Hilário 4

Dalton tomou café e foi andar de bicicleta, feliz da vida com sua mudança de sorte, que devia toda à irmã, a qual ganhou muitos beijos por isso. Ele pegou a Jatuarana e foi desbravando vários bairros longes do seu, e voltou na hora do almoço. A mãe tinha feito o favorito dele, bife a cavalo, e a batata frita era farta como só em dias especiais. A Bete contou de novo a entrevista com a diretora e todos riram a respeito, a mãe afagou o filho, o pai nunca se desculpou, mas ofereceu o estipêndio dobrado para a matinée. O Alemão vinha buscá-los às duas e meia, e o tempo foi gasto pelos irmãos com xadrez. Cheque. Oxe. Não esperava por essa, né? Ah é, por essa você não esperava. Danado, perdi minha rainha. Rainha, não, dama. Ah você é cabeção demais. Ela foi lavar a louça e ele, que acordou cedo, deitou, estava quase dormindo quando a campainha tocou.

Alemão estava todo playboy, corrente e tudo, e beijou Bete longamente antes de cumprimentar Dalton com um meio-abraço. Caminharam até o asfalto e entraram todos no Kadett preto rebaixado de vidros escuros. Pump Up The Jam era o que o toca-fita alardeava, através dos enormes falantes que tomavam o porta-malas, e faziam tudo vibrar. No trecho até a BR o motorista distribuiu chicletes importados. Onde você consegue? Como? Onde você consegue chiclete americano? Alemão abaixou um pouco o som. O chiclete? Meu pai voltou de viagem. Dos Estados Unidos? Da Colômbia. Seu pai trabalha com que? Para de fazer pergunta, Dalton! Importação e Exportação. A música subiu de volume de novo e foi assim até o Cuba Libre, na saída da cidade, todos eles calados.

O carro preto entrou no estacionamento de cascalho fino e dele desceram os passageiros, os únicos negros por perto. Havia um luminoso neon, apagado àquela hora, representando um copo com canudo e enfeite tropical, e a fachada era coberta de lantejoulas. Dalton e companhia entraram na fila e compraram e as entradas e as fichas, depois se instalaram em uma mesa. Dalton mesmo ficou muito pouco, e saiu lá fora a ver cada um que chegava, e fez isso por vinte minutos até que despontasse a camionete cabine dupla do pai de Priscila. Ela desceu, num vestido vermelho de bolinhas brancas meio retrô, a cabeleira falsamente loira em um laborioso arranjo, e tentou ignorar Dalton enquanto se encaminhava para a bilheteria, mas não foi possível. Oi Dalton, não tinha te visto. Tudo bem, minha irmã disse que você foi com ela falar com a Gilmara. Foi sim, você é sempre tão quieto, né? Injustiça. Puxa, eu não sei como agradecer. Não foi nada, eu só fiz o certo. Eu vou lá. Ah, tá bom. Ele entrou, meio desapontado, e foi buscar uma coca-cola. Cruzou com o Almir, outro colega de oitava B, que se apressou em mencionar a vitória da Bete contra a diretora. Tá todo mundo sabendo, cara. Você é um herói. Minha irmã é uma heroína. A gente tá combinando que vai jogar porradabol e não vai parar nem com o Lobi nem com a diaba em pessoa. É, né? Desculpa, Almir, eu tô com a cabeça longe. Tá tudo bem? Tudo sim, vamos no bar?

Depois de conseguir as garrafas de refrigerantes, os dois se separaram, e Dalton raspou a garganta para constranger os dois que se amassavam. Ainda era cedo e pouca gente dançava na pista, ao som de Eurythmics e sob luzes coloridas. Tá chateado, Dalton? Não, tá tudo bem. E como é esse show que você vai? The Trooper, eu não conheço não, o Hilário que já viu. É Iron Maiden, né? Isso. Eu não consigo ouvir rock pesado, interveio Bete. Barulheira. E onde vai ser? prosseguiu o Alemão. Lá no Novesfora. No Tucumanzal? É. Só tem fumador de merla no Tucumanzal. Eu não sei, eu só vou pela música. Sua irmã aproveitou pra contar sobre o recente primeiro porre, esquecia que já tinha contado, e o casal se riu, felizes com a iniciação etílica do rapaz tímido. Ele mesmo não passava muito tempo sem correr os olhos pelo salão composto de palco e pista e mesas em volta, e em uma delas Priscila conversava com um cara do primeiro ano com um arremedo de barba, que ele não conhecia. Então ele foi dançar um pouco, sem convicção, até que um palhaço da oitava A fez graça com sua falta de jeito e ele voltou pra mesa contrariado. Alemão estava só, e bastou Dalton chegar para que ele com um gesto dissesse um vem comigo sottovoce, meio culpado. Sem entender, mas feliz pela distração, ele foi, até a área do bar onde Alemão bateu em uma porta, cumprimentou o outro playboy que abriu, e introduziu Dalton em uma sala privada. Mas e a Bete? Ela foi se maquiar. Dalton, você sabe guardar segredo? Oxe. Você dá sua palavra que não conta pra Bete? Contar o quê? Promete ou não, homem? Tá bom, prometo.

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