Bicho Solto 2

Caraca maluco, terceiro pão que tu come. E qualé o problema? Ei vocês dois, se comportem. Faz um favor pra mim, os dois, vão levar os menino na Gorete. Termina, lava a louça e vai. Sem reclamar. Hoje a agenda tá cheia. Os menino era o Jonata de cinco, que tomava banho, e o Miguel, que não fazia muito que andava e estava preso no cercadinho improvisado. Saíram juntos, mas Milagres descia pro asfalto e a Gorete morava no topo do morro, perto do promontório. O dia estava nublado e o calor era menos, Igor deu a mão ao pequeno e Lelo brincava com um ioiô, de olho no outro. Passaram por um menino descalço que vendia sacolé, e o irmãozinho começou a pedir, então chegaram lá em cima chupando os saquinhos coloridos. A Gorete estava esperando, ofereceu bolo e café adoçado, os pequenos ficaram e então Chulé e Lelinho naturalmente foram até a pedra fumar um matinal. A chuva parecia iminente.

Desta vez foi o Chulé que dichavou uma pedrinha, na palma da mão, processo rudimentar e demorado, mas iam conversando. O mais fácil é roubar correntinha, ou bolsa; um olha se tem polícia, o outro dá o bote e sai os dois correndo, mas o melhor é passar uma mulher. Já é. Vamo lá no Largo da Carioca, muita gente passando. Muita polícia, cria. Se alguma coisa der errado, cada um sai correndo prum lado e a gente se encontra meia hora depois na Cinelândia. Eu não conheço esse pedaço, objetou Lelo. Vai conhecer. Tem uma seda aí? Ih, malandro, nem tenho, tu também não tem? Ficaram desnorteados com o impasse por um tempo. Talvez seja melhor fazer essa função careta. Besteira. Iam descendo quando um grupo chegou, pareciam turistas, e descolaram uma seda, daquelas gringas mesmo. Chulé mostrou que rivalizava com o amigo no ofício de fazer um belo baseado, e acendeu sua obra de arte. Aí, maluco, hoje à noite a gente tá aqui de volta com a missão cumprida. Tomara, primo. Antes do meio do baseado as gotas começaram a precipitar, e tanto eles quanto os turistas tiveram que se abrigar no bar mais próximo.

Parando a chuva eles desceram pro asfalto, até a estação de metrô. Olharam em volta e pularam a catraca, metendo-se no trem até a Carioca. Alguns passageiros reagiam à passagem deles, com uma careta ou apertando a bolsa, mas aquilo era o de sempre. Uma velhinha branca ofereceu esmola, e foi melhor aceitar constrangido. Descendo na Carioca havia uma feirinha, eles ficaram olhando. Lelo parou numa banca de livros, ele se lembrava quando a filha do patrão lia histórias pra ele, mas nunca aprendeu a ler. O outro o despertou do transe e o convocou para se postar num lugar conveniente. Havia uma caixa de telefonia, então Chulé deu as instruções: eu fico olhando as madames e se tem polícia, e você fica atrás da caixa, quando tiver uma vítima eu jogo uma pedra na caixa e você tenta roubar a bolsa. É ruim, hein, vai você. Não tinham combinado esse detalhe. Vai você, se der errado a próxima sou eu. Tá bom, vai. Qualquer coisa, já sabe, na Cinelândia. Não pode ser uma bolsa grande. Tudo bem. Depois de alguns minutos passou uma coroa, sozinha. Chulé jogou a pedrinha e Lelo deu um impulso para ir atrás dela, mas chamou a atenção da mulher, que se virou e começou a gritar socorro e ladrão. Cada um disparou num sentido como combinado, ofegante e assustado mas ligeiramente excitados com a aventura.

Lelo teve dificuldade de achar a Cinelândia, tentava pedir informação e viravam a cara pensando que era esmola. Quando reencontrou o amigo, ainda foi repreendido: não é pra pular assim feito um boneco de mola! Ah, é, então vai você, então. Tu vai ver. Melhor achar outro lugar, vamos aqui pelo lado do aterro, Chulé ainda comandava. Andavam pelo jardim e pouca gente circulava, mas de repente vinham lá o que pareciam avó e neta, totalmente frágeis. Chulé disse à meia voz: é essa aí. Mas a velha já estava ressabiada, e quando Chulé tentou puxar sua bolsa ela resistiu, derrubou o ladrão atrapalhado no chão e começou a bater nele com o próprio objeto do roubo, a neta contribuindo débeis pontapés. O amigo já ia longe quando ele conseguiu se desvencilhar, e depois de fugir na direção contrária feito um azougue, foi até o ponto de reencontro. Não era fácil? provocou Lelo. Você devia me ajudar, não correr! O combinado era correr. Sem chance, a gente precisa de uma peça, malandro.

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