Autorama 7

Já está chegando, acomoda aí. Olha que gatinha subindo, e com um estojo de violino? Pensar que eu já quis ser músico, já quis fazer vestibular de música em vez de engenharia, foi a maior briga em casa. Minha mãe dizia “mas você precisa fazer um curso superior!”, como se não fosse um; meu pai dizia que “não dá camisa a ninguém”, segundo ele eu dei um murro no peito dele, eu nem me lembrava disso. Na verdade quando a gente é escroto a gente apaga da memória fácil, eu tenho exemplos. Eu não servia pra músico, eu oscilo, eu levo a sério um tempo, depois abandono, e sou muito irrequieto pra estudar por muitas horas por dia. Na literatura você não desaprende a ler se ficar uma semana sem ler um livro, ou a escrever se deixar de produzir, se eu fico sem tocar bateria as mãos esquecem. Tradução é perfeito, já que eu nunca criei grande coisa. Aí então meu irmão, que já fazia Computação em Campinas veio com a conversa de que a Elétrica tinha um certificado de Engenharia de Som, e eu acabei entrando nessa furada; eu escrevi até uma cartinha pro Yaro, que não respondeu. O Yaro me recomendou uma vez usar chumbo pra isolar acusticamente um quartinho, o que mostra o quanto ele sabia de engenharia de som ou de riscos de intoxicação ambiental. E lá fui eu, passei na Unicamp e na Poli, um professor, o pai da Lívia, a do pescoço, um milico, pagou minha inscrição no ITA, mas eu fiquei desenhando na prova, nem queria nem conseguiria passar, Zeus me livre de militarismo. Eles queriam me usar pra fazer propaganda; foi toda uma história no ensino médio, minha mãe tentou me matricular no elitista Leonardo da Vinci, não conseguiu; aí com as notas do primeiro ano no Nacional ela voltou lá e conseguiu a matrícula e uma pequena bolsa; mas eu achei muito chato tudo aquilo, e voltei pra bagunça do Nacional com cinquenta por cento, eu soube depois que o diretor me chamou de filho da puta porque percebeu que eu eu achei pouco, e achei mesmo, mais pela vaidade do que pelo dinheiro, que feio. Eu tive dois trotes. Um foi privado, com quem morava, ou moraria, comigo, logo na divulgação do resultado lá no CB, quando cortaram minha gafurina e eu colava os tufos no rosto com tinta guache de modo a me tornar uma criatura medonha, o que de fato eu sempre fui. O segundo foi o dos veteranos, que começou na Praça da Paz, a gente ficou sem um dos calçados o dia todo e deve ter tido o palitinho passando de boca em boca, mas nada muito punk; eu acho que quem não quiser participar deve ser respeitado, mas esses ritos de passagem são importantes. No fim do dia estávamos no Furlan, um bar tradicional perto da Itapura, para a chopada. Eu lembro que eu já conheci os malucos da nove sete, a turma que mais teve doidão que desertou depois, a gente deve ter pitado um, e teve uma cena que o Bródi repete até hoje… Por que você não caga na casa do Bródi? Ou do Maciel? Ah, não, “como vai, vim cagar e ir embora?” Só aparecer sem avisar já é indelicado, você nem sabe se estão. O Bródi conta até hoje que a gente estava com um outro capixaba (eu sendo honorário) que era caretaço e eu insistia que todo capixaba é doidão, e ele ficava sem graça. O Gabriel, ou Bródi ou Exterminador, eu descobri mais adiante, fumando no famoso CB00, a sala de aula que a gente preferia às de cálculo, nos banquinhos perto do laguinho, os quais arrancaram, que tinha jogado basquete comigo no Saldanha da Gama em Vitória; eu era fraquinho, ele sendo alto pegava muito rebote, mas só isso também, embora ele se ache o Michael Jordan. Ele se achava bom em tudo, o garanhão-mor, daí “Pira, Bródi” ou Exterminador. Figura. Ele passou por uma cirurgia grande, preciso fazer outra visita a ele. Pronto, estamos chegando na Orozimbo. Eu também passei uns dez dias na UTI. Quando eu acordei eu prometi que nunca mais ia fumar, como se fosse o cigarro o responsável pela pneumonia, mas eu me sentia culpado. Já sei, canibalismo. Começou no show do Paul em Goiânia, estava febril, fraco, aí eu dormi no sítio em Goianápolis e o Tio Choca fazia uns chás. No dia seguinte eu fui trabalhar bombardeado e ainda tive que ouvir piadinha de um colega fascista, que achou que eu dormia, sobre um episódio do qual eu muito me orgulho, quando eu tirei um barato da cara da tal Dodge, que depois virou PGR – ela perguntou se eu tinha algum problema na cabeça, eu disse que tinha vários mas preferia uma conversa mais objetiva, ela queria fazer objeção ao chapéu, aquele que ficou na Rua Aurora – aí eu levantei e disse umas na cara dele. Passei pelo médico no trabalho, que disse que não era nada, mas pouco adiante eu já estava no hospital e mais um pouco entrando no CTI, um médico disse na minha frente que eu estava em choque séptico, eu vi quando enfiaram sonda no meu pinto… Acordei com as mãos amarradas na maca, tubo na boca, e vendo as janelas de um prédio meio futurista que eu não conhecia. Primeiramente eu pensei que era mais uma internação psiquiátrica, depois eu descobri que minha família contratou um táxi-aéreo pra me levar pro Albert Einstein. No coma eu tinha umas espécies de sonho, e alguém falava que eu tinha sofrido um acidente, e eu me perguntava qual; na época eu ia ao Rio ver um festival de jazz, achei que era isso, o avião caiu. Eles tiveram que limpar minha caixa torácica cheia de pus. Eu tive um episódio de sonambulismo na internação (o que eu tinha muito, criança, destrancava porta, uma vez quase mijei no meu irmão), e era misturado com um sonho sobre a batalha de Tewkesbury – quando os York vencem a Guerra das Rosas, eu tive minha fase Ricardo III – e aí veio psiquiatra, começaram a pirar nisso. Bobagem. Já pode apertar o botão. Aqui, atrás desse prédio é a rua onde mora o Gabriel, morava o Maciel antes de se mudar pra rua de trás, e lá atrás no fim do século vinte moravam o Pequeño, grande Pequeño, o Fers e o Serjão. A verdade é que no primeiro semestre eu fui bem comportado, bom aluno, e gastava a maior parte do tempo livre escrevendo pra namorada longe. No segundo semestre eu comecei a frequentar a casa dos goianos, e frequentar, e frequentar, e dormir noites seguidas, até torrar a paciência do Pequeño, que disse que eu precisava curtir a onda “na minha goma” – ele já era um erudito na época, e vê-lo usar gíria era engraçado. O Alexandre Piccolo e o Fernando Canedo eram da turma do meu irmão, Computação 96; o Sérgio Henrique tinha entrado em Elétrica, e no ano em que eu entrei ele mudou pra Economia, quando ele foi pintado de verde, saiu na Folha assim e ganhou o apelido de Hulk. Pronto. Pra um cigarrinho vai ter que dar tempo.

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