Os Mansos Herdarão a Terra

“A descrição de um sistema, afinal, é apenas uma maneira de resumir todas as interações passadas com aquele sistema e tentar organizá-las de modo a prever qual pode ser o efeito das interações futuras.”

Carlo Rovelli em A realidade não é o que parece.

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A tragédia grega era, mais que uma forma de arte, uma catarse coletiva. Como naquele tempo ainda não havia psicoterapeutas, ela era usada para sublimar o sofrimento da platéia, já que as personagens no palco sofriam tanto que todos voltavam para suas casas mais tranqüilos. O assunto favorito de tais composições eram os mitos de criação, seja do mundo ou das cidades-estado que compunham a fértil civilização que floresceu na península grega e circunvizinhanças.

Ésquilo foi quem assinou “Prometeu Acorrentado”, trama que teria poucas chances de ser adaptada em Hollywood, para a sorte da memória de Ésquilo e do próprio cinema. Mas antes vamos nos situar um pouco.

O mito de Prometeu aborda a Antropogonia (criação do ser humano) segundo a mitologia grega, que é fundamentada em Homero (Ilíada e Odisséia) e na Teogonia (origem dos deuses) de Hesíodo. A cosmogonia (origem do universo) grega não é antropocêntrica e monoteísta como a judaico-cristã – na qual um só Deus, representante do Bem, cria, no sexto dia, um ser à sua “imagem e semelhança”, mas nada diz – mais do que “No princípio era o Verbo” – sobre o dia zero, ou antes disso. Aquela é bastante rica de símbolos e dotada de uma lógica menos simplista que o maniqueísmo característico desta tradição, que viria a ser imposta de forma brutal mundo afora, dezenas de séculos depois da civilização helênica.

Nela, o universo partiu do Caos Original. Impulsionados pelo Eros (amor) Original, surgiram Érebo (sombra) e a Noite. Da Noite nasceram o Éter e o Dia, ao qual Gaia iluminou, prenhe e enamorada de Érebo.

Gaia dá feição à Terra organizando, de acordo com seus pesos específicos, o Ar, a Terra, a Água o Tártaro – prisão subterrânea – e o Éter (conceito associado a Firmamento, que só foi cientificamente descartado há pouco mais de um século).

Gaia então engendrou as Montanhas, as Ninfas, e também Ponto, de asas agitadas; mas, principalmente, Gaia engendrou Urano (Céu) com suas mesmas proporções, para que a contivesse por todas as partes. Veja: a Terra cria o Céu e não o oposto. Não satisfeita, a vadia se amaziou com o próprio Urano e com ele teve, incestuosamente, lindas crianças de nomes exóticos como Arges, Brontes e Steropes, Briareus, Gies e Cottus. Excêntrico esse Urano: de seus genitais se fez Afrodite, que dispensa apresentações; de seu sangue se fizeram gigantes, ninfas e outros bichos. Sem falar que dessa união nasceram os Titãs. (Não a banda de rock, essa turma mitológica sofria mas não teve que suportar os anos oitenta, pelo menos).

Falo de Jápeto, por exemplo, que conheceu uma linda moça chamada Climene, com quem teve um rebento problemático do qual já falaremos. Dessa geração são ainda Oceano e Tétis, ligadas à água dos mares e rios, Cirus, Ceo e Febo, Mnemosine (símbolo para memória), Hipérion e Tia, Têmis, Réa e Cronos. Este se rebelou contra o pai despótico, Urano, e o destronou. Para evitar cair na mesma armadilha, devorava seus filhos. Mas chegada a vez de Zeus, deram-lhe uma pedra em seu lugar e – adivinhem – Zeus suplantou o pai e implantou a dinastia dos deuses olímpicos.

São eles: Héstia, Hades, Demétrio e Poseidon, além de Hera e do próprio Zeus. Esse casal perfeito, bem sucedido e poderoso (ainda que também incestuoso) não saía da coluna social do Olimpo.

Aqui chegamos ao Prometeu. A etimologia de seu nome pode ser compreendida como “o previdente”, ou como diria o Galvão Bueno, “Eu já Sabia!” Ele era aquele filho esquisito de Jápeto e Climene. O rapaz tinha uma cabeça até boa, mas cheia de pensamentos subversivos. O coitado era um revoltado, tadinho. Mas bem que ele apoiou Zeus em seu coup d´état olímpico. O problema é que depois de assumir, Zeus mudou o discurso: queria criar uma raça para substituir os humanos que Prometeu criara. Ah é, em algum lugar no meio do caminho nós fomos criados. Sentindo-se traído, ele entrou de fininho no Olimpo e zupt! Roubou o fogo que era exclusividade dos deuses, foi lá e entregou aos humanos.

Pronto, fodeu. Zeus não gostou nada daquela travessura. Mandou atar Prometeu a um rochedo no Cáucaso. Estamos falando de uma formação montanhosa entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, na atual fronteira entre Rússia e Geórgia, de onde veio a “raça” caucasiana, que dominaria a Terra eventualmente. Enfim, lá, atado pela mão de Hefesto, Prometeu teria diariamente seu fígado devorado pela águia enviada por Zeus. Mas como ele era imortal, suas vísceras se regeneravam a cada dia para mais uma sessão de tortura que faria inveja aos soldados americanos no Iraque.

Para piorar as coisas, Zeus se juntou a seus colegas olímpicos para criar uma encantadora criatura chamada Pandora, que foi dada a Epemeteu, irmão de Prometeu. Este já havia advertido aquele a desconfiar de tal mimo; mas sabemos do que uma fêmea é capaz. Pandora trouxe consigo uma caixa que, quando aberta, espalhou pelo mundo desconfiança, doença e todos os males. Só deu tempo de aprisionar a esperança.

Em seu sofrimento, Prometeu dialogava com Oceano, que se compadecia do deus acorrentado. Ele a acalmava dizendo que Zeus cairia; e ele tinha o dom da antevisão, não esqueçamos.

Io era uma jovem concupiscível, filha de Ínaco, que atraíra a atenção de Zeus e o ciúme de Hera. Consultados os oráculos, Ínaco a pôs porta afora, contra sua vontade. A moça foi perseguida por um moscardo, vagando mundo afora até encontrar Prometeu, que lhe traçou uma rota e vaticinou que um descendente dela mesma derrotaria Zeus.

Hermes, filho e mensageiro de Zeus ainda tenta arrancar informações a Prometeu, que se mostra irredutível e ainda o trata como um mero serviçal do deus tirano. A trama acaba com uma violenta tempestade conjurada por Zeus para amedrontá-lo.

Mas vamos nos permitir uma pequena digressão. Que fogo era esse afinal que nosso herói roubou do Olimpo? A pólvora? O petróleo? Não! Trata-se de todas as faculdades superiores da mente humana. Criatividade, talento e destreza por exemplo. Mas parece que valorizamos demasiado a técnica. Tanto que um dos principais livros sobre a Revolução Industrial se chama Prometeu Desacorrentado, de David S. Landes. Ora, parece que esse rapaz abriu foi a caixa de Pandora.

Porque hoje as pessoas não têm grilhões, mas se comprometem a estar no rochedo num determinado horário para ser consumido. Alguns, não sendo imortais, perecem ou ficam debilitados pela ação da águia.

Aqueles aquinhoados com dons (inclinações, se preferir) mais sutis têm de enfrentar uma verdadeira batalha para que se possam expressar e sobreviver ao mesmo tempo.

Quem sabe não possamos vivenciar uma nova revolução, e tomar parte nela sobretudo, que nos leve desta sociedade de consumo hiper-acelerada para uma Sociedade da Consciência?

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obs. tendo os textos sendo produzidos de forma independente, haverá alguma redundância.

 

a expulsão do paraíso é supostamente a causa de todos os males

bem, vejamos:

a tradição judaico-cristã, qualquer um minimamente informado em temos de história sabe, deve bastante às tradições anteriores. a região do crescente fértil é o dito berço da civilização – como se houvesse uma espécie de interruptor – por ser onde a forma de escrita mais antiga foi encontrada (será que pesquisaram direito na áfrica) e é claro que os povos lá pras bandas do tigre e do eufrates (pobre pedaço de terra que hoje é um protetorado) não tiraram suas tradições do sovaco, elas vieram de forma oral desde que prendemos a falar… mas a escrita é o que vale, afinal, preto no branco e sem nenhum tom de cinza possível.

enfim, a expulsão do paraíso se dá por termos comido o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, e para evitar que comêssemos da árvore da vida, que conferiria a imortalidade, escolheram eva para culpar – era o patriarcado subjugando o ancestral matriarcado – e depois acrescentaram uma serpente, que seria o inimigo disfarçado, aquele maldito anjo rebelde que, apesar de tão belo e de ter um nome tão bonito quanto “portador da luz”, deve ser temido por todos. o irônico é que você também tem que temer o tira bom. porque você vai ser punido por ele se não for à missa aos domingos comer um biscoitinho saber jesus (100% carne consubstanciada garantida: peça pelo número).

já na mitologia grega, o mito de prometeu aborda basicamente a mesma coisa. ele era um dos titãs (o baterista, acredito) que achou injusto todos animais terem vários dons e os cerumanos serem tão fracos; então foi lá e roubou o fogo dos deuses olímpicos. zeus, além de mandar pandora e sua caixa como um presentinho a epimeteu (irmão de prometeu e primo de quentimeteu), que abriu a caixa donde todos males escaparam – restando apenas a esperança – mandou atar prometeu a um rochedo no cáucaso (donde viria a “etnia” que dominaria o mundo), que teria seu fígado devorado por abutres, regenerado e devorado… ad infinitum. não exatamente, porque ele sabia (seu nome significava “o previdente”) que zeus cairia do cavalo, e ele seria liberto (por héracles). será que já o foi? io esteve com ele, e segue sua rota até hoje, perseguida por um moscardo… mas prometeu tem a firmeza na verdade (satiagraha?) e suportou todo sofrimento, trantando hermes (mensageiro de zeus) com escárnio, como um simples servo.

de que tratará isso? se pensarmos em termos evolucionistas, os hominídio “selvagem” vivia numa boa com a natureza. provar do fruto proibido, ou receber o fogo dos olímpicos, não importa: é desenvolver a capacidade do intelecto. daí em diante, só veio merda: guerra, escravidão, exploração… tudo pra quê? acumular dinheiro, riqueza. o homem é algoz do homem. não só isso, mas a suprema ousadia: éramos sujeitos à natureza e queremos submetê-la.

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 Os hereges da sociedade ocidental são bem expressivos de seus valores, principalmente de seus medos, e podem ajudar a retraçar o que é que parece que escondem de nós.Sejamos breves com Galileo, pela obviedade: um universo que não está em função da Terra não cola com os mitos do gênesis, que esquecemos de ver como mitos, representações simbólicas da realidade, e ora os aceitamos como verdade factual, ora os rechaçamos como pura baboseira.Darwin: ainda mais óbvio, não há como sermos símios falantes se somos a imagem e semelhança de Deus. Interessante o recrudescimento do criacionismo, mais de um século depois da teoria, com tantas evidências como os fósseis e a semelhança genômica com os chipanzés. Lembremos com Hannah Arendt como o processo biológico é negado, escondido, na civilização ocidental, desde a Grécia, e como os povos “primitivos” não só não rejeitavam sua essência animal, mas sacralizavam (e ainda o fazem) toda a natureza que lhes permitia a vida. O homem “civilizado” até hoje se vê destacado da natureza.Freud: na minha humilde opinião de leigo, Freud pagou o preço do pioneirismo, e boa parte de sua teoria é mero chute. Mas a proposição de que a tentativa de suprimir o desejo sexual nos faz doentes é, para mim, central. É mais uma vez a negação de nossa essência animal, uma moral absurda destinada a controlar a sociedade e que não consegue mais que deturpá-la. Coibir o sexo é uma preocupação demográfica: é mais fácil concentrar riqueza se nascerem menos bocas a alimentar.Marx: este alemão disputa com um austríaco o título de personalidade mais detestada no Ocidente. Não fez mais que coligir o pensamento econômico moderno e dar um salto adiante: formulou o conceito de força de trabalho; o trabalho mantenedor do ciclo vital, desprezado desde a Grécia, foi alçado à mais alta categoria: era o que fazia o mundo girar. E como um ser humano é capaz de gerar mais do que necessita para seu sustento, resulta que o trabalho de alguns garante a subsistência de todos e, mais ainda, a acumulação de riqueza, capital. Expôs o mecanismo da injustiça brilhantemente. O socialismo é o único caminho não só para as relações sociais, mas também para a sustentabilidade, por eliminar – cumpridas todas suas promessas – a exploração do homem (e do meio) pelo homem, para o acúmulo de riquezas, elimina o caráter artificial do que chamamos dinheiro, e a cultura envolvida de consumismo. Os fisiocratas estavam certíssimos: riqueza vem da natureza, no mais das vezes, da tração animal empregada até hoje para produzir qualquer coisa: a força de trabalho – físico e intelectual – humana. A mercadoria mais valiosa de todas, e a menos retribuída.Cristo: guardei para o fim. Tomemos por históricas as fontes do evangelho – um risco calculado. Jesus disse, entre outras coisas, que é mais fácil passar um camelo (corda) pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. No meio de uma turma até hoje chegada ao vil metal – e quem quiser me chamar de antissemita fique à vontade, ainda que não seja verdade. A atividade de empréstimo a juros, a usura que o catolicismo condenou, atividade tradicional deles (e boa parte da explicação do ódio de que foram vítimas), é peça fundamental da engrenagem do capitalismo. Uma forma de especulação de risco zero: se ele pagar eu recebo tudo mais um pouco, se não pagar, executo a garantia ou ainda, tenho ao devedor preso a uma obrigação. A atividade bancária foi um corolário e a especulação com papéis sua evolução: continua-se a criar riqueza a partir da riqueza, nada se produz.

Enfim, nem era disso que estava falando: dizia que a mensagem de Cristo é análoga ao socialismo. Nada novo nisso, vide O Evangelho Segundo Mateus, do marxista Pier Paolo Pasolini, e vide a Teologia da Libertação, pela qual Leonardo Boff sofreu a perseguição do cardeal Ratzinger, que nada tem de Bento. Infelizmente o cristianismo que surgira como instrumento de libertação, foi se infiltrando no poder e se converteu (sem trocadilho) em instrumento de dominação.

A Reforma que veio depois foi uma necessidade burguesa: Roma agarrava-se aos farrapos do feudalismo, enquanto os povos do norte europeu já tinham outra mentalidade. Decidiram que não era pecado ficar rico, e sim um indício de predestinação; e ao mesmo tempo, convenientemente – à medida em que se ampliavam os horizontes do assim chamado mundo conhecido – decidiram que alguns não eram eleitos. Católicos e Protestantes saíram para saquear o mundo com a Bíblia debaixo do braço, e as igrejas comiam o seu bocado, abençoavam o dreno de metais preciosos e lucros de atividades agrícolas para a Europa. No sul, essa riqueza fortaleceu uma aristocracia que deu trabalho pra eliminar; no norte, impulsionou a Revolução Industrial. E sabemos até onde ela nos trouxe. Um modo de vida insustentável, exploração em escala global, por uma dúzia de corporações, de recursos e principalmente braços; atmosfera, água, solo, tudo: estamos acabando com nossa fonte de vida para que essa riqueza flua para o Norte, para contas em Paraísos Fiscais. E em pleno século XXI ainda se usa a fé para legitimar agressões bélicas com objetivos econômicos.

Agora, imaginando que uma sociedade socialista global levaria, a partir de hoje e havendo um desejo razoavelmente disseminado, uns cinco séculos para se concretizar, pergunto-me: quem serão os heróis e os mártires desse período? E, mais importante, quem serão os hereges?

 

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Talvez seja mesmo loucura, e então viva. Mas quando eu enlouqueço eu sinto este senso de missão, que se revela no fim banal e redundante, por não trazer nada de novo. Não é preciso fantasma algum sair da tumba para alertar aos humanos que estamos fazendo tudo errado, ignorando o que se dá ante nossos olhos, e que cientistas e artistas igualmente advertem. Que a tecnologia está nos robotizando, ameaçando o melhor de nossa essência e, o que é pior, o próprio substrato onde a nossa – e toda – vida pode se dar. Então, antes que eu saia por aí dizendo (ou mesmo pensando) que sou: seja a segunda vinda de Cristo – tendo o ensinamento a esta figura atribuído, de vida em paz e compartilhamento, sido virado do avesso por seus “representantes” – seja o protagonista de Matrix, cujo roteiro deve ser creditado aos Irmãos Wachoswki e Platão (não eram loucos os que escapavam da Caverna?), e destinado a libertar os humanos de uma ilusão que os obriga a serem sugados pelas máquinas, seja Hércules a libertar Prometeu no Cáucaso, seja ainda o descendente de Io que Prometeu garantiu que destronaria Zeus, vamos tentar escrever um texto minimamente coerente tentando ligar os pontos.

Sobre profecias/mitologias da tradição abraamica eu sei o que circula por aí e nada mais. Mas a ideia de uma divindade criadora una, masculina, e que inspira constante temor de punição, para além da original, aliás, porque já nos expulsara de um paraíso por culpa da fêmea que dera ao primeiro macho, ficando nós condenados a viver com esforço e resignação, a mesma divindade que condenara o mais belo anjo por rebeldia, só pode servir ao patriarcado, à hierarquia e ao autoritarismo, e à exploração do labor humano.

Já quanto ao filme citado, a comparação com os dias de hoje já é lugar comum. A maior parte da informação que circula serve a três propósitos: primeiramente, perpetuar a ideologia que celebra a acumulação, a busca do lucro, naturalizando as disparidades de condição de vida (ó raça decaída da graça) no processo; outro enorme esforço ideológico sataniza (a ironia é intencional) os rebeldes, as ideias que questionam essa máquina de produzir e concentrar renda e poder, e um terceiro despeja torrentes de informação banal ante nossos olhos e ouvidos de modo a que ninguém preste atenção a nada sério, como diz Chomsky e já dizia Huxley. Ou Platão.

No que tange à mitologia grega, sou igualmente um confesso ignorante, mas quem estuda mitologia aponta (basta ver o documentário do Campbell) os pontos em comum que surgem em várias delas sem intercâmbio possível. Se histórias saem de nossos cérebros – sejam ato individual localizado ou coletivo e retransmitidos e continuamente mutáveis ao longo do tempo – e os cérebros dos homo sapiens são a mesma coisa – isso seria apenas o de se esperar, se não crêssemos tanto numa alma individual de caráter sobrenatural, ou mesmo uma mente dotada de uma criatividade peculiar, quando criar é sempre rearranjar elementos introjetados (todo texto não é intertexto?). O monoteísmo ocidental perseguiu sistemas de crenças com maior riqueza simbólica (talvez maior consciência do caráter simbólico), impondo seu simplificado e autoritário esquema cuja fé quanto mais cega for, melhor. Perseguiu também o uso de plantas e fungos que hoje chamamos “enteógenos”, que ajudam nessa percepção de totalidade cósmica de ordem natural.

Se é demonstrável hoje que a origem do humano é evolutiva, o mito de Prometeu roubando o fogo dos olímpicos para dar aos mortais, e também a curiosidade em provar da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, podem ser vistos como simbólicos do desenvolvimento do intelecto humano. Quem negaria nos dias de hoje que tal capacidade teve um poder destrutivo sobre nós mesmos e sobre o meio? Que terminou por ser uma espécie de maldição? Um símio tão inteligente que é estúpido!

Também é ao menos especulado que as sociedades mais antigas eram matriarcais; o traço matriarcal está inscrito em nossas células: a organela chamada mitocôndria armazena material genético de linhagem matrilínea. Basta imaginar que as fêmeas elegiam os machos que aceitariam sexualmente, cuidavam do filhote, e uma sociedade gregária cuidava das crianças; considerações econômicas não determinavam necessidade de contracepção (ou fertilização artificial, imaginem só!), nem considerações de legitimidade e a monogamia não era imposta às fêmeas. A variabilidade genética era maior, e maior ainda com o nomadismo. A instituição do patriarcado foi a perda da Idade de Ouro, a Expulsão do Paraíso, e o germe do capitalismo: concentração de poder e, eventualmente, dinheiro, nas mãos de um chefe de uma família nuclear, e de um grupo pequeno em detrimento da coletividade, e crescente individualismo.

Uma expressão antiga falava em “mundo sublunar”: da Lua para cima, tudo seria imutável, da Lua para baixo, ficava o domínio da Fortuna e sua Roda. Parecemos ainda acreditar nisso, ao menos em parte: a astronomia entende muito melhor a dinâmica dos corpos celestes, pode prever-lhes as rotas com precisão; mas é como se não percebêssemos que talvez também a vida, e mesmo as coisas humanas, façam parte da mesma dança cósmica, não há descontinuidade alguma. Nem do quântico ao newtoniano, nem do terreno ao cósmico. Somos poeira estelar, e todo este universo já foi uma bolha de bilhar. Há uma hipótese segundo a qual o cosmo alterna expansão e contração, e é fato que nem a melhor Física disponível pode calcular o “ponto zero” do Big Bang.

O mistério que estão a esconder de nós é só um: não há mistério. Não há nada sobrenatural. Tudo está inscrito no biológico e no físico. Já foi provado que o tempo não é uma dimensão independente, uma linha reta por onde os eventos “acontecem” em sentido definido, ao sabor do acaso e do livre arbítrio de nós humanos. É uma dimensão imbricada com o espaço num universo quadrimensional, segundo Einstein. Outra proposta da Física Teórica trabalha com um universo pentadimensional, em que a quinta dimensão teria dobrado sobre si mesma na origem do cosmos (que associo a Eros Original e Quintessência); é conhecida como Kaluza-Klein, e provou-se consistente para unificar gravidade e eletromagnetismo (Kaluza) e também compatível com a Física Quântica (Klein). Lembro-me sempre de um comentário de um amigo matemático, segundo o qual na Teoria de Nós o sistema pentadimensional é aquele em que “todos os nós se desfazem”. Talvez uma interpretação poética demais. Seja como for (físico certamente eu não sou), se as três dimensões de espaço são infinitas e existem em toda sua extensão perenemente, não faz sentido que assim aconteça com a dimensão de tempo? Tudo acontece ao mesmo tempo, e navegar do passsado rumo ao futuro talvez seja uma ilusão da nossa percepção. Uma mera projeção no espaço tridimensional. Imaginemos que uma raça alienígena superior domine toda essa matemática: poderia calcular, como calculamos a trajetória de um cometa, cada evento, cada lance de moeda.

Então, se somos manifestações da mesma energia cósmica, e todas as histórias contadas manifestações do mesmo aparato biológico, e a dimensão de tempo não é uma seção de reta direcionada… por que será que profecias não possam fazer sentido? Por que astrologia é necessariamente uma bobagem? Será que o “fim dos tempos” não seria apenas e tão somente compreendermos a natureza do tempo? E daí compreendermos melhor a evolução dos acontecimentos, não com historiografias enviesadas ou no mínimo parciais, não com uma “máquina do tempo” que fisicamente nos transporte a outro ponto, mas olhando nosso material genético e as narrativas que nele mesmo estavam inscritas, talvez? E, quem sabe, abandonarmos todas as ideologias que formam essa imensa Caverna de Platão ou Matrix, Mundo de Ilusão ou Véu de Maya, e reconciliarmo-nos com nossa natureza biológica, recuperando o “paraíso”? Um paraíso anarquista, comunista? Aproveitando o conhecimento acumulado não para o lucro e a opressão, mas para a vida? Qual é o mistério? Se não há mistério algum?

P.S. 1: Não parece crível que o nome Io tenha derivado em Io-vah, Jeová, tendo a instituição do monoteísmo roubado um mito, dispensando todas as outras divindades, sabendo desde muito que era mesmo uma linhagem genética “escolhida” ou fadada a mudar o curso dos acontecimentos encerrando a tirania de Zeus, ou seja, a prevalência de patriarcado, capitalismo, tirania? De fato, as contribuições de pensadores judeus têm sido decisivas para derrubar as mistificações. O livro de Jó, que fala da persistência ante a adversidade e da confiança na promessa de “deus”, não seria apenas o livro de Io (com o gẽnero convenientemente trocado)? E Iesu/Jesus, será que também não deriva de Io? Seria ir longe demais equacionar o moscardo do mito à mutação do DNA mitocondrial que determina a chamada “bipolaridade”? Ou às imagens de sofrimento do personagem de Jesus?

P.S. 2: O universo obedece a uma quiralidade, o que significa, grosso modo, que a translação dos planetas, por exemplo, se dá de acordo com a “regra da mão direita”, a mesma usada em eletromagnetismo. Quir- é um radical que se refere a “mão”, e aparece em “quiromancia” e “quiropraxia”. Um modelo de unificação com tantas dimensões quantos são nossos dedos faz um sentido especial.

P.S. 3: Outra origem a ser investigada do que chamamos capitalismo/imperialismo deve ser o advento de sociedades sedentárias. Aquelas que enterram tesouros. Mentalidade radial, enquanto o nômade segue uma mentalidade linear. Pesquisas com DNA mitocondrial poderão dizer muito sobre o passado justamente porque a mitocôndria é o verdadeiro motor da história.

 

5.

Conversei com um físico, que enviou este fascinante artigo de ciência séria. Trata da proposta de “gravidade quântica” como unificação das forças, e do caráter subjetivo do tempo.

Sobre Tempo e Consciência 

Parece então que Kaluza-Klein é uma proposta insalvável. Ou talvez seja apenas uma “projeção” pentadimensional com dificuldades matemáticas, assim como a mecânica quântica funciona mas intriga dentro da concepção quadrimensional (ainda buscamos unificação com a relatividade geral, afinal). Talvez a proposta decadimensional das supercordas (dupla quiralidade ou anantiomorfia Vêm à mente) seja ela também uma projeção de uma mecânica mais geral, e ainda mais contraintuitiva, a gravitação quântica: a dimensão de tempo é uma ilusão de nossa consciência, e o próprio espaço não é contínuo, mas quantizado. A grandeza de Planck seria o menor espaço possível, a passagem do tempo seria uma ilusão advinda da memória, e as manifestações perceptíveis fruto do “campo quântico covariante”:

“Assim, o espaço não é mais um continente onde as transformações acontecem, mas é ele mesmo constituído por um fluxo constante de transformações emergentes daquilo que a teoria denomina campo quântico covariante.”

A expresão “fluxo constante de transformações” remete a alguém que é citado no artigo: Heráclito de Éfeso, para quem tudo flui, ou “panta rhei”. As implicações da teoria vão além, e aproximam a Física do misticismo oriental exatamente como sugerira Fritjof Capra. Ao lidar com a materialidade da consciência, apontam algo que eu já dizia: se não se pode pensar, se não há consciência sem um aparato biológico, é impossível haver uma alma individual; e eu aprendi lendo Leminski que o pensamento oriental desconhece esse conceito. No Portas da Percepção do Huxley há uma passagem descrevendo como um mestre, ante a insistente pergunta do discípulo sobre o que seria o “dharma corpóreo de Deus”, responde enfim: “a sebe no fundo do jardim”. É uma concepção animista-panteísta. O próprio Einstein, cujas frases sobre Deus gostam de citar fora de contexto, era um deísta, ou seja, seu Deus de certa forma equivalia às leis do cosmos, e não ao tirano intrometido que manda o animal homem fingir que não é animal. O animismo, a interconexão de toda matéria, se conferido rigor científico, torna obsoleta ainda a teoria de Darwin; incompleta ela certamente é, uma vez que há fenômenos difíceis de explicar com mutações “aleatórias”, tal como um animal desenvolver uma camuflagem adaptada a seu meio. Ou plantas que contêm substâncias que alterem a consciência humana de um modo específico, aquelas que foram perseguidas, tal como Hyoscyamus niger, meimendro, a qual, especula-se, talvez fosse o “segredo” do Oráculo de Delfi.

Então eu considero que esta teoria – que não está provada, é claro – pode ser a formulação do que está dito na seção anterior: não há nada sobrenatural, tudo está inscrito no biológico e no físico. O grande segredo que tem sido mantido é que não há segredo algum. Camadas de ideologia nos cegam do mais óbvio: nossa animalidade. Se o amanhã não existe, como já postulara o Renato Russo, profecias como as de Delfi ou do Pentateuco podem ser apenas uma previsão do comportamento do campo quântico covariante. Narrativas refletem nosso aparato biológico, que é só um caso peculiar do aparato físico cósmico/quântico. O gênero Homo foi punido com a própria inteligência, mas conseguiria escapar um dia desta armadilha: é o significado do Mito de Prometeu. Ou ao menos a esperança foi a única coisa que restou dentro da caixa. E se os mansos ainda querem herdar a terra, seria bom tirar logo esta humanidade robotizada desta inacreditável Caverna de Platão em que nos metemos. E mergulhar no Rio de Heráclito.