Autorama 5

Mas você vai anotar tudo, até as merdas? Vai ser uma narrativa de merda. E os crimes? Vai dizer que praticou discriminação racial e agrediu uma criança e um velho? Será que alguém vai descer na Buarque de Macedo? Melhor ficar atento. Meu primeiro endereço em Campinas, mil novecentos e noventa e oito. Com o Domingos, o Renatinho Finta e o Maurício Conti; o Luciano já morava com a Helô no mesmo predinho de meio de quarteirão, o beco é logo ali depois daquela travessa diagonal que dá na Carolina Florence, onde a gente esperava o ônibus pra Unicamp. Eu acho foda não falar mais com o Luciano. Opa, um lugar, rápido. Ufa. Mas mesmo se não fosse a trreta pessoal, a treta política ia ser muito acentuada, hoje. O cara odeia índio. Também, filho de latifundiário em Rondônia, como não odiaria? O Maurício era irmão dele, ainda deve ser, e tentava comprovar a meritocracia empreendendo em computação, tucano engajado. O Renato é um tosco capaz de dizer que “mulher é igual CD, você quer só quer um pedacinho e tem que comprar inteiro”, o que revela um desconhecimento enorme tanto de mulher quanto de música, mas vá lá, viva e deixe viver. Acho que essa mentalidade musical era disseminada, e determinou o fim do álbum com os algoritmos e playlists e streamings da vida. Ali, é bem ali. Tinha um pé de ameixa, um vizinho barrigudo que curtia Rock’n’Roll, e a caixa de correios onde eu tanto ia conferir se tinha carta da Karin. Ela recebia cinco vezes mais cartas minhas do que eu dela, às vezes chegavam a ser diárias. Ainda hoje quando eu vejo aquele coletor de correspondências em formato de sino no Ciclo Básico eu me lembro daqueles dias. Será que ainda passam para recolher? Encontram alguma coisa lá dentro? Alguma carta de amor? Eu devia ter cagado. Como você não deu um barro antes de sair de casa? Não tava com vontade. Agora só no shopping. Não, tem aquela padaria, na Sacramento, perto da casa do Bródi, você troca de ônibus lá, dá tudo certo. Você vai cagar na padaria? Melhor que nas calças, não? As pessoas te olham estranho quando você se diverte com os próprios pensamentos; quem não se diverte com os próprios pensamentos deve ter uma mente muito chata. E a sua mente é um modelo a ser recomendado, né, Leonardo? Será que eu sempre fui doido, mesmo? Minha mãe ficava me levando de psicólogo em psicólogo pra ver se me consertava. Com todo respeito, pau no cu da minha mãe. Pau no cu de todo mundo. Meu irmão tá lá, fascista, fanático religioso, capaz de praticar homofobia contra seu filho de nove anos; nunca foi levado ao psicólogo para ser consertado. Meu pai é o típico macho do patriarcado, me espancava sem que eu tivesse ideia por que motivo, como se motivo pudesse haver para isso, aceitava presentinho de general em plena ditadura e convivia com torturador com um sorriso no rosto; nunca precisou de psicólogo. Pois bem. Eu barbado (bem, costeleta conta?) aos dezessete anos e minha mãe ainda insistia nisso, até à terapia de vidas passadas, que era moda, e custava caro, ela recorreu. Eu ainda me lembro que teria sido um assaltante de caravanas que foi emasculado, uma moça nobre que fugiu e se tornou prostituta, e lembro que eu era um “espírito” que não queria “reencarnar”, e meu irmão gêmeo que não sobreviveu ao parto prematuro teria vindo apenas me “trazer”. Tudo fabricação do cérebro, é claro, e seu efeito terapêutico, se houver, é a boa e velha auto-sugestão. Sei que foi a época em que comecei a namorar pela primeira vez (excetuando a Bia no Cojubim), e não podia me queixar, devo ter ficado menos rabugento mesmo. Nas minhas fotos de adolescente eu estou sempre com a cara fechada. A Karin. A Karin foi o amor da minha vida no aspecto da descoberta, e da idolatria romântica. A Gabi foi o amor da minha vida no que tínhamos de adultos, e safados. A Thaís foi o amor da minha vida que podia ter sido, se a gente não estivesse fora de fase, ela enfeitiçada por mim quando eu fugia de relacionamento sério e eu arrependido de tê-la menosprezado quando ela já não era mais “bobinha”, palavra dela. A Karin eu tinha conhecido no segundo ano, ela era de outra turma, tinha achado uma loirinha bonita mas meio sem graça e bola pra frente. No terceiro ano, ela era da minha turma, e eu a via na academia de ginástica, também, e sei que em cinco de julho de nove sete a gente se encontrou numa festa julhina da escola, e, depois de conversar muito, se beijou com um retrovisor entre nós, depois fomos a uma rua mais afastada onde eu sondei seus seios com a mão, o que ela permitiu, como disse depois, porque estava afins mesmo e queria me fisgar. Ela estava com o cabelo vermelho; na verdade ela tinha pintado de um vermelho berrante, e aberrante, um pouco antes, foi aquela chacota, depois optou por um tom mais fechado. A gente ficou conhecido como o casal “maluquinho” da turma. Eu me lembro de quando disse que nós tínhamos seis meses na melhor das hipóteses, o insensível, já que meus planos já eram de Unicamp (e eu não tinha medo do vestibular). Em pouco tempo eu estava arriado nas quatro rodas por ela; eu percebi quando ela fez alguma manha qualquer e eu vi que não conseguia sentir raiva, então eu disse a ela, deitados na grama na beira da orla pedregosa atrás do shopping, sob as imensas colunas de concreto da terceira ponte, que a amava. Depois ela veio dizer que não tinha acreditado, a putinha, mas nós nos amamos muito e dissemos isso muito. A Karin era um doce, mesmo geniosa (e era eu mesmo fácil?); nós éramos bem novos, descobrindo o sexo ainda. Na primeira vez ela me chamou pra casa dela, o pai tinha viajado, a mãe apareceu de surpresa no meio da noite e eu tive que me esconder; tudo muito sem jeito a gente transou. Depois ela foi no ginecologista e depois veio me zoar porque o hímen dela estava intacto (complacente, o filho da puta) e eu prometi resolver isso. A segunda vez foi na minha casa, meus pais viajaram, mas minha vó estava no quarto dela; foi pura mágica, eu me lembro especialmente de beijar seus ombros, e na hora de descer o morro (o prédio se chamava Sobre o Morro, só que em francês) para ir deixá-la em casa, a gente olhava pra cima e via minha vó na janela. Depois de umas relações mais era ela reclamando os beijos no ombro, enquanto eu me preocupava em incluir sexo oral na conversa e variar posições para além daquela do missionário. A Karin tinha algo doentio com o pai; segundo ela, ele a reprimia, mas eu percebi que era ela mesma. Nunca quis me apresentar a ele até que eu mesmo tomasse a iniciativa. Uma vez a gente foi ver um filme no shopping e eu perguntei o que faríamos depois. Ela disse que voltaria pra casa para agradar o pai; eu tinha acabado de encarar quinze horas de ônibus para estar em Vitória, e fiquei muito puto. Da mãe dela eu acabei ficando amigo, era uma alemoazinha da Bélgica, e o pai remontava à Ilha da Madeira, a Karin sendo uma branquinha muito fofinha de olho castanho e um tênue buço ao qual ela não dava muita chance de se manifestar. Ela tinha umas pernocas lindas, mas eu não me lembro dos seus pés; na época eu ainda não tinha desenvolvido o fetiche. O tempo ia mostrar que nós éramos na verdade muito diferentes, em especial quando eu cometi o erro de insistir para que ela provasse maconha; e a mania ia nos afastar em definitivo. Nós já namorávamos à distância, mesmo, o que não podia se sustentar. Mas, por exemplo, quando eu disse que estava frequentando a toca do poeta Waldo Motta lá no Centro de Vitória, com o Alexandre, de quem tem um tanto de história, também, ela teve uma reação negativa, porque ele é homossexual; nesta última crise eu fui a Vitória tentar falar com o Waldo Motta porque afinal ele conhece mitologia e ia entender meus planos de salvar o mundo, ainda bem que ele não pôde! Ou então quando ela disse que numa viagem na Bahia sentiu vontade de sacar um chicote contra a negraiada porque a balsa estava lotada; aquilo me assustou, mas eu não disse nada, também, ou disse? Não com ênfase. Ali é o Aníbal, onde eu votava. Eu me lembro quando meu pai me chamou de “vermelhinho” em tom de chacota, lá.

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