Autorama 15

Tá chegando o Balão do Trevo, tá perto. Você dá entrada logo nessa merda e volta pra casa com uma missão cumprida. Um dia de glória. E teve aquela festa à fantasia com o pessoal do francês, o maluco do Mohamed, o professor marroquino, a Didi e a Karina, que riam da minha cara quando eu queria beijar (am I here to amuse you?), eu sei que acordei no outro dia ainda bêbado e fui pro banco pra fingir que tava tudo bem e ver o porre se transformando em ressaca ao longo do dia. Nunca que vou ter meu valor reconhecido por esse heroísmo, enquanto o favorito do gerente ao menos uma vez pediu arrego de ressaca e foi liberado. Nunca me dei bem com chefe, com qualquer autoridade. A moça que trabalhava de graça todas as tardes, o que eu tive ao menos o prazer de jogar na cara dela que é antiético, e que enganava as faxineiras da Unicamp com título de capitalização, adivinha, virou gerente. Mas ainda assim foi uma bela experiência, um belo choque de realidade trabalhar no banco. E eu via um tanto de gatinha circular pela agência o dia todo (era a agência dentro do campus); só que quando eu as via nas festinhas depois eu obviamente não era ninguém pra elas. Só peguei uma cliente BB, uma colombiana, morena cacheada, grandona, super sem frescura, tanto até que eu cometi a delicadeza de convidá-la pra minha despedida ao mesmo tempo em que convidei a Thaís (que tinha eu na cabeça?) e ela só se despediu e foi embora. Um dia, eu já contava vinte e três translações, rolou um cogumelo; acho que foi o dia em que o André se perdeu do grupo e eu larguei ele pra trás, coitado, voltou pra casa na maior bad; no mesmo dia eu fui atrás da Teresa no Bar do Zé e ela me cortou; só sei que eu entrei no banco pra sacar dinheiro e tive uma epifania: como é que é? tem uma máquina de me dar dinheiro? Como eu sabia que ia ter concurso pro banco, foi tudo muito natural, me matriculei num cursinho (que não acrescentou muita coisa) e passei em primeiro lugar de Campinas. No vestibular eu passei em terceiro de Elétrica; eu sou a prova viva de que esse tipo de gente sempre mete os pés pelas mãos com a própria vida. Depois eu encontrei a Cecília, uma colega no cursinho, trabalhando na agência Barão; inventei mais um apaixonamento, mas nem no sabor de pizza a gente se entendia: fomos à Estação Santa Fé, onde eu gostava de um sabor com queijo cottage, o que pra ela era algo inadmissível, pizza é calabresa, a caipira, não teria dado certo nunca. Pronto, puxa a cordinha. Ali naquele morrote fica a Odery, onde eu encomendei minha bateria; povo ruim de jogo, preços sem sentido, eu caí foi no marketing deles; uma vez eu conheci uma mina que dizia que é uma bosta a batera deles, e ela me colocou no bolso na audição. Adoro mina batera, e ela era gata ainda. Pronto, até que enfim. Tem uma subidinha pra chegar lá, ou eu subo fumando ou eu fumo antes. Lá em São Paulo uma vez eu tava me matando pra subir a Rua do Paraíso e um sujeito passou por mim no dobro da velocidade e com um cigarro aceso, me senti um merda. Vou fumando. Foi lá em Porto Velho, na oitava série, que o Tuta, que já fazia aula da guitarra, me pôs a pilha de aprender batera, e fez o Bogó tocar baixo, pra gente tocar na formatura dali a poucos meses. Eu me matriculei na escolinha, era Ritmo e Som, algo assim, com o Túlio, ele andava com a cabeça enterrada nos ombros, ou pelo menos era essa a caricatura que a gente fazia dele, seguindo o método do Rubinho Barsotti xerocado. A casa do Cid Bozó (até a professora chamava ele assim) era nosso estúdio, a mãe dele, a dona Boza, era meio hippie, artista, e o ambiente era mais relaxado do que eu estava acostumado em casa (uma vez eu disse na frente da minha mãe que os pais do Bozó eram o máximo e ela ficou magoada). Nós ligávamos a guitarra num três-em-um velho e o som já saía distorcido, nem precisava de pedal, a bateria não tinha chimbau, era emprestada pelo Túlio, o professor, eu ia abrindo buracos na pele da caixa e metendo fita adesiva, foda-se. Eram quatro músicas nosso repertório, Smells Like Teen Spirit, Alive, Nothing Else Matters e Orgasmatron, e a banda foi batizada Parannoya Godzilla, mas no fim a gente se apresentou só como Parannoya, e esse é um dos maiores arrependimentos da minha vida. O Tuta, como a Érika, era de outro turno, e eu só passei a ser seu amigo na sétima, acho, mas eu sempre soube que ele existia, quando ele ainda era o Léo Brito, eu lembro claramente de quando a escola era na Vila da Eletronorte e eu perguntei se o sapato dele era impermeável, eu tava testando a palavra, sabe? O Cid apareceu já no fim do fundamental, parecia um homem pré-histórico, segue até hoje muito doido (e sou eu falando), e tinha umas ondas de violência, batia na irmã, maltratava o cachorro, e crescido foi demitido do BB esmurrando o gerente. Mas nunca matou ninguém sem motivo, também. Até a véspera da formatura nós não tínhamos equipamento; por sorte o pai de uma colega era político e emprestou o PA. A festa era no Yes Banana’s, a boate cujas matinées eu frequentei, tinha uma luminária mecanizada medonha, que a gente achava o máximo da modernidade. Eu imagino que a gente não fez tão mal, dadas as circunstâncias; eu não quis falar com meus pais quando eles vieram me cumprimentar, tal a carga de ressentimento; eu fui comunicar à Érika que a idolatrei toda minha infância e foi isso. Em Vitória eu fui fazer aula com grande Eric Bolha, que era parte do Pride, e eu conheci assim os outros membros, Galopeira, Fausto, Kiko Pilha e Marcelo Sepultura. Uma vez eu precisei segurar o cowbell pro Eric tocar We’re Not Gonna Take It no Camburi Clube. Num show do Pride na UFES eu acabei cedendo e experimentando um bequinho. Por alguns meses eu banquei o careta, mas fui amolecendo. Eu subia na mesa e pulava batendo os braços, fingindo que voava, e um tempo depois eu fui apelidado de Mosca. Eu cheguei em casa naquele dia e estuprei uma manga. Olha onde o velhinho fica plantado no meio de nada vendendo sorvete. Puta merda.Boa tarde, senhor. É sorvete que você tá vendendo?

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