Autorama 13

João Jorge. Este era o caminho do SENAI. Era sábado de manhã, um saco, mas mexer nas coisas era até legal. Eu me lembro de fazer merda no torno e levar um esporro. Podia ter perdido o dedo igual o Lula. O Lula perdeu o dedo na estampagem, eu fiz estampagem também, um cinzeiro de folha de flandres, hoje deve ser incorreto ensinar a fazer cinzeiro. No segundo semestre eu descobri um portão aberto nos fundos. É como no hospício do Lago Norte, quando eu achei um portão aberto, mas dessa vez eu não tive coragem de fugir, ia só atrair mais violência. Do SENAI eu fugia sempre, logo que batesse o intervalo, eu e o Dirceu, ìamos à Feira Hippie do Centro de Covivência. Passei com uma nota maior do que a de Oficinas I. O Dirceu estava naquela fita de Puruba. O Dirceu, o Campeão, o Doido, a mulher do Doido, o pai do Doido, e a Alice. Não sei por que eu peguei no pé da Alice, acho que ela era bicho-grilo meio caricata, apenas, e eu perguntava ao Miguel “cadê o gato?”. Pois eu passei uma noite acordado andando por Ubatuba, compondo versos pra Mariana, mas não de amor e sim de escárnio, e de manhã embarquei com a turma rumo à praia de Puruba. Fomos prontamente atacados por uma nuvem de mosquitos, variando dos incômodos aos doloridos, e o povo do Doido dançando capoeira, eu dizia que aquilo não ia resolver nada. O Doido é outro Elétrica nove sete, foi parar na Biologia. Na verdade, Doido é apelido de Doidera, batizado Bruno. Depois eu e o Miguel, que tomamos um doce nesse dia, fomos a uma cachoeira onde estava mais tranquilo; já na hora do almoço, depois de mandar dois pratos eu deitei e dormi, é claro, mas mesmo dormindo eu gritava de dor com as mutucas, e o velhinho da casa ainda me escorraçou de lá. Eu dizia ao Dirceu “quantos palitos, Noel?”; o pessoal do Grotto chamava ele de Noel pelo queixo de nascido a fórceps. Uma hora eu fui fazer um cigarro e parei segurando a seda por dois minutos, viajando, foi uma trip boa essa, ultimamente eu fico muito tenso com ácido. Começou em Lisboa, quando eu pus um inteiro na língua e aí fui pesquisar o Erowid sobre ácido e bipolaridade, e alguém dizia DE JEITO NENHUM, NÃO FAÇA ISSO! Bem, que eu esperava encontrar, encorajamento? Apesar da preocupação, foi uma viagem mágica, vendo o vulcânico duo de John Zorn e Fred Frith ante o verde do jardim do Gulbenkian e sob as luzes vermelhas. Eu ainda vi umas cores girando na vista aberta. Imagina minha mãe lendo isso. Ela me via assistindo The Wall e me abraçava chorando, “nunca fique assim”. Na verdade, eu poderia ter me chamado Leandro, eles só desistiram porque tinha um vizinho maconheiro com esse nome. Não adiantou nada. Eu não me lembro de quase nada dos meus primeiros anos ali na 416. Vagamente de uma festa junina na escolinha, de quando eu saltava no sofá pra ver a rua e quebrei um dente, e, trauma da minha vida, de quando meu pai jogou minha mamadeira por um daqueles tobogãs de lixo que se usava na época, eu acho até que sonhei que descia eu mesmo pelo escorregador nojento. Monstruoso. Nós éramos uma família de classe média baixa então, a julgar pelas fotos, mais tarde quando a gente foi morar num prédio de luxo em Vitória eu tomei um susto. Dos primeiros anos de Porto Velho, também, minhas memórias são difusas; os vizinhos na Buenos Aires, o Cojubim com um riacho no fundo, um clube dos ingleses, relacionado à Madeira-Mamoré, da escola de madeira com pés de cupuaçu em volta, de aprender a música do dia das mães, a rua de terra e os constantes cabos de eletricidade rompidos pelos caminhões de mudança na João Goulart, dos eternos vizinhos colegas do meu pai no Tribunal de Contas, seus filhos sendo a minha patota. O André teve bem mais sorte que eu e mamou até os oito anos; eu me lembro que a gente brincava de rodar na rede, montava um estádio de bloquinhos de madeira nos dias de jogo da seleção, jogava Battletoads no Phantom System, e alguns joguinhos de iniciação sexual envolveram a ele e a outros moleques; havia um jogo de Atari chamado Decathlon, em que para correr era preciso acionar a alavanca com um vigoroso movimento de um lado ao outro, e essa era uma técnica avançada de masturbação, para nós. O irmão dele foi o careta que eu levei pro CB00. Já as irmãs Bia e Dani foram “namoradinhas” minha e do meu irmão, e mais adiante nasceram minha irmã Jessica e irmã delas, a Cíntia. A Jessica era uma fofura quando bebê, e se tornou uma mulher bonita; eu tentei me aproximar da minhha irmã, mas meu universo meio que diverge, manter termos amigáveis está ótimo. Na verdade, quando minha mãe morreu eu já previa que a família ia se desagregar. Eu me lembro da vida na João Goulart, de relativa liberdade, brincar na rua, do pique-esconde, lembro do jogo de peteca (bola de gude era peteca) em que se dizia antes da partida “tudo pé de pato, tudo mela manda”. Acho rico ter vivido em diferentes regiões, e achava um barato o linguajar rondoniense, as interjeições favoritas eram “égua do caba” e “marrapaz”. Houve um episódio de um abusador de meninos na área, e eu passei perto de ser um, fui até a casa dele, que estabelecia uma “brincadeira” em que quem vencesse ele no Combate ganhava o “direito” de ir pro quarto; eu não fui, mas entreabri a porta e vi o filho da puta abusando de um moleque. Depois ele foi pego e minha mãe veio perguntar a respeito; eu menti, com medo de ter feito coisa errada. Sempre com medo. Um dia eu andei de bicicleta para além do limite estabelecido de uma quadra, fui mordido por um cachorro, e estava preocupado é se ia apanhar. Meu pai deixava marca de fivela. Quando eu cresci e ele já não batia eu precisei me acostumar. Nos episódios de mania é comum eu ficar repisando isso, o que é típico da doença, mas não vale a pena. O pior é ver meu irmão reproduzindo esse tipo de autoritarismo. Nós somos uma família extremamente middle-of-the-road, eu mesmo que me acho cosmopolita nunca escapei das minhas origens, mas sei lá, tosco a gente não tem desculpa pra ser. A menos que seja o Bolsonaro, ele é a desculpa pra ser tosco de muita gente. No ano da eleição eu fui ao aniversário do meu sobrinho, todo mundo de camisa da seleção, gente que usou o privilégio pra acessar a universidade pública e depois trabalhar pra uma corporação estrangeira e ainda apoiar a sabotagem da universidade pública. Uma vez eu dei um globo terrestre ao Matheus, ou ele não gostou nem um pouco ou meu irmão jogou fora por ser terraplanista, eu não duvido, engenheiro e tudo. Mas esquece isso.

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