Autorama 6

Eu já ia me mudar pra Brasília, mesmo, que me importava eleição de prefeito? Ou eu só queria ir embora de Campinas de todo jeito? Foi em dois mil e quatro ainda, isso mesmo. Prefeito de esperança foi o Toninho, que até hoje, e até o Pedro, de todas as pessoas, dizem que seu próprio partido mandou matar; foi no dia do onze de setembro, que se não me engano foi no dia onze de setembro, dois mil e um (e minha mãe morreu na mesma data três anos depois). A vice dele era uma nulidade, eu a conheci no dia do penta, quando eu fui com o Piccolo, grande Piccolo, à chácara de uma amiga dele, onde conheci ainda o Ximú, e através dele o Song X de Ornette Coleman e Pat Metheny, uma fritadeira da porra. Em setembro de dois mil e um eu estava hipomaníaco. Entre a primeira crise e a segunda eu tive umas duas ou três dessas “hipocrises”; eu chamava de viver intensamente, o que não é inverídico. Era também a época que eu frequentava cerimônias de Santo Daime com a turminha da classe média mística sudestina e me deixava seduzir pelo pensamento mágico, que é coisa da classe média mística sudestina, não do daime, eu sei porque fui a Rio Branco depois. Pois uma semana antes do atentado eu fui com o Campeão e mais uma turma a Visconde de Mauá, Céu da Montanha, e eu estava apaixonado pela Morango. A Mariana era do Cursão e da turma do Rugby, derivava o apelido de Moranguinho duma personagem infantil, em função das bochechas rosadas. Passou um bom tempo sem que eu pensasse em me interessar por ela. Aqui tinha um mini-shopping onde eu gostava de ir ao cinema. Eu vi Matrix aqui, com o Piccolo, grande Piccolo; quando a gente saiu da sala e passou pelos telefones públicos eu perguntei a ele se ele atenderia se um tocasse. Aquela risada bonachona dele. Eu ainda não sabia que me tornaria o protagonista do filme em minhas viagens. Mas aí teve uma partida que a gente disputou em Indaiatuba, o rugby sendo quase uma desculpa pra desafiar os limites da bebedeira depois, em que nossos olhares se cruzaram e ela disse “ah, Leo, hoje não rola”. E eu fiquei mastigando aquilo, me convenci de que ela gostava de mim, a ponto de decretar que era líquido e certo. Dentro da minha barraca em Mauá, bem cedo antes do trabalho, eu compunha versos para ela – o que eu sei dizer hoje é que começavam com “Ó cachos d’oiro” e terminavam com “pássaro canoro” (a voz dela era mesmo bem suave) – quando me convenci que tinha sentido um beijo no rosto, que era ela me visitando; eu determinava que nosso encontro seria no onze de setembro, porque um e um é um par e nove é novo, ou algo assim. Ela topou no dia treze, se não me engano, mas eu não reclamo do azar, porque fui eu o estabanado, mesmo. Mas você não pode deixar de contar sobre a Kátia; ela estava na trupe de Mauá e, quando estávamos indo até uma cachoeira, os dois no banco traseiro do carro, a mão dela buscou a minha. E reagi instintivamente, fugi. Eu estava maquinando mais versos pra Morango. Mas pera um pouco, esse foi o terceiro poema, era algo horrível do naipe de “a flor de Nichteroy desbrocha qual botão”, mas com certeza foi em alguma viagem posterior e eu estou misturando; foi em São Paulo mesmo. É muita informação. Até hoje eu me pergunto se foi só o apaixonamento ou se foi racismo; o que posso dizer em minha defesa (defesa?) é que também rejeitei a Alessandra, a amiga carioca da Dani. Na verdade foi pior que isso, eu tinha comprado ingressos pro Gilberto Gil pensando na Morango, que não quis ou não pôde, e eu convidei a Alessandra para ficar de blablabla a noite toda sem tentar beijá-la; tempo depois na casa da Dani ela dizia que na Unicamp só tinha pau mole, e eu sabia que o pau mole era eu. Na véspera dos aviões no World Trade Center eu achei por bem roubar uma placa da Unicamp, a segurança viu e bloqueou meu carro com uma viatura na frente e outra atrás. Eu voltei andando e no dia seguinte saí de bicicleta, um menino do condomínio veio contar todo animado que era feriado porque tinham assassinado o prefeito, e lá fui eu pro campus, walkman no ouvido, era uma fita do Frank Zappa, e quando eu já tinha ouvido tudo pus no rádio, e o repórter estava descrevendo o espetáculo do século, nas palavras do Stockhausen (eu ainda não escutava Stockhausen, na época). Eu achei que era ficção, tipo a Guerra dos Mundos do Orson Welles. Depois ainda teve o episódio na cantina da Pedagogia, onde um coral entoava cânticos macabros e um gordinho nerd celebrava o “café com desgraça”. Eu nunca fiquei feliz só porque eram os Estados Unidos se fodendo. Depois, eu devolvi a porra da placa, retomei a Saveiro e voltei pra casa; no caminho eu vi um sujeito sentado na calçada com um cajado, o que parecia um portento, mas era só o babaca do Magnus Opus Obscurus, programa da Muda contra o qual o Pedro lançou uma campanha em função do discurso de ódio que ele punha no ar, e aquele povinho “alternativo” do IFCH passou pano, como se diz hoje. São piores que os playboyzinhos de discoteca esses “descolados”, mais afetados e mais ególatras. À noite eu telefonei pra Mariana e ela topou na sexta. Onze foi terça, eu me lembro, então nosso encontro foi no dia… quatorze, não treze. Eu sei que foi sexta porque na manhã seguinte tinha aula do Jurandir, numa matéria de sétima, como eu chamava. Jurandir era um tucano de média plumagem, nunca se elegeu – o Maurício Conti era cabo eleitoral dele – mas nunca faltou boquinha onde governasse seu partido. Uma vez eu fiz uma viagem com o Fissurinha até Cruzília e quando a gente chegou lá estava a cara dele na TV, diretor do Denatran do FHC. Ele inventou o Rótula, que faz o Centro de Campinas igualmente inóspito a pedestres e motoristas. Mas isso não importa. Eu sempre me batia com esse professor, é claro, o que é baixo da minha parte, porque alguém que se vê como o tecnocrata arquetípico e pronuncia manêigiment em vez de ménedgement está abaixo do comentário. Bem, o encontro. Eu a busquei em casa e tratei de jogar logo na cara dela o que se passou em Indaituba. Como o mau jogador de truco que vê o zape na mão e pede truco na primeira rodada. E o resto da noite foi na nota do constrangimento, e da minha inabilidade social crônica. A gente foi ao Dalí, ali onde tem o Mackenzie, perto da minha primeira morada da Buarque. Diziam que o restaurante era do Rubem Alves, que é um desses que eu não li e não gostei. Não gosto de ver ninguém sendo alçado a sábio. Hoje mesmo é o Karnal, que não perde uma chance de confirmar minhas suspeitas. Ela achou o máximo, “do Rubem Alves!”. Pedimos peixe e vinho (super cristão, isso); nossa primeira divergência foi sobre as alcaparras, eu as detestava na época. Aí a dado momento eu declamei os versos dela e ela ficou “puxa, puxa”; era o momento de eu me levantar e ir até ela, mas e a insegurança? Talvez se estivéssemos lado a lado; mas sem talvezes agora. Aí eu pedi uma segunda garrafa de vinho, o que a desagradou, e fiz uma brincadeira sobre ouvir Megadeth na volta, que era o modo de mostrar que eu estava puto, e tudo foi tranquilamente ladeira abaixo. Nos dias que se seguiram a tensão e a ansiedade estavam fechando minhas vias aéreas, e eu abandonei o semestre pra fazer a cirurgia de desvio de septo e cornetos em Vitória – na Serra, na verdade, perto de onde estão hoje os ossos da minha mãe e da mãe dela. Não adiantou muito, até hoje a tensão e a ansiedade fecham minhas vias aéreas. Quando eu já morava em São Paulo, eu fui ao pronto socorro reclamando disso e o puto do médico só faltou falar que eu estava apenas tentando cabular o trabalho. E se for só ansiedade? Eu estou sentindo, porra. Nunca tive muito apreço pela classe médica. Ou quando eu tive uma crise de ansiedade em Brasília e fui ao hospital com meu pai; bastou que eu dissesse que era bipolar e ele começou a se endereçar ao meu pai, “ele não tem um remédio de SOS?”. Eu estou na sua frente, filho da puta! Se eu não estivesse fragilizado, teria dito isso, mas eu só pensei depois (esprit de l’escalier); não teria resolvido nada, seria sentar na mureta de novo.

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