Acaba Mundo CCV

janeiro 16, 2019

Hoje são quinze de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. O assunto hoje foi o decreto que facilita a posse de armas. Há quem diga que é muita fanfarra, que o documento não muda muita coisa no fim. O que me preocupa é que os ritos legislativos normais, que já não são lá essas coisas, sejam substituídos por canetadas do projeto de ditador. Os EUA pegam fogo, com conversas de impeachment, investigação do FBI sobre a familiaridade de Trump com o Kremlin, governo “fechado” e ameaças de estado de emergência e de guerra ao Irã, e a Ocasio-Cortez propondo elevar a taxação dos mais ricos. Na Inglaterra o acordo de May pro Brexit foi rejeitado e em pouco podem cair Brexit e primeira ministra. A França segue vendo protestos de gilets-jaunes, o Diplo vê uma cólera justa, eu e mais um tanto tememos que essa cólera vá bombar a extrema-direita. Por outro lado Orbán enfrenta protestos na Hungria, contra leis trabalhistas absurdas. Tomara que seja a vaga refluindo. Se bem que o prefeito pró-imigração de Gdansk na Polônia foi assassinado. Acaba mundo.

Segura Firme 4

janeiro 15, 2019

Carlos entrou na loja pelo portão lateral e encontrou Fernando na mesa da copa, olhando o computador. Ele deu um salto de alegria e um meio-abraço constrangido no amigo. E quando este produziu do bolso da jaqueta os cinco tubinhos ele se entregou à euforia e esfregou as mãos. Tudo nos conformes, Jana? Uisquinho? Não? Fazia as perguntas enquanto puxava uma cadeira para se sentar e, ato contínuo, despejar o conteúdo do primeiro tubinho no pratinho de porcelana. Porra de brizola pedrada, Jana. Porra, onde você foi? Busca lá no banheiro a gilete, vai. Tá diferente essa aqui. Fernando seguia se queixando, ora da brizola ora da vida, enquanto esmagava cada pedrinha com a lâmina, e nem deixou Carlos falar. Quando a sintonia fina do pó estava pronta, ele esticou uma lagarta e enrolou mais uma nota de cem. Deu com o tubinho na ponta mais perto perto de si e percorreu com diligência o longo caminho nevado: Ñññññzzzzzzz. Aí não se conteve e mandou a segunda, que era de Jaiwanã, na outra narina. Faz uma aí, Jana. Caralho, que coisa ruim, Jana, disse ele se contorcendo. Essa é da classe A, é pra ir com calma, eu estou tentando dizer. Busca água, Jana. Cara, que susto. Bateu um frio, uma taquicardia. Não é melhor ir pra casa? Como é essa história de classe A? Ele disse que era pra você conhecer. Ele sabe quem eu sou? Claro que não, seu Fernando. Enquanto se explicava, Carlos preparava seu tirinho, calmamente desfazendo as pedrinhas, e tão logo ele tivesse cheirado e fungado Fernando afastou o pratinho e puxou para a vista de ambos o computador. Olha aqui, Jana, escolhe uma, tá vendo? tem loura, morena, preta, índia eu não vi nenhuma, escolhe uma, que hoje eu tô bonzinho. Carlos não podia dizer que não ia bem uma trepada, e cresceu os olhos numa morena de tetas falsas que Fernando fez surgir na tela. A essa altura ele já chutara seus receios para escanteio, e resolveu aceitar uísque. Só um gole, Jana, já estamos de saída. Ligou para a morena, depois para a loira capa-de-revista que escolhera, passou o endereço de casa, disse que pagava o táxi obviamente, e se sentiu livre para tirar algumas dúvidas. Enquanto ele falava, Jaiwanã apontou o pratinho e ergueu dois dedos, passando a cuidadosamente preparar dois tiros e logo em seguida cafungar sua parte. Terminada a ligação, Fernando se interessou logo em seguida pelo assunto, virou o resto de uísque sem se engasgar, e sentenciou: essa é boa mesmo, Jana velho. Só mais uminha, pra gente sair. Tirou um tubo do bolso e lançou uma parte do conteúdo ao pratinho, aí sentou-se e pôs-se a triturar as pedrinhas com a gilete, enquanto enumerava as proezas sexuais que contava realizar. Quando estava com o tubinho no nariz, entretanto, o locutor anunciou um pênalti para o Flamengo, já no fim da partida, e seu instintivo “puta que pariu” foi tão intenso que esparramou sua carreira para todo lado. Ele só deu uma risada e voltou a desintegrar mais pó. Essa foi boa, Jana. Que me importa o Coritiba? É o Juventude, seu Fernando. E eu tava torcendo pro time errado, porra? Ainda me perde a porra do pênalti! Ele então meteu o nariz e passou a nota ao amigo, que a meteu no mesmo bolso de jaqueta. Confere os cadeados pra mim, Jana… enquanto eu tiro o carro.

Fernando morava num condomínio na saída da cidade, de modo que seu utilitário-esporte ainda precisou percorrer um bom trecho da Perimetral e outro de rodovia, passando pela polícia num momento de tensão, antes de abordar a portaria do complexo residencial de alto padrão. Fernando desceu do carro, foi amável com o porteiro, deslizou uma nota até sua mão e sussurrou-lhe algumas instruções. De volta ao volante, recomendou a Carlos que fechasse o vidro escuro da janela e rodou ainda mais um tanto até chegar a sua casa. Do lado esquerdo havia um sobrado simpático, e do direito havia a garagem onde paravam, uma piscina e uma edícula. Entraram e passaram à sala, onde Fernando providenciou mais uma vez uísque e exibiu com orgulho o aparelho que toca cinco discos, que ele carregou com os cinco de uma coletânea romântica. Não demorou a que o interfone tocasse anunciando o primeiro táxi. Era Tânia, a morena que Carlos escolhera. Ela aceitou vinho, mas só um pouquinho, e já ia se fazendo à vontade quando chegou o outro táxi com Jennifer, a loira capa-de-revista que Fernando encomendara. A primeira era um pouco mais cheinha do que nas fotos, e a segunda além de menos bonita era um tanto antipática, sentenciando logo: se é grupal eu não faço. Fernando esclareceu que não era nada daquilo, que ela iria com ele para o quarto, e a sua amiga – as duas não se conheciam – iria com o Jana pro quartinho de fora. A morena achou divertido o nome, “de mulher” segundo ela, e os dois já emendaram daí uma conversa, enquanto que entre Fernando e Jennifer as coisas não iam tão fáceis. Ele soube ler seu mau humor, seu tipo físico descarnado, seus olhos azulados, e mandou logo: é farinha o que você quer, não é? A reação da moça traiu sua resposta, apesar do silêncio. Te peguei, loirinha. Eu vou dar uma na sua barriga. Carlos e Tânia encontraram um colchão sem lençóis, Fernando e Jennifer se lançaram sobre o leito nababesco feito pela doméstica naquela manhã.

Acaba Mundo CCIV

janeiro 14, 2019
Former Italian leftist guerrilla Cesare Battisti arrives at Ciampino airport in Rome, Italy, January 14, 2019. REUTERS/Max Rossi

Hoje são quatorze de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. E eis que a Bolívia entrega o Battisti direto à Itália e o Brasil fica sem o pirulito. Até avião já tinham mandado. Depois anunciaram almoço trilateral que nunca existiu. Fico feliz de ver a cara de tacho do regime, quanto ao sujeito não conheço os fatos, se a condenação foi justa ou não, e já pouco importa agora. Senado elimina gabinete vinte e quatro. A filha do Queiroz tem frequência perfeita atestada pelo congresso, tendo outro ofício e domicílio. Trump mantém governo travado e gente sem receber em sua birra pelo muro. Ele ameaça dar um golpe pra passar por cima do congresso, que é do que acusam a Venezuela. Outro dia o Roger Waters prometeu tocar The Wall na fronteira. Acaba mundo.

Acaba Mundo CCIII

janeiro 13, 2019

Hoje são treze de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. As coisas estão pegando fogo na Venezuela. Reeleito em pleito dúbio, Maduro encara outra tentativa de deposição através do presidente do congresso Juan Gualdó, que se declarou presidente e testa os militares, tendo já recebido tapinhas do Almagro da OEA e da camarilha de Lima. Dessa corda aí eu não fico de nenhum lado. E há relatos de presença militar dos godemes no Panamá. Vira guerra essa porra, depois escala pra conflito global. É bom que acaba o mundo mesmo. Pegaram o Battisti na Bolívia, e o Brasil quer tê-lo como troféu antes de extraditá-lo para a Itália. Os brasileiros tão zelosos com a lei que o querem esquartejado são os mesmos que acham os “excessos” da nossa ditadura, quer dizer “movimento”, não podem ser julgados. Terra indígena Uruwê Wau Wau invadida por grileiros em Rondônia, e mais um tanto de notícias de ataques a indígenas. Ministro da educação quer perfil ideológico dos reitores, e militar escolhendo material didático. Parece ao menos que a lua de mel com a imprensa expirou, e os grandes veículos passam a cobrar o Bozo, ainda que seja apenas pelo despreparo. Deputada estadual do Rio, ex-chefe da civil, Martha Rocha (PDT) sofre atentado a fuzil, motorista é baleado. Governador-juiz-fascista Woodrow Wilson manda encerrar mostra na casa Brasil-França e previne performance com ditadura por tema. Porque ela está de volta. Acaba mundo.

Acaba Mundo CCII

janeiro 13, 2019

Hoje são doze de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. A sensação agora é o tal Queiroz dançando no hospital. Depois surge em outro vídeo, todo contrito, dizendo que queria “alegrar o ambiente”. É concorrente dos doutores da alegria agora, devia aproveitar e usar maquiagem e nariz de bolota. Eu tenho dito que esse é um bife que jogaram para distrair a turminha da esquerda, só não sabia que seria um bife tão suculento. Outros vídeos seguem no rastro do documentário que lança dúvidas sobre o episódio da facada, e mostrariam seguranças do entourage do “mito” conversando com Adélio: “agora não dá”. Eu achei a coisa dúbia desde o início, não vou ficar me ocupando disso, até porque, tal a história do laranja, as instituições que poderiam cobrar a verdade já estão sequestradas, e o mesmo vale ainda para a execução de Marielle e mais um tanto de coisa que vai se somar à lista. Na faculdade de história não vai faltar tema de pesquisa, mas só depois que passar a borrasca. E até lá vai ser a avalanche de piadinhas já usual. Outro dia mesmo era tamanho de pinto que estava em debate. Acaba mundo.

Acaba Mundo CCI

janeiro 12, 2019

Hoje são onze de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Uma coisa que não tinha saudade é helicóptero voando por cima todo o tempo. Amigo de Bozonazi ganha cargo na Petrobras, e o expurgo foi tamanho que sabotou a si mesmo porque não havia mais quem despachasse os memorandos. Olavão diz coisas cada vez mais absurdas – a Terra não orbita o Sol, relatividade está errada – para testar seus limites e espero que um dia caia no ridículo que merece. Responsável pelo ENEM, uma indicação dele, é pego em plágio descarado. Publicidade e erros serão admitidos em livros didáticos. Referências bibliográficas não mais necessárias. Vamos ver até onde vai essa onda de burrice, se daqui a poco não vai ser proibido ensinar a tabuada. Acaba mundo.

Acaba Mundo CC

janeiro 10, 2019

Hoje são dez de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. O Manu sugeriu que eu fizesse uma avaliação da trip. Apesar de continente em decadência geopolítica, a Europa é o bastião daquilo que ela mesma denominou cultura. Foi bom ver quatro peças em quatro dias em Londres, museus de arte e históricos. Também os prazeres particulares contribuíram muito, como visitar a igreja onde Thomas Middleton foi batizado, ou rabiscar a plaquinha da embaixada. E teve os dias com o Manu em Limoges, com bons papos, bom fogo e vinho mais ou menos – e boas derrotas no xadrez. Acho que se era pra meter o pé na jaca, considero que aproveitei bastante, ao meu modo misantropo. Foi bom estar com o professor com quem posso vir a trabalhar. Sim a mulher brasileira é muito mais bonita que a europeia. Agora é combater o jet-lag com a tradicional receita e tentar cair na real do nazibozismo daqui em diante. E chega de falar de mim mesmo. Acaba mundo.

Acaba Mundo CXCIX

janeiro 9, 2019

Hoje são nove de janeiro de dois mil e dezenove e o mundo não acabou. Mas minha viagem acabou. Fez bem sair do Brasil, decerto, mas considerando que a conversa com o professor Rui no Porto podia ter acontecido por videochamada e que o Márcio nem estava em Paris, talvez optar por Uruguai ou México ou Colômbia e alugar um lugar por um mês em vez de ficar gastando com hotel e restaurante em euro ou libra teria sido mais esperto. Também todas essas coisas que já me deslumbraram um dia, todos palácios e monumentos que remetem ao passado de glória do velho incontinente hoje me parecem exageradas e até cafonas. Bom foi ver tantos museus, tantos que chegou a cansar, eu saí saturado de um em Berlim. Aí eu fiquei me culpando por não ter ido à Pinacoteca esses dois anos morando em Sampa, mas vou providenciar antes de levantar acampamento de novo e voltar pra Campinas. Ao menos um dos propósitos da viagem, que era aproveitar para escrever, posso dizer que cumpri, e o resultado está aí mesmo na Leosfera, se alguém se interessar. Fora largar o laptop no aeroporto de Londres, que foi culpa minha, não aconteceu nenhuma merda, apenas sensaborias em Toulouse – no time Toulouse! – que minha ansiosidade amplificou mais do que o necessário. E eu viajei com apenas um cartão velho, que vinha já dando problema, mas foi tudo suave. Não vai ser muito suave ver a fatura, mas eu só gastei com o que precisava, e com os devedês do Globe Theatre, que de certa forma é trabalho (trabalho que remunero muito bem). Por falar em trabalho, é só chegar e trabalhar na candidatura da Uporto; decidi falar de Lucrécia, em vez de começar outra ttradução, o que seria loucura. Mas a Bartholomew Fair do Ben Jonson já está na mira. Vamos adiante que o mundo acaba um pouco todo dia, e dezenove pra mim quando pisar em Guarulhos.

Segura Firme 3

janeiro 9, 2019

Oi meu amor! Não, claro que não. Desentendimento é coisa que acontece. Depois a gente conversa com calma. A gente se ama, ora. Tudo tem seu tempo. As coisas não estão fáceis na loja, eu já… claro, claro que entendo. Quando você voltar a gente conversa direito. Sua mãe está bem? Claro que estou em casa. No fixo? Eu desliguei da rede, lembra? Não para de tocar com propaganda. Eu te contei isso. Ninguém usa mais fixo. É impossível, eu arranquei o cabo da parede. Aqui, estou ao lado do aparelho, não dá linha. Não estou mentindo. Acalme-se, Patrícia. Tá bem, eu vou desligar agora, beijo. Beijo. Beijo, tchau. Ao lado da geladeirinha havia um ímã representando um motociclista, trazendo dois números de telefone, e sem deixar que o aparelho apagasse ‘seu’ Fernando discou na tela com dedos ágeis, mas aguardou em vão que atendessem, mesmo resultado para o segundo número. Conteve-se para não arremessar o telefone contra a parede, e foi repentinamente salvo do mau humor por um gol muito bonito, de voleio, contra o Flamengo. Serviu a última dose com as últimas pedras de gelo, e nesse instante o telefone tocou. Após um breve introito, encomendou um saco pequeno de gelo e uma garrafa ‘do black’.

Era o penúltimo ponto da linha, desciam senhorinhas com sacolas de compras, que certamente haviam trabalhado muitas horas em ‘casa de família’ antes de buscar no supermercado a janta que os seus aguardavam, e ainda precisavam preparar, jovens em uniforme que estudavam só após exercer algum ofício subalterno, e outras modalidades de gente honrada e sofrida que ainda precisavam ver caras feias e comentários depreciativos quando revelavam o endereço. Carlos também desceu, encerrando a conversa com o cobrador, que ouvia o jogo pelo rádio e garantia que o Flamengo ainda virava. Após atravessar a pracinha descuidada em que meninos e marmanjos jogavam bola juntos, ele entrou pelo labirinto de ruas estreitas com suas construções improvisadas e não poucos botequins onde trabalhadores exerciam seu único lazer. Chegou à base da escada e cumprimentou alguns rostos conhecidos, subiu com um vigor que poucos na sua idade teriam, e chegou à banquinha, que consistia de uma mesinha onde havia duas sacolas de papel, e um coroa de gorro instalado numa cadeira dobrável de bar, de tempos idos, flanqueado de dois adolescentes em pé, um com revólver em punho e outro descansando as mãos sobre uma metranca que lhe pendia do pescoço. Um terceiro se aproximou de Carlos para revistá-lo, mas foi desautorizado pelo chefe. Deixa o Índio, o Índio é de boa. Mais branco, Índio? Cinco peixes, Catatau. Rapaz, tá boa a coisa, Índio velho. Bateu alguma carteira? Carlos nunca comentou sobre o patrono, e as gracinhas de Catatau nunca passaram disso, que lhe importaria a origem da grana que lhe caísse nas mãos – ou passasse pelas māos de um mero funcionário, antes. Você sabe guardar segredo, Índio? Mas claro. Eu tenho uma coisa especial pra você, mas olha, essa é pra ir com calma. Chapolim, faz cinco ampola da classe A e traz aqui – e o moço do revólver subiu ainda mais pela viela e desapareceu na primeira esquina. Essa é só da diretoria, Índio. Eu quero que esses playboys que te usam de mula fiquem conhecendo, por isso só dessa vez vai ser pelo mesmo preço. Mas os pica-fumo daqui nem precisam saber, tá entendendo? Certeza, Catatau, você já me conhece. Conheço mesmo, por isso tô fazendo isso. Durante a espera, gritos vieram de mais de uma janela: era o empate do Flamengo.

Segura Firme 2

janeiro 8, 2019

Jaiwanã enfim relaxou e decidiu curtir a noitada. Tinha mesmo trabalho, mas sua cliente não pressionava muito, sabendo que escolhera mesmo a mão de obra mais barata. Então brindou com um sorriso quase convicto e saboreou a bebida importada que do contrário nunca poderia beber. Desde quando você é técnico de eletrônica, Jana? Ah, quando eu morei lá no Silvares tinha um curso por correspondência, do falecido esposo da dona da pensão, eu fui lendo, consertei um rádio e fui indo, comprando umas ferramentas usadas… a gente se vira seu Fernando. Outro dia era marcenaria, não era? Lá na oficina do Brunão? Era, seu Fernando, eu faço o mais simples. Encanador, eletricista… Pedreiro também. Você é um herói, senhor Jaiwanã. Olha por aí, as pessoas só sabem fazer uma coisa, ou nenhuma. Você merece uma placa. Eu prefiro um emprego decente, seu Fernando. Uma placa de platina nesse nariz, índio safado, e chacoalhou o gelo no copo gargalhando. Não era o primeiro abuso racial naquela relação que, pensando bem, não podia ser descrita como simbiótica senão num nível muito superficial. Mas Carlos, tendo tomado gosto pela branquinha – e habituado a tais ofensas veladas em jocosidade por toda parte – não só soltou um riso abafado como pegou uma tampa de refrigerante que estava sobre a mesa, destacou o lacre e passou com ele entre as narinas, entrando na brincadeira, suscitando longa gargalhada no outro. Carlos era mais velho, e se fosse de linhagem europeia já teria o cabelo branco, estava naquela vida de cafungar há décadas, o que certamente o atrapalhava na conquista de alguma estabilidade financeira, de modo que ele também não podia deixar de aproveitar a proximidade com o empresário, que começou de modo fortuito quando a copeira da loja o indicou para limpar a caixa de gordura e a conversa de tão boa foi parar no bar mais próximo e daí é fácil imaginar como prossegue.

Hoje é dia de futebol, seu Fernando. Ninguém estava prestando atenção à televisão mesmo, que exibia uma entrevista. Quem joga hoje? Flamengo de novo, só passa Flamengo. Tem mais uma perninha de grilo pra cada, Jana. Olha isso aqui, e tirou da carteira uma nota de cem, novinha. Prepara aí. Jaiwanã esfregou as mãos, sabendo que a nota seria dele, e esticou com cuidado duas linhas bem finas, enrolou a nota devagar e tratou de aspirar a sua, fungando como sempre. Fernando enquanto isso gritava com os jogadores que nem eram do seu time, por errar um passe ou perder um gol, e entre um xingamento e outro sobrava algum para a esposa, vadia, puta ou ao menos desgraçada. Ele então cheirou a sua em pé, como estava, e tentou beber o resto do uísque, já aguado, de uma vez, e se engasgou. Vários palavrões depois ele parou de tossir e recobrou o fôlego. Casar? Que besteira casar, Jana! Parasita é o que ela é, vadia. Calma, seu Fernando. Volta lá, Jana. Carlos já sabia que isso ia acontecer, mas não esperava ouvir ‘toma quinhentos’. Ele vestiu de volta a jaqueta que havia posto no encosto da cadeira de tubos de aço. Era melhor não perder tempo se queria ter ônibus pra voltar – taxi nem entrava na quebrada. Algo dizia ao índio pacato que devia ficar com o dinheiro e sumir, buscar outro lugar, outra cidade até, para morar. Mas enganar os outros não era de seu feitio, então aguardou no ponto, sob uma chuvinha gelada, o quatro-sete-nove que o levaria ao bairro Estancieiros.