Autorama 11

Aí foi o médico quem aconselhou a salvar meu curso, minha matrícula tinha sido cancelada ao zerar o segundo semestre. Eu sou cheio de opinião sobre tudo, mas sobre minha vida eu deixo os outros me influenciarem. Entrei com recurso na DAC e me enganei mais uns tantos de anos, sempre ameaçando largar mas desistindo de desistir. Nove nove começou minha vida na Unicamp de fato, eu não estava obcecado nem com a Karin nem com os goianos, que seguiram amigos, e com a adição do Fissurinha, um meninão; comecei a conhecer gente, como o Marcelo, o Ivan e o André do Cursão, o Lucas e o Forma do Grotto… o Forma mora perto de casa, mas a coisa mais difícil é ele atender um telefone. E o irmão dele, que veio depois, o Guilherme ex-Pastel, morou comigo em Brasília e é meu inquilino lá na Vila Planalto. E conheci o Campeão, um grande parceiro até hoje, de viagem, de daime, de cogu, também, de Scrutinizer. O Trujillos e o Stevie eu já conhecia, do tempo de Quindim. Eu comecei a frequentar o CB00, e frequentar, e frequentar, às oito e meia da manhã já na função, e a turma não era pequena. Um dia o Alisson estava me visitando, era vizinho em Porto Velho, duma família paranaense ultra-conservadora, e eu fiz questão de levá-lo ao CB00, para chocar mesmo. Eu pedalava pelo campus ouvindo o Lamb Lives, um bootleg do Genesis, e tocando bateria no ar; o Marcelo diz que ficavam fazendo comentários sobre isso. Pra casa do caralho com essa gente. Um dia eu saí do laboratório de física e estavam o Vítor carioca e o Fissurinha dando risadinha, brincando sobre “cachorro louco”, foi o dia que eu tomei o primeiro ácido, uma meiota, o Marcelo experimentou esse dia, também, eu olhava pra cara dele e via uma cebola. Nós fomos buscar na Moradia com o Robert, tomamos e fomos ao apartamento do Penha, eu acho, isso deve ser dois mil, então, Penha hoje é unicórnio, mas os malditos do Vítor e do Fissurinha ficaram falando o tempo todo de futebol, da forma mais infantil, e eu não aguentava mais. Eu me lembro de olhar pra parede do prédio oposto e ver um plano se destacar, como uma “quinta dimensão”, mais tarde eu ia pirar nessa quinta dimensão. Quantos ácidos eu tomei? Não foram muitos, esse com o Bogó em São Chico, no Zorn/Frith em Lisboa, em Puruba, naquela viagem da Bahia você se deixou tapear e o Campeão dividiu o dele em três, não deu muita coisa, naquela festa do Guará não deu nada, ou quando você tomou em meio à bebedeira e também não bateu, com o Pedro eu tomei mais algumas vezes, lá em casa no condomínio, foi a última aventura desse tipo do Marcelo, foi quando eu vi a tela do Windows turbilhonando, o dia em que eu voltei da viagem malfadada a Ilha Bela, ou o dia em que a gente foi à Fazenda Rio das Pedras; hoje deve ter câmera por toda parte ali. Não foi mais que uma dúzia, talvez eu tenha tomado mais cogumelo do que ácido. Lá vem o cento e dezessete, finalmente. Eu me lembro quando fui à casa do Pedro do IEL, acho que o conheci aquele dia, até, e surgiu o assunto de cogumelo. Ele foi à cozinha e voltou com um potinho desses infantis, de plástico amarelo suado de sair do congelador, com uma fita de esparadrapo e umas letras de forma de BIC azul dizendo CUIDADO, CHÁ DE COGUMELO. Senhor, este vai pro Campinas Shopping? Não, Campinas Shopping é o quatro dezesseis, mas ele só tem dois horários. É que me disseram… Esse aqui passa na rodovia, você tem que terminar andando. Não, tá ótimo, obrigado. Sujeito complicado. Eu já perdi a integração, só pela cagadinha? Que sacanagem. O Pedro disse que não ia tomar, então eu aceitei e chamei o Fers e o Serjones pra tomar nos dias seguintes, tomamos lá em casa e caminhamos até a Unicamp. Uma hora a gente estava perto da rua e parou um carro pra pedir informações, logo de quem, era véspera de vestibular e vários pais levavam os pimpolhos pra conhecer o local de prova, sei que ele perguntou pelo Banco Real, pensando certamente no postinho que era logo adiante, mas eu pensei na agência, e comecei a explicar, mas de repente eu estava dizendo “e aí você sai, e sai, e…” Aquele moleque deve ter ido estudar na PUCC. O que mais me marcou foi deitar nos bancos do Teatro de Arena e ver as nuvens bailarem diante de meus olhos, num fractal dinâmico. Um dos dois pirou de voltar pra casa e eu dizia “seu corpo é sua casa”, me achando profundo. Depois eu estabeleci uma média de três viagens de cogu por verão, que é o que os médicos recomendam. Teve aquela vez com o Fers que em Americana, a gente começou a achar um monte, começou a chover, parecia cena de filme, a gente se abraçando, feliz feito pinto no lixo. Também aquela em Brotas, a gente catou em Analândia, e tinha uns que eram mediúnicos, eu sabia que se afastasse o mato ia achar, tinha uma panela de pressão cheia de chá, sobrou um monte, devia ser eu, o Campeão, o Jundiaí e Fernando, e o sol poente espalhava um tom rosado por todo o céu nublado. Depois eu voltei naquele mesmo sítio com a Thaís. Quando a água entrava na barraca e ela estava menstruada. Caramba, a Thaís.

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