Bicho Solto 1

Aí Chulé, aí Lelinho, o Camarão quer ver vocês. Os dois estavam sentados lado a lado no banco inteiriço e debruçados sobre a mesa comprida que ocupava os fundos de uma casa modesta, uma de milhares apinhadas uma em cima da outra na escarpa de um morro, sob um sol inclemente. Do lado de dentro, três rapazes só de bermuda se dedicavam a com serras manuais dividir os grandes tijolos de maconha em pequenos tabletes, os quais eram despejados na mesa lá fora para que os meninos mais novos apenas os guardassem no saquinho plástico, acrescentando a marca daquela boca, que era o Sonic do videogame. Que será que o dono da boca queria? Ficaram naturalmente nervosos, entreolharam-se, quase a cópia um do outro, mas sabiam que não tinham pisado na bola. Pegaram cada um suas coisinhas e acompanharam o capanga do chefe, que trazia um berro na cintura. Desceram a rua estreita cruzada todo o tempo por motocicletas, passando por um boteco e por uma banquinha vendendo biscoito e água em copo, ou antes o copo, usado pra fumar crack. Um sentinela armado marcava a fortaleza do chefão da boca, que no esquema da droga era um soldado raso, mas gozava de poder local. Era uma casa sem acabamento ordinária, e lá morava uma família ordinária, o truque era uma passagem escondida que levava a uma espécie de caverna nas entranhas da estrutura erguida contra a queda de barreiras, décadas atrás. Vinham todos todo o tempo em silêncio, o que não era bom sinal pros meninos; eles trocaram um último olhar que ao mesmo tempo reafirmava a lealdade e sondava algum segredo do outro antes de escorregarem com seus membros finos para o subsolo.

Chulé se chamava Igor, sua mãe era cabeleireira e havia sido abandonada com ele e dois mais novos. Ele teve vizinhos e parentes por creche, e as letras mais rudimentares na escola da prefeitura lá no asfalto, mas depois o movimento brilhou nos seus olhos, a grana e o respeito que os moleques tinham, e ele começou como vapor, ajudando os usuários a comprar, os traficantes a vender, e a polícia a ser detectada e denunciada por códigos complexos se ousasse aparecer. Lélio era filho único da irmã de criação da mãe do Chulé, que era, ou antes fora, uma prostituta de até certo “prestígio” em certa casa de um bairro nobre onde ela não podia pagar nem uma vaga de estacionamento. Ele foi criado muito tempo pelo pai, que é caseiro numa cidade serrana, mas a namorada nova do proprietário decidiu que ele tinha que ir embora, e com a tia e o primo ele foi viver no morro. A essa altura o Chulé já trabalhava no endolamento, e Lelinho entrou direto ao lado dele, sem nunca ser vapor. Quando ambos foram postos diante do Camarão, secundado por um traficante de fuzil de cada lado, a primeira pergunta foi: aí, crias, quanto tempo cês já tão no endolamento? Faz mais de ano, Camarão, assumiu a dianteira o Chulé. Faz um ano, é? Tempo passa. E eles são responsa, Binho? perguntou ao que os trouxe. São, chefe, trabalham certinho. E tu quer mesmo virar bicho solto, moleque? Eu? fez o jovem. Sim, tu. E tu? E os dois garantiram que queriam virar bicho solto, sim. Coé, pra trabalhar na boca tem que ser cria, cês são cria? Claro, claro. Mas cês são cria fiote, fiotim demais. Tem que perder o cabaço pra trabalhar na boca. Houve um breve silêncio. Tem que cometer algum crime. Sete-um, assalto, morte, só estrupo que não, senão não pode ser da boca, vai empacotar as comprar dos bacana no supermercado, tá entendendo? Claro, Camarão. Os dois iam sendo conduzidos para fora quando o chefe completou: dá o pagamento em dobro e uma dola de vinte pra cada, vocês têm uma semana para provar que cometeram um crime e trazer a prova, nem precisa aparecer no endolamento. E ó, gente do asfalto, se tu roubar no morro, morre.

A primeira providência que tomaram foi fumar um para pensar no que fazer. Para isso, primeiro garantiram um guardanapo no churrasquinho da praça, depois subiram até o topo do morro, onde havia um promontório donde se via o mar lá embaixo, sob uma luz já crepuscular. E agora, primo, a gente faz o que? Passar uma madame no asfalto. Lelinho olhou a paisagem pensativo enquanto dichavava, sem responder. É moleza, retrucava o Chulé, é só um teste, malandro, depois a gente opera a boca, aqui em cima, na maior limpeza, polícia arregada… e fica rico, moleque, manda na boca, você vai ver. Mas lá embaixo tem polícia, preocupava-se o que torcia o baseado. Aí é que está, a gente trabalha em conjunto, não tem como dar merda. Uma vez lá no asfalto eu entrei na padaria e pedi um suco, morou? Me disseram pra esperar lá fora, e depois nem cobraram. Eu ia pagar, malandro, tá entendendo? Eu ia pagar, queixava-se Lélio dando o arremate a um beque bem feito. E dali em diante o acordo tácito era que não se falava daquilo enquanto eles curtiam o beque e o pôr do sol, de modo que passaram a provocar um ao outro pelos times de futebol. Na descida, o Chulé teve uma ideia e carregou o amigo-quase-primo até o modesto comércio da favela, movimentado com os trabalhadores que voltavam àquela hora, e de lá saíram com quase um quilo de carne de primeira, um tremendo presente para Milagres, e para eles mesmos. Ela nunca questionava a origem do dinheiro, e até preferia vê-los ajudando como podiam a de volta na escola.

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