Átila 1

Meu primo Sávio tinha um Uno que ele chamava de Átila. Átila, o Uno. Foi com ele que a gente foi pro festival de Carrancas em noventa e três. Eu tinha acabado de me separar da Claudinha, o Sávio tinha acabado de passar no mestrado, assim como a colega dele no Tecnológico, a Fernanda, que acabou levando a namorada, Marília, e o Átila tinha acabado de ganhar uma nova correia dentada. O feriado era de quinta e sexta, então foi na quarta à noite, após o expediente, ou vagabundagem, conforme fosse, que nos juntamos na casa do Sávio para pegar a estrada. A obrigatoriedade da birita e da maconha tornava os preparativos truncados e desajeitados, mas há um preço a se pagar em tudo, afinal. Sávio não bebeu, embora na época nem fiscalização houvesse, ia dirigir de madrugada e não queria ter sono. Pelo contrário, providenciou dois ou três tirinhos pra ficar esperto. A primeira parada foi em Seropédica, depois da travessia da Serra com Marília tocando violão. Estavam gargalhando de qualquer bobagem, nem maconheiros novos eram, mas o posto vinte-e-quatro horas parecia divertidíssimo, e de repente um inocente “qué coca” provocou renovadas gargalhadas. Tudo pago e pé na estrada, aí o problema foi a ópera do Sávio, que pariu, pô. É Wagner, ele dizia, ereto. É chato, respondia a gente, até vencer. Venceu mais violão da Marília, ela tocava uma onda londrina oitentista, e era o início dos noventa, mesmo, mas enfim se cansou. A conversa que seguiu foi pela expectativa do festival, uma reunião de doidões de vários estados acampados para curtir o rock’n’roll. Mas todos iam se deixando dominar pelo sono. O problema era o motorista. Fernanda perguntou. Não, tô bem. Qualquer coisa eu assumo, tô sem sono. Não, tá tranquilo. Marília dormindo, violão no bagageiro, eu mesmo bocejando, Fernando e Sávio conversavam sobre política trocando platitudes do senso comum, não quis intervir, o Átila dá seta. Que foi? Não é nada. E o motorista, depois de estacionado o carro, alcançou no porta luvas um vidrinho e mandou dois tiros no manual do carro. Só pra garantir, e voltou à estrada. Adiante era Volta Redonda, e ia ter polícia, mas apesar da tensão não havia canas na pista. Então eu dormi meio desconfortável mas dormi, acordei com o Sávio parando. Onde é aqui, Fernanda e eu perguntamos ao mesmo tempo. Santa Rita de Jacutinga. Não fode! Não existe esse nome de lugar! Pois existe, aqui. Parece piada. Tem um Passa-Vinte aqui perto. Já tá chegando? Falta ainda um bocado. Sávio queria lavar o para-brisa. No meio da madrugada. Demorou um tempo até que um trabalhador sonolento surgisse para fazer isso por um real. Por um pedaço o Sávio contou vantagem de um monte de coisa duvidosa, os tirinhos tinham batido, ao menos não dormia, e assim seguia o Átila pelo sul de Minas. Eu não dormia, mas quase, pensava na minha vida, sete anos com a Cláudia, e acabou, dez anos de peão na empresa e não acaba nunca. Era a hora perfeita para um pouco de porralouquice. Eu tinha dois ácidos na bagagem, e a ideia era estar fritando no show do Gnomo Azul, já no encerramento, a banda do meu amigo de infância Lelo, que fez o convite, eles tocavam progressivo, e bem. Pensando nisso eu dormi, e sonhei que todas minhas coisas começavam a criar asas e voar, computador, geladeira, tudo, e acordei no banco de passageiro do Átila, olhei para o Sávio, que estava cafungando, e para as moças dormindo, e voltei a dormir. Acordei em São Vicente, com um quebra-mola, a aurora começava a despontar e à frente ia um caminhão onde se lia “rurais”. Pouco adiante havia no acostamento algo totalmente insólito e inesperado: um sujeito um pouco baixo vestido de metaleiro de alto abaixo, jaqueta de couro com tachas, coturno e moicano, segurando um papelão pintado dizendo CARRANCAS. E o Sávio parou. Até as moças acordaram. Após breve deliberação decidiu-se dar carona para o moicano, que entrou após que eu saísse (você se lembra como o banco do passageiro se projetava no Uno). A Fernanda e a Marília ficaram um tempo sem graça com o Zed, ao menos assim ele se apresentou, mas em pouco tempo a conversa era fluida, e quando perceberam de rock já estavam falando em espiritualismo. Ele havia saído do Rio de carona, de manhã, tomado três caronas, e passado a madrugada no vilarejo. Sua mochila adicionada à carga normal prejudicava a visão do motorista, mas adiante foram eles, que mal viam a hora de chegar, enquanto o dia ocupava o céu. Foi quando um estalo se ouviu, e Sávio gritou um palavrão porque já não tinha o controle do acelerador; meteu o pé no freio, e um Fusquinha que vinha atrás buzinou e ultrapassou como pôde. Abrigou-se no acostamento e tentou várias vezes o motor entre muitos merda-merda-merda, enquanto perguntavam o que houve. Deve ser a correia, explicou Sávio. E aí abriu o capô puxando a alavanca e ficamos ele, Zed e eu olhando basbaques para o motor. Sávio foi pedir carona e eu conversei com o punk por um bom tempo, sujeito gente boa, umas ideias bem de esquerda também, e lá se foi e de lá voltou com o socorro Sávio enquanto o casal dormia no carro. Chegamos até Carrancas dentro do carro em cima do guincho, as moças tinham acordado e de repente aquilo tudo era muito divertido. O mecânico ergueu o carro, desmontou o motor e decretou que a correia tinha sido remendada. Mas eu acabei de trocar. Mas puseram uma remendada. Filho da puta. Sávio pagou no cartão, xingando por saber que ia ter que correr atrás depois. Até que o serviço estivesse terminado e a gente pudesse chegar à fazenda, pedindo muitas informações, já era meio dia, estávamos exaustos, o Sávio de olhos esbugalhados. E ainda havia o trabalho de achar um bom lugar e montar as barracas, o que tendo sido feito descansamos um pouco, a meninas foram atrás de banho e Sávio e eu ligamos o fogareiro para preparar o almoço, miojo com atum. Sem que a gente nem percebesse, o punk tinha sumido.

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