Átila 2

O Átila tinha ficado lá fora, no estacionamento, e eu precisava buscar a bagagem, para enfim me banhar. De repente aparece o Lelo, baixista do Gnomo Azul: faaaaaala caboclo! Caralho mano! Lelo estava com as pupilas enormes, dentro daquela cabeça pequena emoldurada por cachos castanhos. Que doidera, cara. Que doidera. A gente tomou cogumelo, quer? Não, eu vou tomar um ácido, mas só no sábado. Então, toma um cogu hoje, porra. A gente tinha estudado junto na escola pública de Cambuquira, onde nascemos, tocamos juntos quando ainda aprendendo, ele foi de banda de baile em banda de baile e virou profissional, eu virei programador, mudei pro Rio, troquei um teclado por outro. Ele me puxou pelo braço até o carro deles, eu mal entendia o que ele dizia, e chegando lá ele virou uma garrafa térmica num copinho plástico, que encheu até a metade com o líquido escuro. Eu virei de uma vez: ah! Eu era louco, mas a porralouquice já estava nos planos, mesmo. Fazia dez anos, desde formado, que eu não fazia mais que fumar um muito de vez em quando, no carnaval ou algo assim. Agora eu mal tinha chegado e virei meio copo viscoso de cogumelo. Seja o que Zeus quiser. Lelo e eu ficamos trocando várias histórias, eu achava as dele mais interessantes que as minhas, embora meu salário seja melhor. Quando eu finalmente disse que ia atrás de tomar um banho, a onda começou a bater. A percepção do espaço era meio alterada, como se a vista fosse vítima de ilusões de ótica, e o corpo intoxicado queimava com uma sensação estranha, mas agradável. Eu percorri a fileira de carros até o fim, o que pareceu um triunfo, mas não sabia onde estava. Os chuveiros eram perto da sede, afastados do palco, do estacionamento e do camping, e eu fui perguntando no caminho, me esforçando para lembrar a informação, mas cheguei. A água fria, era outubro e fazia calor, foi uma delícia, e gastei um tempo só curtindo a sensação, já estava ganhando uma ereção pensando na Cláudia. Não devia ter pensado na Cláudia, me ensaboei e enxaguei, me enxuguei e tirei a roupa amassada da mochila, vestindo-me enquanto curtia a onda do cogumelo, e me sentindo novo. Quando cheguei à barraca, meu primo continuava dormindo, Marília e Fernanda tocavam violão e percussão, e um pouco depois o Zed reapareceu, oferecendo uma maconha maravilhosa, eu contei do cogu, ele achou massa: rock’n’roll! A gente ficou ouvindo a Marília, sendo que o punk nem dormiu nem tomou banho, e quando já eram quatro horas, a onda no ápice, começou a tocar a primeira banda da quinta-feira. Então a gente se locomoveu do platô onde estava o camping até um outro, mais perto do rio, onde estava o palco. Era uma banda numa onda caipira-norte-americana, então mesmo se a energia do rock era boa não era preciso prestar muita atenção. De repente o Sávio apareceu, de banho tomado, e colocou um beque gordo, que foi bem recebido. Enquanto as guitarras da banda prosseguiam eu me fechava numa onda boa, na qual a perda da Cláudia e o beco-sem-saída no trabalho viravam uma coisa quase boa, e estar ali no festival era algo excelente, de modo que eu passei a distribuir abraços a todos, o Zed cheirava mal, só o Sávio achou ruim, o machão. Fomos andando até o rio, poucos metros atrás do palco, através da trilha pela matinha, havia muitas pedras grandes e a água era preta. Já estavam instaladas umas três rodinhas de gente na maior parte de preto, uma era de coroas ostentando camisetas de Deep Purple ou Black Sabbath, outra era de jovens estampados de Nirvana e Pearl Jam, a única a contar com uma mulher, até a nossa chegada. Fernanda tomou a iniciativa: esse pode deixar que eu ponho, vai ser algo especial. Sentou-se e tirou um kit, ela desbastava a pedrinha de fumo verde e cheiroso com uma tesourinha quando eu me deitei na pedra para viajar nas nuvens e ouvir o murmúrio da água, e de repente me chamaram para fumar. Que delícia Nanda, parece alecrim. Eu pus alecrim. Não. Seco e triturado, eu faço com várias ervas. Você não perguntou pra ninguém, o Sávio começou a dar trabalho de novo. É só não fumar, você já fumou e achou bom. Tá bom, tá bom. Como se chama esse rio, me ocorreu. Ele corria reto, com uns três metros entre as margens, mas era fácil atravessar pelas pedras. E foi o que eu resolvi fazer, depois de dar mais duas bolas. O cogumelo não afetava o equilíbrio, mas eu pisei numa pedra solta e quase fui à água, enquanto a turma me zoava, mas cheguei lá. A matinha recomeçava e bem ali eu percebi a entrada de uma trilha, a Marília gritou que eu não entrasse chapado, mas eu não liguei. No meio das árvores bateu uma onda forte, parecia que os galhos queriam me pegar, e eu me desesperei, mas respirei fundo e saí de novo, aliviado. Quando cheguei de volta ainda peguei a pontinha. Lá no fundo dava pra ouvir que entrou uma banda tocando Talking Heads, que eu curto muito, então eu chamei todo mundo pro palco. Começava a anoitecer. A banda não fazia muito sucesso, então dava para ficar perto do palco sem aperto. Foi aí que eu reencontrei o Lelo, doidaço e coberto do pó avermelhado do Sul de Minas. Ele ficou dando em cima da Fernanda, eu tentava dar o toque, ele seguia, até que ela se aborreceu e disse que ia até a barraca comer alguma coisa. O Sávio foi junto com ela pra dar uns tiros, e o Lelo voltou a sumir. Eu vou ficar aqui, você liga? Claro que não. Eu conheci a Marília na véspera, ela era risonha; com a Fernanda eu já tinha conversado, mas ela é muito fechada. A gente começou a ter um bom papo, primeiro sobre a música, a banda agora era um cover de Mutantes, depois sobre os assuntos mais diversos. Quando a Fernanda voltou, ela olhou feio, ou foi impressão minha? Não deu pra pensar a respeito porque o Sávio chegou dando um safanão e reclamando que eu deixei o Átila aberto. Eu que tava numa onda tão boa do fim do cogu. Caralho, meu, foi mal, eu tô doido de cogumelo, pega mais leve. Roubaram alguma coisa? Não roubaram por sorte, ouviu? por sorte! Relaxa um pouco, Sávio, porra. Depois dessa eu, que tinha dormido pouco no carro, só esperei até a próxima banda, que no fim não me interessava, e fui dormir.

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