Autorama 4

Não é melhor você emendar seu presente em vez de contar o passado? Fazer exercício e parar de beber duas garrafas todo dia? Quase todo dia. Você é um alcoólatra. E o que é que você tem com meu alcolatrismo? O ônibus não está, dá pra carregar o cartão e fumar. Agora que eu vou voltar a ter carro, vou deixar de frequentar o terminal. Tem sempre uma mulher bonita ou outra. O automóvel é antissocial. Você é antissocial. Bom dia. Cinquenta, por favor. Esse sistema de cartão é uma sacanagem com quem não tem o cartão, mas é prático. Obrigado, boa tarde. O problema é que se eu puser este cartão junto com o de São Paulo, ele desmagnetiza, é um saco. Vou correr lá no fundo pra fumar um cigarro, é só ficar de olho no Rodoviária. Rodoviária ou Terminal Central? Você trouxe as anotações? Sequela! Eu acho que os dois passam na Orozimbo. Amigo, pra Orozimbo esses dois vão? Ah, beleza, obrigado. Carregar essa pasta solta é um saco, devia ter trazido uma mochila. E um livro. Eles têm um azulejo em homenagem ao Boi Falô, é a história de que o boi disse que em sexta-feira santa não se trabalha; deve ter sido uma esperteza dos escravos contra o capataz. Campinas não se envergonha nem um pouco da escravidão, foi a última cidade a engolir a abolição e tinha execuções em praça pública, ali perto da prefeitura, e o Barão Geraldo de Rezende, e mais um tanto de feladaputa, segue sendo homenageado. E por que escrever sua vida agora? Por que não depois do sessenta? Fumando três maços? Também não é o caso de narrar uma vida de realizações e de grande interesse, só umas historinhas de quando eu estava louco. E mais alguma coisa ou outra, ou senão vou ser eu a me reduzir à minha doença, que é do que eu tanto reclamo nos outros. Ninguém vai querer ler os detalhes banais da sua vida. Cara, ninguém vai querer ler meu Hamlet, então que importa? Minhas mulheres, eu preciso falar das minhas mulheres. Isso dá um parágrafo. Não me acelera não. O Rodoviária tá encostando. E você segue jogando bituca. Monstro. Eu teria que começar com a Érika lá em Porto Velho, amor platônico de meninice. Ela estudava de manhã e eu à tarde, então em pouquíssimas ocasiões eu a via, e ficava embasbacado. Mais pro fim do fundamental a gente já convivia, e demorou um tanto a que ela deixasse de me intimidar. Tá vendo, se não tivesse que fumar viajava sentado. Os dois pertencíamos à classe de estrangeiros em Rondônia, ambos de pele clara; ela era loira. Eu tinha cabelo loiro quando pivete, também, e minha mãe, quando jovem. Enfim, eu sabia os dois carros do pai da Érika e sabia de cor a placa de um deles, era um Del Rey. E quando eu passava em frente a loja da mãe dela eu ficava pensando nela. Era assim que eu expressava meu amor. A dado momento eu decidi que não ia mais gostar da Érika e escolhi uma das gêmeas que eram consideradas bonitas, a que não era antipática, para dirigir minhas “atenções”; mas depois eu vi que estava me enganando e “reatei” com a Érika. Só uma vez eu criei coragem para me declarar, depois de tocar bateria na festa de formatura, quando eu já sabia que ia me mudar pra Vitória. Engraçado que na formatura do pré eu também fui a “estrela”, me vestiram de apresentador de circo e eu fiquei me mijando em cena. Eu sempre tive isso com a bexiga, mijei na cama até grande e até hoje quando eu sinto vontade, já estou apertado. Enfim. Ela ainda perguntou há quanto tempo eu gostava dela, como quem já soubesse. E sabia, eu sempre fui transparente. O pior é que ela gostava de um cara que era um babaca. Eles namoraram uma semana e ela largou porque ele passou a mão na bunda dela; e nem bunda ela nunca teve. Tempo depois quando ela morava em Brasília ela se esquivou de me ver e ficou assustada quando eu a encontrei por acaso em Taguatinga. Quando eu pensava em estudar na Católica e ela estava terminando. Aí a gente conversou um pouco, era um posto de gasolina, e eu encostava meu joelho ao dela, como uma última desesperada tentativa de contato físico. Bem mais adiante ela se declarou lésbica, e viva. Aqui quando passa por essa fábrica tem cheiro de doce. De massa de bolo. Lembra aquela menina da alimentos que trabalhava lá? Um par de olhos que eu acho que não vi igual. Agateados. Você nunca daria em cima dela sabendo que ela tinha namorado. E quando você mesmo namora não escapa de chifre. Sem malícia, você. Em Vitória você causou um certo frisson, não foi? Elas te achavam inteligente. A Luíza te oferecendo o primeiro pedaço do bolo, ela era magricela mas era charmosa; o beijo na sessão de cinema junto com a excursão da turma toda e a tiração de sarro depois. Ué, não deveria? O comentário da Lígia, com suas sardas e seus olhos verdes, se insinuando… “nem me esperou”; e foi preciso que ela mesma muito tempo depois tomasse uma iniciativa, pediu explicação de matemática em domicílio, e o idiota ainda deixou passar porque ela fez charme, “me aproximei demais de você”. Lígia tinha uma vibe estranha. Mas eu devia ter dado uns beijos, não menos. Bem, você está esquecendo alguém importante. A doida vizinha da escola de música, em Porto Velho, seu primeiro beijo. Não faço ideia de seu nome. Era Sandra? Ela beijava todo mundo da turma, da região, e chegou a confessar que preferia os de cabelo comprido. Deve ter sido decisivo para que eu tentasse usar cabelo longo depois. Era na área externa da casa, toda descuidada, mato crescendo, super romântico. Na verdade eu acho ótimo que tenha sido uma experiência sensória e não sentimental, ela beijava bem, eu acho; prática tinha. De volta a Vitória, tinha duas de quem eu gostava, Lilian com i e Lyllyan com dois y e dois l, esta era troncudinha e tinha olho verde e cabelo loiro cacheado, super gente boa, mas namorava, embora eu ache que ela me curtia também; a outra era era uma chatinha bem elite provinciana, mas na época eu já gostava de criar ideias de apaixonamento, e ela foi um, eu me lembro de voltar da escola ouvindo Angra tocar Wuthering Heights, no cassete, é claro, eu até gravei a música duas vezes seguidas, e pensando nela. Hoje o André Matos já se foi. O Espírito Santo tem essa imigração alemã e italiana, e eu não poderia negar que meu padrão de beleza era o da TV ou da revista Playboy, e ainda é em grande medida. Uma vez eu deixei de ficar com uma negra linda de aparência e personalidade, apaixonado por uma loira, e é um dos maiores arrependimentos meus. A verdade é que eu nunca beijei uma negra mesmo, de pele escura. Bem, nem asiática, também, ou indígena, ou esquimó; tá bom, já chega. Já no terceiro ano, eu me apaixonei pela Lívia, que era um pedaço de gente sem graça, apenas por seu pescoço. Seu pescoço ficava sempre na linha de visão do quadro, e eu inventei isso. Eu ligava pra ela, naquela época não era impensável um telefonema, hoje parece que é assédio. Eu convivia bastante com ela e com a Aline, que era uma morena acobreada, meio misteriosa mas de riso franco. Putz, a Aline. Nunca percebi a tempo que a Aline gostava de mim. Foi o Johnny Milk quem deu o toque quando já era tarde, grande João, vai ter menção a ele com certeza. Nós éramos famosos, Aline e eu, por tirar as maiores notas e tal. Muito tempo depois, depois do ensino médio, depois da Karin e depois da primeira mania, ela me convidou para encontrar ela e umas amigas, e eu não fiz nada. Eu nem estava bem de volta nos eixos ainda, comentei sobre a internação, o que não precisava. Nem tinha superado a Karin, também, eu acho. Que eu sou um bocó não precisa fantasma sair da tumba pra dizer. Uma vez houve um churrasco da turma, eu namorava a Karin, que não foi, e ficava falando perto da Aline que a monogamia era uma merda, sendo um babaca com as duas. Eu estava com o cabelo grande, armado e parecendo uma samambaia, que ficava sempre sob um boné invertido na escola, causou a maior sensação. O pessoal não botava fé de eu ser ótimo aluno e pirado. Eu deixei o cabelo crescer algumas vezes, mas ele nunca ficou bem como o dos ídolos do heavy metal, ele é crespo, tipo white fro. Na escola em Porto Velho tinha um cara que tirava sarro do meu cabelo, dizia que era à prova d’água. Eu nem entendia por que isso era uma ofensa; depois acabou pegando meu apelido de Cabelo de Bucha ou só Bucha, e eu achava de boa. No tempo de Unicamp eu prendia atrás com duas gominhas e na frente ficava sempre uma mecha que eu prendia na orelha; mas o resultado disso é que o cabelo era todo quebrado. Quando eu estava no Rio fazendo mestrado ele era longo também, mas eu passava um creme que o fazia assentar; um dia eu saí sem creme e uma senhora tomou um susto e quase saiu correndo quando eu tentei pedir informaçoes em Ipanema. Essa é a parte do meu avô materno, um mestiço do sertão nordestino, minha vó provavelmente vem de cristãos novos, e pelo pai eu descendo provavelmente italianos, não se sabe. Aqui funciona o centro espírita que meus pais frequentavam quando moraram aqui, quando a mãe se tratou no HC da Unicamp. E virando ali foi onde eu tomei um enquadro da polícia com o Dirceu. A gente resolveu comer umas putas, eu fiz um baseadão e pegamos o tapetão. Foi só virar aqui que mandaram encostar. Eu mandei o Dirceu jogar fora, fiquei tão tranquilo que fiz graça com o cana (eu adorava), e só depois do bacu todo o Dirceu revela que tinha colocado no extintor, e o policial não encontrou. A gente nem foi até o Itatinga nem nada. Acho que a gente foi até o Centro, e ele, que tinha posto toda a pilha, recorreu ao que chamavam de baixo meretrício, enquanto eu me maldizia. Outro dia ele surgiu pedindo voto pro Bolsonaro. Acho que ele realmente não saca nada de nada de política, pediram que ele fizesse isso. Espero. É um sujeito bom, mas é mais doido que eu. Ele foi internado no onze de setembro, e jurava que eu tinha a ver com aquilo; e o pior é que eu devo ter acreditado em algum momento que tinha mesmo. Sei lá o que eu já acreditei. Já acreditei que estava sendo espionado várias vezes, ou que era um herói cyberpunk na internet, o Neo do Matrix, já escrevi My name is Leo no papel e na tela em diversas ocasiões; uma vez eu comecei a perceber que apareciam textos em resposta ao que eu tinha escrito, o que não é nada de mais, talvez, mas parecia um filme de aventura. Tem um monte de história, eu preciso fazer umas anotações, minha memória é péssima.

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