Hilário 6

O primo do Hilário parou o carro perto do hospital e os dois percorreram o corredor ouvindo a cantiga dos sapos. O sol terminava de se pôr. Hilário, mais baixo, estava todo de preto, com a estampa do Fear of the Dark, seu primo Chico Doido, um magricela, usava jeans e a capa do Seventh Son, além de um rabo-de-cavalo. Mas olha, preveniu Hilário, o Dalton é careta pra porra. Tocaram a campainha, e a mãe de Dalton abriu e os deixou entrar. O herói do dia, o duplo herói, veio do quarto, foi apresentado ao Chico Doido e colocou uma fita de Iron Maiden pra tocar. O primo puxou assunto sobre a terceira camiseta da banda inglesa na noite, a de Dalton: Essa capa do Powerslave é foda, maninho. É mesmo, né? Hilário protestou: esse disco é sem o Bruce, hoje é homenagem pro Bruce. Então mexe lá você, e o amigo operou os comandos pra adiantar a fita. Minha mãe chama ele de Brucidiço, né mãe? Grande dona Anita. O Chico viu o Iron no Rio. Ca-ra-lho! Eu nunca saí de Porto Velho. E como foi? Porra, foi muito doido, eu tinha tomado… parou com o gesto do primo. Doidera, mano, lotadaço. Boneco do Eddie, meu, na minha frente, que foi aquilo. Nisso a porta se abre, e entra o pai de Dalton, visivelmente bêbado. A mãe se apressa em conduzi-lo para o quarto, o filho fica apreensivo e as visitas sem jeito. Então, vamos indo, Dalton? Vamos, eu vou pegar a carteira. Fez isso e tocou a porta dos pais. Tá tudo bem? Tudo filho, garantiu a mãe, que tirava a roupa do marido deitado. Então eu vou indo. Vá, filho, mas juízo. Claro, mãe.

Entraram no Golzinho quadrado pilotado pelo Doido e tomaram o caminho da cidade, seguindo a pista que subia para a BR, mas virando à esquerda em certo ponto. A partir dali a estrada era de terra e sinuosa, e havia poucas casas, de madeira, num trecho quase rural, ao qual seguia um bairro mais urbanizado, mas não muito, que era o Tucumanzal. Bastou virar a terceira à esquerda que lá estava o Bar do Maurão, tocado por um maranhense azinhavrado e barrigudo que fazia as contas de cabeça e tirava a prova do nove, daí o Novesfora, que acabou virando o nome popular do lugar. Apenas Dalton ia pela primeira vez, e ia reparando os diversos carros parados, o muro coberto de hera, o luminoso com logomarca de refrigerante, e passando o portão havia uma casa simples lá no fundo, enquanto mais perto deles havia um barracão de telha de amianto, onde se viam quatro mesas de sinuca encardidas, uma dúzia de mesas com suas cadeiras metálicas trazendo publicidade de cerveja, e o palco improvisado. A bateria tinha uma peça de cada cor, e muitas menos que as do Nicko, mas brilhou aos olhos do rapaz, ele era louco por bateria. O mais velho do grupo chamou os outros pra buscar uma cerveja lá na casinha. Quer uma Dalton? Não, eu não bebo. Você não pegou um porre outro dia? Vai te catar, Hilário, disse ele enquanto comprava um guaraná. Instalaram-se numa das mesas, haviam chegado cedo e o bar estava ainda vazio. A música não tinha nada a ver com Iron Maiden, estava mais pra brega, e os três comentaram. Chico foi lá dentro, conversou com o Novesfora e voltou sinalizando que ia até o carro. Que bar diferente. É a casa dele. Aqui é tudo meio improvisado. Eu nunca tinha vindo no Tucumanzal. Tucumanzal é o canal. O Alemão disse que só tem cheirador de merla. Merla se fuma, tonto. O Alemão deve saber, o pai dele é traficante. Mentira. Uai, é o que todo mundo comenta. Eu nunca ouvi isso. E não é verdade. Eu acho o Felipe meio babaca, na verdade. Todo mundo que passa de carro na frente da escola pra se amostrar é babaca. Ele me ofereceu cigarro hoje. E você fumou? Fumei mas tossi muito. Puta fria fumar cigarro convencional, maninho, vai por mim. Era cigarro de cravo. Pior ainda, coisa de playboy. Foi então que voltou o Doido segurando um tanto de cassete nas mãos, e seguiu lá pra dentro, de onde passou a se espalhar a guitarra distorcida do Black Sabbath.

Ele voltava de lá com fichas de sinuca, e os três jogaram por muitos minutos, primeiro de simples entre eles, depois em duplas, com outro camarada que já estava lá para o show. Dalton era chamado de café com leite, e isso o irritava. Ora, se mal tinha jogado antes na vida! Depois do segundo refrigerante, que o funcionário servia no saquinho com canudo e guardava a garrafinha, Dalton criou coragem e pediu uma cerveja. O rapaz perguntou sua idade, ele entrou em pânico e saiu correndo. Ele falou com Hilário, que tirou um sarro e falou com Chico, que tirou outro sarro, e foi buscar uma lata de alumínio duro com cerveja quente para o menino. Menino. Estava chegando mais gente, boa parte de preto, e eles já tinham que escolher entre manter a sinuca ou a mesa, e voltaram pra mesa. O Chico Doido foi lá dentro virar a fita, que trazia AC/DC do outro lado, e aproveitou para subir o volume. Ele era cumprimentado por todo mundo que ia chegando, e respondia com sua dicção atrapalhada. Dalton não entendia a graça de tomar aquela coisa amarga, mas na segunda já estava acostumado, o Hilário até recomendou que fosse com calma.

Nisso o Novesfora se enchia, a maioria era homem, e as poucas mulheres geralmente acompanhavam um maluco, então chamou atenção de todos quando um grupo de cinco moças entrou pelo portão. Dalton bateu o olho numa morena alta, de lábios grossos e cabelos lustrosos de tão negros, meio índia, metida em calça e jaqueta jeans, naquele calor, e as outras mal lhe interessaram. Mas os amigos comentaram da baixinha de cabelo vermelho falso de blusa rasgada ou da branquela de vestidinho. Era ousado mulher andar “sozinha” na época. Foi o Hilário quem teve a teve a ideia, abordou a cabeça vermelha e ofereceu a mesa a elas, e outros marmanjos cederam mais cadeiras. Eles ficavam com o crédito e uma boa oportunidade de puxar conversa. E assim todos se apresentaram brevemente antes que o trio passasse a circular a pé, o nome da índia era Ludimila, Dalton tratou de guardar. Ele já estava meio alterado com duas latas, e não quis mais beber, mas se sentia homem, não era? Depois de conversar sobre nada muito sério e alternar entre o bar, o pequeno gramado e lá fora por um tempo, eles viram chegar a Kombi que trazia o The Trooper. Tinha um adesivo na lateral, superprodução local. Desceram os cinco músicos com suas calças apertadas e rebites e enfeites heavy metal, e suas feições amazônidas. Pareciam estrelas, mas trocaram um cumprimento com nosso trio e entraram. Logo após Chico Doido sacou do bolso um baseado apertado e acendeu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s