Lucrécia (em progresso)

The-Rape-of-Lucretia-by-Hans-von-Aachen-German-1600

(Hans von Aachen)

Dedicatória

AO MUI VENERÁVEL HENRY WRIOTHESLY

Conde de Southampton, e Barão de Tichfield.

O amor que a vossa senhoria dedico é sem fim; do qual este panfleto, sem início, não é mais que um quinhão supérfluo. O lastro que tenho de vossa disposição honrosa, não o valor de minhas linhas desgovernadas, torna-o certo de aceitação. O que fiz é vosso; o que estou por fazer é vosso; sendo parte daquilo que é meu, devotamente vosso. Fosse maior meu valor, meu dever maior se mostraria; entrementes, como é, a vossa senhoria está atado, a quem desejo longa vida, ainda mais longa pois plena de felicidade.

Aquele cujo dever é todo vosso,

WILLIAM SHAKESPEARE.

O Argumento

Lucius Tarquinius, por seu excessivo orgulho alcunhado Superbus, após ter causado o cruel assassínio de seu próprio sogro Servius Tullius, e, contrário a lei e costume romanos, sem demandar ou esperar o sufrágio do povo, tomado a si a posse do reino, saiu, acompanhado de seus filhos e outros nobres de Roma, a lançar o cerco a Ardea. Durante esse cerco, os homens mais graduados do exército se encontrando uma noite na tenda de Sextus Tarquinius, o filho do rei, em suas charlas após a ceia cada um enalteceu as virtudes de sua própria esposa: dentre os quais Colatino exaltou a incomparável castidade de sua esposa, Lucrécia. Nesse jocundo humor cavalgaram até Roma; e com o intento, pela aparição secreta e súbita, de pôr à prova aquilo que cada um antes havia afiançado, apenas Colatino encontra a sua esposa, embora fosse tarde da noite, fiando junto a suas criadas; as outras damas foram todas encontradas dançando e festejando, ou em passatempos diversos. Com isso os nobres concederam a Colatino a vitória, e a sua esposa a fama. Nesse momento, Sextus Tarquinius, que se consumia em chamas com a beleza de Lucrécia, mas abafava suas paixões naquele instante, partiu com os restantes de volta ao acampamento; de onde ele em breve se retirou em privado, e foi, de acordo com sua posição, regalmente recebido e alojado por Lucrécia em Collantium. Na mesma noite ele traiçoeiramente se esgueirou até seu quarto, desonrou-a violentamente, e de manhã cedo pôs-se a correr. Lucrécia, nesse dissabor lamentável, se apressa em enviar mensageiros, um a Roma atrás de seu pai, outro ao acampamento atrás de Colatino. Eles chegaram, um acompanhado de Junius Brutus, o outro de Publius Valerius; e encontrando Lucrécia trajada em hábito de luto, questionaram a causa de sua mágoa. Ela, antes obtendo deles um juramento de fazer-lhe vingança, revelou o autor, e toda sorte de pormenor, e logo então, de súbito, esfaqueou-se. Feito isso, em uno consenso todos fizeram o voto de desenraizar toda a família dos Tarquinos; e transportando o corpo a Roma, Brutus familiarizou o povo com executor e detalhes do feito vil, com uma amarga invectiva contra a tirania do rei. Com isso, tanto é movido o povo que em uno consenso e aclamação geral os Tarquinos foram todos exilados, e o governo do Estado alterado de reis para cônsules.

A Violação de Lucrécia

1

De Ardea sitiada, urgente foste,

Alado do falso desejo que consume,

Tarquínio lascivo, da romana hoste

Até Collatium, com um fogo sem lume

Que, oculto em alvas cinzas, crescer presume

E cingir pelas ancas, com a flama vasta,

Ao amor de Colatino, Lucrécia, a casta.

 

2

Por ventura tal “casta”, ó desventura, deu

Um gume franco ao apetite afiado;

Quando Colatino, sem siso, se rendeu

A alabar o sem par alvo e encarnado

Que regia naquele céu do seu agrado,

Onde mortais estrelas, como que celestes,

Com puro aspecto a ele serviam, prestes.

 

3

Pois ao ter com Tarquínio, na noite passada,

Expôs o tesouro de sua boa sorte;

Que riqueza infinda era a ele emprestada

Pelos céus, na posse de tão bela consorte;

Vê em sua fortuna um tão alto porte,

Que mesmo reis podiam esposar mais fama

Mas rei ou par algum a tão singular dama.

 

4

Ó júbilo que é tão pouco compartido!

E, tido, em breve decaído e desfeito

Como orvalho argênteo matinal derretido

Quando ao esplendor d’oiro do sol é sujeito!

Um termo que expira, morto ainda no leito:

‘Stão honra e beleza, nos braços de seu dono,

Debilmente guardadas dum mundo de dano.

 

5

Beleza em si de si mesma é persuasão

Aos olhos masculinos sem um orador;

Que apologia é necessária, então,

P’ra fazer brilhar o que é tão singular?

Ou por que é Colatino a divulgar

A rica joia que bem agia escondendo

De ouvidos gatunos, sua mesmo sendo?

 

6

Talvez seu jactar de Lucrécia soberana

Atiçou este soberbo real varão;

Pelos ouvidos o coração se profana:

Talvez inveja de coisa tão rica, então,

Que não se compara, desdenhoso aguilhão

Em sua ambição: homem baixo se gabar

Da sorte d’oiro que seu maior vê faltar.

 

7

Mas um mau pensamento instigou, premente,

Sua pressa tempestuosa, se não esse:

Honra, afazeres, amigos, e patente,

Negligencia, vai com ligeiro interesse

Aplacar a brasa que ao fígado aquece.

Ó falso fogo, envolto em frio pesar,

Broto audaz, sempre ceifado sem vicejar!

 

8

Quando a Collatium chegou este lorde rude,

Bem recebido foi pela romana dama,

Cuja face disputam Beleza e Virtude

Qual delas lhe é maior esteio da fama:

Beleza enrubesce se Virtude se afama;

Jacta-se do rubor Beleza, em censura

Virtude esparge-lhe argêntea alvura.

 

9

Mas Beleza tem o titulo desse alvor

Das pombas de Vênus e vai reivindicar;

Virtude pleiteia à Beleza seu rubor,

Que Virtude deu à era d’oiro a doirar

As argênteas faces, dele se armar;

Ensinando-as a assim a manter-se a salvo,

Se ataca o opróbrio, o rubro defende o alvo.

 

10

Tal heráldica à face Lucrécia exibia,

Lutando Beleza rubra e Virtude alva

Sobre a cor de cada uma a outra regia,

Mostrando o direito desde a era primeva:

Mas a ambição delas sempre se subleva;

A soberania em cada tão grande sendo,

Que no trono uma a outra vai sucedendo.

 

11

De lírios e rosas sua silente guerra,

Tarquínio viu no belo rosto disputado,

Suas puras tropas seu falso olho encerra;

Onde, para não ser por elas derribado,

O covarde cativo cede, derrotado,

A esses dois exércitos que o livrariam:

De tão vil inimigo não triunfariam.

 

12

E, pensa ele, a língua rasa do marido,

Pródiga avara que a ela tanto elogia,

Nesse mister faz da beleza um desmentido,

Que tanto excede a mostra da aptidão fria.

E os elogios que Colatino rendia,

Tarquínio encantado os vê como incertos,

Em silente pasmo de olhos sempre abertos.

 

13

Tal anjo terreno, a quem louva um demônio,

Pouco suspeita de seu falso adorador:

Mente sem mácula não vê mal nem em sonho;

Ave nunca enredada pousa sem temor.

Cândida, a prover víveres vai-se por,

E cortês acolhida à visitante alteza,

Cujo exterior não lhe expressava a baixeza.

 

14

Pois isso dissimula com alta patente,

A majestade o vil pecado a ocultar,

Que nada havia nele que à visão atente,

Exceto em demasia pasmo no olhar,

Que, tudo tendo, tudo não pode bastar,

Mas, pobre e rico, seu estoque se desfaz

E, pleno em fausto, anseia ainda por mais.

 

15

Mas ela com olho estranho nunca lidou,

Não lhe pôde interpretar um olhar feroz,

Nem sutis límpidos segredos decifrou

Nas margens desse livro, claras como sóis.

Não viu a isca oculta, nem temeu anzóis,

Nem duma visão malsã a moral deduz

Mais que seus olhos se abriam para a luz.

 

16

Ele a fama do marido a ela fabula,

Conquistada nos campos duma Itália fértil,

De elogios a Colatino cumula:

Glorificado foi, cavaleiro viril,

Com armas batidas, laureado se viu.

Seu júbilo com mão erguida é expresso

E, muda, assim louva ao céu pelo sucesso.

 

17

Bem longe das intenções de sua chegada,

Pretexta sua presença com um enredo.

Nuvem alguma ou tempestuosa rafada

Em seu limpo céu aparece, ainda é cedo,

Até negra Noite, mãe de Pavor e Medo,

Sobre tudo turva escuridão espalhar

E na prisão de sua gruta o Dia guardar.

 

18

É quando Tarquínio à cama é conduzido,

Fingindo fadiga e espírito pesado,

Após a ceia tendo muito debatido

Com composta Lucrécia, e a noite adentrado.

Viço já por plúmbeo sono disputado,

Todos então a seu repouso se encaminham

Menos ladrões e mentes aflitas, que velam.

 

19

Como um deles Tarquínio fica revolvendo

Os mil perigos do desejo à obtenção,

Mas sempre a obter seu desejo resolvendo,

Bem que parca esperança peça abstenção.

Ânsia pode passar por gratificação:

Se grande tesouro é a paga proposta,

Morte mesmo vendo, morte não é suposta.

 

20

Quem muito cobiça do ganho é tão cioso,

Daquilo que não tem, que a coisa possuída

Dissipa e aliena de seu próprio gozo;

E assim, mais buscando, menos tem na vida,

Ou, mais ganhando, proveito da desmedida

É só a congestão, e tais perdas sustém

Que vai à bancarrota por um só vintém.

 

21

A meta de tudo é a vida acalentar

Com honra, recursos e paz, em seu poente;

E nessa meta há tanto que se batalhar

Que um por todos, todos por um dá a gente:

Tal vida por honra na luta veemente,

Honra por recursos; e o preço que eles pedem

É morte de todos, todos juntos se perdem.

 

22

Tal que em tentar tal má empreita se evade

A coisa que somos pela suposição;

E esta torpe ambiciosa enfermidade,

Muito tendo, tormenta com a cessação

Daquilo que temos. Descuramos então

A coisa que temos, e só por mal pensar,

Tornamos algo nulo ao tentar aumentar.

 

23

Um tal lance o tolo Tarquínio vai fazer,

Empenhando a honra para obter a lascívia:

Por si próprio ele próprio deixar de ser.

Onde há verdade se nem em si se confia?

Como julgar justo ao estranho sonharia,

Se ele mesmo a si mesmo desfaz e entrega

À calúnia das línguas, su’alma à refrega?

 

24

Avança sobre as horas morta madrugada,

D’olho mortal, férreo sono é fechadura.

Nenhuma estrela auspiciosa alumiada;

Ruído de coruja e lobo, que agoura,

Serve à estação em que se dá a captura

Das pobres ovelhas. Pureza a repousar,

Velam ardor e morte a manchar e ceifar.

 

25

Salta agora do leito o lascivo senhor,

A manta por sobre o braço tendo jogado;

Disputado em fúria entre Desejo e Pavor;

Um adula doce, outro teme mau fado,

Mas bom Medo, por Lascívia enfeitiçado,

Tão tão comum é que ele fuja e não enfrente,

Enxotado por Desejo rude e demente.

 

26

Sua espada à pederneira de leve fere,

Tal que à fria pedra um brilho é arrancado,

À tocha besuntada fogo assim confere,

A ser estrela-guia d’olho obcecado,

E à flama assim se dirige, ponderado:

Se à fria pedra inflamar tenho eu ensejo,

Assim a Lucrécia forçará meu desejo.”

 

27

Já pálido de medo ele premedita

Os perigos de sua odiosa empreitada.

Bem que no íntimo da mente ele reflita

Que mágoa advinda pode lhe ser somada,

Depois com escárnio é dele desprezada

A couraça nua de à lascívia abater,

E justo assim injusto intento vai conter:

 

28

Bela tocha, cessa esta luz, não a empreste

A ofuscar quem luz emana muito mais.

Morra toda ideia impura, antes que empeste

Com sua sujidade a coisas divinais.

Dum puro incenso a puro templo oferta faz.

Que a boa natura humana abomine o ato

Que suja ao amor o níveo traje cordato.

 

29

Ó opróbrio às armas e à cavalaria!

Ó desonra que ao nosso mausoléu cultivo!

Ó ímpio ato, que todo mal conteria!

Um marcial homem de caprichos cativo!

Vero valor de vero respeito é motivo.

Então minha falta é tão vil, e tão ignara,

Que seguirá viva gravada em minha cara.

 

30

Sim, mesmo morto, a desonra frutifica

Como uma nódoa em meu áureo brasão;

Certa ignóbil marca na heráldica fica

A denotar-me autor dum disparate vão.

Minha posteridade, sob humilhação,

Maldirá meus ossos, e não verá pecado

Em desejar que não os houvera gerado.

 

31

Que ganho eu, ganhando aquilo que intento?

Sonho, alento, uma fugaz alegria.

Vale bom minuto semana de tormento,

A eternidade não mais que ninharia?

Por uma uva às vinhas se destruiria?

Que mendigo, só para a coroa tocar,

Com o cetro se sentiria fustigar?

 

32

“Se Colatino sonha com o que estou a urdir,

Não acordará e, numa fúria exaltada,

Aqui virá a tal vilania impedir –

Tal cerco a sua núpcia, destarte circundada,

Labéu à juventude, idade ultrajada,

Tal morta virtude, tal mancha duradoura,

Cujo crime portará culpa imorredoura?