Reverter o sorvete

fevereiro 23, 2020

O acesso ao açúcar caçoa da caçarola enquanto a terceira à esquerda esquece o cação no circo. Nem se o escafandrista escarafunchasse o funcho enquanto antepõe o pêndulo ao látego a estante atenuaria as narinas a seu talante. Talvez se o sabonete abonasse o sino, ou se a jusante ajudasse o Décio, poderia ser que as palmilhas amealhassem palhaços, por que não? O último arcabouço baço das bacias foi facilmente cimentado no tédio. Melhor seria tentar reverter o sorvete enquanto os equinos não aquecem quibes. De qualquer forma, a norma hermética cutuca catetos caquéticos, de modo que a medalha alheia balbucia bulbos, e não é bom perder de vista que a vertigem tinge os ginetes. O que vier é lucro.

Autorama 7

fevereiro 23, 2020

Já está chegando, acomoda aí. Olha que gatinha subindo, e com um estojo de violino? Pensar que eu já quis ser músico, já quis fazer vestibular de música em vez de engenharia, foi a maior briga em casa. Minha mãe dizia “mas você precisa fazer um curso superior!”, como se não fosse um; meu pai dizia que “não dá camisa a ninguém”, segundo ele eu dei um murro no peito dele, eu nem me lembrava disso. Na verdade quando a gente é escroto a gente apaga da memória fácil, eu tenho exemplos. Eu não servia pra músico, eu oscilo, eu levo a sério um tempo, depois abandono, e sou muito irrequieto pra estudar por muitas horas por dia. Na literatura você não desaprende a ler se ficar uma semana sem ler um livro, ou a escrever se deixar de produzir, se eu fico sem tocar bateria as mãos esquecem. Tradução é perfeito, já que eu nunca criei grande coisa. Aí então meu irmão, que já fazia Computação em Campinas veio com a conversa de que a Elétrica tinha um certificado de Engenharia de Som, e eu acabei entrando nessa furada; eu escrevi até uma cartinha pro Yaro, que não respondeu. O Yaro me recomendou uma vez usar chumbo pra isolar acusticamente um quartinho, o que mostra o quanto ele sabia de engenharia de som ou de riscos de intoxicação ambiental. E lá fui eu, passei na Unicamp e na Poli, um professor, o pai da Lívia, a do pescoço, um milico, pagou minha inscrição no ITA, mas eu fiquei desenhando na prova, nem queria nem conseguiria passar, Zeus me livre de militarismo. Eles queriam me usar pra fazer propaganda; foi toda uma história no ensino médio, minha mãe tentou me matricular no elitista Leonardo da Vinci, não conseguiu; aí com as notas do primeiro ano no Nacional ela voltou lá e conseguiu a matrícula e uma pequena bolsa; mas eu achei muito chato tudo aquilo, e voltei pra bagunça do Nacional com cinquenta por cento, eu soube depois que o diretor me chamou de filho da puta porque percebeu que eu eu achei pouco, e achei mesmo, mais pela vaidade do que pelo dinheiro, que feio. Eu tive dois trotes. Um foi privado, com quem morava, ou moraria, comigo, logo na divulgação do resultado lá no CB, quando cortaram minha gafurina e eu colava os tufos no rosto com tinta guache de modo a me tornar uma criatura medonha, o que de fato eu sempre fui. O segundo foi o dos veteranos, que começou na Praça da Paz, a gente ficou sem um dos calçados o dia todo e deve ter tido o palitinho passando de boca em boca, mas nada muito punk; eu acho que quem não quiser participar deve ser respeitado, mas esses ritos de passagem são importantes. No fim do dia estávamos no Furlan, um bar tradicional perto da Itapura, para a chopada. Eu lembro que eu já conheci os malucos da nove sete, a turma que mais teve doidão que desertou depois, a gente deve ter pitado um, e teve uma cena que o Bródi repete até hoje… Por que você não caga na casa do Bródi? Ou do Maciel? Ah, não, “como vai, vim cagar e ir embora?” Só aparecer sem avisar já é indelicado, você nem sabe se estão. O Bródi conta até hoje que a gente estava com um outro capixaba (eu sendo honorário) que era caretaço e eu insistia que todo capixaba é doidão, e ele ficava sem graça. O Gabriel, ou Bródi ou Exterminador, eu descobri mais adiante, fumando no famoso CB00, a sala de aula que a gente preferia às de cálculo, nos banquinhos perto do laguinho, os quais arrancaram, que tinha jogado basquete comigo no Saldanha da Gama em Vitória; eu era fraquinho, ele sendo alto pegava muito rebote, mas só isso também, embora ele se ache o Michael Jordan. Ele se achava bom em tudo, o garanhão-mor, daí “Pira, Bródi” ou Exterminador. Figura. Ele passou por uma cirurgia grande, preciso fazer outra visita a ele. Pronto, estamos chegando na Orozimbo. Eu também passei uns dez dias na UTI. Quando eu acordei eu prometi que nunca mais ia fumar, como se fosse o cigarro o responsável pela pneumonia, mas eu me sentia culpado. Já sei, canibalismo. Começou no show do Paul em Goiânia, estava febril, fraco, aí eu dormi no sítio em Goianápolis e o Tio Choca fazia uns chás. No dia seguinte eu fui trabalhar bombardeado e ainda tive que ouvir piadinha de um colega fascista, que achou que eu dormia, sobre um episódio do qual eu muito me orgulho, quando eu tirei um barato da cara da tal Dodge, que depois virou PGR – ela perguntou se eu tinha algum problema na cabeça, eu disse que tinha vários mas preferia uma conversa mais objetiva, ela queria fazer objeção ao chapéu, aquele que ficou na Rua Aurora – aí eu levantei e disse umas na cara dele. Passei pelo médico no trabalho, que disse que não era nada, mas pouco adiante eu já estava no hospital e mais um pouco entrando no CTI, um médico disse na minha frente que eu estava em choque séptico, eu vi quando enfiaram sonda no meu pinto… Acordei com as mãos amarradas na maca, tubo na boca, e vendo as janelas de um prédio meio futurista que eu não conhecia. Primeiramente eu pensei que era mais uma internação psiquiátrica, depois eu descobri que minha família contratou um táxi-aéreo pra me levar pro Albert Einstein. No coma eu tinha umas espécies de sonho, e alguém falava que eu tinha sofrido um acidente, e eu me perguntava qual; na época eu ia ao Rio ver um festival de jazz, achei que era isso, o avião caiu. Eles tiveram que limpar minha caixa torácica cheia de pus. Eu tive um episódio de sonambulismo na internação (o que eu tinha muito, criança, destrancava porta, uma vez quase mijei no meu irmão), e era misturado com um sonho sobre a batalha de Tewkesbury – quando os York vencem a Guerra das Rosas, eu tive minha fase Ricardo III – e aí veio psiquiatra, começaram a pirar nisso. Bobagem. Já pode apertar o botão. Aqui, atrás desse prédio é a rua onde mora o Gabriel, morava o Maciel antes de se mudar pra rua de trás, e lá atrás no fim do século vinte moravam o Pequeño, grande Pequeño, o Fers e o Serjão. A verdade é que no primeiro semestre eu fui bem comportado, bom aluno, e gastava a maior parte do tempo livre escrevendo pra namorada longe. No segundo semestre eu comecei a frequentar a casa dos goianos, e frequentar, e frequentar, e dormir noites seguidas, até torrar a paciência do Pequeño, que disse que eu precisava curtir a onda “na minha goma” – ele já era um erudito na época, e vê-lo usar gíria era engraçado. O Alexandre Piccolo e o Fernando Canedo eram da turma do meu irmão, Computação 96; o Sérgio Henrique tinha entrado em Elétrica, e no ano em que eu entrei ele mudou pra Economia, quando ele foi pintado de verde, saiu na Folha assim e ganhou o apelido de Hulk. Pronto. Pra um cigarrinho vai ter que dar tempo.

Autorama 6

fevereiro 22, 2020

Eu já ia me mudar pra Brasília, mesmo, que me importava eleição de prefeito? Ou eu só queria ir embora de Campinas de todo jeito? Foi em dois mil e quatro ainda, isso mesmo. Prefeito de esperança foi o Toninho, que até hoje, e até o Pedro, de todas as pessoas, dizem que seu próprio partido mandou matar; foi no dia do onze de setembro, que se não me engano foi no dia onze de setembro, dois mil e um (e minha mãe morreu na mesma data três anos depois). A vice dele era uma nulidade, eu a conheci no dia do penta, quando eu fui com o Piccolo, grande Piccolo, à chácara de uma amiga dele, onde conheci ainda o Ximú, e através dele o Song X de Ornette Coleman e Pat Metheny, uma fritadeira da porra. Em setembro de dois mil e um eu estava hipomaníaco. Entre a primeira crise e a segunda eu tive umas duas ou três dessas “hipocrises”; eu chamava de viver intensamente, o que não é inverídico. Era também a época que eu frequentava cerimônias de Santo Daime com a turminha da classe média mística sudestina e me deixava seduzir pelo pensamento mágico, que é coisa da classe média mística sudestina, não do daime, eu sei porque fui a Rio Branco depois. Pois uma semana antes do atentado eu fui com o Campeão e mais uma turma a Visconde de Mauá, Céu da Montanha, e eu estava apaixonado pela Morango. A Mariana era do Cursão e da turma do Rugby, derivava o apelido de Moranguinho duma personagem infantil, em função das bochechas rosadas. Passou um bom tempo sem que eu pensasse em me interessar por ela. Aqui tinha um mini-shopping onde eu gostava de ir ao cinema. Eu vi Matrix aqui, com o Piccolo, grande Piccolo; quando a gente saiu da sala e passou pelos telefones públicos eu perguntei a ele se ele atenderia se um tocasse. Aquela risada bonachona dele. Eu ainda não sabia que me tornaria o protagonista do filme em minhas viagens. Mas aí teve uma partida que a gente disputou em Indaiatuba, o rugby sendo quase uma desculpa pra desafiar os limites da bebedeira depois, em que nossos olhares se cruzaram e ela disse “ah, Leo, hoje não rola”. E eu fiquei mastigando aquilo, me convenci de que ela gostava de mim, a ponto de decretar que era líquido e certo. Dentro da minha barraca em Mauá, bem cedo antes do trabalho, eu compunha versos para ela – o que eu sei dizer hoje é que começavam com “Ó cachos d’oiro” e terminavam com “pássaro canoro” (a voz dela era mesmo bem suave) – quando me convenci que tinha sentido um beijo no rosto, que era ela me visitando; eu determinava que nosso encontro seria no onze de setembro, porque um e um é um par e nove é novo, ou algo assim. Ela topou no dia treze, se não me engano, mas eu não reclamo do azar, porque fui eu o estabanado, mesmo. Mas você não pode deixar de contar sobre a Kátia; ela estava na trupe de Mauá e, quando estávamos indo até uma cachoeira, os dois no banco traseiro do carro, a mão dela buscou a minha. E reagi instintivamente, fugi. Eu estava maquinando mais versos pra Morango. Mas pera um pouco, esse foi o terceiro poema, era algo horrível do naipe de “a flor de Nichteroy desbrocha qual botão”, mas com certeza foi em alguma viagem posterior e eu estou misturando; foi em São Paulo mesmo. É muita informação. Até hoje eu me pergunto se foi só o apaixonamento ou se foi racismo; o que posso dizer em minha defesa (defesa?) é que também rejeitei a Alessandra, a amiga carioca da Dani. Na verdade foi pior que isso, eu tinha comprado ingressos pro Gilberto Gil pensando na Morango, que não quis ou não pôde, e eu convidei a Alessandra para ficar de blablabla a noite toda sem tentar beijá-la; tempo depois na casa da Dani ela dizia que na Unicamp só tinha pau mole, e eu sabia que o pau mole era eu. Na véspera dos aviões no World Trade Center eu achei por bem roubar uma placa da Unicamp, a segurança viu e bloqueou meu carro com uma viatura na frente e outra atrás. Eu voltei andando e no dia seguinte saí de bicicleta, um menino do condomínio veio contar todo animado que era feriado porque tinham assassinado o prefeito, e lá fui eu pro campus, walkman no ouvido, era uma fita do Frank Zappa, e quando eu já tinha ouvido tudo pus no rádio, e o repórter estava descrevendo o espetáculo do século, nas palavras do Stockhausen (eu ainda não escutava Stockhausen, na época). Eu achei que era ficção, tipo a Guerra dos Mundos do Orson Welles. Depois ainda teve o episódio na cantina da Pedagogia, onde um coral entoava cânticos macabros e um gordinho nerd celebrava o “café com desgraça”. Eu nunca fiquei feliz só porque eram os Estados Unidos se fodendo. Depois, eu devolvi a porra da placa, retomei a Saveiro e voltei pra casa; no caminho eu vi um sujeito sentado na calçada com um cajado, o que parecia um portento, mas era só o babaca do Magnus Opus Obscurus, programa da Muda contra o qual o Pedro lançou uma campanha em função do discurso de ódio que ele punha no ar, e aquele povinho “alternativo” do IFCH passou pano, como se diz hoje. São piores que os playboyzinhos de discoteca esses “descolados”, mais afetados e mais ególatras. À noite eu telefonei pra Mariana e ela topou na sexta. Onze foi terça, eu me lembro, então nosso encontro foi no dia… quatorze, não treze. Eu sei que foi sexta porque na manhã seguinte tinha aula do Jurandir, numa matéria de sétima, como eu chamava. Jurandir era um tucano de média plumagem, nunca se elegeu – o Maurício Conti era cabo eleitoral dele – mas nunca faltou boquinha onde governasse seu partido. Uma vez eu fiz uma viagem com o Fissurinha até Cruzília e quando a gente chegou lá estava a cara dele na TV, diretor do Denatran do FHC. Ele inventou o Rótula, que faz o Centro de Campinas igualmente inóspito a pedestres e motoristas. Mas isso não importa. Eu sempre me batia com esse professor, é claro, o que é baixo da minha parte, porque alguém que se vê como o tecnocrata arquetípico e pronuncia manêigiment em vez de ménedgement está abaixo do comentário. Bem, o encontro. Eu a busquei em casa e tratei de jogar logo na cara dela o que se passou em Indaituba. Como o mau jogador de truco que vê o zape na mão e pede truco na primeira rodada. E o resto da noite foi na nota do constrangimento, e da minha inabilidade social crônica. A gente foi ao Dalí, ali onde tem o Mackenzie, perto da minha primeira morada da Buarque. Diziam que o restaurante era do Rubem Alves, que é um desses que eu não li e não gostei. Não gosto de ver ninguém sendo alçado a sábio. Hoje mesmo é o Karnal, que não perde uma chance de confirmar minhas suspeitas. Ela achou o máximo, “do Rubem Alves!”. Pedimos peixe e vinho (super cristão, isso); nossa primeira divergência foi sobre as alcaparras, eu as detestava na época. Aí a dado momento eu declamei os versos dela e ela ficou “puxa, puxa”; era o momento de eu me levantar e ir até ela, mas e a insegurança? Talvez se estivéssemos lado a lado; mas sem talvezes agora. Aí eu pedi uma segunda garrafa de vinho, o que a desagradou, e fiz uma brincadeira sobre ouvir Megadeth na volta, que era o modo de mostrar que eu estava puto, e tudo foi tranquilamente ladeira abaixo. Nos dias que se seguiram a tensão e a ansiedade estavam fechando minhas vias aéreas, e eu abandonei o semestre pra fazer a cirurgia de desvio de septo e cornetos em Vitória – na Serra, na verdade, perto de onde estão hoje os ossos da minha mãe e da mãe dela. Não adiantou muito, até hoje a tensão e a ansiedade fecham minhas vias aéreas. Quando eu já morava em São Paulo, eu fui ao pronto socorro reclamando disso e o puto do médico só faltou falar que eu estava apenas tentando cabular o trabalho. E se for só ansiedade? Eu estou sentindo, porra. Nunca tive muito apreço pela classe médica. Ou quando eu tive uma crise de ansiedade em Brasília e fui ao hospital com meu pai; bastou que eu dissesse que era bipolar e ele começou a se endereçar ao meu pai, “ele não tem um remédio de SOS?”. Eu estou na sua frente, filho da puta! Se eu não estivesse fragilizado, teria dito isso, mas eu só pensei depois (esprit de l’escalier); não teria resolvido nada, seria sentar na mureta de novo.

Autorama 5

fevereiro 21, 2020

Mas você vai anotar tudo, até as merdas? Vai ser uma narrativa de merda. E os crimes? Vai dizer que praticou discriminação racial e agrediu uma criança e um velho? Será que alguém vai descer na Buarque de Macedo? Melhor ficar atento. Meu primeiro endereço em Campinas, mil novecentos e noventa e oito. Com o Domingos, o Renatinho Finta e o Maurício Conti; o Luciano já morava com a Helô no mesmo predinho de meio de quarteirão, o beco é logo ali depois daquela travessa diagonal que dá na Carolina Florence, onde a gente esperava o ônibus pra Unicamp. Eu acho foda não falar mais com o Luciano. Opa, um lugar, rápido. Ufa. Mas mesmo se não fosse a trreta pessoal, a treta política ia ser muito acentuada, hoje. O cara odeia índio. Também, filho de latifundiário em Rondônia, como não odiaria? O Maurício era irmão dele, ainda deve ser, e tentava comprovar a meritocracia empreendendo em computação, tucano engajado. O Renato é um tosco capaz de dizer que “mulher é igual CD, você quer só quer um pedacinho e tem que comprar inteiro”, o que revela um desconhecimento enorme tanto de mulher quanto de música, mas vá lá, viva e deixe viver. Acho que essa mentalidade musical era disseminada, e determinou o fim do álbum com os algoritmos e playlists e streamings da vida. Ali, é bem ali. Tinha um pé de ameixa, um vizinho barrigudo que curtia Rock’n’Roll, e a caixa de correios onde eu tanto ia conferir se tinha carta da Karin. Ela recebia cinco vezes mais cartas minhas do que eu dela, às vezes chegavam a ser diárias. Ainda hoje quando eu vejo aquele coletor de correspondências em formato de sino no Ciclo Básico eu me lembro daqueles dias. Será que ainda passam para recolher? Encontram alguma coisa lá dentro? Alguma carta de amor? Eu devia ter cagado. Como você não deu um barro antes de sair de casa? Não tava com vontade. Agora só no shopping. Não, tem aquela padaria, na Sacramento, perto da casa do Bródi, você troca de ônibus lá, dá tudo certo. Você vai cagar na padaria? Melhor que nas calças, não? As pessoas te olham estranho quando você se diverte com os próprios pensamentos; quem não se diverte com os próprios pensamentos deve ter uma mente muito chata. E a sua mente é um modelo a ser recomendado, né, Leonardo? Será que eu sempre fui doido, mesmo? Minha mãe ficava me levando de psicólogo em psicólogo pra ver se me consertava. Com todo respeito, pau no cu da minha mãe. Pau no cu de todo mundo. Meu irmão tá lá, fascista, fanático religioso, capaz de praticar homofobia contra seu filho de nove anos; nunca foi levado ao psicólogo para ser consertado. Meu pai é o típico macho do patriarcado, me espancava sem que eu tivesse ideia por que motivo, como se motivo pudesse haver para isso, aceitava presentinho de general em plena ditadura e convivia com torturador com um sorriso no rosto; nunca precisou de psicólogo. Pois bem. Eu barbado (bem, costeleta conta?) aos dezessete anos e minha mãe ainda insistia nisso, até à terapia de vidas passadas, que era moda, e custava caro, ela recorreu. Eu ainda me lembro que teria sido um assaltante de caravanas que foi emasculado, uma moça nobre que fugiu e se tornou prostituta, e lembro que eu era um “espírito” que não queria “reencarnar”, e meu irmão gêmeo que não sobreviveu ao parto prematuro teria vindo apenas me “trazer”. Tudo fabricação do cérebro, é claro, e seu efeito terapêutico, se houver, é a boa e velha auto-sugestão. Sei que foi a época em que comecei a namorar pela primeira vez (excetuando a Bia no Cojubim), e não podia me queixar, devo ter ficado menos rabugento mesmo. Nas minhas fotos de adolescente eu estou sempre com a cara fechada. A Karin. A Karin foi o amor da minha vida no aspecto da descoberta, e da idolatria romântica. A Gabi foi o amor da minha vida no que tínhamos de adultos, e safados. A Thaís foi o amor da minha vida que podia ter sido, se a gente não estivesse fora de fase, ela enfeitiçada por mim quando eu fugia de relacionamento sério e eu arrependido de tê-la menosprezado quando ela já não era mais “bobinha”, palavra dela. A Karin eu tinha conhecido no segundo ano, ela era de outra turma, tinha achado uma loirinha bonita mas meio sem graça e bola pra frente. No terceiro ano, ela era da minha turma, e eu a via na academia de ginástica, também, e sei que em cinco de julho de nove sete a gente se encontrou numa festa julhina da escola, e, depois de conversar muito, se beijou com um retrovisor entre nós, depois fomos a uma rua mais afastada onde eu sondei seus seios com a mão, o que ela permitiu, como disse depois, porque estava afins mesmo e queria me fisgar. Ela estava com o cabelo vermelho; na verdade ela tinha pintado de um vermelho berrante, e aberrante, um pouco antes, foi aquela chacota, depois optou por um tom mais fechado. A gente ficou conhecido como o casal “maluquinho” da turma. Eu me lembro de quando disse que nós tínhamos seis meses na melhor das hipóteses, o insensível, já que meus planos já eram de Unicamp (e eu não tinha medo do vestibular). Em pouco tempo eu estava arriado nas quatro rodas por ela; eu percebi quando ela fez alguma manha qualquer e eu vi que não conseguia sentir raiva, então eu disse a ela, deitados na grama na beira da orla pedregosa atrás do shopping, sob as imensas colunas de concreto da terceira ponte, que a amava. Depois ela veio dizer que não tinha acreditado, a putinha, mas nós nos amamos muito e dissemos isso muito. A Karin era um doce, mesmo geniosa (e era eu mesmo fácil?); nós éramos bem novos, descobrindo o sexo ainda. Na primeira vez ela me chamou pra casa dela, o pai tinha viajado, a mãe apareceu de surpresa no meio da noite e eu tive que me esconder; tudo muito sem jeito a gente transou. Depois ela foi no ginecologista e depois veio me zoar porque o hímen dela estava intacto (complacente, o filho da puta) e eu prometi resolver isso. A segunda vez foi na minha casa, meus pais viajaram, mas minha vó estava no quarto dela; foi pura mágica, eu me lembro especialmente de beijar seus ombros, e na hora de descer o morro (o prédio se chamava Sobre o Morro, só que em francês) para ir deixá-la em casa, a gente olhava pra cima e via minha vó na janela. Depois de umas relações mais era ela reclamando os beijos no ombro, enquanto eu me preocupava em incluir sexo oral na conversa e variar posições para além daquela do missionário. A Karin tinha algo doentio com o pai; segundo ela, ele a reprimia, mas eu percebi que era ela mesma. Nunca quis me apresentar a ele até que eu mesmo tomasse a iniciativa. Uma vez a gente foi ver um filme no shopping e eu perguntei o que faríamos depois. Ela disse que voltaria pra casa para agradar o pai; eu tinha acabado de encarar quinze horas de ônibus para estar em Vitória, e fiquei muito puto. Da mãe dela eu acabei ficando amigo, era uma alemoazinha da Bélgica, e o pai remontava à Ilha da Madeira, a Karin sendo uma branquinha muito fofinha de olho castanho e um tênue buço ao qual ela não dava muita chance de se manifestar. Ela tinha umas pernocas lindas, mas eu não me lembro dos seus pés; na época eu ainda não tinha desenvolvido o fetiche. O tempo ia mostrar que nós éramos na verdade muito diferentes, em especial quando eu cometi o erro de insistir para que ela provasse maconha; e a mania ia nos afastar em definitivo. Nós já namorávamos à distância, mesmo, o que não podia se sustentar. Mas, por exemplo, quando eu disse que estava frequentando a toca do poeta Waldo Motta lá no Centro de Vitória, com o Alexandre, de quem tem um tanto de história, também, ela teve uma reação negativa, porque ele é homossexual; nesta última crise eu fui a Vitória tentar falar com o Waldo Motta porque afinal ele conhece mitologia e ia entender meus planos de salvar o mundo, ainda bem que ele não pôde! Ou então quando ela disse que numa viagem na Bahia sentiu vontade de sacar um chicote contra a negraiada porque a balsa estava lotada; aquilo me assustou, mas eu não disse nada, também, ou disse? Não com ênfase. Ali é o Aníbal, onde eu votava. Eu me lembro quando meu pai me chamou de “vermelhinho” em tom de chacota, lá.

Combinar binóculos

fevereiro 17, 2020

Já não bastava o escoamento dos trâmites, agora a peçonha dos sonhos monopoliza azulejos. O que se assume assimétrico metralha a telha tolhida de toalhas e se põe a pedir pedúnculos ao padeiro e combinar binóculos. Nada novo. O precedente do dentista atesta o triste teste dos testículos, e a relva avalia o valor dos vales sem que ao menos o monstro contamine o ministro. Enquanto isso o sucesso do césio ascende à dança, e a doçura da cera acirra o sarro, e nem mesmo o miasma asmático mastiga o trigo intrigante das grutas. Como se o cupuaçu pulsasse, e o palácio tossisse. Não precisava, nem a codorna não encaderna códigos; na verdade, o cabedal dos dálmatas mete matas nas metas há muito e basta apenas que o supercílio auxilie o molho para que a garupa das pérgolas agarre a regra. Questão de tempo.

Corroborar barítonos

fevereiro 10, 2020

Será mesmo que a decadência das retas paralelas aprisiona o nariz do zênite? Não se pode distender as tendências sem que o fim de tarde tropece no pêssego? O melhor que o torresmo arremessa na massa, incluindo o índio, não chega a aconchegar bexigas, e nem a patativa ativa a válvula. Tampouco a falta de fiambre é o bastante para acumular muletas ou corroborar barítonos. Do jeito que a flanela muge, a magia do mijo ajeita o bojo da juba, e o conterrâneo das renas renuncia aos sinistros; mesmo se os sinônimos mínimos se irmanassem à semana, os parceiros parecem semear marasmo, e patetas tépidos pedalam pelados. Aparentemente, nem o meneio da manada manieta anáguas, nem a altivez dos vasos extravasa o visgo. Depois não digam que o telefone afere o farol.

Inebriar brioches

fevereiro 9, 2020

Tá vendo? Bastou o bastão abastecer sestércios que o quiabo abanou nababos bambos. Tampouco a polca culpou o escalpo do polaco de Acapulco, não senhor. O último timoneiro a maneirar aríetes tirou tarugos do garimpo do pária, sob a bússola da sílaba e à luz do zelo. Se o moscardo coordena as dunas ou se a saliva vela as veleidades dos detentos que importa agora que a garoupa parodia a parada? O mesmo processo sassarica sem assírios, apenas o calcanhar canhestro do trocado caduca há décadas. E quem diria que o diretório dirimir miragens agenciaria o cerume a ponto de tampar piratas ou inebriar brioches! Agora o gari garoa, e catar cotonetes nem contenta a tintura, como se uma parcela do salame se dispusesse a tripudiar do pódio ou contratar trimestres. Nunca se sabe.

Arreliar relógios

fevereiro 5, 2020

Não é possível que o quero-quero careça de caroços enquanto a tontura dos toros atavia o vernáculo. E ninguém autoriza o zéfiro ou mitiga os gatos mais do que a canícula. Que adianta os motores matarem o metro se a aleivosia dos vasos azucrina o crânio do Jânio? Nem que fosse o açúcar. Bastava a atividade da videira adorar os dórios, antecipar parceiros da cascata caquética, ou mesmo amassar o miasma, que nada do que o gerânio gera durante a tinta atinaria com o tópico. Eu sei que o porta-malas urge, que o sargento janta a junta, tudo bem, mas sair por aí a atenuar naturas e arreliar relógios já é demais.

Rótulos rútilos

janeiro 27, 2020

Enquanto o aquífero fraqueja, o queijo aquece o cágado. E como seria diverso, se o devir diverge do jarro? Todo esse tempo que o paquiderme dorme, o drama do drops adere ao diário, e os últimos átomos mutantes tantalizam a lisura a ponto de espantar os rótulos rútilos. Não que a participação das peças apascente centauros, mas se pelo menos as minas de Minerva enervassem vassouras, o tratado atado ao tédio atenderia o dinossauro. Do jeito que a lajota alija o júbilo, até a tela latente do tálamo se propõe empinar pepinos, e o recente cinto tensiona a atenção do santo ao receber cebolas. Quem sabe o súbito.

Autorama 4

janeiro 22, 2020

Não é melhor você emendar seu presente em vez de contar o passado? Fazer exercício e parar de beber duas garrafas todo dia? Quase todo dia. Você é um alcoólatra. E o que é que você tem com meu alcolatrismo? O ônibus não está, dá pra carregar o cartão e fumar. Agora que eu vou voltar a ter carro, vou deixar de frequentar o terminal. Tem sempre uma mulher bonita ou outra. O automóvel é antissocial. Você é antissocial. Bom dia. Cinquenta, por favor. Esse sistema de cartão é uma sacanagem com quem não tem o cartão, mas é prático. Obrigado, boa tarde. O problema é que se eu puser este cartão junto com o de São Paulo, ele desmagnetiza, é um saco. Vou correr lá no fundo pra fumar um cigarro, é só ficar de olho no Rodoviária. Rodoviária ou Terminal Central? Você trouxe as anotações? Sequela! Eu acho que os dois passam na Orozimbo. Amigo, pra Orozimbo esses dois vão? Ah, beleza, obrigado. Carregar essa pasta solta é um saco, devia ter trazido uma mochila. E um livro. Eles têm um azulejo em homenagem ao Boi Falô, é a história de que o boi disse que em sexta-feira santa não se trabalha; deve ter sido uma esperteza dos escravos contra o capataz. Campinas não se envergonha nem um pouco da escravidão, foi a última cidade a engolir a abolição e tinha execuções em praça pública, ali perto da prefeitura, e o Barão Geraldo de Rezende, e mais um tanto de feladaputa, segue sendo homenageado. E por que escrever sua vida agora? Por que não depois do sessenta? Fumando três maços? Também não é o caso de narrar uma vida de realizações e de grande interesse, só umas historinhas de quando eu estava louco. E mais alguma coisa ou outra, ou senão vou ser eu a me reduzir à minha doença, que é do que eu tanto reclamo nos outros. Ninguém vai querer ler os detalhes banais da sua vida. Cara, ninguém vai querer ler meu Hamlet, então que importa? Minhas mulheres, eu preciso falar das minhas mulheres. Isso dá um parágrafo. Não me acelera não. O Rodoviária tá encostando. E você segue jogando bituca. Monstro. Eu teria que começar com a Érika lá em Porto Velho, amor platônico de meninice. Ela estudava de manhã e eu à tarde, então em pouquíssimas ocasiões eu a via, e ficava embasbacado. Mais pro fim do fundamental a gente já convivia, e demorou um tanto a que ela deixasse de me intimidar. Tá vendo, se não tivesse que fumar viajava sentado. Os dois pertencíamos à classe de estrangeiros em Rondônia, ambos de pele clara; ela era loira. Eu tinha cabelo loiro quando pivete, também, e minha mãe, quando jovem. Enfim, eu sabia os dois carros do pai da Érika e sabia de cor a placa de um deles, era um Del Rey. E quando eu passava em frente a loja da mãe dela eu ficava pensando nela. Era assim que eu expressava meu amor. A dado momento eu decidi que não ia mais gostar da Érika e escolhi uma das gêmeas que eram consideradas bonitas, a que não era antipática, para dirigir minhas “atenções”; mas depois eu vi que estava me enganando e “reatei” com a Érika. Só uma vez eu criei coragem para me declarar, depois de tocar bateria na festa de formatura, quando eu já sabia que ia me mudar pra Vitória. Engraçado que na formatura do pré eu também fui a “estrela”, me vestiram de apresentador de circo e eu fiquei me mijando em cena. Eu sempre tive isso com a bexiga, mijei na cama até grande e até hoje quando eu sinto vontade, já estou apertado. Enfim. Ela ainda perguntou há quanto tempo eu gostava dela, como quem já soubesse. E sabia, eu sempre fui transparente. O pior é que ela gostava de um cara que era um babaca. Eles namoraram uma semana e ela largou porque ele passou a mão na bunda dela; e nem bunda ela nunca teve. Tempo depois quando ela morava em Brasília ela se esquivou de me ver e ficou assustada quando eu a encontrei por acaso em Taguatinga. Quando eu pensava em estudar na Católica e ela estava terminando. Aí a gente conversou um pouco, era um posto de gasolina, e eu encostava meu joelho ao dela, como uma última desesperada tentativa de contato físico. Bem mais adiante ela se declarou lésbica, e viva. Aqui quando passa por essa fábrica tem cheiro de doce. De massa de bolo. Lembra aquela menina da alimentos que trabalhava lá? Um par de olhos que eu acho que não vi igual. Agateados. Você nunca daria em cima dela sabendo que ela tinha namorado. E quando você mesmo namora não escapa de chifre. Sem malícia, você. Em Vitória você causou um certo frisson, não foi? Elas te achavam inteligente. A Luíza te oferecendo o primeiro pedaço do bolo, ela era magricela mas era charmosa; o beijo na sessão de cinema junto com a excursão da turma toda e a tiração de sarro depois. Ué, não deveria? O comentário da Lígia, com suas sardas e seus olhos verdes, se insinuando… “nem me esperou”; e foi preciso que ela mesma muito tempo depois tomasse uma iniciativa, pediu explicação de matemática em domicílio, e o idiota ainda deixou passar porque ela fez charme, “me aproximei demais de você”. Lígia tinha uma vibe estranha. Mas eu devia ter dado uns beijos, não menos. Bem, você está esquecendo alguém importante. A doida vizinha da escola de música, em Porto Velho, seu primeiro beijo. Não faço ideia de seu nome. Era Sandra? Ela beijava todo mundo da turma, da região, e chegou a confessar que preferia os de cabelo comprido. Deve ter sido decisivo para que eu tentasse usar cabelo longo depois. Era na área externa da casa, toda descuidada, mato crescendo, super romântico. Na verdade eu acho ótimo que tenha sido uma experiência sensória e não sentimental, ela beijava bem, eu acho; prática tinha. De volta a Vitória, tinha duas de quem eu gostava, Lilian com i e Lyllyan com dois y e dois l, esta era troncudinha e tinha olho verde e cabelo loiro cacheado, super gente boa, mas namorava, embora eu ache que ela me curtia também; a outra era era uma chatinha bem elite provinciana, mas na época eu já gostava de criar ideias de apaixonamento, e ela foi um, eu me lembro de voltar da escola ouvindo Angra tocar Wuthering Heights, no cassete, é claro, eu até gravei a música duas vezes seguidas, e pensando nela. Hoje o André Matos já se foi. O Espírito Santo tem essa imigração alemã e italiana, e eu não poderia negar que meu padrão de beleza era o da TV ou da revista Playboy, e ainda é em grande medida. Uma vez eu deixei de ficar com uma negra linda de aparência e personalidade, apaixonado por uma loira, e é um dos maiores arrependimentos meus. A verdade é que eu nunca beijei uma negra mesmo, de pele escura. Bem, nem asiática, também, ou indígena, ou esquimó; tá bom, já chega. Já no terceiro ano, eu me apaixonei pela Lívia, que era um pedaço de gente sem graça, apenas por seu pescoço. Seu pescoço ficava sempre na linha de visão do quadro, e eu inventei isso. Eu ligava pra ela, naquela época não era impensável um telefonema, hoje parece que é assédio. Eu convivia bastante com ela e com a Aline, que era uma morena acobreada, meio misteriosa mas de riso franco. Putz, a Aline. Nunca percebi a tempo que a Aline gostava de mim. Foi o Johnny Milk quem deu o toque quando já era tarde, grande João, vai ter menção a ele com certeza. Nós éramos famosos, Aline e eu, por tirar as maiores notas e tal. Muito tempo depois, depois do ensino médio, depois da Karin e depois da primeira mania, ela me convidou para encontrar ela e umas amigas, e eu não fiz nada. Eu nem estava bem de volta nos eixos ainda, comentei sobre a internação, o que não precisava. Nem tinha superado a Karin, também, eu acho. Que eu sou um bocó não precisa fantasma sair da tumba pra dizer. Uma vez houve um churrasco da turma, eu namorava a Karin, que não foi, e ficava falando perto da Aline que a monogamia era uma merda, sendo um babaca com as duas. Eu estava com o cabelo grande, armado e parecendo uma samambaia, que ficava sempre sob um boné invertido na escola, causou a maior sensação. O pessoal não botava fé de eu ser ótimo aluno e pirado. Eu deixei o cabelo crescer algumas vezes, mas ele nunca ficou bem como o dos ídolos do heavy metal, ele é crespo, tipo white fro. Na escola em Porto Velho tinha um cara que tirava sarro do meu cabelo, dizia que era à prova d’água. Eu nem entendia por que isso era uma ofensa; depois acabou pegando meu apelido de Cabelo de Bucha ou só Bucha, e eu achava de boa. No tempo de Unicamp eu prendia atrás com duas gominhas e na frente ficava sempre uma mecha que eu prendia na orelha; mas o resultado disso é que o cabelo era todo quebrado. Quando eu estava no Rio fazendo mestrado ele era longo também, mas eu passava um creme que o fazia assentar; um dia eu saí sem creme e uma senhora tomou um susto e quase saiu correndo quando eu tentei pedir informaçoes em Ipanema. Essa é a parte do meu avô materno, um mestiço do sertão nordestino, minha vó provavelmente vem de cristãos novos, e pelo pai eu descendo provavelmente italianos, não se sabe. Aqui funciona o centro espírita que meus pais frequentavam quando moraram aqui, quando a mãe se tratou no HC da Unicamp. E virando ali foi onde eu tomei um enquadro da polícia com o Dirceu. A gente resolveu comer umas putas, eu fiz um baseadão e pegamos o tapetão. Foi só virar aqui que mandaram encostar. Eu mandei o Dirceu jogar fora, fiquei tão tranquilo que fiz graça com o cana (eu adorava), e só depois do bacu todo o Dirceu revela que tinha colocado no extintor, e o policial não encontrou. A gente nem foi até o Itatinga nem nada. Acho que a gente foi até o Centro, e ele, que tinha posto toda a pilha, recorreu ao que chamavam de baixo meretrício, enquanto eu me maldizia. Outro dia ele surgiu pedindo voto pro Bolsonaro. Acho que ele realmente não saca nada de nada de política, pediram que ele fizesse isso. Espero. É um sujeito bom, mas é mais doido que eu. Ele foi internado no onze de setembro, e jurava que eu tinha a ver com aquilo; e o pior é que eu devo ter acreditado em algum momento que tinha mesmo. Sei lá o que eu já acreditei. Já acreditei que estava sendo espionado várias vezes, ou que era um herói cyberpunk na internet, o Neo do Matrix, já escrevi My name is Leo no papel e na tela em diversas ocasiões; uma vez eu comecei a perceber que apareciam textos em resposta ao que eu tinha escrito, o que não é nada de mais, talvez, mas parecia um filme de aventura. Tem um monte de história, eu preciso fazer umas anotações, minha memória é péssima.