Poemas: Amor

Loucamar

Loucamar é meu verbo favorito

Esquizamor, meu nome de batismo

E tudo não passa de paixãodice

Quando me doidengraço de alguém

 

Haikai

Amar

Amaro

Mar

Em Branco

Cheque em branco pro amor:
Basta-te preencher a cifra que for.
Eu posso entrar no vermelho;
Pago os juros com ardor.
Me faço doravante imune a conselho;
E, falido, me ajoelho.
Nada me faltará tendo teu calor.
Para amar, invisto no destrambelho.

Translucidamente

Translúcida alma, tão nobre e doce,

Irradiam íris esmeraldinas.

Tão alva como se alabastro fosses,

E com cândido sorriso fascinas.

Teu tenho sido sempre, mas fugido;

O filho pródigo à casa torna.

Pensar o que teria acontecido

Seria baldado de qualquer forma.

Já sei que taí nessa italianinha

O chão onde lanço minha semente:

Doravante somos um que caminha;

Pois o sentido da vida é pra frente!

E este ‘um’ vai ter tanta patinha…

Não demora, mais um ser que engatinha…

Cada dia se chama ‘eternamente’!!!

Soneto

As estrelas que lhe emprestam o brilho
Não suportam mais sua usura.
Que credora intransigente e dura
Resiste a rogo por pai e filho?
E cobra juros de mora e multa
Dos pobres astros, já melancólicos.
Um apetite nada católico,
Que a todas galáxias oculta.

Será a bancarrota celeste?
Devedora, a Lua também,
Recorre ao Sol por algum vintém;
E ele já nem sai do leste.
Tudo isso por uma riqueza
Que tem infinda por natureza.

Irônico Universo

O Universo do físicos
Obedece a leis e equações
Complexo que nos pareça
Sabemos-lhe as razões

Já o cosmo das humanas
Cousas, domínio do acaso:
Colisões aleatórias
E nada determinísticas

A mim isso me exaspera
Me arrasta à misantropia
Mas há aqueles cometas
Com rastro de esperança

E é-nos possível crer
Que existirá alguém
Do outro lado da galáxia
Fitando a mesma estrela

 

Para meu Anjo

O intenso brilho etéreo

de tua alva e suave tez

refletido pela Lua cheia

ilumina a noite do Sol

O delgado e longo feixe

de teus ebâneos cabelos

qual a cauda reluzente

dum misterioso cometa

Anéis Saturno não teria

bastantes para te adornar

A Via-Láctea toda não vale

o mel de teus rubros lábios

Teus olhos, buracos negros,

tragam milhares de planetas

e não me deixam outra escolha

que não ser teu satélite natural

Em rota de colisão

com tua superfície

Incandesço ao entrar

em tua atmosfera

O Universo és Tu.

Álacre

Tomo da lauda pristina
Prestes a louvar-te o nome
De amor com tanta fome
Tão indigna mão assina

Versos tolos, não os tome
Por nada que a muito assome
Mas de lavra genuína

Ah, tu que encantos não poupa
Álacre flor pueril
Tua graça juvenil
Meu sossego de mim rouba

Com teu fogo tão sutil
Lume de menina moça
(Oxalá a Lei não me ouça!)
Tu acendes meu pavio

Não me saem da cabeça
Teus tão formosos pezinhos
Me entorpece como vinho
Tua aura silfidesca

Não te faltarão carinhos

Peço apena teu beijinho

Com sabor de fruta fresca

Senhorita

Me excita, senhorita mistério
Este teu ar sério
Ou como quando me fitas
Centelhas infinitas
Abrasam o cerrado ressecado
Deste músculo tão maltratado
Me excita, senhorita surpresa
Tua fulgurante, inusitada beleza
Me excita teu gosto ao vestir
Ou a desenvoltura em exibir
Pernas que parecem não terminar
Mas terminam, em pés – tão lindos –
que me poderiam pisar
A teu bel prazer, que é meu
O que é dizer eu sou teu
Mas sequer te conheço, senhorita encanto
Como pode que me estanques o pranto?
Isso é uma barbaridade; que seja
Tão longe quanto eu veja
Sopram ventos de mudança
Bem vinda, senhorita esperança.

Inerme

Cachos em harmoniosa desordem
Miríade de encantos subtilíssimos
Lascívia exala de seu corpo jovem

Caminha com garbo e desenvoltura
Milagre suas mãos tão delicadas
Lavanda emana de sua brancura

Capaz de hipnotizar com seu âmbar
Milhares de faíscas que abrasam
Lamentam os céus este anjo ímpar

Carinho, sugere seu rosto largo
Milhas de pernas e belos pezinhos
Lábios tão doces ou, quem sabe, amargos

Cada gesto, epítome do charme
Missão inglória estar indiferente
Ladra insciente de um ser inerme

Anjo Terrestre

Seu encanto é não ser anjo algum,
Não pairar por sobre a superfície;
Mas enfeitiçado cá estou um,
Com tudo que naquele dia disse.

Que dizer de seus tão formosos pés?
De ombros e umbigo, Deus ajude!
Me guarde de outro triste revés,
Mas terei feito tudo que pude

Para convencer a seu doce encanto
Que podemos pisar o mesmo chão;
Que sua graça me cativa tanto,

É pouco chamar isso de paixão.
E se a sina disto é novo pranto,
Quero crer ser uma linda união.

 

Último Trem (escritor-fantasma)

 

Que trem de louco nosso amor tão jovem

Vagão com vagão estão sempre unidos

Em outra composição, sempre amigos

As locomotivas d’alma nos movem

 

Se nos foram separados os trilhos

É bem certo que há outra estação

Cuja placa, linda, diz União

Com novo comboio pleno de brilhos

 

E se esse trem pra nós já partiu

Que tu tenhas confortável viagem

Até destino qualquer que tu queiras

 

Nossa jornada já me conferiu

Alegrias para além da contagem

Trouxe ao mundo duas vidas inteiras

 

Anairam

Oh, que Quimera!

Assaz ardilosa,

Em verso e em prosa;

Que pútrida merda.

Oh, vil Lagarta!

Cruel e faminta,

Voraz como trinta;

Pro raio que a parta.

Oh, desalmada!

Ingrata, distante,

Perto o bastante

Pr’uma boa palmada

Oh, ouro dos tolos!

Seduz, enfeitiça,

Areia movediça;

Maior dos engodos.

 

Ragazza

Do seio do velho mundo

Do azul do mare nostrum

Veio povo tão fecundo

Aportar em solo nosso

Um só século bastou

P’ra essa gente engendrar

Tão sublime e amável flor

Alvo lírio, singular

O resplandecer purpúreo

Duma translúcida graça

A exalar encanto puro

Oh, bellisima ragazza!

A brancura da tua tez

Cativou o meu olhar

O tempo se liquefez

Flecha a me trespassar

O cobalto de tua íris

E o eterno serpentear

De teus cachos tão macios

Quisera eu poder tocar

Banhar-me em calmo lago

Em teus olhos descansar

Oferecer-te afago

Crer na força de amar