Autorama 18

fevereiro 21, 2021

Eu tinha me mudado pra Brasília em dois mil e cinco, após a morte da mãe a gente quis reunir a família; eu mesmo não tinha muito tesão em morar lá, e acabei vivendo dez anos. Do meu projeto de me tornar músico e engenheiro de som eu não tinha me tornado nada, e nem bancário eu era mais, e comecei Geografia na UnB. Foi uma tremenda farra enquanto eu estive lá, Peter Pan da porra. Teve uma festa que a gente organizou naquela tenda estilosa da UnB, e foi escalada uma banda chamada Zé Recado e Tommy Nota, só pelo nome, era uma bosta, um acampamento em que eu levei a bateria, voltei em casa pra buscar o pedal que ficou pra trás (até o que é perto é longe em Brasília, imagina o que é longe) e quando foi à noite eu dormi em vez de tocar, a mesma fita em que eu e um grupo perdemos a carne e a cerveja porque disseram que dava pra voltar pelo leito do rio e levou horas, ou quando eu fiz festa lá no prédio do meu pai, a gente começou a escalar as estruturas e um japonês veio brigar com a gente sem falar português direito. Teve uma vez no CA que eu disse pro Rico,que era da Ceilândia, que não era playboy, e ele disse que pro pessoal da quebrada dele eu era sim. Só não foi meu primeiro choque de classe porque ainda em Porto Velho a gente morava num condomínio, modesto, que uma empreiteira largou lá… inclusive o Cojubim era sobra da construção da Madeira-Mamoré, que matou muita gente e não serviu pra nada com o fim do ciclo da borracha e o Condomínio das Acácias se não me engano era sobra da usina de Samuel, que também não produz energia. But I digress. Sei que do lado de cá do muro tinha uma piscina e uma quadra, e do outro um charco e uns favelados ou beiradeiros, gente na merda. Um dia ventou muito e o muro caiu, os miseráveis apontavam o dedo rindo da gente, felizes da vida porque ao menos a gente se fodeu um pouquinho. É foda. Mas voltando a Brasília, logo no primeiro semestre já aconteceu uma greve, e nesse mesmo tempo eu descobri que tinha sido nomeado no concurso do MP, que eu nem estava acompanhando, e fui assumir lá em Joinville. Foram outros dias de porralouquice, de ir pra Florianópolis e pegar fumo no morro, ir pra Oktoberfest… eu tinha ido a duas Oktoberfest com o povo da Computação, mas dessa vez aquilo já não agradava, parecia besta. No fundo, sempre foi besta. Festival de tosquice.Foi um mês morando em Barra do Sul, na praia, e trabalhando em Joinville, eu pegava a estrada pitando um na ida e na volta, e às vezes o céu estava nublado e eu me esquecia se ia ou voltava. Eu fui a Londrina, bati o carro (não me acelera não), e depois eu caí no mar com a chave do carro da locadora, inventei que conseguiria achá-la com um ímã (ideia idiota), e quando eu cheguei lá de volta já estavam guinchando a porra do carro. Todo esse período eu já estava na curva ascendente da hipomania. Então eu voltei pra Brasília, pra PGR, e as aulas da UnB recomeçaram, só que eu comecei a fazer performances tanto num quanto noutra. Tinha uma professora lá, super respeitada, eu comecei a fazer um monte de pergunta incômoda e saí da sala dizendo que aquilo era uma palestra, não aula, mais ou menos como com o Jurandir na Unicamp. Uma disciplina que eu fazia era Introdução à Filosofia com o Basali, que tinha sido uma figura carimbada na Unicamp, embora eu não tenha conhecido, um tremendo mau caráter no fim, eu o considerei amigo um bom tempo e ele me via como um dos admiradores dele, nunca dei motivo. Mas eu estava gostando da disciplina, e se eu já gosto de participar das aulas, imagina maníaco. Ele disse depois que eu estava tentando “sentar na cadeira do maquinista”, brilhar mais que ele, mas eu estava era doido. Teve um dia que eu saí do trabalho, fiz um beque, fui fumar lá no parque da cidade e achei que um negão que veio passar cantada era um espião atrás de mim, não sabia que era ponto de paquera deles ali. Eu me lembro até hoje da Milena rindo de mim por isso. Gatinha. De lá eu fui à aula, cheguei atrasado e ele estava falando sobre o oráculo de Delphi, e eu já entrei comentando sobre o Plantas dos Deuses, onde eles especulam que eram solanáceas que eram usadas, só que de um jeito tão afetado que o Basali ficou me zoando: “esse é o cara”, mas como eu já andava na onda do Matrix e da megalomania mística, eu achei que era aquilo mesmo, eu era o predestinado. My name is Leo. O Basali passou Prometeu Acorrentadoe pediu uma resenha, então eu fiz um texto satírico, que acabou virando a primeira parte da saga Os Mansos Herdarão a Terra, desenvolvida em trechos ora mais ora menos lógicos ao longo de minhas várias crises, misturando falsa mitologia com falsa religião e falsa matemática. Eu convivi com matemáticos na Unicamp, e o Marcelo ex-Cabelo uma vez disse que foi a um evento sobre teoria de nós, e que a história basicamente era que todos os nós se resolvem em R^5. Então quando eu pirei eu escrevi no papel: espaço-tempo-amor. Sem saber resolver o exercício mais simples de homologia, sem entender nem a relatividade geral, eu queria reivindicar uma descoberta revolucionária: o amoré constitutivo da realidade, e isso basta para que todos os nós se desatem, não é bonito? Opa, Moraes Salles, eu desço aqui.

Alguém choveu

fevereiro 15, 2021

Ela saiu mastigada e nem se afligiu de empapar o confete que havia calçado destro na cordilheira. O caroço demorou a existir, e a agulha ainda veio destrinchar alguma vênia sobre o calabouço. Escorreu um conceito e precisou namorar na xícara, era um pote de tapetes líquidos espirrando, distinguindo um cachorro. O maremoto não tinha uma penugem e a distorção a recombinava, então decidiu afundar os óculos no azeite, distraiu-se e concedeu de leve ao extintor. Destampada, esgarçou odores e pavimentou o corrimão faceiro, alguém choveu, ela também. Filtrou-se pela antena do testamento e cancelou salames meio fora de rumo. O aniversário a atrapalhou antes que ela se debruçasse no convés, e ela tingiu bosques ajeitando a mácula e participando da maquinaria com um barulhinho. As baleias metálicas se partiram e um topete velho a lancinava, e muitos monumentos à adutora que tomava sua composição para bajular os gominhos dos impermeáveis que a categorizavam para isso.

Bicho Solto 1

fevereiro 14, 2021

Aí Chulé, aí Lelinho, o Camarão quer ver vocês. Os dois estavam sentados lado a lado no banco inteiriço e debruçados sobre a mesa comprida que ocupava os fundos de uma casa modesta, uma de milhares apinhadas uma em cima da outra na escarpa de um morro, sob um sol inclemente. Do lado de dentro, três rapazes só de bermuda se dedicavam a com serras manuais dividir os grandes tijolos de maconha em pequenos tabletes, os quais eram despejados na mesa lá fora para que os meninos mais novos apenas os guardassem no saquinho plástico, acrescentando a marca daquela boca, que era o Sonic do videogame. Que será que o dono da boca queria? Ficaram naturalmente nervosos, entreolharam-se, quase a cópia um do outro, mas sabiam que não tinham pisado na bola. Pegaram cada um suas coisinhas e acompanharam o capanga do chefe, que trazia um berro na cintura. Desceram a rua estreita cruzada todo o tempo por motocicletas, passando por um boteco e por uma banquinha vendendo biscoito e água em copo, ou antes o copo, usado pra fumar crack. Um sentinela armado marcava a fortaleza do chefão da boca, que no esquema da droga era um soldado raso, mas gozava de poder local. Era uma casa sem acabamento ordinária, e lá morava uma família ordinária, o truque era uma passagem escondida que levava a uma espécie de caverna nas entranhas da estrutura erguida contra a queda de barreiras, décadas atrás. Vinham todos todo o tempo em silêncio, o que não era bom sinal pros meninos; eles trocaram um último olhar que ao mesmo tempo reafirmava a lealdade e sondava algum segredo do outro antes de escorregarem com seus membros finos para o subsolo.

Chulé se chamava Igor, sua mãe era cabeleireira e havia sido abandonada com ele e dois mais novos. Ele teve vizinhos e parentes por creche, e as letras mais rudimentares na escola da prefeitura lá no asfalto, mas depois o movimento brilhou nos seus olhos, a grana e o respeito que os moleques tinham, e ele começou como vapor, ajudando os usuários a comprar, os traficantes a vender, e a polícia a ser detectada e denunciada por códigos complexos se ousasse aparecer. Lélio era filho único da irmã de criação da mãe do Chulé, que era, ou antes fora, uma prostituta de até certo “prestígio” em certa casa de um bairro nobre onde ela não podia pagar nem uma vaga de estacionamento. Ele foi criado muito tempo pelo pai, que é caseiro numa cidade serrana, mas a namorada nova do proprietário decidiu que ele tinha que ir embora, e com a tia e o primo ele foi viver no morro. A essa altura o Chulé já trabalhava no endolamento, e Lelinho entrou direto ao lado dele, sem nunca ser vapor. Quando ambos foram postos diante do Camarão, secundado por um traficante de fuzil de cada lado, a primeira pergunta foi: aí, crias, quanto tempo cês já tão no endolamento? Faz mais de ano, Camarão, assumiu a dianteira o Chulé. Faz um ano, é? Tempo passa. E eles são responsa, Binho? perguntou ao que os trouxe. São, chefe, trabalham certinho. E tu quer mesmo virar bicho solto, moleque? Eu? fez o jovem. Sim, tu. E tu? E os dois garantiram que queriam virar bicho solto, sim. Coé, pra trabalhar na boca tem que ser cria, cês são cria? Claro, claro. Mas cês são cria fiote, fiotim demais. Tem que perder o cabaço pra trabalhar na boca. Houve um breve silêncio. Tem que cometer algum crime. Sete-um, assalto, morte, só estrupo que não, senão não pode ser da boca, vai empacotar as comprar dos bacana no supermercado, tá entendendo? Claro, Camarão. Os dois iam sendo conduzidos para fora quando o chefe completou: dá o pagamento em dobro e uma dola de vinte pra cada, vocês têm uma semana para provar que cometeram um crime e trazer a prova, nem precisa aparecer no endolamento. E ó, gente do asfalto, se tu roubar no morro, morre.

A primeira providência que tomaram foi fumar um para pensar no que fazer. Para isso, primeiro garantiram um guardanapo no churrasquinho da praça, depois subiram até o topo do morro, onde havia um promontório donde se via o mar lá embaixo, sob uma luz já crepuscular. E agora, primo, a gente faz o que? Passar uma madame no asfalto. Lelinho olhou a paisagem pensativo enquanto dichavava, sem responder. É moleza, retrucava o Chulé, é só um teste, malandro, depois a gente opera a boca, aqui em cima, na maior limpeza, polícia arregada… e fica rico, moleque, manda na boca, você vai ver. Mas lá embaixo tem polícia, preocupava-se o que torcia o baseado. Aí é que está, a gente trabalha em conjunto, não tem como dar merda. Uma vez lá no asfalto eu entrei na padaria e pedi um suco, morou? Me disseram pra esperar lá fora, e depois nem cobraram. Eu ia pagar, malandro, tá entendendo? Eu ia pagar, queixava-se Lélio dando o arremate a um beque bem feito. E dali em diante o acordo tácito era que não se falava daquilo enquanto eles curtiam o beque e o pôr do sol, de modo que passaram a provocar um ao outro pelos times de futebol. Na descida, o Chulé teve uma ideia e carregou o amigo-quase-primo até o modesto comércio da favela, movimentado com os trabalhadores que voltavam àquela hora, e de lá saíram com quase um quilo de carne de primeira, um tremendo presente para Milagres, e para eles mesmos. Ela nunca questionava a origem do dinheiro, e até preferia vê-los ajudando como podiam a de volta na escola.

Hilário 7

fevereiro 7, 2021

Olhando um pouco em volta, Chico deu outra bola e passou mecanicamente o beise a Dalton à sua direita. O rapaz já tinha entendido que fumar era necessário pra ser homem, e resolveu tentar de novo. Achou estranho aquele cigarro feito com guardanapo de boteco e sem filtro, mas foi adiante. Hilário, que estava olhando lá pra dentro, virou o pescoço e viu o colega careta fumando maconha. Soltou uma risada. Tu é leso, porra. Dalton não se deteve, seguiu as instruções prévias, fumou, tragou e só tossiu um pouquinho. O gosto também era forte, mas era outro. Esse aqui é de que? Esse é de maconha, Dalton. Eita, porra! O Chico Doido deu um soquinho no seu braço: cortei seu rabo, menino? Menino de novo. Ele nem sabia que Hilário fazia isso. Todo dia na TV dizia que as drogas são um caminho sem volta, e lá no bairro dele quem fazia isso é só bandido. A mãe pediu juízo, ela sempre pedia. Mas depois de hesitar um pouco ele resolveu embarcar na noitada e ver o que acontecia. De repente se ouve uma nota de contrabaixo num volume absurdo, seguida de outras mais moderadas e por fim começou um arpejo rápido. Bicho, o Tavinho toca igual o Steve Harris, esses caras detonam, Hilário se entusiasmava. É o Iron Maiden das beiradas, riu fininho o Doido. Agora eram as guitarras que ligavam o equipamento, e logo em seguida o baterista fez uma estripulia ou outra e todos silenciaram. O público, que era o máximo que o espaço comportava, fazia zoada. O Doido guardou a ponta apagada e eles entraram de volta.

Atrás do palco a sinuca continuava, mas a banda nem ligava, e começaram juntos os solinhos e as viradas da introdução da música que dá nome à banda, e a plateia respondia com energia. Será que o Bruce não volta um dia, assuntou Chico, pergunta que todos ali já se fizeram. Dalton arriscou sua teoria. A maconha não tinha feito nada ainda mas a cerveja sim, deixando ele mais falante. Eu acho que o Iron vai arranjar um puta vocalista e a carreira do Bruce vai ser massa também. Hilário retrucou: então eu prefiro que o Iron arranje um vocalista merda, a carreira do Bruce seja uma merda e ele volte pra banda. Quer amarrar aposta? Chico se animou: sou testemunha. Eu não tenho dinheiro pra apostar, defendeu-se Dalton. Quem perder tem que escalar as caixas d’água. Tu é doido. Daqui a cinco anos se o Bruce tiver voltado pro Iron… Cala a boca Hilário, ninguém vai escalar nada. Vamos ver o show. Naquele instante acabava The Trooper e o vocalista falou umas palavras lamentando a saída do Brucidiço antes de eles começarem Fear of the Dark, que fez os malucos vibrarem. O trio havia se postado em um lugar tal que o cobiçado quinteto feminino se juntou a eles quando deixou a mesa. Dalton sorriu pra branquela de vestido, sentiu falta do que fazer com as mãos: não ia tomar mais cerveja, mas refrigerante no saquinho? Ela se chamava Cátia, com C, advertiu. Não era bela mas era jeitosa. Como ela comandasse a conversa, que girava sobre as escolas de um e de outro, ele foi seguindo. Contou seu episódio de expulsão e redenção, ela achou divertido. Com os olhos ele seguia a índia, que foi lá no bar sozinha. A banda começou Aces High. Aos poucos, Dalton começou a sentir alguma coisa, abriu um sorriso. Que foi? Não, nada, vamos lá pegar uma coca? Vamos.

Ele nem sabia explicar, era uma tontura gostosa, e ele andava um pouco mais solto, mas ainda não estava plenamente chapado. E a Cátia era boa de papo, então nesse enlevo eles compraram refrigerante e voltaram pro meio dos outros. Hilário provocou o amigo, que ficou encabulado: marrapaz! Quando os olhos de Dalton cruzaram os de Ludmila ela também o provocava, mas no bom sentido. Estava se sentindo o máximo. Tocava 2 Minutes to Midnight e eles acompanharam o refrão em um inglês tão precário quanto o do vocalista, enquanto batiam a cabeça. Então maconha é isso, uma tonturinha? Tá gostando, Dalton? Só não conta pra todo mundo. Claro! Seus pais especialmente. Claro, claro. E lembrou-se de sua mãe. Juízo, menino, ela disse. Ela não disse menino. Mas não teve tempo de ficar ansioso a respeito, a Ludmila havia voltado a se sentar e ele decidiu que era a chance de ele simplesmente ocupar a cadeira de boteco ao lado: posso me juntar a você, senhorita? Nunca tinha feito isso antes. Claro, Dalton. Ela tinha guardado o nome. E você estuda no Carmela, também? O assunto também estava fácil, era o mesmo da Cátia. Eu estudo, naquela bagunça, lá. Ah é? Bagunça dos alunos ou da escola? Os dois, né? O Pitágoras também, mesma coisa. E os dois riram. Quando o uníssono de baixo e guitarras anunciou Revelations, o Hilário ficou tão doido que abordou Dalton no meio da paquera com os índices e mínimos das duas mãos erguidos: metal! Figura. Ela disse que os avós eram ribeirinhos por um lado e que adorava açaí. Ele disse que gostava de açaí, mas não suportava Tacacá. Ela disse que tacacá era tudo de bom e por aí foi, até que a banda fez uma pausa dramática e iniciou Wasting Love, que é uma música lenta. Dalton se levantou e tirou Ludmila para dançar, que aceitou com risinhos marotos. Houve uma reação, e era difícil dizer o quanto era zombaria ou apoio, mas um casal resolveu seguir a deixa, então isso se tornou bem rápido algo natural.

Entretanto seu par foi arrancado dele pela segunda vez no mesmo dia: era a Cátia, convencida de que já havia agarrado o pobre “prêmio” antes, e depois de uns sopapos bloqueados e outros certeiros de cada lado vieram as amigas apartar. Uma foi levar Cátia em casa, a outra foi levar Ludmila em casa, que preferiu não se despedir, a outra foi pra casa só, enquanto Dalton ficou lá sem nenhuma das duas, ou três, e sem o primeiro beijo. Hilário tentou reconfortá-lo: metal! Era o melhor que podia. Então Dalton aceitou a sugestão, balançando a cabeça na mesma música que dançava colado há pouco. Veio então o intervalo, todo mundo buscou o bar ao mesmo tempo, mas não o Chico Doido, que chamou Dalton e Hilário lá fora, com a ideia de tratar a ponta. Hilário, que coisa maluca, duas vezes no mesmo dia. O quê? Oxi, agora a Cátia arrancou a Ludmila enquanto eu dançava com ela, e hoje à tarde o cara do primeiro ano arrancou a Priscila. Puta nojentinha essa Priscila. Ah, não enche. E o que você fez? Oxi, eu deitei ele no chão. Não! Oxi. Hilário ergueu a mão do boxeur, faltou o cinturão: como você não me contou isso? Oxi, você não perguntou! Chegou a vez dele, a ponta se desfazia, o Chico já tinha mandado um cuspe pra ver se melhorava, e sem piteira, ainda, estava difícil fumar, então a voz da experiência (o Doido) aconselhou a formar um triângulo com polegar e índice de uma mão e índice da outra, e funcionou, o maconheiro novato, herói e mártir do dia deu mais uma longa bola. Quando a ponta acabou eles foram conversar com a banda. Dalton ficava mais calado, mas de vez em quando dava risadinhas às sacudidelas, ou outros percebiam e zombavam. De repente ele decidiu que ia ao bar e ia pedir uma cerveja, e se perguntassem sua idade ia dizer dezoito. Dezoito, que palavra engraçada. Parece que você está pulando uma poça, de-zoooi-to. Quem o via rindo só ou ria ou julgava, mas quem ia imaginar o momento mágico que o rapaz estava vivendo? Me dá uma cerveja! Tá meio quente. Não tem problema. Os trocados também eram os últimos da noite, e após estourar orgulhoso o lacre da cerveja, homem apesar de tudo, quase cuspiu o conteúdo. Continuou a beber pra fazer uma cena por um tempo mas depois abandonou a lata. Os caras do The Trooper começaram a segunda parte. O Hilário fazia uma careta e ele se contorcia de rir, não estava preocupado com nada, deixou-se levar no élan. Cara, já parou pra pensar que “tudo junto” se escreve separado e “separado” se escreve tudo junto? Quiá quiá quiá… Muito engraçado. É hilário! Caramba, seu nome é Hilário! Quiá quiá quiá quiá… E ele já não cabia em si, abriu os braços como um avião e saiu passeando pelos espaços em branco, até que chegou em uma das mesas de sinuca, escalou ao tampo com a ajuda de uma cadeira e, não mais um avião, era um pássaro pulando lá de cima batendo os braços. Estava tão feliz que não sentia vergonha de ser menino.

O ardor oblíquo das tâmaras

janeiro 31, 2021

Quando a paçoca desceu do sândalo e acionou o estábulo, todos os pistilos na garagem tatearam príncipes como se fosse ainda o caso disputar a rigidez da dose e abocanhar as auroras. Ela nem se importou. Imprimiu a peça ao dístico, concorrendo ao pretérito impreterível, e dissuadiu preâmbulos atávicos antes mesmo que digerissem símbolos. Nas ruas o ardor oblíquo das tâmaras interrompia o plástico, mas nem por isso o sussurro costurava molas, e até os cogumelos que derretiam na calçada pareciam uma reminiscência dos rabanetes melífluos mais recentes. Mesmo ali onde ela comprou o próprio fígado as cortinas tossiam, e deve ter sobrado algum guarda chuva cético pra dizer que não foi nada. Não demorou a chover baunilha, e ela se dissolveu na pátina, impassível ante o tétano e satisfeita com o brio das cabras. Uma multidão de pinos amoleceu a cuíca, e até o tomate se atinha à tênia, ofendido com o sono. Quando chegou a sandália do pato, já era tarde. A surpresa era a prosa, e as bobinas tinham mais o que fazer, então o tédio desistiu do totem e conferiu as guelras do rádio.

Hilário 6

janeiro 29, 2021

O primo do Hilário parou o carro perto do hospital e os dois percorreram o corredor ouvindo a cantiga dos sapos. O sol terminava de se pôr. Hilário, mais baixo, estava todo de preto, com a estampa do Fear of the Dark, seu primo Chico Doido, um magricela, usava jeans e a capa do Seventh Son, além de um rabo-de-cavalo. Mas olha, preveniu Hilário, o Dalton é careta pra porra. Tocaram a campainha, e a mãe de Dalton abriu e os deixou entrar. O herói do dia, o duplo herói, veio do quarto, foi apresentado ao Chico Doido e colocou uma fita de Iron Maiden pra tocar. O primo puxou assunto sobre a terceira camiseta da banda inglesa na noite, a de Dalton: Essa capa do Powerslave é foda, maninho. É mesmo, né? Hilário protestou: esse disco é sem o Bruce, hoje é homenagem pro Bruce. Então mexe lá você, e o amigo operou os comandos pra adiantar a fita. Minha mãe chama ele de Brucidiço, né mãe? Grande dona Anita. O Chico viu o Iron no Rio. Ca-ra-lho! Eu nunca saí de Porto Velho. E como foi? Porra, foi muito doido, eu tinha tomado… parou com o gesto do primo. Doidera, mano, lotadaço. Boneco do Eddie, meu, na minha frente, que foi aquilo. Nisso a porta se abre, e entra o pai de Dalton, visivelmente bêbado. A mãe se apressa em conduzi-lo para o quarto, o filho fica apreensivo e as visitas sem jeito. Então, vamos indo, Dalton? Vamos, eu vou pegar a carteira. Fez isso e tocou a porta dos pais. Tá tudo bem? Tudo filho, garantiu a mãe, que tirava a roupa do marido deitado. Então eu vou indo. Vá, filho, mas juízo. Claro, mãe.

Entraram no Golzinho quadrado pilotado pelo Doido e tomaram o caminho da cidade, seguindo a pista que subia para a BR, mas virando à esquerda em certo ponto. A partir dali a estrada era de terra e sinuosa, e havia poucas casas, de madeira, num trecho quase rural, ao qual seguia um bairro mais urbanizado, mas não muito, que era o Tucumanzal. Bastou virar a terceira à esquerda que lá estava o Bar do Maurão, tocado por um maranhense azinhavrado e barrigudo que fazia as contas de cabeça e tirava a prova do nove, daí o Novesfora, que acabou virando o nome popular do lugar. Apenas Dalton ia pela primeira vez, e ia reparando os diversos carros parados, o muro coberto de hera, o luminoso com logomarca de refrigerante, e passando o portão havia uma casa simples lá no fundo, enquanto mais perto deles havia um barracão de telha de amianto, onde se viam quatro mesas de sinuca encardidas, uma dúzia de mesas com suas cadeiras metálicas trazendo publicidade de cerveja, e o palco improvisado. A bateria tinha uma peça de cada cor, e muitas menos que as do Nicko, mas brilhou aos olhos do rapaz, ele era louco por bateria. O mais velho do grupo chamou os outros pra buscar uma cerveja lá na casinha. Quer uma Dalton? Não, eu não bebo. Você não pegou um porre outro dia? Vai te catar, Hilário, disse ele enquanto comprava um guaraná. Instalaram-se numa das mesas, haviam chegado cedo e o bar estava ainda vazio. A música não tinha nada a ver com Iron Maiden, estava mais pra brega, e os três comentaram. Chico foi lá dentro, conversou com o Novesfora e voltou sinalizando que ia até o carro. Que bar diferente. É a casa dele. Aqui é tudo meio improvisado. Eu nunca tinha vindo no Tucumanzal. Tucumanzal é o canal. O Alemão disse que só tem cheirador de merla. Merla se fuma, tonto. O Alemão deve saber, o pai dele é traficante. Mentira. Uai, é o que todo mundo comenta. Eu nunca ouvi isso. E não é verdade. Eu acho o Felipe meio babaca, na verdade. Todo mundo que passa de carro na frente da escola pra se amostrar é babaca. Ele me ofereceu cigarro hoje. E você fumou? Fumei mas tossi muito. Puta fria fumar cigarro convencional, maninho, vai por mim. Era cigarro de cravo. Pior ainda, coisa de playboy. Foi então que voltou o Doido segurando um tanto de cassete nas mãos, e seguiu lá pra dentro, de onde passou a se espalhar a guitarra distorcida do Black Sabbath.

Ele voltava de lá com fichas de sinuca, e os três jogaram por muitos minutos, primeiro de simples entre eles, depois em duplas, com outro camarada que já estava lá para o show. Dalton era chamado de café com leite, e isso o irritava. Ora, se mal tinha jogado antes na vida! Depois do segundo refrigerante, que o funcionário servia no saquinho com canudo e guardava a garrafinha, Dalton criou coragem e pediu uma cerveja. O rapaz perguntou sua idade, ele entrou em pânico e saiu correndo. Ele falou com Hilário, que tirou um sarro e falou com Chico, que tirou outro sarro, e foi buscar uma lata de alumínio duro com cerveja quente para o menino. Menino. Estava chegando mais gente, boa parte de preto, e eles já tinham que escolher entre manter a sinuca ou a mesa, e voltaram pra mesa. O Chico Doido foi lá dentro virar a fita, que trazia AC/DC do outro lado, e aproveitou para subir o volume. Ele era cumprimentado por todo mundo que ia chegando, e respondia com sua dicção atrapalhada. Dalton não entendia a graça de tomar aquela coisa amarga, mas na segunda já estava acostumado, o Hilário até recomendou que fosse com calma.

Nisso o Novesfora se enchia, a maioria era homem, e as poucas mulheres geralmente acompanhavam um maluco, então chamou atenção de todos quando um grupo de cinco moças entrou pelo portão. Dalton bateu o olho numa morena alta, de lábios grossos e cabelos lustrosos de tão negros, meio índia, metida em calça e jaqueta jeans, naquele calor, e as outras mal lhe interessaram. Mas os amigos comentaram da baixinha de cabelo vermelho falso de blusa rasgada ou da branquela de vestidinho. Era ousado mulher andar “sozinha” na época. Foi o Hilário quem teve a teve a ideia, abordou a cabeça vermelha e ofereceu a mesa a elas, e outros marmanjos cederam mais cadeiras. Eles ficavam com o crédito e uma boa oportunidade de puxar conversa. E assim todos se apresentaram brevemente antes que o trio passasse a circular a pé, o nome da índia era Ludimila, Dalton tratou de guardar. Ele já estava meio alterado com duas latas, e não quis mais beber, mas se sentia homem, não era? Depois de conversar sobre nada muito sério e alternar entre o bar, o pequeno gramado e lá fora por um tempo, eles viram chegar a Kombi que trazia o The Trooper. Tinha um adesivo na lateral, superprodução local. Desceram os cinco músicos com suas calças apertadas e rebites e enfeites heavy metal, e suas feições amazônidas. Pareciam estrelas, mas trocaram um cumprimento com nosso trio e entraram. Logo após Chico Doido sacou do bolso um baseado apertado e acendeu.

Livres?

janeiro 19, 2021

A religião diz que Deus nos deu livre arbítrio. Primeiro que ao menos às leis da física eu estou condicionado, então o arbítrio não pode ser tão livre assim. Não posso bater os braços e sair voando, certamente. Segundo que ele nos faz de joguete, porque apesar da liberdade Ele nos ameaça com a danação eterna por nada mais que tocar os próprios genitais. Mas não era nem sobre religião nem sobre genitais que eu ia escrever. É sobre essa ideia de livre arbítrio. Não só nossa liberdade é tolhida pela realidade física, mas pela realidade simbólica (qual é o conteúdo da consciência de cada um) e pela realidade social (tem liberdade de ação quem tem dinheiro). Até o tempo meteorológico nos impede de fazer o que a gente queria, às vezes!

Eu mesmo, no último episódio de mania, um desses de megalomania mística, cheguei à conclusão de que tudo era determinístico. Um lagarto que vir um mosquito vai projetar sua língua para capturá-lo, não há outra opção. E nós também, só porque temos linguagem e um universo simbólico não somos ontologicamente algo apartado do reino animal. Nós sempre reagimos aos estímulos conforme nossa natureza individual, que foi moldada em experiências prévias. E se tudo é determinístico, essas experiências não podiam ter sido outras. Eu sei que é uma argumentação circular que não prova nada, mas mostra ao menos consistência interna. A imagem que eu usava era um videogame de simulação, de guerra, de cidade, de civilizações: cada personagem ali age de forma determinada, mas parece ter agência naquele plano de “realidade”. Nós vivemos na simulação mais avançada de todas, a real. Não há como alguns fenômenos serem determinísticos e outros aleatórios. Um lance de moeda só é aleatório porque a descrição newtoniana completa do evento seria extremamente complexa. Se a trajetória de um cometa é determinística, a trajetória de um ser humano também é.

Bom, aí eu superei a crise maníaca e tentei esquecer tudo isso, é claro. Outro dia eu estava na internet e topei um vídeo. Era compartilhado por alguém com quem eu não concordo sempre, entusiasta de internet das coisas e pós-humanismo, mas eu assisti. E a mulher dizia basicamente o que eu descrevi acima: que não há livre arbítrio, tudo é determinístico, até nossos pensamentos são fruto de reações químicas. Eu fiquei uns dias desconcertado. A ideia de não ter controle é desconcertante, a ideia de voltar a entrar em mania só de pensar nessas coisas é desconcertante também. Uma postura fatalista científica também não é muito diferente de uma postura fatalista religiosa, e aí como fica? Será que até este texto já estava fadado a ser escrito? Bom, de qualquer forma eu só publico porque ninguém vai ler, mesmo.

Hilário 5

janeiro 17, 2021

Aqui. E Alemão meteu a mão no bolso. Gudang. Conhece? É cigarro? Cigarro de cravo. É coisa fina, importada. Nisso ele saca também um isqueiro e acende, imediatamente preenchendo a saleta de um cheiro forte. Quer um? Não, eu… Você tá virando homem, Dalton. Experimenta. Dalton levou o cigarro à boca e puxou o ar sem muita convicção, nem chegou a tragar. Boa, mas você não tragou. O gosto é forte. É assim mesmo. Todo mundo fuma na Califórnia. Olha só, puxa a fumaça e aí puxa o ar, e solta. Assim. Dalton então seguiu as instruções e teve um acesso de tosse que lhe levou lágrimas aos olhos e a uma série de contorções. Senta aqui, Dalton, descansa. E não diz nada… Já sei. A saleta tinha um banheiro, e dele saiu um casal fungando forte e mordendo a orelha, que passou por eles com um aceno envergonhado antes de alcançar a porta. Quando o rapaz já respirava normalmente os dois seguiram o mesmo caminho e retomaram a mesa no patamar elevado. Bete parecia estar furiosa, e o que o namorado disse em sua orelha pra acalmá-la vai saber. Você tava chorando, Dalton? Não, não é nada. Eu vou buscar uma coca. Bete sentiu o cheiro do Gudang, mas não disse nada, mulher deve ser complacente. Na fila do bar estavam Priscila e o barba rala, Dalton desistiu, entrou no banheiro sem estar com vontade de mijar. Lavou o rosto. Era hoje. Ele tinha decidido que era hoje que ia tirar a Priscila pra dançar. É simples. Imagina que ela vai dizer não. Retomou o projeto do refrigerante e logo depois seu assento. De repente ele olha e a coquete que ele elegera como musa estava discutindo com seu cara, ele a agarrou pelo punho, ela se desvencilhou e saiu correndo para os fundos. Deveria ir atrás ou era ousadia? Ficou, perdeu-se na conversa miúda, mas sua cabeça seguia cheia de Priscila.

E foi aí que começou a tocar música lenta, o momento tão aguardado da molecada. Era uma do Information Society, que eram mundialmente famosos apenas no Brasil nessa época. Irmã e cunhado não demoraram a instigar o rapaz a escolher uma parceira pra dançar juntinho. Toda hora instado a provar que era homem, Dalton apenas bateu olho em uma baixinha que nem da escola era, nem muito feia, e levantou-se confiante, disposto a convidá-la com toda galanteria. Mas a música acabou naquela hora, os pares se desfizeram, a baixinha foi escolhida e ele teve que escolher no susto, assim como no susto lhe saiu o pedido: Você quer dançar contigo? Era uma moça mais velha que ele, ela disse que ele era engraçado, mas topou. Ele se sentia meio intimidado ali, mas o perfume era gostoso, e ele fechou os olhos, se enlevou, estreitou mais a guria, que no fim o afastou: Calma, menino. Menino. Deu meia volta e ia subindo de volta até a mesa, que estava vazia, quando uma mão o segurou pelo cotovelo. Era ela. Ele não pôde dizer palavra, mas ela disse, com um sorriso encantador, Vamos dançar, Dalton? Oxi, foi sua reação instintiva, depois se achou besta, mas a esta altura seu braço já enlaçava as costas da donzela, o outro meio estendido junto ao dela, com as mãos atadas. Aí está, Dalton, tudo que você queria, e quem pediu foi ela ainda por cima! A música era uma da Sinnead O’Connor, mais triste que romântica, mas ele estava nas nuvens, o perfume era melhor que o outro, inebriante. Suas pernas seguiam o ritmo automaticamente, e seus olhos só se abriam às vezes, para certificá-lo de que era tudo de verdade. De repente, sua parceira é arrancada dele abruptamente: era o barba rala. Dalton não pensou um segundo, sua mão direita empunhada executou um arco que terminou na ponta do queixo do rival, que foi ao chão em câmera lenta enquanto os bailantes se afastavam, pasmos.

Ele, quando despertou do estupor, olhou pra ela, esperando que ela lhe chamasse de herói, mas ela estava furiosa, e soltou as palavras, machucando com gosto e olhar de desprezo: Você é um mulato atrevido! Não teve tempo de reagir, porque Almir e mais dois ou três da turma tomaram dele e o alçaram no ar como um herói, eles sim, eterno vingador da oitava série contra os marmanjos que as coleguinhas sempre preferiam. E ele lá no alto, digerindo a ofensa racial vinda de sua idolatrada. De volta ao chão, olhou em volta e não viu a irmã nem o Alemão, nem a Priscila nem o barba rala, e a música, que havia sido interrompida, foi retomada, mandaram Boys Don’t Cry, que sempre fazia sucesso, e era como se não tivesse acontecido nada. Desvencilhou-se dos colegas e foi procurar o Alemão na saleta, o mesmo casal de mais cedo saía e segurou a porta, mas ele não viu mais lá dentro que um trio de playboys com lenços na boca. O menino inocente nem sabia o que era loló, achou esquisito, e prosseguiu a busca. Eles também o buscavam, após terem saído pra buscar os chicletes importados no carro e perdido o nocaute que Dalton aplicara no cara do primeiro ano. Eu quero ir embora! Que aconteceu? No caminho eu conto. Alemão achou divertida a parte do soco, e Bete jurou se vingar da patricinha racista. Hilário? Fala cara, tá tudo bem? Tu tá com a bola lá em cima. Não me fala uma coisa dessas. Bora bater a cabeça, então? Bora. Daqui a pouco a gente passa aí. Beleza. Dalton tirou a camisa de botão e meteu a camiseta do Iron. O Hilário que tinha razão, puta coisa de playboy esse Cuba Libre. E se pôs a esperar acompanhado de seu leite com biscoitos, repetindo cada detalhe de tudo que tinha acontecido. Será que ele era homem agora ou não era?

O limite do suco

janeiro 17, 2021

Já faz uma canoa que o candelabro apita, e nem a doçura do soro nem o mesmo alvo da algaravia vieram debulhar a tísica dos toscos. Se o tabaco seguir aplicando escanteios aos bolos, restará aos bois os biscoitos, e a parafernália dos bosques questionará as tulipas. Nada que o engodo já não tenha substituído por vales, aproveitando-se dos canos e contra a previsão dos lêmures. E o que se poderia esperar do vidro, se mesmo o mistério tangencia címbalos à espera da porta e a jactância da mórulas mal se distingue dos tangos? É como se a compressa do pêndulo admitisse o chuvisco no fogo brando, o alpiste dos déspotas, como se os epicuros brotassem da claridade até o limite do suco. E por detrás do verso fica a jiboia, e o remo arremete ao tomo, a despeito dos potes. Agora que o quiabo ambiciona ao sinônimo, é bom ter em mente que o sortilégio agita estojos, e nem que a carroça russa surte a pantomima mômica encampa ampères.

Hilário 4

dezembro 29, 2020

Dalton tomou café e foi andar de bicicleta, feliz da vida com sua mudança de sorte, que devia toda à irmã, a qual ganhou muitos beijos por isso. Ele pegou a Jatuarana e foi desbravando vários bairros longes do seu, e voltou na hora do almoço. A mãe tinha feito o favorito dele, bife a cavalo, e a batata frita era farta como só em dias especiais. A Bete contou de novo a entrevista com a diretora e todos riram a respeito, a mãe afagou o filho, o pai nunca se desculpou, mas ofereceu o estipêndio dobrado para a matinée. O Alemão vinha buscá-los às duas e meia, e o tempo foi gasto pelos irmãos com xadrez. Cheque. Oxe. Não esperava por essa, né? Ah é, por essa você não esperava. Danado, perdi minha rainha. Rainha, não, dama. Ah você é cabeção demais. Ela foi lavar a louça e ele, que acordou cedo, deitou, estava quase dormindo quando a campainha tocou.

Alemão estava todo playboy, corrente e tudo, e beijou Bete longamente antes de cumprimentar Dalton com um meio-abraço. Caminharam até o asfalto e entraram todos no Kadett preto rebaixado de vidros escuros. Pump Up The Jam era o que o toca-fita alardeava, através dos enormes falantes que tomavam o porta-malas, e faziam tudo vibrar. No trecho até a BR o motorista distribuiu chicletes importados. Onde você consegue? Como? Onde você consegue chiclete americano? Alemão abaixou um pouco o som. O chiclete? Meu pai voltou de viagem. Dos Estados Unidos? Da Colômbia. Seu pai trabalha com que? Para de fazer pergunta, Dalton! Importação e Exportação. A música subiu de volume de novo e foi assim até o Cuba Libre, na saída da cidade, todos eles calados.

O carro preto entrou no estacionamento de cascalho fino e dele desceram os passageiros, os únicos negros por perto. Havia um luminoso neon, apagado àquela hora, representando um copo com canudo e enfeite tropical, e a fachada era coberta de lantejoulas. Dalton e companhia entraram na fila e compraram e as entradas e as fichas, depois se instalaram em uma mesa. Dalton mesmo ficou muito pouco, e saiu lá fora a ver cada um que chegava, e fez isso por vinte minutos até que despontasse a camionete cabine dupla do pai de Priscila. Ela desceu, num vestido vermelho de bolinhas brancas meio retrô, a cabeleira falsamente loira em um laborioso arranjo, e tentou ignorar Dalton enquanto se encaminhava para a bilheteria, mas não foi possível. Oi Dalton, não tinha te visto. Tudo bem, minha irmã disse que você foi com ela falar com a Gilmara. Foi sim, você é sempre tão quieto, né? Injustiça. Puxa, eu não sei como agradecer. Não foi nada, eu só fiz o certo. Eu vou lá. Ah, tá bom. Ele entrou, meio desapontado, e foi buscar uma coca-cola. Cruzou com o Almir, outro colega de oitava B, que se apressou em mencionar a vitória da Bete contra a diretora. Tá todo mundo sabendo, cara. Você é um herói. Minha irmã é uma heroína. A gente tá combinando que vai jogar porradabol e não vai parar nem com o Lobi nem com a diaba em pessoa. É, né? Desculpa, Almir, eu tô com a cabeça longe. Tá tudo bem? Tudo sim, vamos no bar?

Depois de conseguir as garrafas de refrigerantes, os dois se separaram, e Dalton raspou a garganta para constranger os dois que se amassavam. Ainda era cedo e pouca gente dançava na pista, ao som de Eurythmics e sob luzes coloridas. Tá chateado, Dalton? Não, tá tudo bem. E como é esse show que você vai? The Trooper, eu não conheço não, o Hilário que já viu. É Iron Maiden, né? Isso. Eu não consigo ouvir rock pesado, interveio Bete. Barulheira. E onde vai ser? prosseguiu o Alemão. Lá no Novesfora. No Tucumanzal? É. Só tem fumador de merla no Tucumanzal. Eu não sei, eu só vou pela música. Sua irmã aproveitou pra contar sobre o recente primeiro porre, esquecia que já tinha contado, e o casal se riu, felizes com a iniciação etílica do rapaz tímido. Ele mesmo não passava muito tempo sem correr os olhos pelo salão composto de palco e pista e mesas em volta, e em uma delas Priscila conversava com um cara do primeiro ano com um arremedo de barba, que ele não conhecia. Então ele foi dançar um pouco, sem convicção, até que um palhaço da oitava A fez graça com sua falta de jeito e ele voltou pra mesa contrariado. Alemão estava só, e bastou Dalton chegar para que ele com um gesto dissesse um vem comigo sottovoce, meio culpado. Sem entender, mas feliz pela distração, ele foi, até a área do bar onde Alemão bateu em uma porta, cumprimentou o outro playboy que abriu, e introduziu Dalton em uma sala privada. Mas e a Bete? Ela foi se maquiar. Dalton, você sabe guardar segredo? Oxe. Você dá sua palavra que não conta pra Bete? Contar o quê? Promete ou não, homem? Tá bom, prometo.