Sacrificar fricotes

março 24, 2020

Enquanto a acácia acaricia o círio, a terminação dos néscios prefere acompanhar penhascos e sacrificar fricotes, e nem isso impede o pedestre de recorrer ao córrego. Já passou da hora de catalogar galochas e empinar pepinos para além da lama, em que pese o escárnio da hérnia, ou senão a lanterna do turno outorgará tartarugas gastas. Por mais que a codorna aderne, que o calçamento alce a menta à contumélia do colírio lírico, não adianta antecipar ciprestes se a pasta estúpida se apieda das pedras, não deixando nem um misto de entusiasmo e musgo aos postulantes da peste para que mordam os dormentes. Fazer o que?

Alicates líquidos

março 13, 2020

Como é que a quiáltera atroz traz azia ao azo, se a sessão da súcia aceita a cesta de açucenas? Do jeito que o ajuste externa turnos, mesmo ante antônimos da anomia, mais um pouco e a capacidade dos dados vai esvaziar o azedo e aliciar alicates líquidos. Não que a algaravia avaliasse o aço, e nem é uma questão de apaziguar zigotos ou repetir topetes, mas ao menos os manos mantêm matilhas para além do lamento, e já foi dito antes que a banana anêmica abate os tubos sem bulir nos bólidos. Já que não se pode antecipar patetas tépidos, e também não seria o caso de acusar os casulos, melhor atrair batráquios e contratar os trimestres. Eu seria o primeiro.

Autorama 14

março 7, 2020

A mulher com a camiseta do Hemocentro. Eu me lembro quando minha mãe estava na fila do transplante de fígado, e eu fiz umas filipetas pra pedir doação de sangue aos colegas. Depois os médicos disseram que ela estava boa, tiraram ela da fila e ela bateu as botas do nada; eu ia sair com a Thaís quando recebi o telefonema, o Stevie tava do meu lado. Meu pai disse que tinha uma notícia terrível e eu já pressenti, mas não quis aceitar até que ele disse, ou mesmo depois, perguntei se não dava pra fazer nada. Ele contou que a encontrou morta no banheiro, estava arrumando os cosméticos que tinha comprado; ela sempre foi vaidosa. Onze de setembro de dois mil e quatro. Eu mesmo tentei doar sangue duas vezes em Brasília. Na primeira, eu disse os remédios que tomava e fui rejeitado; não há fundamento científico nisso, só preconceito. Na segunda, eu achei um absurdo a pergunta se eu tinha tido relação homossexual e ela até fingiu que não era isso, mas rejeitou. Agora eu não doo nem cuspe. Eu não tive relação homossexual. Sempre tive atração por mulheres, e apaixonamentos irracionais, também. Quando a gente se mudava de Rondônia pro Espírito Santo, eu achei um cara da empresa de mudança bonito, e fiquei me perguntando se era gay. Bem depois, em Brasília, eu estava comprando os materiais pra aquele protesto solo na embaixada americana, confirmado o golpe (nem sei se eu consigo visto se tiver que ir lá), e fui atendido por um cara que me impactou. Tipo, não é dizer que “aquele cara é boa pinta” como dizemos os héteros, como uma concessão, a visão dele despejou adrenalina no meu sangue; acho que foram os olhos amarelados, bonitos mesmo, e meu cérebro se confundiu. Depois eu fiquei pensando nisso mais um tempo, achando que estava prestando atenção nas picas quando via putaria. Todo homem presta atenção nas picas, do contrário os filmes teriam atores com pau de tamanho normal. Mário Gatti. Eu me lembro de descer essa ruazinha ouvindo o Ummagumma do Pink Floyd, foi antes de decidir que o disco é chato mesmo. Eu aprendi a ouvir Floyd na casa dos goianos, tinha um VHS do Live at Pompeii no repertório. Eu dei o Ummagumma ao Alexandre de aniversário, e ele pôs o poster na parede, aquele com os retratos em mise em abîme. Como a embalagem do Pó Royal. Eu tive a chance de ver o Roger Waters, mas eu achava ele muito babaca por se achar dono da banda, processar os outros quando saiu. Talvez tenha sido besteira. Ano passado quase que ele é preso criticando o Bozo. Um dos pontos em que eu sou privilegiado é nos shows que eu vi. Tanto de rock quanto de improvisação; de Soundgarden em noventa e sete, antes da saída do Chris Cornell, que se matou, aquele feladaputa, até Anthony Braxton no Sesc Jazz (ou Jazz na Fábrica?), passando por um tanto de Hermetos. Dois do Rush em São Paulo, um do Pearl Jam no Rio, quando um sujeito me importunou por estar lendo um livro enquanto esperava, foi quando eu reli Crime e Castigo em quinze dias, e ficaram me olhando por seguir cantando Indifference quando o Eddie Vedder esqueceu a letra. Também ficaram me olhando como um alienígena por saber cantar um trecho de In the benefit of Mr. Kite no Paul MacCartney (ele fez questão de tocar umas obscuras do Sgt. Pepper’s, e ainda reclamou porque a plateia não reagia). Eu estava lendo Virginia Woolf, mas ao menos não me questionaram; as pessoas reclamavam do cigarro, então eu acabei vendo o show lá da outra trave, quase, onde o som chegava perceptivelmente atrasado em relação à luz. Eu vi Masada em Sampa e Maratona Masada em Donostia, mas eu estava um lixo. Na véspera tinha sido o Dave Douglas, e eu bebi demais, acordei perdido na cidade, a maré fazia o rio parecer subir, e eu andei no sentido errado… se sentar envolvendo a Karin foi a melhor sensação da vida, essa deve ter sido a pior, ou o dia seguinte. Eu tinha cada ressaca! Hoje eu talvez beba mais, com mais frequência, maconha eu sei que fumo mais, mas tomar porre de trocar as pernas, fazer merda e virar um papel higiênico molhado no outro dia, isso eu não faço mais. Uma vez eu fui parar numa festa na casa de sabe-se lá quem, e eu me afeiçoei muito a um garrafão de vinho barato (eu não tinha muito critério, também). No outro dia eu não era ninguém. Eu tinha que aprender de novo tudo ao redor, e não conseguia, não entendia nada, obliteração existencial completa; eu lembro de estar com minha irmã, e de encontrar o Nilsão, que vendia disco no IFCH, enquanto comia um pastel na eterna kombi do acostamento da Estrada da Rhodia, e cada diálogo era um esforço. Nilsão nem sabia quem eu era quando eu apareci lá tempo atrás; hoje ninguém vende disco nenhum na Unicamp, naquele tempo tinha o Naná no IA, onde eu comprei o Spectrum do Billy Cobham, em CD mesmo. Ou então quando eu fiz a viagem pro Sul de Minas com o Luciano, no dia anterior eu invernei na bebida com ele, a gente foi parar de Barão lá no Parque do Taquaral pra comer um sanduíche, e em algum momento deve ter batido o carro, porque na hora de viajar o radiador estava fervendo, e foi preciso passar numa oficina, o cara disse que foi pancada. Eu não me lembrava de porra nenhuma. Já sei, isso eu não faço mais.

Autorama 13

março 7, 2020

João Jorge. Este era o caminho do SENAI. Era sábado de manhã, um saco, mas mexer nas coisas era até legal. Eu me lembro de fazer merda no torno e levar um esporro. Podia ter perdido o dedo igual o Lula. O Lula perdeu o dedo na estampagem, eu fiz estampagem também, um cinzeiro de folha de flandres, hoje deve ser incorreto ensinar a fazer cinzeiro. No segundo semestre eu descobri um portão aberto nos fundos. É como no hospício do Lago Norte, quando eu achei um portão aberto, mas dessa vez eu não tive coragem de fugir, ia só atrair mais violência. Do SENAI eu fugia sempre, logo que batesse o intervalo, eu e o Dirceu, ìamos à Feira Hippie do Centro de Covivência. Passei com uma nota maior do que a de Oficinas I. O Dirceu estava naquela fita de Puruba. O Dirceu, o Campeão, o Doido, a mulher do Doido, o pai do Doido, e a Alice. Não sei por que eu peguei no pé da Alice, acho que ela era bicho-grilo meio caricata, apenas, e eu perguntava ao Miguel “cadê o gato?”. Pois eu passei uma noite acordado andando por Ubatuba, compondo versos pra Mariana, mas não de amor e sim de escárnio, e de manhã embarquei com a turma rumo à praia de Puruba. Fomos prontamente atacados por uma nuvem de mosquitos, variando dos incômodos aos doloridos, e o povo do Doido dançando capoeira, eu dizia que aquilo não ia resolver nada. O Doido é outro Elétrica nove sete, foi parar na Biologia. Na verdade, Doido é apelido de Doidera, batizado Bruno. Depois eu e o Miguel, que tomamos um doce nesse dia, fomos a uma cachoeira onde estava mais tranquilo; já na hora do almoço, depois de mandar dois pratos eu deitei e dormi, é claro, mas mesmo dormindo eu gritava de dor com as mutucas, e o velhinho da casa ainda me escorraçou de lá. Eu dizia ao Dirceu “quantos palitos, Noel?”; o pessoal do Grotto chamava ele de Noel pelo queixo de nascido a fórceps. Uma hora eu fui fazer um cigarro e parei segurando a seda por dois minutos, viajando, foi uma trip boa essa, ultimamente eu fico muito tenso com ácido. Começou em Lisboa, quando eu pus um inteiro na língua e aí fui pesquisar o Erowid sobre ácido e bipolaridade, e alguém dizia DE JEITO NENHUM, NÃO FAÇA ISSO! Bem, que eu esperava encontrar, encorajamento? Apesar da preocupação, foi uma viagem mágica, vendo o vulcânico duo de John Zorn e Fred Frith ante o verde do jardim do Gulbenkian e sob as luzes vermelhas. Eu ainda vi umas cores girando na vista aberta. Imagina minha mãe lendo isso. Ela me via assistindo The Wall e me abraçava chorando, “nunca fique assim”. Na verdade, eu poderia ter me chamado Leandro, eles só desistiram porque tinha um vizinho maconheiro com esse nome. Não adiantou nada. Eu não me lembro de quase nada dos meus primeiros anos ali na 416. Vagamente de uma festa junina na escolinha, de quando eu saltava no sofá pra ver a rua e quebrei um dente, e, trauma da minha vida, de quando meu pai jogou minha mamadeira por um daqueles tobogãs de lixo que se usava na época, eu acho até que sonhei que descia eu mesmo pelo escorregador nojento. Monstruoso. Nós éramos uma família de classe média baixa então, a julgar pelas fotos, mais tarde quando a gente foi morar num prédio de luxo em Vitória eu tomei um susto. Dos primeiros anos de Porto Velho, também, minhas memórias são difusas; os vizinhos na Buenos Aires, o Cojubim com um riacho no fundo, um clube dos ingleses, relacionado à Madeira-Mamoré, da escola de madeira com pés de cupuaçu em volta, de aprender a música do dia das mães, a rua de terra e os constantes cabos de eletricidade rompidos pelos caminhões de mudança na João Goulart, dos eternos vizinhos colegas do meu pai no Tribunal de Contas, seus filhos sendo a minha patota. O André teve bem mais sorte que eu e mamou até os oito anos; eu me lembro que a gente brincava de rodar na rede, montava um estádio de bloquinhos de madeira nos dias de jogo da seleção, jogava Battletoads no Phantom System, e alguns joguinhos de iniciação sexual envolveram a ele e a outros moleques; havia um jogo de Atari chamado Decathlon, em que para correr era preciso acionar a alavanca com um vigoroso movimento de um lado ao outro, e essa era uma técnica avançada de masturbação, para nós. O irmão dele foi o careta que eu levei pro CB00. Já as irmãs Bia e Dani foram “namoradinhas” minha e do meu irmão, e mais adiante nasceram minha irmã Jessica e irmã delas, a Cíntia. A Jessica era uma fofura quando bebê, e se tornou uma mulher bonita; eu tentei me aproximar da minhha irmã, mas meu universo meio que diverge, manter termos amigáveis está ótimo. Na verdade, quando minha mãe morreu eu já previa que a família ia se desagregar. Eu me lembro da vida na João Goulart, de relativa liberdade, brincar na rua, do pique-esconde, lembro do jogo de peteca (bola de gude era peteca) em que se dizia antes da partida “tudo pé de pato, tudo mela manda”. Acho rico ter vivido em diferentes regiões, e achava um barato o linguajar rondoniense, as interjeições favoritas eram “égua do caba” e “marrapaz”. Houve um episódio de um abusador de meninos na área, e eu passei perto de ser um, fui até a casa dele, que estabelecia uma “brincadeira” em que quem vencesse ele no Combate ganhava o “direito” de ir pro quarto; eu não fui, mas entreabri a porta e vi o filho da puta abusando de um moleque. Depois ele foi pego e minha mãe veio perguntar a respeito; eu menti, com medo de ter feito coisa errada. Sempre com medo. Um dia eu andei de bicicleta para além do limite estabelecido de uma quadra, fui mordido por um cachorro, e estava preocupado é se ia apanhar. Meu pai deixava marca de fivela. Quando eu cresci e ele já não batia eu precisei me acostumar. Nos episódios de mania é comum eu ficar repisando isso, o que é típico da doença, mas não vale a pena. O pior é ver meu irmão reproduzindo esse tipo de autoritarismo. Nós somos uma família extremamente middle-of-the-road, eu mesmo que me acho cosmopolita nunca escapei das minhas origens, mas sei lá, tosco a gente não tem desculpa pra ser. A menos que seja o Bolsonaro, ele é a desculpa pra ser tosco de muita gente. No ano da eleição eu fui ao aniversário do meu sobrinho, todo mundo de camisa da seleção, gente que usou o privilégio pra acessar a universidade pública e depois trabalhar pra uma corporação estrangeira e ainda apoiar a sabotagem da universidade pública. Uma vez eu dei um globo terrestre ao Matheus, ou ele não gostou nem um pouco ou meu irmão jogou fora por ser terraplanista, eu não duvido, engenheiro e tudo. Mas esquece isso.

Autorama 12

fevereiro 26, 2020

Ali é a José Paulino, onde fica a Iluminações. Lá eu retomei meu hábito de comprar discos, foi em dois mil, eu acho. Thick as Brick do Jethro Tull, In-a-Gadda-da-Vida do Iron Butterfly e Exposure do Robert Fripp; tempo depois eu esqueci uns discos na Muda, acabei encontrando, mas o Fripp tinha sumido, era a versão original com os vocais tresloucados em Disengage, o que eu tenho hoje é a versão domesticada, é uma verdadeira lacuna. Iron Butterfly me lembra aquele maluco de Vitória, o Adenilson, essas figuras que a gente tromba na noite, foi ele quem indicou o disco; ele era o rato de vernissage, comia e bebia de graça, um dia eu fui com ele numa no Yazigi. Me mostrou o panfleto da candidatura a vereador. Estes me apoiam: Tim Maia, Karl Marx, Bob Marley e um tanto de gente morta. Saiu no Jô, ele disse, e eu me lembrava mesmo de ver. Foi em nove nove ainda que Fissurinha e eu fizemos a viagem até Cruzília e São Tomé das Letras. Eu gostava do menino, quem morava com ele é que não suportou e mandou ele se picar; aí ele passou a orbitar em torno do Vítor e ficar cada vez mais magro sem fazer exercício, e eu, que já tinha batizado o Rômulo de Fissurinha (desesperado pra comprar maconha quando ainda tinha), acrescentei mais um epíteto, Fissurinha MasterSux (era o aspirador portátil vendido pelo célebre 1406). No fim ele voltou pra Goiânia com medo de si mesmo, eu acho. Essa expressão era outra do Bródi: “eu tenho medo de mim mesmo, se eu der uma joelhada no cara, bródi, o cara morre!”. Mas fomos Fissura e eu até Minas, mesmo destino da viagem maníaca no ano anterior, mas eu ainda fui bem recebido em Cruzília. De lá fomos a São Tomé das Letras, o must-go dos doidões naquela época; a cidade é bem sem graça, a não ser pelas construções todas de pedra, e então nós fomos a uma cachoeira, e outra, e acabamos na Cachoeira da Chuva. Primeiro havia um estágio com uma queda diáfana, daí o nome, e então outro com uma cachoeira mais vigorosa; no primeiro a gente encontrou um grupo de Campinas, eu achei uma moça muito bonita, o jeito que ela olhava chamou atenção, e os olhos translúcidos; nós nos despedimos e seguimos, lá em cima eu perguntei ao Fissura se ele se lembrava do nome dela. Um dia eu estava no Delta Blues, a Meca da tranqueiragem de Campinas e região – eu toquei lá com o Maciel, era o tempo do BlueSmoke, me pagaram cem reais, era uma fortuna pra quem só tocava por farra mesmo – e quem me aparce perguntando se eu não estava aquele dia na cachoeira? A Thaís. Eu não acho que ainda pensasse na Karin, nem acho que era o fato de que ela era louca por mim, a Karin também praticamente se jogou no meu colo. Acontece que eu achava um erro ter passado o primeiro ano apaixonado na outra ponta de mil quilômetros, eu queria ter minha experiência máxima de Unicamp; ela poderia ter sido tão intensa no sexo quanto nas substâncias, é verdade, ou eu poderia ter tido uma namorada todo o tempo, mas enfim. Tive momentos fantásticos nos braços da Thaís, e é isso que importa. Como naquele dia em que eu estava com os pontos no braço, de arrombar minha própria casa, e se não me engano era meu aniversário, no bar perto de onde os goianos estavam morando, no Cambuí, a Thaís me aconchegava e o Piccolo, grande Piccolo, provocava: “Leozinho agora tá feliz”, e tava. Não eram só as íris translúcidas, o formato dos olhos dela era assim um pouquinho diferente, instigante. Ela parecia uma imagem religiosa, esmaltada, de tão branca; os pés dela eram bonitos, uma vez eu comprei um tamanco pra ela, mas eram venulados, o Shakespeare adoraria por certo, ele tem um prazer voyeurístico aparentemente em narrar um estupro e as vênulas azuis de Lucrécia parecem ser um tesão para ele. A Thaís merecia mais de mim, e em ao menos um episódio eu fui nada menos que um babaca. É claro que eu já tinha apagado isso da memória quando ela me jogou na cara, numa das minhas tentativas de reatar o que nunca houve por completo. Foi no semestre que eu lecionei inglês, primeiro de dois mil, talvez eu estivesse um pouco pra cima, mas contido o bastante pra dar conta de trinta e dois créditos; eu não era tão mau aluno, eu só não conseguia parar a cabeça muito tempo num lugar, e isso vale pra tudo na minha vida. Sei que entrei numa onda narcísica, todas aquelas mocinhas me olhando com admiração na escola de inglês; no fim, minhas aulas eram uma merda, primeiro porque eu não fazia planejamento, segundo porque eu funciono dentro do autorama, e acabava esquecendo que era gente do nível mais básico e dizia tudo que eu achava interessante. Então nesse dia ia ter festa da Muda e a Thaís disse que estava indo me ver; ela morava longe, ainda. Depois de ficar um pouco com ela eu dei um sumido, eu me lembro que fiz alguma graça com aquela moça da Matemática, a dos dentinhos separados, a que eu sempre me atrapalhava tentando conversar, e quando enfim eu revi a Thaís ela diz que eu fiquei prestando atenção às outras mulheres de forma descarada e dizendo ainda que ela devia aceitar porque “eu sou homem”. Voilà. Outro episódio desses que eu apaguei da memória foi na UnB; eu tinha tanta reserva com as disciplinas da Pedagogia que fui lá e dei uma patada na Simone do nada, não me lebro do conteúdo. Pra falar a verdade, minha história atribulada com as instituições de ensino dão um capítulo, e desde quando em Porto Velho os idiotas do Ricardo e da Silmara, que tocavam um Pitágoras decadente, me apontaram como a origem de todos os males na escola – e meu pai ficou do lado deles – minha relação é sempre de confronto, exceto talvez no terceiro ano, quando eu bebia com os professores de humanas aos sábados. A Simone me contou depois que tomou por missão conquistar aquele “rebelde”, e conquistou, eu a considero até hoje uma grande amiga, embora a gente tenha contatos fortuitos de internet apenas. Só a inspiração dela para abandonar a carne é que não resistiu ao lanche de pernil do Estadão. Eu ficava fazendo gracinha na aula dela, será vaidade ou hipomania de novo? Uma vez ela contava de uma escola alternativa onde os alunos precisvam aprender a assistir aula careta; e eu disse que estava aprendendo a assistir aula careta só agora. Ela precisou fazer uma careta pra segurar o riso, e esse é um troféu que eu trago guardado comigo.

Autorama 11

fevereiro 25, 2020

Aí foi o médico quem aconselhou a salvar meu curso, minha matrícula tinha sido cancelada ao zerar o segundo semestre. Eu sou cheio de opinião sobre tudo, mas sobre minha vida eu deixo os outros me influenciarem. Entrei com recurso na DAC e me enganei mais uns tantos de anos, sempre ameaçando largar mas desistindo de desistir. Nove nove começou minha vida na Unicamp de fato, eu não estava obcecado nem com a Karin nem com os goianos, que seguiram amigos, e com a adição do Fissurinha, um meninão; comecei a conhecer gente, como o Marcelo, o Ivan e o André do Cursão, o Lucas e o Forma do Grotto… o Forma mora perto de casa, mas a coisa mais difícil é ele atender um telefone. E o irmão dele, que veio depois, o Guilherme ex-Pastel, morou comigo em Brasília e é meu inquilino lá na Vila Planalto. E conheci o Campeão, um grande parceiro até hoje, de viagem, de daime, de cogu, também, de Scrutinizer. O Trujillos e o Stevie eu já conhecia, do tempo de Quindim. Eu comecei a frequentar o CB00, e frequentar, e frequentar, às oito e meia da manhã já na função, e a turma não era pequena. Um dia o Alisson estava me visitando, era vizinho em Porto Velho, duma família paranaense ultra-conservadora, e eu fiz questão de levá-lo ao CB00, para chocar mesmo. Eu pedalava pelo campus ouvindo o Lamb Lives, um bootleg do Genesis, e tocando bateria no ar; o Marcelo diz que ficavam fazendo comentários sobre isso. Pra casa do caralho com essa gente. Um dia eu saí do laboratório de física e estavam o Vítor carioca e o Fissurinha dando risadinha, brincando sobre “cachorro louco”, foi o dia que eu tomei o primeiro ácido, uma meiota, o Marcelo experimentou esse dia, também, eu olhava pra cara dele e via uma cebola. Nós fomos buscar na Moradia com o Robert, tomamos e fomos ao apartamento do Penha, eu acho, isso deve ser dois mil, então, Penha hoje é unicórnio, mas os malditos do Vítor e do Fissurinha ficaram falando o tempo todo de futebol, da forma mais infantil, e eu não aguentava mais. Eu me lembro de olhar pra parede do prédio oposto e ver um plano se destacar, como uma “quinta dimensão”, mais tarde eu ia pirar nessa quinta dimensão. Quantos ácidos eu tomei? Não foram muitos, esse com o Bogó em São Chico, no Zorn/Frith em Lisboa, em Puruba, naquela viagem da Bahia você se deixou tapear e o Campeão dividiu o dele em três, não deu muita coisa, naquela festa do Guará não deu nada, ou quando você tomou em meio à bebedeira e também não bateu, com o Pedro eu tomei mais algumas vezes, lá em casa no condomínio, foi a última aventura desse tipo do Marcelo, foi quando eu vi a tela do Windows turbilhonando, o dia em que eu voltei da viagem malfadada a Ilha Bela, ou o dia em que a gente foi à Fazenda Rio das Pedras; hoje deve ter câmera por toda parte ali. Não foi mais que uma dúzia, talvez eu tenha tomado mais cogumelo do que ácido. Lá vem o cento e dezessete, finalmente. Eu me lembro quando fui à casa do Pedro do IEL, acho que o conheci aquele dia, até, e surgiu o assunto de cogumelo. Ele foi à cozinha e voltou com um potinho desses infantis, de plástico amarelo suado de sair do congelador, com uma fita de esparadrapo e umas letras de forma de BIC azul dizendo CUIDADO, CHÁ DE COGUMELO. Senhor, este vai pro Campinas Shopping? Não, Campinas Shopping é o quatro dezesseis, mas ele só tem dois horários. É que me disseram… Esse aqui passa na rodovia, você tem que terminar andando. Não, tá ótimo, obrigado. Sujeito complicado. Eu já perdi a integração, só pela cagadinha? Que sacanagem. O Pedro disse que não ia tomar, então eu aceitei e chamei o Fers e o Serjones pra tomar nos dias seguintes, tomamos lá em casa e caminhamos até a Unicamp. Uma hora a gente estava perto da rua e parou um carro pra pedir informações, logo de quem, era véspera de vestibular e vários pais levavam os pimpolhos pra conhecer o local de prova, sei que ele perguntou pelo Banco Real, pensando certamente no postinho que era logo adiante, mas eu pensei na agência, e comecei a explicar, mas de repente eu estava dizendo “e aí você sai, e sai, e…” Aquele moleque deve ter ido estudar na PUCC. O que mais me marcou foi deitar nos bancos do Teatro de Arena e ver as nuvens bailarem diante de meus olhos, num fractal dinâmico. Um dos dois pirou de voltar pra casa e eu dizia “seu corpo é sua casa”, me achando profundo. Depois eu estabeleci uma média de três viagens de cogu por verão, que é o que os médicos recomendam. Teve aquela vez com o Fers que em Americana, a gente começou a achar um monte, começou a chover, parecia cena de filme, a gente se abraçando, feliz feito pinto no lixo. Também aquela em Brotas, a gente catou em Analândia, e tinha uns que eram mediúnicos, eu sabia que se afastasse o mato ia achar, tinha uma panela de pressão cheia de chá, sobrou um monte, devia ser eu, o Campeão, o Jundiaí e Fernando, e o sol poente espalhava um tom rosado por todo o céu nublado. Depois eu voltei naquele mesmo sítio com a Thaís. Quando a água entrava na barraca e ela estava menstruada. Caramba, a Thaís.

Autorama 10

fevereiro 25, 2020

Quando eu fui a Vitória a primeira vez, adivinha, psicólogo. Eu contei a ele que tinha ido ver a exposição do Dalí no MASP e fumado um no banheiro – foi com o Tuta, o cara que me pôs pilha de aprender batera e tocar na festa da turma em Porto Velho, eu e o Bogó – e ele achou super interessante, garantiu a meus pais que eu só queria explorar a vida, o que é fato. Pra eles não era o bastante, é claro, toca pro psiquiatra; ele era da turma dos Velloso-Lucas, a um tempo políticos no Espírito Santo e foliões célebres do carnaval carioca. O Sérgio mesmo dizia que compunha marchinhas e textos satíricos, devia se acreditar da redação do Pasquim, mas era tudo uma bosta quando ele mostrou. Pra mim ele tava cheiradaço na consulta, e quando eu disse isso em casa foi um escândalo. Voltei a Campinas por mais uns dias. Eu lembro que estava na casa dos goianos me dedicando às atividades regulamentares e o Luciano pediu meu carro emprestado pra fazer boca-de-urna pro tucano José Aníbal, apostando que conseguiria assim uma vaga na Unicamp. Depois, em Brasília, ele conseguiu emprego na companhia de água fazendo campanha pro Arruda. Esse era o nível do cara. Good riddance. Ainda tomei esporro dos pais por ser mole com o amigo folgado (uma das últimas palavras que disse a ele). Mais uma vez, pressão pra voltar. Eu fui até a UFES para ver a Karin, mas nos desencontramos; ao telefone ela insinuou que eu mentia e eu fiquei puto – estava com um pavio milimétrico a esta altura – e disse que queria conversar, mas se ela preferisse acabar com aquela palhaçada… Eu a vi na Ilha do Boi uma última vez; ela disse que não aceitaria que eu terminasse de novo. Detalhe: ela estava grávida de outro cara naquele exato momento. Já depois da internação a mãe dela me contou, num encontro fortuito, e eu me lembro de ir ao MacDonald’s, só porque me remetia a ela – eu não frequentava antes nem nunca mais voltei a frequentar – e lá ouvir da atendente “olha aí o apaixonado”, entre risadinhas, só entendi quando vi a Karin com um barrigão. Pela mesma época eu fui levar um presente no seu aniversário, era o Luther College do Dave Matthews, e lá vem o homem dela chegando. Qual pela mesma época? O aniversário dela foi seis meses depois! Eu não me respeito. A Karin terminou Direito e fez Medicina, pra no fim se dedicar a ser esposa de um turco e se converter ao muçulmanismo; eu ainda mandei algumas mensagens, e por muito tempo sonhei que a gente se reunia e eu dizia que sabia que tudo ia acabar bem. Pela época do rompimento, indicaram aos meus pais o Hospital Espírita de Marília. Eles sempre curtiram essa baboseira; meu pai dizia que é uma “fé raciocinada”, sabe como é, surgiu no positivismo e devia ser tão anacrônico quanto. Eu tentei me interessar algumas vezes, e em depressões pós-mania eu cheguei a frequentar para tomar “passe”, de tão fragilizado eu torcia para que ajudasse, mas aí os caras começam a descrever em detalhes os outros mundos em que vivem os espíritos, estão tendo acesso a um ácido melhor do que os que eu consigo – principalmente o “fantasminha” de Arraial d’Ajuda, qualquer malandro te passa a perna. Me aliciaram para ir até lá, e que podia eu decidir de mim mesmo? Deveria já na época ter aprendido a me afastar da instância de autoridade e cair no mundão, mas em dezessete eu seguia cometendo o mesmo erro, e ouvindo ainda de meu pai que me sequestrava na condição de “chefe de família”; aos trinta e sete, nesse aspecto eu devia mesmo ter me casado. Pegamos a estrada, mas para mim era insuportável ficar parado dentro de um carro, eu tinha que fazer um escândalo pra que parrassem. Quando eu entrei e vi que era um manicômio, eu acusei o engodo deles, que pintavam aquilo quase como uma colônia de férias, e minha irritação me encheu de tanta energia que eu me pendurei de cabeça pra baixo numa viga de madeira. Meu irmão depois disse que ali ele teve certeza que eu era louco mesmo. Pois eu não troco cinquenta normalidades dessa gente pela minha loucura. O que tem demais pro ser humano reconhecer que a bipolaridade existe, que a esquizofrenia existe, em vez de tentar isolar e silenciar? Os remédios que eles te dão não tratam nada, só manietam mente e corpo, buscam um comportamento dócil e não bem estar. O Foucault diz que o encarceramento começou no fim da Idade Média, mas ele não apresenta nenhum contra-exemplo, uma sociedade que agisse de outra forma, só toma a tese como premissa e sai escrevendo centenas de páginas. Havia um pátio interno cercado pelos pequenos quartos com uma porta metálica de correr, e um banheirinho dentro. Metade do pátio era coberta, era onde aconteciam as reuniões, nas quais eu sempre tinha algo a dizer, tanto que o Coronel fazia um sinal para que eu moderasse. Ele não parecia doido, e o nosso palpite, meu e do Mineirinho, era que na clínica ele escapava da cadeia por tráfico. Mineirinho era um moleque mais novo que eu, estava lá pelo pó, e parecia que o efeito tinha se cristalizado nele, porque ele não parava; ele escreveu várias vezes em meu caderno “nunca cheire, sempre fume maconha”, se ao menos eu pudesse encontrá-lo pra dizer que sempre cumpri à risca seu conselho! Tinha o Tonho, que repetia sempre “não admito telefone d’oreia”, eu queria acreditar que era vítima da ditadura; tinha também o Dornelles, que se dizia sobrinho-neto do Getúlio Vargas, mas ele mentia e era infantiloide. Às vezes a gente era liberado para uma área externa, quando se misturava com a “ala do SUS”, taí o privilégio de novo. Lá tinha um cara que dizia ter sido o palhaço Bozo, podia ser, é público que o ator era cocainômano, hoje tem até o filme. Tem sempre uma energia sexual rolando em hospício, também; em todas internações houve ou boato ou fato de algum contato, eu mesmo beijei a Milena na Mansão Vida. Em Marília o Mineirinho pegou meu gravador e conseguiu produzir um diálogo com uma moça da ala feminina dando a entender que eu havia feito sexo com ela; o gravador foi confiscado e eu sofri alguma punição, se não me engano. Quatro dezesseis e um nove dois. Tá demorando.

Autorama 9

fevereiro 24, 2020

Bem, você esqueceu de trazer um livro mas parece que está escrevendo um na cabeça. Depois vai ficar com preguiça de digitar tudo e vai esquecer completamente disso, eu posso apostar. E você publicaria isso, tem certeza? Expondo a vida dos outros? O que eles vão achar? Ora, eu nunca consegui convencer ninguém a ler minhas bobagens mesmo, impossível que vá ser agora que se interessem. Eles vão se interessar justamente pra ver como aparecem. Caralho. Uma vez o Piccolo disse que o PH me escreveu no livro dele, eu nunca li. Mas eu não diria que “qualquer semelhança é mera coincidência”, clichezão da porra. Super agradável andar beirando um canal de merda, o rio canalizado é o símbolo do urbanismo brasileiro. Em Amsterdã você acha lindo. Não enche o saco. A casa dos goianos era onde sempre tinha maconha, videogame e filmes do Tarantino em VHS, eu vi o Lebowsky lá, também, nem entendia o filme, só deixava entrar pelos olhos e ouvidos. Mas para além desses apetites frívolos a gente se interessava por xadrez e Machado de Assis. De tanto dichavar um beque na antologia de contos do Piccolo eu comprei a minha; devia voltar a ela, revisitar Machado é sempre bom. Ao longo do semestre eu fui ficando cada vez mais esquisito, quando eu saí da clínica e o Alexandre disse que eu estava precisando mesmo foi uma decepção, eu jurava que nós éramos a resistência à caretice do mundo. Foi um período de abandono total, deixar-se cair na fruição desenfreada do mundo exterior. Outras crises foram mais internas, ou internéticas. Nessa primeira crise não teve megalomania mística, foi mais uma grande farra. Eu me programei para perceber o mundo como novo; eu jogava muito Mario 64, onde eu ficava explorando o cenário e a própria jogabilidade, que era inacreditável a alguém acostumado ao Mega Drive, então eu saía fazendo a mesma coisa no mundo real, subindo um montinho e me deixando cair de novo, sentindo a gravidade. Eu estava bem lelé a esta altura. Também teve o tempo em que eu colava na empresa júnior da computação e ficava rabiscando o quadro ou empoleirado na placa de concreto. Acho que começou comigo catando um monte de lixo na beira da Estrada da Rhodia, incluindo uma calota de Wolkswagen e um cogumelo, sei lá com que intuito, eu já morava em Barão no segundo semestre, e eu ainda larguei a bicicleta amarrada na cerca pra ser roubada; por essa época eu telefonei pros meus pais às três da manhã, e a partir daí começou a cobrança. Eu me lembro de espalhar revistas de mulher pelada no chão do banheiro e não chegar nunca ao fim do que fui lá fazer, viajando para todos os lados. Minha relação com meu irmão estava péssima, e ele já estava se envolvendo com os pastores americanos, ainda por cima. Eu e o Domingos dificilmente poderíamos ser mais diferentes, eu questiono tudo e ele não consegue ver como qualquer coisa sequer podia ser diferente. O problema é que ele sempre se dispunha a me ridicularizar. Ele costumava ser um bobalhão farrista, hoje é um fanático embrutecido. Com a Karin, também, não estava fácil. Num momento eu decidi que faria o vestibular para Música, ela me deu um esporro, cabeça de velha aquela moça; e eu fiz um grande libelo pela liberdade de chupar boceta e ter o pau chupado. Eu nem sei se eu queria romper ali, mas ela ligou uns dias depois. Então no feriado de doze de outubro estava combinado que eu ia a Vitória, mas eu não fui, fugi para Cruzília, que é a terra do Daniel, lá de Porto Velho, e foi a viagem mais doida da minha vida. Eu entrava em cada lojinha no caminho e tudo era maravilhoso, eu comprei um prendedor de cabelo dos Bananas de Pijamas, que foi a marca registrada da trip; eu estava careca, e usava o adereço nos punhos. Putz, também teve uma quando estava com o Domingos numa loja de utilidades domésticas, eu me encantava de tudo, ou aquela no supermercado, você ficava sentando no alto das pilhas de cadeiras de plástico… Eu comprei uma fita em que o Cid Moreira lia Provérbios, e eu me cagava de rir no ônibus, os outros olhando feio. Outra coisa que eu comprei foi uma câmera muito ruim, eu tirei centenas de fotos e poucas prestaram; a Romilda do bar, onde eu deixei conta sem pagar, mas depois paguei, as mulheres bonitas, um matuto, o Du, o Jefinho… E o Renatão, ele era o único que fumava um. Então um dia houve discoteca, mas o maluco achou por bem subir numa estrutura e ameaçar se jogar, pensando que estava num dos clipes das bandas que ouvia, e não numa cidade do interior conservadora. Isso meio que acabou a balada de todo mundo, e não foi a primeira vez, em Sacramento eu achei o interruptor geral, desliguei e saí correndo, sem mania nem nada. Quando eu saí da boate, passou o Renatão na Brasília e disse “sobe aí”; eu levei a sério, meti o pé na maçaneta e subi no teto, deitado de bruços. Ele partiu, subiu uma travessa e parou mais adiante, quando eu entrei; a última coisa que a gente precisava era atrair atenção da polícia. Quatro dezesseis e um nove dois.

Autorama 8

fevereiro 24, 2020

Sacramento. Sacramento é o nome da cidade do meu pai, lá no Triângulo Mineiro. Terra de gente chucra e racista, a Carolina de Jesus fez bem em se picar de lá. Meus tios, no entanto, são uns amores, pena que todos os primos sejam reaças. O Neto é um milico feladaputa e eu nunca deveria ter estado em sua presença depois daquele dia em que eu fui preso e meu pai o chamou pra “ajudar” e ele me deu um “enquadro” violento. O Webinho é maconheiro e reaça; por muito tempo o baseadinho foi afinidade suficiente, mas hoje… Também, eu me afastei de todos os primos, troco umas mensagens com o Alan amiúde, e só. Prometo há tempo visitar meu tio que tem Parkinson, o Edvaldo – na família da minha mãe todos começam com E – e nunca vou. O Edinaldo é historiador, seria tão bom conversar com ele agora, mas ele mesmo optou por ser recluso. Como eu. As pessoas têm se falado cada vez menos, essa é minha impressão, e têm existido cada vez mais no tal do zape-zape. Eu que não adiro a smartphone enquanto puder; já é como estar fora do mundo, as pessoas te passam um carão só por isso, “como não tem whatsapp?!”; saco. Agora joga a bituca na lixeirinha como um bom menino e parte pra sua função. Puta sem jeito cagar no comércio dos outros. Você não será o primeiro, nem o último. Amigão, faz um xis-salada no capricho? Pronto, eu aproveito e reforço o estômago, também; entrando e saindo, cagar é tão parte do ciclo vital quanto comer, por que comer é cheio de sofisticação e cagar é vergonhoso? Nós ainda temos tabus muito idiotas, não se pode peidar em público, negamos a biologia, isso é tão judaico-cristão. Caralho, não tem papel. E a coisa está apertando. Eu esperava que ninguém nem percebesse, e agora eu vou ter que colocar um letreiro neon na testa “eu só vim cagar”. Companheiro, dá um minuto de sua atenção? Pois não, meu patrão. O banheiro está sem papel. Como? Papel, papel higiêncico. Ah, tá. Ô Cláudia, providência um papel higiênico pro rapaz aqui! Puta que pariu, eu tentando ser discreto e o cara alardeia como se fosse o arauto da cidade. Vai ser difícil tirar o Hamlet da cabeça agora. E vai ser mais difícil quando eu morrer com uma pilha de livros em casa. Um capricho caro. Se eu tivesse um pistolão pra dizer que eu sou bom, eu era bom. Tá sentando na mureta. Ah, muito obrigado, Cláudia. Tá crítica já a coisa. Até que está bem limpinho, podia ser pior. Podia estar chovendo. AAAAAAAAHHHHH! Cagar é muito bom. Lembra da musiquinha? Quando o chato do Delfin a tocou no Ninho do Coruja? Aquelas noites de Muda foram uma das melhores coisas daquele tempo. Só não deu certo misturar o Delfin com o Pedro, lembro dele apartado do Pau do Zefa, escandalizado com um Erasmo Carlos. Mas o pior foi o conflito de horário do Coquetel do Mingus com o escroto do Camilo; se precisar de um alternativo descolado afetado e ególatra, como dizia minha mãe, esse não dá, esse passa. E eu ainda preciso conviver com uma gravação em que ele invade nosso programa pra fazer publicidade do dele – SOKOBAUNO! – grande idiota. Esse papel é meio lixa. Não vai reclamar ainda por cima; é erógeno, limpa direitinho. Sabão ao menos tem. Tá aliviado? Muito. Tá na mão o xis-salada, meu patrão! Ele disse meu patrão ou meu cagão? Eu devo estar ficando doido. Você já é doido. Ah, é. Eu não gosto de ser chamado de patrão, coisa de socialista culpado. Culpado de que, milorde? Eu devia ter pedido um suco de laranja em vez de recorrer a refrigerante; eu lebro que o Marcelo ex-Cabelo, pra mim o verdadeiro capitão do Coquetel, de todos os hábitos que ele abandonou o primeiro foi o refrigerante. Outro com quem eu vou perdendo contato; eu acho que ele me olha meio de cima hoje, porque eu ainda dou um dois, mas eu fui o único da Unicamp que ele chamou pro casamento. Não, Leonardo, você não devia estar casado; quanto a providenciar sexo é com você. Entra no Tinder. Não enche o saco. Já estou dando voltas à cabeça de novo. Cabeça de Autorama. Taí, podia ser esse o título do seu livro, Cabeça de Autorama. E é mesmo um autorama, porque de vez em quando o carrinho sai do trilho e é preciso pôr de volta. Amigo, faz favor. Que ônibus eu tomo pra ir ao Campinas Shopping? Ih, rapaz, ô Cláudia! Explica pro meu patrão aqui como vai pro Campinas Shopping. Tudo bom? Deu quanto? Dezessete e trinta. Então, você pode pegar o quatro dezesseis ou o um nove dois. Mas você não pega neste ponto aqui, você pega no próximo, na Maternidade. Ah, tá, obrigado, Cláudia. Quatro dezesseis e um nove dois.

Reverter o sorvete

fevereiro 23, 2020

O acesso ao açúcar caçoa da caçarola enquanto a terceira à esquerda esquece o cação no circo. Nem se o escafandrista escarafunchasse o funcho enquanto antepõe o pêndulo ao látego a estante atenuaria as narinas a seu talante. Talvez se o sabonete abonasse o sino, ou se a jusante ajudasse o Décio, poderia ser que as palmilhas amealhassem palhaços, por que não? O último arcabouço baço das bacias foi facilmente cimentado no tédio. Melhor seria tentar reverter o sorvete enquanto os equinos não aquecem quibes. De qualquer forma, a norma hermética cutuca catetos caquéticos, de modo que a medalha alheia balbucia bulbos, e não é bom perder de vista que a vertigem tinge os ginetes. O que vier é lucro.