Autorama 19

Quinze pras seis. Se eu conseguir garimpar um disco bom já salva o dia. Será que eu acerto o caminho? Não aceitar meu documento, puta que pariu. Putz, tá acabando o cigarro. Eu me lembro que chegando já na mania plena eu encontrei na PGR o Serjão, o goiano, o Mestre dos Magos. Pelo menos dessa vez ele não chegou do lado e disse “e aí, beleza”. Já estava no Banco Central ele, eu até hoje não sei onde piso. A gente almoçou lá na PGR e eu comecei a contar que a polícia estava me espionando porque eu passei em frente ao posto da UnB e uma viatura saiu na minha frente, e eu decidi essa era uma técnica avançada, seguir pela frente. Nessa época eu já estava virando as noites no computador “debatendo” política, de todos os lugares, no Orkut. Uma vez eu disse que precisava dormir e não podia continuar e no outro dia apareceu um texto em alguma parte que me colocava como “a última resistência humana”, e imagina como eu fiquei. Mas nesse dia com o Serjão eu me comportei, uns dias depois eu estava almoçando com colegas e comecei a falar alto, essa é outra coisa comigo, ou com a bipolaridade, já não sei separar, eu me entusiasmo e começo a falar alto. E eu dizia que sabia que estavam na minha cola, viajando, construí ali minha reputação no trabalho, que nunca foi grande coisa. E por essa época eu fui preso. Quer dizer, levado à delegacia. Ou preso mesmo, alguns minutos eu passei atrás de grades. Bom, depois de ter plena liberdade em Campinas, eu estava de volta pra morar com meu pai, e a Jessica, e num apartamento pequeno, provisoriamente. Então eu preferia ficar dirigindo por Brasília e ouvindo música e fumando maconha e eventualmente parava na rua das putas, que era perto de casa, pra comprar uma cerveja. Usava os serviços, também, tinha uma moreninha lá que eu me encantei, uma vez eu comecei a cantar em francês e ela disse que sabia que eu falava francês, é claro, eu estacionava ali e ficava ouvindo Etron Fou leloublan, uma das pirações que o Pedro introduziu no Coquetel do Mingus, nada demais nisso, mas eu já associei com Jesus e Maria Madalena, foi a primeira vez que eu me associei a essa figura. Nos tempos de Campinas eu cheguei a me tornar um daimista bem convicto, e foi uma ótima experiência, mas minha verdadeira fé é no ceticismo, e eu levo a história muito a sério para aceitar o cristianismo como alguma verdade privilegiada. Um ponto de taxi. Mas a prisão, né? Amigo, você sabe onde é o Sebo Casarão? Sei sim senhor. Tem como me levar lá, estou com um pouco de pressa. Complicado, essa hora tem muito trânsito. Então pode deixar. Não ia mesmo dar tempo. Ou será às sete que eles fecham? O senhor sabe que horas fecha? Sei não senhor. Obrigado. Bem, vamos andando, quem sabe? Só segurar esta pasta que já deu no saco. Nesse dia, ou nessa noite, eu estava fazendo a ronda habitual, já loucaço, mais da mania que de birita ou fumo, e quando eu passei na rua das putas a polícia estava enquadrando uns miseráveis. Eu achei que era obrigaçãominha parar o carro e gritar “para de perseguir preto, pobre e puta!” Na mesma hora os molambentos não eram ameaça nenhuma e todos os canas vieram pra cima de mim. Eu não posso lembrar o que eu disse, mas eu certamente não xinguei eles de filho da puta igual escreveram. Me puseram na traseira de um SUV, era um modelo chamado X-Terra, e isso me remeteu ao jogo de RPG que eu era viciado quando moleque, e nunca tinha terminado, então eu já pirei que tinha sacado tudo, e que a resposta final era amor. Espaço-tempo-amor. Claro que não era. Me tiraram do camburão e me enfiaram na delegacia. Dentro da cela, minúscula, tinha um fodido, mais ou menos como os que estavam tomando baculejo quando eu tive a grande ideia. Ele foi arrancado de lá pra sabe-se qual destino e eu fui jogado pra dentro. Preso na grade tinha um pedaço de papel, e eu peguei, era alguma baboseira religiosa, mas pra mim tudo tinha um significado metafísico imenso. Aí eu fiz, bom, em algum momento eu fiz alguma coisa que eu não me orgulho muito, que foi apelar pro papai, Otoridade com ó maiúsculo, como eu frisei. Meu pai nunca tomou meu lado, nunca disse que a polícia não tinha o direito de me prender, e ficou conversando com o delegado em tom condescendente. Pra casa do caralho. Meu pai chamou um primo milico, milico! pra me enquadrar, que direito esse filho da puta tem? Depois ele se nega a admitir que apoiou gostosamente a ditadura. Mas enfim. Ainda tive que fazer exame de bêbado, que afinal era a única coisa errada que estava fazendo, mas no fim não deu nada, sorte ou privilégio branco ou o que seja, o meu “crime” foi arquivado e a multa foi cancelada por alguma tecnicalidade.Eu lembro que eu entreguei o papelucho de outro preso a meu pai, disse que guardasse, e os polícias é droga, é droga? Essa obsessão com droga. Eu queria dizer que nunca fiz nada parecido, mas não faz muito tempo eu não estava muito bem da cuca e fui ali pro Parque da Aclimação em São Paulo, e tinha um batalhão marchando e entoando seus gritos de guerra e eu comecei a pensar em voz alta e chamei eles de fascistas. Do nada tinha uns cinco em cima de mim, eles têm uma técnica, essas coisas que eles aprendem dos israelenses que treinam os canas aqui, de ameaçar sua traqueia. Quando eu foi internado em Brasília dessa última vez foi assim, são soldados que cuidam dos loucos, pelo visto. Acho que a Barão de Jaguara está do lado de lá.

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