Autorama 9

Bem, você esqueceu de trazer um livro mas parece que está escrevendo um na cabeça. Depois vai ficar com preguiça de digitar tudo e vai esquecer completamente disso, eu posso apostar. E você publicaria isso, tem certeza? Expondo a vida dos outros? O que eles vão achar? Ora, eu nunca consegui convencer ninguém a ler minhas bobagens mesmo, impossível que vá ser agora que se interessem. Eles vão se interessar justamente pra ver como aparecem. Caralho. Uma vez o Piccolo disse que o PH me escreveu no livro dele, eu nunca li. Mas eu não diria que “qualquer semelhança é mera coincidência”, clichezão da porra. Super agradável andar beirando um canal de merda, o rio canalizado é o símbolo do urbanismo brasileiro. Em Amsterdã você acha lindo. Não enche o saco. A casa dos goianos era onde sempre tinha maconha, videogame e filmes do Tarantino em VHS, eu vi o Lebowsky lá, também, nem entendia o filme, só deixava entrar pelos olhos e ouvidos. Mas para além desses apetites frívolos a gente se interessava por xadrez e Machado de Assis. De tanto dichavar um beque na antologia de contos do Piccolo eu comprei a minha; devia voltar a ela, revisitar Machado é sempre bom. Ao longo do semestre eu fui ficando cada vez mais esquisito, quando eu saí da clínica e o Alexandre disse que eu estava precisando mesmo foi uma decepção, eu jurava que nós éramos a resistência à caretice do mundo. Foi um período de abandono total, deixar-se cair na fruição desenfreada do mundo exterior. Outras crises foram mais internas, ou internéticas. Nessa primeira crise não teve megalomania mística, foi mais uma grande farra. Eu me programei para perceber o mundo como novo; eu jogava muito Mario 64, onde eu ficava explorando o cenário e a própria jogabilidade, que era inacreditável a alguém acostumado ao Mega Drive, então eu saía fazendo a mesma coisa no mundo real, subindo um montinho e me deixando cair de novo, sentindo a gravidade. Eu estava bem lelé a esta altura. Também teve o tempo em que eu colava na empresa júnior da computação e ficava rabiscando o quadro ou empoleirado na placa de concreto. Acho que começou comigo catando um monte de lixo na beira da Estrada da Rhodia, incluindo uma calota de Wolkswagen e um cogumelo, sei lá com que intuito, eu já morava em Barão no segundo semestre, e eu ainda larguei a bicicleta amarrada na cerca pra ser roubada; por essa época eu telefonei pros meus pais às três da manhã, e a partir daí começou a cobrança. Eu me lembro de espalhar revistas de mulher pelada no chão do banheiro e não chegar nunca ao fim do que fui lá fazer, viajando para todos os lados. Minha relação com meu irmão estava péssima, e ele já estava se envolvendo com os pastores americanos, ainda por cima. Eu e o Domingos dificilmente poderíamos ser mais diferentes, eu questiono tudo e ele não consegue ver como qualquer coisa sequer podia ser diferente. O problema é que ele sempre se dispunha a me ridicularizar. Ele costumava ser um bobalhão farrista, hoje é um fanático embrutecido. Com a Karin, também, não estava fácil. Num momento eu decidi que faria o vestibular para Música, ela me deu um esporro, cabeça de velha aquela moça; e eu fiz um grande libelo pela liberdade de chupar boceta e ter o pau chupado. Eu nem sei se eu queria romper ali, mas ela ligou uns dias depois. Então no feriado de doze de outubro estava combinado que eu ia a Vitória, mas eu não fui, fugi para Cruzília, que é a terra do Daniel, lá de Porto Velho, e foi a viagem mais doida da minha vida. Eu entrava em cada lojinha no caminho e tudo era maravilhoso, eu comprei um prendedor de cabelo dos Bananas de Pijamas, que foi a marca registrada da trip; eu estava careca, e usava o adereço nos punhos. Putz, também teve uma quando estava com o Domingos numa loja de utilidades domésticas, eu me encantava de tudo, ou aquela no supermercado, você ficava sentando no alto das pilhas de cadeiras de plástico… Eu comprei uma fita em que o Cid Moreira lia Provérbios, e eu me cagava de rir no ônibus, os outros olhando feio. Outra coisa que eu comprei foi uma câmera muito ruim, eu tirei centenas de fotos e poucas prestaram; a Romilda do bar, onde eu deixei conta sem pagar, mas depois paguei, as mulheres bonitas, um matuto, o Du, o Jefinho… E o Renatão, ele era o único que fumava um. Então um dia houve discoteca, mas o maluco achou por bem subir numa estrutura e ameaçar se jogar, pensando que estava num dos clipes das bandas que ouvia, e não numa cidade do interior conservadora. Isso meio que acabou a balada de todo mundo, e não foi a primeira vez, em Sacramento eu achei o interruptor geral, desliguei e saí correndo, sem mania nem nada. Quando eu saí da boate, passou o Renatão na Brasília e disse “sobe aí”; eu levei a sério, meti o pé na maçaneta e subi no teto, deitado de bruços. Ele partiu, subiu uma travessa e parou mais adiante, quando eu entrei; a última coisa que a gente precisava era atrair atenção da polícia. Quatro dezesseis e um nove dois.

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