Livres?

A religião diz que Deus nos deu livre arbítrio. Primeiro que ao menos às leis da física eu estou condicionado, então o arbítrio não pode ser tão livre assim. Não posso bater os braços e sair voando, certamente. Segundo que ele nos faz de joguete, porque apesar da liberdade Ele nos ameaça com a danação eterna por nada mais que tocar os próprios genitais. Mas não era nem sobre religião nem sobre genitais que eu ia escrever. É sobre essa ideia de livre arbítrio. Não só nossa liberdade é tolhida pela realidade física, mas pela realidade simbólica (qual é o conteúdo da consciência de cada um) e pela realidade social (tem liberdade de ação quem tem dinheiro). Até o tempo meteorológico nos impede de fazer o que a gente queria, às vezes!

Eu mesmo, no último episódio de mania, um desses de megalomania mística, cheguei à conclusão de que tudo era determinístico. Um lagarto que vir um mosquito vai projetar sua língua para capturá-lo, não há outra opção. E nós também, só porque temos linguagem e um universo simbólico não somos ontologicamente algo apartado do reino animal. Nós sempre reagimos aos estímulos conforme nossa natureza individual, que foi moldada em experiências prévias. E se tudo é determinístico, essas experiências não podiam ter sido outras. Eu sei que é uma argumentação circular que não prova nada, mas mostra ao menos consistência interna. A imagem que eu usava era um videogame de simulação, de guerra, de cidade, de civilizações: cada personagem ali age de forma determinada, mas parece ter agência naquele plano de “realidade”. Nós vivemos na simulação mais avançada de todas, a real. Não há como alguns fenômenos serem determinísticos e outros aleatórios. Um lance de moeda só é aleatório porque a descrição newtoniana completa do evento seria extremamente complexa. Se a trajetória de um cometa é determinística, a trajetória de um ser humano também é.

Bom, aí eu superei a crise maníaca e tentei esquecer tudo isso, é claro. Outro dia eu estava na internet e topei um vídeo. Era compartilhado por alguém com quem eu não concordo sempre, entusiasta de internet das coisas e pós-humanismo, mas eu assisti. E a mulher dizia basicamente o que eu descrevi acima: que não há livre arbítrio, tudo é determinístico, até nossos pensamentos são fruto de reações químicas. Eu fiquei uns dias desconcertado. A ideia de não ter controle é desconcertante, a ideia de voltar a entrar em mania só de pensar nessas coisas é desconcertante também. Uma postura fatalista científica também não é muito diferente de uma postura fatalista religiosa, e aí como fica? Será que até este texto já estava fadado a ser escrito? Bom, de qualquer forma eu só publico porque ninguém vai ler, mesmo.

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