Autorama 12

Ali é a José Paulino, onde fica a Iluminações. Lá eu retomei meu hábito de comprar discos, foi em dois mil, eu acho. Thick as Brick do Jethro Tull, In-a-Gadda-da-Vida do Iron Butterfly e Exposure do Robert Fripp; tempo depois eu esqueci uns discos na Muda, acabei encontrando, mas o Fripp tinha sumido, era a versão original com os vocais tresloucados em Disengage, o que eu tenho hoje é a versão domesticada, é uma verdadeira lacuna. Iron Butterfly me lembra aquele maluco de Vitória, o Adenilson, essas figuras que a gente tromba na noite, foi ele quem indicou o disco; ele era o rato de vernissage, comia e bebia de graça, um dia eu fui com ele numa no Yazigi. Me mostrou o panfleto da candidatura a vereador. Estes me apoiam: Tim Maia, Karl Marx, Bob Marley e um tanto de gente morta. Saiu no Jô, ele disse, e eu me lembrava mesmo de ver. Foi em nove nove ainda que Fissurinha e eu fizemos a viagem até Cruzília e São Tomé das Letras. Eu gostava do menino, quem morava com ele é que não suportou e mandou ele se picar; aí ele passou a orbitar em torno do Vítor e ficar cada vez mais magro sem fazer exercício, e eu, que já tinha batizado o Rômulo de Fissurinha (desesperado pra comprar maconha quando ainda tinha), acrescentei mais um epíteto, Fissurinha MasterSux (era o aspirador portátil vendido pelo célebre 1406). No fim ele voltou pra Goiânia com medo de si mesmo, eu acho. Essa expressão era outra do Bródi: “eu tenho medo de mim mesmo, se eu der uma joelhada no cara, bródi, o cara morre!”. Mas fomos Fissura e eu até Minas, mesmo destino da viagem maníaca no ano anterior, mas eu ainda fui bem recebido em Cruzília. De lá fomos a São Tomé das Letras, o must-go dos doidões naquela época; a cidade é bem sem graça, a não ser pelas construções todas de pedra, e então nós fomos a uma cachoeira, e outra, e acabamos na Cachoeira da Chuva. Primeiro havia um estágio com uma queda diáfana, daí o nome, e então outro com uma cachoeira mais vigorosa; no primeiro a gente encontrou um grupo de Campinas, eu achei uma moça muito bonita, o jeito que ela olhava chamou atenção, e os olhos translúcidos; nós nos despedimos e seguimos, lá em cima eu perguntei ao Fissura se ele se lembrava do nome dela. Um dia eu estava no Delta Blues, a Meca da tranqueiragem de Campinas e região – eu toquei lá com o Maciel, era o tempo do BlueSmoke, me pagaram cem reais, era uma fortuna pra quem só tocava por farra mesmo – e quem me aparce perguntando se eu não estava aquele dia na cachoeira? A Thaís. Eu não acho que ainda pensasse na Karin, nem acho que era o fato de que ela era louca por mim, a Karin também praticamente se jogou no meu colo. Acontece que eu achava um erro ter passado o primeiro ano apaixonado na outra ponta de mil quilômetros, eu queria ter minha experiência máxima de Unicamp; ela poderia ter sido tão intensa no sexo quanto nas substâncias, é verdade, ou eu poderia ter tido uma namorada todo o tempo, mas enfim. Tive momentos fantásticos nos braços da Thaís, e é isso que importa. Como naquele dia em que eu estava com os pontos no braço, de arrombar minha própria casa, e se não me engano era meu aniversário, no bar perto de onde os goianos estavam morando, no Cambuí, a Thaís me aconchegava e o Piccolo, grande Piccolo, provocava: “Leozinho agora tá feliz”, e tava. Não eram só as íris translúcidas, o formato dos olhos dela era assim um pouquinho diferente, instigante. Ela parecia uma imagem religiosa, esmaltada, de tão branca; os pés dela eram bonitos, uma vez eu comprei um tamanco pra ela, mas eram venulados, o Shakespeare adoraria por certo, ele tem um prazer voyeurístico aparentemente em narrar um estupro e as vênulas azuis de Lucrécia parecem ser um tesão para ele. A Thaís merecia mais de mim, e em ao menos um episódio eu fui nada menos que um babaca. É claro que eu já tinha apagado isso da memória quando ela me jogou na cara, numa das minhas tentativas de reatar o que nunca houve por completo. Foi no semestre que eu lecionei inglês, primeiro de dois mil, talvez eu estivesse um pouco pra cima, mas contido o bastante pra dar conta de trinta e dois créditos; eu não era tão mau aluno, eu só não conseguia parar a cabeça muito tempo num lugar, e isso vale pra tudo na minha vida. Sei que entrei numa onda narcísica, todas aquelas mocinhas me olhando com admiração na escola de inglês; no fim, minhas aulas eram uma merda, primeiro porque eu não fazia planejamento, segundo porque eu funciono dentro do autorama, e acabava esquecendo que era gente do nível mais básico e dizia tudo que eu achava interessante. Então nesse dia ia ter festa da Muda e a Thaís disse que estava indo me ver; ela morava longe, ainda. Depois de ficar um pouco com ela eu dei um sumido, eu me lembro que fiz alguma graça com aquela moça da Matemática, a dos dentinhos separados, a que eu sempre me atrapalhava tentando conversar, e quando enfim eu revi a Thaís ela diz que eu fiquei prestando atenção às outras mulheres de forma descarada e dizendo ainda que ela devia aceitar porque “eu sou homem”. Voilà. Outro episódio desses que eu apaguei da memória foi na UnB; eu tinha tanta reserva com as disciplinas da Pedagogia que fui lá e dei uma patada na Simone do nada, não me lebro do conteúdo. Pra falar a verdade, minha história atribulada com as instituições de ensino dão um capítulo, e desde quando em Porto Velho os idiotas do Ricardo e da Silmara, que tocavam um Pitágoras decadente, me apontaram como a origem de todos os males na escola – e meu pai ficou do lado deles – minha relação é sempre de confronto, exceto talvez no terceiro ano, quando eu bebia com os professores de humanas aos sábados. A Simone me contou depois que tomou por missão conquistar aquele “rebelde”, e conquistou, eu a considero até hoje uma grande amiga, embora a gente tenha contatos fortuitos de internet apenas. Só a inspiração dela para abandonar a carne é que não resistiu ao lanche de pernil do Estadão. Eu ficava fazendo gracinha na aula dela, será vaidade ou hipomania de novo? Uma vez ela contava de uma escola alternativa onde os alunos precisvam aprender a assistir aula careta; e eu disse que estava aprendendo a assistir aula careta só agora. Ela precisou fazer uma careta pra segurar o riso, e esse é um troféu que eu trago guardado comigo.

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