Poemas em Português

Canção a Shiva

Quero engolir suas nuvens
E vomitar uma tempestade
Quero mastigar seus palácios
E cuspir saraivadas de tijolos
Quero beber todos seus rios
E inundar o mundo em urina.
Pôr abaixo castelos e templos.
Aos sete mares, aos quatro ventos
Anunciar belos e novos tempos.
Quero cheirar suas areias
E espirrar redemoinhos
Quero escutar suas selvas
E berrar uma ária triste
Quero mudar
Tudo que existe.

Deriva

Desde que fugi para dentro de mim,
Pouco se me dá que o mundo exploda.
Política, esporte, guerra – que se foda:
Levar o circo a sério não estou afim.
Misantropia é meu refúgio enfim,
E com o cinismo ela celebra boda.
Por que dar ouvidos à cacofonia?
Tantas bizantinas e estéreis polêmicas;
Mediocridade e estupidez endêmicas.
Busco, no silêncio, uma sinfonia;
Na solidão, férias da humana agonia:
Desejos frustrados, afeições anêmicas.
Se é verdade que ninguém é uma ilha,
Sou tal como uma Península Ibérica.
Um terremoto que fende a América,
Faz a Califórnia seguir sua trilha.
Um lobo que se separa da matilha
E se entrega todo a sua sina tétrica.

Remexendo meus Alfarrábios

Neste imenso palco
que orbita incansável
guiam-me as mãos de Baco
chamam-me irresponsável
Deixe-os, dizem
Mas há alguém?
Alguém que me acolha?
Alguém que eu escolha?
Talvez as esferas
e sua música inaudível
sejam deveras
o refúgio inatingível
O tempo tapa-me os olhos
Leva-me, leve, à lápide
Ah, não há mais nada,
nada lá fora
uma escolha errada
culpa da hora
Mas e se há luz
que nos conduz
tudo se reduz
a um jogo?
E se aqui, em
meio ao lodo
vivo assim sem
medo do Todo
Virá a condenação?
Ou, antes, a redenção?
Se tudo já foi dito,
lido e escrito,
meu intelecto restrito
é então mero detrito?

ST

Não há modo de escapar
Não nasci para poeta
Por que diabo tentar
Combinar alfa com beta

Larga essa imagem em paz
Que é banal ou absurda
Rimas pobres, triviais
A Musa se faz de surda

Não se meta a declarar
Entortando a linha reta
Outro amor sem nenhum par
Passando ao largo da meta

Não se ponha a elucubrar
Com sua pouca metafísica
Língua rude e vulgar
Abandona a pena tísica

Deixa o ofício a quem sabe
As Letras são arredias
Aceita a mediocridade
Ocupa melhor teus dias

Sem título

Eu valho o peso de minh’alma em ouro
Meu saldo é a soma de sorrisos e lágrimas
Tenho um palácio com teto de vidro
Um plantel invejável de quimeras para abate
Culturas extensas de frutos proibidos
Eu consumo a mim mesmo e trapaceio no troco
Aplico em letras que não serão lidas
Invisto em títulos de poemas sem nome
Negocio ações que ficam só no pensamento
Mil opções futuras sem nunca decidir
E durmo descoberto
ao sabor do câmbio
de uma mente flutuante

Ouroboros e Marlboros y vengan los toros

Cara, será que eu fiquei pelo caminho?
Nesse sobe e desce infindável
Será que caiu alguma coisa na mudança?
Eu sinto falta de mim mesmo
Embora eu não saiba o que isso seja
Eu queria sempre me achar especial
E saboreava sempre alguns elogios
Mas não é isso, eu não quero ser melhor
Eu queria ser esquisito, excêntrico!
E hoje eu me vejo tão desinteressante!
Tudo bem que seja só uma fase
Baixa auto-estima, depressão…
Mas será que estou definhando?
Abusei demais do meu cérebro?
Será que ainda tenho a oferecer?
Me ajuda a acreditar que não!
Que seja só maluquice, talvez
Mas venham, fluam e flutuem
Palavras desgovernadas assim
Que eu as esmague num tapa!

 

Comida de Verme

Nunca me apeteceu ter o mundo em minhas mãos.
Bastava não me fugir de debaixo dos pés.
Pois embora sejam meus anseios os mais chãos,
Tudo em minha vida parece estar ao revés.
Se minha presença tão tóxica lhes parece,
Se o que eu sou resulta impróprio pra sociedade,
Alguma solução um tal dilema merece:
Seja a cessação, se não for a felicidade.
Pois só pode ser punido o único culpado;
E, mais, na mesma moeda que o réu malversou:
Não vem das estrelas o malogro de seu fado.
Mesmo aquilo que o doce príncipe mencionou,
O “país indescoberto”, já foi rejeitado.
Ao nada no fim, como do nada começou.

 

Em Branco

Cheque em branco pro amor:
Basta-te preencher a cifra que for.
Eu posso entrar no vermelho;
Pago os juros com ardor.
Me faço doravante imune a conselho;
E, falido, me ajoelho.
Nada me faltará tendo teu calor.
Para amar, invisto no destrambelho.

Soneto

As estrelas que lhe emprestam o brilho
Não suportam mais sua usura.
Que credora intransigente e dura
Resiste a rogo por pai e filho?
E cobra juros de mora e multa
Dos pobres astros, já melancólicos.
Um apetite nada católico,
Que a todas galáxias oculta.

Será a bancarrota celeste?
Devedora, a Lua também,
Recorre ao Sol por algum vintém;
E ele já nem sai do leste.
Tudo isso por uma riqueza
Que tem infinda por natureza.

Irônico Universo

O Universo do físicos
Obedece a leis e equações
Complexo que nos pareça
Sabemos-lhe as razões

Já o cosmo das humanas
Cousas, domínio do acaso:
Colisões aleatórias
E nada determinísticas

A mim isso me exaspera
Me arrasta à misantropia
Mas há aqueles cometas
Com rastro de esperança

E é-nos possível crer
Que existirá alguém
Do outro lado da galáxia
Fitando a mesma estrela

 

Para meu Anjo

O intenso brilho etéreo

de tua alva e suave tez

refletido pela Lua cheia

ilumina a noite do Sol

O delgado e longo feixe

de teus ebâneos cabelos

qual a cauda reluzente

dum misterioso cometa

Anéis Saturno não teria

bastantes para te adornar

A Via-Láctea toda não vale

o mel de teus rubros lábios

Teus olhos, buracos negros,

tragam milhares de planetas

e não me deixam outra escolha

que não ser teu satélite natural

Em rota de colisão

com tua superfície

Incandesço ao entrar

em tua atmosfera

O Universo és Tu.

Álacre

Tomo da lauda pristina
Prestes a louvar-te o nome
De amor com tanta fome
Tão indigna mão assina

Versos tolos, não os tome
Por nada que a muito assome
Mas de lavra genuína

Ah, tu que encantos não poupa
Álacre flor pueril
Tua graça juvenil
Meu sossego de mim rouba

Com teu fogo tão sutil
Lume de menina moça
(Oxalá a Lei não me ouça!)
Tu acendes meu pavio

Não me saem da cabeça
Teus tão formosos pezinhos
Me entorpece como vinho
Tua aura silfidesca

Não te faltarão carinhos

Peço apena teu beijinho

Com sabor de fruta fresca

Senhorita

Me excita, senhorita mistério
Este teu ar sério
Ou como quando me fitas
Centelhas infinitas
Abrasam o cerrado ressecado
Deste músculo tão maltratado
Me excita, senhorita surpresa
Tua fulgurante, inusitada beleza
Me excita teu gosto ao vestir
Ou a desenvoltura em exibir
Pernas que parecem não terminar
Mas terminam, em pés – tão lindos –
que me poderiam pisar
A teu bel prazer, que é meu
O que é dizer eu sou teu
Mas sequer te conheço, senhorita encanto
Como pode que me estanques o pranto?
Isso é uma barbaridade; que seja
Tão longe quanto eu veja
Sopram ventos de mudança
Bem vinda, senhorita esperança.

Inerme

Cachos em harmoniosa desordem
Miríade de encantos subtilíssimos
Lascívia exala de seu corpo jovem

Caminha com garbo e desenvoltura
Milagre suas mãos tão delicadas
Lavanda emana de sua brancura

Capaz de hipnotizar com seu âmbar
Milhares de faíscas que abrasam
Lamentam os céus este anjo ímpar

Carinho, sugere seu rosto largo
Milhas de pernas e belos pezinhos
Lábios tão doces ou, quem sabe, amargos

Cada gesto, epítome do charme
Missão inglória estar indiferente
Ladra insciente de um ser inerme

Anjo Terrestre

Seu encanto é não ser anjo algum,
Não pairar por sobre a superfície;
Mas enfeitiçado cá estou um,
Com tudo que naquele dia disse.

Que dizer de seus tão formosos pés?
De ombros e umbigo, Deus ajude!
Me guarde de outro triste revés,
Mas terei feito tudo que pude

Para convencer a seu doce encanto
Que podemos pisar o mesmo chão;
Que sua graça me cativa tanto,

É pouco chamar isso de paixão.
E se a sina disto é novo pranto,
Quero crer ser uma linda união.

 

ST

Por acaso o acaso
Pode, só, explicar
Este chão tão raso
Tanta vida germinar?

Dá pra me explicar
A singularidade do caso
Mistério milenar
Verdades no ocaso

Um curioso planeta
Queimando no interior
E eles com luneta
Pesquisando o exterior

Já no ponto de fulgor
Lance mão da caneta
Escape deste torpor
Sociedade maneta

Delírio Persecutório 1 – 20 jan 2006

Tem uma história
mal-contada no mundo
A própria História do Mundo
Se você quebra
a prisão de vidro
escapa da Panela de Pressão,
digo, Caverna de Platão,
você cai no Fogo
E queima.
Deixe-os queimarem tudo!
Os arquivos sangrentos,
Os esqueletos nos armários,
E os próprios armários.
A gente vence!
A casa deles cai, um dia cai.
Não há dragão grande demais
para ser morto por espada ou pena.
De preferência, a pena.
Mas contra as baionetas…
Deixa pra lá, eu devo estar ficando doido.

 

100 años de soledad revisitado

Todo se Sabe
Tudo se Prova
A Porta se abre
Pr’uma Era Nova
Já Era Tempo
De Salvar a Terra
Um puta trampo
Esse lance de guerra
Aqui não cabe
Uma Supernova
Poeta ‘wanna-be’
Mosquito Porva
Seguir Lendo
Voltaire, Volterra
Gabo, estupendo
Sussurra, não berra.

Banging the Big Bode

Uma Grande Explosão
Originou Tudo, talvez
Quanto a Antes, então
Que sabem todos vocês?
Quiçá um enantiomorfo
Universo, ou um padrão
De ondas estacionárias
Que tal um Poliverso
Amorfo e caótico, um
Fractal Indivisível, além
Do Espectro Visível, de
Luz Intangível, risível
Do Bem e do Mal para quem
Só vê dualidade, herdeiros
Da Negra Idade do Fogo
Reveillez vous!
Moi, j’ai vu et lu
FIAT LUX REDUX
Queime os feixes
Asse os peixes
Coma, Ame
Prennez soin
Rempliez vos âmes
Durma, Morra
Fuja da Masmorra

Mania Doce Mania

Cornucópia de devaneios maníacos
Manancial de segredos místicos
Navegando na noosfera bravia
Adentrando a caudalosa bacia
Do rio da mutação constante
Lanterna da geração sextante
Ampulheta de ponta cabeça
Colha o quinhão que mereça
Virar o Real ao avesso
Adesso, presto vivace!
Ame, beije, abrace
Vire um moleque travesso
Atravesse a fina membrana
Entre a ilusão e a magia
Em linhas tortas trace
Sua própria psicodelia
Granjeie lindas filigranas
Grama Verdinha Vertendo
Vórtices Girando Velozes
Vaticatar Vetusta Gárgula