Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Eu não quero discutir a osmose

dezembro 3, 2018

Eu não quero discutir a osmose. Quem quiser escarafunchar a seriedade que atravesse na faixa. Qualquer um de nós já pôs pimenta na prepotência alheia, e sem explicar ao carcereiro. Que assim cereja. Que os favos da fábula não fabriquem mais vazio, e as moléculas de devaneio pervadam toda a penitência. É a estação da súplica. Ali na esquina vendem universos de bolso, conveniente ao cavalo. Mas o faminto nunca mente, e isso não é prosódia que se apresente. Aqui se pode ao menos estacionar o pensamento, polir a soberba das leitoas contumazes. E foi isso mesmo que alegou o bispo, segundo o bagre. O tempo contempla a aurora cirúrgica sem se preocupar com a lagartixa, ao menos. E assim cessa o sopro, e assim a liturgia tropeça.

Acaba Mundo CLXII

dezembro 3, 2018

Hoje são três de dezembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Além do ridículo do presidente eleito em exercício visitando vestiário, erguendo a taça do campeonato de futebol e recebendo continência do técnico, a polícia ainda perfumou as ruas fora do estádio com lacrimogênio, porque sim. Depois de anunciada e desmentida, confirma-se a extinção do ministério do trabalho. Pura maldade, porque o enxugamento anunciado já explodiu e o tal ministério da família ainda deve ser criado – e o medonho Malta, cujo escanteamento parece ser também simulado, sabe-se lá por quê, ainda vai ser o titular. Hoje eu passeei pelo Bois de Boulogne, um cenário outonal que só costumava ver em filmes: árvores perdendo as folhas amareladas e amarronzadas, assim como os jardins de Serralves que pude apreciar no Porto. Depois desci pela Avenue Foch, mas não encontrei o FHC, passando pelo Arco do Triunfo, que foi palco de tumultos dos gilets-jaunes, mas parecia já em ordem (não vi nenhum protesto de perto ainda), e seguindo pela Champs-Élysées com suas ridículas lojas para ricaços e sua breguíssima decoração de natal. Gente com grana tem mau gosto em toda parte, a diferença é que os rastaqueras de países periféricos veneram os verdadeiros aristocratas dos países centrais e tentam os imitar para suscitar admiração dos bobos. A coisa piora quando os rastaqueras admiram outros rastaqueras ridículos, da atual potência global. Mas que me importa tudo isso? Uma coisa que tenho percebido é que desde a primeira vez que visitei Paris há dez anos vê-se cada vez menos gente lendo ou portando livros e mais gente com a cara enfiada nos portables. A coisa está feia para todo lado para a literatura. Acaba mundo, mesmo.

Cadê meu mote, motorista?

dezembro 3, 2018

Depois de fugir da cadeia de montanhas, o trovador travou conhecimento da tramela usurpada, para espanto do pranto e do prato, que nada deviam ao vórtice. Dizer que isso é a redenção do palito de fósforo, no entanto, seria insistir na pavimentação dos cálices cálidos, recorrer ao tira-gosto prévio, e nem a grade da gare concordaria com tamanho júbilo. Tem que ser aos poucos, proporcionando óleo quente aos dálmatas sem se imiscuir no futuro, que é coisa que não aquece os pés nem faz acrobacias com os planetas. O chuveiro mente se disser que está calmo, outro dia mesmo o verdugo perfurava o alento com fumos de fidalguia, e bem na frente da costa. Ninguém se engane com a quantidade de cúrcuma atribuída às gôndolas, isso é mera tributação do vômito, e até os anéis têm seu turno. É uma parada que não vai a qualquer parte. Cadê meu mote, motorista?

Acaba Mundo CLXI

dezembro 2, 2018

Hoje são dois de dezembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Eu fico vendo notícias do Brasil e só me dá preguiça. A revolta já se esgotou. Tem uma mulher aí cotada a ministra que faria da Amélia uma feminista. Até o ponto G pra ela é invenção do PT. A primeira dama é a Rosane Collor rediviva, e não demora o assistencialismo  dela será investigado, mas não punido. Matéria da Lhofa da corajosa Campos Mello aprofunda no esquema de zap, incluindo fraude de CPF de idosos. A justiça finge investigar, mas ninguém acredita que vai dar em nada. A tenebrosa PGR quer é cobrar o PT pela campanha de Lula, o que é acrescentar insulto à injúria, como se diz. Hoje fui ao Pompidou e conversei com um casal de brasileiros, que, sortudos, vivem em Paris. Ainda assim ela estava animada para curtir o carnaval na terrinha. Foi cansativo ver quatro exposições completas, incluindo uma sobre cubismo (no Brasil não permitiriam), acervo permanente e vencedores do prêmio Marcel Duchamp. Ainda ficaram duas que não tive energia para ver. O custo de vida aqui é mais alto do que em Portugal, e as porções menores. Hoje eu descumpri minha dieta rigorosa de kebab e comi duas vezes em restaurante, mas não satisfaz. Ou somos nós, ou eu, muito glutões. Pois que se dane. As quatro melhores coisas da vida são comer e viajar. E a propósito já pude ver que comprar um haxixe aqui na região também é fácil. Esse é um dinheiro que dá um peso gastar. O que não dá peso gastar é com livro. Hoje estive também na Shakespeare and Company, a livraria de Gertude Stein (que vi retratada por Picasso) e Alice B. Toklas (a dos brownies de maconha do filme com Peter Sellers). Comprei o Doctor Faustus do Marlowe para ler antes de ver a peça em Londres, mesma edição que tenho em casa e não me ocorreu trazer, e um outro que me chamou a atenção: Ubu Trump, uma adaptação do clássico de Jarry. Ainda busquei o Cardenio, a peça perdida de Shakespeare e Fletcher que alguém “reconstituiu”, mas não tinham. Super chique isso, fala a verdade, pedir um livro do Shakespeare que a Shakespeare and co. não tinha. E é isso por hoje.

Acaba Mundo CLX

dezembro 1, 2018

pompidou.jpg

Hoje é primeiro de dezembro e o mundo não acabou. Mas o ano já acaba. Depois de acabar conosco, é o mínimo que se espera. Não que haja muita esperança de um dezenove muito melhor, mas pelo menos que na esfera pessoal as coisas se me arranjem melhor. Já me cansei dessa fase de misantropo, e entrar no doutorado deve arejar um pouco minha vida. Até esses dias em que estive na Unicamp estava fantasiando com a vida universitária. Claro que a Unicamp não é a mesma, nem eu. Não sou mais o maconheiro daquela época, sou três vezes o maconheiro daquela época. Pretendo conseguir umas aulas e aí me mudar pra Barão Geraldo uma vez mais. Nunca paro de me mudar de cidade nessa vida. Bem, nosso futuro, praticamente atual presidente está dizendo que os índios em reservas são como animais no zoológico, e sua solução, é claro, é deixá-los sem nada. Se a aeronáutica não começar a bombardeá-los eu já me dou por satisfeito. Cheguei a Paris hoje, mas o amigo batera que se mandou para cá já descobri que não está. Vou ter que ficar visitando museus então, coisa chata. Acaba mundo.

Algaravia em Algarve

novembro 30, 2018

onda

O oceano amanheceu, humilde, molhado como um molho de chaves lançado a uma chávena de chá, e o colchete chulo prevaleceu sobre o sobrescrito inscrito no prólogo do desespero. Nem por isso passou desapercebida a algaravia em Algarve: os alpinistas penhoravam os costumes costeiros como se disso dependesse o pêndulo pendendo do topo da galáxia, ou quem sabe até a atroz trigonometria da gramática prática. Não seria a primeira vez. O viajante se esforça em privilegiar as léguas ante as réguas, tirar as montanhas dos sapatos e os sapos das campanhas questionáveis de vez em quando, mas segue rumo à origem com denodo, tripudiando sobre cada grão de aveia. Então que resta ao fim do dia senão a noite, qualquer que seja a estação de transferência? Porque pisar sobre alvorada não significa nada mais que o absurdo, e mesmo  o cego cheira ao promontório a sina dúbia de longe. Porque há uma cópia de réplicas da primeira bolha indefesa aos pés da intransigência. Não adianta dizer nada. É preciso que engasguem com a floresta atravessada. Do outro lado é o mesmo.

Acaba Mundo CLIX

novembro 30, 2018

matosinhos

Hoje são trinta de novembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Encontro-me agora na Praia de Matosinhos, e quando o tempo abre é possível até ficar só de camiseta. Não cairia na água no entanto, e aposto que aqueles surfistas usam roupa de borracha. Por falar em roupa, percebi que os alunos da Uporto usam uns trajes negros, que devem ser uma tradição secular. Ontem um grupo deles fez algum evento na Praça da Liberdade e saiu cantando pela Rua dos Clérigos,de me hospedo. Aliás, é muito bacana porque a hospedagem tem uma entrada principal por essa rua, e outra pela rua de trás, que se chama Rua de Trás. Numa pequena bodega onde entrei, um senhor fez a seguinte piada: um brasileiro carregava uma mala grande, e o portuga pergunta “e aí, brasileiro, tudo joia?”, “não, metade é cocaína”. Observei que nunca fazemos piada com o sentido literal de “joia” em “tudo joia”, e parece que há vantagens em ver tudo pelo literal como eles fazem: ao menos rende boas piadas. Uma coisa sobre o Porto que poucos sabem, ao menos eu não sabia, é que as caves de vinho do porto ficam na verdade do outro lado do Rio Douro, em Vila Nova da Gaia, então quem quiser pode chamar vinho da gaia. Circula o vídeo do Bozonazi prestando continência ao Bolton, e um tanto de gente reagindo como se isso fosse gravíssimo. A mim, é a incontinência verbal dele que alarma, se bem que de certo modo admiro a franqueza, estou acostumado a lidar com gente que pensa tudo como ele mas se esconde atrás da muralha do “vejabemismo”. Se o Lula assumiu e alegou que seus discursos prévios eram bravata, desta vez são os partidários ditos moderados do extremista que garantem que os absurdos dele são apenas bravata, ou que as instituições o frearão, o que já falhou com Hitler, por quem ele declara admiração e inventou até um avô no exército nazista. Quem o freia, os tribunais superiores que ratificaram o golpe, as eleições fraudulentas, que deportaram Olga Benário Prestes para ser morta pelo mesmo Hitler? O congresso repleto de pastores e pecuaristas? Duvido. Só quem o pode amenizar é o Department of State que o comanda, mais por estratégia do que por princípio. Eu só quero saber duas coisas, se terei bolsa e se cobrarão a pós (isso fica a cargo do Dória, figura talvez mais sinistra, uma espécie de releitura da Guernica pelo Romero Britto). De qualquer sorte, não custa já ir participando da seleção por aqui. Até setembro vai ser possível ter uma ideia da profundidade desse buraco de coelho. Se o mundo não acabar até lá. Cinco meses de Acaba Mundo!

Acaba Mundo CLVIII

novembro 29, 2018

maple

Hoje são vinte e nove de novembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. O Porto tem muita gaivota e muita obra de restauração, como não podia ser diferente. Mas tem cada casario azulejado com varanda de ferro forjado  lindo. Fui ao museu de arte contemporânea, havia a exposição do fotógrafo Robert Mapplethorpe, que certamente teria problemas no Brasil, e do escultor Anish Kapoor, e os jardins, em tempo outonal, eram algo magnífico. Também hoje criei coragem e comprei haxixe. Não foi o melhor negócio, mas certamente não fui enganado, e está difícil escrever, se considerarmos duas garrafas de Douro em cima. Não foi o Feliciano nomeado ao ministério da cidadania (como se soubessem o que é), foi Osmar Trevas. Não chega a melhorar. Daqui a pouco é perpétua por um baseado. Acaba mundo.

Acaba Mundo CLVII

novembro 28, 2018

edubozo

Hoje são vinte e oito de novembro de dois mil e dezoito e o mundo não acabou. Hoje eu conversei com o Rui, professor da Universidade do Porto. Não foi uma conversa que avançou muito na profundidade dos temas, mas ao menos já ficou claro que ele despreza o bozonazi, o que é relevante, e que a seleção começa não em agosto, como eu pensava, mas já em janeiro, o que me obrigaria a tomar logo uma decisão. Não quero fazer muita força para pensar nisso por esses dias. Ele me deu o António e Cleópatra dele, e eu já queria mesmo voltar a essa peça, vai ser divertido. Leio sobre Feliciano assumindo outro super-ministério, encampando direitos humanos e cultura, e que deveria dizer? Eduardo Bozonazi foi feito emissário aos EUA, e já está em campanha pela releição. De Trump. Consta que disse asneira sobre o comércio com a China ter viés ecológico e deixava mesmo de responder às perguntas de seus anfitriões, burro chucro que é. Na foto, de terno e boné, é motivo de riso dos circunstantes. Foi ao aniverário de Bannon, que singelo. Depois se revela que ninguém da casa branca o recebeu, e a divulgação era mentirosa. Até dói comentar essas coisas. Um brasileiro me abordou hoje, vendo o bótom Lula Livre, é professor no Rio Grande do Sul com articulações por aqui, portanto um contato valioso. No mais, vamos em frente, já que o mundo se recusa a acabar.

O casaco do cossaco

novembro 28, 2018

cossacos

Uma vez me avisaram que o azulejo toca realejo para o casaco do cossaco. Nunca me esqueço. Até porque a glosa do gládio nunca foi tão complicada quanto a ostra dava a entender, e basta conjugar o congelador da cônjuge para perceber que o papel da bonança é redundante, que o valor da vela se vê na vicissitude. Não é por isso que eu ia processar o presunto. Tudo que foi feito no intervalo valia sempre para alimentar as válvulas, esgotadas que estavam de séculos de imediatismo. Mesmo que não se expliquem as carnes, que a tarifa se derreta quando as aspirações postulem o ritmo, não era um caso imperativo, nem era preciso que o futuro fosse perfeito, bastava um bastão gasto para arregimentar os trilhos. Dali onde se miram os mouros, e se pode cortar os pulsos por alguns centavos, é possível perceber a rotação do leite, e que mais precisa um canguru utópico? Eu digo que um dia o sol se cansa, e cobra à cobra sua parcimônia.