Átila 5

outubro 5, 2020

Quando eu acordei fazia sol, e todos os malucos disputavam o melhor lugar para se secar. Dava pra sentir o bode coletivo da noite mal dormida, algumas barracas foram alagadas. Muita gente levantou acampamento e foi embora. Eu bem que queria estar em casa depois de tanta dor de cabeça, mas não antes de ver o Lelo, eu já tinha visto Gnomo Azul antes, e eles faziam os clássicos do prog nota a nota, era impressionante. O céu ia limpando mais, mas no horizonte chovia pesado. O almoço foi miojo com atum de novo, que era o mais prático. As meninas estavam sorridentes, tinham lembrado de trazer capa de chuva, e coberto a barraca, e era como se não tivesse acontecido nada. O Sávio andava mais calado, disse que ia ficar um tempo ouvindo música no Átila. De repente ele volta de cabelo raspado. Puta que pariu, o Sávio sempre foi boa pessoa. Eu fui direto: primo, você virou skinhead? Só porque raspei a cabeça? Não, é que… bom, esquece. A primeira banda do sábado estava começando, era o último dia e a expectativa alta. O gramado da plateia era agora obviamente um atoleiro, mas tudo bem, rock’n’roll! Era uma banda autoral, de heavy metal, e não me interessava muito, mas fiquei por ali tomando cerveja com o Sávio sem saber o que dizer. De repente veio a Fernanda conversar com o Sávio dizendo que precisava ir à cidade, coisa de mulher, ele não gostou mas aceitou levá-la. Começou a fechar o tempo, escureceu cedo, e chovia no horizonte, mas em outra parte. Uma hora apareceu o Zed andando com mais um tanto de punk, ele ofereceu conhaque, por que não? Eu me lembrei que ainda tinha vinho e não devia estar bebendo cerveja quente, e fui até a barraca buscar. Encontrei a Marília, lendo com pouca luz. Vai estragar os olhos, minha vó dizia. Pois é, escureceu. Eu ia abrir um vinho, quer? Claro! Então eu acionei o saca-rolhas, e ela tinha duas canequinhas metálicas que viraram taças de cristal. Fomos até o palco mas ficamos longe da sujeira, tinha entrado uma banda de Legião, a Marília gostava, mas tinha marmanjo vaiando. Você faz o que? Eu trabalho numa editora. Olha, que bacana. Design gráfico. Você é programador, não é? Pois é, escravo. Eu super admiro o que você faz. Então um murmúrio se ouviu e todos viram de uma vez que o rio subia como uma maré, ameaçando o palco, houve correria e de repente som e iluminação, tudo deixou de funcionar. Marília deu um gritinho e se projetou para frente, eu não pensei e a envolvi, como se fosse seu protetor, como ela não me afastou eu procurei sua boca e aproveitei os lábios mais açucarados da história. Mas eu tava fazendo uma sacanagem com a Fernanda, mas era uma que valia a pena. A Fernanda não pode saber disso, nós dissemos em uníssono após o beijo, o que era afirmar o óbvio. Ela começou a se sentir culpada, queria voltar pra barraca, mas estava escuro, e eu a fui acalmando. A gente combinou que não se repetiria, e que ia andar separado, mas era tarde, a Fernanda apareceu com uma lanterninha, e chegou cobrando: você trouxe minhas canequinhas pra cá? Eu entendi que o problema era dividir as canequinhas comigo, mas agi com toda naturalidade. Merda. Essa viagem era pra relaxar. E o melhor até agora tinha sido o cogumelo do Lelo, até rimou, e os ácidos? Clima nenhum pra tomar ácido, vai voltar pro Rio.

Átila 4

outubro 3, 2020

O tio que eu achei que estava só ajudando era na verdade um advogado de porta de cadeia, numa currutela do sul de Minas, e um tipo tão improvável quanto se podia esperar, ele limpava a careca com um lenço e forçava os sorrisos encimados de um bigodinho. O Átila estava do lado de fora da delegacia de Carrancas. Agradeci ao advogado tentando me desvencilhar, ele disse que aguardaria ali, e lá ele ficou, segurando a pasta na noite quente. Disse ao policial na entrada do que se tratava e ele disse que aguardasse ser chamado. Eu tinha bebido um bocado já, e foi uma tortura aquela espera, mas me levaram à sala do delegado. Ele usava colete, e cabelo militar, era novo, apontou a cadeira. Então ele começou a discursar sobre o flagelo das drogas, a decadência da sociedade, e de repente me deu vontade de vomitar. Onde é que é o… bleeeergh. Caralho, o que é que eu fiz. Vou ser preso eu. Um policial tentou me levar pra fora, mas eu vomitei na antessala também, só piorava. Ele me conduziu ao banheiro, eu me lavei como pude e fui levado à cela, onde encontrei meu primo. O senhor está preso por desacato a autoridade. Foi minha chance de ouvir a história direto dele. Cara, eu perguntei pra todo mundo se tinha um canal de pó em Carrancas. Ahã. Até que esse maluco deu a dica, endereço, tudo, e eu vim. Então eu estava procurando, e passei na porta desse bar três vezes, acho que alguém de lá caguetou minha placa. Eu comprei a brizola, saí de lá e fui abordado. Quanto você tinha? Cinco papelotes. Você não tinha trazido coca pra viagem toda? Trouxe, mas acabou. Se cuida, cara, você anda… Vai dar lição, agora? Não, só, eu, quer dizer… O que me salvou vou o polícia chamando para prestar depoimento. Eu de frente ao delegado de colete e ao nosso lado um datilógrafo. Depois dos dados básicos, ele perguntou minha profissão. Programador. De que? De computador. Rapaz, você caiu do céu, faz um ano que instalaram esse PC aqui, e o delegado descobriu o monitor, depois deu defeito e ninguém sabe consertar. Entendo. Se você colocar ele funcionando eu retiro as queixas. Claro, claro! Tem o jogo de paciência nele, era tão bom! Eu liguei a máquina, era um IBM que eu conhecia bem, apertei as teclas para acessar a BIOS, precisei de poucos minutos para detectar o problema, acionei o sistema operacional e o jogo de paciência para o doutor delegado, que ficou exultante. Pedi perdão de novo pela vomitada, disseram que não era nada, e um velhinho limpava minha caca como eu limpei a do Sávio. O advogado ficou decepcionado, mas acho que faz parte da lida dele. Entramos no Átila e gritamos, batemos as mãos espalmadas, e íamos pegando a estrada para voltar para o festival. Sávio fez uma meia volta, passou no canal dele e voltou a pegar um bright, e aí voltamos. Rock’n’roll! Estava tocando um Led Zeppelin muito bom, a multidão empolgada, aí eu andando topei a Camila e a Paula dando risadinhas. Elas estenderam o lenço e o frasco, era o que aquela porra, clorofórmio? Quem se importa? Borrifei o líquido no pano e o pus na boca, inalando com gosto, uma, duas, três, tirim dilim dim dim dim… Acordei no chão, elas riam, e tão rápido quanto surgiram sumiram. Eles estavam fazendo Kashmir agora, muito bem, quando de repente se ouviu um trovão, dali a pouco outro e depois cada vez mais frequentes. Aí entrou uma banda de Beatles, mas só dos Beatles psicodélicos, e depois que eles tivessem tocado Tomorrow Never Knows, I am the Walrus e Strawberry Fields Forever a tempestade desabou, e a maioria foi atrás da barraca como derradeiro refúgio. Foi difícil dormir encharcado. Estou ficando velho pra isso.

Átila 3

outubro 1, 2020

Acordei com o calor, olhei e o Sávio dormia com o tronco pra dentro da barraca e as pernas pra fora. Ele ainda achou ruim ser acordado pra que eu pudesse sair. Não são nem oito ainda, caramba. Imagina quando for o verão. Entre a nossa barraca e a vizinha estavam uma das garrafas do bourbon que meu primo adorava e uma poça de vômito. Maravilha, foi a distração da manhã limpar o estrago dos outros com uma pá que achei na sede. As meninas acordaram, prepararam café e ofereceram, banana frita e tapioca, um café encorpado, meu desjejum tinha sido só cigarro mesmo. Mas eu mal comi na véspera, o cogu tirou a fome, que agora apontava. Resolvi antecipar a preparação do almoço, e eu tinha em mente algo mais elaborado que miojo com atum para hoje. Mas os mantimentos estavam no Átila, e as chaves com o Sávio capotado. Sávio. Uuumpf. A chave do carro. O carro tem nome. A chave do Átila. Sávio, deixa de… Caralho! gritou enquanto se erguia. Que foi? Cadê a chave do Átila, porra? E como é que eu sei? É uma pergunta retórica, babaca. Eu tava começando a me irritar com meu primo, saí de perto e fiquei olhando ele pôr o calçado e correr na direção do palco. O Sávio ficou loucaço ontem, disse a Fernanda, que ouviu tudo de sua barraca. Eu percebi. Então, ele tava conversando com uns carecas. Sério? Eu vou ver isso. Só não fala que fui eu que… Não, claro, claro. Eu achei que votar no Collor era o pior dele. Foi bom você falar. A Marília tocou um pouco e dali a um tanto voltou o primo, balançando as chaves do Átila no ar com um sorriso satisfeito. Tava onde? Tava no rio, quem achou me viu procurando e entregou. Eu não resisti: foi por sorte que não roubaram o carro, pura sorte. Ele fechou a cara e foi se preparar para um banho frio contra aquela ressaca. Deixa a chave. Toma essa porra dessa chave! Isso vai dar merda. Fui até o carro e peguei arroz de saquinho, batata, charque e tomate, quando voltava vi o Sávio na fila do banho. Ele me chamou e pediu desculpa, por alguma delas ou por todas, eu sorri e disse tudo bem. Era um alívio. Montei o fogareiro e comecei a preparar o arroz, quando me aparece o Zed, ainda com a mesma roupa. Ele falava contra o capitalismo e a globalização, e eu só ouvia. Descasquei e pus no fogo as batatas. Captei a mensagem do punk e fui atrás do baseado, deixei que ele apertasse. Ele apertou um pastel, que começou a abrir no meio, ainda tentei consertar, mas deixei de lado. Espera aí, fui até o Átila, estava com as chaves, e busquei uma garrafa de vinho. Vamos começar os trabalhos. Quando a batata estava boa eu pus o charque no fogo e esperei. Aí pareceu que estava bom e servi, para mim e para o Zed, o charque frito. Depois de algum silêncio ele disse: tá duro, hein? Eu garanti que era assim mesmo. Aí a Fernanda apareceu pra dizer que charque tem que ficar um dia na água. Puta que pariu. E o almoço foi arroz e batata, o que é pior que miojo e atum. Que se foda, peguei a ponta inviável, dei uma “intera” e fiz outro, chamei o punk pra ver a primeira banda. Meu primo tinha sumido. Estava acontecendo algo extraordinário no palco, o Lelo depois disse que eram alunos da música na federal: bateria, baixo, violoncelo, fagote e flauta, fazendo um som de vanguarda, pirado. O público não estava pronto, começou uma vaia, começaram a jogar coisas, e teve que parar. Que merda. Eu nunca tinha percebido como roqueiro é autoritário. De repente aparece o Sávio, me dá a chave do Átila. Eu dei, mas pensei em perguntar, você vai a algum lugar? Eu já volto. Deixa ele, então. Entrou uma banda que fazia rock nacional, e eu fiquei por ali, na verdade tinha uma morena que eu achei que me olhou, não fora isso eu nem ficava. O vinho acabou e eu passei a comprar cerveja do evento, quente. Ela olhava e sorria, não era ilusão. Vou falar o que? Rock’n’roll! Boa. Fui lá e fiz isso, ela me olhou séria, de alto abaixo, depois desatou a rir. Seu nome era Camila, e o papo foi rolando gostoso, comentei da cerveja quente e ela ofereceu vodka, por que não? Chamei-a até o riacho, e lá só me aproximei e a beijei, toquei sua pele macia, seu cabelo liso. Parecia um sonho. Eu vou tentar essa cantada até o fim da vida, agora. Eu tava te procurando, era a amiga dela, Paula, que chegou com um beque pronto. Era o paraíso. Elas moravam em BH, e eu já prometia visitar, manter contato, quando Camila me deu um longo beijo e foi-se embora com a Paula, que traseiro. Eu sentia vontade de tomar o ácido ali mesmo. Tinha trazido dois, para dividir o o Sávio, mas agora já nem tinha certeza. Então eu resolvi deitar um pouco, e no caminho da barraca encontrei um trabalhador da fazenda empurrando um carrinho de mão. Como é o nome do rio? Rio da Surpresa. Ah… tardes. Dormi. Acordei já à noite, meio desorientado, fui lavar o rosto. Quando cheguei ao palco, a banda tocava um blues-rock e a cerveja ao menos estava mais gelada. De repente vem a Marília esbaforida: o Átila foi preso. Como? O Sávio foi preso, perdão. Por quê? Com pó, em Carrancas. Caralho. Claro que era atribuição minha cuidar daquilo, e eu peguei carona com a mesma boa alma que veio trazer a notícia.

A reboque do quibe

outubro 1, 2020

Se o alface oficia o fácies, não seria o requeijão a requerer querelas. Ao menos o minotauro atura os tiros, e atrai treliças. Como se a boca do cabo viesse a reboque do quibe. Nem venha dizer que dezoito azeitonas tesas tecem cento e setenta centopeias, porque o parque arqueia as cartas e corteja o estojo. E eu disse, que quiabo abunda quando o andor deriva de varíolas várias, que a tépida tilápia pálida dos palíndromos dragava drágeas andróginas, ninguém ouviu. Agora o agouro é gago, o gargarejo areja o jirau, é joia. Mas a mastigação dos tigres é grata à gruta, é de entender, porque a carpir carpete nem petardos tardam. O preço da pressa é a supressão do sopro, e a farmácia da esquina, que nada dana ao denodo, é a precisão dos sisos.

Átila 2

setembro 29, 2020

O Átila tinha ficado lá fora, no estacionamento, e eu precisava buscar a bagagem, para enfim me banhar. De repente aparece o Lelo, baixista do Gnomo Azul: faaaaaala caboclo! Caralho mano! Lelo estava com as pupilas enormes, dentro daquela cabeça pequena emoldurada por cachos castanhos. Que doidera, cara. Que doidera. A gente tomou cogumelo, quer? Não, eu vou tomar um ácido, mas só no sábado. Então, toma um cogu hoje, porra. A gente tinha estudado junto na escola pública de Cambuquira, onde nascemos, tocamos juntos quando ainda aprendendo, ele foi de banda de baile em banda de baile e virou profissional, eu virei programador, mudei pro Rio, troquei um teclado por outro. Ele me puxou pelo braço até o carro deles, eu mal entendia o que ele dizia, e chegando lá ele virou uma garrafa térmica num copinho plástico, que encheu até a metade com o líquido escuro. Eu virei de uma vez: ah! Eu era louco, mas a porralouquice já estava nos planos, mesmo. Fazia dez anos, desde formado, que eu não fazia mais que fumar um muito de vez em quando, no carnaval ou algo assim. Agora eu mal tinha chegado e virei meio copo viscoso de cogumelo. Seja o que Zeus quiser. Lelo e eu ficamos trocando várias histórias, eu achava as dele mais interessantes que as minhas, embora meu salário seja melhor. Quando eu finalmente disse que ia atrás de tomar um banho, a onda começou a bater. A percepção do espaço era meio alterada, como se a vista fosse vítima de ilusões de ótica, e o corpo intoxicado queimava com uma sensação estranha, mas agradável. Eu percorri a fileira de carros até o fim, o que pareceu um triunfo, mas não sabia onde estava. Os chuveiros eram perto da sede, afastados do palco, do estacionamento e do camping, e eu fui perguntando no caminho, me esforçando para lembrar a informação, mas cheguei. A água fria, era outubro e fazia calor, foi uma delícia, e gastei um tempo só curtindo a sensação, já estava ganhando uma ereção pensando na Cláudia. Não devia ter pensado na Cláudia, me ensaboei e enxaguei, me enxuguei e tirei a roupa amassada da mochila, vestindo-me enquanto curtia a onda do cogumelo, e me sentindo novo. Quando cheguei à barraca, meu primo continuava dormindo, Marília e Fernanda tocavam violão e percussão, e um pouco depois o Zed reapareceu, oferecendo uma maconha maravilhosa, eu contei do cogu, ele achou massa: rock’n’roll! A gente ficou ouvindo a Marília, sendo que o punk nem dormiu nem tomou banho, e quando já eram quatro horas, a onda no ápice, começou a tocar a primeira banda da quinta-feira. Então a gente se locomoveu do platô onde estava o camping até um outro, mais perto do rio, onde estava o palco. Era uma banda numa onda caipira-norte-americana, então mesmo se a energia do rock era boa não era preciso prestar muita atenção. De repente o Sávio apareceu, de banho tomado, e colocou um beque gordo, que foi bem recebido. Enquanto as guitarras da banda prosseguiam eu me fechava numa onda boa, na qual a perda da Cláudia e o beco-sem-saída no trabalho viravam uma coisa quase boa, e estar ali no festival era algo excelente, de modo que eu passei a distribuir abraços a todos, o Zed cheirava mal, só o Sávio achou ruim, o machão. Fomos andando até o rio, poucos metros atrás do palco, através da trilha pela matinha, havia muitas pedras grandes e a água era preta. Já estavam instaladas umas três rodinhas de gente na maior parte de preto, uma era de coroas ostentando camisetas de Deep Purple ou Black Sabbath, outra era de jovens estampados de Nirvana e Pearl Jam, a única a contar com uma mulher, até a nossa chegada. Fernanda tomou a iniciativa: esse pode deixar que eu ponho, vai ser algo especial. Sentou-se e tirou um kit, ela desbastava a pedrinha de fumo verde e cheiroso com uma tesourinha quando eu me deitei na pedra para viajar nas nuvens e ouvir o murmúrio da água, e de repente me chamaram para fumar. Que delícia Nanda, parece alecrim. Eu pus alecrim. Não. Seco e triturado, eu faço com várias ervas. Você não perguntou pra ninguém, o Sávio começou a dar trabalho de novo. É só não fumar, você já fumou e achou bom. Tá bom, tá bom. Como se chama esse rio, me ocorreu. Ele corria reto, com uns três metros entre as margens, mas era fácil atravessar pelas pedras. E foi o que eu resolvi fazer, depois de dar mais duas bolas. O cogumelo não afetava o equilíbrio, mas eu pisei numa pedra solta e quase fui à água, enquanto a turma me zoava, mas cheguei lá. A matinha recomeçava e bem ali eu percebi a entrada de uma trilha, a Marília gritou que eu não entrasse chapado, mas eu não liguei. No meio das árvores bateu uma onda forte, parecia que os galhos queriam me pegar, e eu me desesperei, mas respirei fundo e saí de novo, aliviado. Quando cheguei de volta ainda peguei a pontinha. Lá no fundo dava pra ouvir que entrou uma banda tocando Talking Heads, que eu curto muito, então eu chamei todo mundo pro palco. Começava a anoitecer. A banda não fazia muito sucesso, então dava para ficar perto do palco sem aperto. Foi aí que eu reencontrei o Lelo, doidaço e coberto do pó avermelhado do Sul de Minas. Ele ficou dando em cima da Fernanda, eu tentava dar o toque, ele seguia, até que ela se aborreceu e disse que ia até a barraca comer alguma coisa. O Sávio foi junto com ela pra dar uns tiros, e o Lelo voltou a sumir. Eu vou ficar aqui, você liga? Claro que não. Eu conheci a Marília na véspera, ela era risonha; com a Fernanda eu já tinha conversado, mas ela é muito fechada. A gente começou a ter um bom papo, primeiro sobre a música, a banda agora era um cover de Mutantes, depois sobre os assuntos mais diversos. Quando a Fernanda voltou, ela olhou feio, ou foi impressão minha? Não deu pra pensar a respeito porque o Sávio chegou dando um safanão e reclamando que eu deixei o Átila aberto. Eu que tava numa onda tão boa do fim do cogu. Caralho, meu, foi mal, eu tô doido de cogumelo, pega mais leve. Roubaram alguma coisa? Não roubaram por sorte, ouviu? por sorte! Relaxa um pouco, Sávio, porra. Depois dessa eu, que tinha dormido pouco no carro, só esperei até a próxima banda, que no fim não me interessava, e fui dormir.

Autorama 16

setembro 26, 2020

De palito e de massa, meu patrão. Lá vem o patrão de novo. E de que tem o de massa? Limão, uva, morango, milho, amendoim… Me dá um de milho, quanto é? Três reais. Toma, fica com cinco. Deus abençoe, meu filho. Esse eu passo. Em Vitória teve o tempo que eu toquei com o Bruno Camarão, era uma tosquice braba, e uma vez nos puseram num trio elétrico com bateria eletrônica, eu fiquei tão nervoso que contei três em vez de quatro e quebrei a perna de todo mundo. Com o outro cara que eu não lembro o nome eu tive uma discussão porque ele queria o tupatupatupá do hardcore e eu dizia que a batida não existia porque não me ensinaram. Teve dessas bandas que nunca saíram do gogó, como a com os playboys da escola que acabou naquele porre da tal lavagem do triângulo, e teve o Alexandre, que eu achei que sendo irmão do Marcelo Sepultura devia cantar bem, também. Nós dois viramos mais parceiros de aventuras como subir a Pedra dos Dois Olhos, e fumar o que na época parecia muita maconha. Naquele tempo só tinha camarão do nordeste, um punhado embrulhado em página de Veja era chamado de dola. Cá estamos. Cinco e dez. Eu me sinto numa colônia em Marte dentro de um shopping, hoje, a temperatura é artificial, a luz, as plantas, os cheiros. Amigo,onde fica o Detran? Por aqui, sobe na escada rolante, segue em frente, sobe de novo e pega à esquerda, você vai ver os elevadores. Valeu mesmo. Que complicação, eles fazem você andar pra olhar vitrine. Em Campinas com o povo da elétrica a gente também formava um monte de banda de goela. Ficava inventando nomes enquanto fumava no CB00, eu queria que fosse No Police, em alusão ao fato de não ter polícia no campus e porque o Campeão queria tocar The Police e eu não gostava. E tinha o Turista nessa época, um cara meio babaca, mais adiante eu fui chamado pra tocar com ele e o amigo dele da música, na disciplina prática de estúdio, o professor não punha uma fé, o Capa Grilo não gravou um take aproveitável de bongô, eu nunca tinha passado pela experiência de tocar uma música só com um clique, foi um desastre. O que acabou vingando foi tocar com o Maciel da computação, o popstar, e o Daniel Andrada, que pouco depois voltou pra São Paulo, nas guitarras, com o Campeão tocando um baixo muito discreto. A primeira apresentação foi no gramado da Mecânica-Alimentos, o Campeão tinha um compensado no Buraco, eu levei o tapete e montei a batera. Que sensação boa aquela. Era Sunshine of Your Love, que mais? Eu dei o nome de Filthy Fellas, mania de inglês, hoje eu acho meio boboca, enquanto eu fui roqueiro me afastei da cultura brasileira. Depois a gente tocou na Bioart, foi a de nove nove, o repertório era o Maciel puxando pro blues e o Daniel pro hard rock, e no fim eu declamei uns versos adolescentes sobre baseado. A gente fez umas festas de CA, como na mecância, onde rolou Man in the Box, e na Bioart do ano seguinte o Maciel veio dizer que não precisava gravar fita, e nisso a gente ficou de fora. Então houve uma desistência e chamaram a gente, mas não rolou reunir mais, e lá fui eu tocar blues sem ensaio pra fazer palco pro Maciel. Depois disso se conformou o Bluesmoke, que tocou blues sem ensaio mais um bom tempo, com o Xavier e o Joe na gaita, casas noturnas e tal, uma época a gente ia até Vinhedo tocar, voltava de madrugada. Acho que dá pra ir ao banheiro antes. Mais adiante eu já tinha um gosto mais sofisticado, e formei um trio com o Paulinho do IFCH e o Sossego da Música, a gente improvisa um jazz fusion bem interessante. Teve a festa do rugby na casa do Trujas perto da reitoria. Na verdade os vizinhos de trás eram o Grotto, e o muro estava cheio de humidade, a gente planejou muito tempo de fazer uma festa dupla e derrubar o muro, mas nunca aconteceu. Mas a do rugby aconteceu. Eu aluguei o equipamento, então exerci uma relativa tirania na discotecagem, até que o público se amotinasse pra tocar Barão Vermelho, saco, essa gente só quer ouvir sucessos pop. Mas nosso trio mandou muito bem, estava fluindo. O Feijão se juntou à gente no teclado e nós tocamos na Bioart de zero dois, e foi meu ápice na música. Jeep on 35 do Scofield, Red Baron do Cobham, Chameleon do Hancock, Take 5 do Brubeck (ou Desmond, antes). Bons tempos. No dia mesmo eu tinha chamado uns caras do IA para dividir o palco, um bando de babaca, e algumas músicas ficaram de fora, no fim eu declamei Canção a Shiva. Senhor, renovação de habilitação. Aquela fila. Obrigado.

Pra Sempre 5

setembro 23, 2020

Rebeca passou o resto do dia se recriminando. Ela queria ter pressionado a amiga, intimidado mesmo, e no entanto aceitou todas suas desculpas. A Vanessa tem um futuro brilhante pela frente, e vai jogar tudo fora por essa porcaria, vai acabar vendendo artesanato. Mas na escola ela nem comentou a respeito, passou a quinta e passou a sexta e era como se não existisse esse assunto. Vanessa foi chamada à sala da madre sobre a denúncia de indecência, negou, negou e negou, mas também não denunciou o professor de física. No sábado, o celular de Rebeca tocou pouco antes do almoço. Depois do tudo bem, tudo bem, Vanessa jogou a ideia: Então, eu falei que você devia conhecer o Arthur, a gente tá indo na Ponta do Sururu mais tarde, vem com a gente! Rebeca pensou em recusar, mas já não queria. Seu contato todo com Arthur foi pedir uma grafite, não tinha motivo para dizer que é má pessoa, fora a maconha. E estava precisando de atividade ao ar livre depois de tanto estudar para o vestibular. Vamos, sim, Nessa. Eu topo. Então nós vamos passar aí às cinco. E depois de almoçar e ver alguma TV ela pôs o biquíni, um short e uma blusinha, para esperar. E às cinco e dez tocou o interfone, ela desceu e entrou no Kadett de Arthur, Vanessa precisou sair, e os cumprimentos foram sem graça. E também foi meio sem graça o caminho até a Ponta do Sururu, com a trilha sonora das melhores da estação de rádio tal. Arthur falava qualquer bobagem seguida de uhu! e a alegria falsa enojava Rebeca, que esperava que aquela seria uma ocasião de conversar sério com a amiga, ou que esperava ela. Estacionaram e seguiram até a areia com dois volumes, um de bebidas e outro de comidinhas. Rebeca sabia que era homenageada, já que não havia mais convidados, e fez questão de propor um desafio até a ponta e de volta, pelas pedras e depois nadando pelo mar, tudo para evitar o momento que parecia certo, quando os dois iam fumar um baseado para provocá-la. Ela conhecia a amiga. Isso não aconteceu antes de estenderem a canga e comerem os quitutes que trouxeram, mas aconteceu. Arthur, a quem Rebeca ia conhecendo sem motivos para desgostar, tirou da mochila um dichavador, um livrinho de seda e um saquinho de fecho com lindas flores polpudas e verdinhas com pistilos amarronzados. Rebeca tentou fingir surpresa e indignação, mas não colou, e a conversa foi pelo lado de que não faz mal, é mentira o que dizem, e ela ia fazendo objeções cada vez mais tíbias. E quando ela bufou dizendo ai vocês a bomba estava pronta, e bem feita, era um cone avantajado com piteirinha na ponta. Arthur era experiente. Você devia provar, Rebeca, vai ver que é tranquilo. Eu não, Arthur, não é pra mim. Então tá bom, a gente respeita. E foi a vez de Vanessa dar uma bola. Como era bonita essa loira, ali contra o sol poente e com coqueiros e ondas quebrando na areia ao fundo, e o oceano refulgindo até o infinito. Rebeca pulou e beijou o pescoço de Nessa, Arthur cuspiu a cerveja, surpreso, e Vanessa só puxou a amiga para si e beijou-lhe a boca, enquanto Arthur jogava o corpo para trás e Ou-ho-ho-ho-hou! Tão logo largasse a boca da boca da amiga Rebeca tomou posse do baseado e deu uma longa tragada. Tossiu. Riu. Tossiu mais. Fumou mais. E dali em diante a roda se formou regularmente, as duas abraçadas e trocando carícias. Foi quando apareceu gente na praia, o baseado foi apagado e todos se recompuseram. Rebeca começou a ficar ansiosa, não devia, não devia, não devia ter feito isso, nem isso. Onde estava com a cabeça. Queria voltar para casa, mas veio de carona, começou a se vestir. O que você tá fazendo? Vou voltar pra casa. Calma aí, a gente já vai. Não, eu vou de ônibus. Os dois se esforçaram e conseguiram acalmá-la, propôs-se mais um banho de mar no fim do dia, e durante minutos tudo estava bem, Rebeca ria e se divertia, mas ao saírem bateu uma brisa fria, Rebeca entrou numa espiral de culpa e mal queria olhar para a amiga, ou para aquele sujeito que mal conhecia. Chamou um táxi. Sentaram separadas dali em diante, e passaram no vestibular em cidades diferente, Rebeca é super moralista contra as drogas até hoje, enquanto Vanessa se tornou uma habitual do bequinho, mas nunca quis cheirar. Outro dia o Arthur apareceu na televisão como surfista profissional.

Átila 1

setembro 22, 2020

Meu primo Sávio tinha um Uno que ele chamava de Átila. Átila, o Uno. Foi com ele que a gente foi pro festival de Carrancas em noventa e três. Eu tinha acabado de me separar da Claudinha, o Sávio tinha acabado de passar no mestrado, assim como a colega dele no Tecnológico, a Fernanda, que acabou levando a namorada, Marília, e o Átila tinha acabado de ganhar uma nova correia dentada. O feriado era de quinta e sexta, então foi na quarta à noite, após o expediente, ou vagabundagem, conforme fosse, que nos juntamos na casa do Sávio para pegar a estrada. A obrigatoriedade da birita e da maconha tornava os preparativos truncados e desajeitados, mas há um preço a se pagar em tudo, afinal. Sávio não bebeu, embora na época nem fiscalização houvesse, ia dirigir de madrugada e não queria ter sono. Pelo contrário, providenciou dois ou três tirinhos pra ficar esperto. A primeira parada foi em Seropédica, depois da travessia da Serra com Marília tocando violão. Estavam gargalhando de qualquer bobagem, nem maconheiros novos eram, mas o posto vinte-e-quatro horas parecia divertidíssimo, e de repente um inocente “qué coca” provocou renovadas gargalhadas. Tudo pago e pé na estrada, aí o problema foi a ópera do Sávio, que pariu, pô. É Wagner, ele dizia, ereto. É chato, respondia a gente, até vencer. Venceu mais violão da Marília, ela tocava uma onda londrina oitentista, e era o início dos noventa, mesmo, mas enfim se cansou. A conversa que seguiu foi pela expectativa do festival, uma reunião de doidões de vários estados acampados para curtir o rock’n’roll. Mas todos iam se deixando dominar pelo sono. O problema era o motorista. Fernanda perguntou. Não, tô bem. Qualquer coisa eu assumo, tô sem sono. Não, tá tranquilo. Marília dormindo, violão no bagageiro, eu mesmo bocejando, Fernando e Sávio conversavam sobre política trocando platitudes do senso comum, não quis intervir, o Átila dá seta. Que foi? Não é nada. E o motorista, depois de estacionado o carro, alcançou no porta luvas um vidrinho e mandou dois tiros no manual do carro. Só pra garantir, e voltou à estrada. Adiante era Volta Redonda, e ia ter polícia, mas apesar da tensão não havia canas na pista. Então eu dormi meio desconfortável mas dormi, acordei com o Sávio parando. Onde é aqui, Fernanda e eu perguntamos ao mesmo tempo. Santa Rita de Jacutinga. Não fode! Não existe esse nome de lugar! Pois existe, aqui. Parece piada. Tem um Passa-Vinte aqui perto. Já tá chegando? Falta ainda um bocado. Sávio queria lavar o para-brisa. No meio da madrugada. Demorou um tempo até que um trabalhador sonolento surgisse para fazer isso por um real. Por um pedaço o Sávio contou vantagem de um monte de coisa duvidosa, os tirinhos tinham batido, ao menos não dormia, e assim seguia o Átila pelo sul de Minas. Eu não dormia, mas quase, pensava na minha vida, sete anos com a Cláudia, e acabou, dez anos de peão na empresa e não acaba nunca. Era a hora perfeita para um pouco de porralouquice. Eu tinha dois ácidos na bagagem, e a ideia era estar fritando no show do Gnomo Azul, já no encerramento, a banda do meu amigo de infância Lelo, que fez o convite, eles tocavam progressivo, e bem. Pensando nisso eu dormi, e sonhei que todas minhas coisas começavam a criar asas e voar, computador, geladeira, tudo, e acordei no banco de passageiro do Átila, olhei para o Sávio, que estava cafungando, e para as moças dormindo, e voltei a dormir. Acordei em São Vicente, com um quebra-mola, a aurora começava a despontar e à frente ia um caminhão onde se lia “rurais”. Pouco adiante havia no acostamento algo totalmente insólito e inesperado: um sujeito um pouco baixo vestido de metaleiro de alto abaixo, jaqueta de couro com tachas, coturno e moicano, segurando um papelão pintado dizendo CARRANCAS. E o Sávio parou. Até as moças acordaram. Após breve deliberação decidiu-se dar carona para o moicano, que entrou após que eu saísse (você se lembra como o banco do passageiro se projetava no Uno). A Fernanda e a Marília ficaram um tempo sem graça com o Zed, ao menos assim ele se apresentou, mas em pouco tempo a conversa era fluida, e quando perceberam de rock já estavam falando em espiritualismo. Ele havia saído do Rio de carona, de manhã, tomado três caronas, e passado a madrugada no vilarejo. Sua mochila adicionada à carga normal prejudicava a visão do motorista, mas adiante foram eles, que mal viam a hora de chegar, enquanto o dia ocupava o céu. Foi quando um estalo se ouviu, e Sávio gritou um palavrão porque já não tinha o controle do acelerador; meteu o pé no freio, e um Fusquinha que vinha atrás buzinou e ultrapassou como pôde. Abrigou-se no acostamento e tentou várias vezes o motor entre muitos merda-merda-merda, enquanto perguntavam o que houve. Deve ser a correia, explicou Sávio. E aí abriu o capô puxando a alavanca e ficamos ele, Zed e eu olhando basbaques para o motor. Sávio foi pedir carona e eu conversei com o punk por um bom tempo, sujeito gente boa, umas ideias bem de esquerda também, e lá se foi e de lá voltou com o socorro Sávio enquanto o casal dormia no carro. Chegamos até Carrancas dentro do carro em cima do guincho, as moças tinham acordado e de repente aquilo tudo era muito divertido. O mecânico ergueu o carro, desmontou o motor e decretou que a correia tinha sido remendada. Mas eu acabei de trocar. Mas puseram uma remendada. Filho da puta. Sávio pagou no cartão, xingando por saber que ia ter que correr atrás depois. Até que o serviço estivesse terminado e a gente pudesse chegar à fazenda, pedindo muitas informações, já era meio dia, estávamos exaustos, o Sávio de olhos esbugalhados. E ainda havia o trabalho de achar um bom lugar e montar as barracas, o que tendo sido feito descansamos um pouco, a meninas foram atrás de banho e Sávio e eu ligamos o fogareiro para preparar o almoço, miojo com atum. Sem que a gente nem percebesse, o punk tinha sumido.

Pra Sempre 4

agosto 24, 2020

Os jardins do seu prédio são os melhores, eu amo hibisco. E minha mãe vende flor, e elogiou também. O seu Maneco cuida com carinho, ele está no prédio há mais tempo que eu. Eu me lembro quando você mudou, a gente tomava banho na piscina com boia. Essa foi minha primeira piscina. Lembra quando a gente fez o pacto de ser amiga para sempre? E pintou o dedo com canetinha pra não ter que furar? claro que lembro. Vem com o biquíni qualquer dia, a gente podia repetir. Eu mesma quase nunca desço, nem me lembro dela. Vanessa, que se manteve atrás enquanto a outra chegou até a borda, de repente empurrou a amiga de uniforme na água e começou a gargalhar. Como saber se a ideia de estragar a conversa indesejável ia pela cabeça dela? Enquanto Rebeca buscava a escadinha para sair da piscina, Vanessa não saiu correndo, esperava para ser perseguida e, ao fim de algum empurra-empurra deixar-se arrastar até a água, assegurando-se de puxar a amiga junto. As duas riam encharcadas um riso com uma nota tensa, e a Rebeca ocorreu: sua louca, piscina depois do almoço é perigoso. Isso é crendice. É nada. Depois de algum silêncio, Rebeca intimou: você quer pegar o Mauro, não é? Fala a verdade. Eu, amiga? Sai pra lá. Você correu pra ajudar ele com o material. Tem nada de mais nisso. Ou você foi ajudar ele porque não queria conversar comigo? Ah, não começa Beca. Vai, vamos tirar essa roupa molhada. E a gente vai entrar assim no elevador? Pingando? Vanessa veio se aproximando e fez que ia beijar Rebeca, que se afastou. Tá maluca, Nessa? Tô começando a ficar com medo de você. Nada, amiga, era de brincadeira. Eu, hein, cada ideia. Já sei, vamos correr em volta da quadra até secar. De sapato encharcado? Tira o sapato, depois a gente busca. E elas correram, descalças, e o clima parecia ameno, mas depois de três voltas pararam. Não tá adiantando muito. Sentaram-se num banco exposto ao sol e ficaram sem falar nada um tempo, olhando-se às vezes. Rebeca estava confusa, sempre gostou dos meninos, mas sua relação com Nessa era de tal companheirismo, ao menos até ontem, que ora, será? Era brincadeira ou era sério? Achou melhor adotar uma superioridade moral e finalmente cobrar a amiga sobre a maconha. Então você fumou mesmo. Com o Arthur. Ai, quer saber, fumei mesmo, Beca. E foi ótimo, quer saber? Você sempre teve a cabeça fraca. Fraca? Cabeça fraca é fazer tudo certinho, bonitinho, como esperam de você. Tem um mundo lá fora, Beca, fora do Auxiliadora, fora do vestibular… E você acha que vai passar em medicina fumando maconha? Ai, miga, que drama. Eu nem fumo o dia todo, eu fumei três vezes nesse ano todo. Então faz todo esse tempo? Que você pega o Arthur e não me conta? Não, sua boba, eu fumei antes do Arthur. Foi com a Laura. A Laura? Ela me contou que viu ele fumando, indignada. Eu acho que ela é afim dele. Amiga, cuidado, isso vai te prejudicar. É só uma planta. Comigo-ninguém-pode também é só uma planta. É mais inofensivo que álcool. Eu não sei, Nessa, você tá mudada. Se chama adolescência, miga, relaxa. Acharam que estavam secas o bastante e rumaram ao bloco, mas perceberam o rastro molhado que deixavam. Rebeca quis talvez mostrar que não era certinha, e começou a tirar o uniforme no corredor, no que foi seguida por Vanessa. Quando o elevador apareceu, havia um coroa com carrinho de compras vindo do subsolo, elas riram e fecharam a porta. Quando ele apareceu de novo estava vazio, e as levou ao décimo terceiro. Em roupas secas, e Vanessa sempre tinha roupas na casa da amiga, postaram-se na varanda e conversaram qualquer bobagem até que Vanessa se despedisse (ela podia voltar andando), sem antes lançar uma ideia: você devia conhecer o Arthur, ele é gente boa.

Apenas pinos

agosto 15, 2020

Nada contra o algoz gozar do guisado, mas pertencer ao portento é tentar pentâmetros, e até mesmo o miasma não amesquinha os canhões sempre que o quiabo banir bananas. Não digo que a gabolice lance o címbalo, isso seria assobiar bacias sábias, mas pelo menos o polo pilha a plêiade e empilha ilhotas, e se a tribuna abona nababos resta saber se o bérbere beberia abóboras. O biombo mesmo se abismou com os cumes, acumulando mulas, e eu digo até o que o gatilho tolhe a toalha. Não opino panos, apenas pinos. Malandra é a salamandra, que assimila milênios antes de cantar contornos. E o arcabouço do beiço é sibilar libélulas, mesmo que o mico cósmico mascare máculas. É como a filha da folha calibrar colibris, pode isso?