Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Aqui Jaz a Piada

junho 23, 2018

Aqui está a lápide. Acredita agora? A piada morreu. As redes sociais mudaram tudo, o humor é produzido aos montes, compartilhado aos milhões de clicks, e tem uma vida efêmera. E, sobretudo, meme não é piada. Anedota, sabe? Lembra? Uma pequena narrativa com um desfecho que libera toda a tensão da expectativa numa explosão de riso, ou punchline em inglês? A gente contava uns pros outros, tinha gente que contava bem e tinha gente que estragava a piada, e toda turma tinha seu piadista oficial. E como era gostoso juntar um grupo de amigos e passar horas simplesmente trocando anedotas, esforçando-se para lembrar uma boa. E fazíamos  gestos, entonações engraçadas, imitações… olhávamos uns pros outros, o piadista tinha o prazer de ver o prazer que produziu; qual é a graça de um meme bidimensional com mil curtidas perto disso, me diz? A neurociência deve ser capaz de provar isso facilmente.

É claro que a piada sempre teve um lado mau, e um novo quadro de percepções tem toda razão ao rejeitar boa parte das piadas que contávamos, como se não fossem nada de mais, quando na verdade eram ofensivas às mulheres, a minoras ou nacionalidades inteiras. Mas isso não pode explicar o sumiço das inofensivas; aquelas piadas que se baseavam numa lógica absurda, aquelas que eram puro nonsense, aquelas piadas que exploravam um jogo de palavras, aquelas piadas sexuais bobas que foram a educação sexual de tanta gente, aquelas piadas que fazem graça da presunção do homem da cidade e celebram o matuto, ou qualquer inferior social que vai à forra, eram de todo tipo.

A piada era um verdadeiro cimento social. O leitor vai dizer que isso segue ocorrendo na internet, o que é e não é verdade; mas a velocidade da circulação hoje é espantosa, e essa velocidade dificilmente permite permanência a qualquer coisa, e isso nem é exclusivo da piada. Mas talvez o caso em questão seja bem ilustrativo de que, com todas a possibilidades que a comunicação cibernética trouxe, vale a pena parar e perceber se as formas de socialização não estão se esgarçando rumo ao estado em que somos apenas nós de uma matriz na virtualidade, e nossos corpos meros escravos dessa outra existência.

Esta não tem sido uma crônica muito engraçada, sendo uma crônica sobre piadas, então vou tentar finalizar dizendo que nem tudo está perdido. Recentemente estive em um sítio, e lá estava uma pequena revista com piadas. Abri a esmo, li a primeira, que era algo assim: Dois jacarés conversando. Sabe do Zé? Tá cheio da nota. Ganhou na loteria? Não fizeram uma carteira dele. Gostei da piada, mas eu mesmo nunca cheguei a contá-la depois.

Excess to line two

junho 21, 2018

Um cara levantou para descer, eu aproveitei e me sentei. A voz anunciava a baldeação de linhas em inglês, mas a pronúncia transformava “acesso” em “excesso”, e aquilo sempre me incomodou desde a primeira vez que eu me dei conta. Não quis ler porque faltavam poucas estações, e me pus a olhar em volta. Meu assento era de costas para o movimento da composição, com alguém ao meu lado e um assento azul à frente, transversal, a mesma configuração se repetindo à esquerda do corredor, e tudo isso espelhado do outro lado da área das portas. Bem à minha frente, uma mãe com um bebê, eu me demorei observando, a pele branca de ambos, o ar de gerente de loja modesta dela, sapatos talvez, até que o telefone dela tocou. Fazendo malabarismos com a criança e o aparelho, ela parecia dar instruções a uma empregada doméstica, chegando mesmo a se irritar. Imaginava eu a moça desesperada: depende do emprego, quem sabe ela mesma tem um bebê, agora com a avó ou a tia, o namorado lhe pede dinheiro, ela desliga o telefone e vê que o arroz está queimando. À minha esquerda, havia uma adolescente oriental de meia arrastão, suspensórios e chapéu-coco, ela mascava chicletes, ouvia algum pop nos fones, e manuseava também seu telefone, mas comunicando-se pela escrita; eu podia ver a tela, mas não ler o conteúdo. Amiga ou namorado? Namorada ou amigo? Pelas cores distribuídas pela tela, parecia ser uma conversa a três, pelo menos. A melhor amiga e o amigo homossexual estavam certamente no cursinho, para onde ela rumava atrasada, os três gostavam das mil tranqueiras tão inúteis quanto coloridas vendidas na Liberdade, embora uma fosse de extração italiana e outro um típico mestiço brasileiro tentando sua ascensão através de uma bolsa de estudos. Embora minha vizinha estivesse indecisa entre biologia e arquitetura, esperavam-na uma futura advogada e um futuro engenheiro, tudo correndo bem. Do outro lado do trem deixaram o assento azul vago, no banco havia um casal. Era difícil ver muito, mas eram negros, ela com a pele mais clara e cabelo alisado na chapinha, ele de camiseta de torcida e chinelos, e os dois se debruçavam por sua vez sobre um celular. Só podiam estar vendo fotos; fotos da lua de mel? fotos da sobrinha bebê de um deles? fotos de uma partida de futebol? fotos do ensaio da escola de samba? Era uma viagem ao Boqueirão; não era lua de mel pois não eram casados, era aquela viagem memorável do começo do namoro, que não ia muito longe, pois ainda estavam embevecidos. No chalé, tiraram fotos íntimas que devem explicar aquelas risadinhas, na praia ela foi clicada tomando coco sobre a canga e ele deve aparecer mostrando o polegar para fora de um Escort. Dependurado nas barras do trem, na área das portas, havia um rapaz de cabelo longo e roupa preta, lendo um livro eletrônico; que irá pelas páginas que lê? são páginas? uma página é algo concreto ou abstrato? Pouco importa, o rapaz lê Tolkien, terceira vez, e mal pode esperar para jogar RPG no sábado. Nos bancos à minha frente, havia uma turma de gays, três sentados e um em pé no corredor; enquanto um se aninhava no peito do outro, todos prestavam atenção à conversa daquele sentado só, e faziam comentários. Não pude entender do que se tratava, mas faziam farra com um amigo ausente, é certo, e em determinado momento tiraram uma selfie coletiva para enviar. O interlocutor deve ser o namorado do rapaz que concerta toda hora a franja; ele trabalha como modelo viajando, enquanto aqui os quatro trabalham juntos em uma produtora cultural, e pelo menos um é ator amador. Neste momento aquela selfie podia estar sendo vista em Roma ou Tóquio, num quarto de hotel, no banco traseiro de um táxi, transportando uma cena banal do metrô, ainda assim capaz de enternecer alguém com saudades. Já do outro lado, para o qual é quase natural olhar, sem os bons motivos que eu tive, havia duas moças muito bonitas; uma tinha o cabelo cacheado preso numa fita e colo à mostra, a outra era ruiva de óculos e me parecia uma fisionomia vagamente familiar. Ambas tinham a cara metida nos aparelhinhos; a primeira, que parecia essas figuras de movimento estudantil, pelo movimento constante do dedo parecia jogar, e nem eu saberia especular sobre jogos, nem ela deu por mim em momento algum. Já a dos óculos, vestida como se fosse trabalhar no fórum, não só parecia engajada em uma animada conversa que a fazia gargalhar, como percebeu que eu a olhava, e percebeu de novo e de novo. Não é com namorado que ela conversa, embora ela tenha, um namorado que é um babaca completo; ou será que sou eu que desejo isso e o sujeito é todo atencioso? Ou então ela não tem, está rindo com a amiga do ex que ainda a venera; não, muito cruel, é uma risada benfazeja como a prima favorita expondo suas aventuras sexuais em detalhes, ou a mãe narrando a quinta tentativa de obter a carteira de motorista, ou mesmo o irmão detalhando a última bebedeira. Difícil, esta. O trem chegava à minha estação, e minhas imaginações foram interrompidas; eu me levantei e a ruiva se levantou também, e houve um instante congelado, carregado de eletricidade, uma dilatação do tempo que Einstein se esqueceu de explicar, em que eu podia, ou não, agir e puxar assunto; “acho que te conheço” estava fora de questão. Foi ela quem disse que me conhecia, e eu relaxei instantaneamente. Você não foi professor da Lia? Nossa, fui meu mesmo, você… Irmã dela, Laura… Ah, é mesmo, ela tá bem na escola? Mais ou menos, deu uma risadinha. A composição parou e as portas se abriram; o tempo urgia, e no caminho até a escada rolante, roçando nas pessoas que tentavam entrar, eu tentava minha sorte. Me liga de novo, eu estou sem o cartão, mas… ela não pode perder o ano. Ela riu de novo. Ela é professora hoje. Tanto tempo? Tanto tempo. Professora, que bonito. Me dá seu telefone, mesmo assim.

Pátria de Lixeiras

junho 11, 2018

Eu havia comprado uns discos, e sentei em algum lugar para tomar um café, ler um pouco. O café dava para uma praça grande, mas estava ainda assim perto da avenida, onde havia um recesso com duas caçambas de lixo. Cito isso porque no espaço de pedir um expresso duplo e ler uma página do Machado duas pessoas já haviam revirado o lixo, e eu mesmo já estava a imaginar como Machado descreveria a cena. Ou Lima Barreto, Machado ia talvez passar panos quentes. Sei que a dado momento eu já mal olhava o livro em minhas mãos, acompanhando a faina dos catadores. Eles abriam a tampa e sacavam de lá garrafas plásticas ou papelão de embalagem; cada um que passava gastava mais tempo e enfiava o corpo mais fundo nos recipientes. Percebi que havia umas caixas no chão, que todos eles abriam e seguiam adiante, o que me deixou um tanto curioso.

Eu via uma garçonete me servindo café, certamente tirava disso o sustento, olhava uma sacola de discos que não haviam custado barato, e não podia deixar de me sentir um pouco mal. Mas eu mesmo que podia fazer, voto de pobreza? E fui adiante. De repente, veio pelo lado da praça uma senhora, tão diminuta e recurvada sobre si que mal se podia acreditar que empurrasse sua carroça de lixo, ou antes recicláveis. Ela era seguida de um cão, que disparou adiante e parou a latir perto das caçambas, e do monturo que extravasava suas capacidades, como que alardeando uma descoberta. Àquela altura o Machado já não tinha a melhor chance. Ela afagou o cão como que agradecendo pela descoberta, ergueu a tampa da caçamba e quase mergulhou seu diminuto corpo lá dentro. A busca não pareceu frutífera em nenhuma das duas, já que aqueles que passaram mais cedo pareciam ter levado tudo que se pudesse aproveitar. O ajudante canino tinha o focinho nas caixas agora, e a senhorinha parecia confiar em seu tino, ou talvez o raciocínio dos dois já andasse em uníssono, e ela se pôs a abrir cada uma das caixas.

O que me intrigava é que não devia haver lixo biológico nas caixas, então que diabo havia que não servia também aos catadores? A senhorinha me ajudou, retirou de repente uma longa fileira de bandeirolas auriverdes que certamente enfeitaram a última copa do mundo, e assim o grande fiasco em casa ante a Alemanha, estando provavelmente na manhã seguinte encaixotadas. E ela tirava os conteúdos e os analisava com alguma curiosidade; àquela altura ela já sabia o que é aproveitável ou não, e como outros haviam esnobado a descoberta, estava claro que dali não se podia tirar um trocado. Olhei em volta e em nenhuma parte havia decoração para mais uma copa do mundo que havia chegado; nem a alegria falsa de outrora conseguia animar um país desalentado com turbulência política e recessão econômica. Certamente algum comerciante resolveu enfeitar seu negócio e descobriu que as bandeirolas estavam mofadas, imprestáveis, ou não será nada disso, e ele apenas percebeu que seria um tremendo “mico” pendurar nossas cores com orgulho? Se já foi cunhada a expressão “complexo de vira-latas” para a descrença do povo em nosso “esquete”, qual será o complexo para esta indiferença?

Nosso vira-lata em questão não se fez de rogado, e parecia ser de fato o mais entusiasmado torcedor quando abocanhou as bandeirolas e saiu a estendê-las pela praça. A senhorinha se divertiu e fez festa, e parecia que sua indecisão ao se deparar com os enfeites se explicava e se resolvia pelo conselho de seu parceiro canino: ela pôs-se a freneticamente enfeitar sua carroça, e o espetáculo da dupla chamava atenção de transeuntes, sendo que a minha já era toda deles. Quando ela começou a repetir Brasil! Brasil! houve dois ou três que respondessem e por um instante parecia que todos se uniriam em mutirão para enfeitar a praça, a cidade, o país. Não foi assim, obviamente. Ela revirava a última das caixas quando, na avenida, passou um modelo de luxo, lento, a janela se abriu e uma garrafa plástica veio voando na direção geral das lixeiras e acertou a cabeça da catadora. Ela não reclamou, não xingou, só olhou em volta e pareceu envergonhada. Cheguei a pensar em abordá-la, e perguntar se estava envergonhada de si mesma por ter esperança ou envergonhada de um país que não se permite nem uma esperança de copa do mundo. Ela afagou o cão e saiu empurrando a carroça verde-amarela até o próximo monturo de lixo.

A Tarde e a Página

junho 8, 2018

Guerra! O Brasil nunca passou por uma guerra! Tudo ia ser diferente se soubéssemos o peso da dificuldade e da escassez, haveria coesão social. Era um tipo executivo que claramente, ao longo de toda sua vida, gritou pela mãe ou pela esposa quando se descobriu sem toalha no banheiro. Como não era intenção minha entrar em debates, a saída que se me ocorreu foi perfeita, e minha fala foi acompanhada de uma quase performance até o balcão do caixa. Uma vez eu fui ao médico, sabe, com uma coceira que não passava. Ele olhou, olhou e de repente me queimou com ferro quente. Eu gritei, e quase cubro de porrada o sujeito, que se apressou em explicar: queimadura é minha especialidade. Paguei pelo lanche, comprei cigarros e saí da padaria da esquina atravessando até a outra calçada, onde duas casas adiante havia um casarão, e este era de fato meu destino, ou o primeiro deles, num desses giros pelo centro que eu sempre gostei de fazer, quando não tinha outro compromisso, desses em que se resolve duas coisas ou mais numa tarde, o que é quase impossível na metrópole, eu digo, se o leitor me permite a digressão, e perdoa o clichê de pedir perdão por digredir, dizia que no casarão, azul, cheio de ornamentos ondulados discutíveis talvez mesmo em seus dias, funcionava um sebo. Podia-se ouvir música lá dentro, e bastava se aproximar da soleira para perceber as estantes, e até mesmo o odor nauseabundo de incenso que não só sempre me recebia como impregnava-se nos livros. Eu não tinha muito motivo para frequentar aquele sebo, de tantos que havia, pensava fumando do lado de fora; talvez fosse pelo lanche da minha padaria de eleição, e olha que as padarias da capital dariam um tratado, e eu as conheço tão bem quanto eu possa; os preços não eram ruins, considerando que o custo nostalgia andava inflacionando o mercado; mas era a organização criteriosa e a disposição visual clara que facilitavam meu passatempo, bem, um dos meus passatempos prediletos, que é correr os olhos pelas lombadas até que um nome ou um título chame atenção. Naquele dia eu fui escolhido por um Hamlet, em estado deplorável, mas numa edição fartamente anotada que não é fácil de achar; já havia lido e relido e traduzido a peça quando mais jovem, mas a meia-idade tem disso, reler o que foi prazeroso, procurar a primeira namoradinha de novo, o custo nostalgia, sabe. Abri, folheei, cheirei, sim, para minha sorte devia ter chegado há pouco e não fedia a incenso, e notei rápido que havia notas, digo, não notas, anotações de um leitor anterior, que no caso parecia ser uma leitora, pois a letra era arredondada e numa cor que fora roxo aparentemente antes de esmaecer. Taí outra coisa bacana no vício de livro usado, às vezes era possível traçar verdadeiros perfis psicológicos dos leitores só pelos rabiscos, e a imaginação entra para preencher as lacunas; eu faria isso certamente, pensava, enquanto trocava banalidades com a coroa riponga e afagava o gato, que aliás era outra péssima companhia para livros e discos; e pensa o leitor que viria antes à mente uma bibliotecária sexagenária com fundo-de-garrafa ou uma femme fatale em trajes sugestivos saboreando o príncipe da Dinamarca? Ao pagar, comentei mais uma vez do incenso, timidamente. Pois é, sempre que eu ponho incenso alguém reclama… Sabe, uma vez eu fui ao médico, fiz assim com o polegar, disse, doutor dói quando eu faço isso, e ele, então não faça. Minha escapada voltou a ser uma performance. Voltei à padaria, só para um café, mas acabei pedindo um doce, e fiquei brincando com o livro de papel alaranjado de tão velho, procurando de fato pelas anotações pardo-roxas da leitora; foi fácil perceber um padrão, as anotações nos primeiros atos basicamente ajudavam a entender a peça, nos atos finais já esboçavam comentários pertinentes. Uma pesquisa sobre a presença de notas anteriores nos livros já mereceu um prêmio Ig-Nobel, sabe, aquele da ciência bizarra; pois eu adoro essa ciência bizarra, e me considero bem versado, ao menos; veja aqui, por exemplo, há uma nota na primeira cena que pressupõe a leitura do terceiro ato, e isso deve significar que ela leu a peça mais de uma vez, então eu pedi mais um café duplo e me pus a tentar determinar quais notas eram da primeira ou da segunda leituras, perceber variações na cor da tinta, e tudo mais, trabalho de FBI, chapa. Bom, chapa, né, quem diz chapa esses dias, mas enfim, saboreava o livro, e a leitora também o saboreava, em trajes sugestivos. Mas eu precisava consertar o relógio; era em uma daquelas galerias que recendem aos 60-70 e só não podem ser chamadas de decadentes porque estão cristalizadas há tanto tempo que isso pode se considerar uma nova estabilidade; perceberam que eu já não peço perdão pelas digressões? Todo escritor que faz isso faz por charme, pede perdão e depois sai digredindo como um desvairado, pensava eu, antecipando as linhas de alguma coisa que escreveria quando chegasse, enquanto percorria as ruas e via todas as pessoas apressadas, notava os modos dos mais jovens, sorria ao ver namorados, até chegar à galeria. Após esperar um cliente ser atendido, mostrei ao senhor de boina o relógio que saiu da mochila e não do pulso; a pulseira, aqui, viu, fica soltando, já pus até durepoxi e soltou. Mas que serviço porco isso aqui. Sabe, uma vez eu fui ao médico… Como? Nada, esquece. Percebi que estava performático demais e que não é fácil inventar piadas assim de bate pronto. Ele disse que ia tentar consertar e sugeriu que eu era sovina de não comprar um novo, eu nada de ter uma piada à mão para acertar na cara do velho petulante, nem precisava ser de médico. Eu disse que voltava e olhei em volta, havia uma barbearia, e pareceu boa ideia cortar o cabelo, mas não sem antes tomar um… café ou chope? e voltar para buscar o relógio. Chope, então; o vão central da galeria parecia todo feito de aço escovado, dando a impressão de fato de algo como um filme do expressionismo alemão em technicolor; o chope era aguado, mas isso não me deteve, e voltei às páginas marcadas com aquela letra tão graciosa, as quais já sabia quase de cor, e cheguei à minha favorita, que dizia apenas “Ofélia não está louca”, que mulher é essa! e em trajes sugestivos, ainda. Pus-me a ler aquela cena, então, já que o pobre Shakespeare tinha menos atenção que sua leitora até aqui; já no segundo chope me dei conta: havia uma página faltando.

Paguei e saí para fumar. Um carroceiro passava, um homem-sanduíche distribuía panfletos e uma ou outra pessoa parava para ver as mercadorias dos ambulantes; era uma via de pedestres. Com livro numa mão e cigarro noutra, atrapalhava-me para cuidadosamente verificar a sequência das páginas, a ver se outra faltava; precisei de dois cigarros para ver que não, aquela era a única. Bem no meio da performance da Ofélia louca, ou não-louca, segundo a crítica-leitora, bem na cena em que ela faz o comentário; apesar do mau estado do livro, a encadernação parecia sólida; voltei à lacuna e vi então o que não sei como não percebera, no canto inferior um pequeno fragmento da página se agarrava à nave-mãe indicando que a página fora de fato arrancada. Voltei ao velhote, que disse que não havia como consertar, eu disse que jogasse logo fora e caminhei até a estação sem tirar aquela leitora da cabeça; eu sempre buscava os olhos das mulheres bonitas no metrô, era até mais um dos passatempos prediletos, e aquela mania de escritor de ficar interpretando se misturava ao flerte, aquela ali se interessou mas tem que esconder, tem namorado, aquela outra te mandou ao inferno, aquela parece chamar para um motel; não fosse eu tímido; de qualquer sorte, aquilo me distraiu um pouco. Sentei-me e folheava meu livro, uma passagem secreta para dois mundos, a Elsinore da peça e outro muito mais brumoso, o mundo da leitora; quem seria ela, antes de mais nada? Meus olhos quando subiam das páginas buscavam os de uma morena de cabelos curtos, que percebia e disfarçava; naturalmente, a moça foi se tornando a leitora misteriosa, mas olhando novamente a caligrafia, não parecia pertencer a alguém que usaria piercing no nariz; pertenceria a quem, então? Bem, dificilmente menos de 25 pela maturidade, dificilmente mais de 35 pelo vocabulário (havia até um emoticom); provavelmente é metódica, pelo capricho na escrita, mas não metódica a ponto de considerar escrever no livro inaceitável; mais para hipster do que para hippie, certamente, muito embora, pensando na livreira… não sei se hippie lê Shakespeare, lê? e hipster, lê?; quem sabe ela fosse gótica, repetisse pobre Yorick segurando uma caveira no cemitério? quem sabe ela fosse certinha como a Ofélia, com uma sexualidade reprimida? quem sabe ela se identificasse mesmo com Hamlet e estivesse sempre a divagar sobre a natureza humana? Todas essas divagações foram o bastante para que eu passasse batido na minha estação, mas a próxima não ficava tão distante do meu destino, uma copiadora em que precisava buscar um trabalho, de forma que caminhei mais um pouco, o que é sempre um prazer, prazer que maior seria se menos gente vivesse destituída pela rua, mas ainda um prazer. Eu desenvolvia minha investigação mental enquanto esperava ser atendido, mas foi bem rápido pagar, meter na mochila o espiral das provas de um volume de contos e sair; dei de cara com outra barbearia e percebi que me esquecera lá na galeria da resolução de cortar o cabelo, entrei. Afora tentar não ouvir as conversas dos outros, ou, ouvindo, não reagir a suas opiniões seja com piadas ou diatribes, foi possível maquinar mais um tanto de hipóteses, tanto esperando quanto tendo minhas têmporas tosquiadas e minha nuca raspada. Pois digamos que seja hipster ou gótica, balzaqueana, por que rasgaria a bendita da página? vamos imaginar primeiro o mais prosaico, que precisou anotar um telefone, ali, apressada, não tinha outro papel, relutantemente subtraiu uma folha alaranjada, talvez, ou quem sabe o irmão maconheiro precisava de uma seda, ou ela mesma, e se for mesmo hippie? mas calma, um maconheiro ia escolher uma página com menos tinta, não pode ser; não, não pode ser casual, ela faz um comentário daqueles sobre a Ofélia e depois arranca parte da mesma cena para anotar telefones, assim por acaso? não, deve ser que alguma passagem a interessou tanto que ela quis compartilhar com o namorado, namorada possivelmente, ficante, crush ou o que fosse. Foi meio atabalhoado pegar o livro com aquela capa de barbeiro, e o barbeiro mesmo era mal-humorado, ou tinha pressa de aumentar a féria do dia e não gostava de interrupções, mas lá fui eu tentar determinar qual era o trecho subtraído, conjurando a memória do tempo em que eu me debrucei sobre o texto de maneira quase que maníaca. Minha primeira suspeita se confirmou, e a passagem com a canção obscena estava na página faltante; agora veja só, ela aparentemente de fato tinha uma relação com Ofélia, e não apenas, mas com a sexualidade de Ofélia. Ela é feminista. Barbeiro e clientes pensaram que sou louco, tendo lá sua boa dose de razão, mas eu não me importei, estava construindo uma hipótese sólida aqui e só quem lê história de detetive entende o prazer da dedução. Minha próxima parada era o cemitério, outra hipótese devia ser testada, e até lá me encaminhei rapidamente, sentindo-me mais do que o Sherlock Holmes; se eu tivesse um ajudante eu diria certamente, elementar, meu caro Watson, muito embora eu mesmo nunca tenha encontrado essa frase num conto do Conan Doyle, pois bastou chegar e lançar um olhar em volta e determinar que não, ela não era gótica, pois a cena do cemitério tinha pouquíssimas anotações, e nenhuma delas cheirava a morbidez. Isso não a fazia automaticamente uma hipster, podia ser alguém que não caiba em rótulos, aliás ela precisa ser, como eu pensaria que ela se filiaria a uma identidade pré-fabricada? Mas ela era feminista, e isso significa que eu estava errado no metrô, e ela podia ter brinco no nariz e poderia até ser aquela mesma morena de cabelo curto; imagina só, quantos milhões nesta cidade, como seria curioso que eu topasse essa mulher. Deus, mas eu preciso achar essa mulher agora! E se acabar sendo a bibliotecária sexagenária com fundo-de-garrafa? Que besteira, se for você conversa a respeito da peça, seu sexista safado; e isso é, se encontrar, ora, como se encontra o antigo proprietário de um livro? se fosse automóvel ainda seria possível, mas livro? besteira. Tira tudo isso da cabeça, pensava eu pagando ao barbeiro, mas obviamente não foi possível; o trajeto até a estação, a certa desta vez, passava por um viaduto, e a vida se desenrolava para lá do meu solipsismo na rotina agitada das pessoas que, no mais das vezes nunca ficam obcecadas por um livro com anotações e páginas faltando; mas eu fico, e o que instigava agora era pensar se ela, seja em trajes sugestivos ou fundo-de-garrafa, ou ambos, que me importa, tinha um interesse acadêmico por literatura, afinal é raro alguém sequer ler Hamlet, não? e no original, ainda? ou se talvez dedicando-se ao feminismo interessou-se especificamente pela personagem? Será que uma estudante de Letras destruiria um livro assim? a menos que tenha mesmo precisado mesmo anotar um telefone? Em frente ao metrô olhei o relógio, era já fim de tarde, e as plataformas estariam feito formigueiro, mas em vez de tomar um táxi para casa ou fazer hora até que passasse o rush, decidi tomar o trem lotado na direção oposta à minha, ainda havia tempo. Espremido entre tantos corpos, e segurando a barra com força a cada frenagem da composição, minha cabeça ia mastigando o mistério; decidi esboçá-la o melhor que pudesse antes de seguir adiante, aquele momento em que o detetive pausa esperando a epifania que nunca falha; decidi que ela tinha 29 anos, a aparência da moça do metrô; seu engajamento não era acadêmico, ou ela nunca arrancaria a página, ela devia ser uma cientista social engajada, interessada apenas naquela personagem, pensando bem, havia mais duas anotações sobre Ofélia e todas as outras eram sobre a trama, não sobre outros personagens; deve ser isso, mas e se de repente não passou de um acidente? não importa, está esboçada a contento; desta vez eu não perdi a estação, após vencer as escadas rolantes, acendi um cigarro e vi que caía uma chuvinha fina numa cena crepuscular.

Eu sentia fome, pois só lanchei em vez de almoçar, e onde é que eu ia comer novamente, senão na padaria de eleição? o sebo só fechava em meia hora, e quase que queria prolongar o suspense e pensar a respeito. Feito o pedido eu escolhi uma mesa, embora fosse meu costume o balcão, para evitar mesmo que alguém puxasse assunto como mais cedo. Por que rasgaria a página a… não tinha nome; devo dar-lhe um nome? Não, é muito arbitrário, vai ser como aquela brincadeira, você tem cara de, cara de nada, fica sem nome. A primeira coisa que eu pensei foi namorado; namorada? é bem possível; mas ele ou ela iam ler inglês, e aquele inglês? Difícil; e se ela tivesse guardado uma página que tinha qualquer outra significância, seja sentimental ou mesmo um maldito telefone, e então vendido o livro que não lhe interessava mais? Mas ela faria uma desonestidade dessas? não, não pode. E ela mesma, já teria comprado o livro usado? Por que no original? Ah, óbvio, a canção obscena só é obscena no original, é impossível traduzir os jogos de palavra. Então o interesse devia ser literário; e por que um acadêmico não pode rasgar um livro? ou qualquer um? Mas, com aquela caligrafia isso não combinava, aquela era a escrita de uma pessoa certinha, mas cheia de um tesão latente que, bem, lá vou eu. Olhei o relógio ao terminar de comer e precisei enfrentar fila no caixa. Imaginemos que ela precisasse memorizar esse trecho, só pode ser isso, então, ela rasgou e pôs na carteira, para decorar, quem sabe seja de teatro, mas em inglês? Eu mesmo começava a me cansar daquilo e me sentir estúpido, quando, já saindo na chuva que aumentara, me veio o baque e eu estanquei no meio da rua; um carro buzinou, como em filme americano e tudo, e eu terminei de atravessar me amaldiçoando. O livro deve ter uns trinta anos e certamente teve diversos proprietários, a página pode ter sido arrancada por outra pessoa que não a anotadora dos meus sonhos, seu interesse por Ofélia mera coincidência, assim como mesmo a anotadora poderia arrancar a página por acidente, justamente por trabalhar muito naquela passagem, ou ela poderia de fato ter um irmão maconheiro, ser maconheira, não me importa o que! Mas eu já estava na soleira do casarão mais uma vez e entrei. O marido riponga da riponga de mais cedo estava no posto, e eu me vi obrigado a iniciar uma conversa miúda, afinal não podia simplesmente abordá-lo com uma conversa estapafúrdia. Mas eu precisava encarar a realidade e ir direto ao assunto; tirei o livro da mochila e perguntei sem rodeio. Eu comprei este livro aqui, preciso saber de quem você comprou. Mas é impossível saber! Espera, esse em inglês acho que veio há pouco tempo (eu disse!), um lote grande. Sim? Veio de um sebo que fechou. Eu apenas agradeci e voltei à chuva, à estação e a casa, sabendo que se eu era o idiota que fantasiava tudo isso sobre uma anotadora em trajes sugestivos, ao menos eu não era o idiota que ia perguntar pelos donos do sebo que fechou para prosseguir com essa insanidade.

 

 

O Indignado

junho 6, 2018

Pouca vergonha! Onde já se viu igual? Por isso o país não vai adiante.

No início ninguém ligava importância a mais um indignado em mais uma porta de repartição pública, tinham suas vidas a cuidar. Mas ele prosseguiu.

Reparação! Isto exige reparação! Pois sim? Se não, onde estamos? Numa tirania? Tirania! E nós cidadãos, vamos ficar de braços cruzados para sempre? Cabe a nós! A nós!

E já partia para uma espécie de convocação cívica, que podia a partir dali resultar quem sabe em legislação ou linchamento, ou nada, que é o que parecia fadado a acontecer.

O arcabouço legal de uma nação não vale nada? Todo o nobre passado das instituições não valem nada? Todos os jurisconsultos, laboraram em vão, se em nossos dias a injustiça possa assim grassar sem contestação? Isso só pode significar que isto é parte de algo maior, de uma degenerescência institucional que está aí, patente, exposta aos olhos de quem quiser ver!

Com o tempo, no entanto, o primeiro curioso, não tendo depreendido ainda daquilo que ouviu em suas tantas passadas qual era afinal o motivo de tanta indignação, parou para escutá-lo. Como é da natureza humana, a curiosidade é gregária, e da moça que pensou que o primeiro curioso devia ter boas razões para se deter até a aglomeração formada foi muito rápido.

Pois se é fácil perceber! Quem não vê como está podre o aparato estatal? Que financiamos uma máquina perdulária e ineficiente? Que o justo é punido e o poderoso é poupado? Que decadência! Vocês acham que é possível seguir vivendo normalmente, ignorando tudo isso? Vocês conseguem seguir vivendo normalmente?

A maior parte da assistência tendo já esquecido que pararam esperando ouvir sobre alguma altercação dele com a burocracia, e julgando suas frases razoavelmente coerentes e convincentes, deu-se mais uma vez que do primeiro “não” tímido até a ovação unânime foi muito rápido. E isso logo o entusiasmou.

É preciso mobilização! Precisamos nos unir! Tomar o Estado de volta, colocá-lo nos eixos, para que possa cumprir o papel que lhe foi destinado, de nação grande, de exemplo pro mundo! De pujança! De prosperidade! De justiça acima de tudo! E isso depende de nós! Hoje! Agora! Quanto tempo vamos fingir que não há nada acontecendo?

De alguma parte surgiram de repente cavaletes e um palco foi improvisado. Um policial apareceu ameaçando dispersar a pequena multidão, e formou-se uma comissão de seguidores, pois já era esse o termo apropriado, para negociar com o maldito aparato estatal, ou antes proteger seu líder por algum tempo. Quando, de cima de suas trêmulas pranchas, o indignado percebeu que havia um agente da lei ali para censurá-lo, isso foi para ele gasolina para seu motor verbal.

Pois vejam como não demorou a repressão ao nosso movimento! Eis mais uma comprovação do que eu digo! Não há liberdade de expressão! Querem nos convencer que vai tudo bem, então por que não se pode expor ideias, discutir projetos em público, sem ser ameaçado de violência? Está claro que não vai tudo bem!

Chegando o policial ao palco e sinalizando que descesse, ele pareceu dividido por um instante, e ensejou descer, mas a turba reagiu, reergueu-o ao púlpito e começou a empurrar o guarda para longe. Obviamente a cena ficava cada vez mais curiosa e atraía cada vez mais curiosos. Suando em bicas, o indignado desperdiçou a última chance de escutar seu medo, e cedeu ao desvario do poder repentino. Prosseguiu com a aclamação geral servindo-lhe de pontuação.

É a revolução! É a revolução! É a vez do povo! A mãe que não tem como alimentar a criança, é sua vez! O pai de família que não tem um teto, é sua vez! O inocente que vive com medo do criminoso, é a sua vez! O esforçado que é preterido pelo favorito, é a sua vez! A donzela que é presa do lascivo, é a sua vez!

Já se via a aproximação de três viaturas das forças da tirania, e a multidão se dividia entre os que preferiram sair antes de fechar o tempo, uns poucos, aqueles que se preparavam para partir pra quebradeira, afinal era uma revolução, outros poucos, e uma maioria que faria aquilo que o mestre determinasse. Já ele se debatia entre a sede de glória e um súbito desarranjo intestinal, mas aparentemente optou por seguir indignando-se até ver o que acontecia, preso de um furor verborrágico que nem mesmo ele podia mais controlar.

É hora de construir outro mundo! Um mundo melhor! Um mundo de paz! Um mundo em que o medíocre não seja premiado pela mediocridade! Um mundo em que o bom não vire chacota para o mau! Um mundo em que rico não massacre o pobre! Um mundo em que não haja pobreza! Um mundo em que os pais tenham tempo para as crianças! Um mundo em que as escolas não sejam prisões, e prisões nem existam!

Aqui alguém gritou comunista! e aos poucos, de um pequeno burburinho entre o séquito do indignado a sua divisão entre fiéis e dissidentes foi também muito rápido. Vendo a tropa de choque desembarcar e seu público brigando entre si, o orador se desesperava, mas não se calava, e optou por pautas menos divisivas.

Um mundo onde não haja pedágios! Um mundo em que não se adultere a gasolina! Um mundo em que não diminuam o tamanho do chocolate! Um mundo em que o final da fita adesiva nunca desapareça! Um mundo em que o fogão autolimpante seja mesmo autolimpante! Um mundo em que a internet não fique caindo! Um mundo em que mosquitos não transmitam doença!

Com a entrada dos cassetetes em cena, cada uma das facções se dividiu novamente, entre se solidarizar com o outro grupo e enfrentar o choque ou ajudar o choque a combater os desafetos. Já havia duas equipes de televisão estacionadas, transmitindo nacionalmente o embrião putativo da revolução. Ao indignado nem ocorria que já ninguém o ouvia, seja pela falta de amplificação, seja pela pancadaria generalizada.

Um mundo em que a manteiga não fica nem dura nem rançosa, em que a resistência nunca queime no meio do banho, em que os chinelos não se arrebentem, em que a roupa não fique cheia de bolinha na máquina, em que molho de tomate não seja atraído por roupa branca ou os dedões pelas quinas, em que se almoce três vezes com duas sestas nos intervalos, em que se receba salário por estar vivo e agradecimento por ser um sujeito bacana, em que nunca chova na hora do seu compromisso, em que se fique doente só em dia de trabalho…

A polícia chegava ao tablado do heroico indignado, e parecia disposta a levá-lo para algum tipo de corte marcial ou sessão de tortura, talvez os dois. Gás lacrimogênio havia sido usado, e aqueles que não se dispersaram resolveram as diferenças prévias para arremeter contra a polícia, num suspiro de furor cívico contra o Estado tirano.

… um mundo, enfim, onde não se exija cópia autenticada!

De alguma forma, todos os acólitos do revolucionário ouviram a última frase, e estancaram. A tropa de choque aparentemente achou curioso, e estancou também, estabelecendo uma súbita e inusitada tranquilidade.

Se eu tenho o original comigo, pra que cobrar a autenticação, me diz!

 

As Imbricações Ontológicas Entre o Cu e a Cueca: de Platão a Baudrilliard

junho 4, 2018

Platão nunca usou uma cueca, no entanto, possuía como todo homem, e provavelmente mulher, embora no período elas importassem à filosofia tanto quanto as cuecas, que ainda não existiam… possuía, como todo bípede sem penas, como dizia seu colega, e ao contrário daqueles de fato com penas, que têm antes cloaca, mas Platão… estava contemplado, em consonância a anatomia costumeira dos mamíferos, com o esfíncter final do tubo digestivo. Certamente as cuecas já existiam no plano das ideias, do qual o nosso mundo é um simulacro, de modo contrário nunca poderiam vir a existir, a menos que haja inventores ideais no plano das ideias, e a revolução industrial já estava nos planos da máquina inamovível celeste, aliás, se há uma máquina inamovível, a revolução industrial deve ter acontecido ainda antes, em algum plano ainda mais essencial da realidade, quando não havia ainda nem cuecas nem tampouco… você sabe, tubos digestivos.

Já o francês Jean Baudrilliard provavelmente usa cuecas, ou ao menos se pode dizer que elas existem, são vendidas em largas escalas e é um hábito generalizado usá-las, aparentemente mesmo na França, onde reportam hábitos de higiene diferenciados, seja lá isso verdade ou não, afinal a ontologia de higiene certamente se provaria mais problemática do que a das cuecas ou dos esfíncteres, se não pode ser igual em dois lugares ou dois tempos diferentes, e ao fim e ao cabo não nos interessa no presente arrazoado. De qualquer sorte, Jean escreve em seu Simulacros e Simulações, que ficou famoso aparecendo no filme Matrix, como um livro falso onde se guardavam drogas digitais, muito embora o artigo seja curto, de modo que o esconderijo não enganaria alguém que de fato tivesse lido o trabalho, o que também nada interessa a este arrazoado, mas diz ele que os signos se recombinam de modo não a esconder a realidade, mas que não há realidade, ora, se não há realidade, não pode haver nem cuecas nem fiofós, por assim dizer, o que é que é difícil de aceitar no entanto, mas a mais recente Física também diz que a realidade manifesta é uma percepção do nosso aparto biológico de um processo quântico que escapa aos sentidos, mas isso tampouco nos interessa, o que precisa ser dito é que, por outro lado, as roupas se combinam para esconder não a cueca, mas que não há cueca, o que então nos traz dúvidas sobre a hipótese inicial.

Podemos resumir a questão assim, então: havia cuecas, possivelmente, no plano ideal, mas não como manifestação, nos dias de Platão, e existia ao menos como construto social durante a existência de Baudrilliard, embora não tenha sido determinar seu uso delas. Quanto à anatomia humana, há que se reconhecer que, no contexto da evolução genética, o conceito de esfíncteres terminais do tubo digestivo tem uma longa história pregressa, e fica como dever de casa epistemológico determinar se o que existia antes do homem pode ser chamado por algum nome dado após o advento da linguagem, mas de qualquer forma, é seguro explicitar a questão provisoriamente da seguinte forma: os cus já existiam no plano das ideias, depois na vida inferior, cordados e dai em diante até o primeiro cu de homo sapiens propriamente dito, ou alternativamente, como toda a realidade, os cus são percepções ilusórias explicáveis de alguma maneira estranha por física quântica e filosofia budista.

Cronicabilidade

junho 4, 2018

Rapaz, sabia que te encontrava aqui.

Sempre, como sempre. Um copinho, aqui!

Ah, obrigado.

Tá vindo do jornal? Aos cronistas!

Putz, nem fala nisso.

Como assim, meu velho, quer confete? Quer que eu repita que você está entre os grandes? Que leva adiante a tradição? Que a cidade te lê? O país te lê?

Eu não consigo mais escrever crônica.

Eu leio toda semana, continuam ótimas. Grilo seu essa crise.

Não sou eu, eu não estou em crise. É o mundo.

Como assim?

O mundo ficou incronicável.

Que besteira, toda hora acontecendo coisa, coisas enormes, tudo motivo de crônica.

Aí é que tá, parceiro. Tudo é enorme. Tudo é urgente. O excepcional se tornou banal, e o banal não serve pra mais nada.

Como é isso?

Você vai escrever um texto sobre uma criança brincando no parque hoje? Alguém vai olhar através do texto e dizer que você captou o espírito do tempo?

O espirito do tempo virou um bicho papão.

Isso, um ectoplasma febril que flui pra todo lado e nunca que se materializa numa cena corriqueira.

Você não escreveu aquela sobre o jogador de pokemon caindo no buraco? Aquela foi boa.

Mas não é o espírito do tempo, é um comentário. Hoje somos meros comentaristas, e nivelados com um batalhão de palpiteiros de internet. Não me leve a mal, seu blog é muito bom… Eu nem posso dizer que me orgulho de trabalhar em jornalão, também…

Esquece isso, você atinge muito mais gente que os palpiteiros.

E menos que um youtuber de modesta fama.

Seus textos vão durar.

Mas não sou eu, não é meu ego. É a crônica. A crônica não existe mais.

Bobagem, você não está sendo purista? Os gêneros se transformam.

Não é a forma, amigo, não é nem o conteúdo. Não sei se consigo explicar. Eu vou contar como aconteceu.

Claro, sou todo ouvidos. Ainda vou escrever uma crônica sobre a sua morte da crônica, posso?

Fique à vontade, mas sem meu nome.

Óbvio. O Cronista Incronicável. Garçom, traz mais uma destas. E tremoços.

Você é o único jovem que come tremoços.

Tremoço é resistência. É como crônica. Enquanto houver tremoços, haverá crônica. E obrigado pelo jovem.

Pois então, eu não sei bem como começou, eu ganhei notoriedade pintando cenas urbanas, eu até comentava política de forma bem humorada, mas não era minha praia a polêmica.

Isso é bem verdade.

De repente você se vê no turbilhão, e não há como não… como eu disse, virar comentarista.

Mas em textos de qualidade literária, não se esqueça.

Sei que eu passei a receber mensagens de ódio de todos os lados por ficar aquém ou além em tal opinião sobre tal figura.

É, hoje tá assim. Mas recebia elogios, também, cantadas, aposto.

Eu estou bem com minha esposa, obrigado. Mas sei que voltei a pintar minhas cenas por quatro semanas seguidas. Nem eu acreditava em mim mesmo: não eram textos ruins, mas pareciam uma fuga, uma covardia. Acima de tudo, eles deixavam de captar, encapsular em poucos parágrafos algo inefável, indizível. Eu não me reconhecia. Mas era eu, o mesmo estilo, os mesmos temas.

Eram ótimas, como sempre.

As mensagens de ódio dobraram, porque ali não havia nada a que se reagir com ódio.

Então a crônica morreu pelo ódio? As abordagens são passionais e perde-se qualquer distanciamento?

Acho que é um pouco, também. A intensidade ajuda o romance, mas atrapalha a crônica. O cronista vai sempre ser um flanêur mais ou menos blasé. Hoje também tudo merece interpretação, dissecação; ninguém pode só sentir uma porcaria de um texto? Sentir o que não está lá?

Bem, e depois você voltou ao comentário social, deu pra perceber. Como foi?

Fui tragado. Após os comentários negativos, fui caindo na irrelevância.

Que absurdo.

O jornal não liga pras minhas opiniões, desde que gerem os “cliques”, e estava claro que cenas urbanas não iam mais ajudar.

Mas o jogador de pokemon… não foi uma dessas? Foi um sucesso.

É só um episódio. Uma crônica precisa fazer sentido lida daqui a cem anos.

Você está muito exigente consigo mesmo. É o espírito do tempo ali, se tiver que ficar um texto de nossos dias, deveria ser aquele.

Não, deixe disso. Eu abri seu blogue ontem.

Que legal.

Acho que você tem razão, os gêneros se transformam.

Não disse? Só os tremoços que nunca mudam. Aos tremoços!

Aos cronistas!

 

 

 

 

 

Contato

dezembro 16, 2017

afonso.leonardo@gmail.com