Autorama 8

Sacramento. Sacramento é o nome da cidade do meu pai, lá no Triângulo Mineiro. Terra de gente chucra e racista, a Carolina de Jesus fez bem em se picar de lá. Meus tios, no entanto, são uns amores, pena que todos os primos sejam reaças. O Neto é um milico feladaputa e eu nunca deveria ter estado em sua presença depois daquele dia em que eu fui preso e meu pai o chamou pra “ajudar” e ele me deu um “enquadro” violento. O Webinho é maconheiro e reaça; por muito tempo o baseadinho foi afinidade suficiente, mas hoje… Também, eu me afastei de todos os primos, troco umas mensagens com o Alan amiúde, e só. Prometo há tempo visitar meu tio que tem Parkinson, o Edvaldo – na família da minha mãe todos começam com E – e nunca vou. O Edinaldo é historiador, seria tão bom conversar com ele agora, mas ele mesmo optou por ser recluso. Como eu. As pessoas têm se falado cada vez menos, essa é minha impressão, e têm existido cada vez mais no tal do zape-zape. Eu que não adiro a smartphone enquanto puder; já é como estar fora do mundo, as pessoas te passam um carão só por isso, “como não tem whatsapp?!”; saco. Agora joga a bituca na lixeirinha como um bom menino e parte pra sua função. Puta sem jeito cagar no comércio dos outros. Você não será o primeiro, nem o último. Amigão, faz um xis-salada no capricho? Pronto, eu aproveito e reforço o estômago, também; entrando e saindo, cagar é tão parte do ciclo vital quanto comer, por que comer é cheio de sofisticação e cagar é vergonhoso? Nós ainda temos tabus muito idiotas, não se pode peidar em público, negamos a biologia, isso é tão judaico-cristão. Caralho, não tem papel. E a coisa está apertando. Eu esperava que ninguém nem percebesse, e agora eu vou ter que colocar um letreiro neon na testa “eu só vim cagar”. Companheiro, dá um minuto de sua atenção? Pois não, meu patrão. O banheiro está sem papel. Como? Papel, papel higiêncico. Ah, tá. Ô Cláudia, providência um papel higiênico pro rapaz aqui! Puta que pariu, eu tentando ser discreto e o cara alardeia como se fosse o arauto da cidade. Vai ser difícil tirar o Hamlet da cabeça agora. E vai ser mais difícil quando eu morrer com uma pilha de livros em casa. Um capricho caro. Se eu tivesse um pistolão pra dizer que eu sou bom, eu era bom. Tá sentando na mureta. Ah, muito obrigado, Cláudia. Tá crítica já a coisa. Até que está bem limpinho, podia ser pior. Podia estar chovendo. AAAAAAAAHHHHH! Cagar é muito bom. Lembra da musiquinha? Quando o chato do Delfin a tocou no Ninho do Coruja? Aquelas noites de Muda foram uma das melhores coisas daquele tempo. Só não deu certo misturar o Delfin com o Pedro, lembro dele apartado do Pau do Zefa, escandalizado com um Erasmo Carlos. Mas o pior foi o conflito de horário do Coquetel do Mingus com o escroto do Camilo; se precisar de um alternativo descolado afetado e ególatra, como dizia minha mãe, esse não dá, esse passa. E eu ainda preciso conviver com uma gravação em que ele invade nosso programa pra fazer publicidade do dele – SOKOBAUNO! – grande idiota. Esse papel é meio lixa. Não vai reclamar ainda por cima; é erógeno, limpa direitinho. Sabão ao menos tem. Tá aliviado? Muito. Tá na mão o xis-salada, meu patrão! Ele disse meu patrão ou meu cagão? Eu devo estar ficando doido. Você já é doido. Ah, é. Eu não gosto de ser chamado de patrão, coisa de socialista culpado. Culpado de que, milorde? Eu devia ter pedido um suco de laranja em vez de recorrer a refrigerante; eu lebro que o Marcelo ex-Cabelo, pra mim o verdadeiro capitão do Coquetel, de todos os hábitos que ele abandonou o primeiro foi o refrigerante. Outro com quem eu vou perdendo contato; eu acho que ele me olha meio de cima hoje, porque eu ainda dou um dois, mas eu fui o único da Unicamp que ele chamou pro casamento. Não, Leonardo, você não devia estar casado; quanto a providenciar sexo é com você. Entra no Tinder. Não enche o saco. Já estou dando voltas à cabeça de novo. Cabeça de Autorama. Taí, podia ser esse o título do seu livro, Cabeça de Autorama. E é mesmo um autorama, porque de vez em quando o carrinho sai do trilho e é preciso pôr de volta. Amigo, faz favor. Que ônibus eu tomo pra ir ao Campinas Shopping? Ih, rapaz, ô Cláudia! Explica pro meu patrão aqui como vai pro Campinas Shopping. Tudo bom? Deu quanto? Dezessete e trinta. Então, você pode pegar o quatro dezesseis ou o um nove dois. Mas você não pega neste ponto aqui, você pega no próximo, na Maternidade. Ah, tá, obrigado, Cláudia. Quatro dezesseis e um nove dois.

2 Respostas to “Autorama 8”

  1. Delfin Says:

    Porra, eu doido pra encontrar registros do Coquetel e encontro duas referências à minha chatice. Putz, Leo.

    Saudade daquelas noites.

    Faz muitos anos eu migrei o Ninho pra internet, imediatamente após a muda, em 2005, quando mudei pro Rio. Ele está online até hoje (tinha morrido na edição 500 — sim –, mas voltou faz 10 edições por causa da pandemia. Como foi centenário do patrono do Ninho, o Charlie Parker, deu vontade de ouvir o Coquetel de novo e foi uma surpresa saber que algo sobreviveu. Nunca gravei nenhum Ninho da Muda, o que é uma pena.

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