Autorama 10

Quando eu fui a Vitória a primeira vez, adivinha, psicólogo. Eu contei a ele que tinha ido ver a exposição do Dalí no MASP e fumado um no banheiro – foi com o Tuta, o cara que me pôs pilha de aprender batera e tocar na festa da turma em Porto Velho, eu e o Bogó – e ele achou super interessante, garantiu a meus pais que eu só queria explorar a vida, o que é fato. Pra eles não era o bastante, é claro, toca pro psiquiatra; ele era da turma dos Velloso-Lucas, a um tempo políticos no Espírito Santo e foliões célebres do carnaval carioca. O Sérgio mesmo dizia que compunha marchinhas e textos satíricos, devia se acreditar da redação do Pasquim, mas era tudo uma bosta quando ele mostrou. Pra mim ele tava cheiradaço na consulta, e quando eu disse isso em casa foi um escândalo. Voltei a Campinas por mais uns dias. Eu lembro que estava na casa dos goianos me dedicando às atividades regulamentares e o Luciano pediu meu carro emprestado pra fazer boca-de-urna pro tucano José Aníbal, apostando que conseguiria assim uma vaga na Unicamp. Depois, em Brasília, ele conseguiu emprego na companhia de água fazendo campanha pro Arruda. Esse era o nível do cara. Good riddance. Ainda tomei esporro dos pais por ser mole com o amigo folgado (uma das últimas palavras que disse a ele). Mais uma vez, pressão pra voltar. Eu fui até a UFES para ver a Karin, mas nos desencontramos; ao telefone ela insinuou que eu mentia e eu fiquei puto – estava com um pavio milimétrico a esta altura – e disse que queria conversar, mas se ela preferisse acabar com aquela palhaçada… Eu a vi na Ilha do Boi uma última vez; ela disse que não aceitaria que eu terminasse de novo. Detalhe: ela estava grávida de outro cara naquele exato momento. Já depois da internação a mãe dela me contou, num encontro fortuito, e eu me lembro de ir ao MacDonald’s, só porque me remetia a ela – eu não frequentava antes nem nunca mais voltei a frequentar – e lá ouvir da atendente “olha aí o apaixonado”, entre risadinhas, só entendi quando vi a Karin com um barrigão. Pela mesma época eu fui levar um presente no seu aniversário, era o Luther College do Dave Matthews, e lá vem o homem dela chegando. Qual pela mesma época? O aniversário dela foi seis meses depois! Eu não me respeito. A Karin terminou Direito e fez Medicina, pra no fim se dedicar a ser esposa de um turco e se converter ao muçulmanismo; eu ainda mandei algumas mensagens, e por muito tempo sonhei que a gente se reunia e eu dizia que sabia que tudo ia acabar bem. Pela época do rompimento, indicaram aos meus pais o Hospital Espírita de Marília. Eles sempre curtiram essa baboseira; meu pai dizia que é uma “fé raciocinada”, sabe como é, surgiu no positivismo e devia ser tão anacrônico quanto. Eu tentei me interessar algumas vezes, e em depressões pós-mania eu cheguei a frequentar para tomar “passe”, de tão fragilizado eu torcia para que ajudasse, mas aí os caras começam a descrever em detalhes os outros mundos em que vivem os espíritos, estão tendo acesso a um ácido melhor do que os que eu consigo – principalmente o “fantasminha” de Arraial d’Ajuda, qualquer malandro te passa a perna. Me aliciaram para ir até lá, e que podia eu decidir de mim mesmo? Deveria já na época ter aprendido a me afastar da instância de autoridade e cair no mundão, mas em dezessete eu seguia cometendo o mesmo erro, e ouvindo ainda de meu pai que me sequestrava na condição de “chefe de família”; aos trinta e sete, nesse aspecto eu devia mesmo ter me casado. Pegamos a estrada, mas para mim era insuportável ficar parado dentro de um carro, eu tinha que fazer um escândalo pra que parrassem. Quando eu entrei e vi que era um manicômio, eu acusei o engodo deles, que pintavam aquilo quase como uma colônia de férias, e minha irritação me encheu de tanta energia que eu me pendurei de cabeça pra baixo numa viga de madeira. Meu irmão depois disse que ali ele teve certeza que eu era louco mesmo. Pois eu não troco cinquenta normalidades dessa gente pela minha loucura. O que tem demais pro ser humano reconhecer que a bipolaridade existe, que a esquizofrenia existe, em vez de tentar isolar e silenciar? Os remédios que eles te dão não tratam nada, só manietam mente e corpo, buscam um comportamento dócil e não bem estar. O Foucault diz que o encarceramento começou no fim da Idade Média, mas ele não apresenta nenhum contra-exemplo, uma sociedade que agisse de outra forma, só toma a tese como premissa e sai escrevendo centenas de páginas. Havia um pátio interno cercado pelos pequenos quartos com uma porta metálica de correr, e um banheirinho dentro. Metade do pátio era coberta, era onde aconteciam as reuniões, nas quais eu sempre tinha algo a dizer, tanto que o Coronel fazia um sinal para que eu moderasse. Ele não parecia doido, e o nosso palpite, meu e do Mineirinho, era que na clínica ele escapava da cadeia por tráfico. Mineirinho era um moleque mais novo que eu, estava lá pelo pó, e parecia que o efeito tinha se cristalizado nele, porque ele não parava; ele escreveu várias vezes em meu caderno “nunca cheire, sempre fume maconha”, se ao menos eu pudesse encontrá-lo pra dizer que sempre cumpri à risca seu conselho! Tinha o Tonho, que repetia sempre “não admito telefone d’oreia”, eu queria acreditar que era vítima da ditadura; tinha também o Dornelles, que se dizia sobrinho-neto do Getúlio Vargas, mas ele mentia e era infantiloide. Às vezes a gente era liberado para uma área externa, quando se misturava com a “ala do SUS”, taí o privilégio de novo. Lá tinha um cara que dizia ter sido o palhaço Bozo, podia ser, é público que o ator era cocainômano, hoje tem até o filme. Tem sempre uma energia sexual rolando em hospício, também; em todas internações houve ou boato ou fato de algum contato, eu mesmo beijei a Milena na Mansão Vida. Em Marília o Mineirinho pegou meu gravador e conseguiu produzir um diálogo com uma moça da ala feminina dando a entender que eu havia feito sexo com ela; o gravador foi confiscado e eu sofri alguma punição, se não me engano. Quatro dezesseis e um nove dois. Tá demorando.

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