Hilário 3

Dalton acordou e o céu na janela estava acinzentado. Será de manhã cedo ou de tardezinha? Só então se lembrou da surra, e da suspensão, e o relógio de pulso dizia que era noite. Lavou o rosto. Saiu do quarto e foi de imediato abraçado pela irmã. Como cê tá? Não, tá tudo bem. Eu conversei com eles, eles não acreditam, mas eu acredito em você. Eu conheço a Gilmara, e ela… Não fala esse nome. Leite, eu preciso de leite. E a irmã providenciou, e começou a preparar uma tapioca, já que ele nem tinha almoçado, enquanto ele foi até o telefone, na sala. Discou. Eu queria falar com o Hilário. O pai chegou e passou por ele, sem cumprimentar. Fala Hilário, aquela hora eu não conseguia… Cara, você não fez nada. Eu bebi pinga, Hilário. Minha cabeça tá doendo. Escuta, Dalton, vai ter um show de Iron no sábado. No sábado eu vou no Cuba Libre. Marrapaz, puta coisa de boy Cuba Libre. Vai se foder, Hilário, tchau… (Olha a boca, menino!) Espera, olha, o Cuba é à tarde, não é? Vamos no show à noite, vai ser lá no Pedrinhas, na Sinuca do Novesfora. É o The Trooper, esses caras mandam bem pra porra. Fala com sua mãe. Essa é a pior hora pra falar. Ou nem fala nada, meu primo tá de carro, ele te deixa em casa, no fim. Vou pensar, minha irmã está chamando. Comeu a tapioca e conversou um pouco, sem ânimo, tentou ver tevê mas estava morto, voltou a dormir e só acordou na manhã bem cedo.

Hilário chegou na escola com o motorista do órgão público onde seu pai trabalhava, e comprou chicletes na venda antes de entrar. Arrastou-se pelas aulas até o intervalo, quando quem o arrastou foi Bete. Que foi? Vem comigo. A Norma tá na sala da Gilmara, vamos lá conversar sobre a expulsão do Dalton, você é testemunha. Bete, todo mundo sabe que eu sou amigo do Dalton. Então chama mais alguém. Ei, Priscila! Sim, vem cá. E o amor platônico do pobre injustiçado foi arrolado como testemunha, não teve muita escolha. Por que Dalton insistia em cruzar sua vida? Bete, encabeçando o grupo e a demanda, bateu na porta, voltou a bater, e então ela se abriu, uma fresta, mostrando o rosto furibundo da diretora, uma falsa loira de meia idade. Gilmara, a gente veio conversar. Hilário tinha certeza que ia sofrer alguma retaliação. Agora eu estou ocupada, e é muita ousadia… Justamente porque a Norma está aí dentro, é sobre ela… e sobre você (já partia pra intimidação). Você, não, senhora. Entra, eu te dou cinco minutos, não, só ela. Mas! Bete entrou, apartou as pernas e trançou os dedos na altura da virilha. Gilmara, o Dalton não fez nada, foi muito injusto. Você é irmã dele, claro que vai dizer isso. Norma, você viu o Dalton fazendo alguma coisa? Eu não me lembro. Pois eu trouxe testemunhas. Olha, mocinha, a bagunça da oitava B já foi longe demais, teve um que desmaiou outro dia. Eu sou responsável por vocês, será que você não entende? Tudo que eu faço é para manter a ordem, e preservar vocês mesmos, garantir a educação… A senhora não tem prova contra ele. Seu irmão é da turma do fundão. Eu trouxe testemunhas. Tá bom, deixa entrar. Mais dois minutos. Cada um deles garantiu o bom comportamento de Dalton, e a diretora ia ficando sem graça, até que ela explodiu, saltou da cadeira e os enxotou, e a Norma também, para fora do escritório. A senhora vai ligar pros pais dele, pros meus. Tá bom, eu faço isso, tenham um bom dia. Enquanto a comitiva saía vitoriosa, chegava o Lobi, que foi lacônico: tão jogando porradabol de novo. Gilmara bufou, e hesitou sobre o que fazer, havia começado uma guerra em que não podia recuar, mas acabara de recuar. Alemão, quando avistaram o Lobi, foi o primeiro correr para a fila da cantina e despistar, os demais fingiram disputar uma partida normal de futebol bem o bastante para que o encarregado ficasse com cara de tacho quando voltou. Bete achou o namorado e contou a façanha. Marrapaz, tu é macha pá porra, hein? Macha não, eu sou é muito mulher, meu bem.

Quando Dalton acordou, seu pai ainda não tinha saído. Ganhou um dia de feriado, não é vagabundo? Eu vou estudar, pai. Tão logo ele se foi, foi a vez de a mãe deitar falação enquanto duraram as bolachas com leite, e então ele foi com gosto estudar para escapar da tortura. Ele já resolvia qualquer equação de segundo grau com facilidade na hora em que a mãe bateu à porta, acabrunhada. Dalton, a diretora me ligou e me pediu desculpas. Disse que você é inocente. Hein! Desculpa filho. Ele a abraçou forte, saiu correndo até o quintal e soltou um grito. A mãe passou café e eles tomaram. Dalton aproveitou o bom momento. Mãe, posso ir no Cuba Libre amanhã? Claro filho, eu vou falar com seu pai… E no show de Iron, também? É de noite. Ai, filho, onde é isso? No Pedrinhas. Eu adoro Iron, mãe. O Brucidiço, lembra do Brucidiço? É a banda dele, ou era. Tá bom, se teu pai deixar, mas juízo, viu?

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