Bicho Solto 6

Que dia, ontem, cria. Nem me fala. Milagres fez eles usarem umas roupinhas melhores, os sapatos já apertados, e subiram todos até a Gorete, de manhã bem cedo. E aí, fia? Bão? Bão, fia, minhas cadeiras estão me matando. Os dois tão dando muito trabalho? Eles se comportam, quando não se comportam eu grito e eles entendem. Eu não sei o que seria de mim sem você, Gorete. Que isso, fia. As coisas estão melhorando, eu vou poder pagar uma creche. Tomara, fia. Jefferson, Tobias, até de noite, a bença da mamãe, respeitem a Gorete. E esses dois, todos vestidos? Eles vão comigo hoje. O Lélio vai comprar roupa nova porque a mãe dele vem visitar amanhã. Apareceu? Apareceu, estava na Alemanha. Na Alemanha, fia? Depois eu te conto. E vocês, não querem um biscoito antes de ir? Os dois aceitaram, e se despediram constrangidos. Então nós vamos. Dia, fia. Dia. E então os dois rapazes seguiram a mãe, biológica ou postiça, morro abaixo até o ponto, e após esperar um pouco tomaram um coletivo com o letreiro Bairro de Fátima, desceram e caminharam até o salão onde trabalhava Milagres.

Não era a primeira vez que iam, e o protocolo era conhecido, sumir lá na copa e não incomodar os clientes. Mas o salão estava vazio, e eles se instalaram na sala de espera, a folhear revistas. Tu nem sabe ler, provocou o Chulé. Sei sim, tu que não sabe. Então lê aí. A atriz de vinte e oito anos anunciou a gravidez no último… Tá bom, tá bom. Lê você. Ah, não precisa. Não, lê, lê aqui. Chulé foi salvo pela perua entrando pela porta. Eles tiveram que ceder o lugar envergonhadamente, mas ela insistiu que eles ficassem ali, e tentou ser amável com eles, e comentou que ia passar horas se tratando porque merecia, enquanto Milagres se desembaraçava dos preparativos. Como a cliente aceitou um cafezinho, as duas entraram para a copa, e de lá saíram direto para a cadeira de lavar cabelo, e nisso os dois voltaram para a copa. A bolsa dela estava lá, dando sopa. Não falaram uma palavra. Chulé abriu o zíper, vasculhou e pescou uma carteira. Achou o documento, uma cédula de identidade antiga, meteu no bolso da bermuda. Olhou o compartimento de cédulas, ela tinha feito um saque grande em cédulas de cinquenta, pegou uma. Lélio fez que não com a cabeça, Igor fez que sim e no bolso a nota sumiu. Que horas são? O microondas dizia cinco e meia. Não pode ser. Saíram ao salão. Mãe, que horas são? Agora eu não posso ver, filho. A gente pode ir comer alguma coisa? Vocês acabaram de comer. A gente quer andar. Tá, mas juízo.

Ganharam a rua, o Bairro de Fátima estava inundado de luz e apinhado de gente. Tia, que horas são? Ela se assustou mas disse, dez e meia. Perto de meio dia eles tinham que encontrar o Tulim na escadaria Selaron pra ir à gráfica do amigo dele, ou antes onde o amigo trabalhava, então podiam gastar esse tempo comprando as coisas, e por ali era um bom lugar. Chulé viu uma loja, umas bolsas vistosas na vitrine, tudo de gosto duvidoso, mas que sabiam eles? Aqui, Lelim. Não, tonto, bolsa nova ele vai desconfiar, ali na Lapa tem um brechó de coisa usada. Caramba, maluco, tu é um gênio. Lélio sorriu satisfeito e eles deslizaram pelas calçadas movimentadas com seus sapatos apertados até lá. Cumprimentaram envergonhados a atendente, que foi pega lendo um livro e se levantou quando viu que eles queriam comprar mesmo. Escolheram uma bolsa de tamanho médio, feita de um couro sintético preto com uma costura de tela de galinheiro e já um pouco puída, acharam também uma carteira vermelha, grande e cheia de compartimentos, o Lélio se lembrou de regatear e os dois custaram só quinze reais. A próxima parada foi uma farmácia: lá pegaram um pacote de lenços, um estojo baratinho de maquiagem, Lélio pediu remédio pra cólica e anticoncepcional, o rapaz achou estranho, mas era muito caro e o menino optou por uma cartela de antiácido. E chave de casa? Foi a primeira ideia do Igor. Boa, cria, onde tem um chaveiro? Ele deve ter umas chaves velhas. E não foi difícil, conseguiram chaves de casa e de carro, por uma merreca qualquer, sem perguntas. E nisso já era hora de encontrar o amigo, dizia a televisão no restaurante da esquina.

E o Tulim já estava lá, chupando um picolé. E aí, cria? De boa. Vamo lá, então? A gráfica era bem perto, as luzes estavam apagadas e a plaquinha dizia fechado para almoço, mas o portãozinho lateral se abriu depois que o Tulim gritou o nome do Arnaldo, e eles entraram. Foram apresentados e olharam em volta, havia um monte de máquinas grandes, e um crucifixo na parede. Cadê o documento? Igor tirou o papel verde plastificado do bolso da bermuda e olhou a foto da madame. Dá aqui, Arnaldo tirou da mão dele. Esse modelo antigo é moleza, a gente faz no papel poroso, e aí cola uma película na foto, pra ficar brilhando, passa uma caneta na assinatura e plastifica. Os dois ficaram bestificados acompanhando o rapaz de uniforme operar as diferentes máquinas enquanto debatia futebol com o Tulim, até que ficou pronto o documento. Olha só, tá perfeito, lesk. Arrasô. Porra, valeu, Arnaldo. E trocaram um complexo cumprimento em que as mãos se batiam de diversas formas. Vai lá no Marta que eu te consigo uma dola. Demorô. Então os dois saíram pelo mesmo portão se despedindo e tomaram o rumo do salão. Estavam passando em frente a um restaurante e o Lélio teve a ideia de surpreender Milagres com o almoço. Mais adiante foi Igor quem pensou em comprar uma rosa para sua vítima, e o efeito foi muito positivo das duas ideias. A mãe disse que ficou preocupada, mas estava orgulhosa dos meninos. Eu vou deixar a flor do lado da sua bolsa. Muito obrigado, meu filho. E ele aproveitou para devolver o documento ao seu lugar. Mais tarde no fim do expediente cada um ganhou uma calça, uma camisa de botões e um sapato novo, Milagres empregava bem a ajuda da irmã.

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