Crônicas

Linguística Clínica

Depois de trinta anos no meio acadêmico, tantos títulos e congressos, tantas aulas e pesquisas, todo aquele circo me aborreceu imensamente. Como meu último interesse vinha sendo Linguística Clínica, e me sentia fascinado, pareceu natural largar a Academia justamente para levar a teoria ao mundo real: montei um consultório para atender pessoas com dificuldades de fala. Demorou para que eu me estabelecesse, para que colegas médicos e fonoaudiólogos descobrissem do que se trata e passassem a recomendar meus serviços, mas hoje posso dizer que a Pacífico Linguística Clínica está consolidada. Ah, esse é meu nome também, muito prazer. É gratificante olhar para trás e ver o quanto pude aprender e quanta gente superou problemas estigmatizantes através das sessões aqui nesta saleta. Mas não foi nada fácil: a vivência de consultório é rica, mas pode ser às vezes imprevisível demais, não se furtando a ser cômica. Exatamente por isso me propus a compilar algumas reconstituições, imperfeitas que sejam, de algumas sessões. Os pacientes geralmente desaparecem sem pagar, de modo que não foram encontrados para autorizar a publicação. Isso representa um problema ético na visão de certos colegas, mas já mandei um uísque para cada um deles. Sem mais delongas, aqui vão relatos de casos que exigiram muito de mim, seja pela peculiaridade do problema, seja pela dificuldade em segurar o riso. Você não precisa se submeter a essa inconveniência, o maior risco é não ter riso para segurar. Nesse caso, tira-me ao solo, ou à lixeira antes; fecha a janela do navegador ou algo assim.

25 de abril

Minha secretária anunciou a sra. X, ela entrou.

Bom dia, minha senhora.
Igual bom diamente.
Perdão?
É problematicamente o exato, doutor seu! Eu coiso a troca das ordens.
Você troca a ordem das coisas! Interessante, diga mais. Você sempre teve esse problema?
Eu radiava em trabalho, não.
Entendo… E desde quando vem apresentado esse sintoma?
Certo ao sei não bem eu… Se trabalhei porque foi a perda ou se por trabalho perdi isso.
Como? Você perdeu o trabalho por isso?
Isso é falar sobre difícil…
Fique calma, aceita um a água, chá? Respire fundo. Você está protegida por sigilo profissional.
Verdade na, doutor seu, antes começou.
Não precisa me chamar de doutor, sinta-se à vontade. Então começou antes, prossiga
Atrás meses seis, ele divorciou o pedido.
Interessante.
Meu ex-advogado é marido, e guardou os filhos do ganho.
Ganhou a guarda, sim.
Eu bebi a começar, comprimir tomadas…
Ah!
Época empreguei a perda nessa eu, e troquei a começar falado… não veio o que sei antes!
É um caso fascinante, vamos tentar um exercício. Diga “planejamento da intervenção”.
Intervenção do planejamento.
Agora diga “intervenção do planejamento”.
Intervemento da planejação.
Curioso… Diga “Intervemento da planejação”.
Davenjainter taplajação…. Ama de deus pela parada!
Calma, descane um pouco… Fica tranquila, estou aqui para ajudar.
Bem tudo.
Diga “a galinha da vizinha”.
A vizinha da galinha.
Agora diga “a vizinha da galinha”.
A galinha da vizinha. Boa que coisa!
Exatamente, tente inverter o que vai dizer antes de dizer.
Vou tentar.
Isso! muito bom.
Ótimo você é!
Estamos apenas começando. Diga “o cavalo branco de Napoleão”. Pode pensar à vontade.
O Napoleão do cavalo branco.
Está bom, mas pode melhorar.
O branco Napoleão do cavalo.
Vamos mais devagar. Diga… “trabalho na rádio”.
Radio no trabalho.
Não, você esqueceu de inverter antes, é o mesmo exercício. Não tem pressa.
Trabalho na rádio.
Perfeito!
Tente agora “perdi meu trabalho na rádio”.
Trabalhei… Não. Meu rádio perdi no trabalho.
Tudo bem. Vamos tentar assim: quem perdeu o trabalho?
Eu
O que aconteceu com você?
Trabalhei na perda do rádio!
Mais devagar… qual é o verbo? É chorar?
Sido tem…
Não, o verbo é perder. Na primeira pessoa do pretérito perfeito do indicativo?
Perdi?
Isso, diga “eu perdi”.
Eu perdi.
Parabéns, agora diga “o trabalho na rádio”. Pense antes.
O trabalho… na rádio.
Bom. Agora diga “eu perdi o emprego na rádio”.
O emprego na rádio eu perdi.
Quase lá… pode pensar, não há pressa.
Eu perdi… o emprego na rádio. Viva! Estou curadamente completa!
Calma, ainda há muito por avançar… Vamos tentar uma frase mais complexa. Diga “eu preciso aceitar a separação”. Senhora, não, por favor, não vá embora agora, estamos progredindo. Sente-se por favor.
Que por assuntar desse falo?
(aqui eu me viro para esconder o riso)
Esse trauma é a origem do seu problema. Vamos aos poucos, diga “eu preciso”.
Eu preciso.
“Aceitar a separação”
Separar a aceitação.
Não exatamente, lembre-se de inverter.
Sepitar a aceração.
Não, fique tranquila. Quando você conseguir dizer esta frase, será um grande passo, e seguimos na próxima sessão. “Aceitar a separação”.
Aceitar… a separação.
Ótimo. “Eu preciso aceitar a separação”.
Eu preciso… canalhar aquela morte!
“Eu preciso… aceitar… a… separação”.
Eu preciso. Ufa! Aceitar a separação. Consegui! Eu disse a inteira frase!
Meus parabéns, sra. X! Fez ótimo progresso. Por hoje é só.
Nossa, me sinto tão bem, seu… Pacífico! Sou uma mulher outra! Como agradecer posso?
Apenas acerte com a secretária e marque para semana que vem.

 

Vísceras

Eu só penso ser conveniente… não que interesse a alguém, obviamente, mas resolvi de qualquer forma, para enganar a modorra de mais uma noite solitária, mais do que qualquer coisa, ouvindo ópera – veja só – quando era melhor ter uma popuzuda dançando funk e roçando em mim, enfim, lançar-me a um pequeno arrazoado, sob a péssima influência de um amor frustrado e mergulhado numa patética fase hamletiana (como se Hamlet não fosse patético em si mesmo), de modo a explicar – se é que não vou confundir cada vez mais, pouco importa – minha opção pela misantropia: antes que alguém se dê ao trabalho de apontar a fábula da raposa e das uvas, apresso-me eu a confirmá-lo; sim, eu detesto a humanidade… não que haja uma humanidade, mais do que uma cachorridade ou uma macaquidade, há bilhões de indivíduos de uma mesma espécie que vão se integrando a partir da violenta imposição de uma Civilização Ocidental – que é o máximo que dá pra odiar – se é que ela mesma existe (Gandhi, perguntado sobre o que pensava da Civilização Ocidental, respondeu que talvez fosse uma boa ideia); mas eu me converti de corpo e alma à misantropia justamente por fracassar totalmente em buscar uma inserção saudável na sociedade, não escondo de ninguém – e pouco importa se essas malditas uvas estão verdes, maduras ou podres; não, eu não tenho namorada, amigos se tive foram ficando pelo caminho e pouco se importam comigo, não tenho um trabalho que me realize, longe disso, não tenho diploma universitário mesmo tendo toda a vida sido importunado com a pecha de “inteligente”, fracassei no que sempre foi minha maior paixão, a música, por absoluta falta de disciplina e perseverança – constância, enfim; descobri-me portador de uma doença psiquiátrica e não posso cobrar de ninguém que entenda ou aceite; aliás, com licença que vou ali tomar meus remédios; eu odeio festinha de criança, odeio quando dizem:    “lá tem gente bonita”, eu odeio gente bonita, imagina, cheios de roupas e pinturas e cheiros e aquela música horrível, monocórdia que eles insistem em dançar, não! já devia ter aprendido que isso não é pra mim, meu locus é mesmo a solidão, se eu ao menos lesse com mais afinco – tem isso, também – poderia me considerar uma pessoa culta e excêntrica, cheio de latinismos na ponta da língua, pois ora! do jeito que está, eu não passo de esquisito e, pior, egocêntrico e vaidoso, sem o devido estofo para tanto, mendigando por atenção em redes sociais que não passam de vitrine para meu próprio solipsismo – como este endereço, obviamente, que fico torcendo para que visitem e, bem, é prazeroso quando alguém o elogia, mas afinal é para isso que ele existe, ou não? para ser a plataforma de outra existência que oblitere a realidade, como já foi dito

SerSon Dans L’Enfer

Ser ou não ser: eis a medicação. Será mais nobre na mente sofrer a intolerância da sociedade ensandecida ou tomar drágeas contra um diagnóstico, e numa internação pô-la nos “eixos”…Render-se, sucumbir, não mais. E sucumbindo, crer que finde a aporrinhção, e as mil rudes mãos que à carne aprisionam. É uma resignação a ser devotamente tentada. Render-se. Sucumbir, porventura libertar-se. Sim, eis o senão: Pois nessa liberdade de mentira, os grilhões estão, quando desembaraçados de muros de pedra, que nos atravancam o caminho. Tal é a consideração que faz indiferente a longa vida desta calamidade. Pois quem suportaria o açoite e o escárnio da estupidez, o agravo o televisor, a chacota do estulto, as chagas de amores desprezados, a Lei venal, e as patadas que o mérito paciente de pulhas recebe… quando ele mesmo pode buscar refúgio na loucura… Quem tais parvos suportaria com um falso servilismo, não fora o temor de acusações de insânia – o país indescoberto que viajor algum deseja visitar… Assim, a consciência faz de nós bem conformados. E assim o matiz saudável da autenticidade é acometido do verniz pálido da dissimulação. E personalidades de grande vigor e ímpeto, com tal temor, seus cursos desviam-se do rumo, e perdem o nome… de pessoas.

Diet Rib’s?

Quando é tu vai criar vergonha nessa cara, feladaputa? Acha que é vida isso de acordar tarde, chegar atrasado no trampo e ficar enrolando o dia inteiro, vendo bobagem na internet, esperando a chance de dar uma escapada pra encher o pulmão de fumaça? Pra chegar no fim do dia e cair na esbórnia, ligar pra casa dando uma desculpa esfarrapada e ficar jogando seu tempo fora com prazeres fúteis? Vai chegar aonde assim? Tu teve tudo pra ser um cidadão de bem, funcional, produtivo… e fica aí com a cabeça deus-sabe-onde, no seu mundo paralelo, cheio de coisas que ninguém mais se importa, ou sequer conhece. Que vantagem é conhecer cada disco do Zappa, ter assistido ao Flying Circus completo, e tal e cousa? O mundo é uma competição, otário! É nego pisando no pecoço do outro, vendendo a mãe e o caralho. Você já sacou, não é? Já esqueceu seus sonhos, qualquer coisa parecida com ideologia. Também, nada mais ridículo que um filhinho de papai cheio de grana posando de esquerdista. A verdade é que tu é egoísta como todos que você critica. E você nunca foi culto de verdade pra se achar especial desse jeito. Você se mete a escrever, comete uma bobagem ou outra a cada passagem do cometa Halley… já sabe que não vai ser escritor nunca, não vai ser músico nunca. Tu não tem disciplina, método, estrutura. Nem pra escritor maldito você serve. Se pelo menos tu olhasse pro chão e andasse pra frente, mas não! Tem que olhar pro horizonte, pras nuvens, agora pra árvore, agora pra lagoa. Não sabe se vai, se fica, se volta. Acha lindo ser o alternativo, mas no fundo é um conservador. Quer flertar com o submundo e com a alta roda, você acha que é íntegro, autêntico e nunca vai mudar o que é de acordo com as circunstâncias, porra nenhuma, se liga. Se descobrem quem você é de verdade, cê tá fudido. Monstro! Demente! Criminoso! Já sei, vou sujar seu nome na praça, vagabundo. Vai todo mundo saber o que tu é por baixo desse disfarce! Vou jogar a merda no ventilador! Hahahahaha!

E quem é que se importa, babaca?

De volta a Rondônia

Morei em Porto Velho de 84 a 94, época em que as coisas aqui eram ainda mais precárias; mas fora as constantes quedas de energia – que suavizaram com o advento da usina de Samuel – reconheço que não tinha razão de me queixar por não ter os deslumbres sulistas. Tudo bem que nunca me acostumei ao calor, mas isso é o pensamento do colono: era como se estivesse ali por sacrifício, um dia votaria à “minha terra”. Ironicamente foi o que veio a acontecer: depois de passar por Vitória (da qual gostei muito) e Campinas (da qual só falava mal), voltei à capital federal (com a qual tenho minhas questões). Mas digo que sinto orgulho de meu período amazônico.

A última vez que voltara foi em 2002, numa breve inserção em uma viagem para o Acre e o Peru. Desta feita, foi um corolário quase acidental à visita ao Amazonas (a opção inicial era conhecer o monte Roraima). Diziam que Porto Velho mudara muito, o que me pareceu um exagero à primeira vista: a esbórnia urbanística (gostou da aliteração?) segue a mesma: calçadas detonadas, lixo acumulado e água empoçada… Mas a cidade cresceu sim, e melhorou um pouco; só se fala no novo xopincênter, e alguns prédios já ameaçam o império das três caixas d’água (símbolos da cidade) na silhueta da capital. Tudo em função da construção da controversa Usina de Santo Antônio, que acabou com o marco inaugural de Porto Velho, a cachoeira (corredeira, na verdade) de Santo Antônio. Quando concluírem a saída para o Pacífico e a estrada para Manaus, aí sim que o “progresso” capitalista vai tomar isto aqui de assalto.

Tinha por meta conhecer o Forte Príncipe da beira, pois em todos anos que aqui vivi, não conheci nada do interior, fora os eventuais “pousos” em Vilhena, a caminho, ou de regresso, do “Brasil”. Então fomos meus tios Edmilson (meu anfitrião), Edinaldo (que de quebra é historiador) e eu rumo a Costa Marques, cidade na fronteira com a Bolívia, aonde não chega o asfalto. No caminho entramos em Ariquemes, para ver o posto do telégrafo do Marechal Rondon: tudo depredado, eu nunca adivinharia não fosse meu tio conhecer o lugar. Entramos ainda em Ouro Preto do Oeste, que se não é nada especial, posso apostar que deu um salto quântico em relação à minha época; pareceu interessante um salto de parapente (que meu tio disse custar R$60) no meio de uma reserva florestal. De fato há apenas manchas de floresta ao longo da estrada, e o boi já tomou tudo. Erramos o caminho e pegamos mais terra do que necessário, viemos pousar em São Miguel do Guaporé. Outra novidade de Rondônia é a proliferação de municípios: Cerejeiras não parecia ter mais que cinquenta casas. Uma farra de cargos e verbas. No dia seguinte chegamos a Costa Marques, uma currutela. Segundo Edinaldo, a povoação original, do tempo do Brasil-Colônia (enquanto a colonização prossegue até hoje) fica na beira do Rio Guaporé, e está deteriorando; a cidade de fato se instalou mais acima – a salvo das recorrentes cheias. O Forte ficava ainda a uns vinte minutos dali, onde há um quartel, e foi um soldado o nosso guia.

A construção foi idealizada e encomendada pelo Marquês de Pombal, o déspota “ilustrado” de Portugal que quis reerguer o combalido Estado português arrochando mais a colonização no Brasil, e garantindo as fronteiras amazônicas com fortificações como esta. Impressiona pela extensão, mas não pela altura. É como um quadrado central com um losango em cada vértice, onde ficavam uma guarita e os canhões. Consegui subir na plataforma de um canhão voltado para o rio, e dava para imaginar um praça de El-Rey defendendo a colônia dos espanhois, no fim do século XVIII. No centro, de paredes bem menos sólidas que as externas (compostas de monólitos de tamanho irregular) havia as ruínas da igreja e da casa do governador; bem na entrada havia uma cadeia, em que um padre ficara preso (e um dos motivos do abandono do forte foi a crença de que a praga do padre, e não as doenças tropicais, estava matando a todos). Diz-se que todos que lá trabalhavam por lá morriam, assim como foi com a Madeira-Mamoré.

A volta teve direito a um inusitado almoço na rodoviária de Rolim de Moura (homenagem ao primeiro titular da Capitania do Mato-Grosso, que incluía a atual Rondônia, e terra do bandidaço Ivo Cassol, governador cassado que se segura ao cargo com muito $$$): cada um ligava sua publicidade no último volume, mais os carros com música… Deu também para perceber como vieram para o estado muitos alemães – e a cultura pomerana também sobrevive aqui. De modo geral, Rondônia foi mais “embranquecida” que o Amazonas, certamente.

Para finalizar, ainda visitei a Cachoeira do Teotônio, que também é na verdade uma corredeira, e com o rio cheio também não dá para ver as pedras, mas ainda é um belo espetáculo; e depois a do santo Antonio, quer dizer, o canteiro de obras da usina. Depois fomos ao cemitério da Candelária, onde foram enterrados alguns das centenas de mortos na construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, da qual participaram mais de 50 nacionalidades. Chega-se até lá andando sobre os trilhos e ao lado de várias locomotivas abandonadas, apodrecendo. No cemitério, alguns espertos passaram a usar a terra para plantio, e o patrimônio histórico tem muito pouca atenção: uma cruz feita de trilhos ajudou a designar o local, e algumas sepulturas – às vezes com uma tosca cruz de ferro – foram delimitadas; bem conservadas, apenas as lápides judias, com inscrições em hebraico e português, sobre mármore. No dia seguinte, também na candelária, onde vivem remanescentes dos barbadianos, comemos a tradicional peixada do Ray. Dentre as promessas da usina está reativar o trecho da ferrovia, que funcionou de 1981 a 2000, de Porto Velho (a estação estava fechada para obras) ao Santo Antônio: vamos ver em que sentido será transformado este território, temo que se livrem dos pobres para dar lugar a uma área valorizada.

O Mais Verde Estado

Já havia dito que não queria transformar esta página em um diário pessoal, quanto mais de uma vida tão desinteressante. De corriqueiro, porque às vezes posso fazer coisas, se não extraordinárias, pelo menos merecedoras de serem blogadas.

Voei até Manaus na terça. Na quarta fui até Presidente Figueiredo, a 105km da capital – não ligue para o nome, é ótimo. Comi um delicioso pirarucu fresco – peixe que só conhecia salgado – ao tucupi, um molho amarelo de uma planta amazônica, com uma farofinha de farinha d’água (só falta arrebentar o dente) com banana, e arroz. Fui então de mototaxi até a Cachoeira do Santuário. Você talvez vá lembrar das aulas de geografia e perguntar “mas a Amazônia não é toda plana?” Não é tão simples: também é uma bacia sedimentar, mas lá havia um grande afloramento de basalto (vulcânico). Enfim, só conhecendo um lugar para saber de verdade como é. A cachoeira fica em um imenso vale; depois de um barzinho, desce-se por pontes de tábua até uma calma lagoa com uma prainha de areia, e à esquerda há uma queda d’água que abordamos pelo lado, ao longo de um paredão basáltico; é possível ficar sob a ducha, que deve ser (assim como o conjunto todo) mais impressionante na época da cheia; mais adiante há uma queda ainda mais vigosrosa e turbulenta, que não me pareceu possível alcançar. Vale a pena, para quem tiver a chance, há várias outras cachoeiras, e uma gruta que parece muito bonita pela foto, algo como aquela da Chapada Diamantina. De volta a Manaus, a novidade era a prisão do vice-prefeito, por associação para o tráfico. Mas o taxista garantiu que o titular Amazonino Mendes é “gente boa”. “Nunca matou ninguém sem motivo”, atalhei.

Na quinta o dia foi reservado para a viagem de “a jato”, as lanchas rápidas que fazem o trajeto subindo o Solimões até Tefé. Atingindo até 50km/h, levam treze horas e meia para chegar ao destino com paradas pelo caminho, como Coari, onde a Petrobras tem o projeto Urucu, de extração de petróleo e gás. Afora os filmes bobocas que passam, e os bêbados chatos que entraram em Coari, a viagem é até agradável: passa logo de cara no encontro das águas; o Solimões é um colosso de quilômetros de largura (não achei o dado exato), que forma ilhas fluviais; é ladeado de barrancos, onde é possível ver comunidades ribeirinhas, e mesmo casas bem isoladas; o rio quando sobe vai desbastando os barrancos, e – imagino – depositando nas ilhas os sedimentos; a floresta é um espetáculo de verde, emaranhado de árvores, arbustos, palmeiras.

Um dia de bobeira resolvendo detalhes: não havia passagem de volta para Manaus no domingo; docemente constrangido, fico em Tefé mais dois dias, e mais um dia em Manaus. Infelizmente, a passagem para Porto Velho vai custar o dobro ou mais.

Sábado fui com meu anfitrião Guilherme, professor de antropologia da Estadual do Amazonas e vizinho de Rádio Muda em Campinas (por um tempo, seu Morte a Fatídica veio antes do nosso Coquetel do Mingus), até a comunidade indígena Barreira da Missão do Meio – acabo de voltar. Não é uma aldeia com ocas, são casas de madeira sobre palafitas (devido às cheias do rio), e eles falam português – mas há aulas de Tikuna, a língua de uma das três etnias lá representadas. A visita era parte de um projeto chamado Nova Cartografia Social, e a ideia era ensiná-los a usar o GPS para elaborar o mapa da comunidade. O pobre cartógrafo, o Luís, levou quase 24h para vir de Manaus – problemas com a lancha duas vezes – e comandou a oficina sem descanso. Mas, infelizmente, ocorrera a morte de uma liderança deles, em Manaus, e o corpo ia chegar dali a pouco, então ficamos apenas com a explicação do sistema GPS e do uso do receptor.

De volta a Manaus, nova visita ao Teatro Amazonas, testemunho do explendor do ciclo da borracha, em estilo belle époque. Afora as cadeiras e alguns detalhes, tudo é original e sem restauro, o que é impressionante no clima hostil da floresta – quente e úmido como não se pode imaginar não sentindo na pele. Bustos de Carlos Gomes por todos os lados e mesmo a madeira, que é daqui, ia à Europa para ser beneficiada e voltava. Enfim, um desbunde dos barões da borracha, e a pior etapa das tournées das companhias europeias, que tinham que subir o Amazonas.

Visita ao Rêmulos, apenas um de vários bordeis do centro de Manaus, mas muito bem recomendado. Não decepcionou: primeiro, os preços, R$10 para entrar, R$3 por uma cerveja e R$10 poe um uísque; há primas fazendo estripe o tempo todo, e se o nível das profissionais pode variar, há muitas de cair o queixo. Meu cicerone explicou que o sistema da casa é também formidável: elas não são exploradas pela casa; a casa cobra entrada e vende bebidas além de cobrar pelos quartos (apenas R$15!!!), enquanto elas ficam com todo o cachê (módicos R$60!). Logo ao chegar vi uma morenaça, que me perguntou se eu era hippie (eu usava roupas meio extravagantes), seu nome artístico: Érica. Disse que estava chagando mas que voltaria a falar com ela. Tomando um uisquinho, assistindo aos shows – detalhe, elas também escolhem a música, uma loira muito boa dançou com Nirvana e Audioslave – e quando o cicerone resolve ir (encontraria uma garota), a Érica tinha “sumido”. Fiquei chateado, mas não muito tempo, “surgiu” outra morena linda, de olhos rasgados e misteriosos, e um corpão lindo. Seu nome? Érica. Parece sacanagem, meu amor de infância tinha esse nome. Enfim, foi uma boa e revigorante trepada. Recomendo: Rêmulos.

 

Esboço Piloto

Eu moro em Brasília. Não sei se moro muito bem ou muito mal.

Tomo de empréstimo os versos de Seu Jorge (então ainda no Farofa Carioca) apenas para produzir efeito. Por todos os critérios usados, moro muito bem: moro no Setor Sudoeste. Raramente um vizinho me cumprimenta, e se falam comigo é para quebrar o constrangimento de compartilhar o elevador calado. Por isso meu projeto é me mudar para a Vila Planalto. Uma cidade pequena dentro do Plano Piloto.

Mas a ninguém interessa minha vida. O artigo é sobre a capital. Que foi construída de forma açodada; na melhor das hipóteses foi projetada, sobre uma premissa absurda – o império do automóvel; e o máximo de planejamento foi este: terá meio milhão de habitantes para sempre.

Não faltam as polianas a dizer que é um sucesso; não sei se concordaria quem mora fora do DF e vem trabalhar aqui todos os dias. Pois não há uma única habitação popular no Plano (Esboço, doravante), há cidades-dormitório que insistem em chamar de satélites (que teriam relativa autonomia, por definição).

Irônico é que na cabeça do “comunista” – ingênuo, para dizer o menos – Lúcio Costa, as quadras 400, de apartamentos menores, seriam para os serviçais dos burocratas. Hoje um imóvel desses vale uma fortuna, e as pessoas moram em caixas de sapato, às vezes no subsolo e sem luz ou ventilação apropriadas.

Sem qualquer atividade econômica primária ou secundária significativa, a cidade depende basicamente do Estado e do comércio, além de serviços básicos, para gerar sua renda – que é a maior do país, considerado apenas o Esboço. Nós outros ganhamos bem no funcionalismo, não?

E o transporte? Já disse que o maior erro na concepção de Brasília foi pensar tudo em função do automóvel. Em verdade acreditavam mesmo os ingênuos da época que os burocratas como eu se locomoveriam de ônibus. Se eu morasse em Munique, não teria um carro. Só mesmo alguém muito abnegado o faria aqui, pois o sistema de transporte público é no mínimo precário, com linhas insuficientes, ônibus velhos (recentemente a frota foi promovida de matusalênica a decrépita); e controlado por uma máfia recentemente pega mais uma vez com a boca na botija, por ação de um tocador de apito insatisfeito por qualquer motivo (trata-se do maior bandido de todos). Foi construído um metrô, ligando algumas satélites/dormitório ao Esboço, mas sua abrangência é limitada e, dentro do plano, ajuda nada ou muito pouco: são duas ou três estações ao longo do Eixão, na Asa Sul apenas. Não é preciso dizer que os congestionamentos se avolumam e vaga de estacionamento é sovaco de cobra, como diz meu pai. Em uma década ou menos a cidade trava e a capital vai se mudar pra Amazônia.

Olhe Sempre o Lado Bom da Vida

Esbarrei nesta imagem em um blogue, que dava a ela uma conotação negativa, ou pelo menos via nela um motivo para atacar o governo paulista. Tentarei exergá-la fora do espírito de disputa político-partidária (a famosa briga de torcida).

É um belo instantâneo de alegria em meio à adversidade: a menina exibe um belo sorriso enquanto brinca com seu cãozinho flutuante, que parece posar para a câmera; em segundo plano, pelo menos um dos rapazes é visto sorrindo, contagiado pela singela brincadeira. E a água da enchente nas canelas.

Uma das mais recentes postagens tinha um tom cético em relação ao Brasil, mas apenas para criticar o ufanismo irrealista dos que acreditam tanto no potencial que o Brasil de fato tem que pensam que já chegamos lá, ou estamos muito perto. Um chamado de alerta, por assim dizer. De qualquer forma, acho de bom tom (se é que alguém vai ler isto, não importa) soltar uma postagem mais otimista.

Quero falar sobre a fibra do brasileiro. No módulo sociológico do meu doutorado em Palpitologia, aprendemos que é característica dos povos latino-americanos, pertencentes às sociedades mais injustas do mundo, não se abater, conservar o bom humor e seguir batalhando mesmo expostos a realidades tão duras. Imagine um francês, que mesmo com todas condições materiais, um Estado operante e basicamente idôneo, mesmo com educação e acesso à cultura, permite-se sentir um vazio existencial e exibir um já tradicional mau humor. Será o marasmo de não ter nada a resolver a raiz do problema, assim como as sociedades “perfeitas demais” da escandinávia supostamente levariam tanta gente ao suicídio? Agora imagine-se no interior de algum estado nordestino: talvez os que ainda vivam em penúria extrema levem a existência acabrunhada de Fabiano e Sinhá Vitória, retratados por Graciliano. Mas a experiência que eu tive foi com gente que tem muito pouco, mas não passa aperto, e está sempre alegre e fazendo piada – se der para assar um bode e tomar cerveja, melhor ainda. Pense então na Amazônia, onde sorrisos são tão espontâneos, onde a confiança no semelhante não desapareceu, em meio a condições apenas dignas, se não precárias. Como ignorar o fenômeno antropológico do Rio de Janeiro com suas manifestações culturais antropofágicas e anárquicas que a elite conservadora insiste em associar exclusivamente à criminalidade e à perversão (enquanto seus filhos aderem)? Não nos equeçamos dos gregários mineiros, e de seus vizinhos goianos; ou dos vilarejos de imigrantes no Sul e no Espírito Santo, com suas tradições. E por aí vai…

É um argumento válido o de que essa alegria não mostra de fato fibra, mas uma resignação ante a injustiça; que se se mobilizassem poderiam mudar seu curso de vida. Bem, exemplos de luta popular há vários, e não convém os arrolarmos aqui, mas como constante são criminalizados e combatidos pelo “Brasil opressor” (tome o exemplo, ficando nas enchentes, dos recentes protestos na Zona Leste). Então vejamos: se quem pertence a classes favorecidas se sente desenganado pelo modo como é conduzida a política no país e se entrega a uma (às vezes hipócrita) descrença, imagine os que são historicamente tratados como insignificantes, ganhando algum “valor” apenas nas eleições: tenderão mesmo a crer que “pobre não tem valor, pobre é sofredor; e quem ajuda é o Senhor do Bonfim” e farão o possível para se alegrar, pois afinal para isso só é preciso gente, talvez uma “vitrola”, um pandeiro ou um violão.

Creio que temos um belo povo, ou mosaico de povos. Obviamente a “democracia racial” é um mito, há um grande esforço pela frente para eliminar a discriminação contra o negro – mas muito já se avançou – e um impasse nunca suficientemente enfrentado é a maneira como o índio deve (ou não deve) se integrar à sociedade maluca que surgiu nestas terras da Coroa Portuguesa. O imigrante europeu, e japonês, foi um enxerto com fins de “branqueamento”, e sua integração foi pacífica; incomoda a mim é que esse “enxerto” acabou adotado como padrão de beleza, mas isso já é outra discussão.

A nota incômoda é que toda nossa riqueza étnica e cultural é sistematicamente ameaçada pela cultura de massa extrangeira, principalmente norteamericana. Não sugiro a xenofobia cultural: gosto muito de música americana (rock, jazz) e tendo a chance de visitar um museu na Europa, farei-o com gosto. Sem deixar de apreciar um Chorinho ou um Maracatu. Na verdade, confesso que já fui mais “colonizado”. Refiro-me por exemplo à televisão por assinatura, que despeja centenas de enlatados em nossas casas, ou à naufragante indústria do disco, que inventa de quando em quando um “fenômeno pop”.

Mas voltando afinal à foto da garotinha com sua balsa de isopor e seu cãozinho: é um bálsamo para alguém como eu que se revolta e se encoleriza com nossas mazelas parece que insanáveis. Vem à mente a musiquinha do Monty Python no fim de A Vida de Brian: “Olhe Sempre o Lado Bom da Vida”.

Uma Comédia Séria

Quando os irmãos Coen lançaram a obra prima Onde Os Fracos Não Têm Vez, em que Javier Barden brilhou como “o mal em pessoa”, fiquei me perguntando: será que vão adotar daqui pra frente um tom mais sóbrio e reflexivo, abandonando a comédia? Não que isso fosse uma tragédia (trocadilho à parte), pois a julgar pela qualidade do longa citado, eles têm potencial para relizar dramas monumentais.

Após algum tempo eles se saíram com Queime Depois De Ler, em que retomam a formula clássica da comédia de erros, além da queridinha de longa data Frances McDormand (desde o primeiro, Gosto de Sangue, passando por Fargo – que revelou a ela e à dupla – ou O Homem Que Não Estava Lá, Arizona Nunca Mais e por aí vai), na boa companhia dos consagrados Brad Pitt, George Clooney e John Malkovitch em grandes atuações. Um bom filme, engraçado, mas que não resiste a uma segunda (vá lá, terceira) sessão e que deixou a dúvida (inversa): será que vão voltar a fazer dramas?

Na verdade, não há muito mistério, pois em entrevistas eles revelaram planos de perseguir ambos caminhos. Nada melhor, portanto, do que prosseguir com um filme igualmente engraçado e cerebral, que é exatamente este Um Homem Sério, ora em cartaz por aqui. A crítica menosprezou o filme como inferior dentro da filmografia da dupla, o que acho injusto: talvez estejam procurando pelas gargalhadas, deixando de perceber a profundidade da película.

Um Homem Sério gira em torno do judaísmo, tema que sempre aparecia, nem que seja de relance, na maioria dos filmes anteriores; mas agora veio como o cerne da narrativa. O próprio argumento saiu direto do Velho testamento: as desventuras de Larry Gopnik são uma versão da parábola de Jó, em que um homem muito pio tem sua fé testada de diversas formas. Se eu entendesse alguma coisa de Bíblia poderia traçar aqui paralelos, mas imagino que se trate aqui de pinçar apenas a ideia principal, como E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? fez com a Odisseia.

O prtagonista é um professor universitário de Física, um judeu de classe média em seu subúrbio, com filhos adolescentes, nos Estados Unidos dos anos 50. A começar pela mulher que o deixa, Gopnik tem uma série de desventuras e prolemas de toda sorte, inclusive no trabalho e no trânsito, o irmão folgado, a televisão que não pega… Aturdido em meio a tantas “provas”, o careta Gopnik acredita ser um cara “sério” que não merece aquelas “provas”; é orientado a buscar a ajuda do rabino. Essa ajuda vai se provar uma peregrinação por toda a hierarquia de rabinos, desde o falastrão rabino “júnior”, passando pelo hilário pseudo-aconselhamento do rabino “sênior” – a cena mais central do filme, na minha visão, como explicarei – até o inacessível rabino-mor. Diversos episódios no caminho cumprem a função de introduzir piadas, como a recalcitrante visita à vizinha que lhe oferece um baseado – o único momento em que ele se afasta do estereótipo de “certinho” – ou o insano projeto de seu irmão, o Mentaculus, um “mapa de probabilidades do universo” que acaba funcionando – o que me remeteu ao “realismo fantástico” de Charlie Kauffman, como em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. E, é claro, o tema do judaísmo sempre permeando a narrativa. É mais ou menos isso, vou tentar não “estragar” o filme para quem não viu, mas vou-me permitir uma interpretação, uma vez que o final é meio “aberto”.

Como disse, o filme é um híbrido: tem suas gags, é engraçado – ainda esteja longe do Grande Lebowsky no medidor de gargalhadas – mas é ao mesmo tempo sério e profundo. Deixa pontas soltas para serem processadas e interpretadas depois do filme, o que é ótimo no meu modo de ver, mas absurdo para quem procura o “riso barato”. Nesse aspecto, aproxima-se de Fargo. Para não “fazer aviãozinho” com minha visão do final (e não “estragar” demais), deixo a vocês ruminar a sequência final de idas e vindas, inversão dos clichés cinematográficos em que tudo parece ir mal, desaguando depois no “happy-ending”. Voltemos então à visita ao rabino, que conta a ele uma história fantástica de mensagens em hebraico gravadas atrás dos dentes de um “goi” (não-judeu); a história acaba sem nenhuma explicação, o que deixa Gopnik perplexo e ainda mais desesperado. Ora, esssa é a tônica do filme: não busque explicação para nada, nem recompensa por seus méritos ou lógica nas coisas (ainda que o Tio Arthur pareça ter desvendado o “segredo do universo”). Avida está aí, é essa, e não há muito por que se preocupar. Se tudo parece ir errado, se Hashem parece nos testar… não há muito a fazer e talvez o conselho do rabino júnior caia bem: mudar de perspectiva. Com essa visão algo materialista e pessimista, o filme acaba sendo uma crítica ao judaísmo, ou pelo menos à pretensão de representar uma tradição que explicaria tudo, como defende sua colega na cena do piquenique.

Enfim, repetindo, é triste e engraçado, sem ser tragicômico, é divertido e profundo, sem ser pretensioso. É uma comédia séria, mais um bom filme dos irmãos Joel e Ethan Coen.

Resenha Sobre Tratado da Terra do Brasil

Os portugueses que chegaram na frota de Pedro Álvares Cabral – dentre os quais o primeiro “escritor brasileiro”, Pero Vaz de Caminha –, e nas primeiras expedições até 1530, cumpriam a tarefa de um um verdadeiro reconhecimento do terreno. Não à toa, o trabalho de Pero de Magalhães Gândavo e do pioneiro seu xará são classificadas como Literatura de Informação. Informavam a Coroa sobre a paisagem, os habitantes originais, a fauna e a flora, mas principalmente sobre as riquezas e potencialidades da “Terra de Santa Cruz – a que vulgarmente chamamos Brasil”. E assim preparavam a empresa colonial: exploração mercantilista associada à justificativa oficial de catequização dos gentios. Gândavo produziu uma peça de propaganda. Assim, essa Literatura de Informação brasileira é controversa, tanto quanto a seu caráter literário quanto a seu caráter brasileiro.
Gândavo dedica o Tratado da Terra… [do] Brasil ao “mui Alto e Sereníssimo Príncipe Dom Henrique, Cardeal, Infante de Portugal”, o que era normal a qualquer obra nos padrões da época, mas especialmente verdadeiro para a Literatura de Informação. E seu objetivo declarado, já no Prólogo ao Leitor é “denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil”, conclamando os pobres de Portugal a adotá-la como sua terra (muitos “aceitariam” o convite forçosamente: para cá foram degredados). Mas o Tratado Primeiro parece muito um panfleto turístico: descreve as Capitanias de Tamaracá, Pernambuco, a da Bahia de Todos os Santos – a mais populosa então, e que receberia a primeira capital, Salvador -, e a dos Ilhéus; sempre cuidando de descrever os rios (como bom estrategista militar). Passa (com a mesma intenção) a descrever os hostis Aymorés, diferentes dos demais índios (os tupinambás a que estavam acostumados), e que se estendiam daquela capitania (Ilhéus) até o Espírito Santo. Segue descrevendo Porto Seguro, Espírito Santo, Rio de Janeiro e por fim, São Vicente. Sua propaganda é persuasiva: “E por tempo hão se de fazer nelas grandes fazendas: e os que lá forem viver com esta esperança não se acharão enganados”, diz sobre o Rio.No Tratado Segundo, versa sobre “as coisas que são gerais por toda Costa do Brasil”: sobre as fazendas da terra, assevera que “os moradores… todos têm terras de Sesmarias”, e lamenta que as fugas de escravos, e os índios “fugitivos e mudáveis” impeçam maior prosperidade. Fala da abundância de bois e vacas, e da falta de cavalos. É mais um homem de negócios que um literato. Sobre “os Costumes da Terra”, garante que com dois pares de escravos faz-se seu sustento; informa que se dorme em redes, costume dos índios; que aqui se gosta de ajudar aos pobres e fazer obras pias (a semente do homem cordial do Sérgio Buarque). Debruça-se sobre a geografia local, a qualidade da terra (que a cana esgotaria), e os frondosos arvoredos sempre verdes. Avisa que não se planta trigo, e come-se farinha de mandioca; mas que há muito veados e porcos a se caçar, além dos tatus, a melhor das caças; descreve as “fruitas”, em especial os ananases (abacaxi), os “cajuis”, as bananas com que se sustêm os escravos, e a infinidade de laranjas e limões. Passa a descrever os “bárbaros gentios” e seus costumes: são contrários uns aos outros, graças a Deus, pois sem isso não poderiam os portugueses conquistar a terra; mataram-se muitos, muitos fugiram e ficaram na costa apenas os “de paz”; não têm as letras L, R, ou F, portanto não teriam Lei, Rei ou Fé, vivendo desordenadamente (escusado comentar o etnocentrismo e a falácia do pseudo-argumento); andam nus, vivem em aldeias, obedecem ao líder por vontade e não por força, nada adoram, nem creem em outra vida; são belicosos e vivem em guerra, usam arco-e-flecha, e tomam prisioneiros; Gândavo descreve em detalhes o ritual antropofágico (dos tupinambás); menciona seus adornos; descreve o (que parece ser) homossexualismo feminino, que é aceito (e o “civilizado” Ocidente luta por aceitá-lo até hoje). Gândavo guarda o melhor para o fim, informando a el-Rei da existência de esmeraldas e ouro na Capitania de Porto Seguro.Como vemos, o Tratado é uma peça de propaganda aos colonos em potencial, e também uma de estratégia militar: descreve o terreno e o inimigo. É uma ferramenta do imperialismo português, e essa visão não apenas invade e permeia uma obra literária: ela engendra e justifica uma obra utilitária.

Por uma vida mais Bukowski

Tenho pensado seriamente em deliberadamente me tornar um velho degenerado – ainda que precocemente – bêbado, drogado e misantropo incorrigível. Algo meio Bukowski. A gente é obrigado a fazer uma força tremenda para cumprir um papel social minimamente respeitável, conseguir um emprego que pague bem, mesmo que seja uma tortura, casar, mesmo que seja extremamente caótica a relação entre os dois gêneros, que as pessoas falem cada vez menos umas com as outras (especialmente em Brazolha), e que uma vez unidos, a relação passe quase sempre a ser um jogo de suportar o outro para não jogar fora aquela frágil conquista, que cada um reclame o direito de ser o que é, sem aceitar o que o ouro é, ter filhos, e dividir o “”legado de nossa miséria” com mais uma criatura, ter um trabalho enorme com essa coisa frágil que vai atingir a adolescência e nos culpar por todos seus males, comprar carro, casa, viajar nas férias, dar pipoca aos macacos, como diria o Raul no tempo em que isso era permitido, e é intriga no trabalho, mulher ciumenta, você já bebeu muito hoje! e o caralho. Eu quero é afundar na minha própria podridão: engoradar, ficar bêbado todo dia antes de meio dia, fumar um quilo de maconha por mês, sozinho, consumir infindáveis horas vendo pornografia na internet, quem sabe cometer umas historietas ainda que não aspire à grandeza do mestre Buk, não parar em emprego nenhum, comer uma puta às vezes, daquelas mais detonadas, é claro, e chegar aos quarenta com aspecto de sessenta. Quem sabe eu não venha a imitar outro ícone da contracultura gringa, Hunter Thompson, e meta um balaço no coco quando encher o saco de tudo? Como Kurt Cobain, por exemplo, que escolheu ser junkie e se matou antes de trinta (melhor se apressar!), destino natural de um maníaco-depressivo?

Faça-se Saber

Bravos comatriotas, em nome de Shiva, Exu e Pacha Mama, nossa vitória foi épica, heroica e histórica. Marchamos por todas as ruas, avenidas e becos, empunhando apenas cajados mágicos, varinhas de condão e metralhadoras piratórias; e vencemos! Vencemos, amigo humano, toda a tirania do status quo; solapamos as superestruturas do atraso; implodimos as barricadas entranhadas da injustiça social, racial e de gênero; e acima de tudo pulverizamos a estupidez ancestral dos símios falantes. Outra era se anuncia, e para tanto, fica instituído, por força de sortilégio, e faça-se valer a pena:

I) Não haverá nenhuma declaração de princípios, carta de direitos ou convenção internacional.

I.i) Toda transformação será de dentro pra fora e de baixo para cima.

II) Todo humano terá a comunidade como prioridade.

II.i) O acúmulo de riquezas será punido com ostracismo e jamais admirado.

II.ii) A sociedade não tolerará que seus membros sofram penúria material.

III) Apenas a intolerância será intolerada.

III.i) Todo ato de discriminação será punido com o exílio a algum lugar onde o infrator é discriminado.

III.ii) Aqueles que se manifestarem ofendidos com manifestações de afeto não normativas terão cassados quaisquer direitos a contato físico público com seus cônjuges, consortes, concubinas, namoradas(os), ficantes e assemelhados.

IV) A comunidade providenciará, através de uma rede colaborativa de organizações horizontais e participativas, os seguintes serviços: Encantamento Básico, Deseducação, Teletransporte, Calma e Sossego, Robin-úde e Inoculação Artística.

IV.i) As finanças das administrações serão permanentemente expostas e explicadas ao público, na rede em tempo real, e em impressos mensais disponibilizados gratuitamente.

V) A tecnologia servirá à disseminação da prosperidade e do bem-estar, mas estará subordinada à racionalidade ambiental e humana.

V.i) Tudo será feito para durar e materiais serão aproveitados ao máximo. Descartáveis serão severamente sobretaxados.

VI) A guerra é um anacronismo pois não haverá mais fronteiras e os recursos serão compartilhados de modo racional.

VI.i) Todo logradouro ou monumento em homenagem a militares mudarão de nome para homenagear pacifistas.

VII) Todas as disposições em contrário que vão pra puta que pariu.

 Adorável Vilão

Faz meses que este blog está parado, e nada me vinha à mente para escrever. Política certamente não me entusiasma, e Dilma tem confirmado minhas expectativas, sendo tão centrista que já está ultrapassando a direita. Minha vida pessoal então tem sido sem eventos dignos de nota, o que é bom em certo aspecto, se considerarmos o demônio com cara de anjo que motivou algumas postagens por aqui e bagunçou minha vida.

Mas eis que em uma viagem à Chapada dos Veadeiros surge uma nova paixão. Uma verdadeira obsessão na verdade. Não é uma mocinha idiota desta vez, mas uma peça rica e profunda, complexa e multifacetada. É a peça mais encenada do Bardo, eu viria a descobrir. Ricardo III, o tirano deformado, o canalha irresistível de William Shakespeare, e as dezenas de personagens que em seu entorno gravitam, tudo na deliciosa edição crítica da Norton, que traz Fontes e Contextos com Thomas More contando a história ao seu modo acadêmico; Análogos, como trechos da peça anônima True Tragedie of Richard the Third; a Adaptação de Colley Cibber, que usa trechos das peças anteriores 1, 2, 3 Henry VI e interpola linhas próprias – e ficou sendo por dois séculos o texto oficial de Ricardo III até que o texto shakepeareano fosse resgatado; análises de adaptações para o palco e para as telas, incluindo o palpite ilustre de Bernard Shaw; e ensaios críticos. Infelizmente, a chuva me pegou desprevenido e prejudicou bastante o aspecto físico do livro, embora a leitura não tenha sido afetada.

Para quem não é familiar com o enredo, a peça se dá logo após a Guerra das Rosas, em que os York suplantam os Lancaster e ficam com o trono – ou logo após a trilogia Henrique VI. Edward IV é o rei e Richard, Duque de Gloucester, corcunda, manco e com um braço deformado é um de seus irmãos, George, Duque de Clarence é o outro. Richard abre a peça com um monólogo em que se declara um vilão, que trama pela morte de Clarence. De fato, Richard ainda precisa sumir com a ordem do Rei que revertia sua sentença de morte. O diálogo entre os assassinos (e entre ambos e Clarence) é um dos pontos altos do vetor moral da peça. Pouco depois de saber da execução do irmão e dela se arrepender, o próprio Rei – que já andava doente – falece. O vilão tem agora pela frente o Príncipe Edward, filho do Rei Morto, mas que não chega a ser Rei Posto (na peça, na vida real chegou a ser Edward V), pois o ardiloso Gloucester vai revelando seu caráter maquiavélico, prendendo e matando os parentes da Rainha, decapitando o camareiro-mor Lorde Hastings, aprisionando os dois príncipes e manobrando, com a ajuda do Lorde Buckingham para ser enfim coroado Rei Ricardo III. Depois desse ápice, começa sua decadência, pois é detestado por todos (em grande medida por matar os príncipes) e sua crueldade foge do controle, rechaçando mesmo o fiel Buckingham. É quando chegam notícias de que o Conde de Richmond, da casa derrotada de Lancaster, que estava na França, junta um exército para reclamar o trono. Os dois vão medir forças na Batalha de Bosworth. Na noite anterior, fantasmas das vítimas de Richard aparecem para amaldiçoá-lo e abençoar Richmond, e Richard faz a primeira demonstração de fraqueza e culpa – talvez até loucura. Durante a batalha, Richard tem o cavalo morto e se acha em meio aos inimigos, é quando profere uma das mais famosas linhas da História do teatro:

“Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!”

Logo depois é morto por Richmond em pessoa, que se torna Rei (Henrique VII, embora isso não seja mencionado). Bem, é claro que esta é uma ultra-simplificação da trama, e não foram mencionados nem um terço dos personnagens, mas espero que já sirva para instigar um leonauta ou outro à leitura da peça. Ou leituras, idealmente, pois uma é pouco – e mal posso esperar a leitura dos artigos críticos para reler a peça.

O que ajudou bastante a dar concretude à trama foi assistir às adaptações cinematográficas. Achei que dava pra pular as mudas, partindo para a dirigida e estrelada pelo famoso ator shakepeareano Laurence Olivier, de 1955. O filme deve muito ao teatro, e o próprio Olivier teria dito ao diretor de fotografia “não tente ganhar um Oscar”. Outra questão com Ricardo III é a extensão (só fica atrás de Hamlet), sendo cortes quase unanimemente necessários. O filme de Olivier corta a peça pela metade, mas as linhas do protagonista são as mais poupadas, levando a um domínio absoluto de sua figura, que quando não está manipulando e matando está se jactando disso junto ao público. Infelizmente, Olivier é pouco convincente como vilão, e o filme todo tem a aura artificial que as produções da época costumam ter. Não deixa de ser um bom filme, é claro. Em seguida, parti para a adaptação de Richard Loncraine, com Ian McKellen no papel principal, de 1995. Na verdade, revi o filme, pois tinha assistido na época de seu lançamento, no saudoso Cine Metrópolis, na UFES, em Vitória; e mesmo sem entender completamente, tinha gostado bastante. O filme coloca a ação em uma Inglaterra entregerras, com Richard erguido à condição de tirano fascista; e se sai bem, obrigado. Ian é um grande ator e alcança perfeitamente o resultado de “adorável vilão” inerente ao personagem (William Richardson, em seu ensaio incluído na edição Norton, defende que odiamos Ricardo por sua vilania ao mesmo tempo que o admiramos por suas qualidades intelectuais). Por fim, de 1996 é a brilhante adaptação metalinguística de Al Pacino, em que entrevista pessoas na rua, mostra o processo dos atores discutindo o texto, consulta atores e acadêmicos, tudo entremeado com a ação da peça em si, ou apenas o essencial. O filme é divertido, bem-humorado e ainda assim denso, não deixa de transmitir a tensão da peça, e explora a mente do monarca mais detestado da história inglesa melhor que os outros dois. Minha dica? Vejam todos. Ou então os dois da década de 90, ou pelo menos o do Pacino. E, não me canso de repetir, vá à peça. No original, se possível. Leia, releia. Apesar de vista como uma obra precoce do genial Bardo de Avon, e apesar de a briga medieval pela coroa inlgesa nos parecer distante, a peça é fantástica, e envolvente.

Get Up, Stand Up

Não sei mesmo o que estou fazendo aqui, porque ninguém nunca ri das minhas piadas. Uma vez no trabalho um colega disse que estava com uma ressaca homérica. Eu disse que era o porre que era homérico, a ressaca é dantesca. Silêncio sepulcral. Mas vamos adiante, de qualquer forma.

Outro dia.uma dúvida me assaltou: levou minha carteira, meu celular e meus óculos. Daqui pra frente eu só terei certezas. Mas dizem que a única certeza que a gente tem é a morte, o que até eu vou concordar que é muito pessimista. Se você está vivo pra ter certeza, então pelo menos a vida é uma certeza. Penso logo existo (o que é outro clichê); mas, se tem tanta gente que não pensa e exista mesmo assim, o postulado deveria ser existo logo existo. A gente não precisa ter medo da tautologia; aliás, às vezes me perguntam o que é tautologia: tautologia é tautologia, ora! Não esquecer também que a conclusão do brilhante filósofo do século XVII não resiste à hipótese solipsista: tudo existe na consciência, e a própria consciência de si pode existir mesmo sem um si (até porque mesmo a coisa-em-si-e-para-si do Hegel foi transposta pra lá menor por Bach, sem nenhum problema – fora o anacronismo, claro). Pois bem, o solipsismo é uma doutrina que não tem muitos adeptos fora dos filmes do Woody Allen, mas eu mesmo sou presidente da Associação de Solipsistas de Brasília. É verdade. Também sou fundador e único membro do Clube de Misantropia: mas não podemos aceitar ninguém que queira se associar a algo assim (o que é a frase do Groucho ao contrário, se eu preciso mastigar pra vocês).

Mas eu não sou só misantropo e solipsista, não. O que realmente me define é o Cinismo Engajado, vou explicar. Como dizia o Cazuza, as pessoas costumam querer uma ideologia pra viver. Muitas levam isso muito a sério, outras compram só os adereços, mas no fim o que se vê é muita conversa jogada fora, e a mesma dança estúpida e fora do ritmo. Tantas convenções sociais e rebeldia tola (que diferença faz?), tabus morais e transgressões vazias (que diferença faz?), superstições religiosas e racionalismos tacanhos (que diferença faz?), discussões estéticas pedantes e mau gosto massificado (que diferença faz?), tantos ismos e pós-ismos (que diferença faz?), teóricos cada vez mais incompreensíveis (que diferença faz?), tantas escolas e vertentes, tantas teorias e palpites… Que diferença faz? Ora, que diferença faz qualquer coisa? Pra alguém que já vive mesmo preso na própria cabeça, a opção lógica é pelo niilismo. E isso traz uma paz enorme: o niilismo é a versão cínica do zen. Além do mais, é muito mais prático: o Cinismo Engajado é uma postura… veja bem, mais que uma ideologia é uma anti-ideologia; enfim, uma postura filosófica, política, moral, religiosa, estética, acadêmica, afetiva… qualquer coisa! É uma espécie de carta-coringa, ou mesmo uma imunidade diplomática contra consciência pesada, uma racionalização pré-moldada. Verdade seja dita que tem uma ideologia que eu não consegui abandonar, que é a podolatria (há pés interessantes na plateia hoje); e pra ser totalmente honesto, ainda guardo um sentimento ético, como um souvenir, deve estar em algum lugar aqui… não, acho que esqueci em casa. Alguém pode me emprestar o seu?