Acaba Mundo XIII

julho 13, 2018

wr

Hoje são treze de julho de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. E a quase soltura de Lula segue reverberando, levando a insanidade de sempre a paroxismos tão ridículos quanto preocupantes. O juiz que concedeu HC vai ser punido com aposentadoria compulsória, e a PGR, que está ganhando proeminência no processo inquisitorial, quer mesmo devassar seus telefonemas, e aparentemente mandou a PF interrogar os parlamentares que peticionaram, além de elogiar Moro, que agiu fora da lei. Se o judiciário não se incomoda com o menor verniz de legalidade, como esperar que uma mídia engajada não se sinta livre para construir uma narrativa sem amparo em códigos, ou mesmo em fatos. Sem falar da eterna Rede Globo, veículo oficial do imperialismo ianque, um site do Estadão, outrora uma sisuda publicação, me sai com uma estranha “notícia” de que Lula tinha plano de fuga caso “escapasse” – curiosamente a fuga incluía um churrasco do MST em Curitiba antes do refúgio em São Bernardo. A fonte? O Noblat, outra besta quadrada que se intitula jornalista. Eu vou votar no meteoro. A PGR a quem me referi é uma sinistra criatura de olhos de gelo, que curiosamente é casada com o diretor da Escolas das Américas, órgão americano de ingerência geopolítica. Eu dirigi para ela quando trabalhava no MP, e tenho uma anedota. Ela entra no carro com outra dondoca, pede que vá ao STJ, desce. Após uma espera longa, ela entra no carro e pergunta meu nome, emendando: “Você tem algum problema na cabeça?” Eu fiquei desconcertado, mas o espírito não me falhou e eu atalhei: “Eu tenho vários, mas prefiro uma conversa mais objetiva. Aconteceu alguma coisa?”. E a bruaca: “Por que você tem que dirigir de chapéu?”. Pois vá a senhora pra casa do chapéu.

Acaba Mundo XII

julho 12, 2018

Social Media Networking Time Management

Hoje são doze de julho de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Eu sigo perdendo tempo demais com redes sociais. Sigo me aborrecendo com certos comportamentos mas sigo voltando. Um desses comportamentos é dedicar um bocado de tempo e dar um tanto de exposição a declarações reprováveis, que faz você só ver o que é ruim e repetidas e repetidas vezes. Outro é o infantilismo, o espírito de gincana macabra, some-se aí o passionalismo que atrapalha o raciocínio, e o que se tem são ilhas de sensatez num oceano de baboseira, por mais uma piada ou outra possa ser boa. Acho que só agora mesmo estamos descobrindo o que é ter uma realidade virtual em paralelo com a física. E não sei se a soma final foi positiva. Mesmo não saindo dessas porcarias. Eu mal comecei esta série e já vi que começo a me repetir. Quer saber, foda-se. Primeiramente porque nunca ninguém vai ler esta merda mesmo. E também porque… Bem, porque ninguém vai ler esta merda é o suficiente. Eu digo por que comecei a escrever esta série. Eu pensei que tempo atrás eu costumava sempre comentar os acontecimentos, e nestes tempos em que os acontecimentos são enormes, bizarros, eu só vinha publicando sonetos fora de qualquer realidade. Então me deixem comentar estes tempos loucos a meu modo e torcer para que sejam um desvio e não só o prenúncio da nova norma. Acaba mundo.

Nomalo zelo

julho 11, 2018

prato

Tlintacinco. Qui, b’gadu. Picadino hoje? Costelãcabô. Tem flangamolho, flangassado, bife, bisteca. Bisteca? Ceveja? Blãma? Agoloplato? Japon gãiô hoje. Nangosta futebol? Eu, non, China. Vinteano. Cachaça? Ele passoaqui e numpagô, safado. Eu voligapaele. É um filãdaputa. Ahã ahã ahã-ahã-ahã-ahã. Q’pimenta? Mais una? Vintetlês cinquenta. Non passa carton. Qui, b’gadu. Picadino? Pabebê? Nomalo zelo? Ele passa tod’ia tomacachaça diz paganamoço, paganamoço, e non amoça. Ãinnn ahã ahã ahã-ahã-ahã-ahã. Filãdaputa. Boatade. Mesa laincima, laincima. Bife? Gualaná Fanta. Nomal? Blasil joga sexta non manhã, sexta. Cachaça? Esse car’ne, bolino car’ne. Q’pimenta? Mais una? Diadjogo pobebê, pobebê dimanhã. Ãinnn. Ele? Elibeb’todjia dimanhã, filãdaputa. Plomoçon China gãiá, ahã ahã ahã-ahã-ahã-ahã. Cafezin? Seu tlintassês. Qui, b’gadu.

Acaba Mundo XI

julho 11, 2018

dino

Hoje são onze de julho de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Ou será que acabou? Porque escolas no país mais rico e poderoso no mundo estão ensinando isto aí, que humanos vestidos no saldão da Macy’s conviviam com dinossauros. Lá também há um parque temático para mostrar uma reconstrução em tamanho natural da Arca de Noé. Um tio crente acredita que os dinossauros foram extintos por não caberem na arca. Pois se nem o meteoro eliminou os humanos, nem o dilúvio, que diabo será que pode acabar com o mundo de uma vez? Enquanto isso a Croácia garantiu a vaga na final contra a França, virando o jogo na prorrogação pra cima da Inglaterra num bom jogo. A França bem que merece, mas eu torço pela Croácia desde 98. E é isso, eu acho. Aqui na terra estão jogando futebol. Eu sempre achei que ele falava do planeta. O que é engraçado porque o destinatário estaria necessariamente fora da Terra, na Lua, em Marte ou algo assim. Aliás, boa alegoria para criticar uma ditadura, esta: falar sobre a Terra como se de outro planeta. Se o mundo não acabar eu escrevo.

Torturando Shakespeare

julho 11, 2018

shake

Romeu e Jaquenetta

BENVOLIO Vamos lá, Romeu. O baile já vai começar.

ROMEU Que me importa baile, Benvolio, se a luz a minha existência se apagou, se Rosalina não me quer?

BENVOLIO Romeu, tá cheio de mulher bonita no baile, mané.

ROMEU Como pode dizer isso, amigo? Como pode ser meu amigo e falar em outra mulher logo agora?

BENVOLIO Romeu, que besteira isso, tem mulher, tem birita grátis no baile. Na casa dos Capuleto. Vamos logo!

ROMEU Eu não saio desta taverna hoje. [Entra a taverneira.] Oh, que luz é essa? É o oriente, e esta moça é o sol!

TAVERNEIRA É o forno de assar porco.

ROMEU Eu beijo a gordura de suas mãos.

TAVERNEIRA A gordura das minhas mãos vai passar pros seus lábios. São dois pence.

ROMEU Pois eu devolvo sua gordura.

Beija-a.

BENVOLIO Taquiospariu…

 

Impasse

BIRON Mas vossa majestade mesmo não pode cumprir essa regra.

REI Como não?

BIRON Pois se vem aí a Princesa da França visitá-lo, e agora?

LONGAVILLE É verdade, e ela tem damas de companhia…

REI Quieto! Você já está pensando em…

DUMAINE Não podemos suspender o juramento por quinze dias?

REI Ora, que espécie de juramento é esse?

BIRON Que elas cubram o rosto.

REI Ela é da família real da França, seu louco, quem pensaria isso?

DUMAINE Vendas, nós podemos usar vendas.

REI Nós estamos aqui para estudar as artes e as ciências, como vocês vão fazer isso vendados? Bobagem.

BIRON Que elas se fantasiem de homens.

DUMAINE Humm.

REI Vocês só falam bobagem.

LONGAVILLE Majestade, com toda humildade eu vos peço que reconsidere. Este é apenas um exemplo de que esta regra é completamente absurda, é impossível passar um ano inteiro sem ver mulheres.

REI Nós juramos. Já sei. Ela e seus acompanhantes vão acampar aqui no pomar, do lado de fora do portão.

BIRON, DUMAINE, LONGAVILLE Nossa, mas que grande ideia!

 

Bom Ano Novo

julho 11, 2018

cubensis

Reuniões de família costumam ser chatas. Mas daquela vez uma prima apareceu com um namorado gente boa, a gente conversou sobre música e não tardou a surgir a ideia de fumar um. Então fomos nós até o pasto batendo papo e elegemos uma árvore para ser nossa base. Mas na hora de acender, quem tinha fogo? Que imprevidência. Teríamos que caminhar até a casa e de volta, mas um incidente mudou tudo. Vimos um cogumelo bem no nosso caminho. Ele não estava vistoso, devia ser de ontem ou até de antes, mas era inconfundível com sua campana amarela e topo amarronzado. O acordo tácito já estava firmado, e a decisão de procurar mais foi verbalizada por mera formalidade.

Era véspera de ano novo, período chuvoso do ano, por isso temporada de cogumelos, mas aquele era um dia de sol, quente mas não demasiado, então foi um prazer percorrer o pasto buscando os fungos mágicos, que não se fizeram se difíceis. Eu achei três na mesma bosta de vaca, com um grande sorriso no rosto. A colheita foi abrigada em minha camiseta e começamos a caminhada de volta. Conversávamos sobre como preparar o chá, o que devia ser feito às escondidas obviamente. A melhor solução era pedir uma panela emprestada ao caseiro e, isso era o mais bacana, fazer um fogo de gravetos.

Despedimo-nos dando qualquer desculpa, e saímos lá pelas três da tarde rumo à psicodelia. Ele estava de carro, e fomos aonde sabíamos haver um lugar tranquilo à beira de um riacho. A região era de transição entre mata atlântica e cerrado, uma espécie de cerrado mais verde e mais denso, bonito naquela época, então estava cumprido um requisito básico de uma boa viagem: um lugar agradável, “locus amoenus” se quiser. A primeira tarefa era obviamente achar gravetos, o que fizemos terminando de fumar o baseado que vinha aceso no carro, aquele que não teve como ser aceso no pasto mas começou toda a história. Quando já era suficiente, voltamos ao riacho e catamos umas pedras, que protegeriam o fogo e sustentariam a panela. Em pouco tempo o fogão estava pronto, e o papel higiênico que levamos com este fim ajudou a fazer o fogo pegar. Esfregávamos as mãos de ansiedade, trocamos um cumprimento e passamos a preparar mais um ou dois baseados enquanto a coordenação ajudava. Ele disse que tinha uma técnica para que o chá rendesse mais, e eu acompanhava. Consistia de por só um pouco de água de cada vez e repetir o processo até que não saísse nada. No fim, tínhamos de fato uma boa quantidade de chá de cogumelo na concentração máxima.

Então lá pelas quatro horas a gente tomou. O sabor era quase agradável, não provocou nenhuma náusea. Eu tomei o bastante, ele tomou o bastante e sobrou mais um tanto, que pusemos numa garrafa de água mineral. Dali adiante a gente passou a passear em volta, pelo riacho, pela vegetação, trocando ideia e esperando os primeiros sinais da onda, quando acenderíamos um dos três beques que haviam sido preparados. Eis que lá vem a sensação febril, a percepção alterada do corpo, a impressão de que vai derreter, é a onda com tudo. Acendemos e ficamos sentados com os pés na água, trocando risadinhas bobas. Bem nessa hora ele encanou que alguém estava mexendo no carro. Puta onda errada, fomos até lá e não havia ninguém. Mas a gente se lembrou das mexericas, que tinham ficado no carro, e voltamos com elas. A intensidade estava aumentando, eu sentia frio, o que não fazia sentido, mas mesmo assim a viagem era ótima, e eu olhava a paisagem em volta com espécies vegetais que eu nunca achara tão interessantes banhadas por uma luz cristalina enquanto massas brancas passeavam no céu de verão. Ele me tira do meu estupor com a ponta acesa, eu nem preciso de maconha no momento, mas fumo. É aí que me lembro das mexericas. Elas são difíceis de descascar, mas só o aroma já entrava na onda como uma informação sensorial amplificada, portas da percepção e tudo. Palavras não chegariam perto da explosão de sabor que foi por na boca um gomo, seu suco se espalhava por toda a língua e até as gengivas tinham papilas gustativas naquele momento mágico. O doce, o azedo, o doce azedo, tanto me entusiasmavam que acabei me lambuzando todo de mexerica. Limpei o rosto com água do riacho, e passei a construir uma barragem de pedras para passar o tempo, enquanto a cabeça ia a mil sobre os acontecimentos da vida, mas numa perspectiva não de crise e questionamento, mas de aceitação e totalidade.

De repente o sol estava descendo. De alaranjado a vermelho a ocre ia o céu no ocidente. Nós dois sentados, observávamos tanto o espetáculo do sol poente quanto o espetáculo das aranhas tecendo sua teia. Aquela espécie tecia teias coletivas, entre duas árvores, cada uma assumia seu posto e inseto que não ficasse esperto caía na teia. Elas iam lá, comiam e voltavam a seu posto. O que decidia de quem era o inseto é um mistério, mas admirar a atividade dos aracnídeos nos absorveu por vários minutos e já escurecia quando decidimos ir embora. Sendo verão, com horário de verão, devia ser perto de oito horas já. Que fazemos com este resto? Bebemos, é claro. E entramos no automóvel para voltar ao rancho onde ocorria a reunião de família.

Bem, o rancho era passando a ponte, e a divisa de estados, mas o que eu me lembro é de atravessar a ponte vendo os fogos de artifícios. Eu sabia que não era meia noite, mas no que prestamos atenção, de repente estávamos dirigindo na estrada em direção ao próximo município, e isso não podia ser. Chegamos à conclusão de estávamos errados, e ele fez o retorno na rodovia louco de cogu. Porque a onda agora estava no auge, e tomar o resto foi certamente má ideia, mas não dava pra desfazer. Entramos na cidade, mas sabemos o caminho do rancho? E mais, deveríamos aparecer assim lá? Não sabíamos o caminho, mas queríamos chegar, e depois de rodar infrutiferamente paramos. Decidi comer, achei que ajudava a passar, um quibe, uma coxinha, essas coisas, tomei cerveja, e a viagem forte, pegando. Eu me lembrei que alguns dos convidados estavam hospedados na cidade, então esse era o melhor palpite. Saímos perguntando pela rua onde ficava o Palace Hotel.

Eu abordei a tia. Palace Hotel. Antes que ela terminasse de falar eu já esquecera o início porque todo seu discurso entrou num turbilhão de ideias e visões e eu não entendi nada do que ela disse. Pensando bem, talvez seja melhor. Mas temos que voltar, já devem ser umas dez e todos estão preocupados. Entramos no carro, dessa vez o erro pareceu óbvio, em em minutos estávamos no rancho, eu me fazendo de sonso dizendo quem nem sentira o tempo passar ou algo parecido. Fui ao banheiro e me olhei no espelho: minhas pupilas estavam maiores que a íris. Minha mãe chorosa pedia que eu nunca mais fizesse aquilo. Tomar a segunda dose foi insensato, mas foi uma boa viagem de cogumelo. E um bom ano novo, eu acho.

Acaba Mundo X

julho 10, 2018

Thai-military

Hoje são dez de julho de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. A copa entrou nas semi-finais com a vitória da França sobre a Bélgica. Os rapazes tailandeses foram resgatados da caverna onde estavam presos, e tiveram que dividir as atenções com um bilionário idiota tentando se promover oferecendo supostas soluções ultra-tecnológicas. Esse cara é perigoso, cultiva paranoia, é um demente com dinheiro pra fazer o que quiser, e já andou lançando carro no espaço a troco de nada. Tem se comentado como os super-ricos  têm se preparado para o “evento”, o grande colapso ambiental-social-civilizacional, para garantir a boa vida. Estamos bem perto disso, mesmo, uma espécie de fim-de-mundo que vai trazer não a cessação de tudo, mas um mundo pós-apocalíptico inabitável. Como diz o Zappa: “it won’t blow up and disapear, it’ll just look ugly for a thousand years”. Será que no fim vão espocar bombas atômicas? Tipo, cansei, vamos tocar o foda-se e ver o que acontece? As tensões geopolíticas são crescentes, e em pouco tempo a questão com a Coreia do Norte vai parecer uma bobagem. Será que acaba? Ou vai que os caras que escreveram a Bíblia sabiam mesmo o que estavam falando e vem aí o juízo final? Bilhões de vivos e mortos, imagina quando vão chamar sua senha! Eu não sei. Talvez alguém um dia isto acabe sendo lido por alguém que não viveu estes dias, e o exercício é mesmo esse, então acompanha comigo: nas farsescas eleições de 2018, em que umas vinte personalidades já propuseram e retiraram sua candidatura (e o favorito foi preso para não vencer), há um certo ultracapitalista completamente tapado, que outro dia reclamou dos “cem anos de socialismo” no Brasil, e acaba de receber para sua campanha uma música de uma ex-celebridade igualmente tapada, um tal Latino, algo na linha de “arrocha com Flávio Rocha”. E o pior é que isso está longe de ser o pior, há coisa muito mais escabrosa. Mas é um índice da indigência intelectual que se tornou “fasshionable” desde o advento de MBL e quetais, grupos financiados de fora para fomentar a indigência mental orgulhosa de ultra direita. Então, acaba ou não acaba?

Acaba Mundo IX

julho 10, 2018

PCC-1

Hoje são nove de julho de dois mil e dezoito e mundo não acabou. O Brasil vive a ressaca do HC abortivo do Lula, lamenta-se ou celebra-se, e segue-se adiante rumo a sabe-se lá. São Paulo tem feriado local, a tal da revolução. Hoje eu soube que Israel está armando neonazis na Ucrânia e que Trump advoga contra a amamentação. Até o Macron na França tá querendo se tornar o tirano da baguete. Um grupo terrorista na África proíbe sacolas plásticas e o PCC no Brasil quer política afirmativa para mulheres. O PCC aplicou a eficiência paulista ao crime organizado, deixando os comandos cariocas no chinelo, e se espalhou até o norte. Se pensarmos que há um elo aparente da organização com o PSDB paulista, que por sua vez tem um elo aparente com o Departamento de Estado gringo, aí temos mesmo vários níveis de banditismo voltados contra nós. Eu nem deveria acrescentar que PCC também tem elo aparente com as igrejas neopentecostais, que a meu ver têm seu elo aparente com o sionismo, deixa isso de lado. Vai levar tempo colar de volta este país. Não dizendo que tenha sido inatacável, mas há uma grande diferença entre uma bicicleta que anda mal e uma bicicleta que não anda. E por que falar mal só das instituições? O povo tá uma merda. Tá uma seleção de não passar da primeira fase. Sei que vão me acusar de vira-lata, de pessimista, mas há números e exemplos mostrando nossa indigência intelectual. Orwell dizia que um povo que não sabe escrever não sabe pensar, e outros vão pensar por ele. É o que acontece hoje. Eu não vou dizer assim que a literatura seria a solução, mas olha, ajudaria bastante. Difícil imaginar todo mundo lendo hoje, quando a vida passa pelo smartphone e há distração constante. Então eu sigo minha insignificante trajetória e o mundo, se quiser, que acabe.

Mais Uma Copa

julho 8, 2018

mars-colony

A ideia foi contestada por muito tempo, mas chegou o dia em que anunciaram oficialmente que a Copa do Mundo de 2118 seria disputada em Marte. Há muito já se praticava o que outrora costumavam chamar esporte bretão no planeta vermelho, e quem já havia tido a experiência garantia que a gravidade artificial era só uma questão de costume, como a grama sintética. Uma expansão da rede hoteleira na colônia terráquea foi necessária, decerto, e as companhias aeroespaciais nunca faturaram tanto.

A delegação do Brasil do Norte partiu de Alcântara, dois meses antes do torneio, para aclimatação, e esperançosa com o dodecacampeonato. Obviamente os brasileiros do sul contestavam essa conta, pois seis desses títulos foram conquistados antes da secessão. Na mesma nave voava ainda a delegação da Nação Andina, indicada como forte candidata ao primeiro título após a unificação, agarrando-se ainda que estava aos títulos conquistados por Argentina, Uruguai e Colômbia. Os Estados Unidos nunca tiveram tradição no esporte, tampouco o Canadá, quando ainda era independente, mas como era a dinastia Musk quem estava financiando em grande parte a aventura, a seleção da América participava como uma espécie de anfitriã, e partiu do Cabo Canaveral pela mesma época. A China, que se tornara uma potência também no futebol e já tinha dois títulos, levava em seus foguetes as seleções do Magreb e da África Ocidental. Em Samara os propulsores lançaram ao espaço as delegações de Eslávia e Europa, apesar das tensões diplomáticas entre os dois países. Assim seria a copa marciana, com oito equipes jogando entre si em dois grupos, seguindo a fase de mata-mata começando já nas semi-finais.

A abertura foi entre Brasil do Norte e Eslávia e o estádio estava lotado com dez mil pessoas, sendo ao menos um terço composto pelos brasileiros mais endinheirados, como sempre. Na Terra, protestava-se contra os gastos no evento, ainda mais com a deterioração das condições de vida que trouxera a exploração de petróleo na Amazônia, mas o espetáculo continua e o Brasil do Norte marca após cobrança de escanteio, aos vinte minutos. As televisões mostravam o jogador flutuando apenas um pouco a mais do que flutuaria na terra, em várias repetições. O primeiro gol da copa de Marte era do Brasil do Norte. No Brasil do Sul o sentimento era de despeito, ainda mais por nunca terem vencido após a separação. As jogadas de contra-ataque pareciam correr em câmera lenta, e numa delas a Eslávia empatou no fim do primeiro tempo. No Brasil do Norte se bebia cerveja de laboratório, e a publicidade promovia uma gama de produtos. Com mais dois gols no segundo tempo, um de falta e outro, bonito, tabelado, o Brasil do Norte garantiu uma boa estreia.

No segundo jogo, o Brasil do Norte meteu uma goleada na África Ocidental, tinha o artilheiro da competição, e começou a entusiasmar até alguns brasileiros do sul, que se rendiam à tradicional amarelinha. Chegou a vez da China, que estava atravessada desde que nos venceu uma final, e era ainda o país mais poderoso do mundo, que todos querem derrotar. Eles saíram na frente e o estádio veio abaixo, mas o Brasil do Norte lutou, e numa invertida linda o lateral mandou a bola certeira para o centro-avante arrematar de voleio. No início do segundo tempo, pênalti para o Brasil, fora do lance, muita reclamação, convertido. No fim da partida a China num contra-ataque rápido voltou a empatar, e assim terminou a partida. Era uma bela classificação para a segunda fase em primeiro do grupo, e o adversário na semi-final seria a vizinha Nação Andina, que também teve uma boa campanha, ficando atrás da Europa apenas nos critérios de desempate.

Um país inteiro parou, ou antes dois, no dia da partida, como se estivessem em outro planeta. E de fato estavam, transportados nos foguetes da esperança até a estrutura de aço onde se disputavam as partidas com atmosfera e gravidade artificial. A zaga da Nação Andina resistiu ao ataque brasileiro até o fim do primeiro tempo, bate-rebate confuso e lá aparece o volante para conferir para a rede. O time do Brasil do Norte foi surpreendido no começo do segundo com dois gols rápidos, de escanteio e de falta. A euforia aqui na Terra passou a apreensão. Depois de muitos minutos de pressão infrutífera, uma bola parada alçada no segundo poste foi cabeceada com precisão pelo alto lateral direito. Estava empatado, e buscando o terceiro quase o time brasileiro toma de contra-ataque. As duas ou três boas chances não foram aproveitadas, e lá vamos nós às cobranças de penalidades (na copa de Marte não haveria prorrogações para preservar os jogadores). O Brasil do Norte perdeu a primeira cobrança, tão alta que teria entrado em órbita, não fosse pelo teto, e o zagueiro fazia gestos para se eximir de culpa e transferi-la às condições artificiais. Mas todas as demais cobranças foram convertidas, enquanto os andinos perderam duas, e o Brasil do Norte se classificou assim para a grande final, na qual enfrentaria a Europa.

Os brasileiros do sul já não escondiam que torciam pelos compatriotas do norte, e mundo afora a camisa amarela, objeto de disputa nos acordos de paz, sempre teve muita simpatia. E em Marte não era diferente. A seleção da Europa, assim como o país, ainda não tinha superado a unificação. Diferentes escolas de diferentes regiões se conflitavam, e era difícil escalar o time sem desagradar às ex-nacionalidades, sendo o mesmo o caso da Nação Andina. Naquela copa, no entanto, o time da Europa surpreendia e estava batendo um bolão, tanto mais porque seu jogo de lançamentos era favorecido pela gravidade ligeiramente menor que a terráquea. Começou o jogo. O Brasil domina a posse de bola e tenta pelos flancos sem sucesso por quinze minutos, e em seguida é a vez de a Europa pressionar. Uma bola mal passada dá um contra-ataque ao Brasil, e o centro-avante fuzila a rede para delírio de milhões de torcedores. A resposta da Europa é fulminante, e dois minutos depois, numa desatenção da zaga, um grandalhão teutônico cabeceia certeiro. O jogo é tenso até o intervalo, e após todos os anúncios dos patrocinadores, recomeça tenso no segundo tempo. De repente o zagueiro brasileiro faz um pênalti completamente desnecessário, e uma multidão fica apreensiva em nosso planeta azul enquanto corre para bater o ex-português que converte com elegância. O Brasil do Norte tem trinta minutos para reverter o placar, e passou a pressionar, obrigar o goleiro a belas defesas, até que empatou, numa antecipação bonita no cruzamento rasteiro. A festa reverberou no estádio, na colônia terráquea e no mundo cá embaixo, mas era ainda um empate, e a Europa reagiu ao gol partindo pro ataque. Foi agora a vez do goleiro brasileiro fazer grandes defesas, levando aparentemente a decisão para a cobrança de penais. Mas o goleiro catalão cometeu um erro na saída de bola, entregando um tremendo presente ao Brasil do Norte, a poucos minutos do encerramento do tempo regulamentar, e estava selado o destino da Copa de Marte. Voltando vitoriosa do planeta vizinho, a seleção conseguiu o feito de reunificar o país. Para a Europa, no entanto, a derrota precipitou sua fragmentação.

Acaba Mundo VIII

julho 8, 2018

Charge2012-justica_apunhalada-700935

Hoje são oito de julho de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Mas passou bem perto, com a guerra entre magistrados pela soltura ou prisão de Lula. A bola está rolando ainda, e se as chances de que prevaleça o habeas corpus são pequenas, ao menos terá distraído um pouco num domingo sem futebol. Um desembargador plantonista acolheu um HC para Lula, Moro e Gerbran (TRF-4), de férias, entraram no circuito como se enquadrassem um insurreto, iniciando uma guerra de decisões que mantém vivos os comentários. Não sendo especialista, achei a argumentação do HC frágil, afinal Lula deve ser solto porque nada se provou contra ele, não por tecnicalidades. De qualquer forma, havia um rito para questionar a decisão que não fosse o rolo compressor de Sérgio Moro e seus superpoderes tão misteriosos. Ele atravessou numa ordem que não o envolvia, desrespeitando o princípio, ademais esquecido faz tempo, que juiz não age de iniciativa própria, mas apenas quando instado, quebrando a hierarquia e tudo mais. Confesso que olho tudo de cima com um sorriso irônico mais do que indignação. A indignação não tem como ficar nos níveis máximos por tanto tempo. A gente vai se acomodando, vai ficando cínico. Sabe que se marcassem protesto, eu nem sei se iria. Respirar gás e depois ser vilificado na cobertura da mídia, sem mudar uma opinião? Como se fosse uma festinha de indignação impotente? A coisa é grande, é estado de exceção e eles não costumam simplesmente pedir perdão pelo inconveniente e sair de cena. Ainda por cima, é difícil apontar os problemas institucionais, porque vão atribuir suas queixas a uma paixão específica, e segue todo mundo entrincheirado com nosso futuro como nação no fogo cruzado. O governo joga contra, sabotando o ensino para garantir mais estupidez. Fala se o mundo não devia acabar?