Pra Sempre 5

Rebeca passou o resto do dia se recriminando. Ela queria ter pressionado a amiga, intimidado mesmo, e no entanto aceitou todas suas desculpas. A Vanessa tem um futuro brilhante pela frente, e vai jogar tudo fora por essa porcaria, vai acabar vendendo artesanato. Mas na escola ela nem comentou a respeito, passou a quinta e passou a sexta e era como se não existisse esse assunto. Vanessa foi chamada à sala da madre sobre a denúncia de indecência, negou, negou e negou, mas também não denunciou o professor de física. No sábado, o celular de Rebeca tocou pouco antes do almoço. Depois do tudo bem, tudo bem, Vanessa jogou a ideia: Então, eu falei que você devia conhecer o Arthur, a gente tá indo na Ponta do Sururu mais tarde, vem com a gente! Rebeca pensou em recusar, mas já não queria. Seu contato todo com Arthur foi pedir uma grafite, não tinha motivo para dizer que é má pessoa, fora a maconha. E estava precisando de atividade ao ar livre depois de tanto estudar para o vestibular. Vamos, sim, Nessa. Eu topo. Então nós vamos passar aí às cinco. E depois de almoçar e ver alguma TV ela pôs o biquíni, um short e uma blusinha, para esperar. E às cinco e dez tocou o interfone, ela desceu e entrou no Kadett de Arthur, Vanessa precisou sair, e os cumprimentos foram sem graça. E também foi meio sem graça o caminho até a Ponta do Sururu, com a trilha sonora das melhores da estação de rádio tal. Arthur falava qualquer bobagem seguida de uhu! e a alegria falsa enojava Rebeca, que esperava que aquela seria uma ocasião de conversar sério com a amiga, ou que esperava ela. Estacionaram e seguiram até a areia com dois volumes, um de bebidas e outro de comidinhas. Rebeca sabia que era homenageada, já que não havia mais convidados, e fez questão de propor um desafio até a ponta e de volta, pelas pedras e depois nadando pelo mar, tudo para evitar o momento que parecia certo, quando os dois iam fumar um baseado para provocá-la. Ela conhecia a amiga. Isso não aconteceu antes de estenderem a canga e comerem os quitutes que trouxeram, mas aconteceu. Arthur, a quem Rebeca ia conhecendo sem motivos para desgostar, tirou da mochila um dichavador, um livrinho de seda e um saquinho de fecho com lindas flores polpudas e verdinhas com pistilos amarronzados. Rebeca tentou fingir surpresa e indignação, mas não colou, e a conversa foi pelo lado de que não faz mal, é mentira o que dizem, e ela ia fazendo objeções cada vez mais tíbias. E quando ela bufou dizendo ai vocês a bomba estava pronta, e bem feita, era um cone avantajado com piteirinha na ponta. Arthur era experiente. Você devia provar, Rebeca, vai ver que é tranquilo. Eu não, Arthur, não é pra mim. Então tá bom, a gente respeita. E foi a vez de Vanessa dar uma bola. Como era bonita essa loira, ali contra o sol poente e com coqueiros e ondas quebrando na areia ao fundo, e o oceano refulgindo até o infinito. Rebeca pulou e beijou o pescoço de Nessa, Arthur cuspiu a cerveja, surpreso, e Vanessa só puxou a amiga para si e beijou-lhe a boca, enquanto Arthur jogava o corpo para trás e Ou-ho-ho-ho-hou! Tão logo largasse a boca da boca da amiga Rebeca tomou posse do baseado e deu uma longa tragada. Tossiu. Riu. Tossiu mais. Fumou mais. E dali em diante a roda se formou regularmente, as duas abraçadas e trocando carícias. Foi quando apareceu gente na praia, o baseado foi apagado e todos se recompuseram. Rebeca começou a ficar ansiosa, não devia, não devia, não devia ter feito isso, nem isso. Onde estava com a cabeça. Queria voltar para casa, mas veio de carona, começou a se vestir. O que você tá fazendo? Vou voltar pra casa. Calma aí, a gente já vai. Não, eu vou de ônibus. Os dois se esforçaram e conseguiram acalmá-la, propôs-se mais um banho de mar no fim do dia, e durante minutos tudo estava bem, Rebeca ria e se divertia, mas ao saírem bateu uma brisa fria, Rebeca entrou numa espiral de culpa e mal queria olhar para a amiga, ou para aquele sujeito que mal conhecia. Chamou um táxi. Sentaram separadas dali em diante, e passaram no vestibular em cidades diferente, Rebeca é super moralista contra as drogas até hoje, enquanto Vanessa se tornou uma habitual do bequinho, mas nunca quis cheirar. Outro dia o Arthur apareceu na televisão como surfista profissional.

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