Hilário 5

Aqui. E Alemão meteu a mão no bolso. Gudang. Conhece? É cigarro? Cigarro de cravo. É coisa fina, importada. Nisso ele saca também um isqueiro e acende, imediatamente preenchendo a saleta de um cheiro forte. Quer um? Não, eu… Você tá virando homem, Dalton. Experimenta. Dalton levou o cigarro à boca e puxou o ar sem muita convicção, nem chegou a tragar. Boa, mas você não tragou. O gosto é forte. É assim mesmo. Todo mundo fuma na Califórnia. Olha só, puxa a fumaça e aí puxa o ar, e solta. Assim. Dalton então seguiu as instruções e teve um acesso de tosse que lhe levou lágrimas aos olhos e a uma série de contorções. Senta aqui, Dalton, descansa. E não diz nada… Já sei. A saleta tinha um banheiro, e dele saiu um casal fungando forte e mordendo a orelha, que passou por eles com um aceno envergonhado antes de alcançar a porta. Quando o rapaz já respirava normalmente os dois seguiram o mesmo caminho e retomaram a mesa no patamar elevado. Bete parecia estar furiosa, e o que o namorado disse em sua orelha pra acalmá-la vai saber. Você tava chorando, Dalton? Não, não é nada. Eu vou buscar uma coca. Bete sentiu o cheiro do Gudang, mas não disse nada, mulher deve ser complacente. Na fila do bar estavam Priscila e o barba rala, Dalton desistiu, entrou no banheiro sem estar com vontade de mijar. Lavou o rosto. Era hoje. Ele tinha decidido que era hoje que ia tirar a Priscila pra dançar. É simples. Imagina que ela vai dizer não. Retomou o projeto do refrigerante e logo depois seu assento. De repente ele olha e a coquete que ele elegera como musa estava discutindo com seu cara, ele a agarrou pelo punho, ela se desvencilhou e saiu correndo para os fundos. Deveria ir atrás ou era ousadia? Ficou, perdeu-se na conversa miúda, mas sua cabeça seguia cheia de Priscila.

E foi aí que começou a tocar música lenta, o momento tão aguardado da molecada. Era uma do Information Society, que eram mundialmente famosos apenas no Brasil nessa época. Irmã e cunhado não demoraram a instigar o rapaz a escolher uma parceira pra dançar juntinho. Toda hora instado a provar que era homem, Dalton apenas bateu olho em uma baixinha que nem da escola era, nem muito feia, e levantou-se confiante, disposto a convidá-la com toda galanteria. Mas a música acabou naquela hora, os pares se desfizeram, a baixinha foi escolhida e ele teve que escolher no susto, assim como no susto lhe saiu o pedido: Você quer dançar contigo? Era uma moça mais velha que ele, ela disse que ele era engraçado, mas topou. Ele se sentia meio intimidado ali, mas o perfume era gostoso, e ele fechou os olhos, se enlevou, estreitou mais a guria, que no fim o afastou: Calma, menino. Menino. Deu meia volta e ia subindo de volta até a mesa, que estava vazia, quando uma mão o segurou pelo cotovelo. Era ela. Ele não pôde dizer palavra, mas ela disse, com um sorriso encantador, Vamos dançar, Dalton? Oxi, foi sua reação instintiva, depois se achou besta, mas a esta altura seu braço já enlaçava as costas da donzela, o outro meio estendido junto ao dela, com as mãos atadas. Aí está, Dalton, tudo que você queria, e quem pediu foi ela ainda por cima! A música era uma da Sinnead O’Connor, mais triste que romântica, mas ele estava nas nuvens, o perfume era melhor que o outro, inebriante. Suas pernas seguiam o ritmo automaticamente, e seus olhos só se abriam às vezes, para certificá-lo de que era tudo de verdade. De repente, sua parceira é arrancada dele abruptamente: era o barba rala. Dalton não pensou um segundo, sua mão direita empunhada executou um arco que terminou na ponta do queixo do rival, que foi ao chão em câmera lenta enquanto os bailantes se afastavam, pasmos.

Ele, quando despertou do estupor, olhou pra ela, esperando que ela lhe chamasse de herói, mas ela estava furiosa, e soltou as palavras, machucando com gosto e olhar de desprezo: Você é um mulato atrevido! Não teve tempo de reagir, porque Almir e mais dois ou três da turma tomaram dele e o alçaram no ar como um herói, eles sim, eterno vingador da oitava série contra os marmanjos que as coleguinhas sempre preferiam. E ele lá no alto, digerindo a ofensa racial vinda de sua idolatrada. De volta ao chão, olhou em volta e não viu a irmã nem o Alemão, nem a Priscila nem o barba rala, e a música, que havia sido interrompida, foi retomada, mandaram Boys Don’t Cry, que sempre fazia sucesso, e era como se não tivesse acontecido nada. Desvencilhou-se dos colegas e foi procurar o Alemão na saleta, o mesmo casal de mais cedo saía e segurou a porta, mas ele não viu mais lá dentro que um trio de playboys com lenços na boca. O menino inocente nem sabia o que era loló, achou esquisito, e prosseguiu a busca. Eles também o buscavam, após terem saído pra buscar os chicletes importados no carro e perdido o nocaute que Dalton aplicara no cara do primeiro ano. Eu quero ir embora! Que aconteceu? No caminho eu conto. Alemão achou divertida a parte do soco, e Bete jurou se vingar da patricinha racista. Hilário? Fala cara, tá tudo bem? Tu tá com a bola lá em cima. Não me fala uma coisa dessas. Bora bater a cabeça, então? Bora. Daqui a pouco a gente passa aí. Beleza. Dalton tirou a camisa de botão e meteu a camiseta do Iron. O Hilário que tinha razão, puta coisa de playboy esse Cuba Libre. E se pôs a esperar acompanhado de seu leite com biscoitos, repetindo cada detalhe de tudo que tinha acontecido. Será que ele era homem agora ou não era?

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