Autorama 18

Eu tinha me mudado pra Brasília em dois mil e cinco, após a morte da mãe a gente quis reunir a família; eu mesmo não tinha muito tesão em morar lá, e acabei vivendo dez anos. Do meu projeto de me tornar músico e engenheiro de som eu não tinha me tornado nada, e nem bancário eu era mais, e comecei Geografia na UnB. Foi uma tremenda farra enquanto eu estive lá, Peter Pan da porra. Teve uma festa que a gente organizou naquela tenda estilosa da UnB, e foi escalada uma banda chamada Zé Recado e Tommy Nota, só pelo nome, era uma bosta, um acampamento em que eu levei a bateria, voltei em casa pra buscar o pedal que ficou pra trás (até o que é perto é longe em Brasília, imagina o que é longe) e quando foi à noite eu dormi em vez de tocar, a mesma fita em que eu e um grupo perdemos a carne e a cerveja porque disseram que dava pra voltar pelo leito do rio e levou horas, ou quando eu fiz festa lá no prédio do meu pai, a gente começou a escalar as estruturas e um japonês veio brigar com a gente sem falar português direito. Teve uma vez no CA que eu disse pro Rico,que era da Ceilândia, que não era playboy, e ele disse que pro pessoal da quebrada dele eu era sim. Só não foi meu primeiro choque de classe porque ainda em Porto Velho a gente morava num condomínio, modesto, que uma empreiteira largou lá… inclusive o Cojubim era sobra da construção da Madeira-Mamoré, que matou muita gente e não serviu pra nada com o fim do ciclo da borracha e o Condomínio das Acácias se não me engano era sobra da usina de Samuel, que também não produz energia. But I digress. Sei que do lado de cá do muro tinha uma piscina e uma quadra, e do outro um charco e uns favelados ou beiradeiros, gente na merda. Um dia ventou muito e o muro caiu, os miseráveis apontavam o dedo rindo da gente, felizes da vida porque ao menos a gente se fodeu um pouquinho. É foda. Mas voltando a Brasília, logo no primeiro semestre já aconteceu uma greve, e nesse mesmo tempo eu descobri que tinha sido nomeado no concurso do MP, que eu nem estava acompanhando, e fui assumir lá em Joinville. Foram outros dias de porralouquice, de ir pra Florianópolis e pegar fumo no morro, ir pra Oktoberfest… eu tinha ido a duas Oktoberfest com o povo da Computação, mas dessa vez aquilo já não agradava, parecia besta. No fundo, sempre foi besta. Festival de tosquice.Foi um mês morando em Barra do Sul, na praia, e trabalhando em Joinville, eu pegava a estrada pitando um na ida e na volta, e às vezes o céu estava nublado e eu me esquecia se ia ou voltava. Eu fui a Londrina, bati o carro (não me acelera não), e depois eu caí no mar com a chave do carro da locadora, inventei que conseguiria achá-la com um ímã (ideia idiota), e quando eu cheguei lá de volta já estavam guinchando a porra do carro. Todo esse período eu já estava na curva ascendente da hipomania. Então eu voltei pra Brasília, pra PGR, e as aulas da UnB recomeçaram, só que eu comecei a fazer performances tanto num quanto noutra. Tinha uma professora lá, super respeitada, eu comecei a fazer um monte de pergunta incômoda e saí da sala dizendo que aquilo era uma palestra, não aula, mais ou menos como com o Jurandir na Unicamp. Uma disciplina que eu fazia era Introdução à Filosofia com o Basali, que tinha sido uma figura carimbada na Unicamp, embora eu não tenha conhecido, um tremendo mau caráter no fim, eu o considerei amigo um bom tempo e ele me via como um dos admiradores dele, nunca dei motivo. Mas eu estava gostando da disciplina, e se eu já gosto de participar das aulas, imagina maníaco. Ele disse depois que eu estava tentando “sentar na cadeira do maquinista”, brilhar mais que ele, mas eu estava era doido. Teve um dia que eu saí do trabalho, fiz um beque, fui fumar lá no parque da cidade e achei que um negão que veio passar cantada era um espião atrás de mim, não sabia que era ponto de paquera deles ali. Eu me lembro até hoje da Milena rindo de mim por isso. Gatinha. De lá eu fui à aula, cheguei atrasado e ele estava falando sobre o oráculo de Delphi, e eu já entrei comentando sobre o Plantas dos Deuses, onde eles especulam que eram solanáceas que eram usadas, só que de um jeito tão afetado que o Basali ficou me zoando: “esse é o cara”, mas como eu já andava na onda do Matrix e da megalomania mística, eu achei que era aquilo mesmo, eu era o predestinado. My name is Leo. O Basali passou Prometeu Acorrentadoe pediu uma resenha, então eu fiz um texto satírico, que acabou virando a primeira parte da saga Os Mansos Herdarão a Terra, desenvolvida em trechos ora mais ora menos lógicos ao longo de minhas várias crises, misturando falsa mitologia com falsa religião e falsa matemática. Eu convivi com matemáticos na Unicamp, e o Marcelo ex-Cabelo uma vez disse que foi a um evento sobre teoria de nós, e que a história basicamente era que todos os nós se resolvem em R^5. Então quando eu pirei eu escrevi no papel: espaço-tempo-amor. Sem saber resolver o exercício mais simples de homologia, sem entender nem a relatividade geral, eu queria reivindicar uma descoberta revolucionária: o amoré constitutivo da realidade, e isso basta para que todos os nós se desatem, não é bonito? Opa, Moraes Salles, eu desço aqui.

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