Átila 6

Eu resolvi ir ao banheiro e escapar daquele constrangimento, e só a garrafa de vinho me acompanhou. Mas você não tem lanterna. Eu me viro. Me ocorreu fazer um baseado, então eu passei na barraca; estava acabando, mas o feriado também, então eu fiz um gordo. Mais gente estava indo embora, pensei em chamar todo mundo pra fazer isso, já nem dava pra saber se ia ter Gnomo. Eu vi um cara de colete passando e perguntei, ele disse que iam trazer um gerador de Lavras. Então eu achei uma rede e fiquei me balançando e fumando, comecei a ter umas ideias para um programa… devia estar em casa. Tirei um cochilo, acordei com a Fernanda me chamando, ela não disse o que era, e eu corri até a área do palco. O rio tinha recuado e deixado um charco, e sobre ele havia uma confusão enorme que mal dava pra entender, mas eu entendi que eram os punks contra os carecas. E uma hora eu vi meu primo, apanhando do Zed, e saí correndo, dei-lhe uma no coco: Ele te deu carona, otário. Puxei o Sávio e voltei com ele pra barraca. Caralho, Sávio… mas não tinha vontade de ralhar, trouxe água, limpei um pouco o rosto dele. E a gente foi conversando, esqueceu daquilo tudo, foi reatando a camaradagem, fumou a minha ponta, quando de repente lá vem a luz azul e vermelha invadindo tudo. Caralho, porra, a polícia. O carro deles foi até o palco, eles questionaram umas pessoas aleatórias e foram embora de novo. Cadê o bourbon? eu disse ao primo quando ele voltou do banho, era a última garrafa. Eu fiz um beque, era o penúltimo, e a gente ficou por ali contando piada, foi divertido. Então chegou o caminhão com o gerador, e em mais uns minutos tudo voltou a funcionar, chamaram a próxima banda às pressas. Era a vez de Rolling Stones, que não era meu prato favorito, mas eu queria muito curtir o final de um festival tão movimentado. Uma hora eu intimei o Sávio: cadê o bright? Como assim, você nunca cheirou, meu. Pois é, resolvi experimentar. Não faz isso não, porra. Eu venci, entramos na barraca e eu cheirei no fundo da panela, só um tirinho pequeno. Eu disse que não fez efeito, mas quando voltamos pro palco eu estava dançando, o que nunca faço. Aí a gente topou o Lelo com chapéu de mágico, ele estava bem mais careta que no outro dia, mas topou uma bola. Falta essa e mais duas, ele disse. Eu desejei sucesso e dei um abraço. Caralho, Sávio, vamos tomar o ácido. Porra, ácido, demorou. Vai bater na hora do Gnomo. Então eu tirei da carteira o papel laminado, e lá de dentro os dois quadradinhos ligados pelo picotado, cujas cores representavam parte do famoso desenho da bicicletinha. Eu mandei pra língua e ele também, dando risadinha feito adolescente. As meninas passaram um tempo com a gente e estava tudo tranquilo entre todo mundo, a música era boa, rock’n’roll! Notei que o Sávio já estava todo sujo de novo, e a gente deu risada. Lembra quando a gente dormia junto no quartão e ficava escutando fantasma? Porra, faz muito tempo. Eu bulia na Carminha… Não. De repente, começou a bater. Você também? Uooou. Eu olhei em volta e as lâmpadas faziam um rastro. Em pouco tempo, estava deslizando na lama com o primo. E anunciaram o Gnomo Azul, que abriu com Starship Trooper do Yes. Uhu! O Sávio não curtia prog, nem as meninas, então aquele era o meu momento. A iluminação do palco parecia viva, e meu corpo parecia queimar como se eu tivesse mergulhado num tonel de pimenta. O tecladista usava capa de Rick Wakeman, o guitarrista fantasia de Conan, e o Lelo roupa de mágico. Que doidera. Agora era Gentle Giant, que foda. Veio à mente o programa que eu queria criar, eu já estava escrevendo. Podia me deixar rico. O Sávio apareceu com cerveja; não quero você andando com careca, moleque. Não, pode esquecer. Rolava King Crimson, muita gente já reclamava, os roqueiros intolerantes, e os fãs de prog foram tirar satisfação, quase rolou outro quiproquó. Chega de confusão. Caralho, mermão, Giant Hogweed do Genesis, esse som é muito foda. Essa eu fiz questão de cantar. Era como se minha voz fosse líquida. Tá feliz, hein? era a Marília, eu só sorri. Eu vou atrás da Fernanda. Tá bom. Agora era o medley do Pink Floyd, eles sempre fechavam com ele. Eu já estava pensando no banho e no saco de dormir, botar o Átila na estrada e voltar pra minha casinha. Mas o ácido ia tirar o sono. Tentei ler, mas as letras se misturavam, então eu fui achar as meninas lá na fogueira que fizeram numa parte seca, e fiquei por lá. Estava cansado. Que voz bonita a da Marília. Na manhã foi só desmontar e guardar tudo, o café foi em Carrancas, e na estrada, depois do último beque, todo mundo dormiu muito, até o Sávio deu o volante do Átila pra Fernanda pra cochilar. Foi uma sensação ótima entrar em casa e cagar no meu banheiro. Dentro de um mês eu tinha conseguido uma patente da minha ideia, um emprego melhor, e estava namorando de novo. A Marília.

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