Bolhinha

Eu mal me lembro da casa onde eu morava antes. Era bem mais apertado, vidro de um lado, vidro do outro, e do outro e do outro, era quase uma prisão. Mas sempre tinha comida, e como eu não conhecia nada diferente estava ótimo. Era uma confusão de barulhos constante, depois de um tempo eu comecei a distinguir o que era um latido agudo de um filhote de cachorro, o miado manhoso de um bichano, a estridência da calopsita. Eu tentava conversar, mas ninguém me ouvia. E tinha os humanos, é claro, uns bichos que andavam em pé, chegavam perto do meu aquário – na época eu nem sabia o que era um aquário – e ficavam olhando, olhando e seguiam adiante. Isso quando não batiam no vidro, o que me deixava desesperado. Um dia um deles, de pele escura, ficou olhando muito tempo, e me mostrava para o humano pequeno, que ele erguia até minha altura; este era um pouco mais claro, e apontava o dedo e esticava a boca pros lados. Depois eu fui entender que aquilo era um sorriso, o humano faz isso quando está feliz e satisfeito; eu sei porque por um tempo eu vi muitos, mas ultimamente estão raros, mas eu já chego lá. A humana de cabelo longo e mão enluvada me tirou de onde eu estava, e pôs meu aquário num outro, opaco e amarronzado, eu não podia ver nada.

Só vi alguma coisa na minha casa nova. Aqui. Minha nova vida. Eu me lembro bem que eles falavam sempre (eu estava já aprendendo os sons dos humanos): minha casa, minha vida. Fui posto ao lado da televisão de tubo (era diferente da que tinha na outra casa, que era grudada na parede), sobre um móvel envelhecido e com uma toalha de crochê colorida no meio. Em pouco tempo lá veio meu novo aquário, grande, espaçoso, com bolhinhas subindo, plantas falsas, e aquilo que eu vim a entender que era um moinho em miniatura. Que liberdade! Lá eu percebi que havia outra humana, mais gordinha que a outra, e com o cabelo tão longo que chegava até a barra da saia, também longa. Eu aprendi com ela a palavra “deus”, que devia ser muito importante, porque ela dizia todo o tempo, mas eu nunca entendi bem o que é. Sei que foi fácil me acostumar, continuava não faltando comida, e eu percebi que a atenção do humano pequeno me fazia bem, seus sorrisos. Eu via que os humanos grandes grudavam boca com boca às vezes, e metiam a boca na face do pequeno; tudo que eu podia fazer era beijar o vidro, pra dizer que gosto deles. Às vezes vinha mais gente, eles ficavam em outra parte da casa, faziam uma barulheira que eu aprendi a gostar, e o humano grande aparecia na sala caminhando com dificuldade, a humana grande brigava com ele, e dizia deus, deus, deus. Mas a maior parte do tempo era tudo tranquilo. Na verdade a esta altura eu já sabia que cada humano tinha uma palavra, também: o humano grande era o Paulo, a humana era a Cecília, e o humano pequeno era o Sílvio. Até eu tinha uma palavra! Na verdade duas, os grandes me chamavam de Peixe, e o pequeno me chamava de Bolhinha. Eu não entendia por que o ar que subia o tempo todo na água e eu tínhamos a mesma palavra, e fiquei assustado no dia em que a Cecília disse que naquele dia iam comer peixe, achei que era meu fim.

Mas eu nunca foi comido, fui é muito bem tratado. É bem verdade que o Sílvio não tinha mais a mesma atenção constante, mas eu me acostumei com isso, também. Um dia a televisão grande foi embora, e apareceu uma das grudadas na parede. Pela mesma época, o Paulo apareceu com uma caixa e entregou ao pequeno, que na verdade estava cada vez maior, ele rasgou a embalagem, e parecia muito feliz; daí em diante ele ficava horas na frente da TV segurando um objeto e fazendo caras e bocas e gestos, entusiasmado. A Cecília ralhava com ele, que fosse estudar, e repetia sempre sobre um tal “enem”, que eu não sei o que é até hoje. De repente uma pessoa nova começou a frequentar a casa, mas ela nunca estava quando a lâmpada estava acesa, ia embora quando a luz natural diminuía e voltava no dia seguinte. Era uma humana escura e magra, sempre de touca na cabeça, e fazia o que a Cecília fazia antes, limpar, arrumar, enquanto esta passava cada vez mais tempo com seu livro na mão, murmurando para si mesma enquanto lia. O Sílvio passava menos tempo vidrado na TV segurando aquele objeto, e cada vez mais com seus próprios livros, vários, ou com um aparelho que se dobra e tem uma tela como a TV. Agora é com a música que ele ouvia que a Cecília implicava; era coisa de bandido pra ela, nunca entendi. Pois um dia houve um grande alvoroço, os grandes abraçavam o pequeno, quer dizer, o Paulo já estava maior que eles, chamavam ele de advogado, que eu não sei o que é, e falavam tantas outras palavras que não conheço, como “federal” ou “cotas”.

A partir daí, o Sílvio não passava o dia em casa, chegava só à noite quando a moça da toca, a Valdete, ia embora. O Paulo, em compensação, parou de passar o dia fora, e ficava em casa, cada vez mais trançando as pernas como ele fazia só às vezes quando tinha música; e a Cecília brigava cada vez mais com ele. As coisas começaram a mudar, e os sorrisos iam escasseando. A máquina que antes fazia barulho lá fora quando Paulo estava saindo ou chegando parou de fazer barulho. A Valdete vinha só de vez em quando limpar e arrumar, e como a esta altura era ela quem cuidava de mim, eu passei a sentir fome, a água estava suja. De frente à TV, o casal gritava enfurecido umas palavras estranhas: lulaladrão ou forapetê, sei lá que é isso, ou mito, mito! estavam transformados os dois. O Paulo estava quase sempre de camisa amarela, e pendurou bandeiras nas paredes, e a foto de um sujeito de cara feia. Um sujeito feio de cara feia. Tudo isso, e mais a fome, agora que eu ganho farelo de milho em vez de ração, me faz ter saudades até do aquário pequeno na minha casa antiga. Mas eu vou ficar bem, eu me preocupo é com eles.

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