Hilário 2

Priscila acordou em sua cama macia, rodeada de bichos de pelúcia. Por que pensou logo em Dalton, ela não sabia dizer. Eu, hein. Escovou seus dentes e tomou farto café com a família toda antes de ser levada ao Pitágoras pela mãe. Era um prédio feio parecido com uma caixa de sapato, cheio de aparelhos de ar condicionado para fora, em dois pavimentos. Ela cumprimentou o zelador da escola, que chamavam de Lobi por ser hirsuto, trocou beijinhos com colegas e encontrou a turma do segundo ano, com quem ela gostava de andar para se sentir mais velha. No meio dela estava a Bete, com que ela antipatizava um pouco, e isso a fez lembrar que acordou pensando no Dalton. Beijos para cá e para lá, as moças combinavam de ir à matinée do Cuba Libre, e Priscila se apressou em se escalar para acompanhá-las. A sirene tocou e ela se encaminhou para a oitava B, no andar superior.

Também lá entraram Dalton e Hilário, que se sentavam no fundo, onde já havia algazarra àquela hora. Norma, a professora de português mal entrou e sentenciou: Eu me recuso a entrar nesta sala! E foi aí que a gritaria redobrou, Hilário saiu pulando pelo corredor, e ela de fato deu meia volta. Dali a pouco veio Marta, a coordenadora, que escolheu três da turma do fundão para levar a sua sala, dentre eles Dalton, talvez o mais comportado ali dentro. A professora retornou e a aula prosseguiu, Hilário encolhido e preocupado com o amigo injustiçado. Veio o intervalo e todos comentavam a tripla suspensão na oitava B, e o porradabol mal começou e foi interrompido pelo Lobi.

Dalton caminhou de cabeça quente até o ponto: não está certo, minha mãe vai me matar, e por aí vai. Perto do ponto onde descia, havia uma bodega, ele entrou e pediu cachaça, o comerciante nunca se importou com sua idade, serviu e serviu de novo, e Dalton tomou o primeiro porre da vida por puro despeito. A mãe percebeu, quando o pai chegou deu-lhe uma surra, no meio da qual Dalton revelou a suspensão para aproveitar o mesmo castigo, caindo no sono depois de chorar no chuveiro. Foi acordado por batidas na porta: telefone! Era o Hilário. Cara, como você tá? Uma merda, meu, zerado. Eu preciso dormir. Tá bom, tchau.

Quando Bete soube da suspensão do irmão, achou estranho, e várias testemunhas garantiram que ele estava quieto. Sabia que sua mãe nem ia ouvir, ela não ouvia nada nunca. Terminado o dia de aula, ela foi até o bar da esquina e comprou uma ficha telefônica, e depois até o orelhão alaranjado, onde ligou para o Felipe. Ele não morava longe, e ela caminhou quinze minutos até lá, passando pelas velhas caixas d’água. Tocou a campainha da casa cujo terreno ocupava meio quarteirão. Meu amor! Abraçaram-se forte, ela de pele escura e cabelo alisado, ele muito branco e de cachos loiros. Escapou de uma aula, hein? Joguei bola a manhã toda. Safado. Hoje foi o meu irmão suspenso. O Dalton?! Ele e mais dois. Por quê? Bagunça na aula da Norma. Só isso? A diretora tá tocando o terror. Que bruaca. O porradabol tá proibido, também. Filha da… E você, seu pai não disse nada? Meu pai nunca disse nada, nem quando eu repeti. Que inveja. Gata, meu pai vai liberar a charanga no sábado, vamos no Cuba? Vamos sim, amor. As meninas também vão. E o que o Dalton disse? Eu ainda não falei com ele. Posso usar o telefone? Claro, é ali na cozinha. Em instantes, ela voltou: ele está dormindo.

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