Átila 5

Quando eu acordei fazia sol, e todos os malucos disputavam o melhor lugar para se secar. Dava pra sentir o bode coletivo da noite mal dormida, algumas barracas foram alagadas. Muita gente levantou acampamento e foi embora. Eu bem que queria estar em casa depois de tanta dor de cabeça, mas não antes de ver o Lelo, eu já tinha visto Gnomo Azul antes, e eles faziam os clássicos do prog nota a nota, era impressionante. O céu ia limpando mais, mas no horizonte chovia pesado. O almoço foi miojo com atum de novo, que era o mais prático. As meninas estavam sorridentes, tinham lembrado de trazer capa de chuva, e coberto a barraca, e era como se não tivesse acontecido nada. O Sávio andava mais calado, disse que ia ficar um tempo ouvindo música no Átila. De repente ele volta de cabelo raspado. Puta que pariu, o Sávio sempre foi boa pessoa. Eu fui direto: primo, você virou skinhead? Só porque raspei a cabeça? Não, é que… bom, esquece. A primeira banda do sábado estava começando, era o último dia e a expectativa alta. O gramado da plateia era agora obviamente um atoleiro, mas tudo bem, rock’n’roll! Era uma banda autoral, de heavy metal, e não me interessava muito, mas fiquei por ali tomando cerveja com o Sávio sem saber o que dizer. De repente veio a Fernanda conversar com o Sávio dizendo que precisava ir à cidade, coisa de mulher, ele não gostou mas aceitou levá-la. Começou a fechar o tempo, escureceu cedo, e chovia no horizonte, mas em outra parte. Uma hora apareceu o Zed andando com mais um tanto de punk, ele ofereceu conhaque, por que não? Eu me lembrei que ainda tinha vinho e não devia estar bebendo cerveja quente, e fui até a barraca buscar. Encontrei a Marília, lendo com pouca luz. Vai estragar os olhos, minha vó dizia. Pois é, escureceu. Eu ia abrir um vinho, quer? Claro! Então eu acionei o saca-rolhas, e ela tinha duas canequinhas metálicas que viraram taças de cristal. Fomos até o palco mas ficamos longe da sujeira, tinha entrado uma banda de Legião, a Marília gostava, mas tinha marmanjo vaiando. Você faz o que? Eu trabalho numa editora. Olha, que bacana. Design gráfico. Você é programador, não é? Pois é, escravo. Eu super admiro o que você faz. Então um murmúrio se ouviu e todos viram de uma vez que o rio subia como uma maré, ameaçando o palco, houve correria e de repente som e iluminação, tudo deixou de funcionar. Marília deu um gritinho e se projetou para frente, eu não pensei e a envolvi, como se fosse seu protetor, como ela não me afastou eu procurei sua boca e aproveitei os lábios mais açucarados da história. Mas eu tava fazendo uma sacanagem com a Fernanda, mas era uma que valia a pena. A Fernanda não pode saber disso, nós dissemos em uníssono após o beijo, o que era afirmar o óbvio. Ela começou a se sentir culpada, queria voltar pra barraca, mas estava escuro, e eu a fui acalmando. A gente combinou que não se repetiria, e que ia andar separado, mas era tarde, a Fernanda apareceu com uma lanterninha, e chegou cobrando: você trouxe minhas canequinhas pra cá? Eu entendi que o problema era dividir as canequinhas comigo, mas agi com toda naturalidade. Merda. Essa viagem era pra relaxar. E o melhor até agora tinha sido o cogumelo do Lelo, até rimou, e os ácidos? Clima nenhum pra tomar ácido, vai voltar pro Rio.

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