A Fênix e o Pombo

A Fênix e o Pombo

de William Shakespeare

*

Que a ave da voz mais rumorosa,

Na palma que à Arábia só viceja,

Um grave clarim e arauto seja,

E acorram-lhe asas pudorosas.

*

Mas tu, emissário estridente,

Servil precursor do cão chifrudo

Augúrio do fim de febre e tudo,

Distante de bando igual mantém-te!

*

Que nesta sessão seja interdita

Alada tirana ave, é lei,

À parte da águia, plúmeo rei

Cumpri liturgia assaz estrita.

*

E o padre em sobrepeliz alvar

Que o cântico fúnebre domina,

Um cisne que a morte aqui divina,

Pr’ao réquiem direito não faltar.

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E tu, triplovivo corvo, cá!

Que o teu noturnal filhote fazes

Co’alento que dás e à volta trazes,

Dentre os enlutados tu estarás.

*

Aqui se inicia o sóbrio hino:

Amor e constância se extinguiram;

A Fênix e o Pombo já fugiram,

Recíproca pira, a seu destino.

*

Se amaram assim, e amor no par

Essência mantinha na unidade;

Distintos os dois, sem variedade:

Amores assim, banal contar.

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Um duplo indiviso coração;

Distância, e espaço algum mantinham

Em meio a si Pombo e sua rainha:

Visto isso nos dois, que admiração.

*

Então esse amor do par brilhava,

Assim via o Pombo seu poder

Nos olhos da Fênix a arder

E cada a cada meu chamava.

*

Inteireza fica então chocada:

Não é a identidade una;

Naturas unidas, dupla alcunha

De um ou de dois não é chamada.

*

Razão de si mesma cá deposta,

Por ver divisão união tecendo

Nenhum nem a si nem o outro sendo

Tão bem a mistura foi composta.

*

De modo que exclama, “Veraz par

Parece-me, afinado bem!

Amor tem razão, razão não tem,

Podendo o partido assim quedar.”

*

E disso compôs Razão tal nênia

Pra Fênix e o Pombo com honor,

Supremos, e estrelas do amor,

Um Coro à tragédia ali em cena.

*

NÊNIA

*

Beleza, verdade e raridade,

A Graça em total simplicidade,

Nas cinzas aqui jazendo em jade.

*

Morte é, para Fênix, seu ninhal,

E está do Pombo o peito leal

Gozando repouso eternal,

*

E sem dadivar posteridade:

Que não lhes impute enfermidade,

São núpcias ali de castidade.

*

Verdade semelha, não é nada:

Beleza se jacta, mas forjada;

Verdade e beleza sepultadas.

*

À urna mortal tu comparece

Que seja o veraz ou belo prezes

Aos pássaros mortos faz tuas preces.

*

Let the bird of loudest lay,
On the sole Arabian tree,
Herald sad and trumpet be,
To whose sound chaste wings obey.

*

But thou shrieking harbinger
Foul precurrer of the fiend,
Augur of the fever’s end,
To this troop come thou not near!

*

From this session interdict
Every fowl of tyrant wing,
Save the eagle, feather’d king:
Keep the obsequy so strict.

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Let the priest in surplice white,
That defunctive music can,
Be the death-divining swan,
Lest the requiem lack his right.

*

And thou treble-dated crow,
That thy sable gender makest
With the breath thou givest and takest,
‘Mongst our mourners shalt thou go.

*

Here the anthem doth commence:
Love and constancy is dead;
Phoenix and the turtle fled
In a mutual flame from hence.

*

So they loved, as love in twain
Had the essence but in one;
Two distincts, division none:
Number there in love was slain.

*

Hearts remote, yet not asunder;
Distance, and no space was seen
‘Twixt the turtle and his queen:
But in them it were a wonder.

*

So between them love did shine,
That the turtle saw his right
Flaming in the phoenix’ sight;
Either was the other’s mine.

*

Property was thus appalled,
That the self was not the same;
Single nature’s double name
Neither two nor one was called.

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Reason, in itself confounded,
Saw division grow together,
To themselves yet either neither,
Simple were so well compounded,

*

That it cried, How true a twain
Seemeth this concordant one!
Love hath reason, reason none,
If what parts can so remain.

*

Whereupon it made this threne
To the phoenix and the dove,
Co-supremes and stars of love,
As chorus to their tragic scene.

*

THRENOS.

*

Beauty, truth, and rarity,
Grace in all simplicity,55
Here enclosed in cinders lie.

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Death is now the phoenix’ nest
And the turtle’s loyal breast
To eternity doth rest,

*

Leaving no posterity:
‘Twas not their infirmity,
It was married chastity.

*

Truth may seem, but cannot be:
Beauty brag, but ‘tis not she;
Truth and beauty buried be.

*

To this urn let those repair
That are either true or fair
For these dead birds sigh a prayer.