Autorama 17

Vamos lá, taxa, residência, RG, CPF, foto. Em Brasília eu tive aquela brincadeira com a turma do David, oficina na escola de música, em casa com o Guilherme e o Trujas… e teve quando eu resolvi de novo ser músico, e decidi fazer um curso na Berklee, que acabou dando numa internação no estrangeiro. Em dois mil e nove eu desmarquei uma viagem pra França porque estava com sintomas, podia ter sido outra. A questão com a mania é que você acha que vai perceber que não está bem e procurar ajuda, mas quando ela entra você já não pode julgar nada direito. Só uma vez eu pedi ajuda e fui pra clínica numa boa, que foi dois mil e nove, depois que eu bati o carro no gramado da esplanada. Naquela época eu andava com o Basali e namorava a Lambisgoia, a gente tinha feito o protesto na embaixada de Israel, por mais uma incursão em Gaza; tinha uma dúzia de manifestante e uma dúzia de carro de polícia, a ideia era atirar sapatos (depois do Bush) melados de quetechupe na bandeira israelense. Quando eu fui no supermercado tinha uns caras monitorando, eu fui lá pedir fogo, foi divertido. Pois no dia que eu pirei eu passei no supermercado e comprei vinho, passei na embaixada e dei tchau pra câmera (achando que eu era importante) e achei uma grande ideia passear pela esplanada, até que o carro bateu numa caixa de esgoto. Depois espalhei umas caixas de CD no capô do carro, era uma mensagem para “eles”, seja lá quem “eles” sejam. E então eu fui voltando a pé, e capotei na casa do Zé lá em cima do Fausto. Nessa, eu mesmo pedi pra ser internado, foram só duas semanas, e tinha um cara que entrava com haxixe, ainda. Próximo. Até que enfim. Boa tarde. Eu vim renovar minha habilitação. Trouxe a documentação, senhor? Sim, está aqui: taxa, residência, RG, CPF, foto. Cinco e vinte. Senhor, este seu RG tem mais de dez anos. Claro, tem mais anos que você, filha, noventa e quatro. Eu só posso aceitar documento com menos de dez anos. Mas como assim, está válido. É a regra. Você não pode rejeitar me documento de identificação válido. Lamento, senhor. Vocês querem me forçar a tirar outro documento pra vender meus dados, que eu sei. Está sentando na mureta, Leonardo. Tá bom, filha. Traz o passaporte, você não tem passaporte? Tá bom, eu vou fazer isso. Puta que pariu, mas que raiva, dei viagem perdida, depois de trinta ônibus, informação errada, cagar na rua, e por nada. Eu podia tomar um café, ou eu podia tentar chegar no centro a tempo de comprar uns discos. Meio difícil. Agora tudo que eu quero é um cigarro. Ahh. Moça, sabe me dizer como eu vou pro centro? É aquele ali que tá saindo. Nossa, obrigado. Será que ele vai parar? Opa. Não deu nem pra fumar. Boa tarde. Vai pro centro? Vai pela Moreira Salles. Tá ótimo. Vazio, ainda. Lambisgoia. Eu conheci a Lambisgoia através do Basali, e o Basali em conheci na minha primeira crise em Brasília, em dois mil e seis. Ela praticamente me seduziu, mandava mensagem “come rain or come shine”, foi ela quem veio com uma florzinha quando a gente se beijou. Depois me largou do nada. Ou nem tanto, eu tomava um remédio que bombava meu libido. Uma vez eu quis contar uma cena de filme no meio do sexo, que tinha eu na cabeça. Acho que foi isso. Sobre protestar contra Israel eu nem ligo mais pra isso. Primeiro que você critica Israel e daí a prestar atenção a antissemitismo é um pulo, segundo que eu não faço nada pelos rohingya, pelos uigur, pelos curdos, pelos brasileiros que seja, então foda-se, a Palestina é uma causa de estimação da esquerda.

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