Frio demais para sair nu na rua

setembro 14, 2018

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Estava frio demais para sair nu na rua e os postes submersos disparavam alarmes supersônicos em cada residência abandonada da capital da Disneilândia. Uma sombra geométrica se projetava sobre a praça em chamas, espocando crianças flutuantes. Um tiro se ouviu e o eco pareceu uma gargalhada aos ouvidos do pipoqueiro atômico. As salamandras púrpuras sobre os telhados gelados mal se importaram, e seguiram preparando Miojo. O campanário de um tanque de guerra pulsava como uma bomba-relógio líquida em que todo padre ou percevejo já percebeu um dia o valor de uma mola cíclica. Não obstante, a estante túrgida das turpitudes tântricas jamais obstou ao obstetra trácio trama ou tragédia. A luz escorria pelo bueiro e tornava a se insurgir pela janela apagada, lá onde o telefone nunca toca. Sobre o corpo, margaridas cresciam com caules helicoidais, num resplandecer bizantinamente lúcido. A viatura da padaria estacionou no fundo do rio e os fotófagos brandiam já os espelhos da putrefação pélvica. Não tardou até que o topo de um prédio demolido sinalizasse a falta e a fúria de explicações paulatinas. Os padeiros afastaram os fotófagos, mas a moça da lavanderia simplesmente não aceita cartão de crédito, e não há muito que qualquer hidrante possa fazer. Pouco após o pipoqueiro atômico, aproximou-se a fatalidade de um ninho de mafagafos e a máfia da farofa física. A multidão semântica envolveu válvulas mamíferas como nunca se vira depois, antes que uma soprano sáfica soprasse suplementos plásticos ante um souvenir tórrido. Nunca se explicou a chuva de lesmas que seguiu a cena, ou por que o palhaço tocava clarineta sob a ponte. Mas eu tenho uma margarida helicoidal para provar.

Acaba Mundo LXXVII

setembro 14, 2018

rosinha

Hoje são quinze de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Furacão Maria devasta Porto Rico; Trump aparentemente sabotou a ajuda à ilha para turbinar a agência de imigração, e ainda faz pouco das mortes, estimadas em três mil: “seis a dezoito”. Por aqui, o general da reserva está tão ávido de entrar em campo que já quer escantear o cabeça de chapa e meter um gol contra na já tão combalida ordem institucional: constituição sem constituinte. Uma Polaca (a constituição fascista do Estado Novo). Pelo menos o Ciro está peitando os milicos assanhados, e disse que o outro, da ativa, seria preso num governo dele; como disse ontem, aconteceu exatamente isso no Uruguai. Candidato petista ao governo do Paraná, Dr. Rosinha sofreu atentado a bomba, mas não se feriu. A informação do jornalão dando conta de que é o primeiro atentado a candidato no estado não é bem verdade, porque no Paraná a caravana de Lula foi alvo de tiros. Quanto ao atentado de Minas, divulga-se um estado de saúde gravíssimo da vítima. Já o perpetrador, que já era consenso não bater bem da cachola, foi declarado lúcido e é assistido por um time de quatro advogados. O surgimento dos representantes, contratados, conforme divulgado, por uma igreja de Montes Claros, serviu de combustível para a tese do complô esquerdista contra o candidato e para a tese do complô do candidato simulando todo o episódio. O brucutu fardado que lhe serve de vice (e esclareceu que era o vice desde sempre, apesar de todas conversas de Janaínas e astronautas) disse que essa conversa de facada e vitimização já deu. E eu devia mesmo seguir seu conselho. Mais episódios isolados do “guarda da esquina”: em Campos dos Goytacazes, TRE dá batida em universidade e o padre Júlio Lancelotti, de setenta anos, defensor da população de rua, foi agredido a socos e cuspido pela guarda municipal. Em meio a tudo isso, a esquerda, que até agora não usa a palavra ditadura, está cheia de entusiasmo para o processo eleitoral. É por isso que a minha filosofia política é a do Homem do Subsolo. Acaba mundo!

Acaba Mundo LXXVI

setembro 13, 2018

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Hoje são quatorze de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Fico dando atenção à tal eleição, e deixo de comentar outras coisas importantes. Pouco após o sinistro Moraes fazer pouco do racismo do candidato fascista, a advogada Valéria Lúcia foi algemada em uma sala de audiência após ter acesso ao processo negado, em Duque de Caxias. Valéria diz ter sentido menosprezo no comportamento da juíza leiga. É um caso gritante de racismo institucional, que reflete o clima do país e do mundo. Nos anos noventa pintaram um cenário róseo, segundo o qual tudo estava sendo resolvido de uma forma racional. Fica provado que tinha muita sujeira embaixo do tapete e nós temos agora que lidar com isso. No Uruguai, o comandante das forças Guido Ríos foi preso por criticar uma reforma das pensões. Aqui, os generais já questionam a legitimidade de uma eleição que sabem que perdem, e um deles foi alçado a “assessor especial” do presidente do STF. Eles não precisam, mas acham importante sinalizar a tutela do Estado pelo Exército. Que sentido faz uma eleição assim? Tempo atrás um espião russo desertor e sua filha sofreram um ataque químico na Inglaterra, o caso Skripal. O governo do Reino Unido acusou de imediato a Rússia, aí veio quem defendeu o Putin e disse que a acusação não tinhas provas. Eu só aguardo, não confiando nem num nem noutro lado. A polícia inglesa divulgou dois suspeitos russos, e Putin declara, em paráfrase, “Eu com isso?”, e sugere aos suspeitos procurarem a imprensa. A entrevista deles é bem suspeita, bem como o fato de os passaportes terem números quase iguais. Teriam ido conhecer a catedral de Salisbury. Vejamos como se encaminha mais esta. Tensões diplomáticas e exercícios de guerra é uma mistura perigosa. Acaba mundo!

Acaba Mundo LXXV

setembro 12, 2018

voto

Hoje são treze de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Nestas eleições, que mal deviam ser levadas a sério, um instrumento marcado pelo pragmatismo desapaixonado está sendo debatido, como dificilmente escaparia, no diapasão da irracionalidade. Falo do voto útil. O voto em que as circunstâncias falam mais alto que a preferência, ou seja, trata-se de tentar impedir um resultado indesejado, mais do que expressar sua escolha individual. Não só há uma batalha entre os que rejeitam o voto útil por princípio (ou conveniência) e os que o defendem (por princípio ou conveniência), mas também outra batalha, para decidir quem representa o verdadeiro voto útil contra os fascistas. Os partidários de Ciro mostram os números, e os de Haddad confiam na transferência na reta final. Ocorre que não funciona assim. O voto útil se baseia necessariamente nos cenários expressos nas pesquisas, fundamentalmente as mais próximas da votação. Tampouco é tão simples quanto votar no segundo para prejudicar o primeiro, ou eleger o anti-fulano ideal. Primeiramente, o segundo turno já existe para você exercer um voto pragmático no menor dos males, caso sua opção tenha ficado pelo caminho. Então outra afirmação que circulou, que “voto útil é no segundo turno” é um pouco redundante. Voto útil é no primeiro, é abandonar a convicção para influenciar seja a composição seja a própria existência de um segundo turno. Para mim é mais fácil obviamente exemplificar usando minha própria posição ante a cena atual das eleições presidenciais (e excluindo a possibilidade, nada remota, de novas reviravoltas). Cenários em que voto com a consciência (50): 17 em primeiro e seja 12 ou 13 consolidado em segundo (segundo turno definido). Ou: 17 em primeiro, com 12 e 13 disputando o segundo posto muito adiante do quarto. Ou: 12 e 13 virando pra cima do 17 e sacramentados no segundo turno. Cenários em que voto útil: 13 lidera e 17 disputa vaga no segundo turno com 12 (voto 12), ou igualmente se 12 lidera e 17 disputa com 13 (voto 13). Se o 45 se recupera e chega a disputar acesso ao segundo turno com 12 ou 13, voto contra o 45. Também voto útil se o rumo das pesquisas mostrar que 12 ou 13 têm chance de liquidar a fatura no primeiro turno. Sendo voto em função das circunstâncias, voto útil não existe fora das circunstâncias, não pode ser absoluto. Mas eu ainda acho que estou me importando demais com esse arremedo de democracia quando já se brande o autoritarismo sem pudor ou receio de represália.

Acaba Mundo LXXIV

setembro 12, 2018

piccolo

Hoje são doze de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Orbán da Hungria é advertido pela UE por “valores incompatíveis”, leia-se fascismo. A atriz Ottavia Piccolo foi interpelada pela polícia em Veneza por usar lenço que é um símbolo antifascista. O ministro de interior italiano, Matteo Salvini, líder dos fascistas, está sob investigação, por impedir o desembarque de um barco de imigrantes, e o procurador Luigi Patronaggio acaba de receber uma ameça de morte. Na Alemanha mesmo, em Chemnitz, leste do país, houve um burburinho neonazista por esses dias, e Merkel lançou uma condenação severa. A besta está botando fogo pelas ventas por toda parte. A Rússia, após massivos exercícios no Atlântico, realiza demonstração de força em conjunto com a China envolvendo trezentos mil soldados, e a OTAN “denuncia” iminência de conflito de larga escala. Os anunciados ataques de bandeira falsa com armas químicas na Síria, talvez pelo anúncio, não ocorreram, mas não se descarta uma ação americana para tentar reverter a derrota, ou, como apontou o Pepe Escobar, criar um pântano para prejudicar a Rússia. A Turquia é aliada americana no campo de batalha, mas quer se juntar aos Brics e escantear o dólar como moeda internacional, e esse é mais um campo de batalha global. A única narrativa que amarra todas ou quase todas as complicações do mundo hoje passa pela derrocada do Ocidente e o declínio do poder imperial ianque. A América Latina sofre, como último reduto de influência a ser reconquistado, pelo meio que seja. A Argentina derreteu e tem uma década difícil pela frente. O Brasil vai administrando a guerra cambial, mas passa por um desarranjo intestinal, digo, institucional que não tem data para terminar, um fascista é o favorito do establishment, e a economia real mesmo, das famílias, está um desastre, com a reforma atrapalhista trabalhando, quer dizer, reforma trabalhista atrapalhando. A Venezuela sofre décadas de sabotagem externa, complica-se na corrupção e ineficiência e desrespeita os direitos humanos demasiado para merecer apoio incondicional. A Nicarágua é o mesmo, in a nutshell. O Evo Morales, por mais que eu goste dele e admire o que passou na Bolívia, já busca o décimo primeiro mandato, o que não é lá muito saudável. Ao menos o Plano Atlanta de guerra judicial ainda não atingiu a ele. Quem quiser bancar a Poliana vai lá. O quadro é mais ou menos este.

Meu Decálogo

setembro 11, 2018

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Muito já se debateu sobre os bons e os maus costumes de escritores. Em suas vidas e em sua escrita. Mais de um deles já formulou regras de aplicabilidade geral que supostamente guiariam o ofício ou ao menos evitariam os problemas mais recorrentes. Certamente cada conjunto de princípios reflete a concepção de literatura de quem os propõe. Seria arrogância para um escritor medíocre, como é meu caso, enunciar minhas próprias regras de boa escrita, ou pelo menos seria arrogante aspirar a ser levado a sério. Assim sendo, limito-me a produzir sim meu próprio decálogo, mas dirigido a mim mesmo. Tentarei listar algumas das normas de comportamento, na escrita e na vida, que eu gostaria de impor a mim mesmo, se não fosse tão apegado aos maus hábitos.

  1. O leitor não está na sua cabeça. O mundo não está na sua cabeça. Seja claro e não tenha preguiça de reler, tomar distância e voltar a reler como se fosse o leitor, pobre coitado, exposto a suas caóticas linhas pela primeira vez.
  2. Você conhece muito bem seus lugares comuns. Eu sei que é confortável. Eu sei que flui naturalmente. Esse é o problema. Não é natural, é automático. Não é porque ninguém vai ler seus textos, ou mais de um ao menos, que você pode ficar repetindo o mesmo motivo tantas vezes. Você vai ler adiante e vai se envergonhar.
  3. Quando tiver a impressão que está prosseguindo para se livrar de um fardo, pare. Vai ficar ruim.
  4. O ponto final é seu amigo. Não há a menor necessidade de construir frases quilométricas, e o efeito é de confusão. De propósito nada, não vem com essa conversa. É como dizer que música avantgarde é feita por quem não sabe tocar.
  5. Não beba para escrever. Se tiver que beber, pare ao primeiro soluço. De escrever, é claro.
  6. Manter uma boa postura é uma boa postura. Indica concentração. Dá pra sentir quando o texto está ficando capenga junto com seu autor.
  7. Um fluxo ininterrupto de ideias é uma descarga de adrenalina, um efeito de droga. Sei que você gosta de substâncias psicoativas, mas há um objetivo aqui em mente e não é ficar chapado, é produzir um texto. Pare um pouco, volte um pouco, dê uma chance à deliberação. Principalmente perceba como a internet explodiu sua ortografia, e como longas tiradas levam a períodos abstrusos.
  8. Você percebe e se recusa sempre a admitir que percebeu, quando uma passagem ficou esculpida toscamente, quando mais detalhe é necessário. Descreva o que merece ser descrito, do contrário vai parecer uma criança contando uma história.
  9. Tente ao menos criar personagens que não sejam, absolutamente todos eles, desdobramentos de si mesmo.
  10. Não se apresse a declarar um texto pronto. É uma ansiedade sem nenhum sentido.

 

 

Acaba Mundo LXXIII

setembro 11, 2018

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Hoje são onze de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. São hoje dezessete anos dos atentados do World Trade Center. Outro dia via uma entrevista com Pepe Escobar, um jornalista brasileiro, que dizia que a história nunca vai ser contada direito. Pra mim o mais estranho foi o pavilhão sete, que eles decidiram implodir e implodiram no mesmo dia. Mas teve mais, a identidade dos perpetrantes revelada na mesma hora, com até mesmo uma carteira de identidade supostamente encontrada. Como no caso do atentado ao Pocket, é melhor engolir a explicação oficial e seguir adiante. Onze de setembro foi a data do golpe contra o Allende, no mesmo setenta e três que dá número à coluna de hoje. E no mesmo dia dos aviões se chocando com as torres foi assassinado o Toninho, promissor prefeito petista de Campinas. Eu ainda tinha me envolvido numa confusão que envolvia roubar uma placa da Unicamp e ter meu carro bloqueado pela segurança; foi um dia estranho. Por fim, a data é também o aniversário de morte, o décimo quarto, de minha mãe. Dona Eunice era uma mulher porreta. O comitê de DH da ONU voltou a soltar uma nota, tão inócua quanto a anterior, sobre a candidatura de Lula. Pesquisa divulgada mostra que Bolsonaro não ganhou muitos votos após sofrer o ataque, dois pontos percentuais, e foi sua rejeição na verdade que subiu mais cinco pontos. Ouço comentários de que o acontecimento descrito como atentado é motivo de piada, e já estão vendendo uma faca de brinquedo retrátil como a faca do atentado. O PT ainda enrola para lançar o Andrade e Ciro começa a ter muitas adesões, aparecendo já em segundo. O desempenho dele tem sido bom em debates e entrevistas. Já há quem peça Haddad entrando como vice do Ciro. Mas Haddad cresce bastante também e já embola com Chuchu e Marina (que vem caindo), e os petistas farão questão de sua candidatura. Vamos ver como tudo se acomoda, e se não vai acontecer mais nada espalhafatoso até a votação.

Fogos de Artifício 4

setembro 10, 2018

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O céu começava a escurecer. Como de costume, durante a virada de ano estava em vigor o horário de verão, e o solstício tendo sido há poucos dias, isso significava que havia luz do sol até depois de sete horas, e o relógio dizia mesmo sete e quinze. “A gente tem que voltar”, disse Igor levantando-se, “você tá bem?”. A resposta de Ramon foi deitar sobre o mato: “espera só um pouco”. A onda estava se dissipando, um achava que era melhor voltar para não deixar a família preocupada, e o outro topou ir, meio a contragosto. Mas havia mais um beque pronto, e fazia sentido gastar mais um tempo por ali admirando as aranhas. Conversaram sobre Tássia, e Igor não se decidia se contava de quando quis ficar com ela na pré-adolescência, achou melhor não. Conversaram sobre o irmão dela, que não pôde ir ao encontro de família, e Igor acabou fazendo um inventário de todos os primos para passar o tempo. Bem, era hora de partir. Mas havia uma garrafa plástica com um tanto de chá que havia sobrado. Sem pensar muito, Igor tomou uma metade e passou a outra ao parceiro. A panela e o que restou das frutas foi recolhido, e ao carro rumaram os dois, sendo recebidos novamente pelo Mestre Jonas. Tomaram a estrada no sentido de volta, e Igor quis se certificar de que Ramon estava bem para dirigir, mesmo que a resposta não fosse muito convincente. Comendo uma maçã, ele observava os movimentos do carro em cada curva, e ia ficando mais tranquilo. De repente viram fogos de artifício no céu, enquanto cruzavam a ponte que delimitava os estados. Bem à frente, Igor se deu conta de que só podiam estar errados. Estavam na estrada, já longe de qualquer povoamento, enquanto a cidade em que ficava o rancho era obviamente logo após a ponte. “Não tá errado?”; foi preciso fazer o retorno em plena rodovia, e a segunda dose já começava a fazer efeito, sendo que Igor só torcia pelo melhor; rezaria se religioso fosse. Acharam a entrada da cidade, comentando como a onda estava batendo forte. Ramon tentava achar o caminho para o rancho, mas não conseguia, e os dois zanzavam pela pequena cidade. Passaram por um carro de polícia, trancados de medo, e acharam que era melhor estacionar. Desceram em plena praça sem saber muito o que fazer. Como perguntar pelo rancho, sem endereço ou qualquer referência? Bem, havia um grupo de parentes que estavam alojados em um hotel da cidade. “Palace Hotel”, “Como?”, “Palace Hotel, a gente pergunta pelo hotel e pede ajuda a alguém”. Deram de frente com duas mulheres, uma idosa e a outra jovem: “Por favor”. Igor fez o melhor para formular a pergunta, mas quando a senhora começou a responder, sua cabeça entrou num turbilhão psicodélico de imagens cambiantes, e ao fim de sua fala nenhum dos dois certamente já se lembrava do começo, então o melhor foi agradecer e fingir que havia sido de ajuda. Foi Ramon quem reconheceu primeiro: “A gente não devia ter tomado o restinho”. Havia um bar por perto, e ocorreu a Igor, até porque não tinha outro plano de ação em vista, sentar e comer alguma coisa: “Talvez comer vai fazer passar a onda”. Pediram uma cerveja, Ramon não quis comer, mas o outro caiu com volúpia sobre um quibe, na esperança de que acionar o estômago ia aliviar a viagem que ia lá no alto. Obviamente não ajudou muito, e os dois seguiam perdidos. Então andaram à pé na rua que beirava o rio até que Ramon viu a entrada que havia perdido, e voltaram ao carro entusiasmados. De fato, era ali que era preciso virar, mas ficava meio escondido à noite, mesmo. Eles preferiram desligar o som nesta etapa, e bastaram uns dois minutos para atingir a meta, tão dificultosa quanto parecia. Ramon foi diretamente atrás de sua namorada, mas Igor teve de se entender com os pais, que andavam preocupadíssimos: sua mãe estava em lágrimas. Ele se olhou no espelho e as pupilas estavam quase do tamanho das íris. Passava de dez horas e faltava pouco para a contagem regressiva para mais um ano.

Acaba Mundo LXXII

setembro 10, 2018

Renato-Almeida

Hoje são dez de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Após um policial intimidar candidata do Psol, negra, na barca do Rio, a guarda municipal de Curitiba atira com munição de borracha em candidato do PT, negro, e o leva preso. Serão Talíria e Renato vítimas do “guarda da esquina”, sobre o qual advertiu Pedro Aleixo ao romper com o regime quando do AI-5? Ou haverá uma instrução disseminada entre as forças policiais de intimidar a esquerda sempre que possível, de mãos dadas com o tradicional racismo das corporações? Na mesma Curitiba, durante o glorioso desfile de sete de setembro, uma dirigente do acampamento foi presa por gritar Lula Livre. E eu fico encafifado como eu falo quase sozinho quando digo que já é uma ditadura. Se os generais PODEM falar o que falam sem repreensão, com a complacência e mesmo o entusiasmo dos meios de comunicação e seu jornalismo abjeto, sem contar todas as anormalidades institucionais que já se tornaram corriqueiras e não cabe enumerá-las, já estamos sim em plena ditadura, embora a conformação seja diferente do tradicional mando direto militar (já temos claramente uma tutela) e não se conheçam ainda casos de desaparecimento ou tortura políticos (afinal, de sessenta e quatro a sessenta e oito já era ditadura). Não vou pedir pro mundo acabar, porque ele parece que já se decidiu nesse caminho.

Acaba Mundo LXXI

setembro 9, 2018

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Hoje são nove de setembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Generais botando o pau na mesa e dizendo o que eu já sabia mesmo: se quiserem melar eles melam, seja antes ou depois das putativas eleições. O TSE censura qualquer aparição ou menção a Lula na TV e no rádio, o que já era também de imaginar. A dúvida que paira no ar é se o PT formaliza Haddad e Manuela logo ou se insiste em empurrar Lula mais adiante, sob risco de ficar sem candidatura alguma. Meu palpite é que Haddad é anunciado até terça. Parece surgir um contingente, pelo que percebo nos comentários, que pode votar tanto em Haddad quanto em Ciro, dependendo do que digam as pesquisas. Eu votaria em um dos dois em um cenário em que esse voto prejudique Bolsonaro, do contrário vou de Boulos, para garantir nosso pontinho percentual. A Folha já aderiu, como não podia deixar de ser, ao plano Bolso e mandou umas matérias cretinas. Eu tenho genuína curiosidade, ainda que certo receio, de ver como anda a cobertura da Globo. Vai ser bizarro agora que todos os meios tradicionais confluíram na candidatura do fascista. É um legítimo fim do mundo.