Pra Sempre 1

De um lado, uma personagem de anime sorrindo com roupa de colegial, erguendo uma das pernas e os dois braços. Do outro, prateleiras com uns poucos livros de fantasia ou romance, e um rádio-relógio em formato de silhueta de gato. A uma certa distância dos pés de Rebeca estava o armário cheio de vestidinhos e tops, e do uniforme da escola, é claro, e atrás de sua cabeça estava a janela. Deitada em sua cama, falava ao telefone com Vanessa. Vanessa conversava do sofá de sua sala, com uma tigela de sorvete no colo e vendo algum seriado estrangeiro na televisão. As duas estudaram juntas desde a pré-escola num colégio de freiras que até os anos setenta foi um internato, legítimas herdeiras da classe média alta da capital provinciana. Rebeca é filha do dono de uma rede de lojas de material de construção, estudou balé desde pequena, mas já não pratica, e foi a primeira da turma a desenvolver os seios; hoje, já no ensino médio, é uma morena bonita e carnuda. Vanessa é magricela e alta, desajeitada, joga vôlei até que bem, seu pai é médico e sua mãe é dona da maior floricultura da cidade. Já é quase meia noite e a conversa já dura meia hora, entre falar mal de colegas e planos pro vestibular, quando Rebeca traz o tema à tona, sentando-se em sua cama: amiga, tem uma coisa que eu queria perguntar. A outra põe na mesinha a tigela que a empregada vai recolher no dia seguinte: uai, Beca, só pergunta – tentando despistar que já imaginava o que viria. Rebeca, apesar do introito, não seguiu com uma pergunta: Me disseram que você tá ficando com o Arthur. Quem te disse? Isso não importa. Você não me contou nada. Mas é mentira! – grita Vanessa e em ato contínuo alcança o controle, desliga a televisão e se levanta para proteger sua conversa da irmã que preparava um lanche na cozinha, e à medida que caminha para o quarto escuta trêmula a amiga pressionar: como mentira, Nessa, você me perguntou quem contou! Nunca houve segredo entre a gente, amiga, e você não sabe mentir. Até ontem você morria de amores pelo Flávio, escrevia no diário, falava por horas no meu ouvido… E que importa isso agora! O Flávio é um menino, e ele nunca quis nada comigo… Você tratava ele mal sempre que ele vinha… Mentira! Espera um pouco. A mãe de Vanessa havia aberto a porta e agora dividia o corredor com ela, que se calou e tentou fingir uma expressão tranquila. Não adiantou: tá tudo bem, filha? Tudo, tudo, mãe. E fechou a porta atrás de si, jogando-se num pufe cor de areia. Beca, deixa de ser chata, eu nunca disse nada de ninguém que você ficou. A outra enquanto esperava havia descruzado as pernas e levantado feito uma mola, postando-se à janela, que dava para um mar de luzes amareladas e telhados ocres, e para um oceano enluarado ao longe. Eu nunca fiquei com nenhum maconheiro, Nessa. Maconheiro, Beca, o Arthur não é maconheiro. Rebeca deu uma gargalhada falsa: Ora, miga, todo mundo sabe. É mentira, Beca, você sabe que os meninos do colégio não gostam dele porque ele veio do Imaculada, eles inventaram isso, é mentira. Desta vez bastou um muxoxo: a Laura viu ele fumando na praia, Vanessa. Não adianta espernear. Seguiu-se um silêncio, quebrado por ela mesma, que já no passado assumira essa certa superioridade sobre a amiga, que ela considerava meio abilolada: tá aí ainda? Tô aqui. Olha, eu fiquei com ele uma vez. Qual é o problema? Amiga, você fumou maconha? Fala a verdade. Quer saber, Beca, não enche. Eu não devo explicação nenhuma. Caga regra, você. Tchau. Rebeca tirou a roupa de cabeça quente, pensando em mil coisas para dizer para salvar a amiga do destino que ela temia, e entrou debaixo da ducha quente. Você é atleta, Nessa. E o vestibular, Nessa. Você ganhou um concurso com uma redação sobre as drogas, Nessa. Já Vanessa bufou, lavou o rosto e voltou para a sala para se juntar à irmã no mesmo sofá onde estava mais cedo, o seriado no entanto sendo outro, e tentou não pensar naquilo. Amanhã elas conversariam na escola. Quando o pai das duas apareceu e mandou-as para a cama, Vanessa, que costumava desafiar, obedeceu de pronto, não sem antes dar um beijo no pai, costume que já tinha abandonado desde quando decidiu que não era criança. No quarto, ela hesitou antes de olhar o celular, e ficou aliviada de ver que não havia mensagem. Teve sorte e não demorou a dormir.

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