Átila 3

Acordei com o calor, olhei e o Sávio dormia com o tronco pra dentro da barraca e as pernas pra fora. Ele ainda achou ruim ser acordado pra que eu pudesse sair. Não são nem oito ainda, caramba. Imagina quando for o verão. Entre a nossa barraca e a vizinha estavam uma das garrafas do bourbon que meu primo adorava e uma poça de vômito. Maravilha, foi a distração da manhã limpar o estrago dos outros com uma pá que achei na sede. As meninas acordaram, prepararam café e ofereceram, banana frita e tapioca, um café encorpado, meu desjejum tinha sido só cigarro mesmo. Mas eu mal comi na véspera, o cogu tirou a fome, que agora apontava. Resolvi antecipar a preparação do almoço, e eu tinha em mente algo mais elaborado que miojo com atum para hoje. Mas os mantimentos estavam no Átila, e as chaves com o Sávio capotado. Sávio. Uuumpf. A chave do carro. O carro tem nome. A chave do Átila. Sávio, deixa de… Caralho! gritou enquanto se erguia. Que foi? Cadê a chave do Átila, porra? E como é que eu sei? É uma pergunta retórica, babaca. Eu tava começando a me irritar com meu primo, saí de perto e fiquei olhando ele pôr o calçado e correr na direção do palco. O Sávio ficou loucaço ontem, disse a Fernanda, que ouviu tudo de sua barraca. Eu percebi. Então, ele tava conversando com uns carecas. Sério? Eu vou ver isso. Só não fala que fui eu que… Não, claro, claro. Eu achei que votar no Collor era o pior dele. Foi bom você falar. A Marília tocou um pouco e dali a um tanto voltou o primo, balançando as chaves do Átila no ar com um sorriso satisfeito. Tava onde? Tava no rio, quem achou me viu procurando e entregou. Eu não resisti: foi por sorte que não roubaram o carro, pura sorte. Ele fechou a cara e foi se preparar para um banho frio contra aquela ressaca. Deixa a chave. Toma essa porra dessa chave! Isso vai dar merda. Fui até o carro e peguei arroz de saquinho, batata, charque e tomate, quando voltava vi o Sávio na fila do banho. Ele me chamou e pediu desculpa, por alguma delas ou por todas, eu sorri e disse tudo bem. Era um alívio. Montei o fogareiro e comecei a preparar o arroz, quando me aparece o Zed, ainda com a mesma roupa. Ele falava contra o capitalismo e a globalização, e eu só ouvia. Descasquei e pus no fogo as batatas. Captei a mensagem do punk e fui atrás do baseado, deixei que ele apertasse. Ele apertou um pastel, que começou a abrir no meio, ainda tentei consertar, mas deixei de lado. Espera aí, fui até o Átila, estava com as chaves, e busquei uma garrafa de vinho. Vamos começar os trabalhos. Quando a batata estava boa eu pus o charque no fogo e esperei. Aí pareceu que estava bom e servi, para mim e para o Zed, o charque frito. Depois de algum silêncio ele disse: tá duro, hein? Eu garanti que era assim mesmo. Aí a Fernanda apareceu pra dizer que charque tem que ficar um dia na água. Puta que pariu. E o almoço foi arroz e batata, o que é pior que miojo e atum. Que se foda, peguei a ponta inviável, dei uma “intera” e fiz outro, chamei o punk pra ver a primeira banda. Meu primo tinha sumido. Estava acontecendo algo extraordinário no palco, o Lelo depois disse que eram alunos da música na federal: bateria, baixo, violoncelo, fagote e flauta, fazendo um som de vanguarda, pirado. O público não estava pronto, começou uma vaia, começaram a jogar coisas, e teve que parar. Que merda. Eu nunca tinha percebido como roqueiro é autoritário. De repente aparece o Sávio, me dá a chave do Átila. Eu dei, mas pensei em perguntar, você vai a algum lugar? Eu já volto. Deixa ele, então. Entrou uma banda que fazia rock nacional, e eu fiquei por ali, na verdade tinha uma morena que eu achei que me olhou, não fora isso eu nem ficava. O vinho acabou e eu passei a comprar cerveja do evento, quente. Ela olhava e sorria, não era ilusão. Vou falar o que? Rock’n’roll! Boa. Fui lá e fiz isso, ela me olhou séria, de alto abaixo, depois desatou a rir. Seu nome era Camila, e o papo foi rolando gostoso, comentei da cerveja quente e ela ofereceu vodka, por que não? Chamei-a até o riacho, e lá só me aproximei e a beijei, toquei sua pele macia, seu cabelo liso. Parecia um sonho. Eu vou tentar essa cantada até o fim da vida, agora. Eu tava te procurando, era a amiga dela, Paula, que chegou com um beque pronto. Era o paraíso. Elas moravam em BH, e eu já prometia visitar, manter contato, quando Camila me deu um longo beijo e foi-se embora com a Paula, que traseiro. Eu sentia vontade de tomar o ácido ali mesmo. Tinha trazido dois, para dividir o o Sávio, mas agora já nem tinha certeza. Então eu resolvi deitar um pouco, e no caminho da barraca encontrei um trabalhador da fazenda empurrando um carrinho de mão. Como é o nome do rio? Rio da Surpresa. Ah… tardes. Dormi. Acordei já à noite, meio desorientado, fui lavar o rosto. Quando cheguei ao palco, a banda tocava um blues-rock e a cerveja ao menos estava mais gelada. De repente vem a Marília esbaforida: o Átila foi preso. Como? O Sávio foi preso, perdão. Por quê? Com pó, em Carrancas. Caralho. Claro que era atribuição minha cuidar daquilo, e eu peguei carona com a mesma boa alma que veio trazer a notícia.

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