A Violação de Lucrécia

The-Rape-of-Lucretia-by-Hans-von-Aachen-German-1600

(Hans von Aachen)

Dedicatória

AO MUI VENERÁVEL HENRY WRIOTHESLY

Conde de Southampton, e Barão de Tichfield.

O amor que a vossa senhoria dedico é sem fim; do qual este panfleto, sem início, não é mais que um quinhão supérfluo. O lastro que tenho de vossa disposição honrosa, não o valor de minhas linhas desgovernadas, torna-o certo de aceitação. O que fiz é vosso; o que estou por fazer é vosso; sendo parte daquilo que é meu, devotamente vosso. Fosse maior meu valor, meu dever maior se mostraria; entrementes, como é, a vossa senhoria está atado, a quem desejo longa vida, ainda mais longa pois plena de felicidade.

Aquele cujo dever é todo vosso,

WILLIAM SHAKESPEARE.

O Argumento

Lucius Tarquinius, por seu excessivo orgulho alcunhado Superbus, após ter causado o cruel assassínio de seu próprio sogro Servius Tullius, e, contrário a lei e costume romanos, sem demandar ou esperar o sufrágio do povo, tomado a si a posse do reino, saiu, acompanhado de seus filhos e outros nobres de Roma, a lançar o cerco a Ardea. Durante esse cerco, os homens mais graduados do exército se encontrando uma noite na tenda de Sextus Tarquinius, o filho do rei, em suas charlas após a ceia cada um enalteceu as virtudes de sua própria esposa: dentre os quais Colatino exaltou a incomparável castidade de sua esposa, Lucrécia. Nesse jocundo humor cavalgaram até Roma; e com o intento, pela aparição secreta e súbita, de pôr à prova aquilo que cada um antes havia afiançado, apenas Colatino encontra a sua esposa, embora fosse tarde da noite, fiando junto a suas criadas; as outras damas foram todas encontradas dançando e festejando, ou em passatempos diversos. Com isso os nobres concederam a Colatino a vitória, e a sua esposa a fama. Nesse momento, Sextus Tarquinius, que se consumia em chamas com a beleza de Lucrécia, mas abafava suas paixões naquele instante, partiu com os restantes de volta ao acampamento; de onde ele em breve se retirou em privado, e foi, de acordo com sua posição, regalmente recebido e alojado por Lucrécia em Collatium. Na mesma noite ele traiçoeiramente se esgueirou até seu quarto, desonrou-a violentamente, e de manhã cedo pôs-se a correr. Lucrécia, nesse dissabor lamentável, se apressa em enviar mensageiros, um a Roma atrás de seu pai, outro ao acampamento atrás de Colatino. Eles chegaram, um acompanhado de Junius Brutus, o outro de Publius Valerius; e encontrando Lucrécia trajada em hábito de luto, questionaram a causa de sua mágoa. Ela, antes obtendo deles um juramento de fazer-lhe vingança, revelou o autor, e toda sorte de pormenor, e logo então, de súbito, esfaqueou-se. Feito isso, em uno consenso todos fizeram o voto de desenraizar toda a família dos Tarquinos; e transportando o corpo a Roma, Brutus familiarizou o povo com executor e detalhes do feito vil, com uma amarga invectiva contra a tirania do rei. Com isso, tanto é movido o povo que em uno consenso e aclamação geral os Tarquinos foram todos exilados, e o governo do Estado alterado de reis para cônsules.

A Violação de Lucrécia

1

De Ardea sitiada, urgente foste,

Alado do falso desejo que consume,

Tarquínio lascivo, da romana hoste

Até Collatium, com um fogo sem lume

Que, oculto em alvas cinzas, crescer presume

E cingir pelas ancas, com a flama vasta,

Ao amor de Colatino, Lucrécia, a casta.

 

2

Por ventura tal “casta”, ó desventura, deu

Um gume franco ao apetite afiado;

Quando Colatino, sem siso, se rendeu

A alabar o sem par alvo e encarnado

Que regia naquele céu do seu agrado,

Onde mortais estrelas, como que celestes,

Com puro aspecto a ele serviam, prestes.

 

3

Pois ao ter com Tarquínio, na noite passada,

Expôs o tesouro de sua boa sorte;

Que riqueza infinda era a ele emprestada

Pelos céus, na posse de tão bela consorte;

Vê em sua fortuna um tão alto porte,

Que mesmo reis podiam esposar mais fama

Mas rei ou par algum a tão singular dama.

 

4

Ó júbilo que é tão pouco compartido!

E, tido, em breve decaído e desfeito

Como orvalho argênteo matinal derretido

Quando ao esplendor d’oiro do sol é sujeito!

Um termo que expira, morto ainda no leito:

‘Stão honra e beleza, nos braços de seu dono,

Debilmente guardadas dum mundo de dano.

 

5

Beleza em si de si mesma é persuasão

Aos olhos masculinos sem um orador;

Que apologia é necessária, então,

P’ra fazer brilhar o que é tão singular?

Ou por que é Colatino a divulgar

A rica joia que bem agia escondendo

De ouvidos gatunos, sua mesmo sendo?

 

6

Talvez seu jactar de Lucrécia soberana

Atiçou este soberbo real varão;

Pelos ouvidos o coração se profana:

Talvez inveja de coisa tão rica, então,

Que não se compara, desdenhoso aguilhão

Em sua ambição: homem baixo se gabar

Da sorte d’oiro que seu maior vê faltar.

 

7

Mas um mau pensamento instigou, premente,

Sua pressa tempestuosa, se não esse:

Honra, afazeres, amigos, e patente,

Negligencia, vai com ligeiro interesse

Aplacar a brasa que ao fígado aquece.

Ó falso fogo, envolto em frio pesar,

Broto audaz, sempre ceifado sem vicejar!

 

8

Quando a Collatium chegou este lorde rude,

Bem recebido foi pela romana dama,

Cuja face disputam Beleza e Virtude

Qual delas lhe é maior esteio da fama:

Beleza enrubesce se Virtude se afama;

Jacta-se do rubor Beleza, em censura

Virtude esparge-lhe argêntea alvura.

 

9

Mas Beleza tem o titulo desse alvor

Das pombas de Vênus e vai reivindicar;

Virtude pleiteia à Beleza seu rubor,

Que Virtude deu à era d’oiro a doirar

As argênteas faces, dele se armar;

Ensinando-as a assim a manter-se a salvo,

Se ataca o opróbrio, o rubro defende o alvo.

 

10

Tal heráldica à face Lucrécia exibia,

Lutando Beleza rubra e Virtude alva

Sobre a cor de cada uma a outra regia,

Mostrando o direito desde a era primeva:

Mas a ambição delas sempre se subleva;

A soberania em cada tão grande sendo,

Que no trono uma a outra vai sucedendo.

 

11

De lírios e rosas sua silente guerra,

Tarquínio viu no belo rosto disputado,

Suas puras tropas seu falso olho encerra;

Onde, para não ser por elas derribado,

O covarde cativo cede, derrotado,

A esses dois exércitos que o livrariam:

De tão vil inimigo não triunfariam.

 

12

E, pensa ele, a língua rasa do marido,

Pródiga avara que a ela tanto elogia,

Nesse mister faz da beleza um desmentido,

Que tanto excede a mostra da aptidão fria.

E os elogios que Colatino rendia,

Tarquínio encantado os vê como incertos,

Em silente pasmo de olhos sempre abertos.

 

13

Tal santo terrenal, a quem louva um demônio,

Pouco suspeita de seu falso adorador:

Mente sem mácula não vê mal nem em sonho;

Ave nunca enredada pousa sem temor.

Cândida, a prover víveres vai-se por,

E cortês acolhida à visitante alteza,

Cujo exterior não lhe expressava a baixeza.

 

14

Pois isso dissimula com alta patente,

A majestade o vil pecado a ocultar,

Que nada havia nele que à visão atente,

Exceto em demasia pasmo no olhar,

Que, tudo tendo, tudo não pode bastar,

Mas, pobre e rico, seu estoque se desfaz

E, pleno em fausto, anseia ainda por mais.

 

15

Mas ela com olho estranho nunca lidou,

Não lhe pôde interpretar um olhar feroz,

Nem sutis límpidos segredos decifrou

Nas margens desse livro, claras como sóis.

Não viu a isca oculta, nem temeu anzóis,

Nem duma visão malsã a moral deduz

Mais que seus olhos se abriam para a luz.

 

16

Ele a fama do marido a ela fabula,

Conquistada nos campos duma Itália fértil,

De elogios a Colatino cumula:

Glorificado foi, cavaleiro viril,

Com armas batidas, laureado se viu.

Seu júbilo com mão erguida é expresso

E, muda, assim louva ao céu pelo sucesso.

 

17

Bem longe das intenções de sua chegada,

Pretexta sua presença com um enredo.

Nuvem alguma ou tempestuosa rafada

Em seu limpo céu aparece, ainda é cedo,

Até negra Noite, mãe de Pavor e Medo,

Sobre tudo turva escuridão espalhar

E na prisão de sua gruta o Dia guardar.

 

18

É quando Tarquínio à cama é conduzido,

Fingindo fadiga e espírito pesado,

Após a ceia tendo muito debatido

Com composta Lucrécia, e a noite adentrado.

Viço já por plúmbeo sono disputado,

Todos então a seu repouso se encaminham

Menos ladrões e mentes aflitas, que velam.

 

19

Como um deles Tarquínio fica revolvendo

Os mil perigos do desejo à obtenção,

Mas sempre a obter seu desejo resolvendo,

Bem que parca esperança peça abstenção.

Ânsia pode passar por gratificação:

Se grande tesouro é a paga proposta,

Morte mesmo vendo, morte não é suposta.

 

20

Quem muito cobiça do ganho é tão cioso,

Daquilo que não tem, que a coisa possuída

Dissipa e aliena de seu próprio gozo;

E assim, mais buscando, menos tem na vida,

Ou, mais ganhando, proveito da desmedida

É só a congestão, e tais perdas sustém

Que vai à bancarrota por um só vintém.

 

21

A meta de tudo é a vida acalentar

Com honra, recursos e paz, em seu poente;

E nessa meta há tanto que se batalhar

Que um por todos, todos por um dá a gente:

Tal vida por honra na luta veemente,

Honra por recursos; e o preço que eles pedem

É morte de todos, todos juntos se perdem.

 

22

Tal que em tentar tal má empreita se evade

A coisa que somos pela suposição;

E esta torpe ambiciosa enfermidade,

Muito tendo, tormenta com a cessação

Daquilo que temos. Descuramos então

A coisa que temos, e só por mal pensar,

Tornamos algo nulo ao tentar aumentar.

 

23

Um tal lance o tolo Tarquínio vai fazer,

Empenhando a honra para obter a lascívia:

Por si próprio ele próprio deixar de ser.

Onde há verdade se nem em si se confia?

Como julgar justo ao estranho sonharia,

Se ele mesmo a si mesmo desfaz e entrega

À calúnia das línguas, su’alma à refrega?

 

24

Avança sobre as horas morta madrugada,

D’olho mortal, férreo sono é fechadura.

Nenhuma estrela auspiciosa alumiada;

Ruído de coruja e lobo, que agoura,

Serve à estação em que se dá a captura

Das pobres ovelhas. Pureza a repousar,

Velam ardor e morte a manchar e ceifar.

 

25

Salta agora do leito o lascivo senhor,

A manta por sobre o braço tendo jogado;

Disputado em fúria entre Desejo e Pavor;

Um adula doce, outro teme mau fado,

Mas bom Medo, por Lascívia enfeitiçado,

Tão tão comum é que ele fuja e não enfrente,

Enxotado por Desejo rude e demente.

 

26

Sua espada à pederneira de leve fere,

Tal que à fria pedra um brilho é arrancado,

À tocha besuntada fogo assim confere,

A ser estrela-guia d’olho obcecado,

E à flama assim se dirige, ponderado:

“Se à fria pedra inflamar tenho eu ensejo,

Assim a Lucrécia forçará meu desejo.”

 

27

Já pálido de medo ele premedita

Os perigos de sua odiosa empreitada,

Tal que no íntimo da mente ele reflita

Que mágoa advinda pode lhe ser somada,

Assim com escárnio é dele desprezada

A cota nua, lascívia de eterno alento,

E justo assim controla injusto pensamento:

 

28

“Bela tocha, cessa esta luz, não a empreste

A ofuscar quem luz emana muito mais.

Morra toda ideia impura, antes que empeste

Com sua sujidade a coisas divinais.

Dum puro incenso a puro templo oferta faz.

Que a boa natura humana abomine o ato

Que suja ao amor o níveo traje cordato.

 

29

“Ó opróbrio às armas e à cavalaria!

Ó desonra que ao nosso mausoléu cultivo!

Ó ímpio ato, que todo mal conteria!

Um marcial homem de caprichos cativo!

Vero valor de vero respeito é motivo.

Então minha falta é tão vil, e tão ignara,

Que seguirá viva gravada em minha cara.

 

30

“Sim, mesmo morto, a desonra frutifica

Como uma nódoa em meu áureo brasão;

Certa ignóbil marca na heráldica fica

A denotar-me autor dum disparate vão.

Minha posteridade, sob humilhação,

Maldirá meus ossos, e não verá pecado

Em desejar que não os houvera gerado.

 

31

“Que ganho eu, ganhando aquilo que intento?

Sonho, alento, uma fugaz alegria.

Vale bom minuto semana de tormento,

A eternidade não mais que ninharia?

Por uma uva às vinhas se destruiria?

Que mendigo, só para a coroa tocar,

Com o cetro se sentiria fustigar?

 

32

“Se Colatino sonha com o que estou a urdir,

Não acordará e, numa fúria exaltada,

Aqui virá a tal vilania impedir –

Tal cerco a sua núpcia, destarte circundada,

Labéu à juventude, idade ultrajada,

Tal morta virtude, tal mancha duradoura,

Cujo crime portará culpa imorredoura?

 

33

“Oh, que escusa criará minha invenção

Quando me acusares deste tão negro feito?

Língua calará, débeis juntas tremerão,

Olho escusará luz, sangrará falso peito.

Grande a culpa, maior é do medo o efeito,

E medo extremo, nem fugindo nem lutando,

Morre, tal covarde, em terror tiritando.

 

34

“Tivera-me Colatino filho ou pai morto,

Ou deitado emboscada contra minha vida,

Ou não fora ele amigo meu, este torto

Escusar-se-ia, sendo a esposa atingida

Como vingança ou paga na luta renhida;

Mas sendo meu parente, e amigo enfim,

Opróbrio e falta não têm escusa nem fim.

 

35

“Vergonhoso é; sim, se à tona o fato vem,

Odioso é; não é ódio adoração.

Pleitearei seu amor; mas ela é de outrem.

O pior é só recusa e repreensão;

Forte é meu ímpeto, vence a débil razão.

Quem teme sentenças ou frases repisadas

Será intimidado por cenas pintadas.”

 

36

Ei-lo, desgraçado, a manter discussão

De gélida consciência e ígnea vontade,

E aos bons penamentos dispensa então,

Urdindo o pior juízo à prioridade,

Que num só momento tira de atividade

Todo intento puro, e consegue de fato

Que o que é vil passe por virtuoso ato.

 

37

Diz ele, “Ela me tomou a mão, angélica,

Em meus ávidos olhos indícios buscou,

Temendo ouvir más notícias da frente bélica

Onde seu amado Colatino ficou.

Oh, como o medo a suas cores avivou!

Já rubra como rosas em lençóis lançadas,

Já alva como os lençóis, rosas retiradas.

 

38

“E sua mão, pela minha estando constrita

Fê-la tremer, com seu receio de parceira;

E entristecida, mais rápido se agita

Até que do bem estar dele ela se inteira;

Com o que sorriu ela tão doce e faceira,

Que a tivera Narciso ali mesmo avistado,

E o amor próprio nunca o teria afogado.

 

39

“Por que pretexto ou escusa caçar então?

Cala o orador razão que Beleza aduz.

Pobre coitado lamente pobre infração;

Amor em coração medroso não produz.

O sentimento é capitão, e me conduz;

E com seu vistoso estandarte por cima,

O covarde luta, e nunca desanima.

 

40

“Fora, medo infantil, então! Debate, morra!

Respeito e razão com velhas rugas vão bem.

Contra o olho meu coração nunca concorra.

Discrição e sensatez ao sábio convêm;

Cabe-me a mocidade, que as manda ao além.

Desejo é meu piloto, meu prêmio, Beleza;

Por tal tesouro quem temeria a empresa?”

 

41

Tal trigo que o mato toma, medo devido

É quase morto por desabrido fervor.

Põe-se ele em marcha com bem aberto ouvido,

Pleno de esperança e de um tolo temor,

Ambos os quais, tal do injusto um servidor,

Molestam tanto em oposta persuasão

Que ora jura ele paz, ora invasão.

 

42

Na mente assenta-se a celestial visão,

E no mesmo banco se posta Colatino.

O olho que a mira confunde sua razão;

O olho que a ele enquadra, por mais divino,

Não se inclina a um julgamento tão malino,

Com pureza faz ao coração seu pedido,

Que uma vez corrupto toma o pior partido;

 

43

Suas forças vitais insufla ele agora,

Que, pelo porte de seu líder ufanadas,

Servem à lascívia, tal minutos à hora;

E como o capitão, ficam assoberbadas,

A mais baixo tributo que devido dadas.

Por réprobo desejo conduzido, insano,

Marcha ao leito de Lucrécia o lorde romano.

 

44

As trancas entre o quarto dela e a vontade,

Cada uma forçada, o posto desertam;

Mas no que abrem, denunciam-lhe a maldade,

O sorrateiro ladrão a pensar despertam.

Soleira e porta rangem e a ele entregam;

Doninhas noturnas põem-se então a gritar;

Ele se alarma, mas o medo vai buscar.

 

45

E, cada portal contra a vontade cedendo,

Ao pequenas gretas e fissuras passar,

Vento luta com tocha, a ele contendo,

E seus fumos em sua face vai lançar,

Extinguindo aquilo que estava a lhe guiar;

Mas quente coração tolo desejo inflama:

Bafeja um vento e dá à tocha nova flama.

 

46

E acesa estando, à luz vai observar

A luva de Lucrécia, d’agulha cravada.

Das palhas onde ela está ele a vai tomar,

E ao apertá-la, sente uma agulhada,

Como se a dizer “Esta luva a coisa errada

Não está afeita; volta neste momento.

Vês como dela é casto até o ornamento.”

 

47

Mas tais pobres entraves não o detiveram;

No pior sentido entende o impedimento.

Portas, vento, e luva, que o contiveram,

Toma por inconsequente constrangimento,

Traves que sustam do ponteiro o movimento,

Com duradouro estorvo seu avanço baldam

Até que o devido à hora os minutos saldam.

 

48

“Pois bem,” diz ele, “revezes são de esperar,

Tal à primavera ameaça a geada,

Para o gáudio, vinda a bonança, incrementar

E mais razão dar ao canto da passarada.

Com dor a coisa preciosa é conquistada:

Rochedos, vendavais, piratas e corais

Teme o mercador, até voltar rico ao cais.”

 

49

Agora chega ele à porta da alcova

Que o priva do paraíso imaginado,

E só uma tramela basta que remova,

A barrar o bento objeto buscado.

Pela impiedade de si tão apartado

Que à caça de sua caça então se lança,

Como foram os céus do pecado fiança.

 

50

Mas lá em meio a sua infrutífera prece,

Estando o poder eterno a solicitar

Que seu mal ao bom e belo sobrepujasse,

Que a ocasião pudesse auspiciar,

Aí mesmo estanca. Diz, “Devo deflorar.

As forças que invoco abominam o fato;

Como podem então me assistir no ato?

 

51

“Sejam Amor e Fortuna deuses e guias!

Apoia-me a vontade e a resolução.

Pensamentos não testados são fantasias.

Limpa o negro pecado a absolvição.

Vence o gelo do medo o fogo da paixão.

Celeste olho cerrado, noite brumosa

Cobre ao doce deleite a face vergonhosa.”

 

52

Dito isso, pinça a tramela a mão culpada,

E seu joelho a porta vai escancarar.

Dorme a pomba a ser pela coruja apanhada.

Traição sói agir, traidor escapar.

Aparta-se quem vê serpente se esgueirar,

Mas não teme quem, do sono nas profundezas,

Fica à inteira mercê de suas mortais presas.

 

53

Ei-lo malévolo o quarto a adentrar,

Fitando o leito ainda não conspurcado.

Fechado o dossel, põe-se ele a circundar;

Sedento par de olhos não fica parado.

Por sua traição, coração é logrado,

O qual sem demora dá à mão o comando:

Afastar a nuvem à lua ocultando.

 

54

Tal como o sol de ígneas pontas limpa o céu,

Enxota uma nuvem, e nos tira a visão,

Seu olhos começam, afastado o dossel,

A piscar, com luz maior cegados que estão.

Se porque dela tão fulgurante é o clarão

Que os ofusca, ou se desdouro é temido,

Cegos estão eles, e cerrados mantidos.

 

55

Oh, deviam nessa escura prisão morrer,

Teriam visto sua maldade cessar!

E Colatino Lucrécia voltara a ter,

Em impoluto leito sempre a repousar.

Mas devem se abrir, e o bento laço ceifar,

E pia Lucrécia a tal olhar vai render

Alegria, vida e seu mundano prazer.

 

56

Um lírio de mão sob rósea face escondido,

Furtando ao travesseiro o beijo que a jus faz,

O qual, porquanto irado, parece fendido,

Inchado em cada lado, a fugir da paz;

Entre cujos montes sua cabeça jaz.

Tal virtuoso monumento está deitada,

De lascivos olhos profanos admirada.

 

57

Fora da coberta estava a outra mão alva,

Sobre o lençol verde, seu branco imaculado

Era tal margarida de abril sobre a relva,

Com noturno orvalho de suor perolado.

Seus olhos, cravos, tendo a luz embainhado,

Docemente na escuridão a repousar

Até que se abram para o dia adornar.

 

58

Cabelos, fios d’oiro, com alento a brincar –

Ó pios devassos! Devassa piedade! –

Eis no mapa da morte a vida a triunfar,

Sombra da morte na viva mortalidade.

Em seu sono, uma à outra aumenta a beldade,

Como não fora entre elas luta renhida:

Vida vivesse na morte, morte na vida.

 

59

Seus seios, marfíneos globos venulados,

Dois mundos virgens que inconquistados restavam,

A jugo algum, salvo de seu lorde, atrelados,

E a ele por vero juramento honravam.

Tais mundos em Tarquínio ambição renovam,

O qual, como torpe usurpador, vai-se por

A deste belo trono apear seu senhor.

 

60

Que via ele sem vivamente notar?

E, notando, fortemente não desejava?

Contemplando, se punha todo a idolatrar,

E no seu desejo o tenaz olho folgava.

Com mais do que admiração admirava

Alabastrina pele, veios azulados,

Lábios de coral, níveo queixo furado.

 

61

Tal feroz leão festeja a presa abatida,

Na conquista satisfeita a fome aguçada,

Paira Taquínio sobre a alma adormecida,

Fúria carnal na contemplação mitigada –

Minguada, não supressa; pois, nessa mirada,

Seu olho, que por ora a tal motim põe peias,

A um maior tumulto tenta suas veias.

 

62

E elas, soldados pro saque amontoados,

Vassalos tenazes vilezas efetuam,

Em sangrenta morte e estupro refestelados,

Choro infantil e gemido de mãe desdenham,

Arvoram-se d’orgulho, o ataque esperam.

Logo seu coração pulsa, alarme dando,

A prosseguir em sua vontade mandando.

 

63

Coração rufa, exorta o olho que arde;

Olho que transmite o comando a sua mão;

Mão, como que orgulhosa em tal dignidade,

Fúmea d’orgulho, marcha a fincar seu pendão

No seio nu, de toda a terra o coração,

Cujas filas de veias, pela mão galgadas,

Deixam torres roliças destroçadas, pálidas.

 

64

Elas, ao calmo gabinete recolhidas

Onde está a cara senhora do reinado,

Dizem-lhe que é temivelmente acometida,

E assustam-na com confusão de seus brados.

Ela, assombrada, rompe os olhos selados,

Que, espreitando a tal tumulto contemplar,

São ofuscados pela tocha a flamejar.

 

65

Imaginai alguém na noite sepulcral

Do sono inerte em pesadelo despertar,

Que pensa ter visto aparição abismal,

Cujo lúgubre aspecto faz tiritar.

Que terror! Mas dela é um maior pesar:

No seu sono perturbada, enxerga alerta

A visão que corrobora ameaça incerta.

 

66

De mil temores envolta e desarranjada,

Jaz ela a tremer tal pássaro abatido.

Não ousa olhar; mas surgem na vista cerrada

Figuras cambiantes, seu olhar ferido.

Tais sombras forja um cérebro enfraquecido,

Que, raivoso por da luz o olho fugir,

Na escuridão tristes visões sói infligir.

 

67

Pousa ainda no seio dela sua mão,

Rude aríete, marfíneo muro a bater;

Sente o coração tenso, pobre cidadão,

Vitimando a si mesmo, subir e descer,

Vibrar-lhe o torso, sua mão junto mover.

Dá-lhe isso mais fúria, menos piedade,

Pr’abrir a fenda e invadir doce cidade.

 

68

Primeiro soa sua língua, tal trombeta,

Ao débil inimigo uma negociação,

Que do alvo lençol alvo queixo projeta

A saber de tal abrupto alarme a razão,

O que ele mostra por sua muda ação.

Mas ela se põe veemente a insistir:

Cor alguma tal negrume vai recobrir.

 

69

Responde ele: “Das tuas faces a cor,

Que mesmo por ira faz lírio desbotar,

Faz corar a rubra rosa de dissabor,

Vai me defender e meu amor relatar.

Com tal cor no estandarte vim escalar

Teu forte nunca conquistado; culpa tua,

Pois este teu olhar ao meu te atraiçoa.

 

70

“Assim te previno, se queres censurar:

A esta noite te apresou tua beleza;

Deves, paciente, meu desejo abrigar,

Desejo a te marcar da natura a riqueza,

Que busquei conquistar com toda fortaleza.

Se reproche e razão o podem abater,

Tal luzente beleza fá-lo reerguer.

 

71

“Vejo que estorvos à empresa surgirão;

Sei quanto espinho à rosa que cresce defende;

Penso ser o mel guardado com um ferrão;

Isso já de antemão o senso compreende.

Mas desejo é surdo, conselho não entende;

Tem apenas um olho pra beleza ver

E adora o que vê, contra lei ou dever.

 

72

“Eu debati, dentro de minh’alma a sondar,

Quanto mal, opróbrio e sofrimento suscito,

Mas nada pode ao curso da atração guiar

Ou deter de seu passo o furor inaudito.

Sei que ao ato segue sempre o pranto contrito,

Reprovação, desdém, mortal inimizade,

Ainda assim luto em buscar a indignidade.”

 

73

Dito isso, sabre romano vai erguer,

Que, tal falcão pairando no céu portentoso,

Sombra que aves abaixo faz recolher,

Cujo bico a morte ameaça, tortuoso.

Assim jaz sob seu gládio insultuoso

Lucrécia indene, ao que diz a escutar,

Tal ave a guizos de falcão, a tiritar.

 

74

“Lucrécia,” diz, “devo esta noite possuir-te.

Se negares, a força há de desbravar,

Pois em teu leito intento eu destruir-te.

Feito isso, abato um escravo vulgar,

Pra honra matar-te com da vida o cessar,

E penso pô-lo em teus braços falecidos,

Jurando tê-lo abatido ao ver-vos unidos.

 

75

“Tal que teu marido vivo será, porém,

O alvo do escárnio de todo olho aberto;

Parentes, cabisbaixos ante tal desdém;

Prole suja na bastardia, nome incerto.

E tu, autora de seus oblóquios decerto,

Terás tua transgressão em rimas citada,

Nos tempos vindouros por crianças cantada.

 

76

“Mas se cederes, sigo teu secreto amigo.

A falta ignota é tal como a ideia abortada;

Pequeno mal feito com um grande e bom fito

Segue uma prática válida e adotada.

A essência venenosa sói ser mesclada

Num composto puro; sendo assim aplicado,

Seu veneno com efeito é purificado.

 

77

“Então, pelo bem de crianças e marido,

Atende a meu pleito, não lhes dê em herança

O opróbrio que não lhes será removido,

Tacha nunca equecida, eterna presença,

Pior que marca de escravidão ou nascença,

Pois sinais que na natividade se ganha

São faltas da natura, e não própria infâmia.”

 

78

Aqui, um basilisco de fatal olhar,

Ergue-se ele numa pausa viperina;

Ela, pura piedade a representar,

Corça branca presa da ave de rapina,

Clama, numa selva onde lei não se ensina,

À bruta besta que direito desconhece

E nada além do vil apetite obedece.

 

79

Mas ao ameaçar o mundo turva nuvem,

Em sua bruma altos montes escondendo,

Do negro ventre da terra a lufada vem,

Que sopra tais vapores píceos lá crescendo,

Sua súbita precipitação contendo;

À pressa ímpia sua fala vai frear:

Plutão irado dorme se Orfeu tocar.

 

80

Mas o vil gato noturno brinquedo faz,

Débil rato arfa a sua pata sujeito.

Seus modos tristes nutrem a ânsia voraz,

Um vórtice crescente nunca satisfeito.

Ouvidos recebem as preces, mas o peito

Não permite que penetre clamor ou reza;

Chuva erode pedra, pranto lascívia entesa.

 

81

Mirada penosa é tristemente fixada

Na enrugada face dele, impiedosa.

Simples eloquência de suspiro mesclada,

O que faz a oratória mais graciosa:

Ponto muita vez interrompe sua prosa,

E tanto em meio à frase a voz se desarruma

Que duas vezes tenta para falar uma.

 

82

Ela roga por Jove todo-poderoso,

Por cavalaria, berço, doce amizade,

Por pranto descabido, amor do esposo,

Por sacra lei humana, comunal verdade,

Por céu e terra, sua dupla autoridade,

Que se retire ele a seu leito emprestado

Tendo à honra, não ao vil desejo curvado.

 

83

Diz ela, “Não retribuas a acolhida

Com tão negra moeda quanto planejada;

Não turves a fonte que a ti deu bebida.

Não estragues coisa que não é consertada.

Cessa a mira maligna antes da flechada;

Não é caçador aquele que o arco entesa

A fazer a gama imatura sua presa.

 

84

“Meu esposo teu amigo é, poupa-me.

Tu mesmo és forte; por ti mesmo larga-me.

Eu mesma sou fraca; livre pois deixa-me;

Não semelhas engano; mas enganas-me.

Furacão de suspiros tenta levar-te.

Se homem, rogando mulher, já foi movido,

Sê por tais lágrimas, suspiros e gemidos,

 

85

“Os quais juntos, tal o oceano em tormento,

Batem na perigosa rocha do teu peito,

Para abrandá-lo com conínuo movimento,

Pois pedra se dissolve em água com efeito.

Oh, se mais duro que pedra não foste feito,

Derrete com tais lágrimas, tem compaixão!

Tenra clemência abre férreo portão.

 

86

“Assim como a Tarquínio te dei tratamento.

Tomaste sua forma a lhe fazer vileza?

A toda legião dos céus faço lamento:

Fazes-lhe mal à honra, dano a sua alteza.

Não és tal pareces; se de igual natureza,

Não pareces então tal és, um deus, um rei;

Pois tudo devem governar deuses e reis.

 

87

“Como teu opróbrio dará depois sementes,

Brotando teus vícios antes da primavera!

Caso predestinado um tal ultraje tentes,

Que não ousarás quando fores rei à vera?

Coisa ultrajante alguma, disso te inteira,

Vinda de vassalos pode ser removida;

Malfeitos de reis, pois, restam além da vida.

 

88

“Serás amado só por medo com tal ato,

Mas temido por amor é feliz monarca.

Vis infratores deves tolerar de fato

Quando da infração virem em ti a marca.

Que seja por medo disto, desejo aplaca,

Pois príncipes são espelho, livro, escola,

Onde olho súdito aprende, lê, olha.

 

89

“Serás escola em que Lascívia aprenderá?

Deve-se em ti ler tal vergonha ensinada?

Serás espelho no qual ela encontrará

Pecado autorizado, culpa sancionada,

Para escolher desonra por ti mostrada?

Pioras o reproche à velha exaltação,

E tornas o bom nome reles cafetão.

 

90

“Comandas? Por Ele que dá autoridade,

Comanda o desejo quando se rebelar.

Não saques sabre a guardar iniquidade,

Conferido a ti para tal prole matar.

Teu papel real como vais realizar,

Se, pela tua falta, disser vil pecado

Que aprendeu a pecar por ti ensinado?

 

91

“Pensa então que seria espetáculo vil

Enxergar noutro tua infração presente.

O homem sua falta quase nunca viu;

Suas transgressões abafa parcialmente.

Tal culpa num irmão verias mortalmente.

Oh, quão enredados em infâmias estão

Quem de seus malfeitos afastam a visão!

 

92

“A ti, a ti apelam tais mãos levantadas,

Não à luxúria sedutora em teu encalço.

Pleiteio a volta da majestade exilada;

Que venha, más ideias mande ao cadafalso.

Vero respeito capture desejo falso,

Remova a turva bruma do fraco olho teu:

Vê teu estado, compadece-te do meu.”

 

93

“Basta”, diz ele: “minha maré, desmesura,

Não vira, só se enche mais com este empate.

À flâmula se assopra, fogaréu perdura,

E com vento em maior fúria se debate.

O curso que dívida diária abate

Com seu salgado soberano, apressado,

Soma-lhe bojo, gosto segue inalterado.”

 

94

“Tu és”, diz ela, “um mar, um rei soberano,

E vê em teu pélago infindo caírem,

Turvos, luxúria, desonra e desgoverno,

Ao oceano de teu sangue a conspurcarem.

Se tais mesquinhos males mudarão teu bem,

Teu mar no ventre duma poça está imerso,

Não é a poça que em teu mar está dispersa.

 

95

“Tais escravos serão reis, tu escravo deles;

Tu de nobre a vil, eles com vileza alçados;

Tu lhes dá vida, tua tumba sujam eles;

Tu por eles, eles por te armar odiados.

Maior do menor não sói ser obliterado;

Cedro ao pé de reles moita não se inclina,

Mas moita baixa à raiz do cedro definha.

 

96

“Que teus pensamentos pois, teus vassalos chãos…”

“Basta”, diz ele. “Céus, não quero te escutar.

Cede a meu amor. Ou ódio forçado, então,

E não toque d’amor, vai te dilacerar;

E depois, por despeito te penso levar

Ao leito ordinário de algum reles criado,

Para ser teu par neste vergonhoso fado.”

 

97

Dito isso, dá ele com o pé no lume:

São luz e lascívia inimigos de morte.

Opróbrio se esconde em noturno negrume;

Quanto menos visto, um tirano mais forte.

Lobo pega a presa; grita a ovelha sem sorte,

Até que, com sua lã a voz controlada,

Sepulta os gritos na doce boca fechada.

 

98

Pois com o linho noturno que lhe vestia

Ele lhe acurrala os clamores lamentosos,

Refresca seu rosto nas lágrimas mais pias

Que olhos puros já verteram lastimosos.

Oh, que a lascívia suje leitos virtuosos!

Cujas manchas, se as purificasse o pranto,

Choraria para sempre no mesmo canto.

 

99

Mas ela perde coisa mais cara que a vida,

E ele ganha o que sabia fugidio.

Tal laço forçado força mágoa seguida;

Tal gozo breve traz dor por meses a fio;

Tal quente desejo se torna desdém frio.

Pura Castidade dos bens é desprovida,

E Lascívia, ladra, sai mais empobrecida.

 

100

Tal como o falcão ou o cão alimentados,

Inaptos ao olfato ou ágil ação,

Seguem sem pressa, ou deixam mesmo de lado

A presa por natura de apreciação;

Tal de farto Tarquíneo é a condição.

Paladar deleitado, a sentir azia,

Preda o desejo, que de predar vivia.

 

101

Oh, pecado mais fundo do que senso infindo

Pode apreender na muda imaginação!

Ébrio Desejo vomita tudo ingerido,

E só assim vê a própria abominação.

Se firme a Lascívia, nenhuma exclamação

Pode-lhe fogo deter, desejo encilhar,

Até pertinácia tal mula se cansar.

 

102

Então com o rosto encovado e descorado,

Olho baço, cenho fechado, marcha lenta,

Débil Desejo, covarde, e bem comportado,

Tal como um pedinte falido se lamenta.

A carne tesa, Desejo à Graça enfrenta,

De carne se serve; decaída ela então,

O culpado rebelde clama remissão.

 

103

Assim se passa ao culposo lorde de Roma,

Tendo tal façanha ardentemente buscado,

Pois agora contra si sentença proclama,

Que estará através dos tempos desgraçado.

Mais, belo templo de su’alma avariado,

A cujas ruínas tropas de aflições vêm

Saber se a princesa maculada está bem.

 

104

Diz ela, súditos em torpe insurreição

Derrubaram sua muralha consagrada,

Por sua mortal culpa pondo em sujeição

Sua imortalidade, encarcerada

Na morte em vida e na dor perpetuada,

O que em presciência sempre dominou,

Mas previsão a vontade não lhes obstou.

 

105

Assim cogita noite adentro a escapar,

Vencedor cativo que perde tendo mais,

Levando a chaga que nada pode curar,

Cicatriz que, malgrado melhora, não sai,

Deixando a presa mais flagelada em seus ais.

Ela sustém carga de lascívia deixada,

E ele fardo de uma mente culpada.

 

106

Ele tal cão ladrão se esgueira abatido;

Ela tal ovelha lassa põe-se a arfar.

Ele se maldiz pelo crime cometido;

Ela, aflita, unhas na carne a cravar.

Ele foge lerdo, medo e culpa a levar;

Ela fica, à fatal noite queixas faz;

Ele corre, condena seu gozo fugaz.

 

107

Ele de lá se afasta um sóbrio convertido;

Ela lá queda, réproba sem remissão.

Ele com pressa espera o dia amanhecido;

Ela roga do dia não ter mais visão.

“Dia”, diz, “delata a noturna má ação;

Meus olhos francos nunca haviam praticado

Acobertar faltas com cenho calculado.

 

108

“Todo olho vê, não escapam de pensar,

O mesmo infortúnio por eles contemplado,

E assim optaria no escuro estar,

Sem ter o pecado oculto seu divulgado.

Pois eles culpa exporão no pranto chorado,

E me gravarão, como a água rói o aço,

Nas faces a vergonha impotente que passo.”

 

109

Ei-la contra repouso e sossego bradando

Comandando aos olhos fechar eternamente.

Acorda o coração o peito golpeando

E o manda saltar, achar possivelmente

Algum peito mais puro p’ra tão pura mente.

Assim expressa o rancor, louca em seu pesar,

Por negra noite tudo poder abafar.

 

110

“Ó Noite algoz da paz, inferno contrafeito,

D’opróbrio triste notário e escrivão,

Negro palco a tragédias e assassínio abjeto,

Da culpa ama, caos que é do pecado irmão,

Cega cafetina, porto à difamação,

Caverna mortal, astuto conspirador

Com traição calada e com violador!

 

111

“Ó odiosa Noite de bruma espectral,

Culpada em meu crime impossível de curar,

Perfila névoas contra a luz oriental,

Combate do tempo seu curso salutar;

Ou se permitires que o sol possa galgar

Altura habitual, sem que tenha deitado,

Cinge de nuvens venenosas seu doirado.

 

112

“Com podres fumos viola o ar matinal;

Que adoeçam seus nauseantes alentos

À vida da pureza, belo supernal,

Antes de atingir lasso meridional tento;

Tão densos marchem teus vapores nevoentos

Qu’em fúmeas tropas sua luz sufocada

Deite ao meio-dia, noite eterna implantada.

 

113

“Fosse Tarquínio a Noite, não cria sua,

A rainha d’argêntea luz mancharia;

Suas luzentes aias, que ele enodoa,

Do seio da Noite não mais espreitariam.

Assim parceiras em minha dor eu teria,

E par na aflição aflição alivia,

Do romeiro a charla a romaria abrevia.

 

114

“Já eu ninguém tenho p’ra comigo corar,

Com braços cruzados e cabeça a pender,

Tapar a fronte pra infâmia ocultar,

E só eu devo, só, cá sentar a sofrer,

A terra temperar com salmoura a chover,

Mesclar fala a pranto, pesar a lamento,

Pobre fugaz marco de perene tormento.

 

115

“Ó Noite, fornalha de fétido vapor,

Que o Dia cioso não contemple o rosto

Que sob teu negro manto acobertador

Imodesto jaz martirizado em desgosto!

Mantém sempre posse de teu soturno posto,

Tal que faltas em teu reinado cometidas

Tenham sepulcro comum em ti escondidas.

 

116

“Ao Dia linguarudo não me apresentes.

A luz mostrará no cenho meu estampado

O conto duma castidade decadente,

Ímpia quebra do voto na boda firmado.

Sim, mesmo os que não saberiam, iletrados,

Decifrar aquilo em doutos livros escrito,

Citarão só me vendo o abjeto delito.

 

117

“A ama a ninar contará a minha história,

Assustando o bebê ao Tarquínio citar.

O orador, para adornar sua oratória,

Minha desgraça à de Tarquínio há de somar.

Menestréis de festim, minha queda a cantar,

Mostrarão aos ouvintes com verso ferino

Que Tarquínio mal me fez, eu a Colatino.

 

118

“Mantém meu nome, de boa reputação,

Por amor de Colatino, imaculado.

Isto tornado tema de disputação,

Definham ramos alhures enraizados;

É labéu imerecido a ele imputado,

Tão inocente que é do próprio destino

Quanto eu, até aqui, pura a Colatino.

 

119

“Ó vergonha oculta, invisível desgraça!

Ó chaga insensível, cicatriz no brasão!

Colatino traz na face gravada a tacha,

E Tarquínio lerá de longe a inscrição,

Como teve em paz, não em guerra, o aleijão.

Ai, quantos têm tal vergonhoso ferimento,

Que quem fere, não eles, tem conhecimento!

 

120

“Se, Colatino, tua honra me foi dada,

De mim ma tirou forçosamente um ladrão.

Sem honra, em abelha-zangão transformada,

Nada resta da perfeição do meu verão,

Roubada e saqueada em vil usurpação.

Na colmeia frágil a vespa penetrou

E o mel da tua abelha tão casta chupou.

 

121

“Mas tua honra naufragar é culpa minha;

Mas por tua honra eu o devia abrigar.

Rechaçá-lo não podia, se de ti vinha,

Pois teria sido desonra o desdenhar.

Mais, de fadiga estava ele a se queixar,

Virtude a citar. Ó mágoa inesperada,

Virtude ser por tal demônio profanada!

 

122

“Por que lagarta invade o virginal botão?

Ou cuco nasce o ninho do pardal tomando?

Ou sapo infecta fontes com charco malsão?

Ou tirana loucura espreita em peito brando?

Ou reis desobedecem seu próprio comando?

Mas não há perfeição de tamanha inteireza

Que não se polua com alguma impureza.

 

123

“O homem idoso que amealha seu ouro

Sofre de cãibras, gotas e padecimento,

E mal tem olhos p’ra contemplar seu tesouro,

Tal Tântalo jaz em eterno sofrimento,

E em vão estoca a safra de seu talento;

Outro prazer não tem do que pôde ganhar

Que não tormento por isso a dor não curar.

 

124

“Então ele o tem quando não o pode usar

E deixa-o ser pela sucessão tomado,

Que orgulhosa não tarda a dele abusar.

O pai fraco, eles fortes demasiado

Para manter bento ouro amaldiçoado.

Doces desejados ao azedume passam

No preciso momento em que nossos se façam.

 

125

“Ventos cruéis a primavera tenra escoltam;

Más ervas se enraízam junto à flor que apraz;

A serpente chia onde pássaros cantam;

Se Virtude faz Iniquidade desfaz.

Nada de bom seguro nas nossas mãos jaz

Sem que a mal acompanhada Oportunidade

Mate-lhe ou vida ou então qualidade.

 

126

“Ó Oportunidade, tens culpa imensa!

Tu operas do traidor a traição;

Tu pões o lobo onde pegue ovelha infensa;

Planeje-se pecado, mostras estação.

És tu que atacas direito, lei e razão,

E em tua cela escura, sem visto ser,

Fica Pecado, alma que passa a deter.

 

127

“Tu fazes a vestal romper a castidade;

Tu sopras fogo e temperança é derretida;

Tu sufocas retidão, tu matas verdade.

Tu, incitadora, cafetina sabida,

Tu plantas escândalo e arrasas vidas.

Tu, raptora, traidora, tu, ladra espúria,

Teu mel vira fel, e teu júbilo lamúria.

 

128

“Teu prazer secreto vira aberto enxovalho,

Teu banquete privado, público jejum,

Teus títulos lisonjeiros, nome em frangalhos,

Tua língua doce, amaro gosto ruim.

Teu fogo de palha vai a lugar nenhum.

Como pode, vil Oportunidade, então,

Tão má sendo, procurar-te tal multidão?

 

129

“Quando amiga do simples queixoso serás

E leva-lo-ás aonde obtenha graça?

Quando a encerrar brigas tempo empregarás?

Ou livrarás a alma presa na desgraça,

Trarás cura ao enfermo, cuja dor não passa?

Pobres, coxos, cegos chamam-te e se prostram,

Mas Oportunidade nunca se lhes mostra.

 

130

“Paciente morre, médico repousando;

Órfão passa fome, opressor bem comendo;

Justiça em banquetes, viúva chorando;

Assistência brinca, infecção se estendendo.

Não dás um minuto a ato reverendo.

Ira, traição, estupro, fúria d’algozes,

São-lhes escudeiras tuas horas atrozes.

 

131

“Quando Verdade e Virtude contigo têm,

Mil percalços mantêm teu auxílio afastado.

Elas te pagam, Pecado não dá vintém;

Ele vem gratis e tu vais, de mui bom grado,

Tanto ouvir quanto atender o que for falado.

Se não, meu Colatino teria acorrido

Em vez de Tarquínio, mas foi por ti contido.

 

132

“Culpada és de assassínio e de roubo,

Culpada de perjúrio e de corrupção,

Culpada de traição, fraude, e engodo,

Culpada d’incesto, tal abominação –

Uma cúmplice pela própria inclinação

Em todo pecado passado e por passar,

Da criação a do juízo o estalar.

 

133

“Disforme Tempo, comparsa de feia Noite,

Pérfido correio, portador da dor vil,

Da mocidade algoz, servo do mau deleite,

Do mal guarda, d’erro mula, do bom ardil!

Tu nutres e matas tudo que já existiu.

Ó, escuta-me, mutável Tempo abusado!

Sê de minha morte, se do crime, culpado.

 

134

“Por que Oportunidade, tua criada,

Traiu as horas que me deste a repousar,

Sustou-me as fortunas, deixou-me atada

A termo eterno de mágoas nunca a cessar?

Ofício do Tempo é aos ódios findar,

Roer o erro pela opinião criado,

Não gastar o dote dum leito sancionado.

 

135

“Glória do Tempo é apaziguar reis em briga,

Revelar falsidade e dar ao vero lume,

Conferir o selo do tempo à coisa antiga,

Despertar a manhã e guardar o negrume,

Tratar mal ao mau até que ao bem ele rume,

Arruinar aos edifícios insolentes,

E poeirar suas torres d’oiro luzentes,

 

136

“Esburacar a imponentes monumentos,

Cevar o oblívio com decomposição,

Manchar velhos livros e mudar seus contentos,

Tirar penas das asas do corvo ancião,

Secar velhos carvalhos, nutrir broto chão,

Estragar antiguidades d’aço forjado,

E dar à roda da Fortuna giro apressado,

 

137

“Mostrar à avó crias de sua criança,

Tornar menino homem, e homem menino,

Matar o tigre que vive pela matança,

Domar o unicórnio e o leão ferino,

Rir do que engana a si mesmo de tão ladino,

Alegrar lavrador com safras abundantes,

E gastar com gotículas rocas gigantes.

 

138

“Por que em tua romaria causas danos,

A menos que voltasses para recompor?

Um parco minuto p’ra trás em muitos anos

Põe mil milhares d’amigos a teu dispor,

Dando siso a quem empresta a mau pagador.

Oh, uma hora que voltasses teu relógio,

Tal tormenta evitaria, e meu naufrágio!

 

139

“Tu, perene lacaio da Eternidade,

Detém a Tarquínio com alguma desdita.

Inventa extremos além da extremidade

E fá-lo maldizer esta noite maldita.

Que feios vultos firam sua torpe vista,

E do mal cometido a dura lembrança

Cada arbusto um demônio disforme faça.

 

140

“Perturba seu sono com insone temor,

Aflige seu leito com planger acamado.

Que lhe ocorra tudo que de contrário for

Tal que se queixe, sem ser por ti lamentado.

Lapida-o com duros corações pedrados,

E que mulheres doces percam a doçura,

Mais bravas com ele que tigres na bravura.

 

141

“Tempo tenha de os cabelos arrancar-se,

Tempo tenha de contra si falar irado,

Tempo tenha de do Tempo desesperar-se,

Tempo tenha de ser escravo detestado,

Tempo tenha de ver mendigo invejado,

E tempo de ver quem vive de esmolar

Desdenhar de desdenhados restos lhe dar.

 

142

“Tempo tenha de ver amigos oponentes,

E pândegos caçoarem, rirem aos surtos.

Tempo tenha de ver que o tempo é indolente

Em tempo de dor, e quão célere e curto

Seu tempo de folguedo, tempo de desporto;

E que sempre seu indelével ato escuso

Tempo tenha de chorar do tempo seu abuso.

 

143

“Ó Tempo, tutor de bem e mal igualmente,

Ensina a xingar quem tão mal foste ensinar.

Que a própria sombra enlouqueça o insolente,

Ele mesmo a si mesmo busque matar.

Tais vis mãos tal vil sangue deve derramar,

Pois quantos tal chão ofício escolherão,

Execrado verdugo de escravo tão chão?

 

144

“Tão mais chão é ele, de um rei sendo filho,

Sujar o porvir com atos degenerados.

Mais poder no homem, mais poder há naquilo

Que lhe traz honra, ou lhe faz ser odiado;

Grande escândalo a grande posto é ligado.

Lua encoberta logo se faz perceber,

Mas estrelinhas se ocultam ao bel prazer.

 

145

“Corvo pode asas negras enlamear

E sair voando sujo, ninguém veria,

Mas se o mesmo níveo cisne desejar,

Mancha n’argêntea penugem ficaria.

Lacaios são trevas, reis glorioso dia.

Mosca voa a toda parte sem ser notada,

Mas águia é de todo olho contemplada.

 

146

“P’ra longe, vãs palavras, servas dos estultos.

Sons sem proveito algum, débeis arbitradoras!

Ocupai-vos nas lições dos jurisconsultos;

Debatei onde ao debatedor sobrem horas;

De trêmulas partes sede mediadoras.

Já eu, não movo palha pelo argumento,

Meu caso estando além de legal provimento.

 

147

“Em vão censuro eu a Oportunidade,

Ou Tempo, Tarquínio e Noite malfadada.

Em vão busco chicana contra a indignidade.

Em vão luto ante desdita confirmada.

Tal inútil bruma palavrosa é baldada.

O remédio mesmo que bem pode fazer

É meu sangue conspurcado fazer verter.

 

 

148

“Pobre mão, por que o decreto te faz tremer?

Honra a ti mesma ao me livrar desta infâmia,

Pois se morro, minha honra em ti vai viver ,

Mas se vivo, vives tu em minha má fama;

Se não pudeste defender à leal dama,

E receaste o vil agressor arranhar,

Mata a ti e a ela por capitular.”

 

149

Dito isso, do leito devassado salta,

A exaltado recurso mortal achar,

Mas não é cá matadouro, e meio falta

De outra passagem ao alento cavar,

Que força os lábios, e vai-se obliterar

Como vapor do Etna, no ar dissipado,

Ou aquele que exala canhão disparado.

 

150

“Em vão,” diz, “vivo eu, e em vão tento obter

Bom meio de ao infortúnio dar final.

Temi pelo sabre de Traquínio morrer,

Contudo busco faca para fim igual.

Mas quando temi era uma esposa leal;

Sigo sendo. – Oh, não, não pode ser assim;

Este título Tarquínio tirou de mim.

 

151

“Oh, foi-se aquilo que a buscar viver me instou,

E portanto já não devo temer mortalha.

Ao limpar tacha com morte, ao menos dou

Um emblema de fama à farda da calúnia,

Uma vida mortal à imortal infâmia.

Pobre inútil amparo, tesouro roubado,

Queimar a arca inculpe onde vem guardado!

 

152

“Bem, bem, meu Colatino, tu não provarás

O sabor acre da verdade violada;

Não arruinarei tua afeição veraz

Lisonjeando-te com jura já quebrada.

Este enxerto bastardo jamais dará nada;

Não jactar-se-á quem faz teu tronco corrupto

De seres pai embevecido de seu fruto.

 

153

“Tampouco a ti sorrirá com senso escondido,

Nem rirá com companheiros de teu estado.

Saberás que teu cabedal não foi vendido

Por ouro vil, mas portão afora roubado.

Quanto a mim, eu sou a senhora do meu fado

E minha transgressão não será superada

Até na morte remida a falta forçada.

 

154

“Não vou te envenenar com meu labéu retinto,

Nem cobrir meu lapso de escusas forjadas;

Minha heráldica negra em pecado não pinto,

Ocultando abusos da falsa madrugada.

Minha voz tudo dirá; vistas, represadas,

Tal a fonte montês que é do vale a fartura,

Jorrarão puros rios a purgar sina impura.”

 

155

Com isso, Filomel plangente terminou

Afinado chilro de noturno pesar,

E solene noite lenta e triste baixou

Ao feio inferno; vede, a alba a corar

Empresta luz ao olho que a queira tomar.

Mas se envergonha de ver Lucrécia nublada

E seguiria assim na noite clausurada.

 

156

Dia revelador sonda todos recessos

E parece indicar onde jaz a chorar,

Ao qual diz a soluçar: “Ó olho dos olhos,

Rondas minha janela? Deixa de espiar.

Frustra com teus raios os olhos a sonhar.

Não marques meu cenho com tal luz penetrante:

Ao dia não cabe o feito noite reinante.”

 

157

Assim implica com toda coisa mirada.

Tristeza é criança temperamental,

E emburrada estando, nada lhe agrada.

Velha dor bem se porta, não infante mal:

Duração doma uma; o outro, feral,

Como o mau nadador que afunda sempre mais,

Com grande esforço se afoga por incapaz.

 

158

Ela, então, imersa num mar de aflição,

Alterca-se com cada coisa contemplada,

Consigo compara toda tribulação;

Qualquer objeto reforça a dor extremada:

Cada um que passa, com outro é confrontada.

Às vezes a dor é muda, silenciosa;

Às vezes é louca e muito palavrosa.

 

159

Pássaros que entoam o gáudio matinal

Agravam seus ais com a doce melodia,

Pois júbilo abre a chaga de todo mal;

Tristes almas morrem n’alegre companhia.

Agonia busca trato com agonia;

Mágoa verdadeira é bem remunerada

Se de sua semelhante simpatizada.

 

160

“É morte dupla afogar praia atingida;

Dez vezes fome é fome vendo alimento;

Ver o unguento faz doer mais a ferida;

Mais sofre na ajuda o grande sofrimento.

Profundos males são um rio opulento,

Que se retido, a margem é inundada;

É sem lei ou limite dor menosprezada.

 

161

“Aves trocistas,” diz, “sepultai tal canção

No oco do túrgido peito emplumado,

Sede mudos silentes à minha audição;

Nega fecho ou pausa meu dissonante estado.

Triste anfitriã toca alegre convidado.

Trinai lestas notas a ouvido que ria;

Lágrimas por compasso, dor quer elegia.

 

162

“Vem, Filomel, que cantas de violação,

Faz meu cabelo desfeito teu triste canto.

Tal a terra fria chora tua aflição,

Eu a cada triste verso verto meu pranto,

Profundos suspiros por acompanhamento;

Pois tal bordão zumbirei eu sobre Tarquínio,

Sobre Tereu mostra da arte teu domínio.

 

163

“E se contra o espinho teces a canção

Para teus males avivar, pobre de mim,

Para bem te imitar, contra meu coração

Porei a faca, assustando o olho assim;

Se um piscar, o outro cai e tem seu fim.

Tais técnicas, como os trastes dum instrumento,

Afinarão nossas cordas com sofrimento.

 

164

“E se, pobre pássaro, não cantas de dia,

Acanhado talvez do olho a contemplar,

Um escuro deserto, distante da via,

Que não arda em calor nem possa congelar,

Descobriremos; e lá hemos de cantar

Às feras lamentos, mudar-lhes a natura.

Homens sendo bestas, que seja a besta pura.”

 

165

Tal pobre cervo em pânico, paralisado,

Decidindo tenso p’ra que lado fugir,

Ou alguém envolto em labirinto intrincado,

Que facilmente não vê modo de sair,

Assim está um motim a lhe consumir,

Viver ou morrer, qual dos dois é preferível:

Vida é opróbrio e morte é repreensível.

 

166

“Matar a mim mesma,” diz, “ora que seria

Senão corpo e também alma em poluição?

Quem perde metade mostra maior porfia

Do que quem tudo lhe leva a destruição.

Uma mãe faz cruel experimentação

Se, dois bebês tendo, levando a morte um,

Assassina o outro e cuida de nenhum.

 

167

“Meu corpo ou minh’alma, a qual mais eu prezava

Quando puro um, outra de aspecto divino?

O amor de qual a mim mesma mais tocava

Quando reservados ao céu e a Colatino?

Ai de mim, tire-se a casca do alto pino,

As folhas morrem e a seiva é ressequida;

Assim passa a minh’alma, casca removida.

 

168

“Sua casa roubada, sono interrompido,

Sua quinta pelo inimigo atacada,

Seu sacro templo sujo, roto, corrompido,

De ousada infâmia totalmente cercada.

Então de impiedade não seja acusada,

Se neste forte conspurcado um furo faço

Pelo qual esta alma aflita tenha passo.