1996 Hamlet (Texto)

Hamlet (Texto em PDF)

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Hamlet

De William Shakespeare,

A Tragédia de HAMLET, Príncipe da Dinamarca

1.1

Entram Bernardo e Francisco, dois sentinelas.

BERNARDO

Quem vem lá?

FRANCISCO

Não, responde tu: levanta e revela-te!

BERNARDO

Vida longa ao rei!

FRANCISCO

Bernardo?

BERNARDO

Ele!

FRANCISCO

Chegas cuidadosamente na hora.

BERNARDO

Já bateram as doze. Vai pra cama, Francisco.

FRANCISCO

Por este alívio, muito obrigado: faz um frio amargo, e dói-me o coração.

BERNARDO

Tiveste uma guarda tranquila?

FRANCISCO

Nem um rato a se mover.

BERNARDO

Bem, boa noite. Se encontrares Horácio e Marcelo, meus companheiros de vigia, manda-os se apressarem!

Entram Horácio e Marcelo

FRANCISCO

Creio ouvi-los. Alto! Quem vem lá?

HORÁCIO

Amigos deste solo.

MARCELO

E vassalos do Dinamarqês.

FRANCISCO

Tende uma boa-noite.

MARCELO

Oh, até logo bom soldado, quem te rendeu?

FRANCISCO

Bernardo está em meu lugar. Tende uma boa noite.

Sai.

MARCELO

Olá, Bernardo!

BERNARDO

O que, Horácio está aí?

HORÁCIO

Um pedaço dele.

BERNARDO

Bem vindo, Horácio. Bem vindo, bom Marcelo.

HORÁCIO

Então, a tal coisa voltou a aparecer esta noite?

BERNARDO

Eu nada vi.

MARCELO

Horácio diz ser apenas fantasia nossa, e não se deixa dominar pela crença nesta pavorosa visão, duas vezes por nós vista; eu portanto supliquei-lhe que nos acompanhasse para velar os minutos desta noite, para que, se novamente esta aparição vier, ele possa acreditar nossos olhos e falar com ele.

HORÁCIO

Ora ora, não aparecerá.

BERNARDO

Senta-te um pouco, e deixa-nos outra vez investir contra teus ouvidos, tão fortificados que estão contra nosso relato, com aquilo que por duas noites vimos.

HORÁCIO

Bem, sentemo-nos e ouçamos Bernardo falar a respeito.

BERNARDO

De todas as noites, a última, quando aquela mesma estrela a oeste da polar cumprira seu curso para alumiar esta parte do céu onde agora arde, Marcelo e eu, badalava o sino uma…

Entra o Fantasma.

MARCELO

Silêncio, para de falar; olha, lá vem ele de novo!

BERNARDO

Na mesma figura, como o rei morto!

MARCELO

Tu és um acadêmico, fala com ele, Horácio!

BERNARDO

Não se parece com o rei? Repara, Horácio!

HORÁCIO

Parece bastante. E me deixa aflito de medo e pasmo.

BERNARDO

Ele quer que falemos com ele.

MARCELO

Fala com ele, Horácio!

HORÁCIO

O que és tu, que usurpas esta hora noturna, apresentando esta bela e guerreira forma com que sua majestade sepultada Dinamarca outrora marchou? Pelos céus, eu te ordeno, fala!

MARCELO

Ele se ofendeu!

BERNARDO

Vede, ele se afasta!

HORÁCIO

Fica! Fala, Fala! Eu te ordeno que fales!

Sai o Fantasma.

MARCELO

Ele se foi e não responde.

BERNARDO

E agora, Horácio! Tremes e estás pálido: não é isso algo mais que fantasia? Que pensas?

HORÁCIO

Perante meu Deus, eu não poderia crer sem o sensato e vero aval de meus próprios olhos.

MARCELO

Não era ele parecido com o rei?

HORÁCIO

Como tu és contigo mesmo. Aquela mesma armadura ele usava quando o ambicioso Noruega combateu, e o cenho franzia como na vez em que, em inflamado encontro, atacou os Polacos em trenós, sobre o gelo. É estranho!

MARCELO

Assim, já por duas vezes, e justo nesta hora morta, com passo marcial cruzou ele nossa guarda.

HORÁCIO

A que pensamento em particular ater-me eu não sei, mas a inclinação geral de minha opinião é que isso prenuncia alguma estranha erupção em nosso Estado.

MARCELO

Muito bem, agora sentai-vos e conta-me, aquele que souber, por que esta mesma estrita e tão atenta guarda a cada noite cabe aos súditos desta terra, e por que tal forja diária de brônzeos canhões, e buscar no estrangeiro implementos de guerra, por que os estaleiros tanto recrutam, para árdua tarefa que não divide domingo da semana… o que estará por vir, para que esta apressada labuta faça a noite laborar junto com o dia? Quem me pode informar?

HORÁCIO

Isso eu posso. Ao menos, é isto o que circula: nosso último rei, cuja imagem agora mesmo apareceu para nós, foi, como sabes, por Fortimbrás da Noruega, na ocasião tomado de mui ambicioso orgulho, desafiado ao combate, no qual nosso valente Hamlet, que assim era estimado neste lado do mundo conhecido, matou a esse Fortimbrás, que, por um acordo selado, bem ratificado por lei e heráldica, perdeu, além de sua vida, todas aquelas terras que em sua posse estavam, para o conquistador; em contrapartida, empenhou nosso rei um quinhão adequado, que teria acrescido a herança de Fortimbrás, fosse ele vencedor, assim como pelo mesmo tratado, executado o designado artigo, o seu coube a Hamlet. Agora, senhor, o jovem Fortimbrás, de temperamento descontrolado e fogoso, tem, nas fronteiras da Noruega, cá e lá, apanhado um rol de desapossados dedicados, em troca de pasto, a alguma empresa que os possa digerir, que não é outra, como fica para nosso Estado bem evidente, senão retomar de nós, à força, em termos compulsórios, as mencionadas terras por seu pai perdidas; e este, suponho, é o principal motivo de nossas preparações, a fonte desta nossa guarda, e a nascente desta urgência e comoção no país.

BERNARDO

Não creio ser outra, mas isso mesmo. Faz todo sentido que esta portentosa figura venha em armadura diante de nossa guarda, tão igual ao rei que era e é a questão desta guerra.

HORÁCIO

É um cisco a perturbar o olho da mente. No mui elevado e florescente Estado de Roma, pouco antes de o poderosíssimo Júlio cair, as covas ficaram desabitadas, e os mortos, em mantos, guinchavam e balbuciavam pelas ruas romanas, [e semelhantes prenúncios de eventos temidos, como mensageiros precedendo ao destino, e prólogo do acontecimento por vir, o céu e a terra juntamente demonstraram a nossas regiões e concidadãos,]1 como estrelas com caudas de fogo e gotas de sangue, distúrbios no sol, e a estrela úmida, sob cuja influência o império de Netuno se encontra, adoeceu quase até o juízo com eclipse. [Entra o Fantasma.] Mas, quieto, olha! Lá vem ele de novo! Eu o deterei, ainda que ele me atinja. Fica, ilusão! Se tens algum som, ou emprego de voz, fala comigo. Se houver algo bom a ser feito, que lhe dê alívio, e a mim graça, Fala comigo: se segredos sabes sobre o destino de teu país, cuja ciência prévia talvez pudesse evitar, oh, fala! Ou se armazenaste em vida tesouro extorquido no ventre da terra pelo que, dizem, vós espíritos muita-vez andam quando mortos, fala! [Canta o galo.] Fica, e fala! Detém-no, Marcelo!

MARCELO

Devo atingi-lo com minha alabarda?

HORÁCIO

Faze-o se ele não ficar parado.

BERNARDO

Cá ‘stá!

HORÁCIO

Cá ‘stá!

Sai o fantasma.

MARCELO

Não ‘stá mais. Nós o ofendemos, sendo tão majestoso, ao oferecer-lhe mostras de violência, pois ele é, como o ar, invunerável, e nossos golpes vãos, piadas de mau gosto.

BERNARDO

Estava prestes a falar, quando o galo cantou.

HORÁCIO

Ele então se assustou, qual coisa culpada ante um chamado temerário. Ouvi dizer que o galo, que é a trombeta da alvorada, acorda, com sua elevada e estridente garganta, ao deus do dia, e sob seu aviso, quer ‘steja em mar ou fogo, em terra ou ar, o espírito desencaminhado e errante corre para seu refúgio. E a verdade aí contida, o presente fato comprovou.

MARCELO

Ele evanesceu ao cantar do galo. Alguns dizem que sempre, pouco antes de chegada a estação em que o aniversário de nosso Salvador é celebrado, o pássaro da aurora canta a noite toda, e então, dizem, nenhum espírito ousa vagar… As noites são íntegras, nenhum planeta agoura, nenhuma fada encanta, bruxa alguma tem o poder de enfeitiçar, tão louvada e graciosa é tal época.

HORÁCIO

Foi o que ouvi, e nisso creio em parte. Mas olha, a alvorada, envolta num manto avermelhado, passeia sobre o orvalho daquela alta colina oriental; Interrompamos nossa guarda; e, a meu parecer, participemos o que vimos esta noite ao jovem Hamlet, pois, por minha vida, este espírito, mudo conosco, falará com ele. Concordas que o apresentemos a ele, por imperativo de nosso amor, e conforme nossa obrigação?

MARCELO

Façamo-lo, eu rogo, e nesta manhã eu sei onde encontrá-lo de modo bem conveniente.

Saem.

1.2

Clarinada. Entram Cláudio, Rei da Dinamarca, Gertrude, a Rainha, e toda assistência, incluindo Polônio, seu filho Laerte, Voltemand e Cornélio.

CLÁUDIO

Muito embora da morte de nosso querido irmão Hamlet a memória ‘steja verde, e nos caísse bem ter o coração em luto, e todo reino contrair-se numa expressão de dor, a tal ponto tem o discernimento lutado com a natureza que nós com sapientíssima mágoa nele pensamos, juntamente com a lembrança de nós mesmos. Portanto nossa outrora irmã, agora nossa rainha, a herdeira imperial deste Estado guerreiro, nós viemos, como fora com uma alegria derrotada, com um olho auspicioso e outro abatido, com riso em funeral e réquiem em bodas, em igual medida sopesando contentamento e infortúnio, a tomar por esposa. Nem excluímos nós aqui vossos melhores pareceres, que livremente desse enlace tomaram o lado. Por tudo, nosso agradecimento. Agora sucede, vós o sabeis, que o jovem Fortimbrás, estimando mal nosso valor, ou pensando que pela morte de nosso caro irmão nosso Estado esteja desconjuntado e desestruturado, somado a isso seu sonho de vantagem, não deixou ele de nos importunar com uma mensagem exigindo a rendição daquelas terras perdidas por seu pai, nos termos da lei, para nosso mui valente irmão. Cá o tem! [Rasga o documento.] Agora quanto a nós mesmos e esta reunião, é disto que se trata: nós escrevemos aqui para Noruega, tio do jovem Fortimbrás que, impotente e acamado, mal sabe da intenção do sobrinho – para que suprima seu avanço, tendo em vista que os recrutas, as tropas, e todo aparato, estão sob sua sujeição. E aqui despachamos a ti, bom Cornelius, e a ti, Voltemand como portadores desta saudação ao velho Noruega, dando a vós nenhum outro poder pessoal para tratar com o rei, mais do que permite o escopo dos artigos expostos. Até breve, e que vossa presteza condecore vossa lealdade.

CORNÉLIO e VOLTEMAND

Nisto e em todas coisas mostraremos nossa lealdade.

CLÁUDIO

Não temos dúvida alguma. De coração, até breve! [Saem Cornélio e Voltemand.] E agora, Laerte, qual a nova contigo? Disseste-me de uma petição, qual é, Laerte? Não podes pedir algo razoável ao Dinamarquês e falar em vão; o que pleitearias, Laerte, que não fosse oferta minha, não pedido teu? A cabeça não é mais ligada ao coração, a mão mais instrumental à boca, que o trono da Dinamarca a teu pai. O que desejarias, Laerte?

LAERTE

Meu venerável senhor, vossa licença e favor para retornar à França, de onde, embora espontanemente, vim à Dinamarca, mostrar minha lealdade em vossa coroação; mas agora, devo convessar, cumprido o dever, meus pensamentos e desejos pendem novamente para a França, e se curvam ante vossa graciosa licença e indulgência.

CLÁUDIO

Tens a anuência de teu pai? O que diz Polônio?

POLÔNIO

Ele, milorde, arrancou minha anuência aos poucos, com dedicada insistência, e por fim sua vontade selei com meu relutante consentimento; eu vos imploro, dai-lhe licença para ir.

CLÁUDIO

Escolhe a hora apropriada, Laerte; seja teu o tempo e, com minhas boas graças, emprega-o à tua vontade. Mas agora, meu primo Hamlet, e meu filho…

HAMLET

Pouco mais que parente, e menos que descendente!

CLÁUDIO

O que se dá que as nuvens ainda pairam sobre ti?

HAMLET

Estais equivocado, milorde, eu sou o filho do sol.

GERTRUDE

Bom Hamlet, joga tua cor anoitecida fora, e deixa teu olho ver Dinamarca como um amigo. Não busques para sempre com tuas pálpebras caídas por teu nobre pai na poeira. Tu sabes que é coisa vulgar: tudo que vive deve morrer, passando da natureza à eternidade.

HAMLET

Sim, senhora, é “vulgar”.

GERTRUDE

Se o é, por que parece tão particular para ti?

HAMLET

Parece não, senhora, é! Não conheço parece. Não é apenas meu manto retinto, boa mãe, nem os costumeiros trajes de negro solene, nem vazios suspiros de alento forçado, não, nem o copioso rio no olho, o aspecto deprimido do semblante, junto a todas formas, humores, estados de tristeza, que me possam veramente denotar; isso tudo, de fato, parece, pois são ações que um homem pode representar. Mas tenho em mim aquilo que transcende a revelação. Tais são apenas os paramentos e os trajes da tribulação.

CLÁUDIO

É doce e louvável de tua natureza, Hamlet, prestar os deveres do luto a teu pai, mas, deves saber, teu pai perdeu um pai, tal pai perdido perdeu o seu, e o sobrevivente sujeito, por obrigação filial, a, por um prazo, observar respeitoso pesar. Mas perserverar em obstinada condolência é proceder com ímpia teimosia. É tristeza efeminada, mostra uma vontade mui em desacordo com os céus, um coração sem fortaleza, uma mente impaciente, um entendimento simples e pouco instruído, pois sabemos-o-quê deve acontecer, e é mais comum que quaisquer das coisas vulgares para a razão. Por que deveríamos, em nossa obstinada oposição, melindrar-nos? Ora! É uma falta para com os céus, uma falta contra os mortos, uma falta com a natureza – absurda para a razão – cujo tema comum é a morte de pais, e que tem proclamado, do primeiro cadáver até aquele que morreu hoje, “assim deve ser.” Nós te rogamos, atira à terra este pesar descabido, e pensa em nós como um pai. Pois que o mundo tome nota: tu és o mais imediato ao nosso trono! E com não menor nobreza de amor do que aquela que o mais caro pai tem pelo filho, eu te faço saber: quanto a tua intenção de voltar à escola em Wittenberg, é muito contrária ao nosso desejo; e te imploramos que aquiesças em ficar aqui, na alegria e conforto de nosso olho, nosso cortesão maior, primo, e nosso filho.

GERTRUDE

Não deixes tua mãe rogar em vão, Hamlet: Rogo-te que fiques conosco, não vás a Wittenberg.

HAMLET

Obedecer-te-ei da melhor forma, senhora.

CLÁUDIO

Bem, é uma resposta carinhosa e justa; fica como nós mesmos na Dinamarca. Vem, minha dama. Esta gentil e espontânea concordância de Hamlet sorri ao meu coração; graças ao que, Dinamarca não erguerá um jocundo voto hoje sem que o grande canhão às nuvens o relate, e o brinde do rei aos céus ressoará novamente, repetindo o trovão terreno. Vamos embora.

Clarinada. Saem todos menos Hamlet.

HAMLET

Oh, quem dera esta tão tão sólida carne derretesse, degelasse, e se resolvesse num orvalho! Ou que o Eterno não houvese fixado seu cânone contra o auto-extermínio! Oh, Deus! Oh, Deus! Quão aborrecidos, antiquados, banais e improfícuos me parecem todos os usos deste mundo! Maldição! Oh, maldição! É um jardim de ervas daninhas, que crescem até dar sementes; coisas de natureza sórdida e grosseira dominam-no completamente. Que tenha chegado a este ponto! Morto havia não mais que dois meses! Não, nem isso, nem dois. Um rei tão excelente que era, frente a este, Hipérion ante um sátiro. Tão cioso de minha mãe, que não consentiria que os ventos celestes roçassem-lhe a face demasiado forte. Céu e Terrra, devo eu lembrar? Ora, ela dele pendia como se o apetite crescera por aquilo de que se nutre; no entanto, dentro de um mês! Ah, prefiro nem pensar! Fraqueza, teu nome é mulher! Um breve mês, ou antes de rotos os sapatos com que ela seguiu o corpo de meu pobre pai morto, como Níobe, toda ela lágrimas; pois ela, ela mesma… Oh, Deus! Uma fera sem discurso da razão teria se enlutado mais tempo! Casou-se se com meu tio, o irmão de meu pai, mas menos semelhante a meu pai do que eu a Hércules: em um mês! Antes mesmo que o sal de lágrimas iníquas deixasse de fluir de seus olhos irritados, ela se casou. Oh, quão maldita rapidez! Entregar-se com tal destreza a lençóis incestuosos! Não é, nem pode vir a ser, nada bom. Mas que se quebre meu coração, pois devo conter minha língua.

Entram Horácio, Marcelo e Bernardo.

HORÁCIO

Salve, vossa excelência!

HAMLET

Estou feliz em vê-lo bem; Horácio… ou me esqueço de mim mesmo?

HORÁCIO

O próprio, milorde, e teu pobre serviçal sempre.

HAMLET

Senhor, meu bom amigo, eu troco este nome contigo! E o que te traz de Wittenberg? Marcelo!

MARCELO

Meu bom lorde.

HAMLET

Estou mui contente em ver-te. [A Bernardo] Boa noite, senhor. Mas o que te traz, à vera, de Wittenberg?

HORÁCIO

Uma disposição de cábula, meu bom lorde.

HAMLET

Não ouviria isso de teu inimigo, nem farás tu a meu ouvido tal violência, de fazê-lo depositário de teu própiro relato contra si mesmo. Sei que não és um cábula. Mas qual é teu afazer em Elsinore? Nós te ensinaremos a beber muito antes que parta.

HORÁCIO

Milorde, eu vim para ver o funeral de teu pai.

HAMLET

Rogo-te que não zombes de mim, meu colega de estudo. Creio que foi para ver o casamento de minha mãe.

HORÁCIO

De fato senhor, veio logo em seguida.

HAMLET

Economia, economia, Horácio! As carnes assadas pro funeral guarneceram friamente as mesas do casamento. Preferira ter encontrado meu pior inimigo no céu, a ter jamais visto esse dia, Horácio! Meu pai… Acredito ver meu pai.

HORÁCIO

Onde, milorde?

HAMLET

No olho de minha mente, Horácio.

HORÁCIO

Eu o vi uma vez. Ele era um rei garboso.

HAMLET

Ele era um homem, tome-o por tal, tudo considerado. Não olharei novamente a sua figura.

HORÁCIO

Milorde… Eu creio tê-lo visto… a noite passada.

HAMLET

Viste… quem?

HORÁCIO

Milorde, o rei! Teu pai.

HAMLET

O rei meu pai!

HORÁCIO

Tempera tua admiração por um tempo com um ouvido atento, até que eu relate, sob o testemunho destes cavalheiros, esta maravilha para ti!

HAMLET

Pelo amor de Deus, quero ouvir!

HORÁCIO

Duas noites seguidas, estes dois cavalheiros, Marcelo e Bernardo, em sua guarda na vastidão morta e no meio da noite, depararam-se com uma figura como teu pai, armado em cada detalhe, cap-a-pe, que aparece perante eles e, em marcha solene, por eles passa devagar e majestosamente. Três vezes ele andou ante seus olhos opressos e tomados de medo, à distância do bastão, enquanto eles, quase transformados em geléia pela ação de medo, permanecem mudos, e não falam com ele. Isso a mim em extremo segredo eles informaram, e com eles a terceira noite mantive a vigia. Na qual, como eles haviam relatado, tanto no tempo, forma da coisa, cada palavra se mostrou vera e boa: veio a aparição! Eu conhecia teu pai, estas mãos não se parecem mais!

HAMLET

Mas onde foi isso?

MARCELO

Milorde, sobre a plataforma onde vigiávamos.

HAMLET

Não falastes com ele?

HORÁCIO

Milorde, eu falei, mas resposta alguma ele deu. No entanto, uma vez achei que ele levantava a cabeça, e preparava-se para se mover, como se fosse falar… Mas bem na hora o galo da manhã cantou alto, e com o som ele recolheu-se apressado, e desapareceu de nossas vistas.

HAMLET

É muito estranho.

HORÁCIO

Como estar eu vivo, meu honrado lorde, é verdade, e julgamos nosso dever expresso por-te a par.

HAMLET

De fato, de fato, senhores, mas isso me atormenta. Guardais a vigia esta noite?

HORÁCIO, MARCELO e BERNARDO

Guardamos, milorde.

HAMLET

Armado, dizeis?

HORÁCIO, MARCELO e BERNARDO

Armado, milorde.

HAMLET

De cima abaixo?

HORÁCIO, MARCELO e BERNARDO

Milorde, da cabeça aos pés.

HAMLET

Então não vistes seu rosto?

HORÁCIO

Oh sim, milorde; ele tinha a viseira erguida.

HAMLET

Então, franzia ele o cenho?

HORÁCIO

Uma fisionomia mais de mágoa que de raiva.

HAMLET

Pálido ou encarnado?

HORÁCIO

Não, muito pálido.

HAMLET

E fixou ele os olhos em vós?

HORÁCIO

Mui constantemente.

HAMLET

Quisera ter estado lá.

HORÁCIO

Teria-te maravilhado bastante.

HAMLET

Bem provável, bem provável. Demorou-se ele?

HORÁCIO

Bastante para com moderada pressa contar até cem.

MARCELO e BERNARDO

Mais.

HORÁCIO

Não quando o vi.

HAMLET

Sua barba era grisalha, não?

HORÁCIO

Era, como a vi com ele em vida, negra e argêntea.

HAMLET

Irei vigiar esta noite. Porventura voltará a andar.

HORÁCIO

Garanto-te que irá.

HAMLET

Se ele assumir a pessoa de meu nobre pai, falarei com ele, mesmo que o próprio inferno se abra e mande aquietar-me. Rogo-vos a todos, se até aqui esconderam esta visão, que se mantenha vosso silêncio, e… o que quer que aconteça esta noite, guardai no entendimento, mas não na língua. Eu recompensarei vosso amor. Então, até breve. Sobre a plataforma, entre onze e doze, visitarei-vos.

HORÁCIO, MARCELO e BERNARDO

Nossa lealdade a vossa senhoria.

HAMLET

Vosso amor, como o meu para convosco; adeus.

Saem todos menos Hamlet.

O espírito de meu pai em armadura! Não ‘stá tudo bem, suspeito de crime premeditado; quisera que já fosse noite! Até lá, sossega alma minha. Feitos malignos se erguerão, ainda que toda a Terra os encubra, à plena visão.

Sai.

1.3

Entram Larte e Ofélia.

LAERTE

Minhas bagagens foram embarcadas; adeus. E irmã, sendo os ventos favoráveis, e comboio assistente, não durmas, mas manda notícias tuas.

OFÉLIA

Duvidas disso?

LAERTE

Quanto a Hamlet, e à ninharia de sua afeição, tem-na por coisa de temporada, e um brinquedo passageiro, uma violeta jovem de natureza primaveril, ardente, não permanente, doce, não duradoura, o perfume e o apelo de um minuto, não mais.

OFÉLIA

Nada mais que isso?

LAERTE

Não a creias mais: pois a natureza, crescente, não cresce só em fibra e vulto, mas ao consolidar-se esse templo, o serviço interno da mente e da alma cresce junto. Talvez ele te ame agora, e agora nem tacha nem engodo manchem a virtude de sua vontade; mas deves temer que, sopesada sua grandeza, sua vontade não lhe pertence, pois ele próprio é súdito de seu nascimento: ele não pode, como fazem pessoas sem valor, escolher por si mesmo, pois de sua escolha depende a sanidade e a saúde deste Estado todo, e portanto deve sua escolha estar circunscrita à voz e ao crivo daquele corpo do qual ele é a cabeça. Então, se ele diz que te ama, convém à tua sabedoria acreditar na medida em que ele, em seu papel e posição, dê ação a sua fala, e logo em seguida o sufrágio geral da Dinamarca aprovará. Então considera que perda tua honra sofrerá se com ouvido crédulo demais escutares suas canções, ou entregares teu coração, ou teu casto tesouro abrires a seu assédio descontrolado. Teme-o, Ofélia, teme-o, minha cara irmã, e mantém-te na retaguarda de tua afeição, a salvo dos tiros e do perigo do desejo. A mais cautelosa donzela é pródiga o bastante se desmascara sua beleza à lua; a virtude mesma não ‘scapa de golpes caluniosos: o cancro afeta as crianças da primavera muita-vez antes de abertos seus botões; e na manhã e no líquido orvalho da mocidade é que as pragas contagiosas são mais iminentes. Fica atenta então, a melhor segurança está na desconfiança; a mocidade por si só se “levanta”, mesmo sem ninguém na vizinhança.

OFÉLIA

Guardarei o teor desta boa lição como guardião de meu coração. Mas, meu bom irmão, não faças como alguns ímpios pastores, mostrando-me o íngrime e espinhento caminho do céu, enquanto, como um pomposo e irresponsável libertino, ele mesmo a aléia de prímulas da luxúria pisa e não observa seu próprio conselho.

LAERTE

Oh, não temas por mim. Eu me demoro muito.

Entra Polônio.

POLÔNIO

Ainda aqui Laerte!

LAERTE

Mas aí vem meu pai. Uma dupla bênçao é uma dupla graça. A ocasião sorri para uma segunda despedida.

POLÔNIO

A bordo, a bordo, que vergonha! O sol se assenta no ombro de tua vela, e és esperado. Aqui, minha bênçao contigo! E alguns preceitos em tua memória trata de gravar. Não dês a teus pensamentos língua, nem a qualquer pensamento despropositado ato. Sê familiar, mas de modo algum vulgar. Os amigos que tiveres, e testada sua lealdade, estreita-os à tua alma com aros de aço, mas não gastes tua palma com entreter cada recém-nascido, desplumado camarada. Cuida de não entrares em uma briga, mas estando em uma, faz com que o oponente te tema. Dá a todo homem teu ouvido, mas a poucos tua voz. Aceita a opinião de cada homem, mas reserva teu julgamento. Compõe teu traje conforme tua bolsa pode comprar, mas sem expressar luxo; rico, não ostensivo: pois o hábito muita-vez revela o homem, e aqueles na França de melhor posto e posição têm uma seleta e generosa eminência quanto a isso. Nem um devedor nem um credor sejas: pois o empréstimo muita-vez perde a si mesmo e ao amigo, e tomá-los borra o limite da parcimônia. Isto acima de tudo: a ti mesmo sê verdadeiro, e seguirá, como a noite ao dia, que não poderás ser falso a homem algum. Adeus! Minha bênção amadureça isso em ti!

LAERTE

Mui humildemente eu peço licença, miolrde.

POLÔNIO

O tempo te convida, vai, teus criados esperam.

LAERTE

Adeus, Ofélia, e lembra-te bem do que eu te disse.

OFÉLIA

‘Stá em minha memória trancado, e tu mesmo guardarás a chave.

LAERTE

Adeus.

Sai Laerte.

POLÔNIO

O que é, Ofélia, que ele disse a ti?

OFÉLIA

Como queiras, algo tocante ao lorde Hamlet.

POLÔNIO

Afe, bem pensado: foi-me dito que ele ultimamente tem com frequência dado tempo privado a ti. e tu mesmo tem de tua audiência sido mui liberal e dadivosa. Se for assim, como sou levado a crer, e isto por força de cautela eu devo dizer-te: não te orientas tão claramente como condiz à minha filha e à tua honra. O que há entre vós? Entrega-me a verdade.

OFÉLIA

Ele tem, milorde, recentemente, mostrado o valor de sua afeição por mim.

POLÔNIO

Afeição! Bah! Falas como uma garota verde, neófita em tal perigosa circunstância. Crês em seu valor, como dizes?

OFÉLIA

Não sei, milorde, o que devo pensar.

POLÔNIO

Afe, eu te direi: pensa em ti mesma como um bebê, por teres tomado esse valor por real pagamento, que não é prata legítima. Dá mais valor a ti mesma, ou, sem querer exaurir o pobre termo, abusando assim dele, dás-me o valor de um tolo.

OFÉLIA

Milorde, ele me cortejou mostrando seu amor em um hábito honroso.

POLÔNIO

Sim, hábito podes chamá-lo, ora essa.

OFÉLIA

E corroborou seu discurso, milorde, com quase todos os votos sagrados do céu.

POLÔNIO

Sim, armadilhas de pegar galinholas. Eu bem sei, quando o sanque arde, quão pródiga a alma empresta votos à língua; estas chamas, filha, dando mais luz que calor, extintas em ambos, em sua promessa mesma, já enquanto nascem, não deves tomar por fogo. Daqui em diante, filha, sê um tanto mais escassa de tua presença donzela, dá a tua companhia um preço mais alto que um chamado para negociações. Quanto a lorde Hamlet, crê nisto sobre ele: que ele é jovem, e com uma rédea maior pode ele andar do que pode a ti ser dada. Em suma, Ofélia, não creias em seus votos, pois eles são alcoviteiros, não da cor que suas vestimentas mostram, mas meros intermediários de uma corte nada sacra, passando por proxenetas santificados e pios, para melhor ludibriar. Ei-lo tudo: não mais, em termos simples, doravante tolerarei que difames momento algum de ócio enviando palavras ou conversando com o lorde Hamlet. Olha bem, eu te encarrego, emenda-te.

OFÉLIA

Eu juro obedecer, milorde.

Saem.

1.4

Entram Hamlet, Horácio e Marcelo.

HAMLET

O ar corta agudamente, faz muito frio.

HORÁCIO

É um ar afiado e pontiagudo.

HAMLET

Que horas agora?

HORÁCIO

Penso faltar pouco para as doze.

MARCELO

Não, já bateram.

HORÁCIO

Mesmo? Eu não ouvi… Então se aproxima a estação em que o espírito tem o costume de andar. [Soam trompetes e dois tiros de canhão.] Que significa isso, milorde?

HAMLET

O rei ‘stá acordado esta noite e ergue sua taça, mantém um festim, e a dança afetada se desenrola; e, enquanto ele vira suas goladas de Reno, o tímpano e o clarim assim alardeiam o triunfo de seu brinde.

HORÁCIO

É um costume?

HAMLET

Sim, afe, é sim. Mas para mim, embora eu seja nativo aqui, e acostumado desde o berço, é um costume mais honrado na falta do que na observância. Esta estúpida festança a leste e oeste no faz caluniados e censurados de outras nações: alcunham-nos beberrões, e com expressão suína sujam nosso epíteto; e, com efeito, tira de nossas conquistas, mesmo realizadas com altaneria, o valor e a bravura de nosso atributo. Ocorre com tanta frequência em certos homens que, por uma viciosa marca da natureza neles, como fora de nascença, da qual não têm culpa, já que a natureza não pode escolher sua origem, pela hipertrofia de algum temperamento, muita vez rompendo as cercas e os fortes da razão, ou por algum hábito, que por demais adultera a forma dos modos recomendáveis, que esses homens, caregando, digo eu, a tacha de um defeito, sendo farda da natureza, ou estrela da fortuna, suas virtudes de resto, sejam elas puras como a graça, tão infinitas quanto os homens possam ter, sofrerão na opinião geral a corrupção advinda daquele defeito em particular. O dracma de mal a toda nobre substância extingue, para seu próprio escândalo…

Entra o Fantasma.

HORÁCIO

Olha, milorde, lá vem ele! Ele acena para que vás com ele… Como se participar algo quisesse a ti somente.

MARCELO

Olha como sua ação te corteja e te sinaliza um chão mais afastado! Mas não vás com ele!

HORÁCIO

Não, de forma alguma.

HAMLET

Ele não fala, então o seguirei.

HORÁCIO

Não o faças, milorde.

HAMLET

Por quê, que devo eu temer? Eu não dou a minha vida o preço de um alfinete, e quanto a minh’alma, que pode ele fazer a ela, sendo coisa imortal como ele mesmo? Ele me acena que siga novamente, eu o seguirei.

HORÁCIO

E se ele te tentar rumo ao oceano, milorde, ou ao temível cume do despenhadeiro que se projeta sobre sua base para dentro do mar, e lá assumir alguma outra forma horrível que possa privar-te de tua soberania da razão, e arrastá-lo à loucura? Pensa nisto: o lugar em si põe ideias de desespero, sem mais motivo, em todo cérebro que olha tantas braças mar adentro e o ouve rugir lá embaixo.

HAMLET

Ele me acena ainda. Vai adiante, Eu te seguirei.

MARCELO

Tu não irás, milorde.

HAMLET

Afastai vossas mãos.

HORÁCIO

Aquiesce, tu não irás!

HAMLET

Meu destino vocifera, e faz cada pequena artéria neste corpo tão tesa quanto o nervo do leão de Neméia. Ainda sou chamado. Liberai-me, senhores! Pelos céus, eu farei um fantasma daquele que me impedir! Eu digo, p’ra longe! Vai adiante, Eu te seguirei.

Saem Hamlet e Fantasma.

HORÁCIO

Ele se desespera com imaginações.

MARCELO

Sigamos, não é adequado nisto obedecê-lo.

HORÁCIO

Faz o caminho. A que fim isso levará?

MARCELO

Há algo podre no reino da Dinamarca.

HORÁCIO

Os céus guiarão.

MARCELO

Não, sigamo-lo.

Saem.

1.5

Entram Hamlet e o Fantasma.

HAMLET2

Anjos e ministros da graça nos defendam! Sejas tu um espírito salutar ou assombração maldita, tragas contigo ares celestes ou sopros infernais, seja teu intento perverso ou caritativo, vens em tal forma questionável que falarei contigo! Chamarei-te Hamlet, rei, pai, dinamarquês real: oh, responde-me! Não me deixes arder na ignorância, mas conta por que teus ossos canonizados, velados na morte, queimaram sua mortalha, por que o sepulcro, dentro do qual te vimos quietamente jazendo, abriu suas portentosas e marmóreas mandíbulas, para te lançar novamente p’ra fora. Que pode isso significar, que tu, corpo morto, de novo em aço completo revisites assim os lampejos da lua, tornando a noite medonha, e a nós bobos da natureza, tão horrivelmente a sacudir nossa disposição com pensamentos além do alcance de nossas almas? Diz o porquê disto! Para quê? Que devemos fazer? Aonde queres me levar? Fala, eu não irei mais longe.

FANTASMA

Escuta-me.

HAMLET

Assim farei.

FANTASMA

É quase chegada minha hora, em que às sulfúreas e torturantes chamas eu devo me entregar.

HAMLET

Ai-de-ti, pobre fantasma!

FANTASMA

Não me tenhas pena, mas empresta tua séria audição para o que revelarei.

HAMLET

Fala, estou disposto a ouvir.

FANTASMA

E também a vingar-te, quando escutares.

HAMLET

O quê?

FANTASMA

Eu sou o espírito do teu pai, condenado, por um certo prazo, a vagar à noite, e durante o dia confinado, a jejuar no fogo, até que os torpes crimes cometidos em meus dias de vida sejam queimados e expurgados. Não me fosse proibido relatar os segredos de minha prisão, eu poderia um conto revelar do qual a mais leve palavra rasgar-te-ia a alma, congelaria teu sangue jovem, faria teus dois olhos, como estrelas, saltarem de suas esferas, teus cachos alinhados e compostos se desfazerem e cada um dos cabelos eriçar-se como as cerdas do porco-espinho irascível. Mas esta revelação eterna não pode ser para ouvidos de carne e osso. Escuta, Hamlet! Escuta! Oh, escuta! Se tu amaste, em algum tempo, a teu querido pai…

HAMLET

Oh, Deus!

FANTASMA

Vinga-te de seu torpe e mui desusado assassínio.

HAMLET

Assassínio!

FANTASMA

Assassínio o mais torpe, como mesmo o melhor é, mas este, em especial, torpe, estranho e desusado.

HAMLET

Conta-mo logo, para que eu, com asas ligeiras como o pensamento ou devaneios d’amor, atire-me à minha vingança.

FANTASMA

Eu te considero apto, e tu serias mais apático do que a erva gorda que se enraíza à vontade à margem do Lete, se isto não te incitar. Agora, Hamlet, escuta. Fizeram crer que, dormindo em meu pomar, uma serpente me picou, assim todo o ouvido da Dinamarca é, com uma versão forjada de minha morte, sordidamente ultrajado. Mas sabe tu, nobre jovem, a serpente que deveras tirou a vida de teu pai agora usa sua coroa.

HAMLET

Oh, minha alma profética! Meu tio!

FANTASMA

Sim, aquele incestuoso, aquele adúltero animal, com sortilégio de sua astúcia, com pérfidos presentes, oh, malditos astúcia e presentes, que tanto poder têm de seduzir! conquistou para sua vergonhosa luxúria a vontade da minha aparentemente tão virtuosa rainha! Oh, Hamlet… Que decandência se deu! De mim, cujo amor era de tal dignidade que ia de mãos dadas com o voto que a ela fiz no casamento, e submeter-se a um mau-caráter cujos dotes naturais eram parcos ante os meus! Mas se a virtude é ínamovível, mesmo que a lascívia a corteje com celeste aspecto, a luxúria, mesmo a um anjo radiante unida, sacia-se num leito celestial e sai à caça de lixo. Mas basta! Acho que sinto o cheiro do ar matinal, que eu seja breve. Dormia eu em meu pomar, meu costume de todas as tardes, e na hora insuspeita veio teu tio, furtivo, com tintura do amaldiçoado meimendro num frasco, e nos pórticos de meus ouvidos despejou o destilado leproso cujo efeito tem tal inimizade com sangue humano que, ligeiro como azougue, ele percorre as portas e caminhos naturais do corpo, e com um súbito vigor coagula e talha, como gotas ácidas ao leite, o sangue fino e saudável, e assim fez com o meu, e uma erupção instantânea cobriu, com uma vil e abominável crosta, assaz lazarenta, todo meu corpo liso. Assim fui eu, dormindo, pela mão de um irmão, da vida, da coroa, da rainha, de uma só vez privado: ceifado em plena floração de meus pecados, sem sacramento, despreparado, sem unção, sem ter meu cômputo feito, mas levado a prestar contas com todas minhas imperfeições na cabeça. Oh, é horrível! Horrível! Horrível por demais! Se carregas em ti a natureza, não o toleres! Não permitas que o tálamo real da Dinamarca seja o catre da concupiscência e do incesto maldito. Mas, como quer que realizes este ato, não manches tua mente, nem deixes tua alma engendrar contra tua mãe coisa alguma: deixa-a aos céus, e àqueles espinhos que lhe cravam o peito a pungi-la e aguilhoá-la. Adeus agora mesmo! O vaga-lume indica a aurora iminente, e começa a minguar seu fogo equívoco. Adieu, adieu! Hamlet. Lembra-te de mim!

HAMLET

Oh, por toda legião dos céus! Oh, terra! Que mais? Devo acrescentar o inferno? Oh, maldição! Aguenta, aguenta, coração meu, e vós, meus tendões, não ficai instantaneamente velhos, mas mantende-me firmemente ereto. Lembrar-me de ti! Sim, ó pobre fantasma, enquanto a memória mantiver assento neste globo distraído. Lembrar-me de ti! Sim, do caderno de minha memória limparei todos triviais e banais registros, todas citações de livros, todas formas, todas impressões passadas, que a juventude e a observação lá copiaram, e teu mandamento solitário viverá no livro e volume de meu cérebro, sem mistura de mais chã matéria: sim, pelos céus! Oh, quão perniciosa mulher! Oh, vilão, vilão, sorridente, maldito vilão! Meu caderno, apropriado é que eu ponha no papel [Escreve.] que alguém pode sorrir, e sorrir, e ser um vilão, pelo menos, estou certo, pode ser assim na Dinamarca. Então, tio, aí está. Agora, à minha palavra. É “Adieu, adieu! Lembra-te de mim”. Eu o jurei.

Entram Horácio e Marcelo.

HORÁCIO

Milorde! Milorde!

MARCELO

Lorde Hamlet!

HORÁCIO

Os céus o protejam!

HAMLET

Assim seja.

MARCELO

Eia, ô, ô, garoto!

HAMLET

Vem, pássaro, vem!

MARCELO

Como foi, milorde?

HORÁCIO

Que novas, milorde?

HAMLET

Oh, maravilhoso!

HORÁCIO

Meu bom lorde, conta-o.

HAMLET

Não, vós o revelareis.

HORÁCIO

Não eu, milorde, pelos céus.

MARCELO

Nem eu, milorde.

HAMLET

Como, dizei então, poderia um coração de homem sequer pensá-lo? Mas mantereis segredo?

HORÁCIO e MARCELO

Sim, pelos céus, milorde.

HAMLET

Não há vilão algum residindo em toda Dinamarca que não seja um rematado crápula.

HOÁCIO

Não é preciso fantasma algum, milorde, vir de sua tumba para nos dizer isso.

HAMLET

Bem, certo. Estás com a razão, e então, sem mais circunstância qualquer, defendo ser apropriado que nos cumprimentemos e nos separemos. Vós conforme vossos afazeres e desejos vos indiquem, uma vez que todo homem tem afazeres e desejos, tal como é, e de minha própria pobre parte, vejam bem, eu irei rezar.

HORÁCIO

Estas são apenas palavras desvairadas e rodopiantes, milorde.

HAMLET

Sinto muito que elas vos ofendam, de coração, sim, por fé, de coração.

HORÁCIO

Não há ofensa, milorde.

HAMLET

Sim, por São Patrício, mas há, Horácio, e muita ofensa mesmo. No tocante a esta visão aqui, é um fantasma honesto, isso deixai-me dizer-vos; quanto a vosso desejo de saber o que passou entre nós, subjugai-o como podeis. E agora, bons amigos, como sois amigos, acadêmicos, e soldados, concedei-me um pobre pedido.

HORÁCIO

O que é, milorde? Assim faremos.

HAMLET

Nunca fazei público o que vistes esta noite.

HORÁCIO e MARCELO

Milorde, não o faremos.

HAMLET

Não, mas jurai-o.

MARCELO

De boa fé, milorde, não eu.

HORÁCIO

Nem eu, milorde, não eu.

HAMLET

Sobre minha espada.

MARCELO

Nós já juramos, milorde.

HAMLET

Com efeito, sobre minha espada, com efeito.

FANTASMA [Sob o palco]

Jurai.

HAMLET

Ha-ha garoto! É o que dizes? Estás aí, bom camarada? Vamos! Ouvis este sujeito no porão, concordai em jurar.

HORÁCIO

Propõe o juramento, milorde.

HAMLET

Nunca falar disto que vistes, jurai por minha espada.

FANTASMA [Em outra parte]

Jurai.

HAMLET

Hic et ubique? Então deslocaremos nosso solo. Vinde aqui, cavalheiros, e ponde vossas mãos uma vez mais sobre minha espada: nunca falar disto que ouvistes, jurai por minha espada.

FANTASMA [Em outra parte]

Jurai.

HAMLET

Bem dito, velha toupeira! Podes lavrar a terra tão rápido? Um valoroso pioneiro! Uma vez mais movei-vos, bons amigos.

HORÁCIO

Oh, dia e noite, mas isto é singularmente estranho!

HAMLET

E portanto, como a um estranho, dá-lhe as boas vindas. Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha nossa filosofia. Mas vamos, aqui, como dantes: nunca, misericórdia vos ajude, por mais estranho ou esquisito que eu me mostre, já que eu, porventura, daqui em diante acharei adequado usar uma disposição extravagante, que vós, em tais momentos vendo a mim, nunca deveis, com braços assim dobrados, ou este meneio de cabeça, ou pronunciando alguma expressão dúbia, tal como: “Bem, sabemos”, ou “Poderíamos, se o fizéssemos”, ou “Se ouvirmos falar”, ou “Que seja, se eles puderem”, ou tal ambíguo entregar tudo, denotando que algo sabeis de mim: isso não há de ser feito, e que graça e misericórdia em vossa maior necessidade vos ajudem!

FANTASMA

Jurai. Jurai.

HAMLET

Descansa, descansa, espírito perturbado! Então, cavalheiros, com todo meu amor, eu vos encarrego: e o que tão pobre homem quanto Hamlet é pode fazer para expressar seu amor e amizade para convosco, querendo Deus, não faltará. Entremos juntos e de novo vossos dedos sobre vossos lábios, rogo-vos. O tempo ‘stá fora do eixo. Oh, amaldiçoado pesar, que um dia nasci para consertar! Não, vinde. Vamo-nos juntos.

Saem.

2.1

Entram Polônio e Reinaldo.

POLÔNIO

Dá-lhe este dinheiro e estes recados, Reinaldo.

REINALDO

Eu darei, milorde.

POLÔNIO

Serás imensamente sábio, bom Reinaldo, antes de visitá-lo, em inquirir sobre seu comportamento.

REINALDO

Milorde, eu já o tencionava.

POLÔNIO

Afe, bem dito, muito bem dito. Olha bem, senhor, pesquisa primeiro para mim que dinamarqueses há em Paris, e como, e quem, que meios, e onde eles se abrigam, que companhia, a que custos, e descobrindo, assim fechando o cerco com questões, que eles conhecem meu filho, vai mais fundo do que essas perguntas alcançam. Assume, como se fora, um conhecimento distante dele, como assim, “Conheço seu pai e seus amigos, e em parte ele”. Escutas isso, Reinaldo?

REINALDO

Sim, muito bem , milorde.

POLÔNIO

“E em parte ele, mas”, podes dizer, “não bem; mas se for ele, digo, ele é bem selvagem, tem hábitos tais e tais,” e aí impinge-lhe quais invenções quiseres. Afe, nenhuma tão sórdida que possa desonrá-lo, presta atenção a isso, mas, senhor, tais levianas, selvagens, e comuns escapadas que são companhias notórias e mui afeitas à juventude e à liberdade.

REINALDO

Como o jogo, milorde.

POLÔNIO

Sim, ou bebida, esgrima, blasfêmias, confusões, prostitutas… Podes ir tão longe.

REINALDO

Milorde, isso o desonraia.

POLÔNIO

De boa fé, não, já que podes temperar a acusação. Não deves impingir-lhe um outro escândalo, que ele é aberto à incontinência, não é o que quero dizer; mas sussurra suas faltas tão suavemente que elas pareçam as máculas da liberdade, o lampejo e rompante de uma mente fogosa, uma selvageria do sangue incontido, de incidência disseminada.

REINALDO

Mas, meu bom lorde…

POLÔNIO

Para que deves fazer isso?

REINALDO

Sim, milorde, eu gostaria de saber.

POLÔNIO

Afe, senhor, eis minha intenção, e creio ser um mandado válido. Tu jogando essas ligeiras manchas sobre meu filho, como fora uma coisa um pouco encardida do trabalho, escuta, seu interlocutor, tu o farias soar, tendo visto nos crimes já mencionados o jovem dos quais sussurras ser culpado, certifica-te de que ele concorda contigo nesta conclusão, “Bom senhor”, ou algo assim, ou “amigo”, ou “cavalheiro” de acordo com a expressão ou o título de homem e país.

REINALDO

Muito bem, milorde.

POLÔNIO

E então, senhor, fazendo ele isso, ele… O que estava eu para dizer? Santa misericórdia, eu estava para dizer algo: onde eu parei?

REINALDO

Em “concorda com a conclusão”, em “amigo ou algo assim” e “cavalheiro”.

POLÔNIO

Em “concorda com a conclusão” sim, afe! Ele concorda contigo assim: “Eu conheço o cavalheiro, eu o vi ontem, ou outro dia, ou neste ou aquele dia, com tal e tal, e como dizes, lá estava ele jogando, lá, embalado em suas goladas, lá discutindo no tênis”; ou porventura “eu o vi entrar em tal casa de negócio”, videlicet, um bordel, e por aí vai. Olha bem agora, tua isca de falsidade pega esta carpa de verdade: e assim nós, com sabedoria e alcance, com estratagemas, e com assertivas enviesadas, por incertas descobrimos a direção certa. Assim, por minha prévia palestra e conselho, farás a meu filho. Entendeste-me, não?

REINALDO

Milorde, entendi.

POLÔNIO

Deus ‘steja contigo, até breve.

REINALDO

Meu bom lorde!

POLÔNIO

Observa sua inclinação por ti mesmo.

REINALDO

Assim farei, milorde.

POLÔNIO

E deixa-o executar sua música.

REINALDO

Bem, milorde.

POLÔNIO

Adeus!

REINALDO

Milorde!

Sai Reinaldo. Entra Ofélia.

POLÔNIO

E agora, Ofélia! Qual é o problema?

OFÉLIA

Ai, milorde, eu tive um susto enorme!

POLÔNIO

Com o quê, em nome de Deus?

OFÉLIA

Milorde, ‘stava eu costurando em meu quarto, quando lorde Hamlet, com seu gibão todo desamarrado, chapéu nenhum sobre a cabeça, suas meias soltas, sem suspensório, e arriadas até o tornozelo, pálido como sua camisa, seus joelhos batendo um contra o outro, e com um aspecto tão lamentoso em sua expressão como se tivesse escapado do inferno para falar de horrores, põe-se diante de mim.

POLÔNIO

Louco por teu amor?

OFÉLIA

Milorde, eu não sei, mas eu deveras o temo.

POLÔNIO

Que disse ele?

OFÉLIA

Ele me pegou pelo pulso, e me segurou forte, e então ele estende todo seu braço, e com sua outra mão assim sobre o cenho, ele se lança a de tal modo esmiuçar minha face como se fosse desenhá-la. Longamente assim ficou; finalmente, com um leve chacoalhar de meu braço, e três vezes sua cabeça assim balançando para cima e para baixo, ele ergueu um suspiro tão lamentoso e profundo como se parecesse estilhaçar todo seu peito e aniquilar seu ser. Feito isso, ele me solta e, com a cabeça por cima do ombro virada ele parecia achar o caminho sem seus olhos, pois através da porta ele foi sem sua ajuda, e até o fim voltou sua luz sobre mim.

POLÔNIO

Vamos, vem comigo: irei procurar o rei. Este é o próprio êxtase do amor, cuja propriedade violenta destrói a si mesmo e leva a vontade a empresas desesperadas, mais do que qualquer paixão sob o céu que aflija nossas naturezas. Sinto muito. O que foi, tu deste a ele alguma palavra dura recentemente?

OFÉLIA

Não, meu bom lorde! Mas, como comandaste, repeli suas cartas e neguei seu acesso a mim.

POLÔNIO

Isso o deixou louco. Sinto muito que com melhor atenção e julgamento eu não o observei: eu temia que ele apenas jogasse, e tencionasse arruiná-la, mas amaldiçoados sejam meus ciúmes! Pelos céus, é tão próprio à nossa idade exceder-nos em nossas opiniões quanto é comum aos mais jovens serem faltos em discernimento. Vem, vamos ao rei: isto deve ser conhecido, o que, sendo mantido em segredo, pode trazer mais mágoa por esconder do que ódio por revelar amor. Vem.

Saem.

2.2

Entram Cláudio, Gertrude, Guildenstern e Rosencrantz, e lordes.

CLÁUDIO

Bem vindos, caros Rosencrantz e Guildenstern! Além de muito desejarmos vê-los, a necessidade que temos de usá-los provocou nossa apressada convocação. Algo ouvistes da transformação de Hamlet; assim a chamo, uma vez que nem o homem exterior nem o interior lembram aquilo que eram. O que poderia ser, mais que a morte de seu pai, que assim o afastou do entendimento de si mesmo, eu não posso sonhar. Eu vos imploro a ambos que, sendo de tão tenros dias criados com ele, e já que tão avizinhados a sua juventude e temperamento, que vós concedais vossa estadia aqui em nossa corte por algum tempo: para que com vossas companhias o arrastais a prazeres, e recolhais, tanto quanto da ocasião possais apanhar, se algo, a nós desconhecido, assim o aflige, que, revelado, esteja a nosso alcance remediar.

GERTRUDE

Bons cavalheiros, ele muito falou de vós, e certa estou de que dois homens não há vivendo a quem ele mais adira. Se vos agradar mostrar-nos tanto cavalheirismo e boa vontade de modo a empregar um tanto de vosso tempo conosco, para a provisão e proveito de nossa esperança, vossa visitação receberá tais agradecimentos como cabe à lembrança de um rei.

ROSENCRANTZ

Ambas vossas majestades podeis, pelo poder soberano que tendes sobre nós, por vossas magníficas vontades mais em comando do que em súplica. Mas ambos nós obedecemos, e aqui nos rendemos, de todo curvados, para deitar nosso serviço gratuitamente a vossos pés, para sermos comandados.

CLÁUDIO

Obrigado, Rosencrantz e gentil Guildenstern.

GERTRUDE

Obrigada, Guildenstern e gentil Rosencrantz; e eu vos suplico que instantaneamente visitais meu por-demais-mudado filho. Ide, alguns de vós, e levai estes cavalheiros até onde Hamlet está.

GUILDENSTERN

Que os céus façam nossa presença e nossas práticas agradáveis e úteis a ele!

GERTRUDE

Sim, amém!

Saem Rosencrantz e Guildenstern, acompanhados de cortesãos.

POLÔNIO

Os embaixadores, meu bom lorde, com gáudio da Noruega estão de volta.

CLÁUDIO

Tu sempre foste pai de boas novas.

POLÔNIO

Fui, milorde? Eu vos garanto, meu bom suserano, mantenho minha lealdade, como mantenho minh’alma, tanto a meu Deus quanto a meu bom rei. E eu penso… ou senão este cérebro meu não mais caça a trilha da governança tão certo quanto costumava, que descobri a causa mesma da loucura de Hamlet.

CLÁUDIO

Oh, fala disso! Isso quero eu ouvir.

POLÔNIO

Dai primeiro acolhida aos embaixadores. Minhas novas serão frutas para este grande banquete.

CLÁUDIO

Mas tu mesmo recepciona-os, e traze-os para dentro. Ele me diz, minha cara Gertrude, que descobriu a origem e a fonte do destempero de teu filho.

GERTRUDE

Eu duvido que seja outro que não o principal, a morte de seu pai e nosso por demais apressado casamento.

CLÁUDIO

Bem, nós o sondaremos. [Entram Voltemand e Cornélio.] Bem vindos, meus bons amigos! Dize, Voltemand, o que vem de nosso irmão Noruega?

VOLTEMAND

Mui agradável retorno de saudações e desejos. À nossa primeira instância, ele mandou suprimir as arregimentações de seu sobrinho, que para ele pareciam ser uma preparação contra o Polaco, mas, melhor inspecionada, ele na verdade descobriu ser contra vossa majestade, com o que, lamentando que assim sua doença, idade, e impotência tenham sido com falsidade aproveitadas, manda conter a Fortimbrás, ao que ele, em suma, obedece, recebe reproche de Noruega e, por fim, faz voto junto a seu tio de nunca mais oferecer o teste de armas contra vossa majestade. Com o que o velho Noruega, tomado de alegria, dá a ele três mil coroas em renda anual, e sua comissão para empregar aqueles soldados, já antes arregimentados, contra os Polacos; com um pedido, aqui melhor explicitado, que vos agrade dar tranquila passagem através de vossos domínios para esta empresa, nos termos de segurança e permissão que aí estão registrados.

CLÁUDIO

Bem nos agrada, e em nosso mais considerado tempo leremos, responderemos, e pensaremos neste assunto. Enquanto isso, agradecemo-vos por vosso bem realizado trabalho: ide a vosso descanso. À noite ceiaremos juntos: muito bem vindos a casa!

POLÔNIO

Este assunto terminou bem. Meu suserano e minha dama, debater o que a majestade deveria ser, o que o dever é, por que o dia é dia, a noite noite, e o tempo é tempo, seria nada mais que desperdiçar noite, dia e tempo. Portanto, uma vez que a brevidade é a alma da sabedoria, e tediosos são os rodeios e floreios superficiais, serei breve. Vosso nobre filho está louco; ‘louco’ é como chamo, pois definir a real loucura, o que é senão ser nada menos que louco? Mas deixa isso de lado.

GERTRUDE

Mais conteúdo, com menos arte.

POLÔNIO

Madame, juro que não uso arte alguma. Que ele ‘stá louco, é verdade; é verdade que é uma pena, e uma pena é que é verdade; uma figura tola, mas adeus a ela, pois não usarei nenhuma arte. Louco o consideremos então; e agora resta que descubramos a causa deste efeito, ou, antes, a causa deste defeito, pois este efeito está defeituoso por alguma causa. E assim resta, e o restante assim. Ponderai. Ofélia! [Entra Ofélia.]3 Eu tenho uma filha, tenho enquanto ela é minha, que, em seu dever e obediência, notai, me deu isto. Agora tirai vossa conclusão.

OFÉLIA

“Para… a… celestial, e ídolo de minh’alma, a mui embelezada Ofélia…”

POLÔNIO

Esta é uma péssima expressão, uma expressão vil, “embelezada” é uma expressão vil, mas ouvireis. Assim:

OFÉLIA

“Em… seus… excelentes… brancos… seios, estes…”

Sai Ofélia.

GERTRUDE

Enviou Hamlet isso a ela?

POLÔNIO

Boa madame, aguarda um pouco, serei fiel. “Duvida tu que as estrelas são fogo, duvida do sol o ardor, duvida da verdade da verdade, mas nunca duvides do meu amor. Ó querida Ofélia, estou cansado dessa métrica, não domino a arte de contar meus gemidos; mas que eu te amo mais que tudo, Oh, muito mesmo, crê-me. Adieu. Teu para todo sempre… mui querida jovem, enqunto este corpo me servir, Hamlet.” Isto, em obediência, mostrou minha filha a mim. e mais ainda, suas abordagens, conforme se deram por tempo, por meio, e lugar, todas entregou a meu ouvido.

CLÁUDIO

Mas como recebeu ela o amor dele?

POLÔNIO

Que pensais de mim?

CLÁUDIO

Como um homem fiel e honrável.

POLÔNIO

Eu o provaria de bom grado. Mas o que poderíeis vós pensar, tendo eu visto este ardente amor a caminho, à medida que o percebia, devo dizê-lo, antes que minha filha mo dissesse, o que poderíeis vós, ou minha cara majestade vossa esposa aqui, pensar, se eu tivesse bancado a escrivaninha ou o caderno, ou fizesse vista grossa ao coração, mudo e silencioso, ou olhado para este amor com vista desatenta, o que poderíeis vós pensar? Não, eu me pus ao trabalho, e a minha jovem dama assim me dirigi: “Lorde Hamlet é um príncipe, fora de tua estrela, isto não deve acontecer.” E então eu preceitos dei a ela, de que ela deveria se abster do seu convívio, de admitir mensgeiro algum, ou receber qualquer lembrança. Feito isso, ela aceitou os frutos de meu conselho, e ele, repelido, para fazer breve o relato, caiu em uma tristeza, então em um jejum, daí em uma vigília, daí em uma fraqueza, daí em uma distração. E por essa declinação, na loucura que ora o domina, e que todos nós lamentamos.

CLÁUDIO

Pensas que é isso?

GERTRUDE

Pode ser, bem provável.

POLÔNIO

Já houve uma tal vez, gostaria eu de saber, em que eu dissesse com segurança “É assim,” e depois se mostrasse de modo diverso?

CLÁUDIO

Não que eu saiba.

POLÔNIO

Separa isto disto, se a coisa for de modo diverso: se as circunstâncias me guiam, encontrarei onde se esconde a verdade, mesmo se ela se escondesse de fato dentro do centro da terra.

CLÁUDIO

Como podemos melhor investigar?

POLÔNIO

Sabeis que por vezes ele chega a caminhar por quatro horas aqui no salão.

GERTRUDE

Assim ele faz, de fato.

POLÔNIO

Em tal hora soltarei minha filha a ele; estejamos vós e eu atrás de uma tapeçaria então, escutemos o encontro; se ele não a amar, e não perdeu daí a razão, que eu não seja assistente de um Estado, mas cuide de uma fazenda e de carroças.

CLÁUDIO

Nós o tentaremos.

Entra Hamlet.

GERTRUDE

Mas vede: lá vem tristonho o pobre infeliz a ler.

POLÔNIO

Afastai-vos, eu vos imploro, afastai-vos ambos, eu o abordarei agora mesmo. Oh, dai-me licença. [Saem Cláudio e Gertrude.] Como vai meu bom lorde Hamlet?

HAMLET

Bem, graças a Deus.

POLÔNIO

Conheces-me, miolrde?

HAMLET

Excelentemente, és um “peixeiro”.

POLÔNIO

Não eu, milorde.

HAMLET

Então quisera eu que fosses homem tão honesto.

POLÔNIO

Honesto, milorde!

HAMLET

Sim, senhor, ser honesto, como vai este mundo, é ser um homem escolhido dentre dez mil.

POLÔNIO

Isso é bem verdade, milorde.

HAMLET

Pois se o sol cria vermes em um cachorro morto, sendo um deus a beijar carniça… Tens uma filha?

POLÔNIO

Eu tenho, milorde.

HAMLET

Não a deixes andar ao sol: a concepção é uma bênção, mas não como pode sua filha conceber. Amigo, presta atenção.

POLÔNIO

Que dizes com isso? Ainda repisando sobre minha filha; entretanto, ele não me reconheceu de início, disse que eu era um peixeiro. ‘Stá muito mal, muito mal; e na verdade em minha juventude eu sofri muita extremidade por amor, bem próximo disso. Falarei com ele novamente. O que lês, milorde?

HAMLET

Palavras. Palavras. Palavras!

POLÔNIO

Qual é o debate, milorde?

HAMLET

Entre quem?

POLÔNIO

Digo, o que se debate no que lês, milorde.

HAMLET

Calúnias, senhor: pois o bandido satírico diz aqui que velhos têm barbas brancas, que suas faces são enrugadas, seus olhos secretando espesso âmbar e goma de ameixeira, e que eles têm uma abundante falta de siso, juntamente com ancas mui fracas; tudo o que, senhor, embora eu com muita força e potência nisso creia, considero pouco honesto assim registrar, pois tu mesmo, senhor, terias a minha idade, se, como um caranguejo, pudesses andar para trás.

POLÔNIO

Embora isso seja loucura, ainda há aí método. Vais sair de cena, milorde?

HAMLET

Para dentro de minha tumba?

POLÔNIO

Com efeito, isso é sair de cena. Quão prenhes às vezes são suas respostas! Uma felicidade que a loucura muita-vez atinge, a qual a razão e a sanidade não poderiam tão prosperamente expressar. Eu o deixarei e incontinenti elaborar os meios de um encontro entre ele e minha filha. Milorde? Milorde, eu tomarei de ti minha licença.

HAMLET

Não podes, senhor, tomar de mim nada a que com mais vontade renunciaria, exceto minha vida. Exceto minha vida. Exceto minha vida.

POLÔNIO

Até breve, milorde.

HAMLET

Esses velhos tolos e tediosos!

Entram Guildenstern e Rosencrantz.

ROSENCRANTZ

Meu honrado lorde!

POLÔNIO

Buscais o Lorde Hamlet? Aqui ele está.

Sai Polônio.

GUILDENSTERN

Meu honrado lorde!

ROSENCRANTZ

Meu mui querido lorde!

HAMLET

Meus excelentes bons amigos! Como vais, Guildenstern? Ah, Rosencrantz! Bons rapazes, como vão ambos?

ROSENCRANTZ

Como as crianças ordinárias da terra.

GUILDENSTERN

Felizes por não estarmos felizes demais, no chapéu da fortuna não somos o próprio botão.

HAMLET

Nem a sola de seu sapato?

ROSENCRANTZ

Também não, milorde.

HAMLET

Então viveis por volta da cintura, ou no meio de seus favores?

GUILDENSTERN

De boa fé, suas pudendas, nós.

HAMLET

Nas partes secretas da fortuna? Oh, bem verdade, ela é uma meretriz. Qual a nova?

ROSENCRANTZ

Nenhuma, milorde, além de ter o mundo se tornado honesto.

HAMLET

Então está o dia do juízo próximo, mas tua notícia não é verdadeira. Deixai-me questionar mais em particular: o que vós, meus bons amigos, mereceram das mãos da fortuna para que ela vos mande para a prisão aqui?

GUILDENSTERN

Prisão, milorde!

HAMLET

A Dinamarca é uma prisão.

ROSENCRANTZ

Então é o mundo uma.

HAMLET

Uma bela prisão, na qual há muitas celas, alas e masmorras, a Dinamarca sendo uma das piores.

ROSENCRANTZ

Nós não pensamos assim, milorde.

HAMLET

Bem, então não é uma para vós, pois não há nada quer bom ou mau, sem que o pensamento assim o faça: para mim ela é uma prisão.

ROSENCRANTZ

Bem, então tua ambição faz dela uma, é estreita demais para tua mente.

HAMLET

Oh, Deus, eu poderia estar confinado em uma casca de noz, e me considerar um rei do espaço infinito, não fora que tenho maus sonhos.

GUILDENSTERN

Sonhos os quais, com efeito, são ambição, pois a substância mesma do ambicioso é meramente a sombra de um sonho.

HAMLET

Um sonho ele mesmo não é senão sombra.

ROSENCRANTZ

Verdadeiramente, e considero a ambição de tão aérea e leve qualidade que não é senão a sombra de uma sombra.

HAMLET

Então são nossos mendigos corpos, e nossos monarcas e celebrados heróis as sombras dos mendigos. Vamos até a corte? Pois, por minha fé, não posso razoar.

ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

Nós te serviremos.

HAMLET

De forma alguma: não vos listarei com o resto de meus criados, pois… para vos falar como um homem honesto, eu sou mui miseravelmente servido. Mas, no caminho batido da amizade, que fazei vós em Elsinore?

ROSENCRANTZ

Visitamo-lo, milorde, nenhuma outra ocasião.

HAMLET

Mendigo que sou, sou mesmo pobre em agradecimentos, mas vos agradeço; e por certo, caros amigos, meus agradecimentos são caros demais por meio vintém. Não fostes vós convocados? É vossa própria inclinação? É uma visita espontânea? Vamos, jogai limpo comigo. Vamos, vamos, não, falai.

GUILDENSTERN

Que devemos dizer, milorde?

HAMLET

Ora, qualquer coisa desde que a propósito. Vós fostes convocados, e há um tipo de confissão em vossas aparências, que vossas modéstias não têm engenho suficiente para disfarçar: eu sei que o bom rei e a rainha mandaram vos chamar.

ROSENCRANTZ

Com que fim, milorde?

HAMLET

Nisso vós deveis me instruir. Mas deixai-me vos conjurar, pelos direitos de nossa parceria, pela consonância de nossa juventude, pela obrigação de nosso sempre-preservado amor, e pelo que mais de caro que melhor proponente vos poderia imputar, sede simples e diretos comigo, se fostes convocados ou não.

ROSENCRANTZ

Que dizes tu?

HAMLET

Não, ora, estou de olho em vós. Se me amais, não escondais.

GUILDENSTERN

Milorde, nós fomos convocados.

HAMLET

Eu vos direi por quê, para que minha antecipação previna vossa descoberta, e vosso segredo para com rei e rainha não se desplume. Eu, recentemente, mas por que eu não sei, perdi todo meu júbilo, descuidei de toda atividade costumeira, e de fato, anda tão pesada minha disposição que esta formosa moldura, a Terra, parece a mim um promontório estéril. Este mui excelente dossel, o ar, vejai bem, este… belo firmamento suspenso, este… majestoso teto crivado de fogo dourado, ora, não parece a mim outra coisa senão uma fétida e pestilenta congregação de vapores. Que singular obra é o homem! Quão nobre em razão! Quão infinito em faculdades! Em forma e movimento, quão expresso e admirável! Em ação, quão parecido a um anjo, em apreensão, quão como um deus! A beleza do mundo! O supra-sumo dos animais! E no entanto, para mim, o que é esta… quintessência do pó? O homem não agrada a mim. Não, nem mulher tampouco, embora sorrindo pareças dizê-lo.

ROSENCRANTZ

Milorde, não havia tal teor em meus pensamentos.

HAMLET

Por que riste então, quando eu disse “o homem não agrada a mim”?

ROSENCRANTZ

Por pensar, milorde, se não te agrada o homem, com que cara de quaresma receberás os atores. Nós passamos por eles no caminho, e eles estão vindo aqui para oferecer-te serviço.

HAMLET

Aquele que representa o rei será bem vindo, sua majestade terá meu tributo. O intrépido cavaleiro usará seu florete e escudo, o amante não suspirará gratis, o tipo cômico terminará seu papel em paz. O palhaço fará rir àqueles cujos pulmões sentirem cócegas e a lady expressará seus pensamentos livremente… ou será o fim do verso branco. Que atores são eles?

ROSENCRANTZ

Aqueles mesmos com que te costumavas deleitar, a companhia de tragédias da cidade.

HAMLET

Como pode ser que eles viajam? Sua residência, tanto em reputação quanto em lucro, era melhor de ambas formas.

ROSENCRANTZ

Eu creio que sua inibição venha por meio da recente inovação.

HAMLET

Detêm eles a mesma estima que quando eu estava na cidade? São eles ainda seguidos?

ROSENCRANTZ

Não, de fato, não o são.

HAMLET

Como pode? Estão eles enferrujados?

ROSENCRANTZ

Não, seu esforço segue no lugar costumeiro; mas há, senhor, uma ninhada de crianças, pequenos filhotes de falcão, que gritam mais alto que todos, e são mui tiranicamente aplaudidos por isso: esses são agora a moda, e tanto vociferam nos palcos públicos, como os chamam, que muitos portando espadas têm medo de penas-de-ganso e mal arriscam chegar perto.

HAMLET

O quê, são crianças? Quem as mantém? Como são elas pagas? Não irão eles perseguir a profissão além de quando puderem cantar? Não dirão mais tarde, se crescerem até serem atores adultos, como é mais provável, se não tiverem outro sustento melhor, que seus escritores os prejudicam fazendo-os exclamar contra sua própria sucessão?

ROSENCRANTZ

Santa fé, tem havido muito rebuliço de ambos lados, e a nação não vê como pecado incitá-los à controvérsia; não houve, por um tempo, oferta em dinheiro por argumento de peça a menos que o poeta e o ator fossem às turras na questão.

HAMLET

É possível?

GUILDENSTERN

Oh, muito miolo tem sido gasto.

HAMLET

E os garotos roubam a cena?

ROSENCRANTZ

Sim, eles roubam, milorde, a Hércules e a sua carga4 também.

HAMLET

Não é muito estranho, pois meu tio é rei da Dinamarca, e aqueles que faziam caretas para ele enquanto meu pai vivia dão vinte, quarenta, cinquenta, cem ducados a unidade por seu retrato em miniatura. Sangue-de-Deus, há algo nisso fora do natural, se a filosofia pudesse descobrir.

Clarinada.

GUILDENSTERN

Aí estão os atores.

HAMLET

Cavalheiros, sejai bem vindos a Elsinore. Vossas mãos, vinde: o acompanhamento das boas vindas é rito e cerimônia. Que eu me reconcilie convosco desta maneira, para que meu tratamento com os atores, que, digo-vos, deve se mostrar muito bela por fora, não pareça acolhida melhor do que a vossa. Mas meu tio-pai e minha “prima”-mãe estão enganados.

GUILDENSTERN

Em que, meu querido lorde?

HAMLET

Eu só estou louco a norte-noroeste: quando o vento é sul eu sei diferenciar um falcão de uma garça.

Entra Polônio.

POLÔNIO

Tudo de bom a vós, cavalheiros!

HAMLET

Ouve, Guildenstern, e tu também, em cada ouvido um ouvinte: aquele grande bebê que lá vedes não saiu ainda de seus cueiros.

ROSENCRANTZ

Talvez ele pela segunda vez venha a eles, pois dizem que um velho é duas vezes criança.

HAMLET

Eu profetizarei que ele vem para me falar dos atores, escuta. Dizes bem, senhor: na segunda de manhã, assim foi de fato.

POLÔNIO

Milorde, tenho notícias a te dizer.

HAMLET

Milorde, tenho notícias a te dizer. Quando Roscius era um ator em Roma…

POLÔNIO

Os atores aqui chegaram, milorde.

HAMLET

Bzz, bzz!

POLÔNIO

Digo, selada minha honra…

HAMLET

…então veio cada ator sobre seu asno.

POLÔNIO

Os melhores atores no mundo, seja para tragédia, comédia, história, pastoral, pastoral-cômico, histórico-pastoral, trágico-histórico, trágico-cômico-histórico-pastoral, cena indivisível, ou poema ilimitado: Sêneca não pode ser pesado demais ou Plauto demasiado leve. Para a lei do escrito e a liberdade, estes são os únicos homens.

HAMLET

Ó Jefté, juiz de Israel, que tesouro tinhas tu!

POLÔNIO

Que tesouro tinha ele, milorde?

HAMLET

Ora, “uma bela filha, e nada mais, a qual ele amava extremamente.”

POLÔNIO

Ainda sobre minha filha!

HAMLET

Não ‘stou eu certo, velho Jefté?

POLÔNIO

Se me chamas Jefté, milorde, eu tenho uma filha que amo extremamente.

HAMLET

Não, não é assim que segue.

POLÔNIO

E como segue então, milorde?

HAMLET

Ora, “Como por acaso, Deus soube”, e então, sabes, “Veio a se dar, como era provável…” O primeiro verso da canção pia te mostrará mais, pois olha onde entra meu corte. [Entram os atores.] Vós sois bem vindos, mestres! Bem vindos todos. Estou feliz em vê-los bem. Bem vindos, bons amigos. Oh, meu velho amigo! Tua face ‘stá forrada desde quando te vi por último, vens me desforrar na Dinamarca? O que, minha jovem moça e senhora! Pela virgem, vossa mocidade está mais perto do céu do que quando te vi por último, pela altitude de um tamanco. Queira Deus tua voz, como um peça de ouro imprópria para circular, não se fenda dentro do anel. Mestres, sois todos bem vindos. Vamos direto ao assunto como falcoeiros franceses, voar sobre qualquer coisa que vemos: teremos uma fala agora mesmo. Vamos, dai-nos uma amostra de vossa qualidade. Vamos, uma fala apaixonada.

PRIMEIRO ATOR

Qual fala, meu bom lorde?

HAMLET

Eu te ouvi proferir-me uma fala uma vez, mas ela nunca foi representada. Ou, se foi, não mais que uma vez, pois a peça, eu me lembro, não agradava ao milhão, era caviar para o populacho, mas era, como a percebi, e outros, cujo julgamento em tais assuntos excediam em muito o meu, uma excelente peça, bem digerida nas cenas, elaborada igualmente com moderação e engenho. Eu me lembro, alguém disse que não havia vulgaridade nas linhas para tornar o conteúdo picante, tampouco conteúdo na frase que possa imputar ao autor afetação, mas reconhecia um método honesto, tão íntegro quanto doce, e por larga margem mais admirável que pretensioso. Uma fala nela principalmente eu adorei: o conto de Enéas para Dido, e todo o trecho, especialmente quando ele fala do assassinato de Príamo; se estiver vivo em tua memória, inicia nesta linha, deixa-me ver, deixa-me ver: “O robusto Pirro, como a besta da Hircânia…”, não é assim.

PRIMEIRO ATOR

Inicia com Pirro.

HAMLET

Inicia com Pirro. “O robusto Pirro, ele cuja armadura negra, sombria como sua intenção, com a noite se parecia quando jazia escondido no portentoso cavalo, tinha então esta temível e negra compleição untada com heráldica mais sinistra, da cabeça aos pés agora ele é todo vermelho, horrivelmente manchado com sangue de pais, mães, filhas, filhos, calcinados e crostosos por conta das ruas ardentes, que emprestam uma tirânica e maldita luz a seus vis assassínios. Queimado em ódio e fogo, e assim coberto com sangue coagulado, com olhos como carbúnculos, o infernal Pirro ao velho ancestral Príamo busca.” E assim, procede tu.

POLÔNIO

Ante Deus, milorde, bem dito, com bom acento e bom discernimento.

PRIMEIRO ATOR

“Em pouco tempo o encontra, golpeando sem alcançar aos gregos; sua antiga espada, rebelde a seu braço, fica onde cai, rejeitando seu comando; num embate desigual, Pirro a Príamo se lança, enfurecido golpeia a esmo; apenas com o sopro e o vento de sua cruel espada o fragilizado pai cai. Então Ílion sem sentidos, parecendo sentir este golpe, com o topo flamejante curva-se a sua base, e com um pavoroso estrondo toma prisioneiro o ouvido de Pirro. Pois veja! sua espada, que declinava sobre a láctea cabeça do reverendo Príamo, parecia no ar presa: assim, como um tirano pintado, quedou Pirro, e, como que indiferente a sua vontade e matéria, nada fez. Mas como com frequência vemos, antes da tempestade, um silêncio nos céus, as nuvens quedam imóveis, os bravos ventos sem fala, e o orbe abaixo mudo como a morte, de pronto o temível trovão estilhaça os céus, então, após a pausa de Pirro, uma vingança despertada o lança novamente ao trabalho, e nunca os martelos de Ciclope caíram sobre a armadura de Marte, forjada para ser eterna, com menos remorso do que a espada sangrenta de Pirro agora cai sobre Príamo. Fora, fora, sua meretriz, Fortuna! Todos vós deuses, em concílio geral, tirai seu poder, quebrai todos raios e o aro de sua roda e lançai o eixo circular pela colina do céu abaixo, até atingir os demônios!”

POLÔNIO

Isto está muito longo.

HAMLET

E vai até o barbeiro, com tua barba. E te rogo que prossigas. Ele prefere um bailado ou uma história obscena, ou ele dorme. Prossegue, vamos até Hécuba.

PRIMEIRO ATOR

“Mas quem, oh, quem houvera visto a rainha sob véus…”

POLÔNIO

“A rainha sob véus?” Isso é bom! “A rainha sob véus” é bom.

PRIMEIRO ATOR

“…correr descalça para cima e para baixo, ameaçando as chamas com lágrimas que cegam, um andrajo sobre aquela cabeça onde outrora o diadema ficava, e por robe, em volta de suas esbeltas e mui paridas ancas, um lençol, no alarme do medo apanhado; quem a isso houvera visto, com a língua em veneno encharcada, contra o Estado da Fortuna sua traição haveria pronunciado; mas se os deuses mesmos a vissem então, quando ela viu Pirro fazer troça maliciosa ao retalhar com sua espada os membros de seu marido, a instantânea erupção de clamor que dela veio, a menos que coisas mortais não os mova de todo, faria leitosos os ardentes olhos dos céus, e coléricos os deuses.”

POLÔNIO

Olha, se ele não mudou sua cor, e tem lágrimas nos olhos. Rogo-te, não mais!

HAMLET

‘Stá bem. Pedirei a ti que digas o restante em breve. Meu bom lorde, podes providenciar que os atores sejam bem alojados? Que eles sejam bem tratados, pois eles são a síntese e a sucinta crônica do tempo; após tua morte seria-te melhor ter um mau epitáfio do que a má estima deles enquanto vives.

POLÔNIO

Milorde, tratarei-os conforme seu merecimento.

HAMLET

Pelo corpo de Deus, homem, melhor! Trate-se todo homem conforme seu merecimento, e quem escaparia do açoite? Trata-os conforme tua própria honra e dignidade: quanto menos eles mereçam, mais mérito há na tua generosidade. Leva-os para dentro.

POLÔNIO

Vinde, senhores.

HAMLET

Segui-o, amigos. Ouviremos uma peça amanhã. Ouves-me, velho amigo? Sabeis vós interpretar “O Assassinato de Gonzago”?

PRIMEIRO ATOR

Sim, milorde.

HAMLET

Nós a teremos amanhã à noite. Vós poderíeis, se necessário, estudar uma fala de uma dúzia ou dezesseis linhas as quais eu escreveria e inseriria nela? Podeis vós?

PRIMEIRO ATOR

Sim, milorde.

HAMLET

Muito bem. Segue aquele lorde e atenção: não caçoes dele. [A Guildenstern e Rosencrantz] Meus bons amigos, eu vos deixarei até a noite; vós sois bem vindos a Elsinore.

ROSENCRANTZ

Muito bem, milorde!

HAMLET

Sim, sim. Adeus. [Saem todos menos Hamlet.] Agora ‘stou sozinho. Oh, que escravo velhaco e rude sou! Não é monstruoso que este ator aqui, apenas em uma ficção, em um sonho de paixão, possa forçar sua alma tão de acordo com sua imaginação que só de trabalhá-la toda sua expressão feneceu, lágrimas em seus olhos, perturbação em seu aspecto, uma voz embargada, e todo seu funcionamento provendo formas a sua imaginação? E tudo por nada! Por Hécuba? O que é Hécuba para ele, ou ele para Hécuba, para que ele chore por ela? E que faria ele, tivesse ele o motivo e a deixa para paixão que tenho eu? Inundaria o palco em lágrimas e penetraria o ouvido geral com horrível discurso, enlouqueceria os culpados, e chocaria os livres, confundiria os ignorantes, e impressionaria, de fato, as próprias faculdades de olhos e ouvidos. No entanto eu, um canalha parvo e de espírito embotado, titubeio, como um joão-nas-nuvens, desincumbido de minha causa, e nada posso dizer. Não, nem por um rei sobre cuja propriedade e mui cara vida um maldito extermínio se deu. Sou eu um covarde? Quem me chama de vilão? Quebra minha cabeça em duas? Arranca minha barba e sopra na minha face? Balança-me pelo nariz? Enfia-me “mentiroso” pela garganta, descendo até os pulmões? Quem me faz isso, ãh? Chagas de Deus! Eu deveria aceitar: pois só pode ser que tenho fígado de pombo, e me falta fel para tornar amarga a opressão, ou antes disso eu deveria engordar todos os abutres do céu com as vísceras deste escravo, maldito e indecente vilão! Sem remorso, enganador, depravado, desumano vilão! Oh, vingança! Ora, que asno sou eu! Isso é mui admirável, que eu, o filho de um caro pai assassinado, empurrado à minha vingança por céu e inferno, deva, como uma prostituta, desafogar meu coração com palavras e pôr-me a xingar como uma meretriz, um verme! Maldição! Ahh! Ao trabalho, cérebro meu! Eu ouvi que criaturas culpadas, na plateia de uma peça, foram, pela argúcia mesma da cena, tocados de tal forma na alma que imediatamente proclamaram suas malfeitorias, pois o assassinato, embora não tenha língua, fala com mui miraculoso órgão. Eu farei com que esses atores representem algo como a morte de meu pai diante de meu tio. Observarei sua aparência, e perscrutá-lo-ei atentamente. Se ele sequer reagir, eu sei como agir. O espírito que vi pode ser o diabo, e o diabo tem o poder de assumir uma forma agradável, sim, e talvez devido a minha fraqueza e melancolia, como ele é muito potente com tais espíritos, engana-me para me pôr a perder. Terei embasamento mais relevante do que isso. A peça é a aquilo com que capturarei a consciência do rei.

Sai.

3.1

Entram Cláudio, Gertrude, Polônio, Ofélia, Guidenstern, Rosencrantz.

CLÁUDIO

E não podeis, com algum diálogo, extrair dele por que aparenta esta confusão, desbastando tão rudemente todos seus dias de quietude com turbulenta e perigosa insanidade?

ROSENCRANTZ

Ele chega a confessar que se sente perturbado, mas por que causa ele não fala de modo algum.

GUILDENSTERN

Nem o achamos disposto a ser sondado, mas, com uma elaborada loucura, mantém-se indiferente quando tentamos levá-lo a alguma confissão de seu real estado.

GERTRUDE

Ele vos recebeu bem?

ROSENCRANTZ

De modo mui cavalheiresco.

GUILDENSTERN

Mas forçando muito sua disposição.

ROSENCRANTZ

Relutante ao diálogo, mas, de nossas questões, mui liberal em sua resposta.

GERTRUDE

Tentastes arrastá-lo a algum passatempo?

ROSENCRANTZ

Madame, deu-se que certos atores nós ultrapassamos no caminho: destes falamos a ele, e pareceu haver nele um tipo de alegria ao disso ouvir; eles estão pela corte, e, conforme penso, eles já têm ordem de esta noite se apresentarem ante ele.

POLÔNIO

É bem verdade, e ele me implorou que suplicasse a vossas majestades que ouçam e vejam do que se trata.

CLÁUDIO

Com todo meu coração! E muito me contenta sabê-lo assim inclinado. Bons cavalheiros, dai a ele mais um incentivo, e encaminhai sua disposição a estes prazeres.

ROSENCRANTZ

Nós o faremos, milorde.

Saem Rosencrantz e Guildenstern.

CLÁUDIO

Doce Gertrude, deixa-nos também, pois nós secretamente chamamos Hamlet aqui, para que ele, como fora por acidente, possa aqui se defrontar com Ofélia; o pai dela e eu mesmo, espiões legítimos, de tal forma nos postaremos que, vendo sem sermos vistos, possamos seu encontro francamente julgar, e colher dele, conforme ele se portar, se é pela aflição de seu amor ou não que assim ele sofre.

GERTRUDE

Eu vos obedecerei. E quanto a ti, Ofélia, de fato desejo que teus bons encantos sejam a feliz causa da loucura de Hamlet, para que eu tenha esperança de que tua virtude o traga a seu modo costumeiro novamente, para ambas vossas honras.

OFÉLIA

Senhora, eu desejo que possa ser isso.

Sai Gertrude.

POLÔNIO

Ofélia, anda por aqui. Majestade, por obséquio; nós nos esconderemos. [A Ofélia] Lê deste livro, de modo que a visão de tal devoção possa pretextar tua solidão. Nós somos muita vez culpados nisto, está muito bem provado, que com a efígie da devoção e ação pia nós açucaramos o próprio diabo.

CLÁUDIO

Oh, é por demais verdadeiro! Que pungente fustigação tais palavras aplicam em minha consciência! A face da meretriz, embelezada com arte emplastrada, não é mais feia para a coisa que a encobre do que o é meu feito para meu mundo tão maquiado. Oh, pesado fardo!

POLÔNIO

Eu o ouço chegar: retiremo-nos, milorde.

Cláudio e Polônio se escondem atrás da tapeçaria. Entra Hamlet.

HAMLET

Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre na mente sofrer as pedras e setas da fortuna enfurecida ou tomar de armas contra um mar de provações e em oposição pô-las a têrmo? Morrer, dormir, não mais, e supor que com um sono eliminemos a dor no coração e as mil mazelas naturais de que a carne é herdeira, é uma consumação a ser devotamente desejada. Morrer, dormir… Dormir! Porventura sonhar: sim, eis o problema, já que nesse sono mortal os sonhos que possam sobrevir, quando já livres deste turbilhão da existência, devem fazer-nos hesitar: eis o respeito que dá vida tão longa à calamidade, pois quem suportaria o açoite e o escárnio do tempo, o agravo do opressor, a ofensa do orgulhoso, as chagas do amor desprezado, o tardar da lei, a insolência da autoridade e os golpes que o mérito paciente de pulhas recebe, quando ele próprio poderia sua quitação obter com um simples punhal? Quem fardos carregaria, grunhindo e suando sob uma vida fatigante, não fosse que o pavor de algo após a morte – a terra indescoberta de cujas raias viajor algum retorna – confunde o arbítrio, e faz-nos antes suportar as dores que temos que fugir a outras as quais ignoramos? Assim faz a consciência de todos nós covardes, e assim o matiz saudável da determinação é acometido do pálido verniz da cogitação, e empresas de grande vigor e importância, com tal consideração, seus cursos desviam-se do rumo, e perdem o nome de ação. Cala-te agora! A bela Ofélia. Ninfa… em tuas orações sejam lembrados todos meus pecados.

Entra Ofélia.

OFÉLIA

Olá milorde, como vai vossa senhoria por estes muitos dias?

HAMLET

Eu humildemente agradeço. Bem, bem, bem.

OFÉLIA

Milorde, eu tenho lembranças tuas que há muito desejo devolver. Rogo-te, recebe-as agora.

HAMLET

Não. Não eu, eu nunca te dei nada.

OFÉLIA

Meu honrado lorde, sabes muito bem que o fizeste, e com elas palavras de tão doce alento compuseste de modo a fazê-las mais caras. Seu perfume perdido, toma isto de novo, pois para a mente nobre presentes caros tornam-se pobres quando quem os deu se prova descortês. Aqui, milorde.

HAMLET

Ha? Ha? És casta?

OFÉLIA

Milorde?

HAMLET

És bela?

OFÉLIA

Que quer dizer vossa excelência?

HAMLET

Que se fores casta e bela, tua castidade não deveria admitir discurso algum a tua beleza.

OFÉLIA

Poderia a beleza, milorde, ter melhor comércio do que com a castidade?

HAMLET

Sim, deveras, pois o poder da beleza transforma antes a castidade do que ela é em uma cafetina do que a força da castidade pode traduzir a beleza a sua feição; isso foi outrora um paradoxo, mas agora o tempo o comprova. Eu te amei uma vez.

OFÉLIA

De fato, milorde, fizeste-me acreditar nisso.

HAMLET

Não devias ter acreditado em mim, pois não se pode enxertar a virtude em nossa natureza decaída até que dela não mais partilhemos: eu não te amava.

OFÉLIA

Eu estava mui enganada.

HAMLET

Vai-te para um convento. Por que serias progenitora de pecadores? Eu mesmo sou razoavelmente honesto, mas ainda assim poderia me acusar de tais coisas que fora melhor que minha mãe não me houvesse parido: sou muito orgulhoso, vingativo, ambicioso, com mais ofensas a meu dispor do que tenho pensamento onde pô-las, imaginação para dar-lhes forma, ou tempo para nelas atuar. Que deveriam sujeitos como eu fazer rastejando entre a terra e o céu? Nós somos rematados crápulas, todos, não creias em nenhum de nós. Toma o rumo de um convento. [Ouve-se um ruído.] Onde ‘stá teu pai?

OFÉLIA

Em casa, milorde.

HAMLET

Que as portas se fechem sobre ele, para que ele não passe por tolo em outro lugar que não sua casa. Adeus.

OFÉLIA

Oh, ajudai-o, doces céus!

HAMLET

Se tu te casares, darei-te esta praga para teu dote, sejas tu casta como o gelo, pura como a neve, não escaparás da calúnia. Vai-te para um convento, vai: adeus. Ou, se precisares mesmo casar-te, casa-te com um tolo, pois homens sábios sabem bem o bastante as coisas que lhes pondes na cabeça. Para um convento, vai, e depressa, ainda por cima. Adeus.

OFÉLIA

Oh, poderes celestes, recuperai-o!

HAMLET

Eu ouço falar de vossa maquiagem o bastante; Deus vos deu uma face, e fazeis para vós mesmas uma outra; usais de cambaleios, requebros e afetações, e apelidais as criaturas de Deus, e disfarçais vossa malícia como ignorância. Vamos, não irei adiante, isto me fez colérico. Eu digo, não teremos mais casamentos. Aqueles que já estão casados, todos menos um, viverão. O restante se manterá como está. Para um convento, vai.

OFÉLIA

Oh, que nobre mente está aqui deposta! Do cortesão, do soldado, do acadêmico, o olho, a língua, a espada, a expectativa e a rosa do formoso Estado, o espelho do costume e o molde da forma, o observado de todos observadores, tão, tão decaídos! E eu, das moças a mais abatida e arrasada, que sorvi o mel de seus musicais votos, agora vejo aquela nobre e mui soberana razão, como doces sinos tocados fora do compasso e estridentes, aquela sem par forma, o aspecto da juventude desabrochada, arruinadas com êxtase. Oh, desgraçada que sou, de ter visto o que vi, ver o que vejo!

Entram Cláudio e Polônio, saindo de detrás da tapeçaria.

CLÁUDIO

Amor? Suas afeições não tendem para esse lado, nem o que ele falou, embora lhe faltasse forma um pouco, não parecia loucura. Há algo em sua alma que sua melancolia está chocando, e eu temo mesmo que o romper do ovo revelará algum perigo; o que para prevenir, eu em rápida determinação assim decidi: ele vai com rapidez para a Inglaterra para a demanda de nosso tributo negligenciado; por ventura os mares, e países diferentes, com objetos variáveis, expulsará esta algo-assentada matéria em seu coração, sobre a qual seu cérebro sempre repisando aparta-o assim de sua própria maneira. Que pensas disso?

POLÔNIO

Fará bem, mas no entanto eu creio que a origem e começo desta tristeza surgiram de amor negligenciado. Pois então, Ofélia! Não precisas nos contar o que Lorde Hamlet disse, nós ouvimos tudo. Milorde, fazei como preferirdes, mas se achais apropriado, depois da peça, deixai a rainha sua mãe sozinha suplicar-lhe que mostre sua mágoa. Seja ela direta com ele, e eu ‘starei posto, se vos agradar, de modo a ouvir toda sua conferência. Se ela não lhe extrair a verdade, para a Inglaterra com ele, ou confinai-o onde vossa sabedoria melhor julgar.

CLÁUDIO

Assim a coisa será encaminhada: loucura em grandes pessoas não deve passar sem ser observada.

Saem.

3.2

Entram Hamlet e três dos Atores.

HAMLET

Diz a fala, rogo-te, como a pronunciei a ti, festivamente na língua; mas se a alardeares, como muitos de vós atores o fazem, preferiria eu que o arauto da cidade dissesse minhas linhas. Nem tampuco serres o ar demasiado com tua mão, assim, mas usa tudo suavemente: pois na própria torrente, tempestade, e, como posso dizer, redemoinho de tua paixão, deves adquirir e engendrar uma temperança que lhe possa dar brandura. Oh, ofende-me até a alma ouvir um estrepitoso sujeito de cabeça emperucada rasgar uma paixão em trapos, em farrapos mesmo, fender os ouvidos dos espectadores do pátio, os quais, em sua maior parte, não são capazes de nada além de inexplicáveis pantomimas e barulho. Eu faria açoitar a tal sujeito por exagerar em Termagant, é mais Heródico do que Herodes: rogo-te que o evites.

ATOR

Eu garanto a vossa senhoria.

HAMLET

Não sejas contido demais também, mas que teu discernimento seja teu tutor: adequa a ação à palavra, a palavra à ação, com esta observação especial, que não vá além da modéstia da natureza: pois qualquer coisa em demasia se afasta da proposta de atuar, cujo fim, tanto no início quanto agora, era e é segurar, como fora, o espelho para a natureza, mostrar à virtude seu próprio aspecto, desdenhar de sua própria imagem, e mesmo à efígie dos tempos atuais sua forma e impressão. Agora, isso em demasia, ou ficando aquém, ainda que faça rir ao incapaz, não pode senão fazer o judicioso lamentar, cujo julgamento deve, em teu reconhecimento, pesar mais que todo um teatro dos outros. Oh, há atores que vi atuar, e ouvi outros elogiarem, e isso efusiva, para não dizer profanamente, que, não tendo sotaque de cristãos, nem trejeito de cristão, pagão, nem homem, de tal forma pavonearam-se e rugiram que pensei que alguns serviçais da natureza fizeram os homens, e não os fizeram bem, tão abominavelmente imitavam eles a humanidade.

ATOR

Espero que tenhamos reformado isso consideravelmente em nós.

HAMLET

Oh, reformai totalmente! E que aqueles que representam vossos palhaços mais não falem do que lhes está escrito: pois os há que farão a si mesmos rir, para incitar uma quantidade de estultos expectadores a rir também, embora entrementes alguma necessária questão da peça deva então ser considerada: isso é uma vilania e mostra uma mui lamentável ambição no tolo que a isso recorre. Ide preparar-vos. [Saem os Atores. Entram Polônio, Guildenstern e Rosencrantz.] Pois bem, milorde! Irá o rei ouvir a esta obra?

POLÔNIO

E a rainha também, e isso imediatamente.

HAMLET

Pede aos atores que se apressem. [Sai Polônio.] Vós dois ajudareis a apressá-los?

ROSENCRANTZ

Nós o faremos, miolrde.

Saem Guildenstern e Rosencratz.

HAMLET

Ora, olá, Horácio!

Entra Horácio.

HORÁCIO

Aqui, doce lorde, a teu serviço.

HAMLET

Horácio, és mesmo o mais justo homem com que jamais minha conversação deparou.

HORÁCIO

Oh, meu caro lorde…

HAMLET

Não, não penses que lisonjeio, pois que benefício posso esperar de ti, que nenhuma renda tens, se não teus bons méritos para alimentá-lo e vesti-lo? Por que se deveriam lisonjear os pobres? Não, que a língua adocicada lamba a pompa absurda, e dobre as juntas prenhes do joelho onde a vantagem pode resultar da adulação. Ouves-me? Desde que minha cara alma é mestra de sua escolha, e pode dentre homens distinguir, sua escolha selou a ti para ela mesma: pois tens sido como alguém, que ao tudo sofrer, nada sofre, um homem que os golpes e recompensas da Fortuna tomaste com igual gratidão: e abençoados são aqueles cujo sangue e julgamento são tão bem conjuminados que não são uma flauta para o dedo da Fortuna tocar o tema que preferir. Dá-me o homem que não é escravo da paixão, e eu o trarei no cerne de meu coração, sim, no coração do coração, como faço a ti. Isto ‘stá algo excessivo. Há uma peça esta noite perante o rei, uma cena dela se aproxima da circunstância, da qual te falei, da morte de meu pai; rogo-te, quando vires este ato em cena, e com toda agudeza de tua alma, observa meu tio. Se sua culpa oculta não se revelar por si mesma em uma fala, é um fantasma maldito aquilo que vimos, e minhas imaginações são tão malévolas quanto a forja de Vulcano. Nota-o atentamente, quanto a mim meus olhos se fixarão em sua face, e, depois, iremos ambos nossos julgamentos juntar na apreciação de sua aparência.

HORÁCIO

Bem, milorde: se ele algo roubar enquanto esta peça é representada, e escapar de detecção, pagarei eu o roubo.

Trompetes e caixas-claras. Entram Cláudio, Gertrude, Polônio, Ofélia, Guildenstern e Rosencrantz.

HAMLET

Eles estão vindo para a peça. Eu devo parecer louco; toma um lugar.

CLÁUDIO

Como passa nosso primo Hamlet?

HAMLET

Excelente, garanto, à dieta do camaleão: eu como o ar, abarrotado de promessas. Não podes alimentar galos assim.

CLÁUDIO

Não tenho nada com esta resposta, Hamlet, estas palavras não são minhas.

HAMLET

Não, nem minhas agora. [A Polônio] Milorde, representaste uma vez na universidade, dizes?

POLÔNIO

Isso fiz eu, milorde, e fui tido em conta de bom ator.

HAMLET

O que encenaste?

POLÔNIO

Eu encenei Júlio César, fui morto no Capitólio, Brutus me matou.

HAMLET

Foi um bruto papel dele matar um bezerro tão capital. Estão os atores prontos?

ROSENCRANTZ

Sim, milorde, aguardam teu consentimento.

GERTRUDE

Vem aqui, meu bom Hamlet, senta ao meu lado.

HAMLET

Não, boa mãe, cá ‘stá metal mais atrativo.

POLÔNIO [A Cláudio]

Oh, ho! Escutais isso?

HAMLET

Senhorita, posso me meter em teu colo?

OFÉLIA

Não, milorde.

HAMLET

Digo, minha cabeça sobre teu colo?

OFÉLIA

Sim, milorde.

HAMLET

Pensas que eu mostraria-me “grosso”?

OFÉLIA

Não penso coisa alguma, milorde.

HAMLET

Eis um pensamento justo para estar entre as pernas de uma donzela.

OFÉLIA

O que é, milorde?

HAMLET

“Coisa” alguma.

OFÉLIA

És brejeiro, milorde!

HAMLET

Quem, eu? Oh, deus, o melhor mestre de folguedos! Que deve um homem fazer senão estar alegre? Pois olha quão contente parece minha mãe, e meu pai morreu não faz duas horas.

OFÉLIA

Não, é duas vezes dois meses, milorde.

HAMLET

Tanto tempo? Então não, que o diabo use preto, pois eu usarei um traje de martas. Oh, Céus! Morrer há dois meses e ainda não esquecido? Então há ‘sperança que a memória de um grande homem possa viver mais que sua vida meio ano; mas, por nos’senhora, ele deve construir igrejas então, ou senão terminará por não ser lembrado; como o cavalinho-de-pau, cujo epitáfio é “Ole lê, Ole lê, o cavalinho-de-pau foi ‘squecido!”

Entram atores como rei e rainha, abraçando-se. Ele se deita e ela o deixa. Outro ator entra, toma a coroa e a beija; despeja veneno no ouvido do rei e sai. A rainha retorna, vê o rei morto e reage apaixonadamente. O assassino retorna com três outros atores, consolando-a. O corpo é levado. O assassino corteja a rainha, que o rejeita inicialmente mas termina por ceder. Saem.

OFÉLIA

Que significa isso, milorde?

HAMLET

Afe, isto é “miching mallico”, quer dizer malfeitoria.

OFÉLIA

Talvez esta apresentação importe o argumento da peça.

Entra o Ator-Prólogo.

HAMLET

Saberemos por este camarada: os atores não sabem manter segredo, eles dizem tudo.

OFÉLIA

Dirá ele o que significou esta apresentação?

HAMLET

Sim, ou o que lhe apresentares; mostra, ele não terá vergonha de dizer-te o que significa.

OFÉLIA

És impertinente, és impertinente: Terei atenção à peça.

ATOR-PRÓLOGO

Para nós, e nossa trágica encenação, aqui apelando a vossa compreensão, imploramos vossa paciente audição.

Sai.

HAMLET

É isso um prólogo, ou a inscrição em um anel?

OFÉLIA

É breve, milorde.

HAMLET

Como amor de mulher.

Entram Ator-rei e Atriz-rainha.5

ATOR-REI

Completas trinta vezes a carruagem de Febo veio a contornar a extensão salgada de Netuno e o chão de Tellus globular, e trinta dúzias de luas com lume emprestado em volta do mundo revolveram doze por trinta vezes multiplicado, desde que o amor a nossos corações e Himeneu a nossas mãos, uniram recíprocos em laços mui cristãos.

ATRIZ-RAINHA

Tantas jornadas possam o sol e a lua fazer-nos novamente contar antes que o amor se conclua! Mas, pobre de mim, vós tendes estado adoentado, tão longe d’alegria e de nosso prévio estado, que temo por vós. Ainda assim, embora eu tema, de desconforto a vós, milorde, isto não seja tema: pois o medo e o amor das mulheres mantêm quantidade, seja em nulo, ou em enormidade. Agora, o que meu amor é, provas vos fizeram sabedor, e como meu amor é dimensionado, também é o meu temor. Onde o amor é grande, as menores dúvidas são pavores; quando pequenos receios tornam-se grandes, tais são os grandes amores.

ATOR-REI

De boa fé, eu devo deixar-te, amor, e deveras brevemente, minhas forças vitais suas funções já minguam entrementes. E tu viverás ainda neste belo mundo, honrada, amada, e por ventura alguém tão fecundo por marido tu…

ATRIZ-RAINHA

Oh, poupai-me do resto! Tal amor a meu peito seja adultério molesto. Um segundo marido seja a maldição de minha sina! Ninguém se casa com o segundo senão quem o primeiro assassina.

HAMLET

Isso é um remédio amargo!

ATRIZ-RAINHA

As instâncias para um segundo casamento são chãos respeitos de vantagem, mas não de sentimento. Uma segunda vez meu marido mato quando com segundo marido me entrego ao ato.

ATOR-REI

De fato creio que pensas o que agora dizes, loquaz, mas aquilo que determinamos com frequência se desfaz. O propósito é apenas escravo da lembrança; de violento nascimento, mas pobre perseverança; que agora, como fruta verde, da árvore pode pender, mas cai sem sacodir quando amadurecer. Mui necessário é que seja esquecido o pagamento a nós mesmos do que a nós mesmos é devido. O que para nós mesmos em paixão propusemos, finda a paixão, seu propósito cessa não menos. A violência, seja de dor ou prazer, seus próprios efeitos a elas mesmas costumam desfazer. Onde a alegria mais festeja, mais lamenta a mágoa, a dor alegra, a alegria dói, com um mero pingo d’água. Este mundo não é para sempre, nem é de espantar que mesmo nossos amores devam com nossas fortunas mudar; pois é uma questão que facilmente não se deduz, se o amor à fortuna, ou a fortuna ao amor conduz. Caído o grande homem, observa seus aduladores antigos; o pobre, se prospera, amigos faz dos inimigos; e até aqui o amor à fortuna acompanha; pois a quem não faz falta ter um amigo não é façanha, e quem necessitado um amigo oco experimenta, no mesmo ato um inimigo acrescenta. Mas, para ordeiramente de onde parti terminar, nossas vontades e destinos estão tão constantemente a lutar que nossa intenção é sempre frustrada; nossos pensamentos são nossos, seus resultados de nós não dependem em nada. Então pensa que segunda núpcia nunca pode acontecer, mas morrem teus pensamentos quando o primeiro lorde perecer.

ATRIZ-RAINHA

Nem me dê a terra alimento, nem o céu luz, se for assim! Diversão e repouso retira dia e noite de mim! Em desespero transforma minha confiança e esperança! O júbilo de um anacoreta na prisão seja minha herança! Cada adversidade que a face d’alegria descorar recaia sobre o que quero bem, para tudo arrasar! Tanto aqui como para além, persiga-me duradouro tormento, se, uma vez viúva, eu jamais contrair casamento!

HAMLET

Se ela quebrar a promessa agora!

ATOR-REI

‘Stá profundamente jurado. Meu doce, deixa-me aqui descansar, minha energia fenece, e com prazer eu poderia enganar o tedioso dia com sono.

ATRIZ-RAINHA

O sono teu cérebro embale, e nunca infortúnio entre nós se instale!

Sai.

HAMLET

Senhora, o que achas da peça?

GERTRUDE

A mulher protesta demais, penso eu.

HAMLET

Oh, mas ela manterá a palavra.

CLÁUDIO

Ouviste o argumento? Não há ofensa nele?

HAMLET

Não, não! Eles apenas gracejam, veneno em gracejo, não há ofensa alguma.

CLÁUDIO

Como chamas a peça?

HAMLET

“A Ratoeira”. Afe, como? Metaforicamente. Esta peça é a imagem de um assassinato cometido em Viena. Gonzago é o nome do duque, sua esposa, Batista. Verás logo. É uma obra de velhacaria, mas e daí? A vossa majestade, e a nós que temos almas livres, ela não toca; que o pangaré alquebrado se assuste, nossos cangotes não ‘stão assados. [Entra o Ator-Lucianus.] Este é um certo Lucianus, sobrinho do rei.

OFÉLIA

És um bom coro, milorde.

HAMLET

Eu poderia interpretar entre ti e teu amor, se pudesse ver os “títeres” sacolejando.

OFÉLIA

Estás afiado, milorde. Estás afiado.

HAMLET

Custar-te-ia um gemido para tirar-me o “gume”.

OFÉLIA

Assim segues, na alegria e na tristeza.

HAMLET

É o que jurai a vossos maridos. Começa, assassino; peste, deixa tuas malditas caretas, e começa. Vem: “O corvo crocitante brada por vingança.”

ATOR-LUCIANUS

“Pensamentos negros, mãos aptas, drogas apropriadas, e tempo favorecendo, momento aliado, nenhuma outra criatura vendo, tu, mistura fétida, de toda erva da meia-noite coletada, com a maldição de Hécate três vezes atingida, três vezes infectada, tua mágica natural e temível contato, a vida íntegra usurpa de imediato.”

Derrama o veneno nos ouvidos do Ator-rei.

HAMLET

Ele o envenena no jardim por seu patrimônio. Seu nome é Gonzago: a história está preservada, e é ‘scrita em mui rebuscado italiano; verás em breve como o assassino consegue o amor da esposa de Gonzago!

OFÉLIA

O rei se levanta!

HAMLET

O que, assustado com fogo falso!

GERTRUDE

Como passa milorde?

POLÔNIO

Interrompei a peça!

CLÁUDIO

Dai-me um pouco de luz. Vamos embora!

POLÔNIO

Luzes, luzes, luzes!

Saem todos menos Hamlet e Horácio.

HAMLET

Horácio! Horácio! Ora, que a gazela atingida vá chorar, o cervo brinque indene, pois uns devem velar, enquanto outros devem dormir: eis o mundo, perene. Não poderia isto, senhor, e uma floresta de plumas, se o resto de minhas fortunas bancarem o Turco comigo, com duas rosas provençais em meus sapatos enfeitados, conseguir-me uma participação em uma trupe de atores?

HORÁCIO

Meia participação.

HAMLET

Uma inteira, eu. Pois tu sabes, ó caro Damon, este reino foi despido de Jove, um monumento, e agora reina aqui um completo… pavão.

HORÁCIO

Podias ter rimado.

HAMLET

Ó bom Horácio, eu tomo a palavra do fantasma por mil libras! Percebeste?

HORÁCIO

Muito bem, milorde.

HAMLET

Ao se falar em envenenamento?

HORÁCIO

Eu o observei muito bem.

HAMLET

Ah, ha! Vamos, um pouco de música! Vamos, as flautas! Pois se o rei não gostar da comédia, pois então, talvez ele não goste, “par dieu”. Vamos, um pouco de música!

Entram Guildenstern e Rosencrantz.

GUILDENSTERN

Meu bom lorde, cencede-me uma palavra contigo.

HAMLET

Senhor, uma história inteira.

GUILDENSTERN

O rei, senhor…

HAMLET

Sim, senhor, o que há com ele?

GUILDENSTERN

…’stá, em seu descanso, tremendamente destemperado.

HAMLET

Com bebida, senhor?

GUILDENSTERN

Não, milorde, antes com cólera.

HAMLET

Tua sabedoria se mostraria mais rica ao significar isto ao médico. Pois levá-lo eu a sua purgação pode talvez mergulhá-lo em mais cólera.

GUILDENSTERN

Meu bom lorde, põe teu discurso em algum arranjo, e não fujas tão insanamente de meu assunto.

HAMLET

‘Stou manso, senhor: pronuncia.

GUILDENSTERN

A rainha, tua mãe, em mui grande aflição d’espírito, enviou-me a ti.

HAMLET

És bem vindo.

GUILDENSTERN

Não, meu bom lorde, esta cortesia não é da lavra correta. Se te agradar dar-me uma resposta sã, cumprirei o comando de tua mãe; senão teu perdão e meu retorno serão o fim de minha atribuição.

HAMLET

Senhor, eu não posso.

ROSENCRANTZ

O quê, milorde?

HAMLET

Dar-te uma resposta sã, meu juízo ‘stá adoecido; mas, senhor, tal resposta como posso eu dar, tu comandarás, ou antes, como dizes, minha mãe; portanto não mais, mas ao assunto: minha mãe, dizes…

ROSENCRANTZ

Então assim diz ela: teu procedimento a encheu de estupefação e espanto.

HAMLET

Ó maravilhoso filho, que pode assim espantar uma mãe! Mas não há continuação aos calcanhares desta admiração materna? Relata.

ROSENCRANTZ

Ela deseja falar contigo em seus aposentos antes de ires para a cama.

HAMLET

Nós obedeceremos, fosse ela dez vezes nossa mãe. Tendes vós qualquer negócio ulterior conosco?

ROSENCRANTZ

Milorde, já uma vez me amaste.

HAMLET

E assim ainda faço, por estas punguistas e ladras. [Mostra as mãos.]

ROSENCRANTZ

Meu bom lorde, qual é a causa de teu destempero? Tu, certamente, bloqueias a porta a tua própria liberdade se negares tuas mágoas a teu amigo.

HAMLET

Senhor, sou sempre preterido.

ROSENCRANTZ

Como pode ser, quando tens a palavra do próprio rei para tua sucessão na Dinamarca?

HAMLET

Sim, senhor, mas “enquanto cresce a grama…” o provérbio é um tanto antiquado. [Entram os flautistas.] Oh, os flautistas: deixa-me ver uma. Para encerrar contigo: por que circulas por aí buscando a vantagem do vento, como se fosses conduzir-me a uma armadilha?

GUILDENSTERN

Oh, milorde, se meu empenho for por demais enfático, meu amor é por demais descortês.

HAMLET

Eu não entendo bem isso. Tocarias esta flauta?

GUILDENSTERN

Milorde, eu não o posso.

HAMLET

Eu te rogo.

GUILDENSTERN

Crê-me, eu não posso.

HAMLET

Eu te imploro.

GUILDENSTERN

Eu nunca a toquei, milorde.

HAMLET

É fácil como mentir. Governa estes furos com teus dedos, dá-lhe sopro com tua boca, e ela discursará mui eloquente música. Vê, estas são as chaves.

GUILDENSTERN

Mas a elas eu não posso comandar nenhuma emissão de harmonia, eu não tenho a habilidade.

HAMLET

Ora, olha agora, quão indigna coisa farias de mim! Tu tocarias a mim, parecias conhecer minhas chaves, pinçarias o coração de meu mistério, soarias-me de minha mais baixa nota até o topo de meu compasso, e há muita música, excelente voz, neste pequeno órgão, no entanto não podes fazê-lo falar. Sangue de Deus, pensas que sou mais fácil de ser tocado do que uma flauta? Chama-me de qual instrumento quiseres! Muito embora possas me dedilhar, ainda assim, não podes me tocar. [Entra Polônio.] Deus te abençoe, senhor!

POLÔNIO

Milorde, a rainha deseja falar com o senhor, e imediatamente.

HAMLET

Vês aquela nuvem que tem quase o formato de um camelo?

POLÔNIO

Santa misericórdia, e ela é como um camelo com efeito.

HAMLET

Penso eu que parece um doninha.

POLÔNIO

Tem as costas de uma doninha.

HAMLET

Ou uma baleia.

POLÔNIO

Parece bastante uma baleia.

HAMLET

Então irei a minha mãe num instante. Dobram-me até o fim de minha envergadura. Irei num instante.

POLÔNIO

Eu o direi.

HAMLET

“Num instante” se diz facilmente. Deixai-me, amigos.

Saem.

3.3 (tranposição)

Entram Cláudio, Guildenstern e Rosencrantz.

CLÁUDIO

Ele me desagrada, tampouco é seguro para nós deixar sua loucura à solta. Portanto preparai-vos, eu vossa comissão prontamente despacharei, e ele para a Inglaterra irá juntamente convosco: os termos de nosso reinado não podem suportar tão perigosa ameaça quanto a que a cada hora cresce a partir de suas demências.

GUILDENSTERN

Nós mesmos nos aprontaremos; mui sacro e religioso temor é manter aqueles muitos corpos seguros que vivem e se alimentam por vossa majestade.

ROSENCRANTZ

A particular e privada vida ‘stá fadada, por toda a força e armadura da mente, a se afastar de incovenientes, mas muito mais aquele espírito de cujo bem-estar dependem e no qual se apoiam as vidas de muitos. O cessar da majestade não morre só, mas como um golfo arrasta o que ‘stá perto com ele. É uma massiva roda, fixa no cume do mais alto monte, a cujos imensos raios dez mil coisas menores estão atreladas e contíguas, as quais, quando ela cai, cada pequeno anexo, consequência irrelevante, participa da estrepitosa ruína. Nunca sozinho o rei suspirou, sem um gemido generalizado.

CLÁUDIO

Preparai-vos, rogo eu, para esta apressada viagem, pois nós amarra poremos a este medo, que ora segue com pés por demais livres.

ROSENCRANTZ

Nós nos apressaremos.

Entra Polônio.

POLÔNIO

Milorde… ele ‘stá indo aos aposentos de sua mãe; atrás da tapeçaria irei me postar para ouvir como tudo procede, garantirei que ela o censurará severamente; e, como dissestes, e com sabedoria foi dito, é apropriado que alguma audiência mais que uma mãe, já que a natureza as faz parciais, deva escutar a conversa, oculto. Adeus, suserano meu: eu vos chamarei antes de irdes para a cama, e vos contarei o que souber.

CLÁUDIO

Obrigado, meu caro lorde.

Saem. Entra Hamlet.

HAMLET6

É agora mesmo a hora bruxuleante da noite, quando os cemitérios bocejam, e o próprio inferno exala contágio a este mundo; agora poderia eu beber sangue quente, e realizar tal amargo mister que o dia tremeria ao contemplar. Basta! Agora até minha mãe. Ó coração, não percas tua natureza, não deixes nunca a alma de Nero entrar neste firme peito: que eu seja cruel, não desnaturado, falarei adagas a ela, mas não usarei nenhuma. Minha língua e alma nisto sejam hipócritas, como quer que com palavras eu carregue nas tintas, dar a elas feitos nunca, minh’alma, consintas!

Sai. Entra Cláudio.

CLÁUDIO

Oh, meu crime é fétido, cheira até aos céus, tem a primeva maldição ancestral sobre ele, a morte de um irmão! Rezar eu não posso, embora a inclinação seja aguda como a vontade: minha culpa mais forte derrota meu forte intento, e, como homem a duplo afazer atado, detenho-me em pausa onde devo primeiro começar, e a ambos negligencio. E se esta mão maldita estivesse com o dobro da espessura, só com sangue de irmão? Não há chuva suficiente nos doces céus para lavá-las tal que fiquem brancas como neve? Para que serve a misericórdia senão para cofrontar o semblante do crime? E o que ‘stá na reza senão esta força dúplice, a sermos protegidos antes que venhamos a cair, ou perdoados tendo caído? Então erguerei a cabeça, minha culpa é passada. Mas, oh, que forma de prece pode servir a meu pleito? “Perdoai-me o torpe assassínio?” Isso não pode ser, uma vez que ainda estou na posse daqueles efeitos pelos quais cometi o assassínio, minha coroa, minha própria ambição, e minha rainha. Pode alguém ser perdoado e reter o produto do crime? Nas correntes corrompidas deste mundo a mão doirada do crime pode afastar a justiça, e muita-vez se vê que o próprio prêmio nefasto compra a lei, mas não é assim acima, não há como escapar, lá a ação aparece em sua verdadeira natureza, e nós mesmos somos compelidos, confrontados com a face de nossas faltas, a fornecer provas. E então? O que resta? Experimenta o que pode o arrependimento; o que não pode ele? No entanto que pode ele quando não se pode arrepender-se? Ó estado desgraçado! Ó seio negro como a morte! Ó alma capturada, que, debatendo-se para ser livre, és mais enredada! Socorro, anjos! Faz uma tentativa: dobrai, joelhos teimosos, e, coração, com cordas de aço, sê macio como tendões do bebê recém-nascido! Tudo pode ficar bem.

Entra Hamlet.

HAMLET

Agora eu posso fazê-lo oportunamente, agora ele ‘stá rezando, e agora o farei, e assim ele vai para o céu, e asssim eu sou vingado. Isso seria bem considerado! Um vilão mata meu pai, e por isso, eu, seu único filho, mando esse mesmo vilão para o céu? Oh, isso é contratar a salário, não vingança. Ele levou meu pai despreparado, sem confissão, com todos seus crimes mui desabrochados, no vigor de maio; e como fica sua auditoria, quem sabe salvo os céus? Mas em nossa experiência e lógica de pensamento, não lhe pode ser leve. E sou eu assim vingado, levando-o no ato de purgar sua alma, quando ele está pronto e preparado para sua passagem? Não! Recolhe-te, espada, e encontra uma ocasião mais horrível: quando ele ‘stiver embriagado, dormindo, ou em sua fúria, ou no prazer incestuoso de sua cama, jogando, blasfemando, ou ocupado em algum ato que não tem traço algum de salvação em si, e então dá-lhe uma rasteira, tal que seus calcanhares chutem o céu, e sua alma seja tão danada e negra quanto o inferno, para onde ela vai. Minha mãe aguarda; este remédio apenas tua vida enferma alarga.

Sai.

CLÁUDIO

Minhas palavras voam alto, meus pensamentos beiram o chão; palavras sem pensamentos nunca para o céu vão.

Sai.

3.4

Entram Gertrude e Polônio.

POLÔNIO

Ele virá sem demora. Trata de repreendê-lo: diz-lhe que suas travessuras foram longe demais para aceitar, e que vossa majestade o protegeu e antepôs-se entre muita fúria e ele. Eu me resguardarei aqui mesmo. Rogo-te, sê direta com ele.

GERTRUDE

Eu te asseguro, não temas por mim!

HAMLET

Mãe, mãe, mãe!

GERTRUDE

Recolhe-te, eu o ouço vindo.

Polônio esconde-se atrás da tapeçaria.

HAMLET

Então, mãe, qual é o problema?

GERTRUDE

Hamlet, tu a teu pai muito ofendeste.

HAMLET

Mãe, tu a meu pai muito ofendeste.

GERTRUDE

Vamos, vamos, respondes com uma língua ensandecida.

HAMLET

Vai, vai, questionas com uma língua malévola.

GERTRUDE

Ora, que é isso, Hamlet!

HAMLET

Qual é o problema agora?

GERTRUDE

Esqueceste-te de mim?

HAMLET

Não, pela cruz, não mesmo: és a rainha, mulher do irmão de seu marido, e, quisera não fosse assim, és minha mãe.

GERTRUDE

Pois então, eu te trarei aqueles que podem falar.

HAMLET

Vem, vem e te senta, não te moverás, não te vais até que eu te apresente um espelho em que possas ver a parte mais interior de ti.

GERTRUDE

Que vais fazer? Não me matarás? Socorro, socorro, oh!

POLÔNIO

O que, oh! Socorro, socorro, socorro!

HAMLET

Morre, por um ducado, morre!

Apunhala Polônio através da tapeçaria.

POLÔNIO

Oh, fui assassinado!

GERTRUDE

Oh, céus, o que fizeste?

HAMLET

Ora, eu não sei: é o rei?

GERTRUDE

Oh, que precipitado e sangrento ato é este!

HAMLET

Um ato sangrento! Quase tão mau, boa mãe, quanto matar um rei, e casar-se com seu irmão.

GERTRUDE

Quanto matar um rei!

HAMLET

Sim, senhora, foi essa minha palavra. [Revela o corpo de Polônio.] Tu, tolo desgraçado, impetuoso, intrometido, adeus! Eu te tomei por teu melhor; recebe tua fortuna, descobriste que intrometer-se demais é um tanto perigoso. [À mãe] Deixa de torcer tuas mãos. Quieta! Senta-te, e deixa-me torcer teu coração pois assim farei, se ele for feito de matéria penetrável, se maldito costume não o endureceu a ponto de ser ele imune e fortificado contra a razão.

GERTRUDE

Que fiz eu para que ouses empregar tua língua em tão rude ruído contra mim?

HAMLET

Um ato tal que borra a graça e o rubor da modéstia, chama a virtude de hipócrita, tira a rosa da formosa testa de um amor inocente e lá deixa a marca da infâfmia, faz os votos do matrimônio tão falsos quanto juras de jogadores; oh, um ato tal que do corpo do matrimônio arranca a própria alma, e da doce religião faz um amontoado de palavras. A face do céu brilha sobre a terra firme e seus elementos com semblante tristonho, como se antecedesse o juízo, e fica horrorizada com o ato!

GERTRUDE

Ai de mim, que ato, que ressoa tão alto, e troveja já no índice?

HAMLET

Olha aqui, este retrato, e este, a representação contrafeita de dois irmãos. Vê, que graça assentava nesta face, os cachos de Hipérion, a fronte do próprio Jove, um olho como Marte, para ameaçar e comandar, uma atitude como o mensageiro Mercúrio recém apeado sobre uma colina que beija o céu, uma combinação e uma forma de fato, onde Deus parecia imprimir seu selo, para dar ao mundo a segurança de um homem: este era teu marido. Olha agora, o que sucede: cá ‘stá teu marido, como uma espiga tomada de fungos, infectando seu irmão saudável. Tens olhos? Poderias nesta agradável montanha deixar de se alimentar, e engordar nesta charneca? Rá! tens olhos? Não podes chamá-lo de amor, pois em tua idade a agitação no sangue está domada, é humilde, e obedece ao julgamento; e qual julgamento passaria disto a isto? Razão, certamente, tens, senão não terias movimento, mas, certamente, essa razão sofreu uma apoplexia, pois a loucura não erraria, nem a razão nunca esteve tão aprisionada, mas reservava alguma quantidade de escolha, para servir em tal diferença. Que demônio foi que assim te ludibriou na cabra-cega? Olhos sem sentimento, sentimento sem visão, ouvidos sem mãos ou olhos, olfato sem tudo, ou apenas uma parte doente de um verdadeiro sentido não poderiam ser tão desnorteados. Oh, que vergonha! Onde está teu rubor? Inferno revoltoso, se podes te amotinar nos ossos de uma matrona, para a flamejate juventude que a virtude seja como cera, e derreta em seu próprio fogo. Não se proclame vergonha quando o ardor compulsivo der a investida, já que a própria geada tão ativamente queima e a razão é alcoviteira do desejo!

GERTRUDE

Ó Hamlet, não fales mais: viras meus olhos sobre minha própria alma, e lá vejo tais negras e entranhadas manchas que não abandonam sua cor.

HAMLET

Não, mas viver no fétido suor de uma cama ensebada, cozida em corrupção, namoriscando e fazendo amor sobre a pocilga infame!

GERTRUDE

Oh, não me fales mais, estas palavras como adagas entram em meus ouvidos! Não mais, doce Hamlet!

HAMLET

Um assassino e um vilão, um escravo que não é a vigésima parte do décimo de teu lorde precedente, um Vício7 entre reis, um punguista do império e da ordem, que de uma estante o precioso diadema roubou, e o pôs em seu bolso!

GERTRUDE

Não mais!

HAMLET

Um rei de farrapos e retalhos! [Entra o Fantasma.] Salvai-me, e pairai sobre mim com vossas asas, vós guardas celestiais! O que deseja tua graciosa figura?

GERTRUDE

Meu Deus, ele ‘stá louco!

HAMLET

Não vens tu teu tardo filho repreender, que, falho em tempo e paixão, deixa de lado a importante realização de teu solene comando? Oh, diz!

FANTASMA

Não te esqueças: esta visitação é apenas para aguçar teu propósito já quase sem gume. Mas, olha, o espanto em tua mãe se assenta. Oh, intervém entre ela e sua alma em luta. A imaginação nos mais fracos corpos mais forte atua. Fala com ela, Hamlet.

HAMLET

Como estás, senhora?

GERTRUDE

Ai, como estás tu, que volta teu olho ao vazio e com o ar incorpóreo mantém discurso? Tua alma parece querer sair, furiosa, pelos olhos. E, qual soldados dormindo quando é soado alarme, teu assentado cabelo, como fora vida em partes inanimadas, eriça-se, e mantém-se em pé. Ó gentil filho, sobre o calor e o fogo de teu desarranjo esparge fresca paciência. Para onde olhas?

HAMLET

Para ele. Para ele! Olha, quão pálido ele rutila! Sua forma e causa conjuminadas, pregando a pedras, fariam-nas suscetíveis. [Ao Fantasma.] Não olhes para mim, e evita assim que com esta ação piedosa convertas meus firmes propósitos, tal que minha missão ficará aquém: lágrimas, talvez, em vez de sangue.

GERTRUDE

A quem dizes isso?

HAMLET

Não vês nada lá?

GERTRUDE

Nada mesmo, embora veja tudo que existe.

HAMLET

Nem nada ouviste?

GERTRUDE

Não, nada a não ser nós mesmos.

HAMLET

Como, olha para lá! Olha, como ele vai-se indo! Meu pai, em seu hábito como se fora vivo! Olha, aonde ele vai, agora mesmo, ali no portal!

Sai o Fantasma.

GERTRUDE

Isto é a própria fabricação de teu cérebro: este incorpóreo frenesi da criação é muito engenhoso.

HAMLET

Frenesi! Meu pulso, como o teu, temperadamente mantém o tempo, e faz música igualmente saudável; não é loucura o que proferi; põe-me à prova, e eu porei o assunto em outras palavras, e disso a loucura passaria longe. Mãe, por amor da graça… não apliques esta unção lisonjeira em tua alma, que não tua ofensa, mas minha loucura se manifesta: isso vai apenas cobrir e mascarar o local ulceroso, enquanto fétida corrupção, minando tudo por dentro, infecta sem ser vista. Confessa a ti mesma ante o céu, arrepende-te do que passou, evita o que ‘stá por vir, e não espalhes compostagem nas ervas daninhas, para torná-las mais viçosas. Perdoa esta minha virtude, pois na rudeza destes tempos indolentes a própria virtude ao vício deve pedir perdão, sim, curvar-se e implorar pela autorização para fazer-lhe bem.

GERTRUDE

Ó Hamlet… tu fendeste meu coração em dois.

HAMLET

Oh, joga fora a pior parte dele, e vive mais pura com a outra metade. Boa noite; mas não vás para a cama de meu tio, adota uma virtude, se não a tens. Aquele monstro, o costume, que a toda razão come, em seus hábitos um demônio, é anjo no entanto nisto, que ao uso de ações belas e boas ele igualmente dá uma capa ou farda, que é prontamente vestida. Abstém-te esta noite, e isso conferirá uma espécie de facilidade à próxima abstinência: a próxima mais fácil, pois o uso quase pode mudar a marca da natureza, e ou envergonha o diabo, ou o atira fora com maravilhosa potência. Uma vez mais, boa noite; e quando estiver desejosa de ser abençoada, eu a bênção pedirei de ti. Quanto a este mesmo lorde, eu de fato me arrependo, mas aos céus assim aprouve, punir-me com isto e isto comigo, que eu devesse ser seu flagelo e ministro. Eu o alojarei, e responderei bem à morte que lhe dei. Então, novamente, boa noite. Eu devo ser cruel, apenas para ser gentil; assim começa o mau e pior ainda não se viu. Uma palavra mais, boa senhora.

GERTRUDE

Que farei eu?

HAMLET

Não isso, de modo algum, que eu lhe ordenei fazer: deixa o rei incontinente arrastar-te novamente à cama, beliscar lascivo tua bochecha, chamar-te seu camundongo, e deixa-o, a troco de um par de beijos imundos, ou carícias em teu pescoço com seus dedos malditos, fazê-la revelar toda a verdade, que eu essencialmente louco não estou, mas louco por logro. Seria bom que o pusesses a par, pois quem, sendo nada menos que uma rainha, bela, sóbria, sábia, iria de um sapo, de um morcego, de um gato, tais caras questões esconder? Quem assim faria? Não, a despeito de razão e segredo, abre o cesto no topo da casa, deixa voarem os pássaros; e, como o famoso macaco, para fazer um experimento, para dentro do cesto desliza, e quebra teu próprio pescoço caindo.

GERTRUDE

Estejas certo, se palavras forem feitas de sopro, e o sopro de vida, não tenho vida para soprar o que disseste a mim.

HAMLET

Eu devo ir à Inglaterra, sabes disso?

GERTRUDE

Ai, eu esquecera. Assim foi acertado.

HAMLET

Há cartas seladas, e meus dois colegas de escola, nos quais confiarei como em víboras, portam o mandado, devem preparar-me o caminho, e escortar-me para a velhacaria. Que vá adiante, pois é divertido que o autor da trama seja explodido com seu próprio petardo; e será difícil, mas eu cavarei uma jarda abaixo de suas minas, e os detonarei, lançando-os até a lua. Oh, é mui doce, quando em uma linha dois engenhos diretamente se encontram. Este homem vai me despachar daqui. Arrastarei as vísceras até o quarto vizinho. Mãe, boa noite de verdade. Este conselheiro ‘stá agora mui estático, discreto como um caixão, tendo sido em vida um atoleimado patife falastrão. Vem, senhor, para chegar a um fim contigo. Boa noite, mãe.

Sai Hamlet. Gertrude permanece.

4.1

Entram Cláudio, Guildenstern e Rosencrantz.

CLÁUDIO

Há substância nestes suspiros, este profundo arfar deves traduzir: é apropriado que os entendamos. Onde ‘stá teu filho?

GERTRUDE

Reservai-nos este lugar um pouco. [Saem Guldenstern e Rosencrantz.] Ah, meu bom lorde, o que eu vi esta noite!

CLÁUDIO

O que, Gertrude? Como está Hamlet?

GERTRUDE

Louco como o mar e o vento, quando ambos disputam qual é o mais poderoso. Em seu acesso desmedido, atrás da tapeçaria ouvindo algo se mover, desembainha seu florete, grita, “Um rato, um rato!” e, nesta turbulenta apreensão, mata ao bom ancião escondido.

CLÁUDIO

Oh, que cruel ato! Teria sido assim a nós, se estivéssemos lá. Sua liberdade é plena de ameaças a todos, a ti mesma, a nós, a todos. Ai, como se responderá a este ato sangrento? Recairá sobre nós, cuja providência deveria ter sob rédea curta, restrito e fora de convívio, a este jovem louco. Mas tanto era nosso amor, que não entendíamos o que seria mais apropriado, mas, como o portador de uma “vil doença”, para evitar que venha a público, deixamos que ela devorasse até o cerne da vida. Aonde foi ele?

GERTRUDE

Foi apartar o corpo que matou; sobre quem sua loucura, como ouro surgindo em uma mina de metais chãos, mostra-se pura, ele lamenta pelo que foi feito.

CLÁUDIO

Ó Gertrude, vamos logo! O sol não tocará as montanhas antes que o embarquemos daqui; e este ato vil devemos, com toda nossa majestade e perícia, tanto enfrentar quanto justificar. Ho, Guildenstern! [Entram Guildenstern e Rosencrantz.] Amigos ambos, ide angariar alguma ajuda a mais. Hamlet ensandecido matou a Polônio, e dos aposentos de sua mãe o arrastou. Ide buscá-lo, falai com cortesia, e trazei o corpo até a capela. Vamos! Eu vos rogo, depressa com isso! [Saem Guildenstern e Rosencrantz.] Vem, Gertrude, chamaremos nossos amigos mais sábios, e os informaremos, tanto do que tencionamos fazer, quanto do feito intempestivo. Então talvez a calúnia, cujo sussurro, através do diâmetro do mundo, tão certeiro quanto o canhão a seu alvo, transporta o tiro envenenado, possa errar nosso nome e atingir o ar invulnerável. Oh, vamos embora! Minh’alma ‘stá cheia de discórdia e desalento.

Saem.

4.2

Entra Hamlet.

HAMLET

Guardado em segurança.

Entram Guldenstern e Rosencrantz, e outros.

GULIDENSTERN e ROSENCRATZ

Hamlet! Lorde Hamlet!

HAMLET

Mas silêncio, que barulho é este? Quem chama a Hamlet?

GULIDENSTERN e ROSENCRATZ

Hamlet!

HAMLET

Oh, aí vêm eles.

ROSENCRATZ

O que fizeste, milorde, com o cadáver?

HAMLET

Compu-lo com poeira, com que tem afinidade.

ROSENCRATZ

Conta-nos onde está, para que possamos tirá-lo de lá e apresentá-lo na capela.

HAMLET

Não o creias.

ROSENCRATZ

Crer em quê?

HAMLET

Que eu possa seguir teu conselho e não o meu próprio. Além disso, ser interpelado por uma esponja! Que réplica deve ser feita pelo filho de um rei?

ROSENCRATZ

Tomas-me por uma esponja, milorde?

HAMLET

Sim, senhor, que absorve a proteção do rei, suas recompensas, suas autoridades. Mas tais servidores são do melhor serviço ao rei no fim. Ele os mantém, como um macaco a uma maçã, no canto de sua mandíbula, primeiro posta na boca, a ser engolida por último. Quando ele precisar do que acumulaste, não precisa mais do que te comprimir, e, esponja, estarás seco novamente.

ROSENCRATZ

Eu não te entendo, milorde.

HAMLET

Fico feliz com isso: uma fala afiada se perde num ouvido tolo.

ROSENCRATZ

Milorde, deves contar-nos onde o corpo está, e ir conosco até o rei.

HAMLET

O corpo ‘stá com o rei, mas o rei não ‘stá com o corpo. O rei é uma coisa…

ROSENCRATZ

Uma coisa, milorde!

HAMLET

…de nada. Levai-me até ele.

Entra Ofélia. [Branagh]

OFÉLIA

Milorde!

HAMLET

Enconde-te raposa, e todos atrás!

[Branagh] Sai correndo.

VÁRIOS

Milorde! Meu bom lorde Hamlet! Meu bom lorde! Hamlet!

Hamlet é capturado.

Saem.

4.3

Entra Cláudio.

CLÁUDIO

Eu mandei buscá-lo, e achar o corpo. Quão perigoso é que este homem corra à solta! No entanto não devemos aplicar-lhe a lei forte: ele é amado da multidão irracional, a qual gosta não com seu julgamento, mas com seus olhos. E, quando é assim, a punição do transgressor é sopesada, mas nunca a transgressão. Para conduzir tudo suave e equilibradamente, este seu súbito envio para longe deve parecer cuidadosamente considerado. Doenças levadas ao desespero por desesperado tratamento são aliviadas, ou nunca o serão. [Entram Guildenstern e Rosencrantz.] E então! O que se passou?

ROSENCRATZ

Onde o cadáver ‘stá alojado, milorde, não podemos obter dele.

CLÁUDIO

Mas onde está ele?

ROSENCRATZ

De fora, milorde, escoltado, para conhecer vossa intenção.

CLÁUDIO

Traze-o ante nós.

ROSENCRATZ

Ho, Guildenstern! Introduz milorde.

Entra Hamlet, escoltado.

CLÁUDIO

Agora, Hamlet, onde ‘stá Polônio?

HAMLET

Ceiando.

CLÁUDIO

Ceiando! Onde?

HAMLET

Não onde ele come, mas onde é comido. Uma certa convocação política de vermes está agora mesmo sobre ele. O verme é o único imperador no que se refere à dieta. Nós engordamos todas outras criaturas para nos engordar, e a nós mesmos para os vermes. Tanto o rei gordo e quanto o mendigo macilento são apenas serviço variável, dois pratos, mas para uma mesa; isso é o fim.

CLÁUDIO

Deus meu!

HAMLET

Um homem pode pescar com a minhoca que comeu de um rei, e comer do peixe que se alimentou dessa minhoca.

CLÁUDIO

Que queres dizer com isso?

HAMLET

Nada além de mostrar como um rei pode fazer sua excursão8 através das entranhas de um mendigo.

CLÁUDIO

Onde está Polônio?

Esbofeteia Hamlet [Brangah].

HAMLET

No céu. Manda alguém ir ver… Se teu mensageiro não o encontrar lá, busca-o no outro lugar tu mesmo. Mas se de fato não o achares ainda este mês, darás com o nariz nele ao subir as escadas para o salão.

CLÁUDIO [A auxiliares.]

Ide buscá-lo lá.

HAMLET

Ele aguardará até que chegueis.

CLÁUDIO

Hamlet… este ato, para tua especial segurança, a qual de fato prezamos, como profundamente lamentamos aquilo que fizeste, deve enviar-te daqui com fogosa rapidez. Portanto prepara-te, o barco ‘stá pronto, e o vento ajuda, os companheiros esperam, e tudo se inclina para a Inglaterra.

HAMLET

Para a Inglaterra!

CLÁUDIO

Sim, Hamlet.

HAMLET

Bom.

CLÁUDIO

Bom mesmo, se soubesses nossas intenções.

HAMLET

Eu vejo um querubim que as vê. Mas, vamos, para a Inglaterra! Adeus, querida mãe.

CLÁUDIO

Teu pai amoroso, Hamlet.

HAMLET

Mãe. Pai e mãe é homem e esposa. Homem e esposa é uma carne, e assim, minha mãe. Vamos, para a Inglaterra!

Sai.

CLÁUDIO

Segui-o de perto, exortai-o que embarque depressa, não o atrasai, eu o terei longe daqui esta noite. Ide! Pois tudo ‘stá acertado e feito que demais tange ao caso. Rogo-vos, tende pressa! [Saem todos menos Cláudio.] E, Inglaterra, se meu amor vós em algo estimais, como meu grande poder nesse respeito pode vos dar uma percepção, já que embora vossa cicatriz pareça crua e rubra após a espada dinamarquesa, e que vossa reverência livremente nos preste homenagem, vós não podeis receber friamente nosso soberano mandado, que prevê plenamente, por cartas corroborando este fim, a morte imediata de Hamlet. Fazei-o, Inglaterra, pois como a agitação em meu sangue ele ‘stá irado, e vós deveis me curar! Até que eu saiba que foi executado, qualquer que seja minha sorte, minhas alegrias sequer terão começado.

Sai.

4.4

Entram Fortimbrás, com um Capitão e seu exército.

FORTIMBRÁS

Vai, capitão, em meu nome cumprimenta o rei dinamarquês. Diz a ele que, por sua licença, Fortimbrás almeja o conduto de uma prometida marcha sobre seu reino. Sabes o rendezvous. Se o rei tiver algo a tratar conosco, nós expressaremos nossa reverência a seus olhos; e diz isso a ele.

CAPITÃO

Assim farei, milorde.

FORTIMBRÁS

Vai adiante com vagar.

Saem todos menos o Capitão. Entram Hamlet, Guildenstern e Rosencrantz, e outros.

HAMLET

Bom senhor, de quem são estas forças?

CAPITÃO

Elas são da Noruega, senhor.

HAMLET

Com que intento, senhor, rogo-te?

CAPITÃO

Contra alguma parte da Polônia.

HAMLET

Quem as comanda, senhor?

CAPITÃO

O sobrinho do velho Noruega, Fortimbrás.

HAMLET

Lançai-vos contra a parte principal da Polôna, senhor, ou alguma fronteira?

CAPITÃO

Dizendo a verdade, e sem acréscimo algum, vamos a ganhar um pequeno pedaço de chão que não traz nele benefício algum senão o nome. Pagando cinco ducados, cinco, eu não o cultivaria, nem renderia a Noruega ou Polônia um mais elevado preço, fosse ele vendido integralmente.

HAMLET

Ora, então os Polacos nunca o defenderão.

CAPITÃO

Sim, ele já está guarnecido.

HAMLET

Duas mil almas e vinte mil ducados não bastam para resolver a questão desta ninharia. Este é o abcesso de muita riqueza e paz, que rompe internamente, e não mostra causa alguma por fora por que morre o homem. Eu humildemente te agradeço, senhor.

CAPITÃO

Deus ‘steja contigo, senhor.

Sai.

ROSENCRANTZ

Agrada-te irmos, milorde?

HAMLET

Estarei contigo em breve. Vai um pouco na frente. [Guldenstern e Rosencrantz e os demais se afastam.] Como todas ocasiões se formam contra mim, e esporeiam minha embotada vingança! O que é um homem, se o maior bem e proveito de seu tempo for apenas dormir e comer? Uma besta, não mais. Certamente, aquele que nos fez com tão grande discurso, olhando para frente e para trás, não nos deu aquela capacidade e razão como que divina para mofar em nós sem ser usada! Agora, quer seja o bestial oblívio, ou algum pusilânime escrúpulo de pensar precisamente demais na questão, um pensamento que, dividido em quatro, tem apenas uma parte sabedoria e mesmo três partes covardia, não sei por que ainda vivo para dizer “Isto deve ser feito”, uma vez que tenho causa e vontade e força e meios para fazê-lo. Exemplos pesados como a Terra me exortam; observai este exército de tal porte e custo, conduzido por um delicado e tenro príncipe, cujo espírito de divina ambição aspergido faz pouco do evento imprevisível, expondo o que é mortal e incerto a tudo que fortuna, morte e perigo ousarem, mesmo por uma casca-de-ovo. Ser justamente grande não é reagir sem grande argumento, mas com altivez achar briga em uma palha quando a honra ‘stá em jogo. Como fico eu então, que tenho um pai morto, uma mãe maculada, excitações de minha razão e meu sangue, e deixo que tudo durma? Enquanto, para meu vexame, vejo a morte iminente de vinte mil homens, que, por fantasias e ilusões de fama, vão para suas covas como camas, lutam por um pedaço de chão sobre o qual números não resolvem a batalha, que não é tumba bastante e continente para esconder os mortos? Oh, que no que vem à frente, sejam meus pensamentos sanguinários, ou nada valham absolutamente!

Saem.

4.5

Entram Cláudio e Gertrude.

CLÁUDIO9

Quando as mágoas vêm, elas não vêm em missão de reconhecimento, mas em batalhões. Primeiro, o pai dela morto, depois teu filho vai embora, e ele mui violento autor de seu próprio justo degredo, as pessoas enlameadas, espessas e infectadas em seus pensamentos e sussurros, pela morte do bom Polônio; e nós agimos atabalhoadamente ao secretamente enterrá-lo. Pobre Ofélia, apartada de si mesma e de seu melhor julgamento, sem o qual somos retratos, ou meras bestas. Por último, e como conclusão a tudo isso, seu irmão, em segredo vindo da França, alimenta-se de sua estupefação, mantém-se em brumas, e não lhe faltam palpiteiros a infectar seu ouvido com falas pestilentas da morte de seu pai, nas quais o ônus da prova, carente de conteúdo, nada hesitaria em nossa pessoa indiciar de ouvido a ouvido. Ó minha cara Gertrude, isto, como um canhão de tiro múltiplo, em muitos lugares me causa morte supérflua.

Sai. Entram Horácio e uma Senhora10

GERTRUDE

Eu não falarei com ela.

HORÁCIO

Ela ‘stá insistente, de fato perturbada, seu humor intima a lamentação.

GERTRUDE

E que deseja ela?

HORÁCIO

Ela fala muito de seu pai; diz ouvir que há logro no mundo e geme, e bate em seu coração.

SENHORA

Esperneia raivosamente por bobagens, diz coisas incertas, que contêm apenas meio sentido.

HORÁCIO

Seu discurso é nada, no entanto o uso disforme dele move os ouvintes a tentar entendê-la.

SENHORA

Eles tentam adivinhar, e ajuntam as palavras adequadas a seus próprios pensamentos; o que, como suas piscadas, e meneios e gestos lhes expressam, com efeito fariam alguém pensar que pudesse haver pensamento, embora nada certo, ainda que mui maliciosamente.

HORÁCIO

Seria bom que se falasse com ela pois ela pode espalhar conjecturas perigosas em mentes maldosas.

GERTRUDE

Deixai-a entrar. [Sai a Senhora. À parte] Para minha alma doente, como é do pecado a natureza real, cada pequena coisa parece o prólogo de algum grande mal. Tão plena é a culpa de inepta suspeição, ela se derrama por medo de ir ao chão.

Entra Ofélia, desfeita.

OFÉLIA

Onde ‘stá a bela majestade da Dinamarca?

GERTRUDE

Como vais, Ofélia!

OFÉLIA [Canta.]

“Como posso eu teu amor verdadeiro distinguir de outro qualquer? Pelo chapéu de concha e cajado, e as sandálias com que estiver.”

GERTRUDE

Ai, doce jovem, o que significa esta canção?

OFÉLIA

Dizes? Não, rogo-te, ouve. [Canta.] “Ele ‘stá morto e não volta, moça, ele ‘stá morto e não volta; em sua cabeça um gramado verdejante, seus pés uma lápide escolta.”

GERTRUDE

Ora, mas Ofélia…

OFÉLIA

Rogo-te, ouve. [Canta.] “Branca sua mortalha como neve da montanha,”

Entra Cláudio.

GERTRUDE

Ai, olha aqui, milorde.

OFÉLIA [Canta.]

“Ornado com doces flores, que lamentado até o túmulo não foi, com prantos de veros amores.”

CLÁUDIO

Como vais, bela jovem?

OFÉLIA

Bem, Deus te pague! Eles dizem que a coruja era filha de um padeiro. Lorde, sabemos o que somos, mas não sabemos o que podemos ser. Deus ‘steja à vossa mesa!

CLÁUDIO

Delírio sobre seu pai.

OFÉLIA

Rogo-te! Não se diga palavra sobre isso! Mas quando vos perguntarem o que quer dizer, dizei isto: [Canta.] “Amanhã é dia de São Valentim, em plena alvorada, e eu uma donzela à tua janela, para ser tua namorada. Então ele se levantou, e vestiu sua roupa, e a porta do quarto abriu, deixou entrar a donzela, que donzela nunca mais saiu.”

CLÁUDIO

Bela Ofélia!

OFÉLIA

Com efeito, la, sem blasfêmia, eu chegarei a um fim. [Canta.] “Por J’sus e por Santa Caridade, que lástima e oh, que coisa reles! rapazes o farão, se tiverem a chance; como ‘falo’: a culpa é deles.” Disse ela… [Canta.] “Antes de me derrubar, prometeste-me casamento. Assim eu teria feito, por aquele sol, não vieras tu a meu aposento.”

CLÁUDIO

Há quanto tempo ‘stá ela assim?

OFÉLIA

Espero que tudo fique bem. Devemos ser pacientes, mas não posso evitar o pranto, ao pensar que o deitaram no chão frio. Meu irmão saberá disto, e então vos agradeço por vosso bom conselho. Vamos, meu carro! Boa noite, senhoras boa noite, doces senhoras boa noite, boa noite. Doces senhoras, boa noite!

CLÁUDIO

Segui-a de perto! Vigiai-a bem, rogo-vos! [Saem Horácio e Senhora.] Oh, isto é o veneno de profundo pesar e provém todo da morte de seu pai. E agora vê! Ó Gertrude, Gertrude!

Entra a Senhora. [Branagh]

SENHORA

Ai meu Deus, que barulho é este?

CLÁUDIO

Onde ‘stão meus Suíços? Guardem eles a porta! O que ‘stá acontecendo?

SENHORA

Salvai-vos, milorde. O oceano, projetando sobre seus confins, não devora as planícies com mais impetuosa pressa do que o jovem Laerte, numa tropa revoltosa, suplanta vossos sentinelas! A turba chama-o lorde e, como se o mundo começasse apenas agora, antiguidade esquecida, costume desconhecido, os ratificadores e sustentáculos de cada título, eles gritam: “Escolhemos nós: Laerte será rei!” Chapéus, mãos e línguas, aplaudem até às nuvens: “Laerte será rei, Laerte rei!”

GERTRUDE

Quão alegremente a falsa trilha indicam eles! Oh, estais na contramão, vós falsos cães dinamarqueses!

CLÁUDIO

As portas se romperam.

Entra Laerte com seguidores.

LAERTE

Onde ‘stá este rei? Senhores, ficai todos de fora.

SEGUIDOR

Não, vamos entrar.

LARTE

Rogo-vos, dai-me licença.

SEGUIDOR

Assim faremos.

LAERTE

Eu vos agradeço. Guardai a porta. [Saem os seguidores e a Senhora.] Ó vil rei, dai-me meu pai!

GERTRUDE

Com calma, bom Laerte.

LAERTE

Aquela gota de sangue que ‘stiver calma proclama-me bastardo, grita “corno” a meu pai, marca a ferro “meretriz” bem no casto e impoluto semblante de minha fiel mãe.

CLÁUDIO

Qual é a causa, Laerte, para que tua rebelião pareça tão gigantesca? Solta-o, Gertrude, não temas por nossa pessoa: há tal divindade a proteger um rei, que a traição não pode mais que vislumbrar aquilo que deseja, pouco dá ação a sua vontade. Diz-me, Laerte, por que estás assim irado. Solta-o, Gertrude. Fala, homem.

LAERTE

Onde está meu pai?

CLÁUDIO

Morto.

GERTRUDE

Mas não por ele.

CLÁUDIO

Deixa-o demandar seu bocado.

LAERTE

Como veio ele a morrer? Não me farão de malabares. Ao inferno, lealdade! Votos, ao mais negro diabo! Consciência e graça, ao mais profundo fosso! Eu arrisco a danação. Até este ponto eu me posiciono, que a ambos os mundos negligencio. Que venha o que vier, desde que eu seja vingado de forma mui completa por meu pai.

CLÁUDIO

Quem te deterá?

LAERTE

Minha vontade, e não a do mundo inteiro! E quanto a meus meios, eu os administrarei tão bem, que eles irão longe com pouco.

CLÁUDIO

Bom Laerte, se desejares saber a verdade sobre a morte de teu caro pai, estará gravado em tua vingança que, como fichas de jogo, recolhes tanto amigo quanto inimigo? vencedor e perdedor?

LAERTE

Ninguém a não ser seus inimigos.

CLÁUDIO

Queres conhecê-los então?

LAERTE

A seus bons amigos desta largura abrirei meus braços e como o gentil pelicano que dá a vida, nutrirei-os com meu sangue.

CLÁUDIO

Ora, agora falas como um bom filho e um verdadeiro cavalheiro. Que não tenho culpa da morte de teu pai, e estou mui sentidamente por ela magoado, tão precisamente penetrará teu julgamento quanto o dia a teu olho.

Entra Ofélia.

LAERTE

Deixai-a entrar. E agora, que barulho é este? Ó calor, ressecai meu cérebro! Lágrimas sete vezes salgadas, queimem o sentido e a virtude de meu olho! Pelos céus, tua loucura será paga pelo peso, até que nossa balança vire a barra. Ó rosa de maio! Cara donzela, gentil irmã, doce Ofélia! Ó céus! Será possível, a razão de uma jovem donzela ser tão mortal quanto a vida de um ancião? A natureza é sensível no amor, e onde ela é sensível, ela envia algum precioso indicativo de si mesma atrás da coisa que ama.

OFÉLIA [Canta.]

“Ele de rosto à mostra jazeu; ei noni noni, noni, ei noni, noni, noni, ei; e em sua tumba muita lágrima choveu. Vá com Deus, minha pomba!”

LAERTE

Tivesses tu teu juízo, e implorasses vingança, isso não poderia me mover tanto.

OFÉLIA

Deves cantar a-dan a-dan… E tu! Chama-o! A-dan a-dan a-dan… Oh, como o refrão combina! É o falso intendente, que roubou a filha de seu amo.

LAERTE

Este vazio é mais do que conteúdo.

OFÉLIA

Aqui ‘stá alecrim, isso é para lembrança. Rogo-te, amor, lembra-te… E aqui ‘stão amores-perfeitos. São para pensamentos.

LAERTE

Um ensinamento em loucura, pensamentos e lembrança combinam.

OFÉLIA

Aqui ‘stá funcho para ti, e aquilégias… Aqui ‘stá arruda para ti e aqui ‘stá um pouco para mim. Podemos chamá-la erva da graça dos domingos. Oh, tu deves usar tua arruda com uma diferença. Aqui ‘stá uma margarida. Eu te daria algumas violetas, mas elas murcharam todas quando meu pai morreu. Dizem que ele teve um bom fim. [Canta.] “Pois o simpático doce Robin é todo meu júbilo.”

LAERTE

Melancolia e aflição, sofrimento, o próprio inferno, ela transforma em encanto e beleza.

OFÉLIA [Canta.]

“E não tornará ele a vir? E não tornará ele a vir? Não, não, ele faleceu. Vai ao leito de morte teu, ele nunca tornará a vir. Sua barba como a neve era alva, tal puro linho sua cabeça brilhava. Ele partiu, ele partiu, e nosso lamento nada contribuiu. Deus tenha misericórdia de sua alma!” E de todas almas cristãs, eu rezo a Deus. Deus ‘steja convosco.

LAERTE

Vede isto, ó Deus?

CLÁUDIO

Laerte, eu devo partilhar de tua dor, ou me negas meu direito. Aparta-te, escolhe dentre teus mais sábios amigos os que quiseres, e eles ouvirão e julgarão entre ti e mim. Se de direta ou colateral culpa eles nos acharem tocado, nós nosso reino daremos, nossa coroa, nossa vida, e tudo que chamamos nosso, a ti em satisfação. Mas se não, contenta-te em emprestar-nos tua paciência, e nós trabalharemos conjuntamente com tua alma para proporcionar a ela o devido desagravo.

LAERTE

Que assim seja. O meio de sua morte, seu enterro obscuro… Nenhum memorial, espada, nem insígnia por sobre seus ossos, nenhum nobre rito, nem cerimônia formal, bradam para serem ouvidos, como fora do céu à terra, de modo que eu devo pô-lo em questão.

CLÁUDIO

Assim farás e onde o agravo ‘stá, que recaia o grande machado. Rogo-te, vem comigo.

Saem.

4.6

Entram Horácio e um Cavalheiro.

HORÁCIO

Quem são eles que desejam falar comigo?

CAVALHEIRO

Marinheiros, senhor. Dizem ter cartas para ti.

Sai o cavalheiro.

HORÁCIO

Eu não sei de que parte do mundo deveria ser saudado, se não de Lorde Hamlet.

Entram dois marinheiros.

MARINHEIRO

Deus te abençoe, senhor.

HORÁCIO

Que ele abençoe a vós também.

MARINHEIRO

Ele o fará, senhor se isso Lhe agradar. Aqui ‘stá uma carta para ti, senhor, ela vem do embaixador que tinha por destino a Inglaterra, se teu nome for Horácio como me foi dado a entender.

HORÁCIO [.]

“Horácio, quando tiveres lido isto até o fim, dá a esses camaradas algum acesso ao rei: eles têm cartas para ele. Antes que estivéssemos há dois dias no mar, um pirata de aparelhagem mui bélica nos perseguiu. Achando-nos velejando lentamente demais, assumimos um brio compelido, e no corpo-a-corpo eu embarquei neles. No mesmo instante eles se afastaram de nosso navio, então apenas eu me tornei prisioneiro deles. Eles lidaram comigo como ladrões misericordiosos, mas sabiam o que faziam; eu estou por pestar-lhes um bom serviço. Faz com que o rei receba as cartas que enviei, e dirige-te a mim com tanta pressa quanto se fugisses da morte. Tenho palavras para falar em teu ouvido que te deixarão mudo; ainda assim, são elas por demais leves para o calibre da questão. Esses bons sujeitos te trarão até onde estou. Rosencrantz e Guildenstern mantêm seu curso rumo à Inglaterra, sobre eles tenho muito a te contar. Adeus. Aquele que sabes teu, Hamlet.” Vinde, eu vos darei encaminhamento a estas vossas cartas e o farei o mais rápido, para que possais guiar-me a ele de quem as trouxestes.

Saem.

4.7

Entram Cláudio e Laaerte.

CLÁUDIO

Agora deve tua consciência minha absolvição selar, e me deves pôr em teu coração como amigo, uma vez que ouviste, e com um ouvido instruído, que aquele que a teu nobre pai ceifou buscava minha vida.

LAERTE

Assim bem parece, mas dizei-me por que não procedestes contra esses feitos, de natureza tão criminosa e tão capital, já que por vossa segurança, sabedoria, e tudo mais, vós principalmente fostes afetado.

CLÁUDIO

Oh, por duas razões especiais que podem a ti parecer muito débeis, mas no entanto para mim elas são fortes. A rainha sua mãe vive quase em função dele; e quanto a mim – minha virtude ou meu flagelo, qual delas seja – ela é tão conjuminada a minha vida e alma, que, assim como a estrela não move senão em sua esfera, eu não o poderia senão de acordo com ela. O outro motivo, pelo qual a uma prestação de contas pública eu não poderia ir, é o grande amor que o populacho nutre por ele; o qual, embebendo todas suas faltas em sua afeição, iria, como a fonte que transfoma madeira em pedra, converter seus defeitos em graças; tal que minhas setas, de madeira tão leve para tão barulhento vento, teriam revertido a meu arco novamente, sem ir aonde eu as havia mirado.

LAERTE

E assim eu um nobre pai perdi, uma irmã levada a termos desesperados, cujo valor, se elogios puderem voltar no tempo, erguia-se desafiador, sobre um monte, a toda a época, por suas perfeições. Mas minha vingança virá.

CLÁUDIO

Não percas teu sono por isso, não deves pensar que somos feitos de matéria tão inerte e insípida que possamos ter nossas barbas chacoalhadas pelo perigo e considerá-lo passatempo. Tu em breve ouvirás mais. Eu amava a teu pai, e nós amamos nós mesmos; e isso, espero, irá ensiná-lo a imaginar… [Entra um mensageiro.] E agora! Quais novas?

MENSAGEIRO

Cartas, milorde, de Hamlet. Esta a vossa majestade, esta para a rainha.

CLÁUDIO

De Hamlet! Quem as trouxe?

MENSAGEIRO

Marinheiros, milorde; dizem-no. Eu não os vi. Elas me foram dadas por Cláudio, ele as recebeu daquele que as trouxe.

CLÁUDIO

Laerte, tu as escutarás. Deixa-nos. [Sai o mensageiro. Lê.] “Altivo e poderoso, vós sabereis que fui deixado desnudo em vosso reino. Amanhã instarei por permissão para ver vossos olhos reais. Quando, antes pedindo vosso perdão a este respeito, recontarei a ocasião de meu súbito e mui inusitado retorno. Hamlet.” Que significaria isto? Retornaram todos os demais? Ou é isto algum engodo, e não procede?

LAERTE

Conheces a letra?

CLÁUDIO

É a escrita de Hamlet. “Desnudo!” E em um postscriptum aqui, ele diz “sozinho.” Podes me aconselhar?

LAERTE

Estou perdido nisto, milorde. Mas que ele venha! Isto aquece a própria determinação em meu coração, que eu viverei e direi em sua cara: “tu fizeste isto”.

CLÁUDIO

Se assim for, Laerte, e como “se assim for”? Como seria diverso? Submeter-te-ás a mim?

LAERTE

Sim, milorde; se assim não me submeterdes a uma paz.

CLÁUDIO

A tua própria paz. Se ele ‘stiver agora de volta, de modo a escapar de sua viagem, e sendo que não mais pretende realizá-la, eu o atrairei a uma cilada, agora madura em meu desígnio, sob a qual ele não terá escolha senão cair, e por sua morte, vento algum de culpa soprará, mas mesmo sua mãe não verá culpa na trama e a chamará de acidente.

LAERTE

Milorde, eu me submeterei; quando mais, se pudésseis concertá-lo tal que eu pudesse ser o órgão.

CLÁUDIO

Isso bem assenta. Tem-se falado bastante de ti desde tuas viagens, e isso aos ouvidos de Hamlet, por uma qualidade na qual, dizem, tu brilhas. A soma de tuas partes não incitaram juntas tal inveja nele como o fez aquela, a qual, a meu ver, da mais baixa posição.

LAERTE

Que qualidade é essa, milorde?

CLÁUDIO

Uma fita no boné da juventude, ainda que necessária também, pois à juventude não menos cai bem o leve e descuidado uniforme que veste do que à idade madura seus robes de pele e seus trajes, transmitindo saúde e gravidade. Dois meses atrás, aqui ‘steve um cavalheiro da Normandia. Eu mesmo vi, e servi contra, os franceses, e eles podem bastante na montaria, mas este varão o fazia por bruxaria, ele se aferrava a sua sela e a tais admiráveis feitos conduzia seu cavalo, como se tivesse sido incorporado e de natureza híbrida com a bela besta. De tal modo ele suplantou minha expectativa, que eu, ao inventar posturas e truques, fico aquém do que ele fez.

LAERTE

Um normando, era ele?

CLÁUDIO

Um normando.

LAERTE

Por minha vida, Lamond.

CLÁUDIO

O próprio.

LAERTE

Eu o conheço bem, ele é a joia de fato e gema de toda a nação.

CLÁUDIO

Ele fez o teu reconhecimento e fez de ti tal elevado testemunho, quanto a arte e exercício em tua defesa, e quanto a teu florete mui especialmente, tanto que ele proclamou: seria uma visão e tanto, se alguém te pudesse igualar; os esgrimistas de sua nação, jurou ele, não teriam agilidade, guarda ou olho, se tu lhes opusesses, senhor. Este testemunho dele a Hamlet tanto envevenou com inveja, que ele nada podia fazer a não ser desejar e implorar por tua súbita vinda, para duelar com ele. Ora, a partir disso…

LAERTE

O que a partir disso, milorde?

CLÁUDIO

Laerte, era-te caro teu pai? Ou és como a pintura de uma mágoa, uma face sem um coração?

LAERTE

Por que perguntais isso?

CLÁUDIO

Não que eu pense que não amasses teu pai, mas que eu sei que o amor é temporal, e que eu vejo, em passagens que o provam, que o tempo arrefece-lhe centelha e fogo. Reside dentro da chama mesma do amor uma espécie de pavio que irá abatê-la; e nada fica em igual primor sempre, pois o primor, evoluindo a uma pletora, morre em seu próprio excesso. Aquilo que estamos dispostos a fazer devemos fazer quando estamos dispostos, pois este “disposto” muda e tem abatimentos e atrasos, tantos quantos há línguas, mãos, acidentes, e então este “devemos” é como um suspiro perdulário, que fere ao aliviar. Mas, ao cerne da úlcera, Hamlet retorna. O que tu empreenderias, para te mostrares filho de teu pai por atos mais do que por palavras?

LAERTE

Cortar sua garganta na igreja.

CLÁUDIO

Lugar algum, de fato, deveria contra o assassinato ser santuário. A vingança não deve ter limites. Mas, bom Laerte, farás o seguinte? Mantém-te recluso dentro de teu quarto. Hamlet retornando, saberá que voltaste para casa. Arranjaremos aqueles que enaltecerão tua excelência e lançarão um duplo verniz sobre a fama que o francês te deu; a vós reuniremos enfim, e apostaremos em vossas cabeças. Ele, estando descuidado, de mui nobre disposição e despreocupado de todo artifício, não examinará as espadas tal que, com facilidade, ou com um ligeiro embaralhar, tu possas escolher uma espada com gume, e com um golpe – como fora só prática – retribuí-lo por teu pai.

LAERTE

Eu o farei, e, para esse fim, ungirei minha espada. Eu comprei um unguento de um curandeiro, tão mortal que, apenas mergulhe-se uma faca nele, onde ele alcança sangue cataplasma algum tão raro, coletado de todas ervas que têm virtude sob a lua, pode salvar a coisa da morte que com ele é apenas arranhado. Eu tocarei minha ponta com esse veneno, tal que, se eu o raspá-lo levemente, possa ser a morte.

CLÁUDIO

Pensaremos melhor nisso; pesar qual conveniência tanto de tempo quanto de meios melhor caiba a nossos papéis. Se isso vier a falhar, e nosso plano revelar nossa má performance, melhor fora não tentá-lo; daí este projeto deva ter uma retaguarda ou segundo, que se possa suster, se este disparar precocemente. Calma, deixa-me ver, faremos uma aposta solene em vossas destrezas. Já sei: quando em vossa ação estiverdes com calor e sedentos – e faz vossa disputa mais violenta com esse fim – e que ele peça o que beber, eu terei preparado para ele um cálice para a ocasião, do qual apenas ao bebericar, se ele por acaso escapar de tua estocada envenenada, nosso propósito pode assim persistir. Mas espera, que é esse barulho? [Entra Gertrude.] Que houve, doce rainha!

GERTRUDE

Um pesar pisa no calcanhar de outro, tão rápido eles se sucedem. Tua irmã se afogou, Laerte.

LAERTE

Afogou-se! Oh… Onde?

GERTRUDE

Há um salgueiro crescendo por sobre um regato, que mostra suas folhas grisalhas na vítrea correnteza. Com elas, guirlandas fantásticas ela fez de ranúnculos, urtigas, margaridas e orquídeas roxas, às quais pastores liberais dão um nome mais grosseiro, mas nossas recatadas donzelas de “dedos de defunto” as chamam. Lá, nos galhos pendentes, a sua coroa de ervas lutando por manter, um ramo invejoso se quebrou, quando abaixo vieram seus troféus florais e ela mesma ao regato choroso. Suas roupas se espalharam em volta e, como uma sereia, por um tempo a sustentaram, tempo no qual ela cantava fragmentos de velhos hinos, como alguém alheia a seu próprio infortúnio, ou como uma criatura nativa e atribuída àquele elemento. Mas não demoraria até que seus trajes, pesados com sua bebida, puxassem a pobre criatura de sua melodiosa canção à lamacenta morte.

LAERTE

Céus, então, ela se afogou?

GERTRUDE

Afogou-se. Afogou-se.

LAERTE

Água demais tens tu, pobre Ofélia, e porquanto eu proíbo meu pranto, mas mesmo assim é nosso uso. A natureza seu costume mantém; que diga a vergonha o que quiser. Quando estas se forem, a mulher em mim se esvairá. Adieu, milorde. Eu tenho um discurso de fogo, que escolheria incendiar-se, mas esta fraqueza o afoga.

Sai.

CLÁUDIO

Sigamos, Gertrude. Quanto eu tive que fazer para acalmar sua fúria! Agora, temo eu, isto lhe dará novo início. Portanto… sigamos!

Saem.

5.1

Entram dois coveiros.

PRIMEIRO COVEIRO

Deve receber enterro cristão aquela que deliberadamente busca sua salvação?

SEGUNDO COVEIRO

Eu digo que ela deve, e portanto faz logo sua cova. O oficial se debruçou o caso, e o considera enterro cristão.

PRIMEIRO COVEIRO

Como pode ser, a menos que ela tenha se afogoado em defesa própria?

SEGUNDO COVEIRO

Ora, assim se concluiu.

PRIMEIRO COVEIRO

Deve ser “se offendendo”, não pode ser diverso. Pois eis aqui a questão: se eu me afogo conscientemente, isso indica um ato, e um ato tem três ramos: isto é, agir, fazer e realizar: “argal”, ela se afogou conscientemente.

SEGUNDO COVEIRO

Bah, mas ouve, colega coveiro…

PRIMEIRO COVEIRO

Dá licença. Eis aqui a água, bem. Aqui se ergue o homem. Bem. Se o homem vai até esta água, e afoga a si mesmo, isto é, queira ou não, ele vai, ouve isto. Mas se a água vem até ele e o afoga, ele não afoga a si mesmo. “Argal”, aquele que não é culpado da própria morte não abrevia sua própria vida.

SEGUNDO COVEIRO

Mas é esta a lei?

PRIMEIRO COVEIRO

Sim, afe, é. Lei do inquérito do oficial.

SEGUNDO COVEIRO

Você quer saber a verdade? Não fora esta uma moça nobre, ela teria sido enterrada fora do rito cristão.

PRIMEIRO COVEIRO

Pois disse tudo, e quanto mais lastimável que gente relevante deva ter licença neste mundo para afogar ou enforcar a si mesmos, mais que os demais cristãos. Vamos, minha pá. Não há cavalheiro mais antigo do que jardineiros, cavadores de trincheiras e de covas: eles mantêm a profissão de Adão.

SEGUNDO COVEIRO

Era ele um cavalheiro?

PRIMEIRO COVEIRO

Ele foi o primeiro com brasões.

SEGUNDO COVEIRO

Ora, ele não tinha nenhum.

PRIMEIRO COVEIRO

Que, você é um infiel? Como entende a Escritura? A Escritura diz “Adão cavou”. Poderia ele cavar sem “brações”? Colocarei pra você outra questão: se não me responder de modo pertinente, pode se confessar.

SEGUNDO COVEIRO

Vá adiante.

PRIMEIRO COVEIRO

Qual é aquele que constrói mais forte do que o pedreiro, o construtor naval ou o carpinteiro?

SEGUNDO COVEIRO

Aquele que faz os cadafalsos, pois aquela estrutura sobrevive a mil inquilinos.

PRIMEIRO COVEIRO

Agrada-me bastante sua perspicácia, de boa fé; o cadafalso se presta bem, mas como se presta ele bem? Ele se presta bem àqueles que não prestam; agora você presta mau papel ao dizer que o cadafalso é mais resistente do que a igreja, “argal”, o cadafalso pode prestar pra você. De volta ao assunto, vamos.

SEGUNDO COVEIRO

Quem constroi mais forte que um pedreiro, um construtor naval, ou um carpinteiro?

PRIMEIRO COVEIRO

Sim, diz logo, e desatrela.

SEGUNDO COVEIRO

Afe, agora eu sei dizer.

PRIMEIRO COVEIRO

Adiante.

SEGUNDO COVEIRO

Pela missa, não sei dizer.

Entram Hamlet e Horácio.

PRIMEIRO COVEIRO

Não emprema mais os miolos a respeito, pois um obtuso asno não acertará seu passo com açoite. E, quando quando fizerem esta pergunta a próxima vez, diga: “um coveiro”: as casas que ele faz duram até o dia do juízo. Vá, atrás do Yaughan, busque um cântaro de bebida. [Sai o Segundo Coveiro. Canta.] “Na mocidade, quando eu amava, eu amava, pensava eu que era bem açucarado, gastar, oh, o tempo, para, ah, meu proveito; oh, pensava eu, nada havia mais adequado.”

HAMLET

Este camarada não sentirá nada por sua ocupação, tal que canta ao cavar covas?

HORÁCIO

O costume tornou-a nele uma tarefa amena.

HAMLET

É mesmo assim: a mão de pouco emprego tem o tato mais suscetível.

PRIMEIRO COVEIRO [Canta.]

“Mas a idade, com seus passos furtivos, agarrou-me na teia que tece, e me plantou na terra firme, como se eu amado nunca houvesse.”

HAMLET

Aquele crânio teve uma língua nele, e pôde cantar uma vez. Como o canalha o arremessa ao chão, como se fora a mandíbula de Caim, que cometeu o primeiro assassinato! Ele pode ser a moleira de um político, que este asno agora submete; um que ludibriaria a Deus, não poderia?

HORÁCIO

Poderia, milorde.

HAMLET

Ou de um cortesão, o qual poderia dizer “Bom dia, doce senhor! Como vais, bom lorde?” Este poderia ser meu lorde tal-e-tal, que elogiou o cavalo de meu lorde tal-e-tal, quando tencionava pedi-lo, não poderia?

HORÁCIO

Sim, milorde.

HAMLET

Ora, isso mesmo, e agora pertence a minha Dona Minhoca; sem mandíbula, e golpeado no cocuruto com uma pá de sacristão. Cá ‘stá bela revolução, se ao menos tivéssemos a capacidade de perceber. Estes ossos não custaram nada em seu crescimento, que se possa fazê-los de brinquedo? Os meus dóem ao pensar nisso. Eis uma outra: por que não pode este ser o crânio de um advogado? Onde estarão suas chicanas, suas filigranas, seus casos, suas escrituras, e seus truques? Por que ele aceita agora que este mentecapto vilão o golpeie pelo cocuruto com uma pá suja, e não declara sua ação de agressão? Este camarada terá sido em seu tempo um grande comprador de terra, com suas hipotecas, suas promissórias, suas cessões, seus duplos avais, suas reintegrações… É esta a cessão de suas cessões, e a reintegração de suas reintegrações, ter sua delicada moleira cheia de delicada poeira? Seus avais não o avalizarão mais de suas aquisições, e os duplos inclusive, do que o comprimento e a largura de duplicatas correspon..”dentes”? As meras escrituras de suas terras dificilmente jazerão nesta caixa; e deve o próprio herdeiro nada mais ter, ha?

HORÁCIO

Nem uma vírgula a mais, milorde.

HAMLET

Não é o pergaminho feito de pele de ovelha?

HORÁCIO

Sim, milorde, e de bezerro também.

HAMLET

São ovelhas e bezerros os que buscam segurança nisso. Eu falarei com este camarada. De quem é esta cova, senhor?

PRIMEIRO COVEIRO

Minha, senhor. [Canta.] “Oh, um poço de argila a ser feito para tal hóspede convém.”

HAMLET

Eu creio ser tua de fato, pois com a verdade vieste a faltar nela.

PRIMEIRO COVEIRO

Ao senhor ela não faz falta, e porquanto ela não é sua. De minha parte, eu não vim a faltar nela, e no entanto ela é minha.

HAMLET

Tu faltas com a verdade nela, ao estar nela e dizer que é tua: ela é para os mortos, não para os vivos, portanto estás em falta.

PRIMEIRO COVEIRO

É uma falta viva, e lá vai de novo, de mim pro senhor.

HAMLET

Para que homem tu a cavas?

PRIMEIRO COVEIRO

Para homem algum, senhor.

HAMLET

Que mulher, então?

PRIMEIRO COVEIRO

Para nenhuma, tampouco.

HAMLET

Quem deve ser enterrado nela?

PRIMEIRO COVEIRO

Alguém que foi uma mulher, senhor, mas, descanse sua alma, ela ‘stá morta.

HAMLET

Quão absoluto é o canalha! Devemos falar pelo roteiro, ou a ambiguidade nos desmonta. Pelo Senhor, Horácio, estes três anos tenho tomado nota; a época ficou tão afetada que o dedão do camponês chega tão perto do calcanhar do cortesão que fere seus calos. Há quanto tempo és um coveiro?

PRIMEIRO COVEIRO

De todos os dias do ano, eu comecei naquele dia em que nosso último rei Hamlet sobrepujou Fortimbrás.

HAMLET

Isso foi há quanto tempo?

PRIMEIRO COVEIRO

Não sabe dizer? Qualquer tolo pode dizer isso: é o próprio dia em que nasceu o jovem Hamlet, ele que ‘stá louco, e foi enviado à Inglaterra.

HAMLET

Ora, e por que foi ele enviado à Inglaterra?

PRIMEIRO COVEIRO

Ora, porque ‘stava louco. Ele recuperará o juízo lá ou, caso contrário, não será grande coisa, lá.

HAMLET

Por quê?

PRIMEIRO COVEIRO

Ele não será detectado, lá. Lá os homens são tão loucos quanto ele.

HAMLET

Como ficou ele louco?

PRIMEIRO COVEIRO

Mui estranhamente, eles dizem.

HAMLET

Estranhamente, como?

PRIMEIRO COVEIRO

D’boa fé, mesmo ao perder o juízo.

HAMLET

Mas qual é seu estado?

PRIMEIRO COVEIRO

Ora, o da Dinamarca. Tenho sido sacristão aqui, homem e menino, trinta anos.

HAMLET

Quanto tempo um homem jaz na terra antes de apodrecer?

PRIMEIRO COVEIRO

D’boa fé, se ele não estiver podre antes de morrer, como muitos cadáveres “bichados” hoje-em-dia, que mal suportarão o enterro, ele durará uns oito anos ou nove anos. Um curtidor durará nove anos.

HAMLET

Por que ele mais que outro?

PRIMEIRO COVEIRO

Ora, senhor, seu couro é tão curtido com sua ocupação, que ele manterá a água de fora um tempo maior, e a água é um sério corruptor do feladaputa do cadáver. Cá ‘stá um casco, agora. Este crânio jazeu na terra por vinte e três anos.

HAMLET

De quem era ele?

PRIMEIRO COVEIRO

Dum feladaputa louco, este. De quem o senhor pensa que ele era?

HAMLET

Não, eu não sei.

PRIMEIRO COVEIRO

Uma pestilência lhe recaia, um bandido louco! Ele despejou uma jarra de Reno em minha cabeça uma vez. Este mesmo crânio, senhor, foi o crânio de Yorick, o bobo do rei.

HAMLET

Este?

PRIMEIRO COVEIRO

Esse mesmo.

HAMLET

Deixa-me ver. Ai-de-ti, pobre Yorick! Eu o conhecia Horácio: um camarada de infinita espirituosidade, de mui excelente imaginação. Ele me carregou em suas costas mil vezes e agora, quão abominável à minha imaginação é isto! Faz minha garganta se fechar. Daqui pendiam aqueles lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão teus chistes agora? Tuas piruetas? Tuas canções? Teus lampejos de júbilo, que costumavam levar a mesa ao delírio? Nenhum deles agora, para mofar de teu próprio sorriso amarelo? Com o queixo bem caído? Agora dirige-te ao quarto de minha senhora, e diz a ela que pode pintar uma polegada de espessura, a esse aspecto ela deve se render. Fá-la rir disso. Rogo-te Horácio, diz-me uma coisa.

HORÁCIO

O que seria, milorde?

HAMLET

Pensas tu que Alexandre tinha este aspecto na terra?

HORÁCIO

Assim mesmo.

HAMLET

E cheirava assim, vixe!

HORÁCIO

Assim mesmo, milorde.

HAMLET

A quais chãos usos podemos retornar, Horácio! Por que não pode a imaginação retraçar o nobre pó de Alexandre, até encontrá-lo tapando um furo?

HORÁCIO

Seria considerar demasiado curiosamente, considerar assim.

HAMLET

Não, boa fé, nem um pouco, basta segui-lo até lá com modéstia suficiente, e a probabilidade a guiar, como segue: Alexandre morreu, Alexandre foi enterrado, Alexandre retorna ao pó, o pó é a terra, de terra fazemos argila e ora, com essa argila, na qual ele foi convertido, não se pode tapar um barril de cerveja? César imperial, morto e feito cimento, poderia tapar um buraco para proteger do vento. Oh, que tal terra, que mantinha a gente admirada, devesse preencher uma parede para expelir a invernal rajada! [Entram Cláudio, Gertrude, Laerte, um Padre, e o restante do cortejo, portando o caixão.] Mas silêncio. Mas silêncio. Apartemo-nos, aí vem o rei, a rainha, os cortesãos. Quem é este que eles seguem? E com tais ritos mutilados? Isto deveras sinaliza que o corpo que seguem com mão desesperada pôs termo à própria vida; ele era de alguma posse. Escondamo-nos um pouco, e escutemos.

LAERTE

Que outra cerimônia?

HAMLET [A Horácio]

Aquele é Laerte, um mui nobre jovem. Escuta.

LAERTE

Que outra cerimônia?

PADRE

Suas exéquias têm sido tão incrementadas quanto nos é aprovado. Sua morte foi duvidosa e, não fora o grande comando a suplantar a ordem, ela deveria em chão não santificado se alojar até a última trombeta; em vez de preces caridosas, cacos, pedriscos e seixos deveriam ser atirados sobre ela, no entanto cá se lhe permitem suas guirlandas virgens, seus adornos de donzela, e seu último repouso com sino e enterro.

LAERTE

Não deve mais ser feito?

PADRE

Não mais a ser feito, profanaríamos o serviço dos mortos ao cantar um réquiem e tal repouso a ela como às almas que partiram em paz.

LAERTE

Repousai-a na terra e que de sua alva e impoluta carne violetas possasm brotar! [Deitam o caixão à cova.] Eu digo a ti, rude padre! Um anjo pregador será minha irmã, enquanto tu uivas no inferno.

HAMLET [A Horácio]

O que, a bela Ofélia!

GERTRUDE

Doces para o doce: adeus! Esperava que tu houveras sido a esposa de meu Hamlet. Pensava teu leito nupcial ter ornado, doce donzela, e não enfeitado tua cova.

LAERTE

Ó, triplo infortúnio, caia dez vezes triplo sobre aquela maldita cabeça, cujo malévolo ato tua mui engenhosa razão de ti privou! Contende a terra um instante, até que eu a tenha tomado uma vez mais em meus braços! [Pula na cova.] Agora amontoai vosso pó sobre os vivos e mortos, até que deste plano uma alta montanha tenhais feito, para sobrepujar o velho Pélion, ou o cume do Olimpo azul.

HAMLET [Revelando-se]

Quem é aquele cuja dor exibe tal ênfase? Cuja expressão de mágoa conjura as estrelas errantes, e as faz parar como ouvintes feridos pelo espanto? Cá estou eu, Hamlet o Dinamarquês!

LAERTE [Sai da cova e se atraca com Hamlet.]

O diabo leve tua alma!

HAMLET

Tu não oras bem. Rogo, tira teus dedos de minha garganta pois, embora eu não seja bilioso e precipitado, ainda assim tenho eu em mim algo perigoso, o qual cabe que sua sabedoria tema. Afasta tua mão!

CLÁUDIO

Apartai-os

GERTRUDE

Hamlet, Hamlet!

HORÁCIO

Meu bom lorde, acalma-te.

HAMLET

Ora, eu o combaterei neste tema até que minhas pálpebras não mais se mexam.

GERTRUDE

Ó filho meu, qual tema?

HAMLET

Eu amava Ofélia! Quarenta mil irmãos não poderiam, com toda sua quantidade de amor, igualar minha soma. Que farás tu por ela?

CLÁUDIO

Oh, ele ‘stá louco, Laerte.

GERTRUDE

Pelo amor de Deus, deixa-o.

HAMLET

Chagas de Deus, mostra-me o que farias: chorarias? lutarias? jejuarias? rasgarias a ti mesmo? beberias vinagre? comerias um crocodilo? Eu o farei. Vens aqui para choramingar? Para me desafiar pulando em sua cova? Enterra-te vivo com ela, e eu também o farei. E, se tu tagarelas sobre montanhas, que atirem milhões de acres sobre nós, até que nosso solo, chamuscando sua cabeça contra a zona ardente, faça de Ossa uma verruga! Não, e se tu elevas o tom, eu bradarei tão bem quanto ti.

GERTRUDE

Isso é mera loucura, e assim por um tempo o surto atuará sobre ele; breve, tão paciente quanto a pomba fêmea, quando suas áureas crias rompem o ovo, seu silêncio se assentará.

HAMLET

Ouve, senhor, qual é a razão por que assim me tratas? Eu sempre te amei, mas nada importa. Faça Hércules o que puder, o gato mia, e cada cão tem seu dia.

CLÁUDIO

Rogo-te, bom Horácio, assiste-o. [A Laerte] Fortalece tua paciência com nosso colóquio da última noite; poremos a questão à presente prova. Boa Gertrude, coloca alguma guarda sobre teu filho. Esta tumba terá um eterno monumento, de repouso teremos em breve um momento. Até então, em paciência seja nosso procedimento.

Saem.

5.2

Entram Hamlet e Horácio.

HAMLET

Já basta disto, senhor: agora saberás a outra nova. Tu te lembras de todas as circunstâncias?

HORÁCIO

Lembrar-me, milorde?

HAMLET

Senhor, em meu coração havia uma espécie de embate, que não me deixava dormir. Pensava eu que me encontrava pior do que os amotinados em seus grilhões. Precipitado, e louvada seja a precipitação por isso… e saibamos, nossa indiscrição às vezes bem nos serve, quando nossos profundos estrategemas se frustram, e isso deveria nos ensinar: há uma divindade que molda nossos fins, por mais que os esculpamos toscamente.

HORÁCIO

Isso é bem certo.

HAMLET

Subindo de minha cabine, meu robe-marítimo me envolvendo, no escuro tateei eu para desmascará-los, obtive meu desejo, surrupiei o pacote deles e por fim retirei-me a meu próprio quarto novamente; sendo tão ousado, meus medos esquecendo os modos, a ponto de romper o selo de sua grande comissão; onde encontrei, Horácio, ó patifaria real! um exato comando, guarnido de muitas diversas sortes de razões, concernendo a saúde de Dinamarca e de Inglaterra também, com, ho! tais terrores e assombrações a respeito de minha vida que, no ato da leitura, sem permitir tardar, não, nem esperar o afiar do machado, minha cabeça deveria ser ceifada.

HORÁCIO

Seria possível?

HAMLET

Eis a comissão: lê-a com mais vagar. Mas tu me ouvirás como eu me portei?

HORÁCIO

Eu te imploro.

HAMLET

Estando assim todo enredado com vilanias, antes que pudesse fazer um prólogo a meu cérebro, eles haviam iniciado a peça. Eu me sentei, elaborei uma nova comissão, escrevi-a em caligrafia. Eu uma vez já considerei, como o fazem nossos estadistas, uma baixeza escrever em caligrafia, e muito me esforcei para esquecer tal aprendizado, mas, senhor, agora isso me prestou um bom serviço. Ouvirás tu o teor do que escrevi?

HORÁCIO

Sim, meu bom lorde. Uma solene conjuração do rei, sendo Inglaterra seu fiel tributário, sendo o amor entre eles como uma palmeira que viceja, sendo que a paz ainda veste seu traje lácteo e interpõe um hiato entre suas amizades, e muitos tais e quais “sendos” de grande peso, para que, tendo vista e ciência desses conteúdos, sem ulterior deliberação, mais ou menos, ele levasse aqueles portadores à morte súbita, sem deixar tempo para confissão.

HORÁCIO

Como foi isso selado?

HAMLET

Ora, até nisso foi o céu providencial. Eu tinha o sinete de meu pai em minha bolsa, que era a cópia daquele selo Dinamarquês. Dobrei o mandado na forma do outro, subscrevi-o, dei-lhe a impressão, coloquei-o com cuidado, a substituição nunca descoberta. Ora, o dia seguinte foi nossa luta-marítima e o que a isso se seguiu tu já sabes.

HORÁCIO

Então Guildenstern e Rosencrantz vão às últimas.

HAMLET

Ora, homem, eles deveras cortejaram esse fim; não passam nem perto de minha consciência; sua derrota de sua própria insinuação provém. É perigoso quando a natureza mais chã se interpõe entre os golpes de ferozes e coléricas espadas de poderosos opostos.

HORÁCIO

Ora, que rei é esse!

HAMLET

Não cabe a mim, pensas tu… ele que matou meu rei e prostituiu minha mãe, meteu-se entre a eleição e minhas esperanças, lançou seu anzol atrás de minha própria vida, e com tal engodo; não é perfeita consciência retribuí-lo com este braço? E não é ser amaldiçoado permitir a esse cancro de nossa natureza incorrer em mal maior?

HORÁCIO

Deve ser-lhe em breve relatado da Inglaterra qual é o desfecho dos acontecimentos por lá.

HAMLET

Será em breve: o ínterim é meu. E a vida de um homem mais não é do que dizer “um”. Mas eu muito lamento, bom Horácio, que ante Laerte eu agi como eu mesmo não agiria; pois, pela imagem de minha causa, eu vejo a representação da sua; eu cortejarei sua boa vontade. Mas, é certo, a extravagância de sua mágoa com efeito pôs-me em uma monumental paixão.

Entra Osric.

HORÁCIO

Espera! Quem vem lá?

OSRIC

Vossa excelência é mui bem-vinda de volta à Dinamarca!

HAMLET

Eu humildemente te agradeço, senhor. [A Horácio.] Conheces esta mosca d’água?

HORÁCIO

Não, meu bom lorde.

HAMLET

Tua situação é assim mais graciosa, pois é um vício conhecê-lo. Ele tem muita terra, e fértil. Que uma fera seja senhor de feras, e seu cocho ficará junto à mesa do rei. É uma gralha, mas, como digo, espaçoso na possessão de poeira.

OSRIC

Doce lorde, se a vossa cortesia concedesse algum tempo, eu transmitiria algo a ti de sua majestade.

HAMLET

Eu o receberei, senhor, com toda diligência de espírito. Põe teu quepe a seu uso correto; ele é para a cabeça.

OSRIC

Eu agradeço a vossa excelência, mas está muito quente.

HAMLET

Não, crê-me, ‘stá muito frio; o vento é norte.

OSRIC

Está razoavelmente frio, milorde, com efeito.

Põe o quepe.

HAMLET

Mas, no entanto, penso eu que ‘stá muito abafado e quente para minha compleição.

OSRIC

Excessivamente, milorde, ‘stá abafado, como se fosse… não posso dizer como. [Tira o quepe.] Mas, milorde, sua majestade ordenou-me significar ao senhor que ele lançou uma grande aposta sobre tua cabeça. Senhor, trata-se disto…

HAMLET

Eu te imploro, lembra-te.

OSRIC

Não, meu bom lorde, por minha conveniência, de boa fé. Senhor, cá ‘stá, recém-chegado à corte, Laerte; crê-me, um cavalheiro absoluto, repleto dos mais excelentes diferenciais, de sociedade mui suave e ótima aparência. Com efeito, para falar com propriedade dele, ele é carta e catálogo do refinamento, pois tu acharás nele o continente de qualquer qualidade que um cavalheiro contemplaria.

HAMLET

Senhor, sua definição não sofre subtração alguma em ti; embora, eu sei, dividi-lo inventorialmente deixaria tonta a aritmética da memória, e ainda assim perderia o rumo ante sua vela ligeira. Mas, na veracidade de elogio, eu o tomo como sendo uma alma de grande importância, e sua essência de tal escassez e raridade, que, para fazer veraz relato dele, seu semelhante é seu espelho, e quem mais lhe rivalize, sua sombra, nada mais.

OSRIC

Vossa excelência fala mui infalivelmente dele.

HAMLET

O tema em questão, senhor? Por que envolvemos o cavalheiro em nosso tão rude hálito?

OSRIC

Senhor?

HAMLET

Não será possível entender sua linguagem em outra língua? Tu és capaz, senhor, deveras. O que leva à nominação desse cavalheiro?

OSRIC

De Laerte?

HORÁCIO

Seu alforje ‘stá já vazio; todas palavras doiradas foram gastas.

HAMLET

Dele, senhor.

OSRIC

Eu sei que o senhor não é ignorante…

HAMLET

Quisera que soubesses, senhor; todavia, se assim fosse, não me seria vantagem alguma. Bem, senhor?

OSRIC

O senhor não é ignorante da excelência de Laerte…

HAMLET

Não ouso confessar tanto, por temer comparar-me a ele em excelência; mas conhecer bem a um homem seria conhecer a si mesmo.

OSRIC

Eu digo, senhor, em sua arma; mas na imputação que lhe lançaram, em seu mérito ele é sem par.

HAMLET

Qual é sua arma?

OSRIC

Florete e adaga.

HAMLET

Eis duas de suas armas; mas, bem.

OSRIC

O rei, senhor, apostou com ele seis cavalos da Berbéria, contra os quais ele “ampenhou”…

HAMLET

Ampenhou?

OSRIC

…como suponho, seis floretes e punhais franceses, com seus apetrechos, como cinturão, amarras e tal; três das “carriages”, de boa fé, são mui caras ao gosto, mui afeitas às alças, “carriages” mui delicadas, e de mui elaborado feitio.

HAMLET

A que chamas as “carriages”?

HORÁCIO

Sabia que tu devias ser edificado até as margens antes de terminar.

OSRIC

As carruagens, senhor, são as amarras.

HAMLET

O termo seria mais pertinente à matéria se pudéssemos carregar canhões aos nossos lados. Quisera que fossem amarras até lá. Mas, adiante: seis cavalos da Berbéria contra seis espadas francesas, seus apetrechos, e três… o quê, de elaborado feitio?

OSRIC

“Carriages”.

HAMLET

“Carriages”; esta é a aposta francesa contra a dinamarquesa. Por que está isso “ampenhado”, como o dizes?

OSRIC

O rei, senhor, estabeleceu, senhor, que em uma dúzia de golpes entre ti e ele, ele não o excederá em três golpes, ele estabeleceu em doze por nove e iríamos a prova imediata, se vossa excelência concedesse a resposta.

HAMLET

E se eu responder “não”?

OSRIC

Refiro-me, milorde, à oposição de tua pessoa em prova.

HAMLET

Senhor, eu andarei aqui no salão se isso agradar a sua majestade; é minha hora de me exercitar. Que venham as espadas, os cavalheiros dispostos, e o rei mantendo sua proposta, eu vencerei por ele se puder. Se não, nada ganharei a não ser a vergonha e os golpes a mais.

OSRIC

Devo retransmiti-lo dessa forma?

HAMLET

Para este efeito, senhor, após qualquer floreio que requeira tua natureza.

OSRIC

Eu recomendo meu dever a vossa excelência.

HAMLET

À vossa, à vossa. Ele faz bem em recomendá-lo ele mesmo; [Sai Osric.] não há outras línguas para esse fim.

HORÁCIO

Este quero-quero foge com a casca sobre a cabeça.

HAMLET

Ele de fato fez mesuras a seu mamilo antes de sugá-lo. Assim ele, e muitos mais do mesmo gênero, que eu sei que a idade frívola idolatra, apenas captou a melodia dos tempos e o hábito exterior da conversação; uma sorte de espumosa coleção, que os vai levando e levando através das mais tolas e seletas opiniões, e tão logo se os põe à prova, as bolhas estouram.

Entra um Lorde.

LORDE

Milorde, sua majestade recomenda-se a ti pelo jovem Osric, que traz de volta a ele que tu o esperas no salão. Ele me envia para saber se tua disposição se mantém de disputar com Laerte, ou se tu precisarás de mais tempo.

HAMLET

Eu sou constante em meus propósitos, eles seguem a disposição do rei. Se sua aptidão se expressa, a minha ‘stá pronta agora ou quando quer que seja, conquanto ‘steja tão apto quanto agora.

LORDE

O rei e a rainha estão descendo.

HAMLET

Em boa hora.

LORDE

A rainha deseja que tu uses de gentil intercâmbio com Laerte antes de entrar em disputa.

HAMLET

Ela bem me instrui.

Sai o Lorde.

HORÁCIO

Tu perderás esta aposta, milorde.

HAMLET

Não penso assim. Desde que ele foi para a França, tenho ‘stado em prática contínua; ganharei com a vantagem. Mas tu não pensarias quão nefasto tudo se mostra a meu coração. Mas não importa.

HORÁCIO

Não, meu bom lorde…

HAMLET

Não é mais que uma bobagem; mas é uma tal sorte de desassossego, como porventura importunaria a uma mulher.

HORÁCIO

Se tua mente desgosta de algo, obedece-lha. Eu retardarei a vinda deles, e direi que não estás apto.

HAMLET

De forma alguma; nós desafiamos o augúrio. Há uma providência especial na queda de um pardal. Se for agora, não ‘stá por vir; se não ‘stiver por vir, será agora. Se não for agora, ainda assim virá. A prontidão é tudo. Uma vez que homem algum sabe o que seja do que deixa, que será retirar-se precocemente? Que seja.

A corte reune-se para o duelo, incluindo Cláudio, Gertrude, Laerte, Osric etc.

CLÁUDIO

Vem, Hamlet, vem, e toma esta mão de mim. [Une sua mão à de Laerte.]

HAMLET

Dá-me teu perdão, senhor, eu te fiz mal; mas perdoa, sendo tu um cavalheiro. Os presentes sabem, e tu certamente ouviste, como ‘stou punido com severa perturbação. O que eu fiz, que possa a tua natureza, honra e censura rudemente despertar, eu aqui proclamo que era loucura. Foi Hamlet quem agravou Laerte? Nunca Hamlet: se Hamlet de si mesmo estiver apartado, e quando não é ele mesmo, faz mal a Laerte, então Hamlet não o faz, Hamlet o nega. Quem o faz, então? Sua loucura. Se assim for, Hamlet é da facção que é agravada; sua loucura é inimiga do pobre Hamlet. Senhor, nesta audiência, que minha negação de um mal premeditado me exonere a tal ponto em teus mui generosos pensamentos, que vejas que atirei minha flecha por sobre a casa, e feri meu irmão.

LAERTE

‘Stou satisfeito em natureza, cujo motivo, neste caso, deveria mover-me à minha vingança, mas em termos de honra eu sigo indiferente, e não desejo reconciliamento algum, até que por alguns mestres mais velhos, de sabida honra, eu tenha um parecer e precedente de paz, para manter meu nome incólume. Mas até tal hora, eu recebo sim teu oferecido amor como amor, e não o desonrarei.

HAMLET

Eu o aceito sim, com prazer, e esta aposta entre irmãos com lisura disputarei. Dai-nos as espadas. Vamos.

LAERTE

Vamos, uma para mim.

HAMLET

Eu serei um contraste para teu metal, Laerte. Ante minha ignorância tua habilidade, como uma estrela na mais negra noite, ressaltará mui luzente.

LAERTE

Mofas de mim, senhor.

HAMLET

Não, por esta mão.

CLÁUDIO

Dá-lhes as espadas, jovem Osric. Primo Hamlet, sabes a aposta?

HAMLET

Mui bem, milorde. Vossa majestade estabeleceu a vantagem para o lado mais fraco.

CLÁUDIO

Não o duvido; Já vos vi a ambos, mas sendo ele melhor, temos então vantagem.

LAERTE

Esta é pesada demais, deixa-me ver outra.

HAMLET

Esta bem me agrada. Estas espadas têm todas um comprimento?

OSRIC

Sim, meu bom lorde.

CLÁUDIO

Ponde os cálices de vinho sobre aquela mesa. Se Hamlet der o primeiro ou segundo toque, ou empatar em réplica ao terceiro, que todas as torres seus petardos disparem. O rei beberá ao bom alento de Hamlet; e na taça uma pérola ele lançará, mais rica que aquela que quatro sucessivos reis na coroa dinamarquesa ostentaram. Dai-me a taça e que o tímpano ao trompete fale, o trompete ao artilheiro lá fora, os canhões aos céus, os céus à terra, “agora, o rei bebe a Hamlet.” Vamos, começai. E vós, juízes, mantende olho vigilante.

HAMLET

Vamos, senhor.

LAERTE

Vamos, milorde.

Começa o duelo.

HAMLET

Um!

LAERTE

Não!

HAMLET

Julgamento?

OSRIC

Um golpe, um golpe bem palpável!

Clarinadas e caixa clara.

LAERTE

Bem, mais uma vez.

CLÁUDIO

Aguardai; dai-me a bebida. Hamlet, esta pérola é tua; isto é por tua saúde. Dai-lhe a taça.

HAMLET

Eu disputarei este assalto primeiro; deixai-a de lado um instante. Vamos. [Retomam o duelo.] Outro golpe; que dizes?

LAERTE

Um toque, um toque, eu confesso.

CLÁUDIO

Nosso filho vencerá.

GERTRUDE

Ele ‘stá gordo, e de fôlego curto. Aqui, Hamlet, toma meu lenço, esfrega tua testa. [Toma o cálice.] A rainha brinda à tua fortuna, Hamlet.

HAMLET

Obrigado, senhora!

CLÁUDIO

Gertrude! Não bebas.

GERTRUDE

Eu o farei, milorde. Rogo-vos, perdoai-me.

CLÁUDIO [À parte]

É a taça enveneneada: é tarde demais.

HAMLET

Não ouso beber ainda, senhora; em instantes.

GERTRUDE

Vem, deixa-me enxugar tua face.

LAERTE [A Cláudio]

Milorde, eu o acertarei agora.

CLÁUDIO

Não creio.

LAERTE

E ainda assim é quase contra minha consciência.

SENTINELA [Branagh.]

Ataque!

HAMLET

Vamos, à terceira, Laerte. Tu apenas brincas; rogo-te, ataca com tua melhor violência; temo que me tomes por um moleque.

LAERTE

Dizes isso? Vamos. [Ataca Hamlet por trás; Branagh.] Toma esta!

Lutam enfurecidos. Na confusão, trocam de espadas.

OSRIC

Nada, de lado algum.

CLÁUDIO

Apartai-os! Estão ensandecidos.

HAMLET

Não, vamos, mais uma vez.

Gertrude desfalece.

OSRIC

Acudi lá a rainha, ho!

HORÁCIO [Branagh: INDISTINTO]

Sangram os dois lados.

OSRIC

Como está, Laerte?

HORÁCIO

Ora, como uma codorna em minha própria armadilha, Osric. Sou justamente morto com meu próprio logro.

HAMLET

Como vai a rainha?

CLÁUDIO

Ela desfalece ao vê-los sangrar.

GERTRUDE

Não, não, a bebida, a bebida! Ó meu caro Hamlet, a bebida, a bebida! Fui envenenada.

Morre.

HAMLET

Ó vilania! Que se tranque a porta! Traição! Que se apure!

Sai Osric.

LAERTE

‘Stá aqui, Hamlet! Hamlet, tu ‘stás morto; remédio algum no mundo te pode ajudar; em ti não há meia hora de vida; o pérfido instrumento ‘stá em tua mão, afiado e envenenado. O ardil abominável se voltou contra mim. Vê, aqui jazo, para nunca mais levantar; tua mãe foi envenenada. Não posso mais: o rei, o rei é o culpado.

LORDES

Traição! Traição!

HAMLET

A ponta! Envenenada também! Então, veneno, ao teu trabalho.

Estoca Cláudio.

CLÁDIO

Ó, defendei-me, amigos; ‘stou apenas ferido.

HAMLET

Aqui, tu, incestuoso, assassino, maldito dinamarquês, bebe desta poção. ‘Stá tua pérola aqui? Segue minha mãe.

Cláudio morre.

LAERTE

Ele teve o que mereceu; é uma poção por ele mesmo composta. Troca perdão comigo, nobre Hamlet. Que a minha morte e a do meu pai não recaiam sobre ti, nem a tua sobre mim.

HAMLET

Os céus disso te libertem! Eu te sigo. ‘Stou morto, Horácio. Miserável rainha, adieu! Vós que empalideceis e tremeis ante este infortúnio, que não sois mais que figurantes ou plateia para este ato, tivesse eu tempo… já que este cruel sargento, a morte, é estrito em seu jugo… Oh, eu poderia contar-vos… mas que seja. Horácio, eu ‘stou morto; tu vives; reporta a mim e a minha causa corretamente aos desinformados.

HORÁCIO

Nunca o creias, eu sou mais um antigo romano do que um dinamarquês. Aqui ainda resta alguma bebida.

HAMLET

Se és um homem, dá-me a taça, solta! Pelos céus! Larga. Ó Deus, Horácio, que nome ferido, ficando as coisas assim ignoradas, viverá depois de mim! Se tu alguma vez me tiveste em teu coração, resguarda-te da felicidade um tempo, e neste mundo hostil toma teu fôlego sob dor, para contar minha história. [Soldados marchando e tumulto] Que ruído de guerra é este?

OSRIC

O Jovem Fortimbrás, com conquista vindo da Polônia, aos embaixadores da Inglaterra saúda com esta saraivada belicosa.

HAMLET

‘Stou morrendo, Horácio. O potente veneno já sobrepuja meu espírito. Não posso viver para ouvir as notícias da Inglaterra; mas eu deveras prevejo que a eleição brilhará sobre Fortimbrás. Ele tem meu sufrágio moribundo; dize-lhe isso, com os incidentes, de grande e pequena monta, que serviram de motivação. O resto… é… silêncio.

Morre.

HORÁCIO

Agora se rompe um nobre coração. Boa noite, doce príncipe… e hostes de anjos acalentem teu descanso! Por que vem até aqui o tambor?

Entram Fortimbrás e Embaixador Inglês, e outros, com tambores e estandartes.

FORTIMBRÁS

Onde ‘stá esta visão?

HORÁCIO

O que é que querias ver? Se qualquer coisa de trágico ou maravilhoso, cessa tua busca.

FOTIMBRÁS

Esta mortandade proclama uma calamidade. Ó orgulhosa morte! Que ceia se avizinha em tua cela eterna, que tu tantos príncipes de um golpe tão sangrentamente derrubaste?

EMBAIXADOR INGLÊS

A visão é aterradora e nossos afazeres da Inglaterra chegam tarde demais. Os ouvidos ‘stão insensíveis que deveriam nos dar audiência, para dizer a ele que seu comando está cumprido, que Rosencrantz e Guildenstern ‘stão mortos. De onde teremos nossos agradecimentos?

HORÁCIO

Não de sua boca, tivesse ela a habilidade da vida para agradecer-te: ele nunca deu comando para a morte deles. Mas já que, tão simultaneamente a esta… sangrenta questão, tu das guerras polacas, e tu da Inglaterra, aqui chegastes, dai ordem de que estes corpos no alto de um púlpito sejam postos à vista e deixai-me falar ao mundo ainda ignorante como estas coisas vieram a acontecer, tal que ouçais de carnais, sangrentos, e desusados atos, de julgamentos acidentais, assassínios casuais, de mortes suscitadas por ardil e causa imposta, e, neste desfecho, intentos mal conduzidos recaídos sobre as cabeças dos inventores. Tudo isso posso eu fielmente relatar.

FORTIMBRÁS

Apressemo-nos em ouvi-lo, e chamai os mais nobres à audiência. Quanto a mim, com pesar eu aceito minha fortuna. Eu tenho alguns direitos ainda não esquecidos neste reino, os quais agora a reinvindicar minha vantagem me convida.

HORÁCIO

Disso eu terei também causa para falar, e de sua boca, cujo sufrágio atrairá outros; mas que isso seja imediatamente realizado, mesmo enquanto as mentes dos homens estejam perturbadas, antes que mais infortúnio, somando-se a tramas e erros, ocorra.

FORTIMBRÁS

Que quatro capitães carreguem Hamlet, como um soldado, ao púlpito; pois era provável, houvesse ele sido testado, que se provasse mui imperial, e, para sua passagem, a música dos soldados e os ritos da guerra falam com grandiloquência por ele. Levai o corpo! Tal visão como esta convém ao campo de batalha, mas aqui se mostra mui imprópria. Ide. Mandai os soldados dispararem.

Hamlet é carregado. Disparos de canhão. Saem.

Fim.

1Trecho trasposto do fim desta fala por Branagh.

2Esta fala é transposta da cena anterior por Branagh.

3A introdução de Ofélia é uma opção de Branagh.

4 Referência ao símbolo do Globe Theatre, Hércules segurando o globo terrestre.

5No contexto elisabetano, rapazes nas adolescência faziam os papéis femininos. Segue-se aqui o filme de Branagh.

6 Esta fala é transposta da cena anterior por Branagh.

7Personagem do Teatro de Moralidade.

8A corte fazia uma excursão pelo interior, no verão, a que “progress” alude.

9 Transposto de um momento posterior da cena.

10 Branagh.