Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Autorama 19

maio 2, 2021

Quinze pras seis. Se eu conseguir garimpar um disco bom já salva o dia. Será que eu acerto o caminho? Não aceitar meu documento, puta que pariu. Putz, tá acabando o cigarro. Eu me lembro que chegando já na mania plena eu encontrei na PGR o Serjão, o goiano, o Mestre dos Magos. Pelo menos dessa vez ele não chegou do lado e disse “e aí, beleza”. Já estava no Banco Central ele, eu até hoje não sei onde piso. A gente almoçou lá na PGR e eu comecei a contar que a polícia estava me espionando porque eu passei em frente ao posto da UnB e uma viatura saiu na minha frente, e eu decidi essa era uma técnica avançada, seguir pela frente. Nessa época eu já estava virando as noites no computador “debatendo” política, de todos os lugares, no Orkut. Uma vez eu disse que precisava dormir e não podia continuar e no outro dia apareceu um texto em alguma parte que me colocava como “a última resistência humana”, e imagina como eu fiquei. Mas nesse dia com o Serjão eu me comportei, uns dias depois eu estava almoçando com colegas e comecei a falar alto, essa é outra coisa comigo, ou com a bipolaridade, já não sei separar, eu me entusiasmo e começo a falar alto. E eu dizia que sabia que estavam na minha cola, viajando, construí ali minha reputação no trabalho, que nunca foi grande coisa. E por essa época eu fui preso. Quer dizer, levado à delegacia. Ou preso mesmo, alguns minutos eu passei atrás de grades. Bom, depois de ter plena liberdade em Campinas, eu estava de volta pra morar com meu pai, e a Jessica, e num apartamento pequeno, provisoriamente. Então eu preferia ficar dirigindo por Brasília e ouvindo música e fumando maconha e eventualmente parava na rua das putas, que era perto de casa, pra comprar uma cerveja. Usava os serviços, também, tinha uma moreninha lá que eu me encantei, uma vez eu comecei a cantar em francês e ela disse que sabia que eu falava francês, é claro, eu estacionava ali e ficava ouvindo Etron Fou leloublan, uma das pirações que o Pedro introduziu no Coquetel do Mingus, nada demais nisso, mas eu já associei com Jesus e Maria Madalena, foi a primeira vez que eu me associei a essa figura. Nos tempos de Campinas eu cheguei a me tornar um daimista bem convicto, e foi uma ótima experiência, mas minha verdadeira fé é no ceticismo, e eu levo a história muito a sério para aceitar o cristianismo como alguma verdade privilegiada. Um ponto de taxi. Mas a prisão, né? Amigo, você sabe onde é o Sebo Casarão? Sei sim senhor. Tem como me levar lá, estou com um pouco de pressa. Complicado, essa hora tem muito trânsito. Então pode deixar. Não ia mesmo dar tempo. Ou será às sete que eles fecham? O senhor sabe que horas fecha? Sei não senhor. Obrigado. Bem, vamos andando, quem sabe? Só segurar esta pasta que já deu no saco. Nesse dia, ou nessa noite, eu estava fazendo a ronda habitual, já loucaço, mais da mania que de birita ou fumo, e quando eu passei na rua das putas a polícia estava enquadrando uns miseráveis. Eu achei que era obrigaçãominha parar o carro e gritar “para de perseguir preto, pobre e puta!” Na mesma hora os molambentos não eram ameaça nenhuma e todos os canas vieram pra cima de mim. Eu não posso lembrar o que eu disse, mas eu certamente não xinguei eles de filho da puta igual escreveram. Me puseram na traseira de um SUV, era um modelo chamado X-Terra, e isso me remeteu ao jogo de RPG que eu era viciado quando moleque, e nunca tinha terminado, então eu já pirei que tinha sacado tudo, e que a resposta final era amor. Espaço-tempo-amor. Claro que não era. Me tiraram do camburão e me enfiaram na delegacia. Dentro da cela, minúscula, tinha um fodido, mais ou menos como os que estavam tomando baculejo quando eu tive a grande ideia. Ele foi arrancado de lá pra sabe-se qual destino e eu fui jogado pra dentro. Preso na grade tinha um pedaço de papel, e eu peguei, era alguma baboseira religiosa, mas pra mim tudo tinha um significado metafísico imenso. Aí eu fiz, bom, em algum momento eu fiz alguma coisa que eu não me orgulho muito, que foi apelar pro papai, Otoridade com ó maiúsculo, como eu frisei. Meu pai nunca tomou meu lado, nunca disse que a polícia não tinha o direito de me prender, e ficou conversando com o delegado em tom condescendente. Pra casa do caralho. Meu pai chamou um primo milico, milico! pra me enquadrar, que direito esse filho da puta tem? Depois ele se nega a admitir que apoiou gostosamente a ditadura. Mas enfim. Ainda tive que fazer exame de bêbado, que afinal era a única coisa errada que estava fazendo, mas no fim não deu nada, sorte ou privilégio branco ou o que seja, o meu “crime” foi arquivado e a multa foi cancelada por alguma tecnicalidade.Eu lembro que eu entreguei o papelucho de outro preso a meu pai, disse que guardasse, e os polícias é droga, é droga? Essa obsessão com droga. Eu queria dizer que nunca fiz nada parecido, mas não faz muito tempo eu não estava muito bem da cuca e fui ali pro Parque da Aclimação em São Paulo, e tinha um batalhão marchando e entoando seus gritos de guerra e eu comecei a pensar em voz alta e chamei eles de fascistas. Do nada tinha uns cinco em cima de mim, eles têm uma técnica, essas coisas que eles aprendem dos israelenses que treinam os canas aqui, de ameaçar sua traqueia. Quando eu foi internado em Brasília dessa última vez foi assim, são soldados que cuidam dos loucos, pelo visto. Acho que a Barão de Jaguara está do lado de lá.

Bicho Solto 5

maio 2, 2021

Aí, seus pivetes, mão na cabeça. Levanta. Devagar. A arma sacada e apontada era no mínimo um exagero, algo que o cana não faria com os moradores daqueles prédios logo ali. Chegou um segundo policial cinzento. Os dois meninos, trêmulos, seguravam as mãos para cima, sendo que as bermudas molhadas nos quadris esquálidos não revelavam volume algum. Que que vocês estão fazendo aqui? A gente veio nadar, senhor, antecipou-se Igor. Vocês estavam fumando maconha! Não, senhor, não. Olha isso aqui. E achou o pedacinho da brasa na areia, um nada de nada, cheirou, deu um tapa em cada. Sargento, leva os menores infratores. Mas sargento, é muito pouco esse flagrante. E aí eles começaram a debater a conveniência de enquadrar os pobres meninos. Sargento, nós vamos deixar a ronda, preencher papelada, ele vão ser soltos no fim. Os dois amigos até começaram a abaixar os braços, mas lá veio a arma apontada. O tira bom venceu no fim, o tira mau deu mais dois tapas e um sermão cheio de palavrões e ameaças, e logo os dois foram retomar ronda da disputada praia da zona sul.

Eu falei pra você, não se demorou a espezinhar o Lelim. Não enche, pô! E saltou lá embaixo, caiu de quatro e logo saiu correndo até a água. O outro não tinha escolha senão seguir, e a desavença não durou; eles celebraram um pouco o alívio e depois tomaram o rumo do ponto de ônibus com os pés descalços no asfalto quente. O busão estava saindo, e vazio, então eles se instalaram em dois assentos como lordes. Quando o ônibus passava por um túnel, o Chulé gemeu; que foi, quis saber Lelim, mas gemeu ele também. Em pouco tempo estavam rolando no chão do ônibus, e os demais passageiros foram muito solidários: não vomita! para o ônibus! O motorista disse que não podia parar ali, mas parou assim que pôde, e eles tiveram que descer, como deve ser com quem está no nível mais baixo da escada social e é esnobado até de pobre. Todo o tempo, a maconha paraguaia cheia de misturas tóxicas revolvia o estômago dos dois, talvez vomitar abreviasse o incômodo, mas nem essa sorte tiveram. Cambalearam pela calçada até onde havia uma birosca e dividiram uma água. Caraca, maluco, eu já comi beque antes e nunca passei mal. É o pastel, cria, muita gordura. A verdade é que àquela altura já estava passando, e como a subida do morro não era longe, optaram por seguir a pé. Mas no meio do caminho o Lélio ouviu uma buzina como se ecoasse numa caverna, e começou a sentir o tempo correndo devagar, e antes que ele dissesse o Igor disse a mesma coisa: cria, tô muito cha-pa-do… O organismo só é capaz de absorver a maconha fumada até um limite, a maconha ingerida demora a entrar, mas atinge uma maior intensidade, e era bem esse o caso. Chulé parou na vitrine de uma loja, uma atendente lá dentro ficou até inquieta, mas ele só queria olhar os manequins de crianças com coloridas roupas de super-heróis, todas elas brancas. O outro se juntou a ele e não demorou a que fossem tocados. Ainda iam parar para viajar na banca de revista, com o mesmo desfecho, antes de atingir o pé do morro e subir apostando corrida.

Tinha feijão com arroz na geladeira, e a mistura foi banana pois não queriam preparar nada. Depois caíram nos colchões surrados cheios de areia como estavam para tirar uma soneca. Foram acordados por Milagres, que, sem agenda pro resto do dia, voltou mais cedo, e ela o fez já brigando pelo desleixo de deitar sujo, tiveram que bater os colchonetes na laje, e já pro banho. Até isso faziam juntos, ganharam um cheiro cada um, e um longo abraço silencioso, que dizia muito. Lélio, escuta, começou ela, sua mãe vem visitar no sábado. Oba! O menino não tinha o mínimo ressentimento de ser posto pra criar, nem entendia os motivos da mãe, que era sempre evasiva. Daqui a pouco vocês vão buscar as crianças, agora deixa a mãe descansar. Chulé aproveitou a ocasião: mãe, a gente pode ir com você pro salão amanhã? Por que, filho? O Lelim quer comprar uma roupa nova pra ver a Ruth, não é? O outro assentiu com a cabeça, animado. Tá bom, vocês tão com sorte, essa semana foi boa. Vão lá, busca os menino logo.

Depois de cumprida a tarefa, o destino era o Tulim, ou a laje dele. O sol se punha e dourava todo o morro, e o mar lá embaixo. Aí, maluco, já combinei com a mãe, vai ser amanhã, você consegue matar aula? Eu consigo sair no intervalo. Dez e meia. E onde é que sua mãe trabalha? Bairro de Fátima. Ah, então é pertinho da gráfica, mas olha, entre meio dia e uma é a hora que o Claudinho pode ajudar. Os dois concordaram e começaram a contar alternadamente tudo que passaram no dia enquanto o baseado empastelado do anfitrião rodava. De repente se ouve um grito lá embaixo, Túlio, deitado de bruços, projeta a cabeça pra fora da laje e anuncia que é o Café: sobe aí, Café. Café tinha a idade de Túlio, era gordinho e apesar da pele preta tinha esse apelido porque sempre foi café-com-leite no futebol. Ele falava rápido, contava umas piadas que só ele ria, e a dado momento ele tirou algo do bolso: olha isso aqui. Era um tubinho conta-gotas que parecia de remédio. É o que, isso? PCP, maluco. Você pinga uma gotinha no baseado e fica mais doidão ainda. Mais doidão? Os dois ainda se lembraram da bad trip da tarde, mas uma experiência nova assim, por que não? E lá se foram, Lelim botou um do seu, Café pingou uma, achou pouco e pingou uma segunda gotinha, o Chulé torceu e acendeu. Dali a minutos estavam estatelados no chão e viajando a universos paralelos; Lelim estava numa festa muito chique, garçons circulando, mas quando ele tentava comer as iguarias viravam areia em sua boca; Chulé mergulhava no fundo do mar, onde havia uma civilização subaquática de homens-sapo; suas experiências duraram dez segundos no mundo real mas dez minutos no mundo mental, e ao fim delas estavam exaustos. Cada um falou caraca maluco a seu turno e todos foram se reerguendo, cambaleantes, mas o Café perdeu o controle e caiu da laje. Os outros se assustaram: tá tudo bem, Café? Ai, tá, mais ou menos. Eles desceram com cuidado e ajudaram o acidentado, que caíra em cima da horta. Depois de conversar um pouco na rua, se despediram, achando que já tinha passado. Mas no caminho os passinhos estavam bambos.

Lelim, vai indo pra casa, eu já chego. Por que? Vai indo, cria. Chulé esperou o primo sumir e tomou o rumo da fortaleza do Camarão. Deu na telha de pedir a arma, estava se sentindo confiante. Os seguranças deixaram-no entrar sem problema, ele escorregou pra dentro das fundações do muro, onde dois rapazes tinham metralhadora no pescoço e o Camarão cheirava em cima de uma mesa de escritório. Coé, cria, tá fazendo o que aqui de mão vazia? E esse olho esbugalhado? Tu usou o que? Chulé hesitou um pouco e soltou: PCP. Tu é maluco, maluco? PCP não é pra criança, não. Quem te deu PCP? Não lembro. Não lembra? É alguém que eu não conheço. E o que tu veio fazer aqui? Já roubou? É difícil, chefe. E trabalhar na boca não é difícil, covarde? Libera um berro na minha mão, sem bala, mesmo. Sem chance, pivete, dá seus pulo. Poxa, camarão. Só volta com a prova, até domingo, passa!

Interpretar pratinhas

abril 6, 2021

Praticamente os tópicos triplicam as placas, complementam o plâncton. É como o cominho, que costumava hastear teares e interpretar pratinhas. Sempre assim, o suposto espeta, o cacófato afeito ao fátuo afeta os tufos, e a tangerina granjeia janeiros, sempre assim. E o preâmbulo bole com libélulas, abole bólidos, ante a antena tênue dos netos, como se os sequazes aquáticos dos quatis quânticos sequer se importassem. Bem, tudo depende do pêndulo, se o Adálio adula dólares, mas tudo bem, o que se espera das peras é aparar peróxidos, e mesmo que a lesma se esmere o cotonete atina com tinitus. Besteira, a paciência também arrota, a torrada resiste, vamos vendo. Não basta um bastão, nem o bastião da abastança, é como se fosse um fóssil facílimo. Que saudade do doido, quando o dândi indicava covas, avaliava o vôlei. Agora a garoupa garimpa, o essencial censura, como se o pugilista gelasse os cílios. E qualquer um que opere o pária está fadado a feder, representar trezentos, o que o gomo já disse, disfarçado de chuveiros práticos.

Bicho Solto 4

março 30, 2021

Depois do café e de levar os menino na Gorete, Chulé e Lelinho foram bater ponto na pedra. Era o primeiro dia de sol depois de uma semana, e a vista do oceano era tão convidativa que não tardou a que Lélio mandasse a letra: vampa praia! Pô, demorô, moleque! E o Tulim? A gente vai lá à tarde. E o Camarão? Vamo à noite. Mas o que você vai dizer ao Tulim se ainda não sabe se consegue a arma? Ah, para de fazer pergunta, Lelinho. Vamo agora, então. Agora tá cedo. Então tá, eu topo. Topa o que? Topo falsificar a bolsa. Ah, moleque! Isso aí, primo. Vai ser tranquilo. Se eu pedisse a peça e ele negasse, aí que ele ia desconfiar mais! Isso mesmo. Não tinham dessa vez esquecido o guardanapo, e o chulé providenciou um torpedo enquanto a vida corria no morro, um pai levava a filha de uniforme e os mototaxis subiam e desciam. Acenderam. Eu acho que eu sei como conseguir o documento, arriscou Chulé, passando. Pô, eu queria terminar a escola. De que tu tá falando? Escola, eu queria voltar pra escola. Coisa de otário, primo, tu vai estudar e vai continuar pobre e da favela. Respeito é uma peça na cintura. O dia bonito atraiu mais gente, e não demorou a se formar uma roda, outros beques serem feitos e o assunto privado se diluir nas fofocas e generalidades, em meio a boas risadas. O sol estava já alto no céu e os dois ali, chapadíssimos, Lélio despertou do transe: vampa praia, maluco. Demorô.

Como estavam, de bermuda sintética, chinelos e mais nada, iam descendo pro asfalto, quando o Lelinho alertou: eu não vou descer com brenfa pra praia. Leva só um, apertado. Olha lá, eu não quero pagar medida. Tu também não quer pagar medida. Fica tranquilo, porra. Qualquer coisa come, sei lá. Então passaram em casa, fizeram um, que Chulé pôs no bolso, e prosseguiram trocando prosa miúda até o ponto de ônibus. Ali eles comeram pastel e tomaram caldo de cana, e compraram uma garrafa grande de água para a jornada. Como eles conheciam motorista e cobrador dos ônibus que iam para a praia, pagar não foi um problema mais uma vez. Andando pela cidade, em pé e segurando no ferro, observavam os casarões, os prédios e as lojas, como as de roupas, eles que usavam quase que só roupa doada. Desceram no ponto final, que era a três quadras do mar. Atravessaram no sinal fechado, como bons meninos, mas mesmo assim foram parados mais adiante, era a guarda municipal. Lelinho gelou até a espinha, Chulé garantia estar no controle da situação. Eles tinham os documentos para mostrar, e os guardas mais tentaram dissuadi-los de chegar até a praia do que revistaram os meninos em busca de ilícitos. Malandro, que alívio… eu sei, deixa comigo. Então eles pegaram o rumo oposto da praia e na próxima quadra contornaram, chegando ao mar sem constrangimento.

Já na faixa de pedestres da avenida movimentada iam pulando e chamando atenção, geralmente negativa. Passaram direto pelo calçadão onde um gostosão ou gostosona desfilavam, cachorros passeavam seus humanos e camelôs vendiam coco ou cangas, passaram ainda entre duas barracas cujos preços não eram para eles, passaram pelas tendas e cadeiras de quem consumia e só pararam com os quatro pés pretos mergulhados na água salgada. Molharam um ao outro um pouco, Chulé foi até a areia e discretamente enterrou beque, isqueiro, dinheiro e documentos, perto de onde ficaram os chinelos, e só então foi se juntar ao amigo-primo-quase-irmão que já pegava jacaré àquela altura. Por longos minutos aproveitaram a água gelada da cidade que até eles mesmos achavam maravilhosa, e quando estavam satisfeitos saíram, mas não viam os chinelos. Filho da puta! E nisso tinham toda razão, quem roubaria chinelos velhos de dois meninos favelados? A menos que seja hostilidade pela própria presença deles, não se explica. Chulé correu para conferir o esconderijo, e tudo estava a salvo, menos mal. Vamo fumar logo isso. Onde? Olharam na direção da terra. Coqueiros, barracas, prédios altos; à esquerda deles, o Lelinho apontou, havia um morrote de areia coberto de uma vegetação praieira incipiente, e na ponta dele estariam escondidos do movimento no calçadão e com boa visão da movimentação na praia, onde circulava quadriciclo da polícia às vezes. Ali é canal, cria. Por mais que a lógica fosse boa, os dois meninos chamavam atenção ali, e eles deviam saber que era arriscado. Instalaram-se e acenderam a bomba, sempre olhando em volta. Eu acho que sei como conseguir o documento, mané, disse Igor, passando. Ah é, e como, então? No salão da mãe. Eu invento um motivo pra ir com ela, essas madames ficam horas lá, eu pego, a gente vai com o Tulim copiar e eu devolvo. Se ela descobrir, você apanha. Descobre não. Então fechou. Então olharam de novo, um polícia. Chulé foi rápido, decapitou a brasa do beise e dividiu o restante em dois, passou uma metade ao parceiro, e os dois as mandaram à boca.

Bicho Solto 3

março 19, 2021

Tu nunca pegou numa peça, maluco. E daí? A arma é só pra assustar. O Camarão não vai dar arma pra gente. Você vai ver. Quando eles iam entrando no metrô da Cinelândia, o segurança os parou, colocou contra a parede e revistou. Foram vocês que roubaram a velhinha! Achou um resto de maconha, deu um safanão em cada e sugeriu que o metrô não era lugar para eles. Vai, vamo de ônibus. E foram até o ponto garantindo que foi por muito pouco que não tiveram sucesso. O cobrador foi firmeza e deixou passar por baixo, eles se instalaram no fundo e desceram perto da entrada do morro. Mas no que passavam pelo boteco do pai de um amigo, o Tulim, a moça do balcão gritou: sobe não que tem operação! É ruim, hein. Entraram escutando tiros e compraram fichas para o fliperama, era um Street Fighter adulterado, e a tela estava cheia de hadoukens acionados pelos movimentos vigorosos dos dois. Logo depois que o Ken do Lélio matou o Ryu do Chulé no cenário amazônico do Blanka, chegou o Tulim: coé? Coé, Tulim? Sinistro, os porco mataram três. Do movimento? O André e o Helton, e uma criança de bala perdida. Filhos da puta. Pegaram alguém? Ninguém importante. Ouvi falar que é a formatura de vocês. Nem fala. Então contaram as desventuras da manhã, e o outro caçoou. Tu também nunca roubou. Tulim, embora bem informado, nunca entrou pro crime: ganhava pensão de sua mãe falecida e era um bom aluno, ainda de uniforme e sapato, o que estabelecia um contraste com os molambos dos amigos descalços. Ele ofereceu um guaraná da quota dele a cada, e escutou a grande ideia do Chulé com um sorriso. O Camarão não vai nem falar com vocês hoje, esquece. Poxa, é mesmo! Vocês já almoçaram? Não, cria, tô brocado. Vamo lá em casa. Demorô.

A casa era simples, mas já era melhor que a deles, a comida o Tulim transformou num mexido, que eles comeram com gosto. A laje da casa era presenteada com uma linda vista pro mar, prateado e encrespado sob um céu que voltava a fechar. Tulim abriu uma caixinha e anunciou: esse aqui é especial, é do gringo. Caraca, malandro! Onde você consegue? Um amigo meu que planta, em Seropédica. Tulim não era branco, mas podia passar por branco, e circulava o suficiente no asfalto para ter bons contatos, era também um pouco mais velho que os dois, estava na primeira adolescência, talvez. Essa aqui é a de Amsterdã mesmo, disse Lelinho. Chulé não perdoou: e tu já saiu do Rio um dia, mané? Eu já morei na serra, tu que nunca saiu! E todos riram. Que cheirinho. Limão. O Tulim não bolava como a dupla, mas o baseado de sedanapo funcionava bem o bastante. Os dois ficaram absolutamente fanáticos com a novidade na primeira tragada, exultavam, deitavam no chão, riam, trocavam sopapos de brincadeira, e quando a ponta apagou e o Tulim a guardou na caixinha, quando eles tinham se aquietado no seus cantos, veio a pergunta fatal: e o que é que vocês vão fazer? Chulé arriscou: faca, vamos usar uma faca. Tulim balançou a cabeça: faca não assusta ninguém, olha como vocês são miúdos. Vocês têm de ser espertos. Como assim? Vocês não querem roubar uma bolsa para provar pro Camarão? Ahã. Então qualquer bolsa serve. Tu é maluco. É a coisa mais fácil. Se o Camarão perceber, a gente tá morto, malandro, é ruim, hein. Ele vai ver uma bolsa cheia de coisa, qual é a diferença? E o documento? É aí que eu quero chegar, eu tenho um colega que trabalha numa gráfica. No intervalo de almoço ele fica sozinho. Eu já fiz uma carteirinha lá, plastificada, gringa, perfeita. Aí, Chulé, ele tem razão. Você precisa de um dinheiro pra comprar uma bolsa, uma carteira, maquiagem, lenços, essas coisas. E você precisa de um documento original, é claro, e tem que ser gente do asfalto. Igor ainda não estava convencido: e o cartão de crédito? Se não tiver cartão vai dar na cara. Minha irmã tem um monte de cartão velho, eles não vão prestar atenção nisso. Será, maluco? Nisso a madrasta do Tulim subiu pra chamá-lo a executar alguma tarefa doméstica e os dois se despediram, prometendo voltar no dia seguinte.

Não tá na hora de buscar os menino? Daqui a pouco, bora lá na pedra. Tiveram que passar em casa para pegar o beque: ainda bem que eu não desci com minha dola pro asfalto igual tu. Foi vacilo. Se o segurança quisesse, ele… Tá bom mané, eu tenho que agradecer o cara que me deu um tapão, é? Aproveitaram para comer uns biscoitos (porque bolacha é tapa na cara), passaram no boteco que os refugiara da chuva antes para garantir uma seda e se instalaram no promontório, que tinha hoje já dois grupinhos para aproveitar o paradisíaco ocaso de mais um dia de mormaço por sobre a metrópole e o mar aberto, tinto dos alaranjados e ocres do céu, onde uma bola vermelha baixava sem pressa. E aí, maluco, vale a pena enganar o Camarão? Vale a pena se der certo. Não quer tentar de novo? Com uma peixeira? E como é que tu leva uma peixeira no bolso da bermuda, zé roela? Eu conheço o Camarão há muito tempo, primo, certeza que ele libera um berro pra mim, sem bala, só pra assustar! Bom, então você tenta falar com ele amanhã. O assunto parecia encerrado por ora, mas foi também abreviado pela chegada da Telma, a filha bonita do verdureiro com quem Chulé trocava olhares tímidos escolhendo tomates ou batatas, acompanhada do irmão mais novo, os dois se juntando à celebração canábica após um convite meio sem graça. Após alguma conversa miúda sobre a copa do mundo que ia acontecer em breve, um espetáculo que não era para eles, a Telma soltou um convite ao Chulé: o pai precisava de ajuda e ele podia trabalhar lá. O irmão concordou, aparentemente a contragosto, e o próprio convidado se forçou a mostrar interessado, mais na morena que no trabalho, na verdade. Quando recebeu o beque do “cunhado”, percebeu que estava todo babado, e protestou: ê, boca de piscina! Já não restava nada do sol quando se despediram, passaram na Gorete, que ofereceu torta de frango e refresco, e levaram para casa os menino, onde Milagres recebeu a todos afetuosamente. Igor foi dormir pensando: emprego normal é mesmo coisa de otário?

Bicho Solto 2

fevereiro 26, 2021

Caraca maluco, terceiro pão que tu come. E qualé o problema? Ei vocês dois, se comportem. Faz um favor pra mim, os dois, vão levar os menino na Gorete. Termina, lava a louça e vai. Sem reclamar. Hoje a agenda tá cheia. Os menino era o Jonata de cinco, que tomava banho, e o Miguel, que não fazia muito que andava e estava preso no cercadinho improvisado. Saíram juntos, mas Milagres descia pro asfalto e a Gorete morava no topo do morro, perto do promontório. O dia estava nublado e o calor era menos, Igor deu a mão ao pequeno e Lelo brincava com um ioiô, de olho no outro. Passaram por um menino descalço que vendia sacolé, e o irmãozinho começou a pedir, então chegaram lá em cima chupando os saquinhos coloridos. A Gorete estava esperando, ofereceu bolo e café adoçado, os pequenos ficaram e então Chulé e Lelinho naturalmente foram até a pedra fumar um matinal. A chuva parecia iminente.

Desta vez foi o Chulé que dichavou uma pedrinha, na palma da mão, processo rudimentar e demorado, mas iam conversando. O mais fácil é roubar correntinha, ou bolsa; um olha se tem polícia, o outro dá o bote e sai os dois correndo, mas o melhor é passar uma mulher. Já é. Vamo lá no Largo da Carioca, muita gente passando. Muita polícia, cria. Se alguma coisa der errado, cada um sai correndo prum lado e a gente se encontra meia hora depois na Cinelândia. Eu não conheço esse pedaço, objetou Lelo. Vai conhecer. Tem uma seda aí? Ih, malandro, nem tenho, tu também não tem? Ficaram desnorteados com o impasse por um tempo. Talvez seja melhor fazer essa função careta. Besteira. Iam descendo quando um grupo chegou, pareciam turistas, e descolaram uma seda, daquelas gringas mesmo. Chulé mostrou que rivalizava com o amigo no ofício de fazer um belo baseado, e acendeu sua obra de arte. Aí, maluco, hoje à noite a gente tá aqui de volta com a missão cumprida. Tomara, primo. Antes do meio do baseado as gotas começaram a precipitar, e tanto eles quanto os turistas tiveram que se abrigar no bar mais próximo.

Parando a chuva eles desceram pro asfalto, até a estação de metrô. Olharam em volta e pularam a catraca, metendo-se no trem até a Carioca. Alguns passageiros reagiam à passagem deles, com uma careta ou apertando a bolsa, mas aquilo era o de sempre. Uma velhinha branca ofereceu esmola, e foi melhor aceitar constrangido. Descendo na Carioca havia uma feirinha, eles ficaram olhando. Lelo parou numa banca de livros, ele se lembrava quando a filha do patrão lia histórias pra ele, mas nunca aprendeu a ler. O outro o despertou do transe e o convocou para se postar num lugar conveniente. Havia uma caixa de telefonia, então Chulé deu as instruções: eu fico olhando as madames e se tem polícia, e você fica atrás da caixa, quando tiver uma vítima eu jogo uma pedra na caixa e você tenta roubar a bolsa. É ruim, hein, vai você. Não tinham combinado esse detalhe. Vai você, se der errado a próxima sou eu. Tá bom, vai. Qualquer coisa, já sabe, na Cinelândia. Não pode ser uma bolsa grande. Tudo bem. Depois de alguns minutos passou uma coroa, sozinha. Chulé jogou a pedrinha e Lelo deu um impulso para ir atrás dela, mas chamou a atenção da mulher, que se virou e começou a gritar socorro e ladrão. Cada um disparou num sentido como combinado, ofegante e assustado mas ligeiramente excitados com a aventura.

Lelo teve dificuldade de achar a Cinelândia, tentava pedir informação e viravam a cara pensando que era esmola. Quando reencontrou o amigo, ainda foi repreendido: não é pra pular assim feito um boneco de mola! Ah, é, então vai você, então. Tu vai ver. Melhor achar outro lugar, vamos aqui pelo lado do aterro, Chulé ainda comandava. Andavam pelo jardim e pouca gente circulava, mas de repente vinham lá o que pareciam avó e neta, totalmente frágeis. Chulé disse à meia voz: é essa aí. Mas a velha já estava ressabiada, e quando Chulé tentou puxar sua bolsa ela resistiu, derrubou o ladrão atrapalhado no chão e começou a bater nele com o próprio objeto do roubo, a neta contribuindo débeis pontapés. O amigo já ia longe quando ele conseguiu se desvencilhar, e depois de fugir na direção contrária feito um azougue, foi até o ponto de reencontro. Não era fácil? provocou Lelo. Você devia me ajudar, não correr! O combinado era correr. Sem chance, a gente precisa de uma peça, malandro.

Autorama 18

fevereiro 21, 2021

Eu tinha me mudado pra Brasília em dois mil e cinco, após a morte da mãe a gente quis reunir a família; eu mesmo não tinha muito tesão em morar lá, e acabei vivendo dez anos. Do meu projeto de me tornar músico e engenheiro de som eu não tinha me tornado nada, e nem bancário eu era mais, e comecei Geografia na UnB. Foi uma tremenda farra enquanto eu estive lá, Peter Pan da porra. Teve uma festa que a gente organizou naquela tenda estilosa da UnB, e foi escalada uma banda chamada Zé Recado e Tommy Nota, só pelo nome, era uma bosta, um acampamento em que eu levei a bateria, voltei em casa pra buscar o pedal que ficou pra trás (até o que é perto é longe em Brasília, imagina o que é longe) e quando foi à noite eu dormi em vez de tocar, a mesma fita em que eu e um grupo perdemos a carne e a cerveja porque disseram que dava pra voltar pelo leito do rio e levou horas, ou quando eu fiz festa lá no prédio do meu pai, a gente começou a escalar as estruturas e um japonês veio brigar com a gente sem falar português direito. Teve uma vez no CA que eu disse pro Rico,que era da Ceilândia, que não era playboy, e ele disse que pro pessoal da quebrada dele eu era sim. Só não foi meu primeiro choque de classe porque ainda em Porto Velho a gente morava num condomínio, modesto, que uma empreiteira largou lá… inclusive o Cojubim era sobra da construção da Madeira-Mamoré, que matou muita gente e não serviu pra nada com o fim do ciclo da borracha e o Condomínio das Acácias se não me engano era sobra da usina de Samuel, que também não produz energia. But I digress. Sei que do lado de cá do muro tinha uma piscina e uma quadra, e do outro um charco e uns favelados ou beiradeiros, gente na merda. Um dia ventou muito e o muro caiu, os miseráveis apontavam o dedo rindo da gente, felizes da vida porque ao menos a gente se fodeu um pouquinho. É foda. Mas voltando a Brasília, logo no primeiro semestre já aconteceu uma greve, e nesse mesmo tempo eu descobri que tinha sido nomeado no concurso do MP, que eu nem estava acompanhando, e fui assumir lá em Joinville. Foram outros dias de porralouquice, de ir pra Florianópolis e pegar fumo no morro, ir pra Oktoberfest… eu tinha ido a duas Oktoberfest com o povo da Computação, mas dessa vez aquilo já não agradava, parecia besta. No fundo, sempre foi besta. Festival de tosquice.Foi um mês morando em Barra do Sul, na praia, e trabalhando em Joinville, eu pegava a estrada pitando um na ida e na volta, e às vezes o céu estava nublado e eu me esquecia se ia ou voltava. Eu fui a Londrina, bati o carro (não me acelera não), e depois eu caí no mar com a chave do carro da locadora, inventei que conseguiria achá-la com um ímã (ideia idiota), e quando eu cheguei lá de volta já estavam guinchando a porra do carro. Todo esse período eu já estava na curva ascendente da hipomania. Então eu voltei pra Brasília, pra PGR, e as aulas da UnB recomeçaram, só que eu comecei a fazer performances tanto num quanto noutra. Tinha uma professora lá, super respeitada, eu comecei a fazer um monte de pergunta incômoda e saí da sala dizendo que aquilo era uma palestra, não aula, mais ou menos como com o Jurandir na Unicamp. Uma disciplina que eu fazia era Introdução à Filosofia com o Basali, que tinha sido uma figura carimbada na Unicamp, embora eu não tenha conhecido, um tremendo mau caráter no fim, eu o considerei amigo um bom tempo e ele me via como um dos admiradores dele, nunca dei motivo. Mas eu estava gostando da disciplina, e se eu já gosto de participar das aulas, imagina maníaco. Ele disse depois que eu estava tentando “sentar na cadeira do maquinista”, brilhar mais que ele, mas eu estava era doido. Teve um dia que eu saí do trabalho, fiz um beque, fui fumar lá no parque da cidade e achei que um negão que veio passar cantada era um espião atrás de mim, não sabia que era ponto de paquera deles ali. Eu me lembro até hoje da Milena rindo de mim por isso. Gatinha. De lá eu fui à aula, cheguei atrasado e ele estava falando sobre o oráculo de Delphi, e eu já entrei comentando sobre o Plantas dos Deuses, onde eles especulam que eram solanáceas que eram usadas, só que de um jeito tão afetado que o Basali ficou me zoando: “esse é o cara”, mas como eu já andava na onda do Matrix e da megalomania mística, eu achei que era aquilo mesmo, eu era o predestinado. My name is Leo. O Basali passou Prometeu Acorrentadoe pediu uma resenha, então eu fiz um texto satírico, que acabou virando a primeira parte da saga Os Mansos Herdarão a Terra, desenvolvida em trechos ora mais ora menos lógicos ao longo de minhas várias crises, misturando falsa mitologia com falsa religião e falsa matemática. Eu convivi com matemáticos na Unicamp, e o Marcelo ex-Cabelo uma vez disse que foi a um evento sobre teoria de nós, e que a história basicamente era que todos os nós se resolvem em R^5. Então quando eu pirei eu escrevi no papel: espaço-tempo-amor. Sem saber resolver o exercício mais simples de homologia, sem entender nem a relatividade geral, eu queria reivindicar uma descoberta revolucionária: o amoré constitutivo da realidade, e isso basta para que todos os nós se desatem, não é bonito? Opa, Moraes Salles, eu desço aqui.

Alguém choveu

fevereiro 15, 2021

Ela saiu mastigada e nem se afligiu de empapar o confete que havia calçado destro na cordilheira. O caroço demorou a existir, e a agulha ainda veio destrinchar alguma vênia sobre o calabouço. Escorreu um conceito e precisou namorar na xícara, era um pote de tapetes líquidos espirrando, distinguindo um cachorro. O maremoto não tinha uma penugem e a distorção a recombinava, então decidiu afundar os óculos no azeite, distraiu-se e concedeu de leve ao extintor. Destampada, esgarçou odores e pavimentou o corrimão faceiro, alguém choveu, ela também. Filtrou-se pela antena do testamento e cancelou salames meio fora de rumo. O aniversário a atrapalhou antes que ela se debruçasse no convés, e ela tingiu bosques ajeitando a mácula e participando da maquinaria com um barulhinho. As baleias metálicas se partiram e um topete velho a lancinava, e muitos monumentos à adutora que tomava sua composição para bajular os gominhos dos impermeáveis que a categorizavam para isso.

Bicho Solto 1

fevereiro 14, 2021

Aí Chulé, aí Lelinho, o Camarão quer ver vocês. Os dois estavam sentados lado a lado no banco inteiriço e debruçados sobre a mesa comprida que ocupava os fundos de uma casa modesta, uma de milhares apinhadas uma em cima da outra na escarpa de um morro, sob um sol inclemente. Do lado de dentro, três rapazes só de bermuda se dedicavam a com serras manuais dividir os grandes tijolos de maconha em pequenos tabletes, os quais eram despejados na mesa lá fora para que os meninos mais novos apenas os guardassem no saquinho plástico, acrescentando a marca daquela boca, que era o Sonic do videogame. Que será que o dono da boca queria? Ficaram naturalmente nervosos, entreolharam-se, quase a cópia um do outro, mas sabiam que não tinham pisado na bola. Pegaram cada um suas coisinhas e acompanharam o capanga do chefe, que trazia um berro na cintura. Desceram a rua estreita cruzada todo o tempo por motocicletas, passando por um boteco e por uma banquinha vendendo biscoito e água em copo, ou antes o copo, usado pra fumar crack. Um sentinela armado marcava a fortaleza do chefão da boca, que no esquema da droga era um soldado raso, mas gozava de poder local. Era uma casa sem acabamento ordinária, e lá morava uma família ordinária, o truque era uma passagem escondida que levava a uma espécie de caverna nas entranhas da estrutura erguida contra a queda de barreiras, décadas atrás. Vinham todos todo o tempo em silêncio, o que não era bom sinal pros meninos; eles trocaram um último olhar que ao mesmo tempo reafirmava a lealdade e sondava algum segredo do outro antes de escorregarem com seus membros finos para o subsolo.

Chulé se chamava Igor, sua mãe era cabeleireira e havia sido abandonada com ele e dois mais novos. Ele teve vizinhos e parentes por creche, e as letras mais rudimentares na escola da prefeitura lá no asfalto, mas depois o movimento brilhou nos seus olhos, a grana e o respeito que os moleques tinham, e ele começou como vapor, ajudando os usuários a comprar, os traficantes a vender, e a polícia a ser detectada e denunciada por códigos complexos se ousasse aparecer. Lélio era filho único da irmã de criação da mãe do Chulé, que era, ou antes fora, uma prostituta de até certo “prestígio” em certa casa de um bairro nobre onde ela não podia pagar nem uma vaga de estacionamento. Ele foi criado muito tempo pelo pai, que é caseiro numa cidade serrana, mas a namorada nova do proprietário decidiu que ele tinha que ir embora, e com a tia e o primo ele foi viver no morro. A essa altura o Chulé já trabalhava no endolamento, e Lelinho entrou direto ao lado dele, sem nunca ser vapor. Quando ambos foram postos diante do Camarão, secundado por um traficante de fuzil de cada lado, a primeira pergunta foi: aí, crias, quanto tempo cês já tão no endolamento? Faz mais de ano, Camarão, assumiu a dianteira o Chulé. Faz um ano, é? Tempo passa. E eles são responsa, Binho? perguntou ao que os trouxe. São, chefe, trabalham certinho. E tu quer mesmo virar bicho solto, moleque? Eu? fez o jovem. Sim, tu. E tu? E os dois garantiram que queriam virar bicho solto, sim. Coé, pra trabalhar na boca tem que ser cria, cês são cria? Claro, claro. Mas cês são cria fiote, fiotim demais. Tem que perder o cabaço pra trabalhar na boca. Houve um breve silêncio. Tem que cometer algum crime. Sete-um, assalto, morte, só estrupo que não, senão não pode ser da boca, vai empacotar as comprar dos bacana no supermercado, tá entendendo? Claro, Camarão. Os dois iam sendo conduzidos para fora quando o chefe completou: dá o pagamento em dobro e uma dola de vinte pra cada, vocês têm uma semana para provar que cometeram um crime e trazer a prova, nem precisa aparecer no endolamento. E ó, gente do asfalto, se tu roubar no morro, morre.

A primeira providência que tomaram foi fumar um para pensar no que fazer. Para isso, primeiro garantiram um guardanapo no churrasquinho da praça, depois subiram até o topo do morro, onde havia um promontório donde se via o mar lá embaixo, sob uma luz já crepuscular. E agora, primo, a gente faz o que? Passar uma madame no asfalto. Lelinho olhou a paisagem pensativo enquanto dichavava, sem responder. É moleza, retrucava o Chulé, é só um teste, malandro, depois a gente opera a boca, aqui em cima, na maior limpeza, polícia arregada… e fica rico, moleque, manda na boca, você vai ver. Mas lá embaixo tem polícia, preocupava-se o que torcia o baseado. Aí é que está, a gente trabalha em conjunto, não tem como dar merda. Uma vez lá no asfalto eu entrei na padaria e pedi um suco, morou? Me disseram pra esperar lá fora, e depois nem cobraram. Eu ia pagar, malandro, tá entendendo? Eu ia pagar, queixava-se Lélio dando o arremate a um beque bem feito. E dali em diante o acordo tácito era que não se falava daquilo enquanto eles curtiam o beque e o pôr do sol, de modo que passaram a provocar um ao outro pelos times de futebol. Na descida, o Chulé teve uma ideia e carregou o amigo-quase-primo até o modesto comércio da favela, movimentado com os trabalhadores que voltavam àquela hora, e de lá saíram com quase um quilo de carne de primeira, um tremendo presente para Milagres, e para eles mesmos. Ela nunca questionava a origem do dinheiro, e até preferia vê-los ajudando como podiam a de volta na escola.

Hilário 7

fevereiro 7, 2021

Olhando um pouco em volta, Chico deu outra bola e passou mecanicamente o beise a Dalton à sua direita. O rapaz já tinha entendido que fumar era necessário pra ser homem, e resolveu tentar de novo. Achou estranho aquele cigarro feito com guardanapo de boteco e sem filtro, mas foi adiante. Hilário, que estava olhando lá pra dentro, virou o pescoço e viu o colega careta fumando maconha. Soltou uma risada. Tu é leso, porra. Dalton não se deteve, seguiu as instruções prévias, fumou, tragou e só tossiu um pouquinho. O gosto também era forte, mas era outro. Esse aqui é de que? Esse é de maconha, Dalton. Eita, porra! O Chico Doido deu um soquinho no seu braço: cortei seu rabo, menino? Menino de novo. Ele nem sabia que Hilário fazia isso. Todo dia na TV dizia que as drogas são um caminho sem volta, e lá no bairro dele quem fazia isso é só bandido. A mãe pediu juízo, ela sempre pedia. Mas depois de hesitar um pouco ele resolveu embarcar na noitada e ver o que acontecia. De repente se ouve uma nota de contrabaixo num volume absurdo, seguida de outras mais moderadas e por fim começou um arpejo rápido. Bicho, o Tavinho toca igual o Steve Harris, esses caras detonam, Hilário se entusiasmava. É o Iron Maiden das beiradas, riu fininho o Doido. Agora eram as guitarras que ligavam o equipamento, e logo em seguida o baterista fez uma estripulia ou outra e todos silenciaram. O público, que era o máximo que o espaço comportava, fazia zoada. O Doido guardou a ponta apagada e eles entraram de volta.

Atrás do palco a sinuca continuava, mas a banda nem ligava, e começaram juntos os solinhos e as viradas da introdução da música que dá nome à banda, e a plateia respondia com energia. Será que o Bruce não volta um dia, assuntou Chico, pergunta que todos ali já se fizeram. Dalton arriscou sua teoria. A maconha não tinha feito nada ainda mas a cerveja sim, deixando ele mais falante. Eu acho que o Iron vai arranjar um puta vocalista e a carreira do Bruce vai ser massa também. Hilário retrucou: então eu prefiro que o Iron arranje um vocalista merda, a carreira do Bruce seja uma merda e ele volte pra banda. Quer amarrar aposta? Chico se animou: sou testemunha. Eu não tenho dinheiro pra apostar, defendeu-se Dalton. Quem perder tem que escalar as caixas d’água. Tu é doido. Daqui a cinco anos se o Bruce tiver voltado pro Iron… Cala a boca Hilário, ninguém vai escalar nada. Vamos ver o show. Naquele instante acabava The Trooper e o vocalista falou umas palavras lamentando a saída do Brucidiço antes de eles começarem Fear of the Dark, que fez os malucos vibrarem. O trio havia se postado em um lugar tal que o cobiçado quinteto feminino se juntou a eles quando deixou a mesa. Dalton sorriu pra branquela de vestido, sentiu falta do que fazer com as mãos: não ia tomar mais cerveja, mas refrigerante no saquinho? Ela se chamava Cátia, com C, advertiu. Não era bela mas era jeitosa. Como ela comandasse a conversa, que girava sobre as escolas de um e de outro, ele foi seguindo. Contou seu episódio de expulsão e redenção, ela achou divertido. Com os olhos ele seguia a índia, que foi lá no bar sozinha. A banda começou Aces High. Aos poucos, Dalton começou a sentir alguma coisa, abriu um sorriso. Que foi? Não, nada, vamos lá pegar uma coca? Vamos.

Ele nem sabia explicar, era uma tontura gostosa, e ele andava um pouco mais solto, mas ainda não estava plenamente chapado. E a Cátia era boa de papo, então nesse enlevo eles compraram refrigerante e voltaram pro meio dos outros. Hilário provocou o amigo, que ficou encabulado: marrapaz! Quando os olhos de Dalton cruzaram os de Ludmila ela também o provocava, mas no bom sentido. Estava se sentindo o máximo. Tocava 2 Minutes to Midnight e eles acompanharam o refrão em um inglês tão precário quanto o do vocalista, enquanto batiam a cabeça. Então maconha é isso, uma tonturinha? Tá gostando, Dalton? Só não conta pra todo mundo. Claro! Seus pais especialmente. Claro, claro. E lembrou-se de sua mãe. Juízo, menino, ela disse. Ela não disse menino. Mas não teve tempo de ficar ansioso a respeito, a Ludmila havia voltado a se sentar e ele decidiu que era a chance de ele simplesmente ocupar a cadeira de boteco ao lado: posso me juntar a você, senhorita? Nunca tinha feito isso antes. Claro, Dalton. Ela tinha guardado o nome. E você estuda no Carmela, também? O assunto também estava fácil, era o mesmo da Cátia. Eu estudo, naquela bagunça, lá. Ah é? Bagunça dos alunos ou da escola? Os dois, né? O Pitágoras também, mesma coisa. E os dois riram. Quando o uníssono de baixo e guitarras anunciou Revelations, o Hilário ficou tão doido que abordou Dalton no meio da paquera com os índices e mínimos das duas mãos erguidos: metal! Figura. Ela disse que os avós eram ribeirinhos por um lado e que adorava açaí. Ele disse que gostava de açaí, mas não suportava Tacacá. Ela disse que tacacá era tudo de bom e por aí foi, até que a banda fez uma pausa dramática e iniciou Wasting Love, que é uma música lenta. Dalton se levantou e tirou Ludmila para dançar, que aceitou com risinhos marotos. Houve uma reação, e era difícil dizer o quanto era zombaria ou apoio, mas um casal resolveu seguir a deixa, então isso se tornou bem rápido algo natural.

Entretanto seu par foi arrancado dele pela segunda vez no mesmo dia: era a Cátia, convencida de que já havia agarrado o pobre “prêmio” antes, e depois de uns sopapos bloqueados e outros certeiros de cada lado vieram as amigas apartar. Uma foi levar Cátia em casa, a outra foi levar Ludmila em casa, que preferiu não se despedir, a outra foi pra casa só, enquanto Dalton ficou lá sem nenhuma das duas, ou três, e sem o primeiro beijo. Hilário tentou reconfortá-lo: metal! Era o melhor que podia. Então Dalton aceitou a sugestão, balançando a cabeça na mesma música que dançava colado há pouco. Veio então o intervalo, todo mundo buscou o bar ao mesmo tempo, mas não o Chico Doido, que chamou Dalton e Hilário lá fora, com a ideia de tratar a ponta. Hilário, que coisa maluca, duas vezes no mesmo dia. O quê? Oxi, agora a Cátia arrancou a Ludmila enquanto eu dançava com ela, e hoje à tarde o cara do primeiro ano arrancou a Priscila. Puta nojentinha essa Priscila. Ah, não enche. E o que você fez? Oxi, eu deitei ele no chão. Não! Oxi. Hilário ergueu a mão do boxeur, faltou o cinturão: como você não me contou isso? Oxi, você não perguntou! Chegou a vez dele, a ponta se desfazia, o Chico já tinha mandado um cuspe pra ver se melhorava, e sem piteira, ainda, estava difícil fumar, então a voz da experiência (o Doido) aconselhou a formar um triângulo com polegar e índice de uma mão e índice da outra, e funcionou, o maconheiro novato, herói e mártir do dia deu mais uma longa bola. Quando a ponta acabou eles foram conversar com a banda. Dalton ficava mais calado, mas de vez em quando dava risadinhas às sacudidelas, ou outros percebiam e zombavam. De repente ele decidiu que ia ao bar e ia pedir uma cerveja, e se perguntassem sua idade ia dizer dezoito. Dezoito, que palavra engraçada. Parece que você está pulando uma poça, de-zoooi-to. Quem o via rindo só ou ria ou julgava, mas quem ia imaginar o momento mágico que o rapaz estava vivendo? Me dá uma cerveja! Tá meio quente. Não tem problema. Os trocados também eram os últimos da noite, e após estourar orgulhoso o lacre da cerveja, homem apesar de tudo, quase cuspiu o conteúdo. Continuou a beber pra fazer uma cena por um tempo mas depois abandonou a lata. Os caras do The Trooper começaram a segunda parte. O Hilário fazia uma careta e ele se contorcia de rir, não estava preocupado com nada, deixou-se levar no élan. Cara, já parou pra pensar que “tudo junto” se escreve separado e “separado” se escreve tudo junto? Quiá quiá quiá… Muito engraçado. É hilário! Caramba, seu nome é Hilário! Quiá quiá quiá quiá… E ele já não cabia em si, abriu os braços como um avião e saiu passeando pelos espaços em branco, até que chegou em uma das mesas de sinuca, escalou ao tampo com a ajuda de uma cadeira e, não mais um avião, era um pássaro pulando lá de cima batendo os braços. Estava tão feliz que não sentia vergonha de ser menino.