Autorama 14

A mulher com a camiseta do Hemocentro. Eu me lembro quando minha mãe estava na fila do transplante de fígado, e eu fiz umas filipetas pra pedir doação de sangue aos colegas. Depois os médicos disseram que ela estava boa, tiraram ela da fila e ela bateu as botas do nada; eu ia sair com a Thaís quando recebi o telefonema, o Stevie tava do meu lado. Meu pai disse que tinha uma notícia terrível e eu já pressenti, mas não quis aceitar até que ele disse, ou mesmo depois, perguntei se não dava pra fazer nada. Ele contou que a encontrou morta no banheiro, estava arrumando os cosméticos que tinha comprado; ela sempre foi vaidosa. Onze de setembro de dois mil e quatro. Eu mesmo tentei doar sangue duas vezes em Brasília. Na primeira, eu disse os remédios que tomava e fui rejeitado; não há fundamento científico nisso, só preconceito. Na segunda, eu achei um absurdo a pergunta se eu tinha tido relação homossexual e ela até fingiu que não era isso, mas rejeitou. Agora eu não doo nem cuspe. Eu não tive relação homossexual. Sempre tive atração por mulheres, e apaixonamentos irracionais, também. Quando a gente se mudava de Rondônia pro Espírito Santo, eu achei um cara da empresa de mudança bonito, e fiquei me perguntando se era gay. Bem depois, em Brasília, eu estava comprando os materiais pra aquele protesto solo na embaixada americana, confirmado o golpe (nem sei se eu consigo visto se tiver que ir lá), e fui atendido por um cara que me impactou. Tipo, não é dizer que “aquele cara é boa pinta” como dizemos os héteros, como uma concessão, a visão dele despejou adrenalina no meu sangue; acho que foram os olhos amarelados, bonitos mesmo, e meu cérebro se confundiu. Depois eu fiquei pensando nisso mais um tempo, achando que estava prestando atenção nas picas quando via putaria. Todo homem presta atenção nas picas, do contrário os filmes teriam atores com pau de tamanho normal. Mário Gatti. Eu me lembro de descer essa ruazinha ouvindo o Ummagumma do Pink Floyd, foi antes de decidir que o disco é chato mesmo. Eu aprendi a ouvir Floyd na casa dos goianos, tinha um VHS do Live at Pompeii no repertório. Eu dei o Ummagumma ao Alexandre de aniversário, e ele pôs o poster na parede, aquele com os retratos em mise em abîme. Como a embalagem do Pó Royal. Eu tive a chance de ver o Roger Waters, mas eu achava ele muito babaca por se achar dono da banda, processar os outros quando saiu. Talvez tenha sido besteira. Ano passado quase que ele é preso criticando o Bozo. Um dos pontos em que eu sou privilegiado é nos shows que eu vi. Tanto de rock quanto de improvisação; de Soundgarden em noventa e sete, antes da saída do Chris Cornell, que se matou, aquele feladaputa, até Anthony Braxton no Sesc Jazz (ou Jazz na Fábrica?), passando por um tanto de Hermetos. Dois do Rush em São Paulo, um do Pearl Jam no Rio, quando um sujeito me importunou por estar lendo um livro enquanto esperava, foi quando eu reli Crime e Castigo em quinze dias, e ficaram me olhando por seguir cantando Indifference quando o Eddie Vedder esqueceu a letra. Também ficaram me olhando como um alienígena por saber cantar um trecho de In the benefit of Mr. Kite no Paul MacCartney (ele fez questão de tocar umas obscuras do Sgt. Pepper’s, e ainda reclamou porque a plateia não reagia). Eu estava lendo Virginia Woolf, mas ao menos não me questionaram; as pessoas reclamavam do cigarro, então eu acabei vendo o show lá da outra trave, quase, onde o som chegava perceptivelmente atrasado em relação à luz. Eu vi Masada em Sampa e Maratona Masada em Donostia, mas eu estava um lixo. Na véspera tinha sido o Dave Douglas, e eu bebi demais, acordei perdido na cidade, a maré fazia o rio parecer subir, e eu andei no sentido errado… se sentar envolvendo a Karin foi a melhor sensação da vida, essa deve ter sido a pior, ou o dia seguinte. Eu tinha cada ressaca! Hoje eu talvez beba mais, com mais frequência, maconha eu sei que fumo mais, mas tomar porre de trocar as pernas, fazer merda e virar um papel higiênico molhado no outro dia, isso eu não faço mais. Uma vez eu fui parar numa festa na casa de sabe-se lá quem, e eu me afeiçoei muito a um garrafão de vinho barato (eu não tinha muito critério, também). No outro dia eu não era ninguém. Eu tinha que aprender de novo tudo ao redor, e não conseguia, não entendia nada, obliteração existencial completa; eu lembro de estar com minha irmã, e de encontrar o Nilsão, que vendia disco no IFCH, enquanto comia um pastel na eterna kombi do acostamento da Estrada da Rhodia, e cada diálogo era um esforço. Nilsão nem sabia quem eu era quando eu apareci lá tempo atrás; hoje ninguém vende disco nenhum na Unicamp, naquele tempo tinha o Naná no IA, onde eu comprei o Spectrum do Billy Cobham, em CD mesmo. Ou então quando eu fiz a viagem pro Sul de Minas com o Luciano, no dia anterior eu invernei na bebida com ele, a gente foi parar de Barão lá no Parque do Taquaral pra comer um sanduíche, e em algum momento deve ter batido o carro, porque na hora de viajar o radiador estava fervendo, e foi preciso passar numa oficina, o cara disse que foi pancada. Eu não me lembrava de porra nenhuma. Já sei, isso eu não faço mais.

Uma resposta to “Autorama 14”

  1. Trujillos Says:

    Muito bom, Leo…. Estou redescobrindo o Leosfera.

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