Pra Sempre 5

setembro 23, 2020

Rebeca passou o resto do dia se recriminando. Ela queria ter pressionado a amiga, intimidado mesmo, e no entanto aceitou todas suas desculpas. A Vanessa tem um futuro brilhante pela frente, e vai jogar tudo fora por essa porcaria, vai acabar vendendo artesanato. Mas na escola ela nem comentou a respeito, passou a quinta e passou a sexta e era como se não existisse esse assunto. Vanessa foi chamada à sala da madre sobre a denúncia de indecência, negou, negou e negou, mas também não denunciou o professor de física. No sábado, o celular de Rebeca tocou pouco antes do almoço. Depois do tudo bem, tudo bem, Vanessa jogou a ideia: Então, eu falei que você devia conhecer o Arthur, a gente tá indo na Ponta do Sururu mais tarde, vem com a gente! Rebeca pensou em recusar, mas já não queria. Seu contato todo com Arthur foi pedir uma grafite, não tinha motivo para dizer que é má pessoa, fora a maconha. E estava precisando de atividade ao ar livre depois de tanto estudar para o vestibular. Vamos, sim, Nessa. Eu topo. Então nós vamos passar aí às cinco. E depois de almoçar e ver alguma TV ela pôs o biquíni, um short e uma blusinha, para esperar. E às cinco e dez tocou o interfone, ela desceu e entrou no Kadett de Arthur, Vanessa precisou sair, e os cumprimentos foram sem graça. E também foi meio sem graça o caminho até a Ponta do Sururu, com a trilha sonora das melhores da estação de rádio tal. Arthur falava qualquer bobagem seguida de uhu! e a alegria falsa enojava Rebeca, que esperava que aquela seria uma ocasião de conversar sério com a amiga, ou que esperava ela. Estacionaram e seguiram até a areia com dois volumes, um de bebidas e outro de comidinhas. Rebeca sabia que era homenageada, já que não havia mais convidados, e fez questão de propor um desafio até a ponta e de volta, pelas pedras e depois nadando pelo mar, tudo para evitar o momento que parecia certo, quando os dois iam fumar um baseado para provocá-la. Ela conhecia a amiga. Isso não aconteceu antes de estenderem a canga e comerem os quitutes que trouxeram, mas aconteceu. Arthur, a quem Rebeca ia conhecendo sem motivos para desgostar, tirou da mochila um dichavador, um livrinho de seda e um saquinho de fecho com lindas flores polpudas e verdinhas com pistilos amarronzados. Rebeca tentou fingir surpresa e indignação, mas não colou, e a conversa foi pelo lado de que não faz mal, é mentira o que dizem, e ela ia fazendo objeções cada vez mais tíbias. E quando ela bufou dizendo ai vocês a bomba estava pronta, e bem feita, era um cone avantajado com piteirinha na ponta. Arthur era experiente. Você devia provar, Rebeca, vai ver que é tranquilo. Eu não, Arthur, não é pra mim. Então tá bom, a gente respeita. E foi a vez de Vanessa dar uma bola. Como era bonita essa loira, ali contra o sol poente e com coqueiros e ondas quebrando na areia ao fundo, e o oceano refulgindo até o infinito. Rebeca pulou e beijou o pescoço de Nessa, Arthur cuspiu a cerveja, surpreso, e Vanessa só puxou a amiga para si e beijou-lhe a boca, enquanto Arthur jogava o corpo para trás e Ou-ho-ho-ho-hou! Tão logo largasse a boca da boca da amiga Rebeca tomou posse do baseado e deu uma longa tragada. Tossiu. Riu. Tossiu mais. Fumou mais. E dali em diante a roda se formou regularmente, as duas abraçadas e trocando carícias. Foi quando apareceu gente na praia, o baseado foi apagado e todos se recompuseram. Rebeca começou a ficar ansiosa, não devia, não devia, não devia ter feito isso, nem isso. Onde estava com a cabeça. Queria voltar para casa, mas veio de carona, começou a se vestir. O que você tá fazendo? Vou voltar pra casa. Calma aí, a gente já vai. Não, eu vou de ônibus. Os dois se esforçaram e conseguiram acalmá-la, propôs-se mais um banho de mar no fim do dia, e durante minutos tudo estava bem, Rebeca ria e se divertia, mas ao saírem bateu uma brisa fria, Rebeca entrou numa espiral de culpa e mal queria olhar para a amiga, ou para aquele sujeito que mal conhecia. Chamou um táxi. Sentaram separadas dali em diante, e passaram no vestibular em cidades diferente, Rebeca é super moralista contra as drogas até hoje, enquanto Vanessa se tornou uma habitual do bequinho, mas nunca quis cheirar. Outro dia o Arthur apareceu na televisão como surfista profissional.

Átila 1

setembro 22, 2020

Meu primo Sávio tinha um Uno que ele chamava de Átila. Átila, o Uno. Foi com ele que a gente foi pro festival de Carrancas em noventa e três. Eu tinha acabado de me separar da Claudinha, o Sávio tinha acabado de passar no mestrado, assim como a colega dele no Tecnológico, a Fernanda, que acabou levando a namorada, Marília, e o Átila tinha acabado de ganhar uma nova correia dentada. O feriado era de quinta e sexta, então foi na quarta à noite, após o expediente, ou vagabundagem, conforme fosse, que nos juntamos na casa do Sávio para pegar a estrada. A obrigatoriedade da birita e da maconha tornava os preparativos truncados e desajeitados, mas há um preço a se pagar em tudo, afinal. Sávio não bebeu, embora na época nem fiscalização houvesse, ia dirigir de madrugada e não queria ter sono. Pelo contrário, providenciou dois ou três tirinhos pra ficar esperto. A primeira parada foi em Seropédica, depois da travessia da Serra com Marília tocando violão. Estavam gargalhando de qualquer bobagem, nem maconheiros novos eram, mas o posto vinte-e-quatro horas parecia divertidíssimo, e de repente um inocente “qué coca” provocou renovadas gargalhadas. Tudo pago e pé na estrada, aí o problema foi a ópera do Sávio, que pariu, pô. É Wagner, ele dizia, ereto. É chato, respondia a gente, até vencer. Venceu mais violão da Marília, ela tocava uma onda londrina oitentista, e era o início dos noventa, mesmo, mas enfim se cansou. A conversa que seguiu foi pela expectativa do festival, uma reunião de doidões de vários estados acampados para curtir o rock’n’roll. Mas todos iam se deixando dominar pelo sono. O problema era o motorista. Fernanda perguntou. Não, tô bem. Qualquer coisa eu assumo, tô sem sono. Não, tá tranquilo. Marília dormindo, violão no bagageiro, eu mesmo bocejando, Fernando e Sávio conversavam sobre política trocando platitudes do senso comum, não quis intervir, o Átila dá seta. Que foi? Não é nada. E o motorista, depois de estacionado o carro, alcançou no porta luvas um vidrinho e mandou dois tiros no manual do carro. Só pra garantir, e voltou à estrada. Adiante era Volta Redonda, e ia ter polícia, mas apesar da tensão não havia canas na pista. Então eu dormi meio desconfortável mas dormi, acordei com o Sávio parando. Onde é aqui, Fernanda e eu perguntamos ao mesmo tempo. Santa Rita de Jacutinga. Não fode! Não existe esse nome de lugar! Pois existe, aqui. Parece piada. Tem um Passa-Vinte aqui perto. Já tá chegando? Falta ainda um bocado. Sávio queria lavar o para-brisa. No meio da madrugada. Demorou um tempo até que um trabalhador sonolento surgisse para fazer isso por um real. Por um pedaço o Sávio contou vantagem de um monte de coisa duvidosa, os tirinhos tinham batido, ao menos não dormia, e assim seguia o Átila pelo sul de Minas. Eu não dormia, mas quase, pensava na minha vida, sete anos com a Cláudia, e acabou, dez anos de peão na empresa e não acaba nunca. Era a hora perfeita para um pouco de porralouquice. Eu tinha dois ácidos na bagagem, e a ideia era estar fritando no show do Gnomo Azul, já no encerramento, a banda do meu amigo de infância Lelo, que fez o convite, eles tocavam progressivo, e bem. Pensando nisso eu dormi, e sonhei que todas minhas coisas começavam a criar asas e voar, computador, geladeira, tudo, e acordei no banco de passageiro do Átila, olhei para o Sávio, que estava cafungando, e para as moças dormindo, e voltei a dormir. Acordei em São Vicente, com um quebra-mola, a aurora começava a despontar e à frente ia um caminhão onde se lia “rurais”. Pouco adiante havia no acostamento algo totalmente insólito e inesperado: um sujeito um pouco baixo vestido de metaleiro de alto abaixo, jaqueta de couro com tachas, coturno e moicano, segurando um papelão pintado dizendo CARRANCAS. E o Sávio parou. Até as moças acordaram. Após breve deliberação decidiu-se dar carona para o moicano, que entrou após que eu saísse (você se lembra como o banco do passageiro se projetava no Uno). A Fernanda e a Marília ficaram um tempo sem graça com o Zed, ao menos assim ele se apresentou, mas em pouco tempo a conversa era fluida, e quando perceberam de rock já estavam falando em espiritualismo. Ele havia saído do Rio de carona, de manhã, tomado três caronas, e passado a madrugada no vilarejo. Sua mochila adicionada à carga normal prejudicava a visão do motorista, mas adiante foram eles, que mal viam a hora de chegar, enquanto o dia ocupava o céu. Foi quando um estalo se ouviu, e Sávio gritou um palavrão porque já não tinha o controle do acelerador; meteu o pé no freio, e um Fusquinha que vinha atrás buzinou e ultrapassou como pôde. Abrigou-se no acostamento e tentou várias vezes o motor entre muitos merda-merda-merda, enquanto perguntavam o que houve. Deve ser a correia, explicou Sávio. E aí abriu o capô puxando a alavanca e ficamos ele, Zed e eu olhando basbaques para o motor. Sávio foi pedir carona e eu conversei com o punk por um bom tempo, sujeito gente boa, umas ideias bem de esquerda também, e lá se foi e de lá voltou com o socorro Sávio enquanto o casal dormia no carro. Chegamos até Carrancas dentro do carro em cima do guincho, as moças tinham acordado e de repente aquilo tudo era muito divertido. O mecânico ergueu o carro, desmontou o motor e decretou que a correia tinha sido remendada. Mas eu acabei de trocar. Mas puseram uma remendada. Filho da puta. Sávio pagou no cartão, xingando por saber que ia ter que correr atrás depois. Até que o serviço estivesse terminado e a gente pudesse chegar à fazenda, pedindo muitas informações, já era meio dia, estávamos exaustos, o Sávio de olhos esbugalhados. E ainda havia o trabalho de achar um bom lugar e montar as barracas, o que tendo sido feito descansamos um pouco, a meninas foram atrás de banho e Sávio e eu ligamos o fogareiro para preparar o almoço, miojo com atum. Sem que a gente nem percebesse, o punk tinha sumido.

Pra Sempre 4

agosto 24, 2020

Os jardins do seu prédio são os melhores, eu amo hibisco. E minha mãe vende flor, e elogiou também. O seu Maneco cuida com carinho, ele está no prédio há mais tempo que eu. Eu me lembro quando você mudou, a gente tomava banho na piscina com boia. Essa foi minha primeira piscina. Lembra quando a gente fez o pacto de ser amiga para sempre? E pintou o dedo com canetinha pra não ter que furar? claro que lembro. Vem com o biquíni qualquer dia, a gente podia repetir. Eu mesma quase nunca desço, nem me lembro dela. Vanessa, que se manteve atrás enquanto a outra chegou até a borda, de repente empurrou a amiga de uniforme na água e começou a gargalhar. Como saber se a ideia de estragar a conversa indesejável ia pela cabeça dela? Enquanto Rebeca buscava a escadinha para sair da piscina, Vanessa não saiu correndo, esperava para ser perseguida e, ao fim de algum empurra-empurra deixar-se arrastar até a água, assegurando-se de puxar a amiga junto. As duas riam encharcadas um riso com uma nota tensa, e a Rebeca ocorreu: sua louca, piscina depois do almoço é perigoso. Isso é crendice. É nada. Depois de algum silêncio, Rebeca intimou: você quer pegar o Mauro, não é? Fala a verdade. Eu, amiga? Sai pra lá. Você correu pra ajudar ele com o material. Tem nada de mais nisso. Ou você foi ajudar ele porque não queria conversar comigo? Ah, não começa Beca. Vai, vamos tirar essa roupa molhada. E a gente vai entrar assim no elevador? Pingando? Vanessa veio se aproximando e fez que ia beijar Rebeca, que se afastou. Tá maluca, Nessa? Tô começando a ficar com medo de você. Nada, amiga, era de brincadeira. Eu, hein, cada ideia. Já sei, vamos correr em volta da quadra até secar. De sapato encharcado? Tira o sapato, depois a gente busca. E elas correram, descalças, e o clima parecia ameno, mas depois de três voltas pararam. Não tá adiantando muito. Sentaram-se num banco exposto ao sol e ficaram sem falar nada um tempo, olhando-se às vezes. Rebeca estava confusa, sempre gostou dos meninos, mas sua relação com Nessa era de tal companheirismo, ao menos até ontem, que ora, será? Era brincadeira ou era sério? Achou melhor adotar uma superioridade moral e finalmente cobrar a amiga sobre a maconha. Então você fumou mesmo. Com o Arthur. Ai, quer saber, fumei mesmo, Beca. E foi ótimo, quer saber? Você sempre teve a cabeça fraca. Fraca? Cabeça fraca é fazer tudo certinho, bonitinho, como esperam de você. Tem um mundo lá fora, Beca, fora do Auxiliadora, fora do vestibular… E você acha que vai passar em medicina fumando maconha? Ai, miga, que drama. Eu nem fumo o dia todo, eu fumei três vezes nesse ano todo. Então faz todo esse tempo? Que você pega o Arthur e não me conta? Não, sua boba, eu fumei antes do Arthur. Foi com a Laura. A Laura? Ela me contou que viu ele fumando, indignada. Eu acho que ela é afim dele. Amiga, cuidado, isso vai te prejudicar. É só uma planta. Comigo-ninguém-pode também é só uma planta. É mais inofensivo que álcool. Eu não sei, Nessa, você tá mudada. Se chama adolescência, miga, relaxa. Acharam que estavam secas o bastante e rumaram ao bloco, mas perceberam o rastro molhado que deixavam. Rebeca quis talvez mostrar que não era certinha, e começou a tirar o uniforme no corredor, no que foi seguida por Vanessa. Quando o elevador apareceu, havia um coroa com carrinho de compras vindo do subsolo, elas riram e fecharam a porta. Quando ele apareceu de novo estava vazio, e as levou ao décimo terceiro. Em roupas secas, e Vanessa sempre tinha roupas na casa da amiga, postaram-se na varanda e conversaram qualquer bobagem até que Vanessa se despedisse (ela podia voltar andando), sem antes lançar uma ideia: você devia conhecer o Arthur, ele é gente boa.

Apenas pinos

agosto 15, 2020

Nada contra o algoz gozar do guisado, mas pertencer ao portento é tentar pentâmetros, e até mesmo o miasma não amesquinha os canhões sempre que o quiabo banir bananas. Não digo que a gabolice lance o címbalo, isso seria assobiar bacias sábias, mas pelo menos o polo pilha a plêiade e empilha ilhotas, e se a tribuna abona nababos resta saber se o bérbere beberia abóboras. O biombo mesmo se abismou com os cumes, acumulando mulas, e eu digo até o que o gatilho tolhe a toalha. Não opino panos, apenas pinos. Malandra é a salamandra, que assimila milênios antes de cantar contornos. E o arcabouço do beiço é sibilar libélulas, mesmo que o mico cósmico mascare máculas. É como a filha da folha calibrar colibris, pode isso?

Pra Sempre 3

agosto 7, 2020

E o momento chegou em que Vanessa devia ou se render ou andar de ônibus. A sirene soou ao fim da aula de matemática, Rebeca levantou-se e virou-se para olhar a amiga de frente: você vai comigo? Vou, seco, respondeu Nessa, segurando-se ao despeito mas já quase se arrependendo de apostar no confronto. Estendeu a mão direita para a frente, e Beca a capturou com a sua esquerda abrindo um sorriso, retribuído com outro meio sem graça, e a morena não perdeu tempo em conduzir a loira para fora da sala. Nos corredores todo assunto espinhoso foi evitado, Rebeca contava sobre qualquer bobagem que viu na internet, e daí uma banalidade puxou outra. Tiveram ainda que caminhar até a outra quadra, onde estava combinado que o motorista as esperaria, cumprimentaram o Régis, um caboclo do sertão que trabalhava bem vestido, mas não uniformizado, compraram sorvetes na lojinha e entraram no banco de trás do utilitário esporte. Amiga, você é louca, disse Rebeca, de chofre. Vanessa riu, forçado. Uai, qual é o problema? Isso vai chegar nos ouvidos da madre, e você sabe. Que chegue. Você nunca se meteu em encrenca antes, Nessa. Vai começar de novo? Almoça lá em casa, arriscou Rebeca depois de algum silêncio. Ah, não posso. Poxa, Nessa, eu queria conversar com você, numa boa. A gente já não está conversando numa boa? Não seja sonsa. Tá bom, deixa eu ligar pra minha mãe. Sua mãe não almoça em casa hoje, também, esqueceu? Então vou mandar mensagem pra Nádia. Régis, não precisa deixar ela em casa, pode ir direto pro nosso prédio. A tensão foi se dissipando e a conversa ia cá e lá quando Vanessa instigou a curiosidade da amiga: se a madre quiser me suspender eu sei como me defender. Ah, é? E como? O Mauro? De física? Sim, claro. Me passou a maior cantada na sala dos professores. Não! Juro. Aquela hora que você levou os cadernos? Ahã. E o que você fez? Taquei-lhe um tapa. Depois um beijo. E depois outro tapa. Não! Não creio, Nessa. E o que foi que ele disse? Ele puxou conversa sobre o vôlei, e emendou dizendo que adorava ver uma mulher pulando. Pateta. Mas por que você deu um beijo nele? Isso não parece coisa da Vanessa que eu conhecia. Ai, sei lá, Beca, eu sempre fui toda certinha. E agora resolveu até… Shhh. Rebeca pediu ao empregado que jogasse o palito na lixeirinha, e Vanessa aproveitou para fazer o mesmo, e pouco adiante o utilitário esporte passava pela cancela, aberta pelo chip, do prédio de Rebeca, descendo para a garagem. Agradeceram a Régis e tomaram o elevador até o décimo terceiro. Vanessa foi amável com a empregada enquanto Rebeca olhava as mensagens no celular. Tá todo mundo falando do seu beijo no Arthur. Deixa falar. A mãe de Rebeca surgiu na cozinha e cumprimentou a visitante, dali a pouco veio o pai também, e comeram conversando qualquer coisa: saladinha, arroz, feijão, fritas, berinjela, e bife, frango e peixe à sua escolha. Vanessa tinha há muito tempo uma escova de dentes no banheiro da amiga, e logo após escovar as duas desceram para passear nos jardins e na piscina, onde teriam a adiada conversa séria.

Apresentar os presuntos

agosto 5, 2020

Eu podia até atar o turco à carta, o provolone nivelaria os veleiros. Mas quando o adendo redunda em dândis, até a paciência dos cipós apetece aos cipriotas. Como não fosse o fagote gótico, ou o recurso ao roque carregado de cágados, e ainda que o precipício peça ao passo o cipreste, a taverna avilta a vitela, e nem o dissabor do bárbaro pode fazer nada. Nem o menor meneio ao magnânimo mínimo ameniza o zênite que atazana a zona. Não bastasse o presépio a apresentar os presuntos, o prior prioriza as unhas, e já ninguém liga se o lugar se aluga logo ou as léguas alaguem. Será um pavê de pavão, ou o pavio da privada? De qualquer forma a fórmica afirma a metamorfose afásica da física.

Estamos funcionando

agosto 1, 2020

Em algum lugar das vastidões do Brasil central, o motorista que prestar atenção verá, entre as touceiras de mato alto, o que dá pra chamar de ruínas de um posto de gasolina. Metade do teto segue preso no alto da armação metálica, metade sucumbiu sob o próprio peso. Duas paredes permanecem de pé, paralelas e desconectadas de qualquer outra estrutura, tampouco encimadas de um teto. Numas das paredes, lê-se: Lava Jato. Na outra, Estamos Funcionando. É tudo muito rápido, quando se vê, já passou. Se é que se vê.

Pois eu fico imaginando quando daqui a milhares de anos o ser humano estará extinto, talvez toda forma de vida desenvolvida esteja extinta, restando apenas algumas espécies unicelulares bem adaptadas à radiação e às toxinas, e pela primeira vez uma espaçonave alienígena venha a aterrissar. Que aterrissasse ali, ao lado daquele posto abandonado, seria impossível? Nem um pouco, é a latitude ideal para uma abordagem. Pois talvez o capitão Qqtz, com seu corpo diminuto e sua cabeça avantajada cobertos pelo traje oxigenado, iluminasse os dizeres na parede, acompanhado do linguista Trrt, que manipulava um computador portátil, no qual estava a base de dados de comunicações interceptadas da Terra, que permitiriam aos visitantes traduzir as inscrições de uma civilização obviamente decaída. Estamos Funcionando. Ele riram. Essa espécie também ri e é sensível a ironia. Quanto a Lava Jato, eles passaram um bom tempo tentando entender.

Araí

julho 30, 2020

Acordei de mau humor. Parecia soterrado na avalanche de já alguns anos de más notícias, pessoais, nacionais e mundiais, uma avalanche que se renovava sempre, uma avalanche de Sísifo. Puto com o mundo e puto comigo mesmo por ficar acompanhando tudo de perto, decidi que não ia ligar o computador. Mandei um SMS ao meu orientador com alguma desculpa: farto de reuniões pela internet, também. Entrei no carro e escolhi um rock pesado da minha juventude, para desopilar. A primeira parte do trajeto era pela orla, o que já fazia bem aos olhos, mas não bastava: eu estava indo para meu refúgio secreto, o Monte Araí. Parei o carro no sítio do Atílio e tive que cumprimentá-lo de longe. Com um cantil pendurado no ombro e um “cigarrinho de artista” no bolso, meti o pé na trilha batida, e a restinga da base do monte foi dando lugar a uma mata cada vez mais densa, enquanto eu ia me sentindo cada vez mais livre. A política vinha à mente sim, mas eu a enxotava, minhas frustrações íntimas agora pareciam um exagero infantil, e minha sede por reconhecimento do meu trabalho intelectual era apenas coitadismo egoísta. O caminho começava a ficar íngreme, e na primeira oportunidade eu parei para tomar água e olhar a cidade e a costa. Poderoso. Subi com mais vigor, cada passo pisava sobre um absurdo diferente, cada pedra escalada me alçava acima da grande toleima humana. Quando atravessava o último trecho de mata que ia sair no promontório de espetacular vista de serra e mar e minúsculas moradias humanas, eu já não rechaçava os pensamentos incômodos, eu os deixava fluir com a extrema clareza de que basta fazer o que está ao meu alcance e ver tudo mais como uma grande ficção, e nada deve me atrapalhar naquilo em que eu acredito, nem eu mesmo, ou sobretudo eu mesmo. Pois bastou chegar ao Mirante do Araí e o que eu vejo? Uma máscara descartável presa num galho de arbusto.

Pra Sempre 2

julho 23, 2020

A costa se projetava sobre o mar num pontal coberto de grama verde e coqueiros, do outro lado de uma avenida de duas pistas bastante movimentada estava a catedral de uma torre só e arquitetura simples, e por fim ao seu lado havia o convento não menos antigo onde funciona hoje o colégio Auxiliadora. Rebeca havia chegado pouco antes das oito, trazida pelo motorista do pai, e se postara no lugar de sempre, na fila mais à direita, terceira carteira; neste instante ela copiava a lição de geografia geral usando três cores diferentes. Foi quando Vanessa entrou pela sala, pedindo perdão à professora, e explicando que sua mãe se atrasou por um imprevisto; Dona Márcia aquiesceu com um gesto, e a garota desengonçada foi buscar uma carteira vazia lá no fundo, em vez de tomar o posto costumeiro atrás da amiga. Os olhos das duas se cruzaram brevemente no caminho, antes que Vanessa retirasse os seus, constrangida. Transcorreram as três aulas antes do intervalo sem que nenhuma das duas pensasse muito naquilo, mas elas sabiam que em algum momento teriam de conversar. Vanessa, no entanto, tentou contornar esse confronto: vendo que o professor de física precisava de auxílio para carregar todos os cadernos de exercícios que os alunos haviam submetido, ela se ofereceu para ajudar, e saiu junto com ele pela porta, conversando animadamente e cheia de sorrisos. Chegando à sala de professores, ela pôs os cadernos no escaninho de Mauro, que ficava junto ao chão, enquanto ele observava seu corpo curvado pra frente. Mais uns minutos de bate-papo e a sala ficou só para os dois, foi quando ele cometeu uma insinuação grosseira (mais que uma cantada) e ela, mais alta que ele, sem pensar um segundo desceu-lhe uma bela bofetada. Ele ficou atordoado e esboçou alguma desculpa esfarrapada. Ela riu, agarrou-o pela cabeça e meteu-lhe um beijo na boca, um selinho apenas, mas exercendo uma pressão tal que era quase uma agressão, e então deu-lhe outro tapa e saiu correndo pela porta, quase trombando com o professor de educação física. Rebeca todo esse tempo encarou a fila da cantina, comprou seu lanche e comeu perto da quadra de esportes, de olho no jogo de vôlei que a amiga não costumava perder. Quando Vanessa surgiu saindo da arcada secular, levantou-se e ficou no caminho. Ela não que viu atrás de si aparecera ninguém menos que Arthur, que estava dando uma piscadela marota na direção da ficante, nem esperava tomar um drible da amiga, que correu a se jogar nos braços dele e dar-lhe um belo beijo, de língua desta vez, lascivo. Vários dos colegas pararam tudo para olhar, as freiras proibiam terminantemente aquele tipo de comportamento, e a própria Rebeca nem sabia como reagir à provocação. Nessa! ela gritou, sem resposta alguma, e se contentou em voltar para a sala, onde tentou se concentrar no aprendiz de mágico da sua leitura por alguns minutos antes da aula de história. Vanessa já estava saltando para dar uma potente cortada quando o bedel apareceu para averiguar a denúncia de indecência. Findo o intervalo, ela ainda mostrou a língua à amiga ao entrar na sala, e fez questão de se sentar atrás dela, no lugar de sempre. Deve ter pensado que o ataque é a melhor defesa, mas sabia estava só adiando o inevitável, e naquele dia, como em todas as quartas-feiras (quando sua mãe visitava os fornecedores), o combinado era voltar pra casa com a amiga de infância e seu motorista.

Bolhinha

julho 23, 2020

Eu mal me lembro da casa onde eu morava antes. Era bem mais apertado, vidro de um lado, vidro do outro, e do outro e do outro, era quase uma prisão. Mas sempre tinha comida, e como eu não conhecia nada diferente estava ótimo. Era uma confusão de barulhos constante, depois de um tempo eu comecei a distinguir o que era um latido agudo de um filhote de cachorro, o miado manhoso de um bichano, a estridência da calopsita. Eu tentava conversar, mas ninguém me ouvia. E tinha os humanos, é claro, uns bichos que andavam em pé, chegavam perto do meu aquário – na época eu nem sabia o que era um aquário – e ficavam olhando, olhando e seguiam adiante. Isso quando não batiam no vidro, o que me deixava desesperado. Um dia um deles, de pele escura, ficou olhando muito tempo, e me mostrava para o humano pequeno, que ele erguia até minha altura; este era um pouco mais claro, e apontava o dedo e esticava a boca pros lados. Depois eu fui entender que aquilo era um sorriso, o humano faz isso quando está feliz e satisfeito; eu sei porque por um tempo eu vi muitos, mas ultimamente estão raros, mas eu já chego lá. A humana de cabelo longo e mão enluvada me tirou de onde eu estava, e pôs meu aquário num outro, opaco e amarronzado, eu não podia ver nada.

Só vi alguma coisa na minha casa nova. Aqui. Minha nova vida. Eu me lembro bem que eles falavam sempre (eu estava já aprendendo os sons dos humanos): minha casa, minha vida. Fui posto ao lado da televisão de tubo (era diferente da que tinha na outra casa, que era grudada na parede), sobre um móvel envelhecido e com uma toalha de crochê colorida no meio. Em pouco tempo lá veio meu novo aquário, grande, espaçoso, com bolhinhas subindo, plantas falsas, e aquilo que eu vim a entender que era um moinho em miniatura. Que liberdade! Lá eu percebi que havia outra humana, mais gordinha que a outra, e com o cabelo tão longo que chegava até a barra da saia, também longa. Eu aprendi com ela a palavra “deus”, que devia ser muito importante, porque ela dizia todo o tempo, mas eu nunca entendi bem o que é. Sei que foi fácil me acostumar, continuava não faltando comida, e eu percebi que a atenção do humano pequeno me fazia bem, seus sorrisos. Eu via que os humanos grandes grudavam boca com boca às vezes, e metiam a boca na face do pequeno; tudo que eu podia fazer era beijar o vidro, pra dizer que gosto deles. Às vezes vinha mais gente, eles ficavam em outra parte da casa, faziam uma barulheira que eu aprendi a gostar, e o humano grande aparecia na sala caminhando com dificuldade, a humana grande brigava com ele, e dizia deus, deus, deus. Mas a maior parte do tempo era tudo tranquilo. Na verdade a esta altura eu já sabia que cada humano tinha uma palavra, também: o humano grande era o Paulo, a humana era a Cecília, e o humano pequeno era o Sílvio. Até eu tinha uma palavra! Na verdade duas, os grandes me chamavam de Peixe, e o pequeno me chamava de Bolhinha. Eu não entendia por que o ar que subia o tempo todo na água e eu tínhamos a mesma palavra, e fiquei assustado no dia em que a Cecília disse que naquele dia iam comer peixe, achei que era meu fim.

Mas eu nunca foi comido, fui é muito bem tratado. É bem verdade que o Sílvio não tinha mais a mesma atenção constante, mas eu me acostumei com isso, também. Um dia a televisão grande foi embora, e apareceu uma das grudadas na parede. Pela mesma época, o Paulo apareceu com uma caixa e entregou ao pequeno, que na verdade estava cada vez maior, ele rasgou a embalagem, e parecia muito feliz; daí em diante ele ficava horas na frente da TV segurando um objeto e fazendo caras e bocas e gestos, entusiasmado. A Cecília ralhava com ele, que fosse estudar, e repetia sempre sobre um tal “enem”, que eu não sei o que é até hoje. De repente uma pessoa nova começou a frequentar a casa, mas ela nunca estava quando a lâmpada estava acesa, ia embora quando a luz natural diminuía e voltava no dia seguinte. Era uma humana escura e magra, sempre de touca na cabeça, e fazia o que a Cecília fazia antes, limpar, arrumar, enquanto esta passava cada vez mais tempo com seu livro na mão, murmurando para si mesma enquanto lia. O Sílvio passava menos tempo vidrado na TV segurando aquele objeto, e cada vez mais com seus próprios livros, vários, ou com um aparelho que se dobra e tem uma tela como a TV. Agora é com a música que ele ouvia que a Cecília implicava; era coisa de bandido pra ela, nunca entendi. Pois um dia houve um grande alvoroço, os grandes abraçavam o pequeno, quer dizer, o Paulo já estava maior que eles, chamavam ele de advogado, que eu não sei o que é, e falavam tantas outras palavras que não conheço, como “federal” ou “cotas”.

A partir daí, o Sílvio não passava o dia em casa, chegava só à noite quando a moça da toca, a Valdete, ia embora. O Paulo, em compensação, parou de passar o dia fora, e ficava em casa, cada vez mais trançando as pernas como ele fazia só às vezes quando tinha música; e a Cecília brigava cada vez mais com ele. As coisas começaram a mudar, e os sorrisos iam escasseando. A máquina que antes fazia barulho lá fora quando Paulo estava saindo ou chegando parou de fazer barulho. A Valdete vinha só de vez em quando limpar e arrumar, e como a esta altura era ela quem cuidava de mim, eu passei a sentir fome, a água estava suja. De frente à TV, o casal gritava enfurecido umas palavras estranhas: lulaladrão ou forapetê, sei lá que é isso, ou mito, mito! estavam transformados os dois. O Paulo estava quase sempre de camisa amarela, e pendurou bandeiras nas paredes, e a foto de um sujeito de cara feia. Um sujeito feio de cara feia. Tudo isso, e mais a fome, agora que eu ganho farelo de milho em vez de ração, me faz ter saudades até do aquário pequeno na minha casa antiga. Mas eu vou ficar bem, eu me preocupo é com eles.