Pra Sempre 2

A costa se projetava sobre o mar num pontal coberto de grama verde e coqueiros, do outro lado de uma avenida de duas pistas bastante movimentada estava a catedral de uma torre só e arquitetura simples, e por fim ao seu lado havia o convento não menos antigo onde funciona hoje o colégio Auxiliadora. Rebeca havia chegado pouco antes das oito, trazida pelo motorista do pai, e se postara no lugar de sempre, na fila mais à direita, terceira carteira; neste instante ela copiava a lição de geografia geral usando três cores diferentes. Foi quando Vanessa entrou pela sala, pedindo perdão à professora, e explicando que sua mãe se atrasou por um imprevisto; Dona Márcia aquiesceu com um gesto, e a garota desengonçada foi buscar uma carteira vazia lá no fundo, em vez de tomar o posto costumeiro atrás da amiga. Os olhos das duas se cruzaram brevemente no caminho, antes que Vanessa retirasse os seus, constrangida. Transcorreram as três aulas antes do intervalo sem que nenhuma das duas pensasse muito naquilo, mas elas sabiam que em algum momento teriam de conversar. Vanessa, no entanto, tentou contornar esse confronto: vendo que o professor de física precisava de auxílio para carregar todos os cadernos de exercícios que os alunos haviam submetido, ela se ofereceu para ajudar, e saiu junto com ele pela porta, conversando animadamente e cheia de sorrisos. Chegando à sala de professores, ela pôs os cadernos no escaninho de Mauro, que ficava junto ao chão, enquanto ele observava seu corpo curvado pra frente. Mais uns minutos de bate-papo e a sala ficou só para os dois, foi quando ele cometeu uma insinuação grosseira (mais que uma cantada) e ela, mais alta que ele, sem pensar um segundo desceu-lhe uma bela bofetada. Ele ficou atordoado e esboçou alguma desculpa esfarrapada. Ela riu, agarrou-o pela cabeça e meteu-lhe um beijo na boca, um selinho apenas, mas exercendo uma pressão tal que era quase uma agressão, e então deu-lhe outro tapa e saiu correndo pela porta, quase trombando com o professor de educação física. Rebeca todo esse tempo encarou a fila da cantina, comprou seu lanche e comeu perto da quadra de esportes, de olho no jogo de vôlei que a amiga não costumava perder. Quando Vanessa surgiu saindo da arcada secular, levantou-se e ficou no caminho. Ela não que viu atrás de si aparecera ninguém menos que Arthur, que estava dando uma piscadela marota na direção da ficante, nem esperava tomar um drible da amiga, que correu a se jogar nos braços dele e dar-lhe um belo beijo, de língua desta vez, lascivo. Vários dos colegas pararam tudo para olhar, as freiras proibiam terminantemente aquele tipo de comportamento, e a própria Rebeca nem sabia como reagir à provocação. Nessa! ela gritou, sem resposta alguma, e se contentou em voltar para a sala, onde tentou se concentrar no aprendiz de mágico da sua leitura por alguns minutos antes da aula de história. Vanessa já estava saltando para dar uma potente cortada quando o bedel apareceu para averiguar a denúncia de indecência. Findo o intervalo, ela ainda mostrou a língua à amiga ao entrar na sala, e fez questão de se sentar atrás dela, no lugar de sempre. Deve ter pensado que o ataque é a melhor defesa, mas sabia estava só adiando o inevitável, e naquele dia, como em todas as quartas-feiras (quando sua mãe visitava os fornecedores), o combinado era voltar pra casa com a amiga de infância e seu motorista.

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