Átila 4

O tio que eu achei que estava só ajudando era na verdade um advogado de porta de cadeia, numa currutela do sul de Minas, e um tipo tão improvável quanto se podia esperar, ele limpava a careca com um lenço e forçava os sorrisos encimados de um bigodinho. O Átila estava do lado de fora da delegacia de Carrancas. Agradeci ao advogado tentando me desvencilhar, ele disse que aguardaria ali, e lá ele ficou, segurando a pasta na noite quente. Disse ao policial na entrada do que se tratava e ele disse que aguardasse ser chamado. Eu tinha bebido um bocado já, e foi uma tortura aquela espera, mas me levaram à sala do delegado. Ele usava colete, e cabelo militar, era novo, apontou a cadeira. Então ele começou a discursar sobre o flagelo das drogas, a decadência da sociedade, e de repente me deu vontade de vomitar. Onde é que é o… bleeeergh. Caralho, o que é que eu fiz. Vou ser preso eu. Um policial tentou me levar pra fora, mas eu vomitei na antessala também, só piorava. Ele me conduziu ao banheiro, eu me lavei como pude e fui levado à cela, onde encontrei meu primo. O senhor está preso por desacato a autoridade. Foi minha chance de ouvir a história direto dele. Cara, eu perguntei pra todo mundo se tinha um canal de pó em Carrancas. Ahã. Até que esse maluco deu a dica, endereço, tudo, e eu vim. Então eu estava procurando, e passei na porta desse bar três vezes, acho que alguém de lá caguetou minha placa. Eu comprei a brizola, saí de lá e fui abordado. Quanto você tinha? Cinco papelotes. Você não tinha trazido coca pra viagem toda? Trouxe, mas acabou. Se cuida, cara, você anda… Vai dar lição, agora? Não, só, eu, quer dizer… O que me salvou vou o polícia chamando para prestar depoimento. Eu de frente ao delegado de colete e ao nosso lado um datilógrafo. Depois dos dados básicos, ele perguntou minha profissão. Programador. De que? De computador. Rapaz, você caiu do céu, faz um ano que instalaram esse PC aqui, e o delegado descobriu o monitor, depois deu defeito e ninguém sabe consertar. Entendo. Se você colocar ele funcionando eu retiro as queixas. Claro, claro! Tem o jogo de paciência nele, era tão bom! Eu liguei a máquina, era um IBM que eu conhecia bem, apertei as teclas para acessar a BIOS, precisei de poucos minutos para detectar o problema, acionei o sistema operacional e o jogo de paciência para o doutor delegado, que ficou exultante. Pedi perdão de novo pela vomitada, disseram que não era nada, e um velhinho limpava minha caca como eu limpei a do Sávio. O advogado ficou decepcionado, mas acho que faz parte da lida dele. Entramos no Átila e gritamos, batemos as mãos espalmadas, e íamos pegando a estrada para voltar para o festival. Sávio fez uma meia volta, passou no canal dele e voltou a pegar um bright, e aí voltamos. Rock’n’roll! Estava tocando um Led Zeppelin muito bom, a multidão empolgada, aí eu andando topei a Camila e a Paula dando risadinhas. Elas estenderam o lenço e o frasco, era o que aquela porra, clorofórmio? Quem se importa? Borrifei o líquido no pano e o pus na boca, inalando com gosto, uma, duas, três, tirim dilim dim dim dim… Acordei no chão, elas riam, e tão rápido quanto surgiram sumiram. Eles estavam fazendo Kashmir agora, muito bem, quando de repente se ouviu um trovão, dali a pouco outro e depois cada vez mais frequentes. Aí entrou uma banda de Beatles, mas só dos Beatles psicodélicos, e depois que eles tivessem tocado Tomorrow Never Knows, I am the Walrus e Strawberry Fields Forever a tempestade desabou, e a maioria foi atrás da barraca como derradeiro refúgio. Foi difícil dormir encharcado. Estou ficando velho pra isso.

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