mandar imprimir aqueles excomungados que são os santinhos, que tanto emporcalham as vias. Mas a informação vai circular de fato, e toda ela, inclusive o que se queria esconder, na blogosfera. Geralmente repercutindo as sandices da moribunda grande mídia. E o pau vai comer.

Mesmo assim, na tola esperança de uma reforma política e partidária que garanta uma representatividade mais coerente e franca das forças constitutivas de Hy Brazyl, eis uma nova proposta a ser considerada, já que o TSE nem me respondeu quanto à última.

UPN – União dos Partidos Nanicos. Chegando à óbvia conclusão de que nunca iriam a lugar algum, nossos partidos nanicos – que nunca tiveram aliás ideologia alguma – resolveram se unir em um consórcio, na esperança de obter mais tempo na TV e reajustar o aluguel da legenda. Ideal para funcionários públicos que apenas querem a licença remunerada a que fazem jus sendo candidatos.

PE – Partido das Empreiteiras. Sem mais homens-do-meio ao custo de uns porcentos! Se sabemos que eles têm mais poder do que qualquer governante, pois atuam em todos os entes federados, e com quaisquer partidos, os empreiteiros devem logo garantir assentos confortáveis no parlamento e demais assembleias. Prefeririam ficar na penumbra representativa a alçar voos mais altos no executivo, uma vez que seus passados são algo comprometedores. Mas com os cala-bocas adequados, pode-se pensar.

PFCR – Partido Feudalista da Contra Reforma. Até quando a bancada ruralista vai se satisfazer em ser apenas um grupo republicano e progressista com moderada influência no Congresso? Não trarão nunca a transformação social sem precedentes no país (quiça no mundo!) que propõem. Precisam constituir um partido independente, forte, para construir alianças, e mesmo reconstruir, já que a Igreja resolveu ficar do lado dos comunistas (que horror!). Seu projeto de implantar o feudalismo através de uma reforma agrária às avessas, além da plataforma moralizante para acabar com a pouca-vergonha que grassa na Cabrália, geram um bocado de votos!

RTSDB – Repartido dos Trabalhadores Social-Democratas e Bundões. Este não é novo. Não é invenção minha, ao menos; mas é um peculiar produto da realpolitik tupiniquim. Com 700 facções internas, e no fim apenas uma, um determinado partido trabalhista de determinado país da América Latina – que prefiro não nomear – chegou ao poder fazendo umas coisas estranhas. As facções hidrófobas desertaram, ou antes foram expelidas em corte marcial sumária. Com o tempo, o governo apresentou um aceitável Estado do Bem-Estar, e ficou claro que roubava a sigla da Social Democracia (do Belize, acredito). Uns ficaram encabulados, outros parece que nasceram para aquilo; de qualquer sorte, não são muito mais que bundões.

Pandora Contemporânea

A operação da Polícia Federal contra a boa e velha corrupção nossa de cada dia no Distrito Federal foi batizada Caixa de Pandora. Já disse, e repito, que eu gostaria muito de ter este emprego de batizar as operações da PF. Pelo menos poderia mandar a mensagem para a Rádio Muda antes do bote, mas isso é tema para outra postagem. Enfim.Sem chover no molhado, já que a Globo ocupa ao menos um terço da programação em causar escândalo – que dura uma semana e é esquecido -, vou-me permitir, puxando o gancho da erudita força policial, uma abordagem mitológica.Pandora e sua caixa foram enviadas por Zeus a Epimeteu (irmão de prometeu e primo de Quentimeteu), como parte do pacote de maldades destinado a Prometeu por ter ele roubado o fogo olímpico e entregue aos mortais. A caixa foi aberta desavisadamente pela moça, escapando todos os males, e quando ela a conseguiu fechar, restou lá a esperança.Pois que os males liberados pela atuação do cagueta-premiado Durval Barbosa se multipliquem mais e mais, resvalando em outros partidos, em outros estados, em verdadeiro efeito dominó. Não são inéditos ou surpreendentes afinal. E que fique dentro da caixa a esperança. Esperança de que o povo brasileiro não mais tolere estas práticas, que assuma a cidadania plena transformando o país em uma veraz democracia. Esperança de que sempre haja um Durval para trair seus colegas mafiosos, e que haja sempre uma Polícia Federal implacável, um Ministério Público atuante, e uma Justiça imparcial e célere. Podemos acrescer a esperança de que não haja vazamentos suspeitos a prejudicar as investigações: imagens circulando servem para a mídia se refestelar e para fomentar uma indignação difusa nas massas, mas prejudicam a coleta de provas decisivas.Agora, se nos preocuparmos demais com Pandora, esqueceremos Prometeu acorrentado no Cáucaso. E eu penso que Háracles está demorando demais, uma vez que o titã não foi salvo ainda. E as Águias estão mais vorazes que nunca. Mas eu digrido…

O Correio Arrudense

José Roberto Gargamel (na imagem), governador do DF pelos Demos, é pego, em investigação da PF que vazou para a imprensa, dividindo dinheiro de propina. Fala-se abertamente em pagamento à base aliada no legislativo. É o maior assunto do Distrito Federal, confere?O Correio Braziliense é o maior jornal de Brasília, em termos quantitativos pela pujança do grupo herdeiro de Chatô, e em termos qualitativos apenas pela total indigência de seus concorrentes. É uma publicação cheia de erros e impropriedades, tendenciosa como de costume, mas que aspira ao posto de “jornalão”.Bem, a manchete de sábado era bem peculiar. Sem nomear Gargamel, ou o crime, dizia que “GDF e distritais são alvo de investigação.” Mas a foto – e a maior parte – da capa eram dedicadas a uma série de demonização do usuário de drogas, metiê favorito do diário. Por que não uma foto de Gargamel com maços de dinheiro na mão? Bem, vem o domingo e temos na capa… drogas de novo. Uns 5cm da página vão para o caso, mais uma vez sem citar Gargamel. A manchete interna era um singelo “Pedido de Explicações”. Engraçado é que, dependendo do partido dos envolvidos, o veículo pularia – mesmo sem provas cabais como estas – de cabeça no sensacionalismo o mais irresponsável, para sangrá-lo politicamente a todo custo.O Jornal Nacional entrou com tudo no caso, espetacular que é, não amaciou pela coloração política do acusado (que é verde mas não tem nada com o PV). E com algum constrangimento elogio a atitude da emissora, que nada mais é do que a obrigação jornalística ante provas tão contundentes, audiovisuais, contra um governador de uma unidade federada. Mas pairam suspeitas sobre a cruzada midiática: seria preciso incinerar o Gargamel antes que ele contagie o Conde Drácula, de quem seria certamente o vice. Estratégia arriscada. Talvez seja o gosto do sensacionalismo. Mas… e o Detran-SP, o Roubanel e o Saresp, que nunca respingam no Vampiro? Enfim, o Correio é pior que a Globo (em todos sentidos). Na gestão de Roriz, teve o mesmo comportamento. É mais realista que o rei, na mão de quem come. Sérgio Motta que o diga…A Confecom é repleta de boas intenções, mas nossa realidade é que a mídia local é só mais um capataz dos coroneis de sempre. E isso não muda por decreto. Em tempo de declínio do jornal impresso, é de se perguntar se vale a pena lutar nessa seara. Talvez seja o caso de criar portais jornalísticos locais independentes, é bem mais barato que qualquer outro medium.

De Chicana em Chicana

O escândalo do Arruda, que ganhou diversos nomes, como Mensalão do DEM, Panetonegate ou Chuleduto, cumpriu sua sina: causou estardalhaço na mídia, com farto material audiovisual, depois arrefeceu – a pedido de Serra, segundo certas línguas, não sei se más ou boas. Todo mundo comeu seus chésteres, suas rabanadas, e – por que não – seus panetones; virou o ano e cá estamos: hora de retomar tudo.
Previsivelmente, o assunto ficou velho, chocho, sem graça. Aqui em Brasília ainda há quem proteste e se revolte, desgaste desnecessário ante uma situação de impotência: os tentáculos de Arruda são infinitos. Mas a maior parte de nós já se conformou em apenas acompanhar – se muito – os rocambolescos (ou panetonescos) desdobramentos da crise. Desafio a quem quiser que saia por aí e ache alguém que acredita que Arruda será impedido antes de concluir o mandato. Nem a galera do PSol e similares deve levar isso muito a sério, mas fazem o que lhes está ao alcance: barulho.

Eis que assistimos à convocação extraordinária, fim do recesso, e já ia se desenhando uma comissão abertamente chapa-branca quando… gol! Medida de iniciativa popular afasta todos os suspeitos da investigação. O que devia ser o óbvio, aqui precisa de uma liminar. E aí temos a renúncia do presidente da Assembleia, meu infame xará que, de tão prudente, guarda a propina na meia. À primeira vista poderia parecer positivo, mas foi mera manobra para embolar o meio de campo. Introduz a etapa da eleição, que vai protelando as “investigações”, e evita a presidência do suplente Cabo Patrício, da oposição. Enquanto isso, o personagem-chave do imbróglio, o cagueta-premiado Durval Barbosa, protela também seu depoimento, dizendo-se ameaçado e alegando desorganização da Assembleia. Na data de hoje deveria haver a eleição para a definição do novo presidente que deve ser ou do DEM ou do DEM: Wilson Lima ou Eliane Pedrosa. O DEM que já afagou Arruda, afastado espontaneamente do partido no tradicional jogo de cena. Que fazer? A oposição não tem espaço, já que a situação é bem remunerada. E não foi justamente a denúncia de que Arruda prometera 4 millones a cada deputado que votasse por sua absolvição que melou a eleição? É panetone para dar dor de barriga.

Não sei bem se é uma consequência boa ou ruim da crise a revelação do modo sórdido como é praticada a política em nossas terras (denúncias e “investigação” inclusive). Não que seja muito diferente em qualquer lugar do mundo, aliás, mas geralmente – tome-se os EUA – a corrupção é no atacado, é tráfico de influência; aqui, é no varejo, é verba pública indo pro ralo o tempo todo, e estas tristes e patéticas figuras embolsando o seu a cada contrato.

Para coroar a situação barroca da futurista Brasília, o “coroné” que inventou todo o esquema que Arruda só continuou, o infame Joaquim Roriz, tem tudo para voltar ao Buritis em janeiro próximo. Obedeça quem tem juízo. Enquanto isso, de chicana em chicana, Arruda está tão certo de que terminará o mandato que em uma de suas poucas aparições pós-escândalo afirmou “perdoar seus adversários”, para que pudesse “pedir perdão por seus pecados”. É uma confissão tácita, que deve ser formalizada não ao padre, mas à Polícia Federal, se lhe sobrasse um pingo de vergonha naquela cara-de-pau.

Folha: Não dá mais para ler


Eu confesso que, como muita gente, andei iludido. Achei que podia confiar, cheguei a acreditar mesmo, mas estou cada vez mais decepcionado. Revoltado até. Não, não falo de nosso governador Arruda – em quem não votei -, aquele que no mesmo dia em que é pego com a boca na botija deflagra uma campanha de marketing em bares, com um exército de Papais-Noéis verdes e os malditos panfletos. Não me refiro tampouco ao presidente, em quem votei em 1998 e 2002 e que me decepcionou no mensalão, mas principalmente por fazer um governo cor-de-rosa bem pálido, quase transparente; mas cujos resultados, livrando-me do coro à minha volta e das garras da mídia, passei a admirar.Estou decepcionado, revoltado e muito puto mesmo com um veículo o qual eu sabia ter um viés, mas com algum espaço para pluralidade, e acima de tudo seriedade, integridade jornalística. Um jornal que eu comprava, cheguei a assinar um bom tempo. E que agora desmorona: a Folha de São Paulo; ou, como eu gosto de chamar spooneristicamente, Lhofa de Pão Saulo. A Folha resolveu seguir a trilha da Veja: ofensa, baixaria, apelação: mentira enfim. Ocorre que só quem embarca nessa é quem já está espumando, contra o Lula no caso; os críticos moderados, sensatos, do governo (eu seria um) e seus apoiadores, que porventura reputassem ainda o jornal, vão deixar de assiná-lo ou comprá-lo. E as vendas da Lhofa já estão ridículas, tomara que os Frias fechem a bodega.Um tempo atrás houve um caso menor, mas sintomático. Colunista econômico, Alexandre Schwartzman – devidamente identificado, em letras minúsculas, como funcionário do Santander, portanto parte interessada – escreveu um artigo grosseiro em que não explicou fundamentos de economia ao público, ou sequer defendeu uma tese ou proposta, envolto em jargão que fosse: partia para a desmoralização debochada de qualquer posicionamento econômico diferente do seu (a ortodoxia que atende aos bancos, é claro). Insinuou que economistas heterodoxos teriam fumado maconha para formular suas teses. Não deveria ser um insulto, mas em nossa sociedade é.Depois foi a questão blecaute, em que a “grande” mídia em uníssono quis sangrar o governo, e nada obteve. Mas acompanhar as manchetes da Folha em linha foi até engraçado. Manchetes como “Caos Urbano: pessoas não conseguem atravessar a rua”, “Polícia nega onda de saques” – manchete negativa, mas é sempre a manchete que cola, e a parte do impacto -, “Ligações para 190 duplicam” e lá dentro você descobre que a maior parte das ligações eram pedidos de informação, e que as ocorrências de fato caíram. Na Band, o Bóris falava (a quem tinha energia): “Não saiam de casa!” Foi um circo.Outros absurdos certamente foram publicados sem que eu (que não compro esta porcaria mais) tenha ficado sabendo. Mas o exemplar (nada exemplar) de ontem foi ao zênite do disparate. Em dois momentos. Primeiro ao comentar uma peça publicitária que usaria as vozes de Lula e Dilma para anunciar um papel higiênico (que supostamente deixara de ser para os ricos para ser para todos). O mau gosto da campanha à parte, só mesmo alguém muito mal intencionado – já que estúpidos eu sei que não são – poderia por a culpa no presidente, que teria jogado “a liturgia do cargo pela privada”. Não foi o pior.O pior foi reservar duas ou três páginas (que, ao contrário do papel higiênico, para nada servem) para atacar o filme sobre o Lula, e colocar uma nefasta cereja no topo do sândei: uma entrevista com Cesar Benjamin, esquerdista que participara da campanha lulista em 1994, e que solta, displicentemente, uma acusação seriíssima contra Lula. Conta de uma conversa em que Lula teria puxado assunto sobre a prisão e, após dizer que “não aguentaria ficar sem boceta”, teria narrado uma tentativa de estuprar um rapaz, quando preso no DOPS. O DOPS da “ditabranda” de Otavinho. Bem, hoje parece que veio o desmentido, o contraditório, ao menos, bem escondido, depois da blogosfera pescar vários depoimentos negando tal absurdo: Paulo de Tarso desmente o teor da conversa e nega que Benjamin lá estivesse, o que confirma Sílvio Tendler (o publicitário de quem “não se lembrava” Benjamin), acrescentando a versão (para mim) definitiva: foi só uma piada, e todos sabiam que rea uma piada. De certo mau gosto, no melhor estilo “machão” brasileiro (onde o ativo não é homossexual), mas uma piada.Pois não deveria nem me indignar, isso é ótimo para derrubar de uma vez a credibilidade do diário da Barão de Limeira. Pena é que o Estado, que é sério, seja conservador demais, que o Globo, já sendo dos Marinho, esteja escorregando a mesma ladeira da Folha. E o que sobra? Os tabloides de esquerda, que nem são vendidos aqui em Brasília? A porcaria do Correio Braziliense? Não sobra nada. Mas temos os blogues, onde é preciso também filtrar com cuidado, pois há muito de espírito de “briga de torcida”. Mas aquilo de sentar na praça e abrir um jornal está em extinção. Aliás, em Brasília nem tem praça direito, mas isso é outra conversa.O blogue do Nassif tem trazido discussões mais aprofundadas, que recomendo: Um jornal sem rumo.

O Fenômeno Verde

Eu sempre preciso dar piruetas para explicar que respeito muito Marina Silva, admiro muito sua trajetória, considero-a articulada e inteligente, mas divirjo frontalmente de seu projeto político. Se é que podemos chamar de projeto político “tocar o barco adiante”, o que era afinal o objetivo dos três principais candidatos. Mas de qualquer forma não dá pra ignorar que o PV é um partido de centro-direita que, com a retórica ambiental, coloca-se como “pós-ideológico”. Assim, é vazio. Porque a ecologia, enquanto viger o capitalismo, não passará de protocolo de boas intenções, e – pior – ferramenta de marketing – para produtos e, voilà: partidos. Marina prometia, se eleita, governar com PT e PSDB. Se por um lado isso é indiretamente uma denúncia da geleia geral que virou a política, por outro é uma síndrome de poliana acreditar que num passe de mágica os dois condomínios de oligarcas rivais iriam aderir ao “elemento neutro”. A questão da fé ela até conseguiu controlar, embora a dado momento tenha exagerado nos “graças a Deus”. A proposta de lançar temas polêmicos para plebiscito parece democrática, mas é hipócrita. Como ela já conhece o senso comum, exime-se de tomar uma decisão ela mesma e evita que a acusem de fundamentalista.

Mas enfim, como explicar o fenômeno Marina? Não penso que religião e boatos sobre a posição de Dilma quanto ao aborto tenham influído na “onda verde” que garantiu a Marina quase 20% dos votos, no melhor 3º lugar da Nova República. [Plínio foi o Forlán das eleições, chegou em quarto mas apresentou o melhor futebol] Nem vou me preocupar com o erro das pesquisas. Li por aí que o Jornal Nacional de sábado enalteceu Marina em uma super produção (eu não assisto TV), isso deve ter influenciado muito – e diz muito sobre nossa “democracia”. Mas o que quero afinal introduzir aqui é a análise de Noam Chomsky sobre a democracia de lá, mas que vale – cada vez mais – para cá. Eleições são eventos em que investidores se unem para chegar ao poder (a Teoria do Investimento na Política de Thomas Fergusson) e interessa que os assuntos reais sejam deixados de lado para focar nas qualidades dos candidatos. Dilma e Serra são antipáticos, Marina mesmo tendo voz desagradável tem seu apelo. E quem pode ser contra a ecologia, afinal? Eu mesmo quando mais novo e menos informado já nutri simpatias ao PV! Gente de todo jeito, com diversas motivações, votou em Marina, mas eu vejo seu eleitor típico como “desiludido com a política”, avesso, ou mesmo alheio, aos conceitos de esquerda e direita, vendo em Marina a alternativa perfeita, por suas virtudes pessoais; sem esquecer o apelo ecológico. Enfim, em termos práticos, temos as nuances: os que a veem como alternativa, e pelo antipetismo aderirão a Serra, e os que pelo antitucanismo aderirão a Dilma. Usando meus dotes de palpitologia eu estimo os dois campos em dois terços e um terço, respectivamente. Não é preciso muita matemática para dizer que Dilma ainda ganha, mas não será com folga. Por isso mesmo, terá minha ajuda, afinal posso dizer que sou psolista antitucano.

Avalanche de Escândalos

Como nesses canais de TV paga que tiram um dia para passar um único programa, a reta final da gincana eleitoral será uma maratona: denúncia depois de denúncia para desestabilizar o governo e tentar influir no resultado das urnas (o que já estão percebendo que não acontece). Controlar o governo levantando o que há de errado é sim função da imprensa, a ser levada com muita seriedade. As lebres ora levantadas (que não tenho paciência para enumerar) não parecem ser mera invencionice como quer a blogosfera chapa-branca. Que cada denúncia seja investigada pela instância competente. O mais provável é que cada uma gere mais calor que luz (mas ainda não o bastante) e em pouco tempo se esqueça a respeito. Se se mantivesse tal vigilância ao longo de todo (e todos) o(s) governo(s), não haveria mais espaço para tráfico de influência, que não é coisa exatamente nova. O efeito mais óbvio do denuncismo é jogar por terra qualquer esperança que pudesse restar de uma campanha centrada em projetos para o país, na discussão dos graves problemas estruturais que quedam por baixo de um cobertor de prosperidade momentânea (na esteira do fenômeno chinês), nas já tão esmaecidas ideologias. Segue a gincana. E a briga de torcidas.

Minha Posição para Outubro

Em post já não tão recente assim, traçava um panorama do cenário para a eleição presidencial deste ano e prometia explicitar e explicar minhas próprias posições, o que ficou para outra ocasião, que vem a ser esta. Talvez tenha faltado lá também dizer que, a meu ver, estas eleições serão as mais disputadas de nossa vida democrática, com os dois principais candidatos disputando palmo a palmo até o resultado final.

Bem, na coluna aí ao lado declaro abertamente meu apoio à candidatura do P-Sol, de Plínio de Arruda Sampaio. Por quê? No mínimo porque as posições verdadeiramente de esquerda estão hoje meio escanteadas com a força da centro-esquerda lulopetista, e cabe a nós que nos posicionamos nessa corrente tentar fortalecê-la eleitoralmente. Algo como emplacar 1% das intenções de voto, não ria, é uma grande vitória. Você perguntará: mas então por que não lançar Heloísa Helena que entraria para perseguir os dois dígitos? Simplesmente porque ela não quis, e com toda razão, pois assegurar uma vaga no senado faz muito mais sentido que uma candidatura presidencial frustrada (e garante exposição similar, além de uma tribuna para nosso ideário). No vácuo da defecção de HH, e depois de um breve flerte com o PV, o partido se lançou em uma ridícula disputa interna em que felizmente Plínio foi indicado, derrotando Martiniano Cavalcanti, preferido pela cúpula partidária. Felizmente porque Plínio é um esquerdista histórico, deputado constituinte e petista fundador: poderia concorrer com o slogan “mais petista que o PT”. Cavalcanti é um desconhecido, e além do mais é mais “soft”, confundindo-se com o campo petista, muito superior em capital político – não representaria uma alternativa. Mas afinal, que diabo vocês querem com um porcento dos votos? Bem, não venceremos as eleições majoritárias, sendo HH talvez a única exceção; é importante crescer no parlamento agora, e nas ruas, em ações diversas de divulgação da plataforma esquerdista. Trabalho difícil, uma vez que se o trabalhador de modo geral vê sua vida melhorar, não será fácil convencê-lo de que é hora de virar tudo de ponta cabeça. No meu modo de ver, cabe ao P-Sol um trabalho de conscientização dos mecanismos de poder em nosso país e sua injustiça intrínseca, ajudando a superar a máxima superficial do “é tudo um bando de ladrão” em favor de uma compreensão melhor dos processos subjacentes. Trabalho de formiguinha.

Quanto ao líder nas pesquisas, pelo menos até bem pouco, José Serra, não o odeio com toda a força do meu ser como o faz toda a blogosfera petista. É um sujeito capaz e inteligente, mas que funciona de acordo com as diretizes do partido a que pertence. Representa uma elite que sempre se viu como detentora do espírito nacional, para quem o resto do país é um incômodo que era possível ignorar, mas não é mais, por culpa do metalúrgico, que sacudiu um pouco a mistura. A turma do contagolpe de 32, que até hoje é “revolução”. Ou seja, é a oligarquia paulista com as demais a reboque. Na verdade, o PSDB até era uma promessa boa, logo após a redemocratização, quando separou-se do que considerava uma política fisiológica e baixa, capitaneada por Orestes Quércia – ainda que se possam enxergar apenas disputas intestinas. Por um tempo posou de bastião do liberalismo progressista, mas uma vez no poder percebeu a necessidade de aliança, e estava ali o PFL, com um poder tão capilarizado, coisa que fazia tanta falta ao jovem partido que… voilà: foi firmado um pacto que tragou o PSDB para as hostes do conservadorismo mais reacionário, do qual representa a fatia urbana enquanto o rebatizado DEM fica mais na esfera rural. É a tudo isso que rechaço, mais que a José Serra, e isso não é por acreditar na conversa de que ele é a “esquerda” do partido. Inclusive acho que esta eleição será diferente – pelo menos um pouco – por contrapor mais dois partidos e dois campos ideológicos do que duas personalidades.

Já de Marina Silva como pessoa, aí sim nada posso falar de desabonador. Não me agrada seu furor religioso, penso que isso não faz bem em política. Mas respeito muito sua figura, sua trajetória. Ocorre que essa trajetória está ligada a lutas sociais e ambientais em seu estado natal, como não ouvir seu nome e lembrar de Chico Mendes, por exemplo? Agora, quando ela decide se candidatar à presidência, depois de ter feito parte do governo Lula, ficamos na expectativa de saber como ela se posiciona em diversos outros tópicos, desde a economia, passando por moralidade até política externa. Se analisarmos seu novo partido, o PV, aí que estamos perdidos. É uma agremiação anfótera (como diria o Itamar) e imprevisível; oportunista na verdade. Basta dizer que deixou-se cortejar pelo P-Sol até revelar sua verdadeira face ao compor com a direita no Rio. Marina tem se cercado de pensadores claramente neoliberais e isso é sintomático. Acontece que sendo o país fortemente conservador, eleita uma presidenta de um partido inexpressivo, a tendência é que ela se torne refém das forças que representam esse conservadorismo.

A candidata governista, Dilma Rousseff, o é pela primeira vez, e isso pesa. A batalha de sua equipe ainda é a sintonia fina para transformar a “gerentona” em uma mulher carismática (enquanto Serra é cobra criada, fala bem, mesmo dizendo apenas o óbvio). É esperar para ver como ela se sairá em debates, por exemplo. Minha impressão dela é em geral positiva, não foi à toa que Lula optou por ela. Sim, é fato que escândalos políticos foram rifando os quadros históricos do partido – recaindo a escolha sobre uma ex-pedetista – mas ela crescia desde o início dentro do governo. Eu mesmo, em minha inocência, cheguei a imaginar que o partido pudesse lançá-la em 2006 dado o problema do “mensalão”. Acontece que Dilma não é Lula, e boa parte do sucesso do governo petista se baseava na figura do presidente. Sendo ela mais frágil, como ficaria seu governo? Lula estaria sempre com os cordames por trás dela, putinizando-se? O PMDB engoliria sua presidência? É um pouco temerário (com trocadilho); mas Lula também foi pintado como muito mais que temerário, e saiu-se melhor que as melhores expectativas. Eu, por aprovar os dois governos do PT, devo votar nela no segundo turno, ainda mais sendo a única real alternativa quem é. Mas também não vou me jogar de cabeça na campanha Dilma, tentando manter uma distância para evitar aquela famosa bajulação segundo a qual nosso lado é perfeito e imbatível. Até porque meu lado já sai derrotado de saída. Mas eu ainda assim espero que dê Dilma. E estou certo de que vai ser uma campanha interessante. Não como deveria ser, com conteúdo, discussão aprofundada de políticas, mas emocionante, no mínimo. Pra quem gosta de baixaria, então, vai ser um prato cheio.

Caetano Redux, ou Stalin vs. Roosevelt

Caetano tem uma ou outra canção digna de nota, mas nunca fui com sua fuça. Muito antes de ele assumir um protagonismo Anti-Lula que lhe vai custar qualquer credibilidade que lhe pudesse restar. Não faz muito, disse do presidente-operário que ele seria analfabeto e grosseiro. Na última entrevista de Lula, com Kennedy Alencar (Folha/Rede TV), o presidente usou palavras como “abdicar”, “liturgia” ou “introjetar”, e deu um espetáculo; não é um erudito, e não precisa sê-lo, mas não há nada que o desabone linguisticamente. Aliás, Caetano já recebeu umas bordoadas do linguista Marcos Bagno por seu elitismo estúpido.Pois agora Caetano embarca na falácia do “culto à personalidade”. E o compara aos malvados ditadores da esquerda, esquecendo o pluripartidarismo e a liberdade de imprensa (que serve exatamente para que setores abonados, como os Marinho que lhe deram voz desta feita, vilipendiem atabalhoadamente o supremo mandatário); esquece ainda que se há publicidade oficial, ela é sempre dos projetos, e nunca vinculada à efígie do ex-metalúrgico. Eis a pérola:

“Eu acho ruim, no Brasil hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula. Por que não pode? É muito ruim, isso. Isso é um projeto que aconteceu na União Soviética, com Stálin, na China, com Mao Tsé-Tung, acontece ainda em Cuba, com Fidel. Não se pode dizer, só se pode adular o líder. Isso para mim é o que há de pior.”

Ele parece que não lê os jornais onde dá seus pitacos, nem assiste à TV. Ou sabe o que acontece e é cínico bastante para ir adiante, que é o mais provável. Mas pouco me importa. O que quero aqui levantar é a comparação – esdrúxula, sabemos – de Lula com Stalin. Talvez seja uma boa comparação, se escolhermos o quesito “mortes e campos de trabalho” vs. “vidas salvas da miséria absoluta e geração de emprego”. E – cá entre nós – os que acusam Stálin, com bons motivos, de ser um assassino, não deveriam esquecer que seu Exército Vermelho derrotou Hitler… mas eu digrido.

Eu gostaria mesmo de propor outra comparação: de Lula com Franklin D. Roosevelt, ficando assim na mesma época. Como Roosevelt, Lula se viu obrigado a enfrentar uma crise cíclica do capitalismo, um estouro de bolha especulativa. Ambos socorreram o setor financeiro e adotaram medidas para aquecer a economia e gerar empregos. E tiveram êxito reconhecido globalmente. A diplomacia do americano foi acertada, entrando para a II Guerra apenas quando era impossível manter-se neutro ante o fortalecimento de Hitler e do Japão no Pacífico. A política externa do brasileiro foi extremamente benéfica, foratalecendo laços com países no mesmo patamar, e mantendo uma neutralidade salutar ante anos de submissão à Potência (ver postagem anterior). FDR, por fim, era extremamente popular nos EUA, como Lula o é aqui; a diferença é o tratamento dispensado pela imprensa. Isso é porque Roosevelt não representava forças desde sempre alijadas do poder, a incomodar os tradicionais mandarins que se refugiaram na imprensa, impotentes no campo político.

Por fim, Roosevelt quebrou uma regra não-escrita da democracia americana e governou por três mandatos, morrendo no início do quarto. Falou-se um bocado, por aqui, em quebrar uma regra (há pouco) escrita para permitir um terceiro mandato. Um referendo popular, se se permitisse que fosse realizado, facilmente garantiria a extensão da Era Lula. Mas ele optou por não seguir o exemplo do antecessor (mesmo consideradas as diferenças de lisura no processo) que mudou a Constituição para alterar a regra eleitoral. Agora, Lula querendo, dificilmente algo impede seu retorno em 2014.

A Diplomacia Brasileira e o Nobel

O Brasil sob Lula criou uma nova inserção para si na seara diplomática. Firmar parcerias comerciais Sul-Sul e extrapolar nosso papel de potência média regional para potência média global (fazendo por merecer a inclusão no BRIC) é apenas um exemplo, fomentar a integração regional da américa Latina é outro, e tudo sem romper relações com a Águia Norteamericana, relações estas que só estremeceram com a visita de Ahmadinejad.Setores da mídia não fazem questão de ressaltar que esta fez parte de uma série de três recepções estratégicas, sendo as outras duas a do israelense Perez (que, aliás, merecia muito mais protestos) e do desmoralizado presidente da ANP, Abbas. Não é que Lula se ofereça para mediar o conflito mais espinhoso do planeta (mas sua declaração de que a ONU deveria substituir a Águia, parte interessada, foi brilhante); os líderes em questão é buscam o porta-voz dos emergentes para que ele se envolva. A imprensa estrangeira discorda da local, e vê em Lula um estadista respeitado e admirado no mundo todo. Voltando ao chefe-de-estado iraniano e a cobertura jornalística, tentaram dar a impressão de que Lula apoiaria o “pária” em tudo, quando na verdade o discurso do nosso presidente questionou a falta de respeito à liberdade e à diversidade, reafirmou a legitimidade de Israel (posição histórica do país, ainda que eu pense mais como Ahmadinejad, em princípio apenas), e falou corajosamente em desarmamento nuclear, em especial na região, questionando a hipocrisia das potências nucleares que querem encrencar com seu programa – por ora, ao menos – pacífico. Tudo com muita sutileza, e elegância. Amorim é um craque. Mas também pisa na bola e ratificar a controversa reeleição de Ahmadinejad açodadamente foi no mínimo desnecessário.Agora, outro dia, elogiei a chancelaria de Lula e ouvi que “a diplomacia brasileira sempre foi a melhor do mundo” ou algo nesse tom. Respondi que alinhamento automátcio com os EUA não é boa diplomacia, mas aí me lembrei de um caso particularmente emblemático, que li no Blog do Argemiro: O Itamarty entrou em campo para IMPEDIR que o religioso Dom Helder Câmara, célebre pela preocupação social e pela luta contra a ditadura militar, recebesse o Prêmio Nobel da Paz em 1970, quando a repressão era máxima e a propaganda estupidamente nacionalista. Mas essa não era uma honraria que agradasse ao regime, não seria um orgulho nacional como a conquista futebolística: seria combustível para seus opositores.Para digredir só um pouco mais, o laureado de fato foi Norman Borlaug, um dos responsáveis pela chamada Revolução Verde, processo que trouxe ao campo novas técnicas: mecanização, defensivos venenosos, e a inevitável concentração fundiária, responsável pelo sofrimento e pelo êxodo de milhões de camponeses; tal processo apenas se intensificou nos anos 60, iniciara-se nos EUA lá pelos anos 30, como descreve com lírica maestria John Steinbeck em romances como As Vinhas da Ira, que estou a ler.Bem, eu de minha parte não precisava de mais este motivo para não levar o Nobel da Paz a sério. Basta dizer que Henry Kissinger recebeu um, com extensa ficha corrida de maldades como o 11 de setembro – o do Chile, o do WTC ele apenas ficou encarregado de engavetar; Obama, sem ter feito nada e preparando-se para fazer – caca, é claro – acaba de receber um. Mas Mahatma Ghandi, que levaria o prêmio definitivo por escolha democrática, nunca recebeu um. Adivinha por quê? Porque se opunha à criação de Israel. Mas se Lula insistir em brincar de fazer a paz no Oriente Médio – e sem necessariamente mostrar mais resultados que uma partida de futebol – arrisca-se a ganhar essa dúbia homenagem.

Daqui a Oito Anos

Não sei quem vencerá as eleições deste ano, mas tenho meus palpites. Mesmo não sendo vitorioso – excluída a intervenção divina – o candidato do meu partido, acho que posso ser otimista e acreditar que a inflexão introduzida pelo governo do Partido dos Trabalhadores, fazendo o país ser ao menos um pouco mais “de todos”, não será revertida, mesmo vencendo o campo conservador. Portanto, imaginando que o(a) eleito(a) obtenha um segundo mandato e que o Brasil siga evoluindo em ritmo próximo do atual – ou mais rápido, talvez, já que a grana do pré-sal vem aí – resolvi lançar-me a um exercício de futurologia até o momento que como este, que marca o fim dos oito do Lula, marcará a obra completa do próximo(a) presidente(a). Há uma possibilidade diferente, em que 14 o Lula volte, mas deixemos isso de lado.

Eu quero, antes de mais nada, que em oito anos a riqueza seja muito melhor distribuída, com cada vez menos gente precisando de assistência estatal, e com nosso índice Gini rivalizando com os exibidos pelo “Ocidente” hoje. É questão de honra para a nação que até lá se erradique o analfabetismo, e que a educação pública melhore a ponto de reduzir drasticamente o analfabetismo funcional. Seria o paraíso se em 2018 a média de leitura de nós outros brasucas fosse de uns 5 livros por ano. Isso seria um corolário ao maior letramento, e depende de mudança cultural profunda. Este veículo aqui, a rede, será obviamente um fórum de leitura e escrita: cabe a cidadãos cada vez mais “cultos” (não gosto muito do termo, mas vá lá) utilizá-la com mais discernimento. Realmente espero que em nosso país se chegue a um consenso, uma solução negociada para a questão fundiária, sacodindo a poeira de séculos de latifúndio em favor de um modelo que contemple a produção de alimento saudável para consumo interno assim como a produção de bens primários para exportação, fonte de divisas (ainda que se deva priorizar o comércio de bens com maior valor agregado), tudo com um sistema integrado de escoamento, infra-estrutura adequada para tal (principalmente as esquecidas ferrovias). Espero ver a criminalidade recuar junto com a disparidade, e com o já tardio reconhecimento de que a guerra ao narcotráfico é mais nociva que todas substâncias ilícitas juntas. Espero ver as metrópoles mais planejadas, com a mobilidade garantida por sistemas de transporte público abrangentes, eficientes e baratos, e com a preocupação com a acessibilidade se disseminando. Espero ver as desigualdades regionais diminuindo, mas com respeito a especificidades de regiões como a amazônica, à qual não se pode aplicar nosso conceito de progresso material a qualquer preço, garantindo à população uma vida confortável, com acesso a serviços como bons hospitas, sem a necessidade de criar fortunas à custa da floresta e dos índios. Quero ver investimento em ciência e tecnologia, tirando nosso país da posição periférica, no máximo intermediária, que temos hoje. Deverá haver incentivo maciço às artes e às culturas, tanto as “de raiz” quanto as de matriz europeia; além de fomento ao esporte, em comunidades pobres e em competições de alto nível. Tomara que o Brasil esteja disputando o octa (e o Timão vença uma Libertadores). Oxalá…

Bem, algumas dessas coisas parecem um tanto distantes… (talvez para o fim do quarto mandato do Lula, em 22?). E falta ainda combinar com os russos, é verdade. Mas é bom saber aonde se quer chegar, não?

A Muda e a Liberdade Radiofônica

Como está aqui no meu perfil, sou três quartos de engenheiro eletricista, embora não saiba como isso resolva alguma coisa. Nem juntando com um quarto de geógrafo dá um “canudo”. Não importa, o que queria dizer é que estudei Elétrica na Unicamp, onde meu aprendizado foi, digamos, mais social que acadêmico. Trocando em miúdos, foi mais farra que estudo. Uma atividade extra-acadêmica, entretanto, era coisa muito séria: a Rádio Muda. Muito séria talvez seja exagero, mas foi certamente uma poderosa e edificante experiência. Se alguém me oferecesse trocar a experiência mudeira pelos créditos que me faltaram, juro que recusaria.

Desde que entrei, lá pelos idos de 1998, ouvia falar na rádio, mas não tinha noção do quão democrático é o projeto, parecia não ser para mim; minha bagagem musical então também não era lá essas coisas. Mas tornei-me amigo de uns caras que faziam um programa, e fui me aproximando aos poucos: era o Coquetel do Mingus, capitaneado basicamente pelo Cabelo, mas outros malucos do Vale do Paraíba, como Trujillos e Covil, além do Estevam, participavam basicamente passeando de skate. Comecei a descobrir aí o Rock Progressivo e um bocado mais de Jazz, e levava minha humilde contribuição. O programa foi passando por fases com diferentes programadores, que iam também evoluindo e diversificando seus gostos. O Miguel foi um grande camarada que passou por lá, o “cabuloso” Chapéu foi outro. O Cabelo foi o mais longevo programador, embora com sua ida para Vitória o bastão tenha ficado comigo; chegaram o Pedro e suas maluquices, trazendo ainda o alemão Peter, Ricardinho e eventualmente a Ângela ou o Daniel Daniel. Os vizinhos de horário também sempre, ou quase sempre, foram um barato. Desde o punk Ratitu, passando pelo zapatista Gui (que visitei há pouco), a gracinha da Dani, o chato do Delfin e o babaca do Camilo, foi uma convivência rica. E todo o processo ampliou muito meu universo sonoro. Basta dizer que o programa começou com Beatles, rock setentista, progressivo, jazz, foi entando fusion, sempre tinha algo brasuca, as ambiências do Miguelito, os Stones do Chapéu, até que com o Pedro foi virando para o progressivo extremo do Rock In Opposition, ou os jazzistas anárquicos da improvisação livre. O Coquetel existiu de 1998 até 2006, certamente um dos mais tradicionais da Muda. Acredito que tenhamos cativado alguns ouvintes, e um bom indicador foi saber que um aluno da Música nos elegera o melhor programa da rádio.

Com a experiência mudeira, passei a me interessar pelo tema da democratização da comunicação, ainda que nunca tenha sido muito engajado. A Muda tem uma proposta formidável: é gerida horizontalmente por um coletivo; ocorre que alguns assumem um protagonismo, seja no bom sentido, fazendo os “corres” necessários, seja no mau sentido de postar-se como “estrelas”. E isso podia ser um belo pé no saco. As reuniões se perdiam por discussões infrutíferas e achei melhor apenas fazer o programa. Já em Brasília, fiz parte da Radiola por algum tempo (com o Antena Menos 1), mas simplesmente não tinha a mesma mágica – e a rádio fechou. Estou timidamente me aproximando da RalaCoCo da UnB, mas ouvi dizer que estão sem transmissor. Quando soube que haveria a Confecom, fiz questão de participar, mas também foi um pouco frustrante. Realmente eu gostaria de participar ativamente do movimento de Rádio Livre, e já pensei em comprar um transmissor algumas vezes. Mas não faz sentido montar uma Rádio Eu, isso precisa ser feito coletivamente, daí a necessidade de me integrar aos grupos já existentes. Falta criar coragem.

Bem, relatos pessoais à parte, discutamos um pouco o próprio marco legal da democratização radiofônica. A Muda, como Livre, sempre foi pela liberdade: não preciso de concessão e ponto. Creio que enquanto a lei for tão injusta, as concessões sejam moeda fisiológica e as emissoras instrumentos políticos das oligarquias, acho que é este mesmo o caminho: desobediência civil pura e simples. Há que se estar preparado para a repressão: a Muda foi expropriada de seus equipamentos no início do ano passado (mas voltou mais forte que nunca). E quanto às comunitárias? Foram uma “concessão” do monopólio: é melhor aprovarmos uma lei que aparentemente permita maior participação, mas que na verdade seja uma camisa de força, garantindo comunitárias nanicas (25W, 1km de raio, 1 por cidade) e fornecendo ainda mais argumento para descer o sarrafo em quem não obtiver uma concessão comunitária, o que aliás será dificílimo. Para piorar, há quem faça mau uso delas: proselitismo religioso ou político, ou ainda, como em Inquérito Civil Público que passou em minhas mãos (também sou agente infiltrado no governo), venda de espaço publicitário. As propostas da Confecom me parecem muito genéricas: distribuir o espectro 40/40/20 entre setores privado, público e estatal; mas como? tomando concessões de volta? ampliando o número delas? e onde não couber mais nada? Qual critério para o setor público? Tem que ser uma entidade social de esquerda? Um grupo de universitários ou mesmo amigos pode? A posição da Muda sempre me pareceu “não queremos concessão, queremos seguir livres”. É complicado: de fato, se tiver que abrir CNPJ e ter presidente, já desvirtuou tudo; mas não seria uma vitória por outro lado?

Eu de minha parte, como sei que a democratização dependeria de um Congresso progressista, e não este que além de conservador é parte interessada, sendo a perspectiva de uma mudança significativa nas eleições deste ano bastante remota, o mais provável é siga tudo basicamente como está (talvez com alterações cosméticas, lampedusianas). Portanto, digo e repito: desobediência civil, Rádio Livre. Vá até a Santa Ifigênia em Sampa, Capital das Antenas, lá pelos 500 se não me engano. Ou busque na internet. O Gui recomendou a marca MoTel, parece que são transmissores de baixa potência, mas verdadeiros “fuscas”: resistentes e fáceis de consertar caso quebrem. E, antes que me esqueça, visitem a página da Muda: (é possível ouvir, se o servidor estiver de pé). Se estiver em Campinas, não esqueça: 105,7MHz FM Livre!

A Confecom e Eu

Caros três leitores, este é dificilmente um blogue no sentido mais restrito, de diário virtual. Mas hoje é exatamente o que faço: narro minha experiência na etapa candanga da Conferência Nacional de Comunicação. Então voilà: querido diário…

Na sexta feira fui até a ENAP, órgão de educação do GDF, onde ocorreria a abertura da etapa da Confecom no DF. Bagunça no cadastramento, normal; pouca gente no auditório, previsível; discursos protocolares, enfadonhos. Saí de lá para conferir o Festival de Cultura Popular na Funarte: maracatu e as gatinhas “alternativas” de Brasília.

No sábado, não consegui chegar cedo como gostaria, mas o evento estava atrasado. Eram eixos temáticos, os três principais: Produção de Conteúdo, Meios de Distribuição e (salvo engano) Direitos e Deveres. Aí onde havia algo a ser dito de fato, as falas foram tolhidas pelo tempo; e não não houve embate entre pontos de vistas conflitantes. Intervenções que não iam além do óbvio por parte do público, com honroso destaque para meu colega de P-Sol, Índio, que cutucou o representante da Band quanto à criminalização do MST (um editorial do telejornal ameaçava até o “gabinete do presidente” de uma “reação dos produtores”). Mas foi uma liberação de cólera que não se traduziu em pergunta, argumento usado pelo pusilânime para não responder nada – e a claque da Band o aplaudiu!. Eu mesmo tentei ter a palavra para falar sobre temas que não vi contemplados: o jabá (pagamento à emissora pela gravadora para fabricar sucessos), a propriedade cruzada de vários meios por um mesmo grupo, e ainda para cutucar o representantes das teles, que vinha com o jargão técnico “tucanizado” para discretamente atacar o projeto governamental de ampliação da rede Banda Larga em nome da “livre concorrência”, da “convergência”, em prol das gigantes do setor, basicamente estrangeiras. Não me passaram o microfone, OK.

À tarde, ocorreriam os grupos de trabalho. Eu estava inscrito no Tema II: Meios de Distribuição, interessado que sou na radiodifusão livre (pertenci por anos à Rádio Muda, de Campinas). Mas fui me decepcionando aos poucos ao perceber que estavam ali apenas passando a limpo as propostas das entidades: CUT e Intervozes principalmente. Surgiu uma polêmica sobre uma proposta apresentada pelo Movimento GLBT de “garantir a laicidade no processo de outorga”. A discussão primeira é óbvia: a redação é clara? Que significa isso? Que igreja não pode ter meio de comunicação? Ou que o processo não pode preterir ou beneficiar uma determinada confissão? Pedi a palavra para dizer que: não, o texto não é claro; que o provável sentido desejado (proibição total) é irreal, vai encontrar uma barreira, mas que poderia-se propor um limite percentual em relação ao total de canais para conteúdo/propriedade religiosos, assim como para qualquer setor da sociedade. E afinal, por que banir igrejas? As outras emissoras também não teriam um viés? “Vamos tomar o lado da Globo?”, eu poderia ter dito. Enfim, seguiu a proposta original, com um acréscimo boboca de “garantir a pluralidade bla-bla-bla”. E assim foi, mudando uma vírgula aqui, outra ali. Outra discussão: reserva do espectro, com 40% para setor público, 40% para setor privado e 20% estatal. Propôs-se 33% para cada um. Agora eu penso: primeiro, o que exatamente vai diferenciar o público do privado? Uma emissora pública de televisão não vai precisar de um bocado de dinheiro? Esse dinheiro, se não viria do Estado, não seria então dinheiro particular? Estamos falando de quê? TV MST ou TV FIESP? É tudo tão abstrato! E mais: passar um decreto não cria condições materiais para que surjam essas emissoras, e argumentou-se mesmo isto: pretende-se aumentar a reserva para o Estado, que não tem bala na agulha nem para manter sua atual estrutura de comunicação (10%) com qualidade. Por fim, a poderosa ABERT (Emissoras de Rádio e TV) vai simplesmente falar “vem, pode ir entrando, tem espaço para todos…” se hoje abocanha 90% do mercado?

Por isso digo: que lutem então com suas propostas pré-fabricadas, mas não me deem a ilusão de que eu posso participar. E tomara que consigam pelo menos os Conselhos de Comunicação, que seriam (ou poderiam ser) instâncias participativas (para as entidades, não para o cidadão) com poder de se posicionar ante os temas relacionados à comunicação. Mas podem também virar peças acessórias, decorativas. O projeto da Banda Larga também pode ganhar contornos mais democráticos, mas as teles são poderosas e têm o presidente em sua mão (vide a fusão BrT-Oi), além do temível Ministro da Globo, é claro. Quanto a uma real transformação no panorama eletromagnético, sou bem cético.

O que me deixa puto é que se eles elaborassem propostas mais chão-a-chão, como criminalizar o jabá e descriminalizar a radiodifusão sem concessão, poderia haver alguma chance. Espero que algum estado leve essas ideias à rodada nacional. Eu desisto.

É dos Carecas que Elas Gostam Mais?

Sempre que se arma um circo político, os palhaços como eu adoram vê-lo pegar fogo. Serra está desesperado com medo de que o Arrudagate respingue nele. Dever de quem teme o Vampiro no Planalto é espalhar estas coisas o máximo possível. Há que se colar o escândalo no Roriz também: o esquema vem do governo dele. Só a TV Brasil (o melhor noticiário) se deu o trabalho até agora. Porque esse coroné voltar é talvez pior que a (já defunta) reeleição do Gargamel do DEM.

Em tempo: acabo de ver um punguista ser preso por duas viaturas e meia dúzia de canas. Ele deveria negar as acusações e se dizer vítima de persegução política (ou social, no que teria um quê de razão). O flagrante de Arruda et caterva é gritante, revoltante (ainda que nada surpreendente) e poderia servir ao menos para revermos a imunidade de que gozam tais “honoráveis bandidos”. Comprei o livro com esse título sobre o aliado maranhense do Lula, vai aguardar sua vez ao lado de “memória das trevas”, sobre o colega de Arruda na violação do painel do Senado.

É tanta meleca!

Nietzsche Explica

Mal Dilma foi eleita, o primeiro assunto que circula – além da tradicional dança das cadeiras – é a recriação da CPMF, uma contribuição que é compulsória e carrega o epíteto de provisória mas parece ter mais vidas um gato vampiro. As letras restantes não são para Mother Fucker, mas movimentação financeira. Sabe, essas chateações da vida contemporânea que significam basicamente receber e usar dinheiro, ou seja, o objetivo de vida de todo bom cidadão submetido ao capitalismo.

Não que eu seja doutrinariamente contra qualquer imposto, essa é geralmente uma bandeira daqueles que não precisam da assistência do Estado, que o querem apenas garantindo o terreno para o capital jogar bola (sem ao menos fazer a encenação básica de defender os desassistidos). Como o Goerge W. Bush, que não fez muito mais do que iniciar guerras e cortar impostos (para os mais ricos).

O que eu penso é que um remendo aqui outro ali não vão resolver nada: a reforma tributária, tão alardeada e nunca concretizada, é que deveria instituir um novo regime arrecadatório que desonerasse o consumo de bens e serviços essenciais e taxasse pesadamente aqueles supérfluos e de luxo, além de incidir sobre patrimônio e heranças. Ou seja, implantar finalmente a progressividade no lugar desta perversa regressividade que faz uma família de baixa renda empenhar uma parcela bem maior de seu orçamento com impostos do que uma de alta renda. Acontece que quem tem influência política é justamente essa camada de alta renda; some-se a isso que nenhuma parte interessada está interessada em perder receita, e segue que o mais provável é que saia qualquer reforma cosmética. Acabando com a gurra fiscal entre estados, talvez.

Voltando à CPMF, eu acredito que ela pudesse existir, com uma alíquota baixa, só pelo efeito fiscal: muito sonegador de IR caía no cruzamento dos dados de CPMF. Obviamente, não é a preocupação dos governadores e da presidente-eleita: querem receita. Parece bem provável que a ideia vá adiante, e voltará aquele inconveniente de receber um dinheiro e não depositar com medo da tunga, ou de não passar o dinheiro por uma conta intermediária, e por aí vai. E pensar que eu trabalhava em banco, já sabia de cor: R$3,80 a cada mil reais. É um imposto nietzschiano: eternamente retorna.

Parabéns

Dilma Rousseff confirmou o favoritismo nas pesquisas e faturou a presidência do Brasil. É muito positivo o fato de uma mulher ter chegado lá pela primeira vez. Era sempre preferível que fosse uma com luz própria e não uma “favorita”. Meus parabéns de qualquer forma. Eu apoiei sua candidatura discretamente e sem entusiasmo no segundo turno, agora me volto à tarefa de ser-lhe oposição pela esquerda. Fico feliz mesmo é de ver a cara de tacho da direita, que vai ficar sem o pirulito por mais pelo menos quatro anos. Eu de minha parte sou da parcela privilegiada dos brasileiros, e se a menos privilegiada está satisfeita e quer continuidade, tudo que eu falar sobre reformas estruturais soa como conversa furada. Segue o barco.

 

Então tá, né?

Dilma não me entusiasma nem um pouco. Principalmente essa Dilma da campanha, produto dos marqueteiros. Gostava mais dela mulher-macho e enérgica; quando ela ficou nervosa em alguns momentos da campanha essa Dilma verdadeira reapaeceu. Mas, como ia dizendo, não consigo me empolgar para fazer campanha para Dilma, por mais que deteste a perspectiva de ver o PSDB de volta ao poder, com o PFL no cangote (não duvide que ele voltaria à turgescência de outrora). Dilma é mais realpolitik na veia, é estender a lua-de-mel com as oligarquias, é Eike Batista subindo na lista da Forbes. Até gente muito boa como o Milton Temer se ilude pensando que sendo ela menor que Lula o partido falará mais alto e a puxará para esquerda; nem o terrorismo da direita fala isso a sério… bobagem: “a culpa é da Articulação” quantas vezes eu já ouvi isso de petistas de verdade; e lá estará a Articulação com seu Lula e seu Zé Dirceu (o Godzilla). Já disse que gostaria muito que o PT tivesse lançado o chanceler Celso Amorim. Não sei se foi ele quem não quis ou se nunca se pensou nisso. Vejo nele uma pessoa capaz, articulada, mas o metalúrgico tinha uma afeição especial pela mineira. Vamos nós. Meu candidato não chegou a um por cento dos votos, que posso eu dizer? Chego a ter saudades da Marina que dava um sal à contenda e evitava o que depois se mostrou inevitável: a gincana despolitizada entre chapa-brancas e regressistas. Neste fim de semana a coisa se resolve, e quem melhor definiu a situação foi o Luiz Fernando Veríssimo, que não vê grande diferença entre os dois (como Lula foi muito pouco diferente de FHC), mas ainda assim prefere a Dilma. Mas quando eu a vejo falando e penso que ela será presidente (é presidente, você já viu gerenta, pacienta ou atendenta?) dá um desânimo… Então é isso, acho que meu voto é, mais que um “voto crítico”, como inventou meu partido (sendo que críticos mesmo serão os da Marina), um voto desanimado. Se eu votar, porque tem feriadão aí, né?

Tiro ao Calvo

Me sinto um pateta só por me misturar à “polêmica”, por assim dizer. Imagine que um amigo seu, francês, digamos, venha te visitar e descubra que às vésperas da votação de 2º turno para presidente a discussão política mais profunda é sobre… uma bolinha de papel? Sim, amigos, nosso campeão de votos Tiririca havia se enganado. Pior do que tá fica, sim.

Não só o episódio todo no Rio foi marcado pela agressividade de lado a lado dos militantes, como algum imbecil – que não pode ser senão das hostes petistas – achou bacana tacar uma bolinha de papel no candidato adversário. Um sujeito desses merece ficar uma semana sem recreio. Dizem que um rolo de fita também atingiu o sinistro careca, ou a Globo disse. Não sei. Já é um objeto mais duro, e um pecado “menos venial”, digamos. De qualquer forma, por mais condenável que seja, não tomemos a coisa fora de proporção.

Pois foi exatamente isso que Serra fez, e pior: só depois de receber um telefonema o “avisando” de que estava ferido. Levou a mão à calva e foi ao hospital alegando… tonteira? Foi o que o médico disse, o que lhe submeteu a uma… tomografia computadorizada? Sério? Cara, eu ainda me mudo pra Bolívia!

Pois é, gente, quando eu falei em gincana eleitoral, virando batalha campal, era uma figura de retórica, não precisava levar tão a sério. E não é que tacaram uma bexiga d’água na Dilma? Puta que os pariu… A pergunta que fica é se o(a) presidente que sair desse pleito sairá contaminada por toda essa tolice ou se poderemos esquecer tudo isso. Do jeito que está, a eleição presidencial se parece cada vez mais com um esquete do Monty Python. O difícil é só escolher qual é o Silly Party, pois nenhum dos dois é Sensible.

Esperando o Tiro

Ando meio avesso a tratar de política e desde sempre evito ficar comentando pesquisas eleitorais, uma vez que são sempre devidamente esmiuçadas, de um lado e de outro; e não estou aqui para chuviscar no oceano. Mas, agora é hora de voltar ao tema das Eleições 2010, que entra em nova fase com a confirmação dos candidatos e com a pesquisa que saiu ontem, da Sensus. E como eu também joguei aí ao lado minha intenção de voto, acho que preciso “me explicar” em certo sentido.

Bem, ultimamente tivemos as festas eleitorais de lançamento de pré-candidaturas, a Dilma pisando na bola ao criticar Serra (implícita, mas bem claramente) pelo exílio – respingando em muita gente – e o Serra lendo um discurso bem escrito em um grande evento com uma “massa cheirosa” como disse a Cantanhêde. Pelo lado dos candidatos “coadjuvantes”, Ciro ainda não se entendeu muito bem com o PSB,  Marina cozinha sua candidatura ambivalente; e, dentre os “invisíveis”, destaque vai para o P-Sol, a dissidência à esquerda do Petê, que protagonizou um espetáculo risível (e falo do alto do status de filiado): disputas figadais para decidir quem será o candidato invisível, com os tradicionais rachas sobre a concepção ideal de socialismo, a historinha do “partido de vanguardas” e tudo mais.

Bem, eis que surge hoje nas manchetes o resultado de mais uma pesquisa Sensus. Até as pesquisas estão polarizadas: Ibope/Datafolha, de propriedade de veículos abertamente serristas, e Sensus/VoxPopuli, também ligados sem muito pudor ao governismo. Então, antes de mais nada, é bom ver um panorama mais amplo para tentar se guiar: a tendência recente é de crescimento de Dilma, apenas a última da Datafolha representou um “outlier”, ponto fora da curva, bombando a dianteira de Serra. Assim, por mais que se desconfie da isenção da Sensus, já estava claro a todo mundo que este momento chegaria: o empate entre os dois principais postulantes à cadeira que Lula vem esquentando (ao menos quando está em Brasília) nos últimos sete anos e pouco. Empate mesmo, não é chegando a margem de erro o máximo dos dois lados, estamos falando de três décimos de ponto percentual: 32,7 a 32,4. Segundo turno? O primeiro empate técnico: 41,7 a 39,7.

Que quer dizer isso? Que é como se os dois estivessem em suas marcas, a postos, com os outros ainda calçando as sapatilhas ou presos no trânsito a caminho da prova. E quem correr mais daqui em diante leva. É bastante provável uma decisão por foto – na eleição mais disputada desde 89 -, mas seria infantil transpor as sondagens atuais para o resultado final. Primeiro porque uma candidatura parece estar no auge da forma, batendo todos recordes nas preliminares, enquanto a outra parece se recuperar de uma lesão, e luta para não despencar no ostracismo. Mas também porque o nível de real interesse pela eleição ainda é baixo, e todos sabemos que o Brasilzão vei sem portera só vai se ocupar disso depois da Copa. Aí convém observar a espontânea: Dilma 16, Lula 15,3 e Serra 13,6. Mas se você pensa que essas duas considerações garantem que a candidata do governo tem tudo para crescer mais e mais e levar no primeiro turno, alto lá. Serra terá sempre de 30 a 35, somando 15 a 20 dos coadjuvantes, fica difícil Dilma somar 50%+1 que a elegeriam no primeiro round, por nocaute. Também não dá para ignorar a predileção dos grandes meios de comunicação pelo córner tucano, que pode influenciar bastante, inclusive revertendo as atuais tendências. E que se Dilma vem se tornando mais conhecida e associada a Lula, uma hora isso cessa. Por fim, estamos entrando na fase em que os candidatos (ou pré, não importa) se expõem mais, e o desempenho de cada um fará diferença, quando não mais entre os indecisos, e um deles conhecemos de outros carnavais, é frio e ostenta um português correto, a outra é uma neófita, estreando na primeira divisão sem passar pelas divisões de base.

Trocando em miúdos, tudo se resume ao que já sabíamos há muito: se o fenômeno Lula, com aprovação batendo nos 80%, coisa inédita no Brasil, fará ou não seu sucessor, ou sucessora – no caso, um nome “técnico” sem experiência eleitoral passada. Ou, pondo de outra forma, se o PSDB tem fôlego pra voltar. A diferença é que Dilma registrava 8% no início de 2008 e agora está nariz a nariz com o careca.

Numa próxima postagem, já que esta já se estende muito, pretendo explicitar meu pensamento sobre os principais partidos e candidatos na disputa (além do meu, é claro).

Caso eu tenha perdido…

Assisti apenas ao final do primeiro debate para o segundo turno. E os do primeiro já não me despertavam a atenção. Digo isso sem medo de ser visto como um imbecil alienado. Afinal, digam aí para mim, se souberem, quantas vezes no último debate, e nos anteriores, os dois contendores falaram em:

*Pauta exportadora.
*Ciência e Tecnologia
*Produção Acadêmica
*Patentes
*Índice de Gini
*Desigualdade Regional
*Concentração Fundiária
*Analfabetismo e Analfabetismo Funcional
*Multinacionais (e a Balança de Pagamentos)
*Agrotóxicos, Transgênicos
*Oligarquias

E tanta outra coisa… que citassem ao menos, se não tinham os números à disposição. Arrisco dizer que dos 11 itens, os dois juntos devem ter no máximo três menções. Ficam insistindo em aeroportos, operações de hemorroida e por aí vai. Ah, como não esquecer: aborto. Há que se garantir a manutenção da legislação hipócrita. Tô bem sem paciência, viu! Não é com grande entusiasmo que eu apoio a Dilma.

Ninguém Segura Este País?

O Brasil é caracterizado, dentre outras coisas, pela memória curta. Nos anos 70, o crédito externo fácil e o empenho dos militares em criar um ambiente propício para corporações estrangeiras nos brindou com um pujante “milagre econômico”. Bastou os EUA elevarem os juros no que ficou conhecido como Choque Volcker, além de uma segunda crise do petróleo, para que entendêssemos o significado de “ninguém segura este país”: despencamos das alturas do “milagre” para as profundezas da “década perdida”, sem rede.

Eis que agora se reedita o mesmo roteiro de ufanismo, ainda que a trama seja ligeiramente diferente. Não sendo economista, mesmo assim estudei o assunto (e todos os demais) no meu doutorado em Palpitologia Avançada. Concordo de certa forma com a mídia internacional (The Economist, Newsweek etc.) quando dizem que o bom momento (dependendo do ponto de vista) brasileiro começou com FHC. Como teórico da dependência, soube pô-la em prática: preteriu seu povo em favor de grandes empresas estrangeiras (loucas para lucrar no Brasil, mas reticentes ante a instabilidade) e novos grupos nacionais que ativamente ajudava a criar. Acreditava sinceramente que o grande capital prosperando levaria o país a reboque. Praticou um irresponsável populismo cambial – que quebrou o país reiteradas vezes -, apenas o suficiente para garantir sua adventícia reeleição, depois da qual sentou-se em uma colina para ver Roma queimar. Ainda assim, criou exitosamente condições favoráveis às corporações, e a seus “banqueiros sem capital”, como diz o Nassif (mesmo precisando ir ao “limite da irresponsabilidade”) e com isso modernizou o capitalismo brasileiro.

Lula enfrentou o terrorismo do Deus Mercado mesmo antes de vencer as eleições; aceitou a intimidação e manteve o mesmo comportamento dos monetaristas, obcecados com metas de inflação e pagamento da dívida, em prejuízo dos investimentos necessários. Ainda assim, uma nova farra de crédito mundial, e o preço das comódites, garantiram boas taxas de crescimento. O ingrediente realmente novo da fórmula foi o impacto indireto que a política de renda mínima (essencialmente social) teve sobre a economia, fortalecendo o mercado interno. A crise política do assim-chamado mensalão (e adjacências) foi um mal que veio para bem, permitindo defenestrar Palocci et caterva, para dar vez aos desenvolvimentistas como Mantega e Coutinho. Bastou garantir um segundo termo para, ao contrário do antecessor, passar a investir. Graças ao impacto do PAC, à inércia do Bolsa Família e aos ganhos do mínimo, aos apelos ao consumo e aos cortes de impostos, o Brasil lidou bem com uma crise mundial de grandes proporções, não superada até hoje.

Pois se a economia vai bem, e os indicadores sociais dão sinais de reação (o que diferencia este do outro milagre), é motivo de celebrar, mas certamente não é conveniente deixar-se levar pela euforia, que a própria publicidade oficial anda estimulando (“o país do futuro virou o país do presente”). Um momento de prosperidade como este tem a propriedade de ofuscar as mazelas estruturais. Corro sem constrangimento o risco de ser tachado de pessimista, e já consigo ouvir a expressão “síndrome de vira-lata”, mas acho saudável lembrar aos partidários do “Brasil-Potência” que:

* Um novo tombo da economia mundial pode atrapalhar nosso avanço.
* O Brasil depende de produtos primários, cujos preços podem e vão oscilar.
* Nunca produzimos um único transistor, e ser dependente em alta tecnologia é ser subalterno.
* Há o gargalo da infra-estrutura, o chamado “custo-Brasil”, a emperrar uma real pujança capitalista.
* A falta de ferrovias e hidrovias, com dependência do modal rodoviário é belo exemplo.
* A burocracia é talvez a herança lusa que mais se faz sentir, e desestimula o investimento
* Grandes empresas conseguem “facilidades”, enquanto os micro, pequenos e médios penam para sobreviver.
* A corrupção é de fato endêmica (adjetivo que já gerou mal-estar com os gringos) e não dá mostras de cansaço. É bem verdade que a investigação tem avançado, mas a punição ainda é virtualmente nula.
* Os setores conservadores da sociedade, que lucram com sua injustiça e não querem nem pensar em democratizar de fato o país, são ainda muito poderosos e eficientes “formadores de opinião”.
* O Brasil deixou de ser o segundo país mais desigual: é o sétimo.
* No que diz respeito a Terra, ainda somos o segundo lugar em concentração, primeiro em uso de agrotóxicos, e ainda exultam o agronegócio como motor de nossa economia.
* Estamos na posição 75 da lista de Índice de Desenvolvimento Humano: mesmo sendo considerado alto, o IDH 0,813 é menor do que o de Trinidad e Tobago, ou o de Cuba sob embargo, ou o dos vecinos do cone-sul Argentina, Uruguai e Chile e mesmo o da atrasada Venezuela. E não consta que sejam potências.
* Temos, quase sem exceção, uma polícia ineficiente, corrupta e violenta, em especial contra os mais pobres.
* A violência urbana não é mais exclusividade das grandes metrópoles, onde se transformou em deflagração aberta.
* O pior de tudo, a educação brasileira vai de mal a pior. Uma lista recente põe o Brasil em 88º, e estão no ensino médio menos da metade dos que deveriam.

Um estudo, nada desinteressado, do Ipea, apontou que por volta de 2016, poderemos ter indicadores sociais a ombrear com os países desenvolvidos, a se manter o ritmo atual de redução da desigualdade. É bom saber, e resta esperar que se cumpra. Eu acredito que podemos, mas a renda mínima uma hora se esgota: dependemos de geração de empregos e escolaridade para aproveitá-los. Os recursos do pré-sal, quando começarem a pingar, podem ajudar muito ou atarpalhar um bocado: podem anestesiar o ímpeto produtivo (como na Venezuela ou na Nigéria, mal comparando), e podem ser desviados para o enriquecimento ilícito; além disso, não se pode saber em que ritmo se dará a extração. Quanto aos dois eventos internaconais que gostam de usar para ilustrar a “década do Brasil” – Copa e Olimpíada -, serão puro circo, com elevado risco de vexame internacional  – ao se revelar nossa crônica desorganização-, e garantia de dinheiro público indo pelo ralo; mas ainda é bacana tê-los por aqui, mesmo não deixando impactos duradouros significativos – um trenzinho aqui, um estádio acolá.

Enfim, será uma década interessante de acompanhar, e pode ser que ao fim dela estejamos no primeiro time das nações mundiais, ainda que me pareça um tiro longo. Mais uma vez, tudo que peço é cautela, e atenção com a defesa pois o jogo não está ganho. Aliás, o famoso “já-ganhou” foi o que derrotou a seleção tantas vezes, a última Copa é só um exemplo; e vai representar um papel importante, ao que tudo indica, na sucessão presidencial. Afinal, como o governo em fim de mandato lança uma segunda versão do PAC?

 

Considerações sobre o Resgate Histórico

A chamada Realpolitik é a arte de obter o melhor resultado possível, mandando às favas se necessário suas convicções ideológicas. Lula vai entrar para a História como um de seus mestres. O que pergunto é: deve-se insistir na punição dos torturadores, ou se conseguirmos arrancar a liberação de arquivos e a mera exposição dos criminosos já seria suficiente? Penso que o ideal seria encontrá-los e puni-los, com prisão domiciliar que seja; lavaria a alma do país. Mas vimos a reação das Forças Armadas – que não só não se envergonham em sua atual geração, mas glorificam o regime de exceção – rechaçando qualquer menção ao assunto e insubordinando-se abertamente; ou a reação da direitona histórica, que caçou encrenca com pontos do Plano (nada inéditos) em grande medida para desmoralizá-lo por completo e evitar que se exponha a participação de capitalistas, ruralistas e imprensa na engrenagem perversa da tortura. São forças hegemônicas no país, e apenas uma mobilização popular muito grande – que não deve ocorrer – daria combustível para o córner de Vannuchi. Pois voto na realpolitik: que ao menos os arquivos (que restam inteiros), venham à luz.Imagine um irmão de dez anos que espancou covardemente o irmão de cinco; quando o pai resolve punir o agressor (tirando o picolé, ou o vidiogueime), o pestinha argumenta: “mas ele me cuspiu!”. Pois é isso que os defensores dos torturadores “argumentam”: há que se punir o que tiveram a audácia de chamar de “torturadores de esquerda”. A luta armada cometeu crimes, sim; alguns espetaculares como o sequestro do embaixador norteamericano (te cuida, Gabeira!). Mas a mesma tradição iluminista-liberal-burguesa, que os direitoides enchem a boca para dizer que defendem da ameaça comunista – como ocorreu no golpe, por exemplo -, reconhece o direito à insurreição contra um governo tirânico. Além do quê, é um desrespeito a quem já tanto sofreu sob os arrogantes representantes de um aparato estatal criminoso (e crime estatal é muito mais grave), e à memória dos que foram mortos e desaparecidos. Vão interrogar as ossadas de Perus? Se a Comissão for só investigativa, não há por que se opor ao esclarecimento das ações armadas, mas o risco de inverter a intenção original, dependendo de quem coordená-la, ou influenciá-la, não é desprezível.A Lei de Anistia de 1979 foi escrita para encerrar a repressão política, isso é claro e indiscutível. Mas eles marotamente enfiaram a expressão “e crimes conexos” que de tão vaga pode se referir a uma lesão corporal suscitada por uma discussão política acalorada ou às multas de trânsito do carro do MR-8 durante um assalto a banco; mas foi enxertada para conceder uma auto-anistia, o que simplesmente não existe, e assim se pensou nos vecinos do cone sul. Então pode o Direito aceitar que um criminoso brutal perdoe a si mesmo com uma canetada? Fica para o pessoal que voltou de Coimbra: Brossard (que não quis o golpe, mas o julgava inevitável) diz que sim, Comparato (comprometido com a democracia e com os direitos humanos) garante que não. Mas ninguém se iluda: a disputa não é doutrinária, é política. E vale a correlação de forças que apontei acima.Apenas um aparte: é louvável a iniciativa da Comissão, fico feliz que isso seja ao menos posto na mesa depois de tanto tempo de “esquecimento”. Mas o Estado deve dedicar energia ainda maior a detectar e punir os torturadores de hoje: em milhares de delegacia de polícia Brasil a dentro a prática é corriqueira, e – não bastasse a crueldade indizível do ato em si – manda inclusive inocentes para a cadeia, “por engano”. Ou talvez patrões metidos a escravocratas, no campo e na cidade; o atual diretor da PF, L.Fernando Corrêa, por exemplo, é acusado de torturar até a cegueira uma doméstica. As vítimas da tortura hodierna (e odiosa) não são jornalistas ou idealistas de classe média, pertencem à população “invisível” que não saberia começar a cobrar seus direitos. O problema é conhecido, e certamente está contemplado no Plano, mas a disposição em combatê-lo ainda parece tímida; num país que tem comissões parlamentares para apurar desde o desaparecimento do último croquete até a anomalia na precessão de saturno, este assunto nunca foi por elas abordado.

Caçando Encrenca

Geralmente o período que vai da metade de dezembro à metade de fevereiro é morno e sem graça, sem notícias. Esta virada foi atípica e cheia de escândalos, crises ou pseudocrises, além dos tradicionais desastres naturais. Bem, abordei boa parte desses assuntos, acho que só falta falar sobre a encrenca dos caças.Fica difícil escrever sabendo tão pouco sobre cada projeto (ou sobre qualquer outro assunto) e desconhecendo as razões e os critérios da Aeronáutica; resta lançar mão do que li por aí e de meus dotes reconhecidos de palpitologia.Primeiro: o projeto de modernizar a frota da FAB (e do submarino nuclear, que deixo por ora de lado) é antigo, tem ao menos dez anos, e apenas tomou corpo agora – sejam quais forem as motivações políticas ou geopolíticas de Lula. A necessidade das compras é, obviamente, uma unanimidade no meio militar. Portanto, não se trata de megalomania presidencial ou síndrome de potência.O projeto americano, F-18 Super Hornet, deve ser tecnicamente muito bom, mas certamente de escalão inferior no impressionante aparato militar dos godemes. Ele é uma reformulação já meio antiga de um projeto ainda mais antigo, o F-14 Tomcat, e já foi suplantado pelo F-35C. É óbvio que representa o interesse imperialista ianque, e não sei como parece não haver lobby mais forte por sua adoção: é visto como carta fora do baralho desde o início. Talvez por uma das múltiplas faces de Lula ser anti-EUA.O francês Rafale é o queridinho do Planalto, e foi imprudentemente anunciado vencedor antes da hora. Seu trunfo é a promessa de transferência de tecnologia, o que tem aspectos muito bons: é interessante reduzir o fosso tecnológico em todas as áreas, e geraria emprego. A parceria com a França é considerada uma boa opção geopolítica: é potência mas não a superpotência. Pessoalmente, não me agrada a ideia de ver o Brasil exportando armas de guerra para os vecinos. Pesa contra ele o preço, e o curioso fato de não ter vendido uma única unidade: só os Emirados Árabes Unidos e a terra dos Brusundangas se interessaram.Já o sueco Gripen NG foi o selecionado pela Aeronáutica, o suficiente para que a mídia instaurasse uma “crise” no governo: o Planalto se indispôs com as Forças Armadas mais uma vez, ou Lula prefere o Rafale por “capricho”. O que já se disse: a aeronave é um frankenstein com fornecedores em diversos países, inclusive com turbinas GE (segue a dependência dos EUA); aliás, uma só, e eu aqui não ando de monomotor; o avião é um projeto e nunca saiu do papel, o que é grave; e também o preço considerado – e deu-se grande peso a esse quesito – não incluiria os armamentos. Talvez o lobby gringo desistiu do F-18 e viu no Gripen um bom plano B, pois aparentemente não dá para entender a opção da caserna.Posso dizer que minha opinião aqui é a mesma dos pontos de vista principista e pragmatista. Por princípio, um pacifista só pode ser contra a compra de armamento; e pragmaticamente parece óbvio que, além de haver coisas muito mais importantes, e mesmo estratégicas, que poderiam ser feitas com essa grana – como ferrovias, por exemplo – e não se vislumbrar nenhuma ameaça iminente a nosso território, o quadro que se oferece é que não há nenhum bom concorrente: um representa submissão à Águia, outro é caro e duvidoso e outro é muito duvidoso. Não é boa hora de comprar; já que é necessário, que se aguarde a grana do pré-sal e uma opção viável e segura. Sugiro a Lula que opte por ora pelos caça-palavras: dá uma turbinada no vocabulário (que não é nada mau) e ainda serve, depois de completo, para confeccionar simpáticos aviõezinhos de papel para defender os jardins do Palácio da Alvorada.

O Vilão da Vez

O tema agora é o câmbio: a enxurrada de dólares invadindo o país que melhor resistiu à maior crise do capitalismo de 29 está bombando o Real a cotações que prejudicam as exportações. A taxação de 2% de IOF sobre capitais estrangeiros foi uma grande medida, mais num sentido de justiça (a ATTAC deve ter adorado) e de arrecadação do que de efeito cambial. Estamos atrativos demais!
No blog do Nassif, , o artigo (post, se quiser) Os Preparativos para a Guerra do Câmbio começa com a frase: “O último grande desafio do governo Lula será romper com a lógica da política monetária e cambial.” Faz algum sentido porque Lula tem pouco mais de um ano. Mas o leitor Marcelo Pessoa argumenta: “Eu não concordo com essa lógica ufanista do “último grande desafio do governo Lula”. Houveram [sic] vários outros que não foram resolvidos e que ainda se configuram como “desafios” até o final deste governo.” Ora, Nassif não disse que Lula havia resolvido tudo mais, não pode ser acusado de ufanista; mas esse é um perigo real.
Eis o meu palpite:
O maior desafio é evitar que desperdicemos esta formidável janela histórica porque a incompetência, a corrupção e os interesses estabelecidos venham a impedir a construção de um país mais justo, moderno e soberano. E Lula não quer desagradar a ninguém, por isso não faz uma reforma agrária mais ousada. Outro desafio, portanto, é a representatividade no Congresso das forças transformadoras. Outro desafio é implantar um modelo desenvolvimentista com uma preocupação de sustentabilidade, de minorar o impacto da atividade produtiva; manter a floresta em pé o máximo possível, e dando meios de susbsistência e renda aos locais, abandonados hoje ao arbítrio de coroneis locais… Os desafios são tantos que fazem as significativas conquistas alcançadas encolherem um pouco, lembrando-nos da importância de evitar o oba-oba.
O câmbio é uma questão de política econômica, crucial, mas outras dimensões econômicas, sociais, P&D, educação e tantas outras, constituem frentes, desafios, a serem enfrentados com ações concertadas, e não um conjunto de pacotes e programas com marketing político por cima.
E esta última crítica não vale apenas para o atual governo, obviamente.

O Tripé para o Brasil

Minha humilde sugestão é um tripé que ataque as principais deficiências do Brasil. 1- Reforma agrária, planejada estrategicamente, considerando potencialidades locais e o interesse nacional – aqui uma cooperativa de mamona, ali alimentos, acolá algodão e mais adiante caprinos, etc. É preciso: muita coragem, e grana do tesouro para indenizações. 2- Malha ferroviária: reduz o consumo de diesel, as emissões de CO2, os acidentes nas rodovias e sua necessidade de reparos constantes. É preciso: capital (público e privado) e tecnologia nacionais – o Brasil já fabricou vagões numa escala razoável, hoje está parado; não sei se fazemos locomotivas. 3- Microcomponentes. Um dos fatores de sucesso da China é que ela não apenas monta eletroeletrônicos como nós, lá se fabricam os chips, placas, processadores, dicos rígidos, etc. Há que se investir em pesquisa para diminuir a dependência tecnológica (detalhe: um projeto de fabricar microcomponentes brasileiros foi sabotado por mercado e governo nos anos de chumbo). Mas por ora atrair uma empresa estrangeira é o mais viável, portanto é preciso: capitais e tecnologia extrangeiros, e atrativos fiscais.
Cada uma das metas esbarra em interesses estabelecidos, resta saber a disposição do governo a entrar em 2011 em quebrar estruturas de privilégio para perseguir o máximo potencial desta enorme nação.

A Madeira da Amazônia

 A Folha hoje traz na manchete algo que até os mascates do Ver-O-Peso sabem: a madeira da Amazônia é extraída de forma ilegal. Se o objetivo do veículo é ferir a governadora petista do Pará, ou não, é outra discussão. Meu tio que morou no oeste do Maranhão dizia que “só o que se vê é caminhão de tora”, e o que se diz é que, nos postos de controle, “o documento aparece”. Então as manchetes deveriam ser “Corrupção está minando a Amazônia”. Mas ora, se o tráfico de substâncias ilícitas corrompe porque é uma atividade muito lucrativa (tendo a vantagem de um volume muito menor a ser contrabandeado, e mais rotas), por que o mesmo não ocorreria com a madeira? Madeira nobre, que vale uma fortuna, e que o Brasil nem se tentasse consumiria no ritmo em que é extraída. Quem compra então, senão extrangeiros? Será tão difícil fazer um levantamento das madeireiras lá atuando? Ou não se quer descobrir que são as mesmas basicamente que devastaram a Indonésia? O consumidor norteamericano e europeu, exige madeira certificada? Botar a culpa nos ladrões de madeira que são meros peões de um sistema maior é muito fácil. Em Rondônia, todos sabem que o famigerado Ivo Cassol (governador cassado e descassado) lucra com a extração ilegal de madeira e diamantes (da maior jazida do mundo!). Não merece uma reportagem investigativa? O caso dos diamantes saiu na página 4 ou 5 da Folha, há tempos, e morreu de inanição.

Combate à corrupção, sistema eletrônico de autorizações, militarização da questão (ainda que um tanto perigosa), e a criação de uma estatal de manejo florestal e desenvolvimento sustentável, extrativista e includente (em vez de conceder áreas a grandes grupos privados ou permitir que latifundiários lucrem com a floresta), são o caminho, ou minhas sugestões. E um estudo sério de como, por quem, e para onde, a madeira está sendo escoada. Esta tarefa a imprensa poderia tomar para si. Se não fosse covarde.

Os Androides do Status Quo

Todos nós já vimos um. Eles estão em toda parte. Muitos de nós somos um deles, sem saber. E aqueles de nós que veem a realidade sem as lentes coloridas da mídia certamente já se enfureceu com um deles, enquanto eles mantinham uma calma suspeita.

São os androides do status quo. Essa é uma categoria de autômatos, programados para agir e pensar como seus programadores determinam. Um androide está pronto a repetir os mesmos proto-argumentos por toda a superfície do país e do mundo. Está pronto a repetir uma mesma frase sempre que ouvir determinada palavra. Androides são incapazes de diálogo, nunca consideram o interlocutor. Pior, foram programados para desmoralizar o interlocutor, bagunçando o debate – que é terreno hostil. O hardware dos androides trabalha com lógica positiva: eu estou, e sempre estarei, certo. Um sinal zero da variável dispara mecanismos de auto-defesa pró-ativos. Ou seja, mecanismos de ataque. Pessoal.

Os androides do status quo não necessariamente se beneficiam com ele, são muita vez suas vítimas, mas como não se cuidou para que fossem plenamente humanos, aderem à programação neuro-linguística do sistema operacional. Como apontou o sociólogo Sebastião Rodrigues Maia [Maia, 1983, pg.75].

Os androides são fabricados pelo método convencional (por enquanto), e crescem em sociedade, livres, normalmente, como um ser humano. Mas as técnicas do sistema operacional Capitalismo 2k9 fariam inveja ao Aldous Huxley: cada androide tem dois pares de receptores que captam ondas eletromagnéticas e/ou acústicas; essas ondas seriam processadas por um fantástico aparato que, se não é o último grito da tecnologia, tem tido seu uso controlado por lei específica pelo perigo que representa. Há hoje brechas na Matriz, e as forças leais ao status quo se viram obrigadas a combater no mesmo terreno o sinal pirata.

As últimas notícias dão conta do refluxo dos androides ante a resistência humana, e analistas acreditam que a reação do sistema operacional ainda é tímida. Teme-se a derramada de sangue, e dizem que o software da guerra civil está nos estágios finais de desenvolvimento, prestes a ir ao mercado. Alguns sinais de emissoras e repetidoras já trazem um marketing agressivo para o produto.

Caridade vs. Conservadorismo

Eu entendo que a caridade é uma virtude cristã muito prezada, e que quem a pratica geralmente o faz com ótimas intenções. E que há uma diversidade de circunstâncias em que a caridade é feita.

Mas falemos especificamente da caridade das pessoas ricas; as que têm dinheiro de sobra. Essa gente que dá roupas, calçados e brinquedos usados para “amenizar a penúria dos pobres”, ou que doa a uma entidade assistencial, e repete o “não dê esmola” por aí. São pessoas geralmente (ou sempre) conservadoras. Pois bem, conservador é alguém que prefere que as coisas sigam como estão, com meia dúzia de mudanças lampedusianas; ocorre que se incluem nas coisas a conservar: a desigualdade de renda, a fome, o analfabetismo, o trabalho degradante… a pobreza enfim.

Então os ricos caridosos são rematados hipócritas? Não por isso, a definição de hipócrita do evangelho não se aplica aqui: não se recusam a adotar para si critérios com que julgam os outros. São apenas contraditórios. Mas, ainda assim, seria melhor se passassem a reconhecer que apenas precisam se livrar da roupa velha, ou só doam porque podem abater do imposto. Sem esquecer o índice de picaretagem das entidades, nada desprezível.

Ou então, e fica a sugestão muito séria, reúnam-se todas as doações em fundos que invistam em escolas profissionalizantes, infra-estrutura para a população humilde (a partir de sua própria demanda), cooperativas que gerem emprego, e outros benefícios mais duradouros que uma camiseta furada.

Não basta dar o peixe, é certo; e não se trata de ensinar a pescar: eles não passam fome por incompetência. Há que se dar vara e anzol (qualquer um aprende a pescar) e é preciso que não haja alguém pescando com dinamite no rio.

Ter Grana é Antiético?

Em artigo recente, apontava como uma contradição em termos a caridade das pessoas ricas e conservadoras. Pois, se querem ajudar os pobres, não podem ser pela manutenção do quadro social.Mas eu mesmo sou frequentemente “acusado” de contradição parecida. Que sejam meus 3 leitores, se muito, os juízes. Usem a caixa de comentários: inocente ou culpado. O crime que me atribuem: pensar à esquerda e ter grana.

A acusação não pode ser descartada com desprezo. Quem pensa que é injusto alguns privilegiados abocanharem a maior parte da renda, entra em contradição se é exatamente um deles. E isso é o bastante para gerar um conflito interno na mente do esquerdista rico.

Mas a argumentação é falaciosa. Se nossa sociedade prega o sucesso pessoal como meta, e funciona na base do cada um por si, quem é que pode ser cobrado por conquistar um bom nível de vida, tendo sido a conquista honesta? Só mesmo um asceta vai escolher a pobreza deliberadamente. Mas, diferente de ganhar bem, e ter um automóvel, um imóvel, é viver no desperdício e na ostentação, no mundo frívolo que é disseminado como o ideal, pela televisão. Isso complicaria a situação do réu. Como o faria, por exemplo, detestar guardador de carro e pedinte, coonestar o extermínio policial e parapolicial em nome da faxina etnossocial. Finalmente, ninguém deve ser obrigado a adotar o ideário adequado à camada social (ou estamento) em que nasceu e vive. Talvez isso fosse até bom no Brasil – onde, já dizia Tim Maia, pobre é direita; teríamos rapidamente uma revolução, coisa que nunca ocorreu nos tristes trópicos, apesar do abuso da palavra.

Uma esquerda deve ser composta de inúmeras tendências necessariamente: enquanto a direita diz “concordo”, quem diz “discordo” deve propor alternativas, que são virtualmente ilimitadas. Por isso a pluralidade é marca da esquerda e a representatividade de diversos setores da sociedade – e o grau de concerto entre eles – são o segredo da mudança. Obviamente, uma esquerda só de operários seria melhor que uma só de intelectuais, mas nenhuma delas vicejaria.

Resenha Sobre Tratado da Terra do Brasil

Os portugueses que chegaram na frota de Pedro Álvares Cabral – dentre os quais o primeiro “escritor brasileiro”, Pero Vaz de Caminha –, e nas primeiras expedições até 1530, cumpriam a tarefa de um um verdadeiro reconhecimento do terreno. Não à toa, o trabalho de Pero de Magalhães Gândavo e do pioneiro seu xará são classificadas como Literatura de Informação. Informavam a Coroa sobre a paisagem, os habitantes originais, a fauna e a flora, mas principalmente sobre as riquezas e potencialidades da “Terra de Santa Cruz – a que vulgarmente chamamos Brasil”. E assim preparavam a empresa colonial: exploração mercantilista associada à justificativa oficial de catequização dos gentios. Gândavo produziu uma peça de propaganda. Assim, essa Literatura de Informação brasileira é controversa, tanto quanto a seu caráter literário quanto a seu caráter brasileiro.
Gândavo dedica o Tratado da Terra… [do] Brasil ao “mui Alto e Sereníssimo Príncipe Dom Henrique, Cardeal, Infante de Portugal”, o que era normal a qualquer obra nos padrões da época, mas especialmente verdadeiro para a Literatura de Informação. E seu objetivo declarado, já no Prólogo ao Leitor é “denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil”, conclamando os pobres de Portugal a adotá-la como sua terra (muitos “aceitariam” o convite forçosamente: para cá foram degredados). Mas o Tratado Primeiro parece muito um panfleto turístico: descreve as Capitanias de Tamaracá, Pernambuco, a da Bahia de Todos os Santos – a mais populosa então, e que receberia a primeira capital, Salvador -, e a dos Ilhéus; sempre cuidando de descrever os rios (como bom estrategista militar). Passa (com a mesma intenção) a descrever os hostis Aymorés, diferentes dos demais índios (os tupinambás a que estavam acostumados), e que se estendiam daquela capitania (Ilhéus) até o Espírito Santo. Segue descrevendo Porto Seguro, Espírito Santo, Rio de Janeiro e por fim, São Vicente. Sua propaganda é persuasiva: “E por tempo hão se de fazer nelas grandes fazendas: e os que lá forem viver com esta esperança não se acharão enganados”, diz sobre o Rio.No Tratado Segundo, versa sobre “as coisas que são gerais por toda Costa do Brasil”: sobre as fazendas da terra, assevera que “os moradores… todos têm terras de Sesmarias”, e lamenta que as fugas de escravos, e os índios “fugitivos e mudáveis” impeçam maior prosperidade. Fala da abundância de bois e vacas, e da falta de cavalos. É mais um homem de negócios que um literato. Sobre “os Costumes da Terra”, garante que com dois pares de escravos faz-se seu sustento; informa que se dorme em redes, costume dos índios; que aqui se gosta de ajudar aos pobres e fazer obras pias (a semente do homem cordial do Sérgio Buarque). Debruça-se sobre a geografia local, a qualidade da terra (que a cana esgotaria), e os frondosos arvoredos sempre verdes. Avisa que não se planta trigo, e come-se farinha de mandioca; mas que há muito veados e porcos a se caçar, além dos tatus, a melhor das caças; descreve as “fruitas”, em especial os ananases (abacaxi), os “cajuis”, as bananas com que se sustêm os escravos, e a infinidade de laranjas e limões. Passa a descrever os “bárbaros gentios” e seus costumes: são contrários uns aos outros, graças a Deus, pois sem isso não poderiam os portugueses conquistar a terra; mataram-se muitos, muitos fugiram e ficaram na costa apenas os “de paz”; não têm as letras L, R, ou F, portanto não teriam Lei, Rei ou Fé, vivendo desordenadamente (escusado comentar o etnocentrismo e a falácia do pseudo-argumento); andam nus, vivem em aldeias, obedecem ao líder por vontade e não por força, nada adoram, nem creem em outra vida; são belicosos e vivem em guerra, usam arco-e-flecha, e tomam prisioneiros; Gândavo descreve em detalhes o ritual antropofágico (dos tupinambás); menciona seus adornos; descreve o (que parece ser) homossexualismo feminino, que é aceito (e o “civilizado” Ocidente luta por aceitá-lo até hoje). Gândavo guarda o melhor para o fim, informando a el-Rei da existência de esmeraldas e ouro na Capitania de Porto Seguro.Como vemos, o Tratado é uma peça de propaganda aos colonos em potencial, e também uma de estratégia militar: descreve o terreno e o inimigo. É uma ferramenta do imperialismo português, e essa visão não apenas invade e permeia uma obra literária: ela engendra e justifica uma obra utilitária.

Natureza, Política, Mídia e Blogosfera

Há uns 100 ou 200 mil anos surgiu (a menos que você seja criacionista) na face deste formidável planeta uma espécie que tinha algo diferente: através de suas inéditas faculdades como linguagem e polegar opositor, o ser humano foi-se espalhando, dominou a agricultura e domesticou animais e enfim veio a acreditar que tudo em volta foi feito para ele morar, servir-lhe de alimento e fonte de energia.Mas por muito tempo houve enorme respeito, veneração mesmo, pelas forças da natureza – identificadas como divindades. Foi o triunfo da civilização racional cartesiana que trouxe a visão da humanidade como centro de tudo, e da natureza como algo externo. Por isso temos que ouvir hoje a tremenda bobagem que é a expressão “a fúria da natureza”. É a manchete preferencial quando ocorre qualquer desastre natural: furacão, enchente, vulcão, maremoto… tudo é creditado ao voluntarismo da Natureza, numa espécie de reminiscência panteísta inconsciente.Mas todo esse preâmbulo é na verdade para discutir o modo como nós – em especial os brasileiros “bem informados” – lidamos com esse tipo de fenômeno. Estando quase todo na faixa tropical, nosso país – ao contrário do que se alardeia – está sempre sujeito a eventos naturais de monta, especialmente chuvas de grande intensidade com as inevitáveis enchentes.E eis que mais uma vez, em mais um verão, há fortes chuvas com alagamentos e desabrigados, quedas de encostas, e mortes. E dá-se início a disputas políticas, ou melhor dizendo, comportamentos espúrios na mídia tradicional e na blogosfera. Justamente o que me incomodou e me impeliu a escrever este mal-ajambrado artigo: ver gente celebrando as mortes por acontecerem em estados ou cidades administradas por políticos do campo ideológico (se é que podemos usar essa palavra) contrário. Reitero aqui uma crítica aos ambientes opinativos da rede: viram uma briga de torcida estúpida; este é só um sintoma.Creio que se trate de um assunto complexo, em que cada caso deve ser analisado dsapaixonadamente. Mas, em linhas gerais, penso assim: as causas primárias – o fenômeno metereológico – estão além do controle humano, mas nem por isso podem ser ditas imprevisíveis; o impacto do fenômeno na população humana, esse sim, pode ser previsto, e pelo menos minorado por ações preventivas; por fim, acontecido o pior, a ação do governante para amenizar o sofrimento é indicadora de seu respeito aos governados.Tomemos três casos desta temporada de chuvas. Os alagamentos em Sampa: a “grande mídia” de fato fez tudo para poupar Serra, mas a dada altura alguém comemorou por SP ter ultrapassado o RS em mortes; ora! Circula também na esquerdosfera a denúncia de que o Governo do Estado optou, fechando ou deixando de fechar uma comporta, por alagar a Zona Leste, poupando as marginais. Isso é gravíssimo, e ou é leviana a “grande mídia” ao ignorar o assunto ou é leviana a denúncia mesma. Entre o fogo cruzado da disputa político-midiática, sofrem os moradores com uma inundação que já dura mais de um mês. Uma hipótese, bem crível, que se aventa, é que a intenção da administração seja expulsar os moradores pobres, como na área destinada ao Parque Várzeas do Tietê. É um comportamento comum na Terra de Vera Cruz, e a Revolta da Vacina no Rio foi em grande parte pela “reengenharia” urbanística que impunham à cidade. Mais uma vez, a mídia é cúmplice, repetindo a cantilena que criminaliza as pessoas que foram morar em determinada área – quando deviam salientar que nunca houve política habitacional -, silenciando sobre o mau uso do terreno para obras viárias, isto é, as marginais, e endossando a política de expulsão cuja contrapartida são discutíveis benefícios pecuniários.Já quanto à tragédia em Angra dos Reis, tivemos – até pelo período de “recesso” de notícias – o maior sensacionalismo de todos: repetição das imagens ad nauseum, sentimentalismo barato… Eu disse Angra? Troque por Ilha Grande, o caso da pousada para gente com grana – as quedas de encosta no continente foram quase esquecidas. Que dizer aqui, é um caso emblemático: é preciso que aconteça um desastre para repetirem que “é área de risco”, “a estrutura geológica é frágil”… ora, não se sabia isso antes? O que foi feito? Uma lei para abrir as pernas no licenciamento ambiental, sem falar nas maracutaias que foram alvo de recente operação da Polícia Federal; ou seja: interesses capitalistas de um lado, e uma premente necessidade de outro, levam a edificar em áreas sabidamente de risco, e isso é tudo culpa (por omissão) dos governantes – e não só os atuais, obviamente. É uma cultura, uma lógica instaurada; pode-se tentar colar o problema no Sérgio Cabral – e parece que a mídia está disposta a fazê-lo – mas daqui a dez ou vinte anos aposto que teremos o mesmo problema.Tenho especial carinho por São Luís do Paraitinga, onde passei a virada do ano passada: cidade simpática, caipira e moderna a um tempo, lugar de tradição, cultura, natureza e história. Terra do Saci (embora isso seja um enxerto recente), do carnaval de marchinhas, do rafting e do exuberante Parque da Serra do Mar (Núcleo Santa Virgínia). Pois, se parece que não houve vítimas fatais, a tragédia de São Luís é enorme, e mesmo quando o rio baixar e as pessoas retomarem suas rotinas, a igreja matriz e outros prédios históricos foram perdidos. Não tenho conhecimento tácnico para dizer se a tragédia podia ser evitada. Há que se considerar (o mesmo valendo para Angra) que a Serra do Mar é a zona de maior pluviosidade do país. Mas se sabemos disso – e em 2008 já houvera enchente – duvido que a engenharia não seja capaz de dar uma resposta ao problema, até porque o Paraitinga também é represado (há uma usina em Paraibuna, se não me engano). O governador apareceu para fazer marquetingue político, e cometeu a indelicadeza de prometer o Carnaval, além de não assinar o decreto de calamidade pública. A mídia ficou sobrevoando de helicóptero para a revolta dos locais. O destaque ficou para o pessoal do rafting, que com sua prestatividade fez o contraste a este festival de insensibilidade.Enfim: muitos sofrem, alguns morrem, entra ano, sai ano, e segue a mesma caravana, até os cães já são previsíveis. Vai continuar chovendo muito nos lugares e nas épocas onde soi chover muito. O que resta saber é se um dia teremos dirigentes que se ocupem de fato dos problemas da população, e não apenas dos interesses próprios e de suas camarilhas; e também se teremos direito a meios de comunicação sérios, dispostos a passar informação aprofundada e isenta, objetiva e sem sensacionalismos ou sentimentalismos contraproducentes; por fim, espero que a blogosfera – ou seja, nós – se comporte de maneira mais madura (obviamente me refiro apenas a alguns).

Esquerda, vou ver? (em Escatologia da Libertação 2014)

Os entusiastas petistas têm se mostrado esquerdistas intransigentes nesta eleição. Coisa que os governos petistas absolutamente não foram. Calma, gente. Isso não é uma ofensa. Se vai seguir lendo, vamos moderar os ânimos. Há vários temas a serem debatidos para avaliar a conduta do PT, quero me ater a um, a política de drogas.

Mas Marx não falou sobre drogas! Claro que não, escreveu no século XIX! Meu humilde objetivo é mostrar, em poucas linhas, que todo esquerdista deveria ser pelo fim da guerra às drogas. Não tanto pelo absurdo que é privar um indivíduo de dispor do próprio corpo, mas pelo simples fato – que está tão na nossa cara que é difícil perceber – de que essa guerra faz muito mais mal que o mal que se pretende combater.

Dilma prometeu endurecer o combate. Isso é grave. É o resultado da busca incessante pelo voto do “eleitor médio”. Ah, mas se ela defendesse a legalização, o Aécio venceria. Provavelmente. Mas não é mera estratégia. Acredito que ela vai ganhar, e acredito – com pesar – que não haverá avanços nesse setor que não venham da sociedade civil ou do STF (que legisla, já que o executivo domina a pauta do Congresso).

O exército está ocupando áreas desta cidade onde escrevo (os Complexos da Maré e do Alemão são perto o bastante para que eu escute os tiroteios). Em nome de… costumes. Quando é que tanques vão coibir o jogo e a fornicação? Isso não é uma sugestão, é uma amarga ironia. Essa guerra afeta mais diretamente os pobres, é classista; afeta mais aos negros, é racista. Não há um esquerdista coerente que não queira combater esses dois males.

Sobre os efeitos e os riscos das substâncias, há toda uma discussão a ser construída, até para que a população seja esclarecida, vítima que é de décadas de campanhas de desinformação e medo. Você aí lendo pode ajudar, não tendo receio de abordar o tema em público, para começar. Informando-se, disseminando essas informações. Não espere que a presidenta o faça, não o fará.

 

Questão de Valores

O adjetivo que mais gostam de impingir a meu candidato a presidente, Plínio de Arruda Sampaio, é (talvez depois de “engraçado”, dado seu tom mordaz, às vezes jocoso, nos debates) radical. Nós não rechaçamos essa “crítica”; na verdade, não enxergamos crítica (ainda que seja de fato quase um insulto para o emissor), pois enxergamos a sociedade brasileira como intrinsecamente injusta (o que programas de renda mínima estão longe de mudar, ainda que essa discussão vá longe), e postulamos que apenas mudanças radicais trarão uma sociedade mais igualitária.

Há a questão da reforma agrária, por exemplo, que é de fato crucial. É um tema que andava, desde a redemocratização (ou détente) até a Constituinte, pela boca de peessedebistas quando eles aprendiam ainda a voar e pudessem talvez ainda merecer a sigla de social-democratas; do doutor Ulisses Guimarães, quando seu partido pudesse ter alguma honra; e obviamente do PT, quando a estrela era uma divisa e não apenas um logotipo. À medida que chegavam ao poder, todos esqueciam rapidinho do que haviam dito. Por que será? Devo lembrar que a pauta exportadora brasileira é (e tem sido ainda mais ultimamente) baseada em produtos primários? Que o coronelismo ainda grassa pelo interior da maior parte do país? O presidente da república parece ser pequeno ante esse poder dos 1% dos proprietários que abocanham 46% da área cultivada. Pelo menos quando se opta pela “virtude da moderação”.

Mas minha intenção ao escrever era desde o início abordar a questão da educação. A proposta do PSol é a educação 100% pública. Isso é visto como um absurdo completo pela mentalidade neoliberal (ainda que não o seria pelos liberais originais, como demonstrarei), pois vê-se o direito sagrado, não aquele de todos cidadãos terem uma educação equivalente, mas aquele de um empresário lucrar com ensino. Mais que isso: talvez não se admita, mas o que o Brasil de cima vê mais ameaçado é o privilégio; a clivagem entre o Brasil que vai ter os melhores empregos e os que terão subempregos, se forem muito perseverantes. Por fim, nunca interessará à reduzida “elite dirigente” que pessoas sejam realmente educadas e conscientizadas, mas apenas treinadas – e  de acordo com a clivagem mencionada, algo como a distopia de Huxley.

Mas, na prática, dá pra fazer? Sim. É um desafio, por certo, que só se completará com a aderência de todos atores envolvidos. Pelo que eu entendo, haveria uma confluência pela qual a estrutura atual particular seguiria funcionando, mas assimilada pelo Estado. E obviamente, todo o investimento necessário para melhorar a rede pública seria feito – para isso a reserva de 10% do PIB para a Educação – até que as duas redes se integrassem. Não é impossível e certamente já foi feito.

A questão é saber que valores o brasileiro quer ostentar, se os de uma sociedade estamental – que vive, sim, até hoje – tais como são bombardeados pelos meios de comunicação que fazem mesmo o oprimido pensar o que o patrão quer, ou se nos atualizaremos (de fato, não apenas no discurso) até aqueles da Revolução Francesa, pelo menos. Igualdade não combina com duas categorias de escola. Fraternidade não existe quando uma criança teme a outra, que de sua parte ou inveja ou odeia e eventualmente talvez roube a outra. E Liberdade não existe quando o futuro é decidido cedo, fazendo da pobreza hereditária.

Joguete da Direita é o Escambau

Lula resolveu fazer o possível sem “balançar o barco” demais. E acabou apostando as fichas na transferência direta de renda, que é um band-aid que evita fazer a sutura da chaga social (mas mais do que jamais havia sido feito); a eleveção paulatina do mínimo teve um impacto ainda maior. Com isso houve crescimênto econômico, o que é positivo para os mais ricos, com ressonâncias inegáveis para os de baixo (temos o menor desemprego da história). Enfim, há uma transformação em curso, mas é no fim um “gostinho de social-democracia” para um povo acostumado ao amargor da penúria e da indiferença.
Mas nossa sociedade ainda é sumamente desigual (4a do mundo), a terra é concentrada (2a do mundo). Os serviços públicos – educação, saúde, segurança, transporte – são uma vergonha, nada melhoraram. Ainda há analfabetismo absoluto, e o funcional é dos maiores do planeta. Nossos alunos (mesmo os ricos) fazem feio em comparações internacionais. Não há pesquisa e desenvolvimento relevantes; nossa indústria limita-se a montar componentes asiáticos. Não foram feitas as reformas que Lula propôs: agrária, nem pensar, política, empurra-se com a barriga; tribuária, naufragou duas vezes (e nem era uma de verdade, que efetivasse enfim a progressividade, desonerasse consumo e onerasse patrimônio e renda); urbana, que é isso?; a previdenciária – imposta desde washington, ou wall street – essa sim passou (pela preocupação fiscal, e não demográfica).
Não gosto de ver o ufanismo de muita gente aqui, como se o país tivesse alcançado o primeiro mundo, o céu do consumo… Nassif ao menos critica a política econômica, a mesmo do governo anterior, aliás. O que nos faz questionar: será que é o “coiso” quem manda? O capitalismo internacional? É esse mesmo o único jogo que é possível jogar? Não sei.
Sei que é prudente elogiar o governo do PT onde couber, mas sempre com o distanciamento necessário para criticar também. Como a Caros Amigos tem feito. Por fim, lembro a categoria de Faoro, dos “donos do poder”. Lula percebeu que “se não se pode vencê-los, junte-se a eles”. Para o bem e para o mal.
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Esqueci ao menos uma: a pauta de exportação brasileira depende cada vez mais de produtos primários: soja, carne, minério. Às vezes me parece estarmos vivendo uma nova versão não do milagre dos milicos (que ao menos foi um salto em infraestrutura), mas uma da prosperidade do café. Também na época as relações sociais tinham um ganho com o fim da escravidão, guardadas as proporções, e o andar de cima fazia a festa. Que mal compare; o que insisto em dizer é que não tivemos um salto qualitativo como nação, como um maciço investimento nos serviços públicos e a reforma agrária poderiam garantir nesse duplo mandato da suposta esquerda no poder. Foi um ganho quantitativo, com as migalhas ficando mais gordas.

Tem peixe

Há alguns dias, a blogosfera gira em torno de mais um (confuso) episódio da assim-chamada pré-campanha: mais uma vez haveria petistas aloprados fabricando dossiês contra os adversários, e planejavam mesmo espionar a vida pessoal de Serra. Ao menos foi isso que nossa imprensa engajada (golpista se você preferir) alardeou.

Antes de mais nada, em uma situação como esta, é difícil engolir a narrativa de qualquer um dos lados. Não dá simplesmente pra acreditar em um veículo como a Veja, mas tomar as justificativas oficiais do PT por seu valor de face é assaz temerário. Tem peixe aí, dá pra sentir o cheiro.

Bem, o assunto começou, ao que me parece, com uma matéria do Globo, que dava conta de que o PT tinha fabricado um dossiê envolvendo Verônica Serra, filha do Vampiro. Ao que tudo indica, trata-se de um ataque preventivo ante o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., sobre todo o processo de privatização, ou “privataria”, que comprometeria Serra através do ex-tesoureiro de sua campanha e diretor do BB, Ricardo Sérgio (aquele do “limite da irresponsabilidade”), além de associá-lo a Daniel Dantas, através de uma empresa que a filha de Serra e a irmã de Dantas (presa recentemente junto com o irmão) mantiveram em Miami. A nota curiosa é que o livro (ou a investigação) parece ter sido encomendado pela equipe do Aécio, depois que começou a circular que o Vampiro ia espionar o mineiro (para saber que ele cheira pó? dãã!). Enfim, olhando só essa trama, quem precisa dar explicações é Serra. Levantar acusações, e embasadas, não é ilegal.

Já a conversa da arapongagem que supõe-se que a campanha Dilma praticaria sobre Serra, surgiu um delegado Onézio, ligado ao Itagiba, aliado de Serra, que afirma ter sido procurado para fazer o que faz: espionagem, mas que teria recusado ofendido e procurado a revista Veja. Beleza, não dá pra embarcar na da Veja, porém… Lanzetta, contratado pela campanha Dilma oficialmente para contratar jornalistas, e acusado de intermediar o “projeto de trabalho”, pediu o penico oficialmente, confirmando o episódio, com a ressalva de que ele é que teria sido procurado pelo milico, que ofereecia seus serviços. Tremendamente implausível também.

Portanto, eu não sei dizer como foi, mas houve essa movimentação para promover espionagem, algo ilegal, e isso pega bem mal para o campo de Dilma. Toutes les comptes faites, parece que não houve crime algum – se houve, são os que virão no livro de Amaury. Portanto, estando ainda mais a Copa do Mundo aí, este episódio sairá na urina, mas serve de indício para a baixaria que deve vir por aí (pelo menos um dos lados apelou). Além do mais, o eleitorado que vai de fato decidir a eleição, aquele que não se alinha a um campo, desinteressado de política, não será nunca afetado por esse tipo de acusação, então nada muda. E la nave va!

P.S.: Dilma e Serra vão jogar tanta lama um no outro que o Plínio vai ganhar no primeiro turno, quer apostar?

Então, Truco!

Quando soube que a oposição direitista estava disposta a trazer ao Brasil, na reta final das eleições, a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à lapidação por adultério no Irã, pensei logo: coitada da moça. Não bastassem todas suas vicissitudes na terra natal, seria ainda joguete político em outro hemisfério.

Falar em moralidade em relações internacionais é sempre complicado.  É difícil fugir da moralidade distorcida que Chomsky denuncia no documentário para o qual eu humildemente fiz legendas. E no livro Contendo a Democracia, que estou terminando de ler. Violações de direitos humanos praticadas pelo inimigo são crimes indizíveis, ao passo que as nossas e de nossos aliados são relativizidas, ignoradas se possível.

Essa mesma turma que queria se aproveitar Ashtiani para faturar politicamente, denunciando a crueldade da sociedade iraniana, dá apoio tácito à tortura policial e aos grupos de extermínio, que “pelo menos combatem a bandidagem” ou algo assim. Alguns, representados no Congresso por gente como Bolsonaro, nem sequer se dão o trabalho de esconder ou tergiversar. No plano internacional, apenas desafetos dos EUA são condenáveis, enquanto eles mesmos e seus aliados jamais são questionados pela mídia hegemônica. Os modos “atrasados” da Arábia Saudita, ou do mesmo Irã sob o Xá, nunca foram problema.

Eu de minha parte condeno com veemência práticas como a lapidação de mulheres adúlteras no Irã, assim como a pena de morte por injeção letal texana. Mas acho insuportável essa postura, “self-righteous” como eles diriam, do “Ocidente” de se achar o modelo de como uma sociedade deveria funcionar, e ignorar sua crueldade intrínseca, seu materialismo ganancioso, a exploração que a move, e a violência que segue, para sair apontando dedo por aí. Só a sociedade iraniana pode obter a conquista de abolir essa e outras práticas. O que não impede, entretanto, nossa diplomacia de firmar sua posição em favor dos direitos humanos.

Sendo assim, Lula falou besteira da grossa ao defender respeito às leis iranianas e ao dizer que sua interferência no caso seria uma “avacalhação”. Ele não avacalhou a Itália no caso Battisti (acertadamente a meu ver)? Pois depois dessa declaração, de repente algum assessor palaciano – o Marco Aurélio, talvez? – assoprou em seu ouvido que ele só tinha a ganhar oferecendo asilo a Ashtiani, e além do mais o Irã precisa mais do Brasil do que o contrário, e que o gesto contaria pontos junto à “comunidade internacional” – que o conciliador Lula não quer desagradar totalmente – e pavimentaria o caminho para um possível Nobel da Paz..

E Lula chamou truco em cima da oposição: se vocês querem se aproveitar da moça, vejamos quem vai se dar bem no fim.

O PT, as FARC e os Rumos da Esquerda

O mais recente episódio da briga de foice eleitoral – que só tende a piorar – é a questão em torno da relação entre PT e FARC, levantada pelo inacreditável vice de Serra, Índio da Costa, que vai dar uma força a Serra quando ele se sentir tímido demais para propalar o discurso vejístico, aquele calcado na guerra-fria.
O PT tem de fato pontos de contato com as FARC, sem que isso signifique apoio a seus métodos. A começar pelo Foro de São Paulo, reunião de partidos esquerdistas da América Latina, que inclusive rechaçou os colombianos em encontros mais recentes. Houve também visitas de emissários dos guerilheiros a líderes petistas como Olívio Dutra. Portanto, infunada de todo a “acusação” não é.
Era uma oportunidade excelente para o PT esclarecer à população a situação do país vizinho, em que ambos lados do conflito político se financiam com narcotráfico e atuam através de terrorismo, sendo a diferença que a situação faz isso com respaldo estadunidense, com representação política, e com impacto muito maior sobre a população. Sugiro a esse respeito a matéria do Monde Diplomatique “Tous les colombiens ne s’appelent pas Ingrid”. Ressalte-se que não estou defendendo as FARC, mas apenas uma informação mais completa. A guerrilha não é um bando de facínoras desalmados que praticam o mal pelo mal, combatendo as forças do bem, do angelical Uribe.
Ocorre que o PT é representante da esquerda envergonhada, que morre de medo da opinião pública fabricada por uma mídia dedicada à narrativa gringa da história latinoamericana, já que seu enfoque político é mais mercadológico que ideológico, e seu objetivo é obviamente muito mais permanecer no poder do que encampar bandeiras esquerdistas – ainda mais numa questão tão espinhosa.
Dilma diz-se “acima” da polêmica. É uma pena. Para ela, que chama o adversário para cima, e para a opinião pública, que fica privada de um debate mais esclarecedor (que, aliás, nunca foi objetivo de qualquer dos lados).
Isso nos traz à questão dos rumos da esquerda, justamente em seu aparentemente melhor momento no subcontinente. Na Colômbia, ela parte para o crime, e ressalte-se que quando depôs as armas para perseguir a via eleitoral foi atraiçoada e milhares de seus quadros foram chacinados. Na Bolívia parece viver um momento formidável, de transformação pela via democrática – mas parece por demais calcada na figura de Evo, que pode ser tentado a imitar seu ídolo Chávez, um outro líder vermelho popular, mas tirado ao caricato, e que parece pôr seu projeto de permanência no poder acima de tudo mais. Nada sei sobre Equador ou Nicarágua. Tenho simpatia pelo casal Kirchner, apesar de pouco saber sobre os vecinos do Rio da Prata, e torço por Mujica no Uruguai, embora me pareça que o antecessor Vásquez se pareça muito com… Lula, um ícone sem dúvida, mas sem nenhuma consistência esquerdista – o que se reflete na política econômica, na covardia ante a concentração fundiária e por aí vai. Não sei por que deixaram de usar uma expressão muito adequada para a América Latina, segundo a qual a região viveria uma “Onda Rosa”. Enquanto isso, partidos que não se venderam (chame-os de dinossauros, se preferir) parecem condenados à irrelevância política.

A Duvidosa Polarização Ideológica

Episódios recentes têm sugerido uma aparente polarização ideológica do debate político brasileiro. Obviamente, desde muito cada um dos campos majoritários – a situação lulopetista e a oposição demotucana – apontam o dedo para o oponente brandindo acusações, quando não ofensas, com variados níveis de respaldo na realidade. Pois se é difícil negar que o PSDB no poder seguiu a cartilha neoliberal do Consenso de Washington, perseguindo alguma preocupação social muito tímida e tardiamente, também há que se dar muita pirueta para enxergar a presidência petista como esquerdista de fato: fora a ação social mais ousada – que de fato virou referência mundial para uma atônita esquerda – o trato com o Estado seguiu basicamente o mais do mesmo, centrado em metas macroeconômicas que num primeiro momento asfixiaram o investimento e um BNDES privilegiando abertamente a formação de grandes grupos econômicos. Eu particularmente cheguei à conclusão de que Lula não tinha outra escolha a não ser um governo de coalizão, pois sabemos que mandato não se iguala a poder: o executivo não faz nada sozinho, e o poder econômico de certa forma governa nos bastidores. Só não precisava ser tão acanhado.

Afinal, foram iguais então? De modo algum. Creio que Lula e sua equipe tenham absorvido a parte “responsável” do discurso hegemônico: não há muito espaço para voluntarismos em política econômica afinal – ainda que, de novo, possa ter exagerado na ortodoxia no começo. Mas não partiu para a privatização, não arrochou os salários, não se endividou para garantir um populismo cambial. E não entregou o pré-sal de bandeja para os gringos. A “moderação” garantiu bons resultados na economia, e agradou a Davos, que inventou um prêmio ad hoc para Lula, ao passo que a inclusão social (e em grande medida também o bom desempenho da economia) que a renda mínima propiciou foi algo espantoso, agradando Porto Alegre. Vinte milhões deixando a pobreza extrema é algo certamente inédito, e bastante para caracterizar um bom governo. Além disso, no que fez de “igual”, Lula foi melhor que o antecessor; não sei muito de economia, mas qualquer observador isento dirá que o manejo das contas públicas foi mais responsável.

Enfim, toda essa comparação dos dois governos vai dar pano pra manga na campanha e nem vou me estender. Mas o resumo da ópera é bem irônico: o partido da social-democracia dedica-se ao tatcherismo selvagem e o partido operário “limita-se” à social-democracia.

Resolvi escrever, como já indiquei lá em cima, sobre fatos recentes que elevaram o tom (ou baixaram o nível) da campanha – que obviamente já vai de vento em popa, o que é ótimo, pois com a Copa tende a arrefecer. Posso estar esquecendo alguma coisa, mas quero falar de dois episódios mais óbvios. O primeiro foi o 3° Plano Nacional de Direitos Humanos, virulentamente atacado pelos setores conservadores. Por mais que o agronegócio normalmente se opusesse às audiências prévias às reintegrações de posse; que a Igreja naturalmente reagisse a qualquer menção ao direito de aborto, uniões e adoções homoafetivas, e banimento de símbolos religiosos dos recintos do Estado assim-dito laico; ou que a mídia corporativa não admita qualquer acompanhamento que seja, julgando suas concessões títulos nobiliárquicos de origem divina e transmissão hereditária, o que incomodou de verdade foi a Comissão da Verdade. Os militares reagiram como se esperava deles (e Lula deveria simplesmente aceitar a demissão coletiva de ministro e chefes das forças), mas a reação da direitona, que foi ao zênite da desfaçatez de tachar o plano de comunista, reeditando a Guerra Fria, visava um objetivo: evitar ser associada aos bárbaros crimes que as gerações mais recentes sabem apenas vagamente que aconteceram, a maioria ignorando o papel que neles desempenharam empresários, imprensa e anticomunistas em geral, Igreja inclusive. É melhor não remexer nisso. Pois a ação em concerto desses setores foi um sucesso: os media aplicaram sua tradicional lavagem cerebral, pintando o plano, propositivo, como um decreto que instituía o comunismo, ou no mínimo a censura; a população mais desinformada, como sempre, engoliu as mentiras, Lula pôs os panos quentes de sempre e alterou o texto – dando margem para investigar os militantes – e, mais do que isso, deu uma geladeira indefinida ao texto, que não será discutido este ano e talvez não o seja nunca mais pois Serra o trituraria e Dilma não teria metade do capital político que Lula tem. O que o episódio revela é que na população brasileira de modo geral não há um vivo sentimento de indignação contra o terrorismo de Estado da ditadura militar, que ainda há boa dose de anticomunismo e, voltando às eleições, que a tentação de atacar Dilma por ter sido militante, ainda que arriscada, tem seu apelo. E tem tudo para ser uma patética cartada final se Dilma consolidar uma dianteira.

Bem, essa foi a Direita mostrando suas garras. Já o pré-programa de governo da candidata palaciana foi “interpretado” pelos media como uma guinada à esquerda. Esse é o padrão hoje: a interpretação enviesada da “imprensa” vira verdade, e importa muito mais que o fato ou o texto original. Tudo que o pré-programa prevê é uma maior atuação do Estado na promoção do desenvolvimento, o que é uma continuação de certa forma do Lula dos últimos dias, que “ameaça” reabrir a Telebras para espalhar a banda larga pelo país. Isso é aparentemente o bom e velho keynesianismo, que está ou deveria estar novamente em voga com o colapso econômico fruto das estripulias neoclássicas. Há que lembrar, e foi ressaltado pelo PT, que o texto ainda vai passar por conversas com o PMDB. O que nos traz ao que queria enfim ressaltar: um eventual governo Dilma seria a continuação do governo de coalizão conhecido como Era Lula.

Então vemos setores conservadores insuflando uma suposta polarização ideológica que é unilateral: apenas a direita radicaliza o discurso, revivendo a guerra fria, enquanto sabemos que, se esse campo vencer, nem em sonho acabaria com o Bolsa Família, nem tampouco paralisaria a transposição do São Francisco, e pensaria várias vezes antes de privatizar BB ou Petrobras. Ou seja, não há polarização de fato: no que toca a políticas, as diferenças entre Serra e Dilma seriam praticamente tópicas (com o BC independente garantindo o interesse da Banca). A polarização se traduz assim: a Direita quer vencer no grito. E tem os meios de comunicação para tanto. É esperar para ver. Devemos considerar que nossas eleições são mais mercadológicas que ideológicas, e que se polarização há, é entre os setores hegemônicos tradicionais e o fenômeno Lula, portanto o embate se dará entre a máquina de propaganda do PSDB (aí incluída a extra-oficial), em cima de um nome conhecido de outros carnavais, e uma política neófita com seu super-cabo-eleitoral. E o bicho vai pegar aqui, na rede.

PS: Não estamos como nos EUA onde há um só partido com duas facções, mas estamos caminhando perigosamente para isso.

A Gincana Eleitoral (virando Batalha Campal)

Pouco importa o resultado final destas eleições (até porque pouco importa mesmo), teremos motivo para nos envergonhar. Do processo eleitoral e das campanhas. O Brasil gosta de alardear ser uma democracia estável, sólida, o que nos poria à frente dos colegas do BRIC, ou de China e Rússia ao menos. Mas dá pra levar a sério mesmo nossa “festa da democracia”?

Vou evitar entrar em discussões ontológicas, nem vou dissecar etimologicamente o termo, uma vez que sou reconhecidamente ignorante em qualquer assunto que seja. Vou tão somente traçar algumas considerações que me vêm à mente. Antes de mais nada, o fato de que as campanhas são financiadas basicamente por empresários, sendo o retorno eleitoral quase diretamente proporcional ao investimento, garante que apenas interesses dessa classe estejam de fato representados. Já fui contra o financiamento público de campanha, pensava que a corrupção prosseguiria com qualquer outro pretexto. É fato. Mas candidatos com posições menos vendáveis, digamos assim, não ficam alijados do processo. Corrupção há que se tentar combater sempre. Bem, mas o financiamento público não corrige outra distorção: a despolitização. Vou citar de novo Thomas Fergusson e a Teoria do Investimento Político (via Chomsky): os investidores se unem para eleger representantes e, como sabem que a opinião do público diverge da sua, convém que os temas sejam deixados de lado em favor da comparação de “qualidades” dos candidatos (no nosso caso, os defeitos do outro); some a isso que no máximo metade do eleitorado sequer sabe o que é esquerda ou direita, e temos eventos mercadológicos, anúncios de sabão em pó, em vez de política.

Tomando o caso em questão, a temporada 2010 do “reality show” mais bizarro da Terra, tivemos as presepadas do Judiciário, que não sabe dizer que lei vale, quando e para quem, e segue que o resultado exarado no último dia 3 ainda pode sofrer várias alterações. Vamos lá: a lei de iniciativa popular alcunhada Ficha Limpa é uma boa inciativa; longe de uma panaceia, mas capaz de estabelecer um filtro mínimo para a eligibilidade (ainda que distorções tenha havido, como o Aldo Santos, vice do Búfalo em SP que foi – ao que me parece – injustamente condenado ao ceder um ônibus a sem-teto). Ocorre que a lei foi aprovada ainda este ano, e com uma alteração marota que devia remetê-la de volta à câmara; a Justiça Eleitoral forçou a barra para interpretar que ela não alterava o processo eleitoral e podia valer já este ano. É claro que são muitos os furos pelos quais ela pode ser questionada. Chamada a decidir, a Corte Suprema chegou a um empate e… lá ficou. Não sabiam que regra valia nem para o desempate. Risível. E segue o barco. Outro caso que foi emblemático do pleito foi o fenômeno Tiririca. Não é a primeira vez que alguém é eleito por sua celebridade, mas o “comediante” em questão sempre foi célebre por sua ignorância; não foi senão a dias do pleito que alguém levantou a “denúncia” de que ele era iletrado. Já li até que ele poderia ser preso, já que afirmou saber ler e escrever para se candidatar. Mas mais não soube.

Por fim, quero aqui registrar minha repulsa ao rumo que vêm tomando as campanhas presidenciais. Não só são vazias e despolitizadas, calcadas na descontrução do adversário, muita vez por ofensas, mas desviaram-se para o obscurantismo passional, privilegiando um tema que quanto mais longe de política melhor: religião. Começou pouco antes do primeiro turno, com boatos de que Dilma seria pela legalização do aborto. Há algo de verdade nisso, e eu vi uma entrevista dela em que ela defendia esse ponto de vista. Mas obviamente o cálculo político vale para o PT mais do que qualquer convicção ou coerência: a campanha a presidente 2010 nunca cogitou mudar a lei. O PSOL sim, mesmo tendo um candidato extremamente católico, propunha abolir a hipócrita proibição que só garante que moças pobres morram ou se mutilem em abortos ilegais enquanto, da classe média pra cima, há sempre uma clínica muito profissional à disposição. Bem, voltando à vaca fria, o que passamos a ver foi uma disputa para saber quem era o candidato mais cristão. Signo de atraso. As militâncias por seu turno se comportam como torcidas de futebol, com suas palavras de ordem e tudo mais. Por isso eu tenho dito que se trata de uma Gincana Eleitoral: um grita Erenice de lá, outro responde Paulo Preto. De ontem pra cá os dilmistas estão apostando em uma “arrancada” no twitter, que inclui encher o saco do Plínio que – coerentemente – prega voto nulo, enquanto o PSOL espertamente prega o Serra Não. Sei que essa arrancada está me torrando a paciência, e seria ainda pior se eu também seguisse serristas.

Que acabe logo essa agonia, e que o Serra não vença. Mas andei pensando: e se desmarcassem a votação e marcassem uma batalha campal?

Cala a Boca, Magda!

Lula é incensado como hábil negociador, e deve ser verdade pois até FHC o reconhece – ainda que me pareça que essa “virtude” seja mais, como aponta o mesmo FHC, a de aquiescer ante a reação conservadora. Enfim, espera-se de um interlocutor político hábil que suas declarações públicas sejam igualmente hábeis, livrando-se dos espinhos e mesmo somando pontos a seu capital político, qualquer que seja a situação. E se imagina que não apenas o homem público tenha esse tino, mas (pelo menos) que se cerque de assessores que analisarão a situação e aconselharão a linha a ser adotada – ainda que um “ventríloquo” como Obama não seja a imagem ideal de estadista. Pois às vezes Lula se trai e fala o que não deve.

Lula já havia soltado uma declaração infeliz quando eclodiu o escândalo do governador do Distrito Federal, José Roberto Gargamel, e eis que agora com o advento de sua prisão preventiva, aprovada por virtual unanimidade pelo pleno do STJ, Lula mete os pés pelas mãos de novo e é mais criticado pela imprensa do que o criminoso em si (ou seja, dá combustível aos tanques de guerra da velha mídia). Nas duas situações, é possível perceber as motivações do presidente, pode-se concordar com o que tentou dizer, mas mesmo seu mais fervoroso correligionário há que reconhecer que pecou na formulação das frases. Na melhor das hipóteses; na pior, escapa ao meu alcance por que diabos Lula iria defender um conspícuo corrupto, e do campo adversário (cotado inclusive para vice na chapa da oposição), e nem o episódio do “mensalão” em seu próprio quintal explicaria qualquer coisa.

Quando estourou o “panetonegate”, com o vídeo de Arruda, então candidato, recebendo um maço polpudo de dinheiro – repetido ad nauseum pela Rede Globo – além de outros vídeos e áudios de menor repercussão, o presidente operário estava na simpática Cascais, para uma “cimeira” ibero-americana. Entende-se que tenha tentado contemporizar, pois não lhe cabia – em seu papel de chefe do Executivo Federal – partir para a execração pública de um chefe de Executivo Estadual (ou Distrital) no exercício do cargo. Afirmou, com toda propriedade, que as investigações deveriam prosseguir, que Polícia Federal e Ministério Público deveriam fazer seu trabalho, e competia ao Judiciário julgar, ou algo assim. Mas quando disso isso, já tinha feito a declaração infeliz: “imagem não fala por si”. Por mais que seja uma verdade – sabemos que há mil trucagens possíveis, ainda mais em tempos de computação gráfica -, no caso da fita (para usar um termo obsoleto) de Arruda, não havia muito espaço para acreditar em manipulação, até por que as denúncias eram corroboradas não apenas por aquela peça, mas por farto material audiovisual. Parece que Lula, do lado de lá do Atlântico, em nossa antiga metrópole, não havia assistido a nada – então bastaria dizê-lo, ora! – e fez questão de dizer depois – que seja para minimizar o impacto da declaração anterior – que havia visto as imagens e que “eram graves”.

Depois que ontem o STJ anunciou a prisão de Arruda, a velha mídia noticiou ao mesmo tempo que o próprio se entregara à PF, e que o presidente Lula teria ficado “chocado”, “desolado”, que acharia o fato “lamentável”, tudo em meio à euforia da opinião pública pela prisão do careca – que foi de fato um marco histórico no combate à corrupção. Bem, como não houve uma declaração pública, tratou-se de “fofoca” de um “assessor próximo”, fica difícil saber o que Lula de fato disse. Em grande medida, trata-se de manipulação da mídia de sempre – em especial os veículos mais engajados contra Lula  – para colar Arruda nele e desgastá-lo. Mas é óbvio que Lula deve ter de algum modo expressado seu pesar por ver o triste destino de um colega de profissão com quem tinha uma relação cordial. É aliás esse aspecto humano que dá a nota peculiar a Lula. Talvez tenha sido essa consternação solidária que foi amplificada pelos ruidosos canais do jornalismo tapuia.

Hoje, Lula percebeu a repercussão do boato e foi firme: disse que se sentia chocado mesmo é com as cenas de Arruda recebendo a grana (que agora falam por si); lembrou o projeto que enviou ao Congresso tornando corrupção crime hediondo; e assumiu mesmo o tom moralizante ao proferir o clichezão “que isso sirva de exemplo”. Bem, ou é o que pensa e a culpa é toda da mídia “golpista”, ou foi orientado a assumir essa aparentemente nova postura. De qualquer forma, o que se percebeu nas duas ocasiões foi que ele não tinha a frase certa na ponta da língua, e acabou usando frases ambíguas que fizeram a festa da mídia sensacionalista. Não senti em nenhum momento que ele defendesse a corrupção ou a liberdade do governador apenas por ser governador. Crédito seja dado a ele por não aproveitar o episódio no embate partidário-eleitoral: passa a imagem de distância do pega-pra-capar. Mas nesse caso não faria sentido outra incontinência presidencial, essa com sinal trocado e longe da grandeza de estadista ou da prudência (exagerada) aqui demonstrada: a ocasião em que chamou o presidente do principal partido de oposição de “babaca”.

Quando a Questão é Quota

Outra polêmica sempre latente que voltou aos holofotes por esses dias foram as quotas. Eu prefiro assim, com “qu” e glide. Inclusive, para quem não sacou a aliteração, o título deve ser lido como se houvesse trema em “questão” – o pobre diacrítico proscrito.

O que ocorreu foi que nosso simpático partido ultraconservador Democratas – Dem para os íntimos, Demo para os detratores mais exaltados, PFL para os saudosistas (de quando eles apitavam alguma coisa) e Arena para as viúvas da caserna; e, se continuarmos puxando esse fio, podemos chamá-lo Escravocratas – entrou com a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 186 junto ao Supremo Tribunal Federal, questionando a legalidade de adotar quotas com critério racial.

A alegação é a um tempo óbvia e inacreditável: o sistema viola o princípio da igualdade. Óbvia porque, de fato, é introduzida uma distinção; mas é inacreditável a cara de pau dessa turma do Agripino, já que o mecanismo existe para sanar a gritante desigualdade racial de nossa sociedade. Tratam-se os desiguais desigualmente, de modo a reduzir essa desigualdade. O que observamos é uma absurda reação do Brasil “branco” que se sente “prejudicado”, ou seja, “discriminado” por não passar no vestibular. E já houve decisões judiciais reconhecendo esse “direito sagrado”.

Semana passsada, causou furor a argumentação, ou pseudoargumentação, do senador Agripino Maia, para quem não devemos adotar políticas compensatórias porque os negros que vinham para a América já haviam sido escravizados por outros negros. Ora, isso é fato. Mas o debate aqui não é a versão correta da História (supondo que houvesse controvérsia), mas o modo de tentar minimizar os efeitos da escravidão (que é incontroversa, independentemente de seus pormenores) sobre a população descendente dos escravos africanos hoje, apenas 122 anos após a abolição. Pois se a questão do negro tem avançado recentemente – da minha infância até hoje é possível ver diferença – basta prestar atenção como ainda é muito natural ver um negro em posição subalterna (lavando seu carro, cuidando da sua casa) e ainda chama a atenção ver algum deles gerente de banco, por exemplo. E o acesso ao ensino superior é justamente a chave para a melhora de posição social em nossa sociedade.

Há um grupo de negros contra as quotas, liderados pelo Militão. Pelo que entendi, eles acham humilhante precisar de quotas para a aprovação. É um argumento válido, mas inócuo. Isso porque nenhum sistema de quotas é obrigatório. Aquele que acreditar que é capaz de triunfar sem políticas afirmativas pode concorrer pelo sistema universal, e faz muito bem se assim optar (até porque a proporção de negros aprovados só cresce).

Um conceito muito caro a quem quer questionar as quotas é a chamada meritocracia. Ou seja, você vale na medida do seu desempenho. Não interessa se as condições de que você dispôs para melhorar seu desempenho – boa escola, dedicação exclusiva – são uma vantagem desleal, os outros que se virem para competir. E ora, a política afirmativa não derruba a meritocracia, cada vaga segue sendo disputada a tapa, com base no desempenho, mas com um mecanismo para beneficiar um grupo pelos motivos mencionados.

Também se brande o mito da democracia racial, do Brasil miscigenado – como Agripino quer – pacifica e consensualmente; e o fato de que às vezes é difícil determinar a etnicidade de uma pessoa (repisando o episódio em que um gêmeo foi aceito e outro reprovado no sistema da UnB). Não é preciso começar a contestar o primeiro argumento, de tão ridículo; o segundo é sólido: se a miscigenação não foi pacífica, miscigenação houve, muito mais do que nos EUA, por exemplo. E se formos levar isso ao extremo, são no Brasil uma pequena minoria aqueles que não têm nenhum patrimônio genético de negro. É uma questão delicada, mas esse reconhecimento ainda não anula o fato que a população de pele escura tem menor status social. É apenas uma dificuldade a mais, e simples de ser contornada: apenas é necessário que um branco esperto não se beneficie do sistema declarando-se negro, certo? Então, que haja uma comissão, na matrícula, que determine se aquele aluno que se declarou afrodescendente o é de fato; serão poucos os problemas.

Outra argumentção pertinente, mas que não chega a derrubar o instituto da política afirmativa, ou melhor, apenas o reforça, é a de que o critério deveria ser social, privilegiando o aluno de baixa renda – e se os negros estão majoritariamente nessa categoria, seriam automaticamente contemplados, sem excluir os brancos. É justamente por isso que a tendência agora é o critério misto, como o do projeto do governo para as federais, que está emperrado no Congresso, que reserva 50% das vagas para egressos da rede pública, com subquotas étnicas; ou como temos na Unicamp, em que egressos da rede pública ganham um bônus de 30 pontos e negros ou índios ganham mais 10.

O que nos traz à questão que ao meu ver é mera tecnicalidade: reserva de vagas ou bônus? Isso deve ser decidido analisando os resultados de cada método, e já temos boas amostras para julgar. O sistema de reserva tem o risco hipotético de aprovar candidatos com desempenho muito baixo, e o sistema de bônus corre o risco de não fazer diferença nenhuma. Não acho que seja o caso em qualquer dos casos. Deveria portanto ficar a critério de cada instituição.

Aí caímos de novo no projeto da Ideli Salvatti: empurrar a quota de 50% para todas as federais não é ferir a autonomia universitária? É uma boa discussão, no que aliás essa temática é farta. Me parece uma boa iniciativa, mas fica o receio de que se aprove essa lei e continue se tolerando a baixa qualidade de nossa educação básica, o que é um assunto paralelo mas interligado ao da reserva. Digo isso porque se hoje o nível dos alunos é sofrível, com a reserva é possível pensar – nos cursos menos concorridos das universidades menos concorridas – em perfeitas topeiras sendo aprovadas (mas me pergunto se já não é assim). Quanto ao aspecto “autoritário” do projeto, é também discutível: as federais são mantidas pelo governo federal, que pode sim fixar regras para os sistemas de acesso. Mas deve ser respeitado sempre o diálogo.

Quando fiz vestibular da UnB em 2005 (e a adoção das quotas era recente), o tema da redação foi justamente discriminação racial, e eu sapequei lá argumentos contra o sistema – era como eu pensava então – e o principal deles eu em certa medida sigo sustentando, ainda que veja hoje que não exclui ações “emergenciais”, de resultado mais imediato. Era o de que a desigualdade deve ser enfrentada incluindo as pessoas mais pobres no sistema econômico, e em pé de igualdade, claro. Ou seja, melhorar a condição do negro é combater a pobreza, distribuir renda. O Brasil até tem avançado nesse terreno, mas há muito pela frente. A falha na minha análise de então, que se espelha no coro dos críticos das quotas, é fingir que a questão racial não existe, que não faz diferença.

Apenas mais um pouco da minha experiência pessoal para terminar. Como disse, fiz vestibular na UnB, e passei (saí e passei de novo, mas não importa). A UnB foi pioneira na adoção de quotas raciais, e o que posso dizer é que é um sucesso. Eu, vivendo essa vidinha besta de classe média, convivia muito pouco com negros – em posição de igualdade ao menos – e hoje os vejo representados na universidade em que estudo. Não consta (ainda que eu não tenha números) que seu desempenho seja pior, e de forma alguma houve o efeito inverso – com que muitos adversários das quotas ameaçam – de instilar a intolerância racial. Por fim, aqui na PGR, onde trabalho, já tive um chefe negro lá no transporte, e agora voltei a ter um chefe negro, e o chefe dele é ainda mais negro. Serviço público, por só depender de uma prova e vedar discriminação, é outra escada para ascenção deles. Mais um motivo para me orgulhar de trabalhar na PGR é que a ADPF do Dem já saiu com parecer do Ministério Público pelo indeferimento.

Mas… e os índios hein? Será que vamos aprender a lidar com os índios? Isso já é outra conversa…

A Alternativa Socialista

A maior parte de vocês dirá que o socialismo é anacrônico, está morto e enterrado, sob os escombros do Muro de Berlim (se eles não tivessem virado, emblematicamente, souvenirs caríssimos). Boa parte vai concordar em dizer que o socialismo foi brutal, um período que não deveria nunca voltar. O problema é que a História é contada pelos vencedores. E quem tem lhe contado essa história é – em grande medida – uma mídia alinhada com o conservadorismo, e com o imperialismo dos campeões capitalistas da América do Norte.

Sem dúvida que Stálin foi um carniceiro, que pôs um projeto pessoal de poder acima de um ideal que já não ia muito bem das pernas. Na verdade, os socialistas tomaram o poder na Rússia em 17 e ficaram sem saber o que fazer: a teoria marxista previa uma transição de uma sociedade industrial para uma “ditadura do proletariado” (entendida como governo provisório, sentido original de ditadura) que daria lugar ao socialismo e enfim ao comunismo, em que mesmo o Estado sumiria. Ocorre que a Rússia estava longe de ser uma sociedade industrial, e ainda carregava vestígios de feudalismo. O Partido esperava que a Alemanha, terra do mais forte partido comunista, fizesse a revolução e viesse em seu socorro, o que não aconteceu. Daí em diante, partiram para rumos opostos à ideologia que supostamente os motivava: um regime de chumbo sem liberdades individuais e um capitalismo totalmente controlado pelo Estado. A ideologia se converteu em religião, e o jogo passou a ser brincar de superpotência contra os EUA (desperdiçando recursos com armamento).

Mas quantas vezes falam sobre Salvador Allende? Eleito democraticamente no Chile, começou a mudar a sociedade, efetivamente socializando os meios de produção. Que aconteceu? O capitalismo, tão bonzinho, tão íntegro e moralista, mandou bombardear La Moneda, onde Salvador tirou a própria vida, savando a própria honra. Não me aterei aqui em mencionar outros crimes em nome do capitalismo, sugiro Chomsky como fonte.

Como disse Plínio, o sonho socialista vive seu pior momento, mas é imorredouro. Por que ser socialista hoje, se não há a menor chance de implementar alguma transição em pelo menos 20 anos? Para fomentar o debate, quebrar o domínio do discurso único. Fiquei estarrecido ao ouvir de Lula o embuste oficial da ditadura: fazer crescer o bolo para reparti-lo. Assim, os mandarins do capitalismo manejam qualquer um que entre lá (pois se não se curvar, não entra), de modo a garantir a expansão das atividades econômicas, pouco importando as mazelas históricas da sociedade.

Até acho que Lula fez bem, dentro dos liames a que o Estado está submetido. Foi um sucesso de realpolitik, e diminuiu a pobreza de fato, com a ação emergencial da transferência direta de renda. Ocorre que estão tomando isso por solução dos problemas. Posso me descobrir enganado lá na frente, mas eu nunca vi ninguém fazer omelete sem quebrar os ovos, ou seja, transformar a sociedade sem mexer em suas estruturas.

A questão agrária foi um ponto em que o PT capitulou covardemente, e a estrutura fundiária continua absurda a ponto de 1% dos terratenentes possuírem 46% das terras. E falar nisso ainda é tabu. Reforma agrária é vista como tão anacrônica quanto o comunismo, quando por volta da Constituinte estava na boca de todos principais políticos do campo que combatera a ditadura: Ulisses, Fernando Henrique, Serra, Lula… e Plínio, que segue firme sem mudar de posição.

Os serviços públicos como saúde, transporte e educação continuam sendo oferecidos para “cidadãos de segunda classe”, enquanto nós que temos alguma grana pagamos por eles e não nos importamos muito. Não é o caso em Cuba, sabiam? Aquela pequena ilha vítima de estrangulação econômica há cinco décadas. Segurança? Aí sim os ricos reclamam: por que a polícia não protege meu patrimônio dessa horda de miseráveis? (obviamente a criminalidade é um assunto complexo, mas a disparidade de renda é certamente determinante) Por que não somem com esses pedintes e guardadores de carro? Por que não passam bala nesses craqueiros que enfeiam minha cidade (pro meu filhão passear tranquilo de carro importado, bêbado)?

Enfim, preciso ainda explicar por que declaro aqui que, havendo segundo turno, voto na candidata indicada pelo governo. Por abominar o outro campo dessa duvidosa polarização. Talvez nem tanto pelos auto-declarados social-democratas, que um dia talvez tenham tido pendores de centro-esquerda, antes de se refestelarem no poder, mas em grande parte pelos aliados, assim-chamados democratas, esses sim asquerosos reacionários empedernidos. Ambos partidos representam apenas uma elite retrógrada do país, uma mais urbana, outra mais rural. Também se pode dizer que o período do PT foi melhor pro país do que o do PSDB, então, como essa é própria ideia de segundo turno (se o seu não vai, escolha entre os dois primeiros), declaro meu voto para Plínio, e – talvez – depois para Dilma. Talvez, porque pode ser que nem precise.

 

Fronteira Agrícola?

“Exigem que renunciemos à expansão da fronteira agrícola, sem a garantia de que o aumento de produtividade será capaz de atender à demanda explosiva por comida numa sociedade em que, finalmente, os pobres começaram a comer direito.”

Espera aí, avançar com a fronteira agrícola para o latifúndio produzir commodities de exportação? Alimento é a pequena propriedade quem produz, e já foi devastada terra suficiente para garantir o abastecimento, basta zonear, e democratizar o acesso à terra.

Questionar as intenções e a própria integridade científica da cruzada milenarista do Aquecimento Global não pode servir para desmatar mais, em nome do “progresso” mais arcaico de todos, a monocultura exportadora, o plantation moderno.

Quanto de nossa terra é cultivada “para fora?” 40, 50, 60%? alguém conhece um dado assim? gerar divisas é importante, mas é por esse quadro de atraso, de país agroexportador, que se “justificam” os desmatadores na Amazônia, que precisa de um padrão de desenvolvimento voltado para o futuro, e não para nosso passado – e presente – semifeudal. Não à toa, é no Pará que a escravidão ainda campeia.

Para Além da Indignação

Escrevi aqui algumas vezes espinafrando a política do Estado de Israel. Não do povo israelense, muito menos dos judeus, mas do país. Israel é caso complexo, desde sua origem controversa, servindo oficialmente como lar dos judeus espalhados pelo mundo, mas na prática prefigurando um posto-avançado dos Estados Unidos no Oriente Médio (embora o lobby sionista influa mais no Capitólio do que os americanos no Knesset), passando por cada guerra por território, até o mais recente episódio, em que a marinha israelense atacou uma frota de ativistas dispostos a quebrar o bloqueio a Gaza com ajuda humanitária, matando ao menos nove e ferindo uns quantos outros, Israel é polêmica pura.

Sendo aliado americano e contando assim com meios de comunicação favoráveis mundo afora (e, ao que parece, pastores evangélicos também), ainda é possível ver gente defendendo as posições e as ações daquele país. Mas com esse último crime – o Financial Times o descreve como ato de pirataria – Israel conseguiu a reprovação internacional virtualmente unânime; apenas os amigos de sempre, os EUA (que fingiam “estremecimento” com a questão dos assentamentos), soltaram uma frrouxa declaração segundo a qual estariam “tentando entender” a “tragédia”. Periódicos prestigiados, opinião pública, todos condenam Israel e estão indignados.

E eu pergunto: e daí? No cerco a Gaza, um monte de gente ficou indignado – o pateta aqui foi protestar na Embaixada – e eles fizeram o que quiseram, fósforo branco, destruição deliberada de minaretes, etc. E até o relatório que aponta seus crimes de guerra (além das faltas do Hamas) é esnobado por filial e matriz, e dificilmente terá algum efeito mais que documental. O que me garante que daqui a dois anos o ataque à flotilha não será lembrado como apenas um episódio de agressão israelense, em uma matéria jornalística sobre uma nova ofensiva ou algo assim?

Resta-nos fazer barulho, continuar pressionando e lutando a batalha de relações públicas que é vital para eles, convencendo o porteiro do seu prédio e o dono do bar que não é bem como a Globo pinta. Essa batalha deve ser travada no mundo todo, é claro, para criar consciência e daí pressionar os governantes, que – esses sim – precisam adotar uma postura clara. O crime contra os pacifistas, que denunciavam o absurdo estrangulamento de Gaza, do qual o Egito é cúmplice, logrou suscitar uma comoção mundial e manifestações de repúdio, deixando Israel isolado e mesmo sem seu principal aliado árabe, a Turquia (a maior parte da frota e dos ativistas era turca). Talvez o episódio marque um ponto de inflexão no meio diplomático de modo a não mais aceitar os abusos israelenses (para isso, supostamente, existe diplomacia). Esperemos. Mas o pessimismo, dado todo o retrospecto, é justificável.

Discussão na comunidade “Israel é um Estado Terrorista” do Orkut

Renato:
O golpe a caminhoMercenários israelenses estariam assassinando camponeses na Colômbia e jogando a culpa sobre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. A advertência é do porta-voz das FARC, Raul Reyes. De acordo com Reyes, a intenção desses mercenários seria a de cometer crimes contra o povo com o intuito de culpar as FARC.Além dos israelenses, haveria também comandos especializados de mercenários estadunidenses e ingleses que estariam vasculhando a selva “cujos alvos seriam alguns comandantes das FARC”.Creio que a questão é mais ampla. Não se trata somente da Colômbia, porque não se deve dissociar a palavra mercenário de CIA – a agência de espionagem dos Estados Unidos. Esses assassinos já se encontram às portas de nosso país.E em se tratando da CIA, dita o bom senso que não se deve excluir a inter-relação entre a campanha midiática por um golpe de Estado no Brasil e o repentino surgimento desses mercenários diante de nossas fronteiras. No mundo globalizado, todos os fatos confluem. Ou alguém acha que o delinqüente Bush e sua gang estão interessados somente na Colômbia?…__________________Anna Granma:Eu acho é que o Brasil continua um Estado-Cliente dos EUA. Da “onda rosa” de governos latino-americanos, o nosso é o que mais defende a ortodoxia econômica do Consenso de Washington. Nossa PF, que pelo lado bom tem desmantelado quadrilhas de corrupção e fraudes, é também um títere da DEA.E pensar que a mídia trabalha por um golpe de estado é delírio. Há sempre um maluco aqui e ali gritando “acorda, milico!”, mas a verdade é que a máquina das corporações convive sem problema com esta farsa a que chamamos democracia.Nosso presidente é que adora se fazer de vítima, apoiado num colossal culto à personalidade. Eu tento ver as coisas boas de seu governo, mas as ruins me enojam cada vez mais. Claro que o PT não inventou a corrupção. Na verdade, foi preciso que um partido de esquerda chegasse ao poder para que todo o espaguete começasse a ser jogado no ventilador.Sim, a CIA se mete em tudo na América Latina e no mundo todo, mas é preciso cuidado com o jogo de inteligência e contra-inteligência, informação e contra-informação. Gostaria de saber quais as fontes da sua alegação.E esta vai para o Alberto Gonzales: Andale, andale andale !!!
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Renato:
Para Anna
Anna, a fonte da qual eu retirei essa informação que coloquei acima foi da revista Caros Amigos, ou, mais precisamente, do site dela. Você pode conferir se acessar o site: http://www.carosamigos.com.br .
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Leonardo:
Me ajudou muito ler o artigo de Jean Baudrillard…{Simulacros e Simulações}Ou seja, qualquer pessoa que tente explicar este começo de século XXI, e pelo menos as últimas décadas do XX em termos de claro e escuro, esquerda e direita, e por aí vai, ou é estúpido ou mal-intencionado ou os dois… A coisa tá tão maluca que só dá pra ver os signos se recombinando, escondendo não uma verdade, mas que não há verdade.Mas há fatos, só que é muito difícil termos acesso a eles. Noam Chomsky é uma boa fonte. O Le Monde Diplomatique, que agora tem uma edição brasileira (viva!) também. Tenho algumas reservas quanto à Caros Amigos, mas é boa. E a Piauí também.Até mesmo a guerra espanhola, no denominado entre-guerras, já apontava conflitos internos na esquerda. Leiam “Homage to Catalunia” de G.Orwell, ou vejam o filme “Terra e Liberdade” de Ken Loach. Talvez isso seja inerente a esse rótulo, uma vez que tudo que ele diz é “não concordo com o status quo”. Em “A Vida de Brian” do Monty Python, havia a rivalidade visceral entre o People’s Front of Judea e o Judea’s People Front…Mas vejamos, talvez o fracasso das ideologias seja uma coisa boa. Porque elas sempre foram pacotes de idéias a serem aceitos acriticamente. E cada indivíduo é uma verdade. Hoje, com a internete (interrede é muito feio? eu realmente quero aportuguesar) enfim, temos esta ferramenta que nos permite interagir de modo difuso e etéreo. Não dá pra invadir uma reunião e bater em todo mundo. Não dá pra cortar a linha, porque são várias… Bem, isso me traz Hannah Arendt à memória, mas fica pra próxima. Bem, é possível cada um contribuir com sua visão, mas chegamos ao busílis:Como agir?

 

Baguete de Acúcar compra as Casas Polônia

Portal Exame, 04/05/2005

Grupo francês vai compartilhar controle do grupo Pão de Açúcar
A partir de 2013, o grupo Casino terá o direito de nomear o presidente do conselho de administração da holding que vai controlar a Companhia Brasileira de Distribuição

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O Casino vai investir 407 milhões de euros para ampliar sua fatia na estrutura acionária da CBD, através da criação de uma holding em sociedade com os Diniz. Um novo acordo de acionistas, válido por 40 anos, define as regras para o exercício do controle conjunto e da governança corporativa da companhia.

Abilio Diniz continuará presidente do conselho de administração da CBD e será o presidente do conselho da holding de controle. Diniz terá a palavra final na supervisão geral do negócio, com “voto de qualidade (desempate) em caso de impasse no tocante à deliberação de matérias relativas ao curso normal dos negócios da CBD”, segundo o fato relevante publicado pela empresa brasileira. Augusto Marques continua diretor-presidente do Pão de Açúcar.

Através de uma troca de ações ordinárias e preferenciais, entre outras operações feitas entre os Diniz e o Casino, a nova holding terá 65,6% das ações ordinárias (ONs) da CBD. Os franceses ficarão diretamente com 28,7% das ONs, Abilio Diniz, com 2,8%, e Valentim e Lucília Diniz, também com 2,8% das ONs.

Wikipedia:

Samuel Klein (Zaklików, Polônia, 15 de novembro de 1923) é um empresário judeu polonês dono da conhecida rede de lojas de departamento brasileira Casas Bahia.

“Eu não tehno loja, tenho banco” (atribuída a Samuel Klein)

“Fazemos qualquer negócio” (outro Samuel, o Blaustein, na Escolinha do Professor Raimundo)

Mensagem à Lhofa de Pão Saulo

Muito interessante o editorial Dimensão Paralela. Realmente, as contradições do Governo Lula e do Partido dos Trabalhadres são incompreensíveis na “boa e velha” lógica aristotélica. Obviamente, é a primeira vez que esse tipo de anomalia é detectado no sistema.

Acontece que essa “boa e velha” lógica, encampada pela escolástica cristã, já está obsoleta há muito tempo. O ser humano não é um circuito lógico binário, booleano, nem há uma máquina suprema, estática e inamovível, governando tudo e todos. Panta Rhei, tudo flui, dizia Heráclito.

Há gente séria expondo as limitações do cartesianismo, mas o que me parece é que nem nos livramos do “bom e velho” Aristóteles, aquele que disse que todos são cidadãos, exceto mulheres, crianças e estrangeiros; o mesmo que justificava a escravidão, aquele que foi preceptor de Alexandre Magno, grande líder militar do massacre dos “bárbaros” persas…

Que tal revisitarem Hannah Arendt de vez em quando? Não para mais auto-comiseração, mas para ver que há um totalitarismo vigente, que é vazio de significado, mas como sempre dotado de ferramentas de controle de pensamento. Ou quem sabe Milton Santos? Ou Noam Chomsky, ou Jean Baudrillard. Ah, esqueci que a Lhofa chama o pós-modernismo de “meia-oitismo barato”.

É, deixa pra lá.

Especialíssimo

Será que eu sou um caso especialíssimo, seu Lacerda?

Seria uma honra enorme, sabia?

Olhe bem, o fascismo não morreu, assumiu outra máscara. É claro que o Poder nunca fora assim tão sutil. Ele que, acompanhado de sua companheira muda, a Violência, incitava Hefesto a atar o pobre Prometeu. Bem, e quem devora o fígado do rapaz? A Águia, sempre ela… Roma, Reich, YouAss…

O fascismo hoje é exercido através da criminalização do prazer. Toda essa cruzada anti-tabaco, foi o próprio Hitler quem começou, o uso e abuso de álcool é milenar. O cânhamo foi a principal fonte de fibras até anteontem, além de ser a planta de Shiva na Índia, recreação de lavradores mexicanos… Anslinger, o paladino da proibição, tinha relação com a Du Pont, cujas fibras sintéticas vieram a substituir o cânhamo. A Coca é sagrada para os povos andinos, e eles sabem usar a planta em seu benefício, enquanto os neo-yuppies cheiram a droga refinada e “batizada”.

E que dizer da perseguição a crenças xamânicas, baseadas em expansão de consciência, enteógenas, etc. É claro que eles insistem na palavra “alucinógena” que eles consguiram demonizar o suficiente. Pelo menos aqui no Hy Brazil conseguimos garantir a liberdade para o Ayahuasca. Bem, seu bando de Torquemadas Redivivos, desistam. Não dá pra reverter a espiral descendente da sua estrutura carcomida. Caiu a Casa de (B)Usher. Esta falocracia estúpida, suas falácias tão requentadas, sua ganância sem limites éticos e morais. No fim é simples: este código de conduta é bom para ‘eles’, mas ‘nós’ estamos por sobre e para além do domínio da ética.

‘Nós’ quem? Boa pergunta. Não falo de um país, nem de um certo povo ou empresa ou agremiação. Trata-se da própria lógica interna de um sistema de produção industrial e lavagem cerebral meticulosamente aprimorado por décadas, até atingir o ponto de se tornar tão óbvio que os hipnotizados vão “desplugando” um a um…

Lá na Unicamp, houve uma vez um evento, desses em que as corporações aliciam nossos melhores “célebros”, que falava em Sociedade Pós-Industrial… Faça o favor, minha gente. O mundo hoje é Ultra-Industrial. Educação, Família, Direito, Saúde, Religião et coetera: tudo entrou no domínio da Indústria.

Bem, aí é o ponto em que a coisa (ou o Coiso) fica insustentável. Só para ilustrar: O Banco Central do Brasil se orgulha de ter 161 bilhões de dólares em reservas, mas o sistema de saúde pública está falido. Por que é que a gente não pode fazer isso ou aquilo com medo da reação do Mercado, e Cuba sobrevive a um embargo de várias décadas, mesmo depois que o “ouro de Moscou” parou de jorrar? Não, eu não penso que Cuba seja uma maravilha, nunca estive lá. Mas eu sei que ninguém morre na porta do hospital por falta de atendmento… E ainda tem gente que usa como argumento para provar o atraso da ilha caribenha o fato de eles usarem carros dos anos 50.

Fora Papa Nazi

 Rat Singer

Eu ouvi, há muito tempo, que o Vaticano é acionista da SINGER, quefabrica não só máquinas de costura, mas metralhadoras também.Repito: isso é um boato, alguém mais bem informado pode RATificar ou desmentir esse dado. Mas Luís Mir, um historiador muito sério até onde eu pude julgar (não li o livro todo) defende que o PT tem um vínculo direto com o Vaticano (Estadocriado com a bênção de Benito Mussolini). Bem, Rat Singer foi quem perseguiu o Leonardo Boff, disse que o Rock faz mal pra alma, ainda antes do Habemos Papam…

Nosso Partido dos Trabalhadores (Mattarazzo Suplicy, trabalhadores? Luiz Duce, Mantega, Palocci… dá pra ver um padrão) utiliza suas táticas stalinistas – mais uma coincidência: Joseph Stalin, Rat Singer, Blatter… – perseguindo aqueles que mantiveram uma postura reformista, que se viram constrangidos a fundar mais uma sigla, ou a se desiludir de vez. Antes mesmo de assumir o trono, Sir Louis Ignatius (lembra dos jesuítas?) Squid duBois reafirmou seu compromisso com o Deus Mercado em sua “Carta ao Polvo Brazileiro”…A América do Sul é o paraíso na Terra para todas as máfias, sejam elas abertamente criminosas ou apenas travestidas na forma de Corporações… E o sangue inocente que corre nos morros do Rio, na perifa paulistana, nos rincões da Amazônia, ou que ferve no fogo de vários acidentes aéreos, é um preço baixo para garantir o lucro de poucos eleitos. O imposto que o pobre paga num saco de arroz, enquanto os preferidos escapam do Fisco, é desviado e quase nunca volta na forma dos serviços que assim chamada Constituição Cidadã (que expressa abertamente o compromisso com o CAPITALISMO) prevê como mínimos para a dignidade humana. Bem, deve ser minha paranóia persecutória, mania de conspiração… ou será que não?

Bye bye Gonzales

so long, farewell…
O Attorney General, neto de cucarachas, pediu o penico.

Responsabilizado por abusos contra a privacidade do cidadão comum e tortura de “inimigos”, Alberto Gonzales seguiu os passos do guru de Sir Bullshit II, Karl Rove, e abandonou o barco.

Sem pessoas alfabetizadas por perto, é de se perguntar o que Bushinho será capaz de fazer. Espero que mais e mais cagadas para prejudicar ainda mais seu partido.

Claro que os democratas querem perder de novo, lançando Madame Clinton ou um “african-american” cujo nome é quase igual ao Inimigo no.1 da civilização judaico-cristã ocidental… Eu de minha parte gostaria muito de ver uma mulher na Casa Branca, mas não essa aí. E quanto ao Obama, já ouvi dizer que ele é um “flip-flop”, um vira-casaca. Mas estou com ele dadas as opções. A questão é que uma grande parcela do eleitorado da “Deep America” não vai querer nem ouvir falar de um negro na cadeira.

Bem, voltando ao Speedy Gonzales, queria agradecer por ter sido agraciado com sua concepção de hospitalidade. Senta que lá vem a história.

Estive em Boston em julho último. Depois de ser flagrado fumando um cachimbo na janela de meu alojamento na Fisher College (Beacon St. 133), recebi a visita dos funcionários do escritório de “Housing”. Bem, perguntei se eles achavam que havia maconha no quarto, eles disseram que sim, eu disse que não havia. Eles fizeram uma inspeção rápida, eu prometi que não fumaria mais lá. No outro dia entrei no quarto e havia um bilhete dizendo que a inspeção de saúde estivera lá.

Aí eu percebi que havia sumido uma pasta com dinheiro, traveller checks e meu passaporte. Detalhe: havia um iPod novinho dando sopa, além de instrumentos musicais… É óbvio que não havia sido um ladrão. Eu, que não sou otário, apenas observando o comportamento dos seguranças vi o que estava acontecendo.

Um dia eu voltei lá e havia um caminhão da Verizon, empresa de telefonia, em frente ao prédio. Então eu abordei o funcionário e disse: sabe de uma coisa? papel não esquece, você põe todos seus números numa máquina… e ele emendou: e vê ela cair n’água e mergulha atrás dela, eu: exatamente. Aí ele se afastou e ouvi ele falando no celular: nós continuamos tentando, mas ele é mais alto que nossos ombros…

Você vai dizer que foi um delírio, tudo bem, eu só posso insistir que não foi. Mas que moral eu tenho se eu fui mandado para um hospital psiquiátrico? O que sei é que quando meu irmão foi lá, a pasta estava de volta dentro da mala. Com o dinheiro inclusive…

 

Direito para o STF… redundância?

A iminente indicação do ministro Carlos Alberto Direito, conservador e vinculado à Igreja Católica, é apenas mais um claro indício do vínculo entre o Partido dos Trabalhadores (ou pelo menos o Campo Majoritário – a cúpula da legenda) e o vetusto Vaticano, ora capitaneado pelo ultra-conservador Joseph Ratzinger.

Isso não é paranóia ou teoria da conspiração, é uma tese séria, defendida pelo historiador Luís Mir no livro Partido de Deus. Na verdade, o Estado brasileiro em si nunca se desvencilhou de todo da missão evangelizadora dos jesuítas. Basta assistir às transmissões da TV Justiça para observar o Cristo Crucificado ornamentando o Pleno do Superior Tribunal Federal.

Será que um dia teremos um Estado laico e democrático? Pombal, dá pra reencarnar e ajudar aqui? Darcy, por que tinhas que deixar-nos? Será possível que a Contra Reforma sobrevive até hoje? Pois veja os candidatos a chefe-de-estado que foram ao segundo turno nas últimas eleições: um retirante que virou metalúrgico, sindicalista, celebridade, ícone, culto à personaldade enfim, que não perde uma chance de afirmar sua devoção… até em messianismo se falou; do outro lado, membro de uma casta mais nobre, um médico que era um total desconhecido até entrar no vácuo deixado pelo governador vitimado por um câncer (li algures que ele chegou a fumar 7 maços por dia), voltando ao sucessor, trata-se de um membro da obscura Opus Dei… visite:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Opus_Dei

Melhor eu calar meu bico por aqui antes que venham me buscar para um auto-de-fé…

Post Scriptum:

Segundo ele [Luís Mir, em entrevista no Jó, digo, Jô], a vinda do Papa Nazi teve o intuito de apaziguar as lutas internas da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e tentar salvar o projeto de recuperar, a partir do Brasil, a influência que eles se acostumaram a ter sobre todo o mundo.

O protestantismo se afirmou como a ética dominante, com a primazia anglo-saxã que foi estabelecida depois das duas grandes guerras. Bem, o que eles preconizam, Max Weber observou bem, é o trabalho e a prosperidade financeira como valor máximo.

Aí surge dentro da Santa Sé a Opus Dei, cuja espinha dorsal é a mesmíssima ética protestante. Seria paranóia minha concluir que ambas crenças, em vez de seguir a palavra de Jesus, que era crítico da injustiça social, trabalham para garantir a desigualdade que é ao mesmo tempo efeito e condição sine qua non do Capitalismo?