Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Crônica

novembro 24, 2020

Quando eu fui aos Estados Unidos ainda adolescente, um sujeito me abordou no ponto de ônibus perguntando se eu fumava crônica. Erva, ele explicou. Eu estava traumatizado de ter sido enganado dias antes comprando na rua, então recusei, mas meu palpite é que era à vera, apenas outra estratégia de marketing do que estamos acostumados. Se bem que em Lisboa o sujeito que ofereceu era golpista, e a namorada insistiu em que eu levasse a sério o cara e perdesse dinheiro. Bem, o que eu sei é que a crônica tem se revelado mesmo crônica, tanto que eu quis até escrever uma crônica a respeito.

Hoje eu tenho um esquema bom, mas já passei muito aperto, sofri sem, fui em todo tipo de biqueira, comprei de criança, comprei – e fumei – maconha podre. Mas já tive uma experiência positiva de plantar e colher, é poderoso. Eu conheço gente que parou de fumar, mas pra mim ela é crônica, ou sou eu que faço questão validar o epíteto. Eu acredito na parada, eu até me envolvi em ativismo, mas ativismo com maconheiro é foda. País conservador da porra. E a maior vítima da proibição não sou eu, é o negro periférico nessa guerra estúpida. Eu tenho um contato que traz em casa, já disse. Não sei se estou bem certo em chamar isto de crônica, a crônica, eu digo, mas a crônica certamente se provou crônica.

Hilário 3

novembro 9, 2020

Dalton acordou e o céu na janela estava acinzentado. Será de manhã cedo ou de tardezinha? Só então se lembrou da surra, e da suspensão, e o relógio de pulso dizia que era noite. Lavou o rosto. Saiu do quarto e foi de imediato abraçado pela irmã. Como cê tá? Não, tá tudo bem. Eu conversei com eles, eles não acreditam, mas eu acredito em você. Eu conheço a Gilmara, e ela… Não fala esse nome. Leite, eu preciso de leite. E a irmã providenciou, e começou a preparar uma tapioca, já que ele nem tinha almoçado, enquanto ele foi até o telefone, na sala. Discou. Eu queria falar com o Hilário. O pai chegou e passou por ele, sem cumprimentar. Fala Hilário, aquela hora eu não conseguia… Cara, você não fez nada. Eu bebi pinga, Hilário. Minha cabeça tá doendo. Escuta, Dalton, vai ter um show de Iron no sábado. No sábado eu vou no Cuba Libre. Marrapaz, puta coisa de boy Cuba Libre. Vai se foder, Hilário, tchau… (Olha a boca, menino!) Espera, olha, o Cuba é à tarde, não é? Vamos no show à noite, vai ser lá no Pedrinhas, na Sinuca do Novesfora. É o The Trooper, esses caras mandam bem pra porra. Fala com sua mãe. Essa é a pior hora pra falar. Ou nem fala nada, meu primo tá de carro, ele te deixa em casa, no fim. Vou pensar, minha irmã está chamando. Comeu a tapioca e conversou um pouco, sem ânimo, tentou ver tevê mas estava morto, voltou a dormir e só acordou na manhã bem cedo.

Hilário chegou na escola com o motorista do órgão público onde seu pai trabalhava, e comprou chicletes na venda antes de entrar. Arrastou-se pelas aulas até o intervalo, quando quem o arrastou foi Bete. Que foi? Vem comigo. A Norma tá na sala da Gilmara, vamos lá conversar sobre a expulsão do Dalton, você é testemunha. Bete, todo mundo sabe que eu sou amigo do Dalton. Então chama mais alguém. Ei, Priscila! Sim, vem cá. E o amor platônico do pobre injustiçado foi arrolado como testemunha, não teve muita escolha. Por que Dalton insistia em cruzar sua vida? Bete, encabeçando o grupo e a demanda, bateu na porta, voltou a bater, e então ela se abriu, uma fresta, mostrando o rosto furibundo da diretora, uma falsa loira de meia idade. Gilmara, a gente veio conversar. Hilário tinha certeza que ia sofrer alguma retaliação. Agora eu estou ocupada, e é muita ousadia… Justamente porque a Norma está aí dentro, é sobre ela… e sobre você (já partia pra intimidação). Você, não, senhora. Entra, eu te dou cinco minutos, não, só ela. Mas! Bete entrou, apartou as pernas e trançou os dedos na altura da virilha. Gilmara, o Dalton não fez nada, foi muito injusto. Você é irmã dele, claro que vai dizer isso. Norma, você viu o Dalton fazendo alguma coisa? Eu não me lembro. Pois eu trouxe testemunhas. Olha, mocinha, a bagunça da oitava B já foi longe demais, teve um que desmaiou outro dia. Eu sou responsável por vocês, será que você não entende? Tudo que eu faço é para manter a ordem, e preservar vocês mesmos, garantir a educação… A senhora não tem prova contra ele. Seu irmão é da turma do fundão. Eu trouxe testemunhas. Tá bom, deixa entrar. Mais dois minutos. Cada um deles garantiu o bom comportamento de Dalton, e a diretora ia ficando sem graça, até que ela explodiu, saltou da cadeira e os enxotou, e a Norma também, para fora do escritório. A senhora vai ligar pros pais dele, pros meus. Tá bom, eu faço isso, tenham um bom dia. Enquanto a comitiva saía vitoriosa, chegava o Lobi, que foi lacônico: tão jogando porradabol de novo. Gilmara bufou, e hesitou sobre o que fazer, havia começado uma guerra em que não podia recuar, mas acabara de recuar. Alemão, quando avistaram o Lobi, foi o primeiro correr para a fila da cantina e despistar, os demais fingiram disputar uma partida normal de futebol bem o bastante para que o encarregado ficasse com cara de tacho quando voltou. Bete achou o namorado e contou a façanha. Marrapaz, tu é macha pá porra, hein? Macha não, eu sou é muito mulher, meu bem.

Quando Dalton acordou, seu pai ainda não tinha saído. Ganhou um dia de feriado, não é vagabundo? Eu vou estudar, pai. Tão logo ele se foi, foi a vez de a mãe deitar falação enquanto duraram as bolachas com leite, e então ele foi com gosto estudar para escapar da tortura. Ele já resolvia qualquer equação de segundo grau com facilidade na hora em que a mãe bateu à porta, acabrunhada. Dalton, a diretora me ligou e me pediu desculpas. Disse que você é inocente. Hein! Desculpa filho. Ele a abraçou forte, saiu correndo até o quintal e soltou um grito. A mãe passou café e eles tomaram. Dalton aproveitou o bom momento. Mãe, posso ir no Cuba Libre amanhã? Claro filho, eu vou falar com seu pai… E no show de Iron, também? É de noite. Ai, filho, onde é isso? No Pedrinhas. Eu adoro Iron, mãe. O Brucidiço, lembra do Brucidiço? É a banda dele, ou era. Tá bom, se teu pai deixar, mas juízo, viu?

Afinal, o fino

outubro 30, 2020

Como se o maçarico sarasse os sírios, e séries de sáurios arejassem vimes, competissem por tâmaras e apetecessem símios. Na verdade o dardo ardia doido, e o reverso do parceiro é a cerveja; a virgindade, o adendo didático dos dáctilos. Afinal, o fino e a faina fenecem sêmen, e o cimento mente se disser que a decência assenta os santos. Destarte a torta articula cúmulos, macula incólume a meleca, e o mameluco cola um leque no colo quando já a hortaliças lisérgicas cogitam tangerinas genéricas. Depois não digam que a goma amamenta a manta, que as possibilidades badalavam dilúvios lívidos. Avalie o vale, que leva larvas a valorizar o zarolho. A casquinha do cânhamo nunca escancara o caráter da tertúlia, mas o pipoco da apócope cospe espetos tópicos, e basta o bestunto tinto atentar aos tenentes que os contornos ternos do norte permeiam mímicas. Pelo menos isso.

Lenços

outubro 29, 2020

Tem uma caixa de lenços ali na estante de livros, e toda vez que eu volto para me sentar na escrivaninha dou de cara com ela. Eu nunca uso lenços de papel, foi meu pai que me deu quando eu ia pegar a estrada e estava um pouco resfriado, ou nem isso, só fungando mesmo, eu nunca fico doente. Pois eu sei que de alguma forma olhar para a caixa de lenços é reconfortante. Não é só porque me lembra que eu não estou doente, esse é um tique meu. Quando eu estou percorrendo uma calçada, por exemplo, eu me sinto bem a cada loja que vende coisas que eu nem pensaria em me interessar, é um certo esforço poupado. Ou quando eu vou ao dentista, eu me sinto tranquilo sabendo que eu nunca seria dentista.

E quando em me levanto da escrivaninha, eu vejo uma foto da praia em Santa Catarina, com umas bundinhas pra cima. Colada na estante de discos. Sempre me revigora depois do trabalho. Eu tinha o hábito de fotografar, perdi. Igual cinema. Eu costumava ver filmes de arte e estar antenado no circuito comercial, mas hoje! Pra piorar teve pandemia ainda. Será que estamos trocando todos os hábitos que tínhamos por internet? É terrível. E no entanto eu digo isso na internet. Eu devia voltar naquela praia, que praia era? Outra coisa que eu já tive no passado era pilha de morar em Florianópolis. Cheio de fascista por lá, melhor escolher uma praia no nordeste. Praia faz bem, é o oposto de internet. Se bem que você vai à praia hoje e tem três caixinhas tocando músicas ruins com qualidade de áudio ruim ao mesmo tempo. Eu estou me tornando um ludita. Fora a internet, né? Internet virou água.

Fim de outubro

outubro 27, 2020

Filho da puta, ele voa e eu não voo. Era um besouro. Um pequeno besouro. Passeando na minha pele. Tem um monte deles, como em todo fim de outubro. Será a época de procriar? Besouro faz sexo? Algum entomologista aí? Imaginem se fossem os humanos, saindo em enxames à rua para fazer sexo no fim de outubro. Em vez de no carnaval? Então não somos mais que besouros? Que não voam, ainda por cima? Caralho. Nem carapaça, frágeis a qualquer golpe da vida, inclusive os golpes de estado, especialmente os golpe de estado, quando a propaganda prevalece e quem perceba o que está acontecendo fica como um besouro virado sobre a carapaça. No fim de outubro. Eles vão pro lixo. Você varre o chão e eles vão pro lixo. Nasceram para acabar no lixo. E acabariam onde? A gente acaba onde, no cemitério? Comido por abutres em um deserto atacado pela fome? Celebrado em pompas de estado? Após dar um golpe de estado, talvez? Será que besouro é nutritivo? Porque em todo fim de outubro, já viu. Altas proteínas. Há quem diga que o consumo de insetos pode ser revolucionário. A pecuária tem muito impacto ambiental, você sabe. Com essa colheita do fim de outubro, dá pra alimentar a população pelo ano inteiro. Enquanto isso, logo que a população começa a comer mamíferos, vão lá e dão um golpe de estado. Que comam besouros. Ou tanajuras, dizem que no nordeste faziam muito sucesso, parentes meus comiam. Mas o que eu me pergunto, no fim, com golpe de estado ou não, é quais serão as receitas de besouro, gratinado ou à belle meunière, ou à parmeggiana ou aglio e olio, que publicarão na internet em pouco tempo. Todo fim de outubro.

Autorama 17

outubro 24, 2020

Vamos lá, taxa, residência, RG, CPF, foto. Em Brasília eu tive aquela brincadeira com a turma do David, oficina na escola de música, em casa com o Guilherme e o Trujas… e teve quando eu resolvi de novo ser músico, e decidi fazer um curso na Berklee, que acabou dando numa internação no estrangeiro. Em dois mil e nove eu desmarquei uma viagem pra França porque estava com sintomas, podia ter sido outra. A questão com a mania é que você acha que vai perceber que não está bem e procurar ajuda, mas quando ela entra você já não pode julgar nada direito. Só uma vez eu pedi ajuda e fui pra clínica numa boa, que foi dois mil e nove, depois que eu bati o carro no gramado da esplanada. Naquela época eu andava com o Basali e namorava a Lambisgoia, a gente tinha feito o protesto na embaixada de Israel, por mais uma incursão em Gaza; tinha uma dúzia de manifestante e uma dúzia de carro de polícia, a ideia era atirar sapatos (depois do Bush) melados de quetechupe na bandeira israelense. Quando eu fui no supermercado tinha uns caras monitorando, eu fui lá pedir fogo, foi divertido. Pois no dia que eu pirei eu passei no supermercado e comprei vinho, passei na embaixada e dei tchau pra câmera (achando que eu era importante) e achei uma grande ideia passear pela esplanada, até que o carro bateu numa caixa de esgoto. Depois espalhei umas caixas de CD no capô do carro, era uma mensagem para “eles”, seja lá quem “eles” sejam. E então eu fui voltando a pé, e capotei na casa do Zé lá em cima do Fausto. Nessa, eu mesmo pedi pra ser internado, foram só duas semanas, e tinha um cara que entrava com haxixe, ainda. Próximo. Até que enfim. Boa tarde. Eu vim renovar minha habilitação. Trouxe a documentação, senhor? Sim, está aqui: taxa, residência, RG, CPF, foto. Cinco e vinte. Senhor, este seu RG tem mais de dez anos. Claro, tem mais anos que você, filha, noventa e quatro. Eu só posso aceitar documento com menos de dez anos. Mas como assim, está válido. É a regra. Você não pode rejeitar me documento de identificação válido. Lamento, senhor. Vocês querem me forçar a tirar outro documento pra vender meus dados, que eu sei. Está sentando na mureta, Leonardo. Tá bom, filha. Traz o passaporte, você não tem passaporte? Tá bom, eu vou fazer isso. Puta que pariu, mas que raiva, dei viagem perdida, depois de trinta ônibus, informação errada, cagar na rua, e por nada. Eu podia tomar um café, ou eu podia tentar chegar no centro a tempo de comprar uns discos. Meio difícil. Agora tudo que eu quero é um cigarro. Ahh. Moça, sabe me dizer como eu vou pro centro? É aquele ali que tá saindo. Nossa, obrigado. Será que ele vai parar? Opa. Não deu nem pra fumar. Boa tarde. Vai pro centro? Vai pela Moreira Salles. Tá ótimo. Vazio, ainda. Lambisgoia. Eu conheci a Lambisgoia através do Basali, e o Basali em conheci na minha primeira crise em Brasília, em dois mil e seis. Ela praticamente me seduziu, mandava mensagem “come rain or come shine”, foi ela quem veio com uma florzinha quando a gente se beijou. Depois me largou do nada. Ou nem tanto, eu tomava um remédio que bombava meu libido. Uma vez eu quis contar uma cena de filme no meio do sexo, que tinha eu na cabeça. Acho que foi isso. Sobre protestar contra Israel eu nem ligo mais pra isso. Primeiro que você critica Israel e daí a prestar atenção a antissemitismo é um pulo, segundo que eu não faço nada pelos rohingya, pelos uigur, pelos curdos, pelos brasileiros que seja, então foda-se, a Palestina é uma causa de estimação da esquerda.

Hilário 2

outubro 21, 2020

Priscila acordou em sua cama macia, rodeada de bichos de pelúcia. Por que pensou logo em Dalton, ela não sabia dizer. Eu, hein. Escovou seus dentes e tomou farto café com a família toda antes de ser levada ao Pitágoras pela mãe. Era um prédio feio parecido com uma caixa de sapato, cheio de aparelhos de ar condicionado para fora, em dois pavimentos. Ela cumprimentou o zelador da escola, que chamavam de Lobi por ser hirsuto, trocou beijinhos com colegas e encontrou a turma do segundo ano, com quem ela gostava de andar para se sentir mais velha. No meio dela estava a Bete, com que ela antipatizava um pouco, e isso a fez lembrar que acordou pensando no Dalton. Beijos para cá e para lá, as moças combinavam de ir à matinée do Cuba Libre, e Priscila se apressou em se escalar para acompanhá-las. A sirene tocou e ela se encaminhou para a oitava B, no andar superior.

Também lá entraram Dalton e Hilário, que se sentavam no fundo, onde já havia algazarra àquela hora. Norma, a professora de português mal entrou e sentenciou: Eu me recuso a entrar nesta sala! E foi aí que a gritaria redobrou, Hilário saiu pulando pelo corredor, e ela de fato deu meia volta. Dali a pouco veio Marta, a coordenadora, que escolheu três da turma do fundão para levar a sua sala, dentre eles Dalton, talvez o mais comportado ali dentro. A professora retornou e a aula prosseguiu, Hilário encolhido e preocupado com o amigo injustiçado. Veio o intervalo e todos comentavam a tripla suspensão na oitava B, e o porradabol mal começou e foi interrompido pelo Lobi.

Dalton caminhou de cabeça quente até o ponto: não está certo, minha mãe vai me matar, e por aí vai. Perto do ponto onde descia, havia uma bodega, ele entrou e pediu cachaça, o comerciante nunca se importou com sua idade, serviu e serviu de novo, e Dalton tomou o primeiro porre da vida por puro despeito. A mãe percebeu, quando o pai chegou deu-lhe uma surra, no meio da qual Dalton revelou a suspensão para aproveitar o mesmo castigo, caindo no sono depois de chorar no chuveiro. Foi acordado por batidas na porta: telefone! Era o Hilário. Cara, como você tá? Uma merda, meu, zerado. Eu preciso dormir. Tá bom, tchau.

Quando Bete soube da suspensão do irmão, achou estranho, e várias testemunhas garantiram que ele estava quieto. Sabia que sua mãe nem ia ouvir, ela não ouvia nada nunca. Terminado o dia de aula, ela foi até o bar da esquina e comprou uma ficha telefônica, e depois até o orelhão alaranjado, onde ligou para o Felipe. Ele não morava longe, e ela caminhou quinze minutos até lá, passando pelas velhas caixas d’água. Tocou a campainha da casa cujo terreno ocupava meio quarteirão. Meu amor! Abraçaram-se forte, ela de pele escura e cabelo alisado, ele muito branco e de cachos loiros. Escapou de uma aula, hein? Joguei bola a manhã toda. Safado. Hoje foi o meu irmão suspenso. O Dalton?! Ele e mais dois. Por quê? Bagunça na aula da Norma. Só isso? A diretora tá tocando o terror. Que bruaca. O porradabol tá proibido, também. Filha da… E você, seu pai não disse nada? Meu pai nunca disse nada, nem quando eu repeti. Que inveja. Gata, meu pai vai liberar a charanga no sábado, vamos no Cuba? Vamos sim, amor. As meninas também vão. E o que o Dalton disse? Eu ainda não falei com ele. Posso usar o telefone? Claro, é ali na cozinha. Em instantes, ela voltou: ele está dormindo.

Hilário 1

outubro 18, 2020

Dalton! Dalton! Olha aqui. Bruce Dickinson sai do Iron Maiden? Puta que pariu, meu. Chegou agora na banca. Você leu? Nem li, vamos ler lá em casa, pode brocar lá. Sua mãe cozinha bem. Da escola até a casa de Hilário foram cinco quadras de prosa miúda entremeada à desolação pela notícia sobre a banda de heavy metal, que sempre voltava à baila. Dalton era um negro de pele mais clara, espadaúdo, Hilário não chegava a ser baixo e tinha cabelo de cuia, ambos na primeira adolescência e terminando o fundamental. No caminho compraram refrigerante, que saíram bebendo no saquinho, como era o costume local. A mãe de Hilário interrompeu suas tarefas para receber filho e amigo, que se fecharam no quarto. A reportagem, lida toda em voz alta por Hilário com um disco da banda ao fundo, não trazia muitas informações a mais, e em pouco a conversa mudou para o dia na escola. Maninho, e aquela bicuda que o Alemão acertou que derrubou o Flavinho? Foi pra enfermaria. Tão dizendo que vão proibir o porradabol. Vão nada. O Alemão foi suspenso. Sério? Você não tava sabendo? Meninos, almoço está na mesa. Era um frango com quiabo e polenta de primeira, feijãozinho bem temperado, e suco de cupuaçu, que ainda era uma fruta exclusiva da região, aliás. Ainda jogaram um pouco de videogame até que Dalton dissesse que precisava ir pra casa.

Tinha que tomar o ônibus, mas o ponto era descendo para o Rio, e o calor o fazia suar. Entrou na sorveteria para se refrescar e topou uma colega. Uma de quem ele gostava, na verdade, a Priscila. Oi Pri! Dalton, que coincidência! Tá quente, né? Nossa, nem fala, eu tô doida pra passar as férias com minha avó no Paraná. Eu não conheço o Paraná. Você nasceu aqui? A vida toda. Então tá acostumado. Mais ou menos, hoje tá demais. Então eu vou indo. Espera, você vai no Cuba Libre neste fim de semana? Não sei, por que você tá perguntando? Não, nada, só por perguntar. Então tá, até amanhã. Até. Merda. Dalton apressou o passo e quase engoliu o sorvete. Ao lado do ponto, uma mulher vendia tacacá; dizem que aquela sopa quente alivia o calor, ele nunca acreditou e nunca quis provar aquelas coisas gosmentas, mesmo nativo. Quando Tucumanzal-Areal passou ele subiu, entregou o passe e se sentou no fundo. Bom, mas eu tenho certeza que o Iron Maiden vai contratar um puta vocalista, e o Bruce vai fazer uma puta carreira solo, então pode ser uma coisa boa.

Desceu no seu bairro e percorreu uma viela de poças e construções precárias até a sua própria. Oi, meu filho, que que aconteceu? Eu almocei com o Hilário, mãe. Podia ter ligado, né, filho. Mãe, o Bruce Dickinson saiu do Iron Maiden. Oxe, quem diabo é Brucidiço? O filho se riu. E foi tudo bem na escola? Comigo, sim, o Alemão foi suspenso. Alemão, o Felipe, da sua irmã? Ele mesmo. Que que ele fez? Ele desmaiou o Flavinho no porradabol. E você tava jogando também. Oxe. Filho, filho, da próxima vez é você desmaiado, ou suspenso. Relaxa, mãe. Bete, bete! A filha saiu da área de serviço onde lavava o próprio uniforme e veio atender. Por que você não disse que seu namorado foi suspenso? Ah, mãe, foi uma injustiça. Você fica de olho nesse sujeito, eu já disse, com a idade dele, na oitava série ainda! Me deixa em paz, mãe. Dalton se refugiou em seu quarto e, depois de se deitar um pouco, resolveu seus exercícios de ciências.

Átila 6

outubro 7, 2020

Eu resolvi ir ao banheiro e escapar daquele constrangimento, e só a garrafa de vinho me acompanhou. Mas você não tem lanterna. Eu me viro. Me ocorreu fazer um baseado, então eu passei na barraca; estava acabando, mas o feriado também, então eu fiz um gordo. Mais gente estava indo embora, pensei em chamar todo mundo pra fazer isso, já nem dava pra saber se ia ter Gnomo. Eu vi um cara de colete passando e perguntei, ele disse que iam trazer um gerador de Lavras. Então eu achei uma rede e fiquei me balançando e fumando, comecei a ter umas ideias para um programa… devia estar em casa. Tirei um cochilo, acordei com a Fernanda me chamando, ela não disse o que era, e eu corri até a área do palco. O rio tinha recuado e deixado um charco, e sobre ele havia uma confusão enorme que mal dava pra entender, mas eu entendi que eram os punks contra os carecas. E uma hora eu vi meu primo, apanhando do Zed, e saí correndo, dei-lhe uma no coco: Ele te deu carona, otário. Puxei o Sávio e voltei com ele pra barraca. Caralho, Sávio… mas não tinha vontade de ralhar, trouxe água, limpei um pouco o rosto dele. E a gente foi conversando, esqueceu daquilo tudo, foi reatando a camaradagem, fumou a minha ponta, quando de repente lá vem a luz azul e vermelha invadindo tudo. Caralho, porra, a polícia. O carro deles foi até o palco, eles questionaram umas pessoas aleatórias e foram embora de novo. Cadê o bourbon? eu disse ao primo quando ele voltou do banho, era a última garrafa. Eu fiz um beque, era o penúltimo, e a gente ficou por ali contando piada, foi divertido. Então chegou o caminhão com o gerador, e em mais uns minutos tudo voltou a funcionar, chamaram a próxima banda às pressas. Era a vez de Rolling Stones, que não era meu prato favorito, mas eu queria muito curtir o final de um festival tão movimentado. Uma hora eu intimei o Sávio: cadê o bright? Como assim, você nunca cheirou, meu. Pois é, resolvi experimentar. Não faz isso não, porra. Eu venci, entramos na barraca e eu cheirei no fundo da panela, só um tirinho pequeno. Eu disse que não fez efeito, mas quando voltamos pro palco eu estava dançando, o que nunca faço. Aí a gente topou o Lelo com chapéu de mágico, ele estava bem mais careta que no outro dia, mas topou uma bola. Falta essa e mais duas, ele disse. Eu desejei sucesso e dei um abraço. Caralho, Sávio, vamos tomar o ácido. Porra, ácido, demorou. Vai bater na hora do Gnomo. Então eu tirei da carteira o papel laminado, e lá de dentro os dois quadradinhos ligados pelo picotado, cujas cores representavam parte do famoso desenho da bicicletinha. Eu mandei pra língua e ele também, dando risadinha feito adolescente. As meninas passaram um tempo com a gente e estava tudo tranquilo entre todo mundo, a música era boa, rock’n’roll! Notei que o Sávio já estava todo sujo de novo, e a gente deu risada. Lembra quando a gente dormia junto no quartão e ficava escutando fantasma? Porra, faz muito tempo. Eu bulia na Carminha… Não. De repente, começou a bater. Você também? Uooou. Eu olhei em volta e as lâmpadas faziam um rastro. Em pouco tempo, estava deslizando na lama com o primo. E anunciaram o Gnomo Azul, que abriu com Starship Trooper do Yes. Uhu! O Sávio não curtia prog, nem as meninas, então aquele era o meu momento. A iluminação do palco parecia viva, e meu corpo parecia queimar como se eu tivesse mergulhado num tonel de pimenta. O tecladista usava capa de Rick Wakeman, o guitarrista fantasia de Conan, e o Lelo roupa de mágico. Que doidera. Agora era Gentle Giant, que foda. Veio à mente o programa que eu queria criar, eu já estava escrevendo. Podia me deixar rico. O Sávio apareceu com cerveja; não quero você andando com careca, moleque. Não, pode esquecer. Rolava King Crimson, muita gente já reclamava, os roqueiros intolerantes, e os fãs de prog foram tirar satisfação, quase rolou outro quiproquó. Chega de confusão. Caralho, mermão, Giant Hogweed do Genesis, esse som é muito foda. Essa eu fiz questão de cantar. Era como se minha voz fosse líquida. Tá feliz, hein? era a Marília, eu só sorri. Eu vou atrás da Fernanda. Tá bom. Agora era o medley do Pink Floyd, eles sempre fechavam com ele. Eu já estava pensando no banho e no saco de dormir, botar o Átila na estrada e voltar pra minha casinha. Mas o ácido ia tirar o sono. Tentei ler, mas as letras se misturavam, então eu fui achar as meninas lá na fogueira que fizeram numa parte seca, e fiquei por lá. Estava cansado. Que voz bonita a da Marília. Na manhã foi só desmontar e guardar tudo, o café foi em Carrancas, e na estrada, depois do último beque, todo mundo dormiu muito, até o Sávio deu o volante do Átila pra Fernanda pra cochilar. Foi uma sensação ótima entrar em casa e cagar no meu banheiro. Dentro de um mês eu tinha conseguido uma patente da minha ideia, um emprego melhor, e estava namorando de novo. A Marília.

Átila 5

outubro 5, 2020

Quando eu acordei fazia sol, e todos os malucos disputavam o melhor lugar para se secar. Dava pra sentir o bode coletivo da noite mal dormida, algumas barracas foram alagadas. Muita gente levantou acampamento e foi embora. Eu bem que queria estar em casa depois de tanta dor de cabeça, mas não antes de ver o Lelo, eu já tinha visto Gnomo Azul antes, e eles faziam os clássicos do prog nota a nota, era impressionante. O céu ia limpando mais, mas no horizonte chovia pesado. O almoço foi miojo com atum de novo, que era o mais prático. As meninas estavam sorridentes, tinham lembrado de trazer capa de chuva, e coberto a barraca, e era como se não tivesse acontecido nada. O Sávio andava mais calado, disse que ia ficar um tempo ouvindo música no Átila. De repente ele volta de cabelo raspado. Puta que pariu, o Sávio sempre foi boa pessoa. Eu fui direto: primo, você virou skinhead? Só porque raspei a cabeça? Não, é que… bom, esquece. A primeira banda do sábado estava começando, era o último dia e a expectativa alta. O gramado da plateia era agora obviamente um atoleiro, mas tudo bem, rock’n’roll! Era uma banda autoral, de heavy metal, e não me interessava muito, mas fiquei por ali tomando cerveja com o Sávio sem saber o que dizer. De repente veio a Fernanda conversar com o Sávio dizendo que precisava ir à cidade, coisa de mulher, ele não gostou mas aceitou levá-la. Começou a fechar o tempo, escureceu cedo, e chovia no horizonte, mas em outra parte. Uma hora apareceu o Zed andando com mais um tanto de punk, ele ofereceu conhaque, por que não? Eu me lembrei que ainda tinha vinho e não devia estar bebendo cerveja quente, e fui até a barraca buscar. Encontrei a Marília, lendo com pouca luz. Vai estragar os olhos, minha vó dizia. Pois é, escureceu. Eu ia abrir um vinho, quer? Claro! Então eu acionei o saca-rolhas, e ela tinha duas canequinhas metálicas que viraram taças de cristal. Fomos até o palco mas ficamos longe da sujeira, tinha entrado uma banda de Legião, a Marília gostava, mas tinha marmanjo vaiando. Você faz o que? Eu trabalho numa editora. Olha, que bacana. Design gráfico. Você é programador, não é? Pois é, escravo. Eu super admiro o que você faz. Então um murmúrio se ouviu e todos viram de uma vez que o rio subia como uma maré, ameaçando o palco, houve correria e de repente som e iluminação, tudo deixou de funcionar. Marília deu um gritinho e se projetou para frente, eu não pensei e a envolvi, como se fosse seu protetor, como ela não me afastou eu procurei sua boca e aproveitei os lábios mais açucarados da história. Mas eu tava fazendo uma sacanagem com a Fernanda, mas era uma que valia a pena. A Fernanda não pode saber disso, nós dissemos em uníssono após o beijo, o que era afirmar o óbvio. Ela começou a se sentir culpada, queria voltar pra barraca, mas estava escuro, e eu a fui acalmando. A gente combinou que não se repetiria, e que ia andar separado, mas era tarde, a Fernanda apareceu com uma lanterninha, e chegou cobrando: você trouxe minhas canequinhas pra cá? Eu entendi que o problema era dividir as canequinhas comigo, mas agi com toda naturalidade. Merda. Essa viagem era pra relaxar. E o melhor até agora tinha sido o cogumelo do Lelo, até rimou, e os ácidos? Clima nenhum pra tomar ácido, vai voltar pro Rio.