Autorama 3

Tá acabando meu crédito. Mais um pouco e você não passa na catraca. Não me acelera. Vai ter que pedir pro motorista pra entrar por trás. Mais um pouco e eu vou ter um carro, vou virar playboy de novo. Foi bom enquanto durou escapar de ser um cúmplice na cultura do automóvel, mas tá foda. A velhinha toma este mesmo ônibus todo dia. Eu sei. E ela não é tão velha. Deve estar indo trabalhar no turno noturno em algum lugar mais longe do que onde você está indo. Mas aí você quer me fazer sentir a máxima culpa. Culpado de que, milorde? Canibalismo. Pergunta pra ela. Porra, não dá, em São Paulo, morando perto do metrô e tudo, vai de boa, mas aqui não dá. E eu preciso resolver isso da carteira até o fim do ano e buscar o carro em Brasília, já demorei demais. Já bati na auto-escola à toa, já bati no poupa-tempo à toa, e me mandaram pra essa porra de Campinas Shopping, eu nem gosto de entrar em shopping. Pensar que quando eu morava em Rondônia eu era louco pra viajar e ver shopping. Até mesmo em Vitória, eu me lembro quando fumei no banheiro do shopping e achava isso o máximo, era a fase do desafio ainda. Hoje eu morro de medo de fumar fora de casa. Aqui onde funciona uma empresa de caçamba era a Cooperativa Brasil, vi muita gente tentar pular para não pagar e ser expulsa, gente que podia pagar; eu nunca aprendi a dançar forró. Só lá em Rio Branco que uma cabocla me intimou na minha timidez e me forçou a sacar o dois-pra-lá mais básico. Aqui teve Tom Zé, ele tirava sarro da plateia: viva a estética universitária! o Hermeto pedia o som do saxofone e o Bezerra da Silva atrasou tanto que as xiboquinhas a mais me fizeram foder o carro no balão, era a Saveiro ainda, eu acho. Você podia ter fodido gente em vez de carro. Mea culpa, eu bebia e dirigia mesmo. Eu era um monstro. Ainda é. Mas um monstro que não dirige bêbado ao menos. Sem carro é fácil, vamos ver agora, então. Aquele dia na copa de 2002, lá por onde morava o Trigo, era um bairro meio rural, você deu um jeito de meter o carro entre duas árvores e bater na frente e atrás tentando sair. Brasil e China, não foi? Ou aquela em Brasília, quando você andava com o Davi e despirocou na casa da amiga dele, nadando de cueca branca e pegando as mocinhas no colo, fazendo que ia jogá-las na água, e com o namorado ao lado, e depois ainda alegou na cara dura que isso não é nada de mais… você ainda pegou cerveja pra levar, se perdeu no Lago Norte. Você é um perigo pra sociedade. Não me acelera, não. Aquela Saveiro passou por poucas e boas; teve aquela festa na casa do Bródi, você levou umas dez pessoas na caçamba até o Observatório. Hoje nem existe Observatório. Que fizeram com a Unicamp. O Pedro disse que se ficar sentado em qualquer banco muito tempo um segurança já vem importunar. Maior parte das cantinas fechadas, e a melhor explicação é que querem um ambiente inóspito e o fim da convivência. A ditadura às vezes se implanta de um modo sutil. Quantas festas não rolaram naquela época. O governo do estado acabou com elas bem antes de golpe ou Bozo. Você teve um Corsa também, aquele que achava que era jipe, que chegou aos empurrões no tal do Céu do Gamarra, e fez a trip da Canastra com o Webinho. Faz tempo que eu não falo com ele, um dia a gente tretou por divergência política e isso foi antes da ascensão do nazismo bananeiro; eu fico realmente curioso se ele está endossando essa merda. Eu devia ir visitar os pais dele. Foi o Corsa que você bateu na contramão em Londrina, com o Alan. Eu tentando falar alguma coisa e o sujeito repetindo: Não me acelera não. O rapaz no banco à frente com o fone de ouvido alto demais, era eu mais novo, só que com um walkman de fita; segunda vez que eu penso em fita. Dia nostálgico, comecei pensando na minha mãe, depois na Unicamp do passado, até nos carros que tive. É esta distopia ou sou eu? Direto me vêm na cabeça os sucessos pop dos anos 80. Eu não tenho saudade dos 80. Bem, como estética, eu tenho saudade da minha infância decerto. Eu me lembro de quando a gente pegava aquelas estradas intermináveis no Mato Grosso, no Chevette, ainda, ou no Monza, depois, ouvindo Bee Gees ou Elton John, ou talvez uns boleros ou cantores italianos, que meu pai ouvia. Na época em que eu deitava no banco de trás, privilégio que se perde para sempre, crescendo. E eu pedia para pôr a fita dos sapinhos, que ninguém mais aguentava; sempre houve muita briga para escolher a fita, ou o CD, posteriormente; eu tive minha fase de ouvir a fita do New Kids On The Block, lembra? Step by step uh baby… Eu não posso responder pelo meu gosto musical na infância, eu fui criado pela televisão junto com minha geração. Hoje já se cresce na internet, seja lá isso bom, ou ruim, ou ambos. Eu devia escrever mesmo. Memórias de um Maníaco Depressivo. Ou bipolar? Você podia escrever um libelo contra a violência psiquiátrica. Vou ter que citar Foucault igual no mestrado? Foucault ainda é bem melhor que Derrida, pelo menos. Nem me fala. Ou então algo sensacionalista, como Bipolar à Solta. Aquele posto ali se chamava Transo, saiu até no José Simão. E você vendeu a Saveiro pro cara daquela oficina ali, ele reclamou que estava “amarguinha”; estava mesmo, mas não tanto quanto o Gol Bola do meu irmão, que não grudava um ímã, aquele que tinha placa amarela ainda. Você teve o CRV também, que você bateu na caixa de esgoto dirigindo pelo gramado da Esplanada, piradíssimo. E teve o Voyage, esse acho que não passou por aventura. Quer dizer que você está melhorando, talvez. Eu vou comprar o carro da minha irmã justamente para não ter que travar contato com outro ser humano. A mulher que comprou o Corsa foi me ligar no trabalho perguntando se eu bati o carro de frente; eu disse que não, afinal foi de quina. Quer dizer que se o carro teve batida eu vou encostar na beira do barranco? Ou aquele carioca que pediu pra ver a CRV, que me chamava de meu querido. E eles pronunciam meu queríado, com a vogal i bem parecida com o y do francês, ou ü com umlaut do alemão. Carioca é caricato; um hai cai. Lembra do Vítor? Aquele era exemplo de livro-texto de carioca marrento. Achou que era muito esperto e foi preso passando cheque roubado. Ali, no posto, cheio de câmera já naquela época. Isso é o de menos, o sujeito era mau caráter mesmo, misógino, maltratava animal. Eu ainda encontrei ele em Visconde de Mauá, disse que trabalhava no Ibama, foi a viagem com o Chapéu em que a gente não pôde fazer o passeio porque puseram fogo no parque. Chapéu encaretou e convive hoje com os pais das coleguinhas das filhas. Como você devia estar. Tá escrito onde? Eu voltei a Mauá pra tomar daime, não foi? Aquela época que eu estava apaixonado pela Morango, e hipomaníaco, época do 11 de setembro. Caramba, este deve ser o primeiro da série de apaixonamentos irracionais. Bom, se você não metesse os pés pelas mãos sempre, teria talvez alguma chance em ao menos parte deles. Não me acelera não. Dirigir bêbado e isso eu não faço mais. Sem trocar uma palavra às vezes, por um rosto bonito, um par de pernas, um olhar dúbio, cair de quatro e consumir todas as forças da mente para se dedicar à devoção de um holograma. A misantropia tem suas vantagens. Certamente. Você é uma pessoa intensa, Leonardo, você só não sabe direcionar essa intensidade. Não é verdade, quando eu trabalho numa tradução eu traduzo como um maníaco. O que você é. Exato. Lembra de carregar o cartão no terminal.

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