Acaba Mundo CXCVIII

janeiro 8, 2019

Hoje são oito de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Novas da terrinha dão conta de que o filho do Mourão foi plantado num puta cargo no BB, Ônyx foi pego num esquema tosco com notas fiscais de empresa de amigo – seriadas – e vai acabar tatuando a bíblia toda pelo corpo para lembrar-se de seus ‘erros’. O tal Queiroz mal sinto ganas de comentar, mas foi fotografado no leito de um hospital que não teria como pagar para tratar um câncer que provavelmente não tem. É como o funcionário que inventa um atestado e depois precisa de fato engessar o braço. Isso não vai dar nada e só consome energia, se desse seria pro Bozokid. Após tanta grita pelo ‘aparelhamento’ petista, além do escandaloso expurgo é hora de nomear aliados derrotados nas urnas e até mesmo os seguidores mais devotados da internet. Não partiram pra cima das universidades por ora, mas é questão de tempo. Eu é que devia me matricular no curso de flozofofia do Olavo de Carvalho e melhorar minhas chances de ter uma bolsa. Mas até lá convém fazer ao menos um protestinho quando a oportunidade surge. E hoje surgiu. Andando por Viena, topei a embaixada brasileira, então providenciei um marcador e mandei um BOZONAZI na plaquinha de acrílico. Aposto que a maior parte dos servidores vai achar bacana. Devo dizer que foi um ponto alto da viagem, que está se encerrando: amanhã escrevo do aeroporto e depois de amanhã de casa. Acaba mundo.

Segura Firme 1

janeiro 7, 2019

Ññññzzzzzz ah! Caralho, é boa! Caralho! Onde você conseguiu? Lá? Só peguei porcaria lá. Enquanto catava o restinho com o dedo e esfregava nos dentes, o empresário do varejo de autopeças passava com a outra mão a nota de cinquenta enrolada num tubinho ao filho de índios expulsos de sua terra por grileiros, que vivia pelos arrabaldes da capital do estado se agarrando a qualquer bico que aparecesse. Era uma relação simbiótica, um tinha dinheiro, o outro tinha trânsito em qualquer boca, e nada a perder se algo desse errado com os homens da lei, que já o conheciam, e não tinham nem o que extorquir nem motivo para manter o pobre demônio atrás das barras. Fernando, ao contrário, mantinha o hábito escondido até da esposa, e quando começava a exagerar inventava viagens de negócios que eram na verdade temporadas em clínicas. De modo que quando encontrou Jaiwanã ficou feliz por se libertar da função de entrar na favela com seu carrão e rodar por aí com o flagrante depois.

Carlos, que era o verdadeiro nome de Jaiwanã, apelido ganhado em alusão a um célebre indígena que se tornara vereador e fora assassinado, puxou o pratinho onde estava sua parte e o cartão de crédito do parceiro e reconstruiu a carreira meticulosamente, de modo a não perder nem um grãozinho, mesmo que a maior parte fosse pó de mármore, outro tanto efedrina e só um pouco de fato cocaína. Desenrolou e tornou a enrolar com cuidado a nota, sorriso de dentes amarelados no rosto, inclinou-se e percorreu o caminho traçado: Ññññzzzzzz ñzzzz ñzzzz, fungava talvez com medo de perder alguma coisa. Taporra seu Fernando, é boa mesmo. Você ia lá na época do Bero, ele batizava ainda mais a brizola, deram um jeito nele por isso, dizia enquanto garimpava os resquícios para esfregar na gengiva, batia a nota na esperança de soltar mais alguns e por fim desenrolava e esticava os cinquenta reais, que dobrou e meteu no bolso da jaqueta puída – parte do trato.

Não guarda não, Jana – era o apelido do apelido – dá mais uma, e despejou no prato todo o resto de pó que estava no tubo plástico, parecido com um desses remédios para ressaca que não funcionam. Eita, seu Fernando! Eu briguei com minha esposa, Jana, ela foi pra casa da mãe. A noite vai ser longa. É que eu tenho um serviço pra entregar, seu Fernando, senão até… E o que é dessa vez? É uma televisão, tá atrasado, eu não posso. Carlos na verdade tinha receio, uma vez que o parceiro, quase um patrão, estava acelerando, e ficava errático quando cheirava muito. Te asseguro que não vai conseguir dormir, até meia noite está em casa e conserta essa porra de televisão de madrugada. Tá recusando brizola, Jana? Carlos não respondeu, só repetiu o processo para cheirar mais uma, e fez uma gorda de propósito. Fernando seguiu seu exemplo e esmurrou a mesa. Cadela! Levantou-se e buscou o controle da tevê em cima da geladeirinha, ligou e procurou o canal de noticiário. Esmurrou a geladeirinha e começou a xingar os políticos de forma difusa. Tem que matar! Passou da hora de mandar pro paredão! Abriu a porta e tirou a bandeja de gelo, torceu-a de um lado e do outro e a pôs de lado sobre a mesa. Abriu o armário e sacou de lá dois copos, metendo os dedos no interior deles sem cerimônia, e com a outra mão empunhou uma garrafa. Uisquinho, Jana?

Acaba Mundo CXCVII

janeiro 7, 2019

Hoje são sete de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. O museu Belvedere ontem era uma puta picaretagem, porque eu fui ao Leopold hoje e tinham mais Klimt e mais Schiele, por um preço justo e com menos gente. Claro que O Beijo é uma atração turística. O Leopold tinha mais dois pintores interessantes do período: Richard Gerstl e Kolomon Moser. Uma ex me passou a perna e disse que a pronúncia de Schiele era Quiele e não Xile, e o otário aqui acreditou, ontem eu fiz feio na bilheteria, mas ao menos aprendi. Chifre eu perdoo, mas essa eu não perdoo nunca. Não sei se foram os quatro litros de cerveja ontem, mas eu tive um pesadelo estranho, longo, e acordei desconcertado. Havia tempo que não acontecia. Primeiro eu estava dirigindo com meus pais no carro, e sempre que eu sonho que estou ao volante eu não tenho controle direito, mas eu culpava os outros motoristas pela possibilidade de machucar meus passageiros. E à noite eu voltara a alfinetar meu pai pela complacência com a ditadura. Depois eu estava numa estrada com uma barricada, e alguém contava que o Fernando Henrique tinha sido preso, o país estava num grande alvoroço, e eu comentei que tinha começado a caça às bruxas. De repente eu estava com mais gente em volta de uma mesa, era ao mesmo tempo uma aula e um jogo. Mas eu achava que era alguma armação, dizia de um que era o mesmo ator de ontem, de outra que tirasse a peruca em vez de reclamar do calor, e todos me olhavam como se eu estivesse louco. Logo após eu estava na Unicamp, havia uma movimentação que podia ser política ou trote, ou os dois, e eu procurava um lugar para plantar uma plantinha que eu carregava. E no fim eu ia acordar meu pai para contar uma grande novidade, que eu havia solucionado um grande problema ou mistério, o que é um tema recorrente tanto dos meus sonhos quanto de quando eu realmente fico louco, e dentro do sonho eu tinha receio de estar mesmo louco. Sei lá, resta tomar meus remédios, beber menos, pegar mais leve com o coroa e plantar essa plantinha até que ela dê um doutorado como fruto. Fez mal até contar.

Acaba Mundo CXCVI

janeiro 6, 2019

Hoje são seis de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Espero não escrever tão mal humorado quanto ontem. O fim de semana nos poupa de novos absurdos em casa e por aqui eu vi vários Klimt e Schiele na Belvedere. Meio puto eu fiquei sim, de saber que tem exposição do Bruegel mas os ingressos estão esgotados. Um mínimo de pesquisa e planejamento não iam mal, também. Foi só eu dizer que estaria a salvo de más notícias brasileiras, mudei de janela para ler que a concessão de bolsas obedecerá ao ‘critério ideológico’, bem o que eu já temia. Agora é correr para apagar as redes sociais e trabalhar na candidatura da uporto. Pensando bem, é só questão de tempo a pós ser cobrada. Mais do que qualquer consideração dessas, viver no Brasil vai ser um desgaste constante, como já tem sido ou pior. Porra, eu já tinha me acalmado, estava projetando meu futuro e tentando não pensar no que não posso mudar. Tanto tempo até eu colocar minha vida num caminho, ser aprovado no doutorado… minha vida não suporta mais falsas largadas. E tudo parece tão baldado, ninguém vai ler poema narrativo nenhum, ninguém vai dar a mínima pra Middleton. Talvez em Portugal. Acaba mundo.

Acaba Mundo CXCV

janeiro 5, 2019

Hoje são cinco de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Governo bozonazi desmente Bozonazi sobre mudança no IR e IOF. A turminha da esquerda se estapeia sobre declaração fundamentalista sobre papéis de gênero: é cortina de fumaça, não é. Gente, a quantidade de absurdos será, é, e vem sendo naturalmente farta; eles não precisam planejar, delinear uma tática. Quando mandarem a polícia prender gays e lésbicas, quem disse que a frase é irrelevante vai morder a língua. O problema é que a maior parte da atenção recebida pela ministra foi no regime da chacota. Eu mal tenho vontade de comentar nada mais. Comecei a coluna animado: ‘vou dar minhas opiniões!’, hoje me sinto estúpido, não só porque ninguém lê esta merda, mas porque opinião não estava faltando mesmo. Todo mundo está gritando ao mesmo tempo, gastando energia para comentar que o presimento bloqueou seu candidato favorito (aquele que retomou a insignificância pré-eleitoral) ou se perguntando pelo outro pateta lá que alçaram a salvador da esquerda sem nunca ter sido esquerda… uma massa amorfa de pitacos que não vai a parte alguma. Mesmo literatura me dá desânimo escrever pra mim mesmo; e pra piorar as coisas hoje eu perdi um parágrafo inteiro porque confiei demais na internet sem fio do ônibus de Praga a Viena. Vou escrever com papel e caneta. E tocar fogo depois. Acaba mundo.

Consertar a serpente

janeiro 5, 2019

Em consonância com a recente sibilância dos ancestrais, passamos a ceviciar os sulcos e consertar a serpente. Pede-se a compreensão dos céticos e a colaboração dos lábios. Agora é ontem e o totem tem mais um demão de verniz da mão sinistra do destino mofino que define o fascículo ridículo que bate as omeletes celestes doravante. Ninguém se engane, é do bagre que se barganha a gárgula, será preciso somar migalhas para fazer o póstumo postular os crápulas ou impedir que os transmissores tripudiem da tripulação. Não há outro jeito, a menos que se module o molusco e molhe os molhos de cima a baixo antes que a noite caia e se machuque. Está mesmo escrito que quando o séquito secunda a sequóia o sino segue caçoando dos pássaros, ou é o fausto que não sabe sânscrito? Sim, por certo se sente que sempre se soube, ou supôs-se cedo que seria passageiro, que soava a caçarolas sépticas, silfidescas sensaborias. Pois saiu-se fácil da soneca súbita, caçaram as cisternas e cimentaram a sensatez. Assassinaram o sonho e traçaram a grosseria no assoalho. Resta ao sensível simular a necedade e salpicar seu suor na casca. Só o sendeiro é suposto.

Acaba Mundo CXCIV

janeiro 4, 2019

Hoje são quatro de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Madereiros e grileiros já estão invadindo área indígena no Pará, certos do beneplácito do governo fascista. Gabinetes de parlamentares de esquerda foram invadidos antes da posse do presimento, e a imprensa noticia não um fato gravíssimo e inaceitável num estado de direito, mas uma ‘queixa’ de partidos choramingas e maus perdedores. Bozonazi anuncia alívio no IR daqueles que já pagam pouco, os de maior renda, tudo conforme o script. Em entrevista, sinaliza simplesmente com o fim da justiça do trabalho. Witzel, o juíz crente-fascista, acha que precisamos da ‘nossa Guantânamo’, como se as delegacias já não fossem isso; e quer atirar pra matar, como se já não fosse assim. Intervenção no Ceará após ônibus queimados e outras supostas demonstrações de força de bandidos. Fosse o crime mesmo organizado, intervinha no Planalto, e eu celebraria. Não vou opinar sabendo pouco, mas isso é sempre exibicionismo com algum arrière pensée político; é a região onde o PT é forte, afinal. Venci minha resistência e fui conhecer o castelo de Praga, por sorte não houve filas nem precipitação de neve. A catedral de São Vito me pareceu um cruzamento do gótico do sul e do norte, o que é apropriado à latitude do país; frisos e gárgulas bem interessantes. Me incomoda aqui essa obsessão com Carlos IV, suserano da Tchéquia e do dito sacro império romano, que não era nem sacro, nem romano e muito menos império. Portugal vive de saudades, mas ao menos é das navegações, não da porra da idade média. Amanhã tomo o busão até Viena, onde verei os quadros do Klimt e daí regresso à terra do regresso. Acaba mundo.

Acaba Mundo CXCIII

janeiro 3, 2019

Hoje são três de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Depois da primeira dama bibelô, a mulher do presimento interpreta em libras e leva ao delírio a turminha de lá como exemplo de feminismo; eu achava que isso era uma ofensa para eles. No dia seguinte, a estrutura de educação de surdos é desmantelada. A turminha de cá faz troça da lei anticrime anunciada por Moro. Não há do que rir, vai intitucionalizar o fascismo da lava jato para toda a sociedade, sob o velho pretexto do narcotráfico. A ministra da goiabeira defende azul pros príncipes e rosa pras princesas, ensejando mais um tanto de piadinhas; detalhe, seu séquito evantétrico portava uma bandeira de Israel, país que se vale da tolerância em sexualidade para amenizar seus crimes contra a humanidade como massacrar palestinos e exportar djs de techno. Caiu muita neve em Praga, e eu visitei o museu do comunismo. Mais uma vez pensei na turminha de cá, que faz Stalin de mascote. Pensei também na história de quando a cortina de ferro caiu e o Zappa foi nomeado embaixador cultural por seu admirador Vaclav Havel; bastou que ele declarasse que não sabia o que um homem inteligente como o Havel conversaria com alguém estúpido como Dan Quayle (que nem sabia escrever ‘potato’) e o governo americano mandou que o dramaturgo presidente escolhesse entre relações diplomáticas com Frank Zappa e relações diplomáticas com os estados unidos da américa. Medo do meu país e saudade do meu vaso sanitário ao mesmo tempo. Acaba mundo.

A caligrafia dos santos

janeiro 2, 2019

O zelo do zéfiro se acha enredado em predicados prévios, e os horizontes desastrados culminam em boleros insuspeitos entre cada erupção do pau do escanteio. A vitrola tântrica nem se importa, e tem economizado para se imiscuir sob as condições propícias. Não inventaram guarda-chuva para a chuva de meteoros, e só resta às raízes reclamar ao realejo, que nada negocia com negacionistas. Antes das trufas era fácil fecundar a confusão conforme a física, mas agora os gastos com lagos gástricos supera mesmo a caligrafia dos santos. Dá má sorte somar conjecturas com ferramentas novas, e foi a torta quem disse, então seria prudente amarrar o alívio antes de espremer o sítio. Cada uma que inventam. Outro dia defendiam a insônia em juízo, esfregavam até a relva com enxofre, mais um pouco e decretam perdição da geometria. Às vezes cansa. Foi assim que o queixo se queixou, calculou o calendário e redimiu o assoalho sem fazer alarde. Nem os adereços tripularam os destroços da gentileza. Rumo ao réptil, é o que dizem.

Acaba Mundo CXCII

janeiro 2, 2019

Hoje são dois de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Pois a posse foi um espetáculo grotesco, com os jornalistas reduzidos a um verdadeiro campo de concentração, tendo água e banheiro limitados, frutas apreendidas e ameaças de fogo de snipers para intimidá-los. Quando eu disse que a imprensa mal dá pra defender, referia-me aos patrões, não aos trabalhadores. Jornalistas estrangeiros abandonaram o posto. Entusiastas bozonazistas entoaram louvor ao zap e ao fecesbook, além de redes alinhadas ao presimento (o presidente jumento) para intimidar a equipe da Globo. Como se esta fosse super combativa. É gado do Edir Macedo, que demoniza há tempo sua adversária. Bandeiras de Israel e EUA podiam ser vistas. Orban e Bibi lá estavam, entusiastas, o resto do mundo cagou, e os gringos mandaram Pompeo, que adoraria mandar algum sub, estou certo. No discurso, não prometeu melhoria de vida, só perseguição. Hoje já tiraram LGBT dos direitos humanos, deixaram Coaf sob Moro e tiraram da FUNAI a demarcação de terras, que passa ao ministério dos ruralistas, como prometido. E como prometido o expurgo no funcionalismo não espera nem o carnaval. O fim da estabilidade virá numa canetada e eu mesmo, tivesse seguido no MP fascista, estaria na alça de mira. E minha bolsa está, é claro. Mas deixa disso. Hoje nevou em Praga, eu tinha visto neve no chão, mas nunca caindo em mim. Entrei no museu nacional deles, vi a fila e desisti. De modo geral não achei a cidade encantadora como prometiam, apenas simpática. Mas pode ser meu cansaço. Hoje ao menos não vivi a sensação ruim de ontem, quando estava quase tão desesperado quanto quando estava no Brasil, considerando a sério voltar ao Porto e abandonar tudo. Mesmo assim, farei a seleção à distância, é o tempo de saber a fundura do poço. Se forem cobrar mesmo toxocológico nas universidades, por exemplo, ou mensalidade, já é o bastante para me fazer decidir. Tá vendo, eu disse que ia mudar de assunto. Acaba mundo.